A Iconografia de Debret como Fonte Histórica da Sociedade Brasileira (Séc. XIX)

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1 A Iconografia de Debret como Fonte Histórica da Sociedade Brasileira (Séc. XIX) Ana Claudia Santos Souza 1 & Ataíde Ramão Neto 2 Orientadora: Maria Augusta de Castilho 3 Introdução O presente trabalho propõe uma releitura das obras do artista francês, Jean Baptiste Debret, que veio ao Brasil junto com a Missão Artística Francesa. Entre os anos de 1834 e 1839, quando voltou a Paris, o pintor editou o livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil onde reuniu todas as aquarelas sobre os estudos realizados no Brasil. Esta obra legou um precioso documentário, pois, retrata o modo de viver da sociedade brasileira no século XIX. Sendo assim, a iconografia registrada por Debret é uma riquíssima fonte de pesquisa para historiadores e professores de história. As novas abordagens e fontes de pesquisa ganham importância com o advento da Escola dos Annales que propunha entre outras coisas a ampliação do campo de pesquisa. A partir da Nova História, os historiadores tiveram liberdade para extrapolarem suas fontes de estudos. Apoiado em pesquisa bibliográfica e documental, o artigo tem por finalidade destacar a importância da iconografia enquanto fonte de pesquisa e informações que auxiliam os historiadores nas produções historiográficas. As imagens não são meras ilustrações que acompanham os textos escritos, mas representam a organização social, os valores morais e religiosos, os usos e costumes de determinado período e sociedade. A iconografia como fonte histórica Durante o século XIX é aceito entre a maioria dos historiadores que as telas pintadas por Jean Baptiste Debret, trazem um retrato fiel dos costumes da sociedade brasileira do início do século XIX. Suas aquarelas devem ser analisadas como uma importante fonte histórica para os estudos do modo de ser da sociedade brasileira. 1 Acadêmica do Curso de História-UCDB e aluna de Iniciação Científica.Campo Grande MS, 2 Acadêmico do Curso de História-UCDB e aluno de Iniciação Científica.Campo Grande MS, 3 Doutora em História Social/USP - Profª do Curso de História- UCDB. Campo Grande MS,

2 2 Porém como toda fonte de estudo deve ser contextualizada, criticada e relida no crivo de um olhar estritamente historiográfico, pois, representa apenas uma fração da totalidade do momento e não um retrato fiel de todo o período. A iconografia é tomada agora como registro histórico. São registros com os quais os historiadores e os professores de História devem estabelecer um diálogo contínuo. É preciso saber indagá-los e deles escutar as respostas afirmou Thompson, apud (PAIVA, 2002, p.17). Ao analisar as obras de Debret e suas explicações deve-se ressaltar o fato de que ao pintar um retrato, o artista já realizou uma seleção das cenas. A importância do trabalho realizado por Debret para a historiografia brasileira é poder estudar a cultura e a arte da capital do império português na América. Os contemporâneos vêm utilizando a imagem como um mecanismo de facilitação da mensagem. O passado do Brasil revela o uso intenso da iconografia para os ensinamentos eucarísticos da igreja, algo como uma espécie de recurso pedagógico para o ensino da religião católica, principalmente aos escravos que em sua maioria eram analfabetos. Nas grandes cidades do Brasil, a proposta pedagógica da igreja era de ensinar a fé, por meio de representações artísticas. Iconografia é um termo que significa a imagem registrada e a representação por meio da imagem: a origem do termo é grega. Ele deriva da palavra eikos, que significa imagem. Daí eikonografhia que se transformou em iconographia no latim, transformando-se em iconografia em português. (PAIVA, 2002, p.14). Realizar uma pesquisa histórica, a partir das fontes visuais e expressões artísticas, ou cenas condicionadas na mentalidade, faz com que os estudiosos redimensionem todo o objeto de sua investigação, procurando não se deter somente na realidade ali colocada de forma pré-definida pelo artista. O pesquisador tem a possibilidade de contextualizar a imagem ali imortalizada, enfocando os aspectos sociais, políticos e econômicos do momento. Um historiador ao utilizar a iconografia como fonte de pesquisa deve atentar ao fato de que, as memórias fazem parte de qualquer construção, as pesquisas históricas buscam a desconstrução das verdades absolutas; daí uns dos grandes riscos da utilização da imagem como objeto de estudos sem analisa-las profundamente. É preciso saber filtrar todas essas imagens, todos esses registros iconográficos (PAIVA, 2002, p.18). O uso da imagem na diversificação das fontes historiográficas aliadas a um olhar crítico da história, proporciona um novo desafio aos historiadores do presente.

3 3 O uso da iconografia e das representações gráficas pelo historiador vem propiciando a apresentação de trabalhos renovadores e, também, instigando novas reflexões metodológicas (PAIVA, 2002, p.19). A utilização destes novos documentos como fonte de pesquisa historiografia inicio-se nos anos de 1920, com a chamada Escola dos Annales, que instigava as novas gerações de estudiosos da história a procurarem novas fontes de pesquisas e estudos. Para os Annales, a história poderia ser feita com todos os documentos considerados vestígios da passagem do homem. Ao historiador caberia não se resignar diante de lacunas de informação, mas procurar sempre preenchê-las. Usarse-iam arquivos de todos os tipos, como poemas, uma pintura, um drama ou um romance, e todo tipo de vestígio que lhe caísse nas mãos sobre o momento histórico objeto de sua pesquisa (REINATO, 2002, p ). Olhar as imagens da sociedade brasileira dos tempos imperiais ilustradas na obra de Debret é procurar ir além da figura, cores e modos ali registrados pelo artista francês. É enriquecer o trabalho histórico e construir uma história, onde a representação desta época está mais próxima da verdade representativa que tanto a história necessita. Debret O ano de 1808 é marcado pela vinda da Família Real Portuguesa para a sua mais rica colônia, o Brasil. Desembarcou no Rio de Janeiro uma comitiva de mais de 15 mil pessoas. Dentre as principais medidas tomadas por D. João VI, estavam a abertura dos portos as nações amigas, a revogação do decreto que proibia a instalação de indústrias no Brasil e a criação do Banco do Brasil. A mudança da corte portuguesa para o território colonial não traria apenas profundas transformações na vida política e econômica, mas daria origem também a uma série de iniciativas de grande alcance para o desenvolvimento cultural (HOLLANDA, 1969, p.426). Assim, as inovações não tardariam a chegar ao campo das artes, pois havia a necessidade dos recém-chegados de se adaptarem a modesta cidade colonial e as novas funções de uma capital do império. A intenção era transformar o Rio de Janeiro não só em uma capital político-econômica, mas também em um centro cultural do reino. Sob estes propósitos em 1815 resolveu o rei criar no Rio de Janeiro, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, destinada à preparação dos homens que deveriam ocupar cargos ou postos de responsabilidade na vida pública, e à dos que iriam ter

4 4 papel de relevo nas lides econômicas da antiga colônia recém elevada à categoria de reino (HOLLANDA, 1969, p. 426). Em 1816 chega ao Brasil, a Missão Artística Francesa que trazia consigo vários profissionais de diversas áreas. Entre os artistas franceses estava o pintor, Jean Baptiste Debret ( ), que ficou no Brasil até o ano de Durante o período que permaneceu no Brasil, retratou inúmeros desenhos sobre a vida indígena, os negros, as paisagens litorâneas, os usos e costumes da sociedade carioca e também sobre a vida política do país. Todas estas aquarelas estão reunidas na obra Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, composta por três volumes e acompanhada de textos explicativos, realizados a partir de seus estudos e observações. A obra de Debret é um documento de valor incomparável para o estudo da época. Foi sem dúvida, o maior cronista da sociedade brasileira no início do século XIX. Sem ele não se poderia ter uma documentação tão sólida, tão abundante do meio social brasileiro e da paisagem humana da época. Os pesquisadores podem identificar facilmente os usos e costumes, da terra boa e generosa que madrugava para a civilização (BITTENCOURT, 1967 p.24-25). As obras de Debret merecem destaque pois, retratam os modos de vida da sociedade brasileira no século XIX. Na prancha Um funcionário a passeio com sua família, Debret pintou a cena de uma família de classe média passeando pelas ruas do Rio de Janeiro. Percebe-se nesta tela que conforme os hábitos desta classe social, o chefe da família abre a marcha, seguido pelos filhos, esposa e escravas, colocados em fila por ordem de idade. Também na prancha O jantar no Brasil nota-se os costumes brasileiros. O jantar era sempre servido no horário, e não se permitiam interrupções. Servia-se sopa de pão e caldo gordo, um cozido com pedaços de carne e legumes. No centro da mesa uma galinha com arroz e um prato de verduras cozidas extremamente apimentadas. O jantar se completa com uma salada recoberta de enorme fatias de cebolas cruas e azeitonas. A sobremesa era o doce-de-arroz frio, salpicado de canela, queijo de Minas e frutas típicas. Os vinhos de madeira e do Porto eram servidos em cálices. A refeição terminava com o café. Durante o jantar enquanto o homem comia silenciosamente a mulher dava algumas migalhas de comida aos negrinhos filhos das escravas da casa. Este hábito não era mais, nesta época praticado na Europa. Na prancha Vendedor de flores à porta de uma igreja, no domingo observa-se o hábito brasileiro de enfeitar os cabelos com flores naturais, no caso o cravo. A cena demonstra também a vestimenta da senhora acompanhada das criadas saindo da missa.

5 5 As iconografias registradas por Debret, no século XIX são documentos básicos, que proporcionam aos novos historiadores um desafio para a análise da sociedade brasileira neste período. Considerações finais Nas últimas décadas a historiografia vem se renovando constantemente. A utilização de imagens como fonte de pesquisa e recurso pedagógico de ensino da História, ganhou maior proporção com o surgimento da Nova História. Assim a iconografia não pode ser vista como mera ilustração dos textos, mas uma importante fonte de pesquisa. Neste contexto de novas abordagens para a escrita da história, as gravuras de Debret propiciam a historiografia contemporânea um novo olhar para a história da sociedade brasileira. Instiga os pesquisadores a fazerem uma releitura de suas obras, procurando vestígios ainda não notados e nem observados nas obras de Debret. Referências BITTENCOURT, Cean Maria; FERNANDES, Neusa. A Missão Artística Francesa de Rio de Janeiro: Divisão de Educação Extra-Escolar, BURKE, Peter. Escola dos Annales (1989) A Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Unesp, DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo: Itatiaia, 1989, volumes 1, 2 e 3. HOLLANDA, Sergio Buarque de (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Monárquico: reações e transações. 2 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1969, Tomo II, v.3. PAIVA, Eduardo França. História & Imagens.Belo Horizonte: Autêntica, REINATO, Eduardo José. A Escola dos Annales e a Nouvelle Histoire, In: ALENCAR, Maria Amélia Garcia de (Org.). A História da História. Goiânia: UCG, 2002.

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