Nós e o Mundo. Educação Moral e Religiosa Católica. 6º ano MANUAL DO ALUNO. Apoio na internet

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1 Nós e o Mundo Educação Moral e Religiosa Católica 6º ano MANUAL DO ALUNO Apoio na internet

2 Nós e o Mundo MANUAL do Aluno EMRC 6. Ano do Ensino Básico SUPERVISÃO E APROVAÇÃO COMISSÃO EPISCOPAL DA EDUCAÇÃO CRISTÃ D. Tomaz Pedro Barbosa Silva Nunes (Presidente), D. António Francisco dos Santos, D. Anacleto Cordeiro Gonçalves Oliveira e D. António Baltasar Marcelino; Mons. Augusto Manuel Arruda Cabral (Secretário) COORDENAÇÃO E REVISÃO GERAL Jorge Augusto Paulo Pereira EQUIPA DE REDACÇÃO Sara Gomes Andrade e Guardado da Silva (Coordenação de ciclo) Carla Maria Gomes de Andrade Mónica Virgínia Paiva Rocha da Maia Henriques Susana Isabel Santos Correia Pereira REVISÃO GRÁFICA Maria Helena Calado Pereira GESTÃO EXECUTIVA DO PROJECTO E DIRECÇÃO DE ARTE ID Books Ricardo Santos CAPA Cláudia Alves ILUSTRAÇÃO Pedro Alves TIRAGEM ISBN DEPÓSITO LEGAL EDIÇÃO E PROPRIEDADE Fundação Secretariado Nacional da Educação Cristã Lisboa, 2009 Quinta do Cabeço, Porta D; Moscavide Tel.: ; Fax: : Todos os direitos reservados à FSNEC IMPRESSÃO Gráfica de Coimbra

3 APRESENTAÇÃO NÓS E O MUNDO Aos alunos e às alunas de Educação Moral e Religiosa Católica Um livro é o resultado de muito trabalho de quem o produziu: um ou mais autores. Por isso, deve ser acolhido com respeito e tratado com cuidado. Qualquer que seja o seu estilo, contém uma mensagem, interpela o leitor e desperta a sua imaginação. Um livro escolar é um instrumento para a aprendizagem dos alunos. É sempre educativo. Transmite informações ligadas aos conteúdos dos programas de ensino, contém interrogações e propostas de trabalho, e convida ao estudo. É para se usar na aula e fora dela. É um companheiro de viagem para o percurso anual de cada um na escola. Só assim, tornando-se um objecto familiar, que se utiliza com frequência, o livro escolar facilita o progresso na aquisição e desenvolvimento de competências. Os manuais de Educação Moral e Religiosa Católica, quer se revistam da forma de um volume por ano de escolaridade quer se apresentem como conjuntos de fascículos, têm todas estas características. Convido os alunos e as alunas a receberem-nos com interesse e entusiasmo, mas, sobretudo, a utilizarem-nos para proveito do seu crescimento humano e espiritual. Deste modo, e com a ajuda indispensável dos vossos professores ou professoras de Educação Moral e Religiosa Católica, podeis melhor fazer as vossas opções e elaborar um projecto de vida sólido e com sentido. Que Deus vos ilumine e ajude na caminhada de ano escolar que ides iniciar. Bom trabalho! D. Tomaz Pedro Barbosa Silva Nunes Bispo Auxiliar de Lisboa Presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã

4 APRESENTAÇÃO DOS CONTEÚDOS No teu manual, vais encontrar diferentes espaços e formas de organizar os textos e os documentos que te vão ajudar a caminhar e a interpretar melhor a sua mensagem. 40 unidade 1 A Estátua da Liberdade encontra-se na Ilha da Liberdade, em Nova Iorque, desde 28 de Outubro de Comemora o centenário da assinatura da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América e foi oferecida pelo povo francês ao povo americano, em sinal de amizade. É um dos mais universais símbolos da liberdade política e da democracia. O seu nome oficial é Liberty Enlightening the World («A Liberdade Iluminando o Mundo»). Foi projectada e construída pelo escultor alsaciano Frédéric Auguste Bartholdi ( ). Para a construção da estrutura metálica interna, Bartholdi contou com a assistência do engenheiro francês Gustave Eiffel. A estátua mede 46,50 metros (92,99 metros incluindo o pedestal). Só o nariz mede 1,37 metros. Pesa 158 toneladas repartidas pelo esqueleto de aço (127 toneladas) e pela estátua de cobre (31 toneladas). É a escultura mais pesada do mundo. No seu pedestal, há uma placa de bronze, onde está gravado o final do poema da americana Emma Lazarus, intitulado «The new Colossus»: Dá-te informações Estátua da Liberdade Give me your tired, your poor, Your huddled masses yearning to breathe free, The wretched refuse of your teeming shore. Send these, the homeless, tempest-tost, to me, I lift my lamp beside the golden door! Dêem-me as vossas multidões exaustas, pobres E confusas, ansiando por respirar liberdade, Os indigentes que recusam a vossa costa abundante. Conduzam a mim os sem-abrigo, os fustigados pela tempestade, Porque, junto à porta dourada, ergo a minha tocha! Esta grandiosa obra de arte foi classificada como monumento nacional e, mais tarde, como património mundial da humanidade, pela Unesco. interessantes que te permitem aprofundar os assuntos abordados ou conhecer um pouco os Ser pessoa é ser livre. Mas liberdade não significa cada um fazer o que quer, sem atender às consequências das suas acções sobre os outros. Por este motivo, é necessário que o comportamento humano seja, em certa medida, objecto de legislação. As leis, se forem justas, limitam os actos que podem prejudicar os outros e salvaguardam o direito de intervenção na sociedade. Cumprir a lei é, em princípio, respeitar os direitos e os deveres individuais e colectivos. A vivência da nossa liberdade exige o respeito pelo bem comum. autores dos diferentes textos. 179 unidade 4 A OrgAnizAçãO para A AgriculturA e A AlimentAçãO A Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO Food and Agriculture Organization) é uma organização das Nações Unidas cujo objectivo é promover o desenvolvimento rural e elevar os níveis de nutrição dos povos. A FAO organiza programas para o aperfeiçoamento e eficiência da produção agrícola e criação de gado, transferindo as novas tecnologias para os países em vias de desenvolvimento. No combate à fome, fomenta a preservação dos recursos naturais, estimulando o desenvolvimento da regulação da pesca, a piscicultura e o investimento nas fontes de energia renováveis. A FAO é uma Agência especializada e foi fundada a 16 de Outubro de Consulta na Net As principais actividades da FAO 1.º Desenvolver programas de assistência a países subdesenvolvidos; 2.º Prestar informação sobre nutrição, alimentos, agricultura e pesca; 3.º Aconselhar os governos sobre matérias relacionadas com a agricultura e a alimentação; 4.º Servir de espaço neutro para a discussão e formulação de políticas relacionadas com a agricultura e a alimentação. Dá-te sugestões de aspectos que podes A FAO, durante o encontro mundial da alimentação, em Roma, de 13 a 17 de Novembro de 1996, aprovou a Declaração de Roma que visa a diminuição da fome no mundo. Esta declaração contou com o apoio de 126 países-membros e afirma o direito de todas as pessoas a um alimento seguro e nutritivo. Consulta na Net O dia mundial da alimentação é celebrado, desde 1981, a 16 de Outubro. Pretende-se consciencializar a opinião pública sobre as questões da alimentação e da nutrição. pesquisar na Internet sobre assuntos relacionados com a Unidade Lectiva.

5 unidade 2 79 JOÃO BAPTISTA Procura na Bíblia João Baptista repreende Herodes, por Giuseppe Fattori João Baptista é, de acordo com a interpretação cristã, o precursor de Jesus. O nome «Baptista» deriva da sua actividade profética, pois baptizava no rio Jordão todos os que se mostravam dispostos a converter- -se a Deus. João interveio publicamente antes de Jesus, anunciando a vinda iminente do Messias. João convidou as pessoas do seu tempo a arrependerem-se dos seus pecados e a mudarem de vida, denunciando a hipocrisia que orientava a vida de determinados grupos sociais. A sua atitude frontal e desassombrada fez com que fosse preso e decapitado por ordem do rei. Procura na Bíblia Lc 7, 26,28 Lc 1, 76s Dá-te informações sobre passagens bíblicas que poderás consultar em cada Unidade Lectiva. São João Baptista, por Gian Lorenzo Bernini 54 unidade 1 Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, o amor. Santo Agostinho de Hipona Santo Agostinho nasceu em 354, em Hipona (África do Norte), e faleceu em 430. Filho de pai pagão e de mãe cristã, converteu-se ao Cristianismo, já em idade adulta, por influência de Santo Ambrósio, bispo de Milão. Teólogo e filósofo, escreveu várias obras, destacando-se A Cidade de Deus e Confissões. Texto bíblico A fé e as obras P rocedem bem se cumprirem o mandamento fundamental: «Amarás o teu semelhante como a ti mesmo.» Mas se fizerem acepção de pessoas, isso está mal. Que importa, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se a não põe em prática? Imaginem que algum irmão ou irmã não tem nada que vestir e lhe falta o necessário para comer, cada dia. Vocês podem dizer-lhes: «Vão em paz! Hão-de encontrar com que se aquecer e matar a fome!» Mas se não lhes dão aquilo de que eles precisam, de que valem essas boas palavras? Do mesmo modo a fé, se não é posta em prática, está morta! Tg 2, Texto bíblico Indica-te que o texto que vais ler é uma passagem bíblica. A lupa foca o livro da Bíblia a que pertence o texto. Cristo curando os doentes, por Laura James ocaso do dia seguinte. Impedidos pelo estrito dever de repousar, nenhum camponês trabalhava o campo, nenhum artífice ia para o seu trabalho, nenhum comerciante ia para o mercado, nem as mulheres faziam os seus trabalhos em casa. Tudo deveria ficar pronto até sexta-feira à tarde. Os jovens constituíam família através do casamento. A escolha da noiva era normalmente feita pelo pai do noivo quando este atingia os dezassete anos. A selecção acontecia entre as jovens solteiras da aldeia que tivessem entre os treze e os dezassete anos. O pai do noivo negociava com o pai da noiva as condições do noivado, que eram declaradas por escrito ou transmitidas verbalmente, na presença de testemunhas, ficando os noivos prometidos um ao outro. O noivado durava doze meses e durante este período a noiva permanecia na casa dos seus pais, apenas coabitando com o noivo depois do casamento. A família de Jesus de NAzAré 117 unidade 3 Vocabulário Ocaso: pôr-do-sol. Coabitar: habitar na mesma casa. Vocabulário Neste espaço aparece a definição de algumas palavras mais difíceis. Anunciação, por Ernst Deger Maria e José viviam em Nazaré. José pertencia à casa de David e exercia o ofício de carpinteiro. Maria encontrava-se noiva de José quando o anjo Gabriel lhe anunciou que tinha sido escolhida para ser mãe do filho de Deus, cujo nome devia ser Jesus. Maria confiou nas palavras do anjo e aceitou a missão que este lhe propôs, embora tivesse ficado bastante assustada, uma vez que a sua gravidez não seria facilmente compreendida por José, de quem era apenas noiva, e pelas pessoas da aldeia. Cada aldeia tinha pelo menos um carpinteiro. A aldeia de Nazaré era conhecida como a terra dos carpinteiros. José terá aprendido o ofício com o seu pai.

6 ÍNDICE Unidade Lectiva 1 A Pessoa Humana DE REGRESSO À ESCOLA... SOU PESSOA A AUTENTICIDADE AS DIMENSÕES DA PESSOA Dimensão Biológica Dimensão Social A Comunicação Dimensão Espiritual Sexualidade Humana DEUS É PESSOA A DIGNIDADE HUMANA Direitos e Deveres Quando os Direitos não estão Garantidos... Direitos da Criança Garantir Direitos às Crianças Atentados aos Direitos da Criança GARANTIR O DIREITO A SER PESSOA

7 Unidade Lectiva 2 Advento e Natal CHEGA O NATAL! EMANUEL: O MESSIAS ESPERADO DE ISRAEL! JESUS, O MESSIAS PROMETIDO ADVENTO, TEMPO DE ESPERANÇA FIGURAS DO ADVENTO A Virgem Maria São José João Baptista O NATAL: REPRESENTAÇÃO ARTÍSTICA E TRADIÇÕES A PALESTINA NO TEMPO DE JESUS O RECENSEAMENTO JESUS, UM MARCO NA HISTÓRIA É URGENTE CONSTRUIR UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA!

8 Unidade Lectiva 3 A Família, Comunidade de Amor O QUE É UMA FAMÍLIA? A Palavra «Família» Tipos de Organização Familiar A FAMÍLIA: UMA INSTITUIÇÃO NA HISTÓRIA A Instituição Familiar, em Portugal A FAMÍLIA DE JESUS Caracterização Social, Económica e Política A Vida Familiar A Família de Jesus de Nazaré FUNÇÃO SOCIALIZADORA DA FAMÍLIA CONDIÇÕES DE BEM-ESTAR FAMILIAR OS VALORES NA VIDA FAMILIAR TAREFAS FAMILIARES O LUGAR DOS MAIS VELHOS QUANDO A FAMÍLIA FALHA

9 Unidade Lectiva 4 O Pão de Cada Dia O PÃO DE CADA DIA... A ALIMENTAÇÃO NA PERSPECTIVA CULTURAL A ALIMENTAÇÃO NA EXPRESSÃO ARTÍSTICA Na Pintura Na Literatura Na Música e na Dança A ALIMENTAÇÃO NA CULTURA BÍBLICA Simbologia Judaico-Cristã A ÚLTIMA CEIA ALIMENTAÇÃO EQUILIBRADA UM DIREITO DE TODOS CAUSAS DA FOME OBRAS DE PROMOÇÃO HUMANA PARTILHAR A RIQUEZA LUTA CONTRA A FOME NO MUNDO A Caritas A FAO Banco Alimentar Contra a Fome

10 Unidade Lectiva 5 O Respeito pelos Animais A IMPORTÂNCIA DOS ANIMAIS ORIGEM DA VIDA E DIVERSIDADE DE ESPÉCIES OS ANIMAIS SÃO O RESULTADO DA VONTADE DE DEUS O DILÚVIO UNIVERSAL DIVERSIDADE BIOLÓGICA E EXTINÇÃO DAS ESPÉCIES RELAÇÃO DO SER HUMANO COM OS ANIMAIS OS ANIMAIS NA EXPRESSÃO ARTÍSTICA A SIMBOLOGIA JUDAICO-CRISTÃ DOS ANIMAIS CRITÉRIOS ÉTICOS NA RELAÇÃO COM OS ANIMAIS SÃO FRANCISCO DE ASSIS PATRONO DOS ANIMAIS ASSOCIAÇÕES DE DEFESA DOS ANIMAIS E ESCUTISMO BIBLIOGRAFIA

11 INTRODUÇÃO Bem-vindo ao 6.º ano! Chegou mais um novo ano escolar! As experiências de aprendizagem que fizeres vão ser úteis para poderes continuar a crescer. A tua turma e os teus professores vão acompanhar-te nesta nova caminhada. A disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica oferece-te um universo de valores orientado para a relação com os outros. Proporciona-te também um conjunto de experiências orientadas para um melhor conhecimento de ti mesmo e para uma mais adequada compreensão e um melhor acolhimento dos outros. Vais contactar com aspectos culturais, históricos e religiosos vividos por diferentes culturas e civilizações. Vais ainda contactar com diversas vivências religiosas, através do estudo de documentos, da análise de obras de arte e da interpretação de factos históricos. É à luz da mensagem cristã que te propomos que reconheças a dignidade da vida humana e o valor da família, bem como de todos os recursos naturais que estão à nossa disposição. De acordo com o Programa de Educação Moral e Religiosa Católica para o 6.º ano de escolaridade, propomos-te cinco Unidades Lectivas cujos temas esperamos sejam do teu agrado. UNIDADE LECTIVA 1 A PESSOA HUMANA UNIDADE LECTIVA 2 ADVENTO E NATAL UNIDADE LECTIVA 3 A FAMÍLIA, COMUNIDADE DE AMOR UNIDADE LECTIVA 4 O PÃO DE CADA DIA UNIDADE LECTIVA 5 O RESPEITO PELOS ANIMAIS

12 Unidade Lectiva 1

13 A Pessoa Humana

14 14 unidade 1 De Regresso à Esc o l a Estamos de regresso à escola. Como passaram rapidamente as férias! Pensamos nas experiências e vivências que estes meses nos proporcionaram, algumas das quais lembraremos ao longo das nossas vidas. Estamos cheios de curiosidade e queremos saber o que os nossos colegas têm para nos contar sobre os dias em que não estivemos juntos. Durante estes meses, conhecemos coisas novas e talvez tenhamos feito novos amigos; é por isso que temos muitas novidades para partilhar. Alguns falam sobre as pessoas e os sítios novos que conheceram, outros contam como aprenderam coisas diferentes nos livros que leram, nos programas de televisão que viram em todas as experiências por que passaram. Cada vez mais, os nossos amigos parecem ocupar um lugar especial na nossa vida. Crescemos! Pensamos de forma diferente sobre a realidade e reflectimos mais antes de decidirmos. Esta capacidade de questionar e pensar sobre as coisas que nos rodeiam parece aperfeiçoar-se. Somos cada vez mais curiosos e este espírito leva-nos a fazer novas descobertas. Subitamente, a vida já não parece tão simples. Começamos a tomar cada vez mais

15 15 unidade 1 consciência da influência que os nossos comportamentos têm sobre os outros e da maneira como nos afectam a nós. Sentimo-nos cada vez mais responsáveis e disponíveis para aprender coisas novas. Esta abertura, esta capacidade para aprender com todas as experiências que vivemos torna-nos intervenientes na construção da sociedade em que estamos inseridos. Ser seja ruído seja beijo seja voo seja andorinha seja lago seja pacatez da árvore seja aterragem de borboleta seja mármore de elefante seja alma de gaivota seja luz num olhar seja um cardume de tardes e grite: JÁ SOU. Ondjaki, 101 poetas: Iniciação à poesia em língua portuguesa

16 16 unidade 1 Sou Pessoa Cada ser humano nasce inserido numa determinada comunidade. Desenvolve-se na família, no grupo de amigos, na escola e nos vários contextos com os quais contacta. Da comunidade recebemos saberes e valores, através das experiências que vivemos e da abertura à realidade que nos rodeia. Temos consciência da nossa existência, das nossas experiências e aprendemos com elas. Afirmamo-nos através dos nossos pensamentos, sentimentos e afectos, os quais comunicamos aos outros através da linguagem, verbal ou corporal. Por intermédio da linguagem, conseguimos partilhar as nossas experiências, manifestando aos outros o que somos e aquilo em que acreditamos. De igual modo, revelamos a nossa intimidade, os nossos pensamentos e afectos através de palavras e comportamentos. Desenvolvemos a nossa experiência espiritual, exteriorizamos os sentimentos e manifestamos a nossa inteligência, abrindo-nos aos outros e a Deus.

17 17 unidade 1 Santo e Senha Deixem passar quem vai na sua estrada. Deixem passar Quem vai cheio de noite e de luar. Deixem passar e não lhe digam nada. Deixem, que vai apenas Beber água de Sonho a qualquer fonte; Ou colher açucenas A um jardim que ele lá sabe, ali defronte. Vem da terra de todos, onde mora E onde volta depois de amanhecer. Deixem-no pois passar, agora Vocabulário Açucena: Planta bolbosa da família das Liliáceas, de flores brancas e perfumadas, também conhecida por lírio branco; a flor desta planta. Maninho: Estéril, não cultivado. Que vai cheio de noite e solidão. Que vai ser Uma estrela no chão Miguel Torga, Diário I (Coimbra, 3 de Janeiro de 1932) Exemplo Toda a tarde a pensar no meu destino, E o rio, com mais água ou menos água, Sossegado a correr Num areal que o nega! Que lhe importa que o chão do seu caminho Seja seco e maninho, Se ele é uma eterna fonte que se entrega?! Miguel Torga, Diário VI (Coimbra, 21 de Março de 1953) Miguel Torga, escritor português, nascido em S. Martinho de Anta (Trás-os-Montes), a 12 de Agosto de 1907, exerceu medicina em Coimbra, onde veio a falecer a 17 de Janeiro de 1995.

18 18 unidade 1 Acreditava-se, desde a Grécia antiga, que o ser humano era composto por duas dimensões: o corpo e a alma ou o espírito. Este pensamento integrou a filosofia de várias culturas, tendo chegado ao Cristianismo. Para o pensamento cristão actual, estas duas realidades a corporal e a espiritual são inseparáveis. O ser humano é compreendido como uma unidade corpo-espírito. As encíclicas são cartas pastorais enviadas pelo bispo de Roma, o papa, à Igreja. O nome das encíclicas corresponde às primeiras palavras do texto, redigido em latim. Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. Bento XVI, Encíclica Deus Caritas Est Deste modo, nem o espírito nem o corpo, isoladamente, expressam aquilo que é o ser humano. Nenhum de nós é simplesmente corpo, nem simplesmente espírito. Quando amamos, pensamos ou tomamos decisões fazemo-lo simultaneamente de forma espiritual e física.

19 19 unidade 1 A palavra pessoa, de origem latina, deriva de persona, «máscara de teatro»; por extensão, significa o papel atribuído a essa máscara, a personagem. Relacionado com o ser humano, o pensamento cristão e, sobretudo, Santo Agostinho, usou a palavra para se referir às três pessoas (divinas) da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A palavra pessoa designava a capacidade de estabelecer relação com os outros. Se não fôssemos corpo, não seríamos capazes de nos revelarmos aos outros, de com eles comunicarmos e, em geral, de estabelecermos relações de comunhão. É através do corpo que nós exprimimos o que pensamos, o que sentimos ou as nossas decisões. Sem corpo seríamos seres virados para dentro de nós, como conchas fechadas que não comunicam com o exterior. O nosso corpo exprime as mensagens do nosso espírito. Observa as imagens que se seguem e procura captar, através das expressões corporais ou da maneira de se vestirem e arranjarem, os sentimentos, as emoções, os pensamentos ou a vontade que as personagens transmitem. O Mártir, por Auguste Rodin Azulejos representando Crianças a Brincar na Rua, por Francisque Poulbot Homem e mulher Masai, Tanzânia Mulher com filho morto, por Kathe Schmidt Rua de Paris, por Andre Fougeron Mãe e criança em Holland Park, por Dora Holzhamdler A mulher grávida, por Pablo Picasso Mikado, Anónimo

20 20 unidade 1 A Aut e n t i c ida d e Auto-retrato com chapéu de palha, por Vincent van Gogh Conhece-te a ti mesmo. Sócrates, filósofo grego (séc. V) Através dos meios de comunicação social, chega até nós um forte apelo ao consumo de determinados produtos e marcas, cujo valor se baseia no poder das imagens. Associada ao consumismo está uma determinada imagem aparente de nós mesmos, que procuramos transmitir aos outros, a qual se constrói a partir de modelos que a sociedade cria, de que é exemplo a moda. Por vezes, procuramos mostrar aos outros que somos aquilo que de facto não somos, vivendo uma vida de aparência, ou seja, uma vida não autêntica. Sermos genuínos e autênticos, relacionando-nos com os outros a partir do que somos e daquilo em que acreditamos nem sempre é fácil. Mas a verdadeira riqueza pessoal não se encontra nos bens que cada um possui, mas nos valores em que se acredita. Cada pessoa vale pelo que é e não pelo que tem. É importante estabelecer o equilíbrio entre o nosso interior (o nosso mundo espiritual) e o aspecto exterior (o nosso mundo corporal). Por isso, zelamos pela saúde do nosso corpo, mantendo cuidados de higiene diários, bem como uma dieta alimentar equilibrada. O cuidado que temos com a forma como aparecemos perante os outros não significa falta de autenticidade. Desde que corresponda à beleza interior (sentimentos positivos em relação aos outros), o facto de nos arranjarmos exteriormente faz com que nos sintamos bem connosco próprios e com

21 21 unidade 1 que os outros tenham uma ideia mais agradável a nosso respeito. Isto não pode ser confundido com vaidade, porque ser vaidoso é ser fútil, superficial e viver quase exclusivamente para a imagem exterior, sem atender aos aspectos mais importantes. Num mundo que vive para o culto da aparência, onde a mentira é um meio para se passar uma imagem de si que não corresponde à realidade, é cada vez mais premente que cada ser humano seja autêntico, seja ele mesmo, sem procurar enganar os outros. A maior riqueza que possuímos encontra-se na solidariedade e na entrega às outras pessoas, de forma desinteressada. Madre Teresa de Calcutá, ( ) O quarto de van Gogh, por Vincent van Gogh O espaço que nos rodeia influencia a maneira como nos sentimos. Por isso, procuramos harmonizar aquilo que somos com o espaço onde habitamos ou trabalhamos. Uma das mais antigas artes que o ser humano desenvolveu para construir espaços onde se sinta bem foi a arquitectura. Utilizada desde a pré-história, as suas primeiras funções foram a protecção e a habitação. Actualmente, a arquitectura preocupa-se também com o conforto, a estética e a eficiência energética. Seria bom que nos identificássemos com os locais que frequentamos e com a casa onde vivemos, dado serem relevantes para o nosso equilíbrio. Infelizmente, isso nem sempre é possível, por falta e capacidade financeira. Raoul Follereau, ( ) Existem investigações sobre os ambientes e os locais onde habitamos. Uma delas é chamada Feng Shui. É uma técnica oriental ancestral que permite compreender a influência das cores, materiais, formas e elementos naturais que nos rodeiam tanto em casa como no trabalho.

22 22 unidade 1 As Dimensões da Pessoa Vocabulário Transcendente: Deus; o sagrado. A pessoa caracteriza-se por três dimensões fundamentais, a biológica, a social e a espiritual. A dimensão biológica caracteriza todos os seres vivos, tornando-os, neste aspecto, semelhantes. A dimensão social encontra-se associada às espécies animais, à sua capacidade de comunicação e de organização em grupo; no entanto, no ser humano, esta dimensão é muito mais complexa, como podemos verificar pela organização das sociedades humanas. A dimensão espiritual é a vida interior do ser humano: a sua capacidade racional (o pensamento), a vontade e a consciência moral, a afectividade (sentimentos, emoções) e a relação com o transcendente. Todas estas capacidades espirituais estão na base da comunicação com os outros, que acontece a um nível muito superior ao dos animais, especialmente através da complexa linguagem verbal. Um dos aspectos que distingue o ser humano de todas as outras espécies é a sua capacidade de distinguir entre o bem e o mal, de tomar decisões livres e responsáveis, agindo assim sobre a realidade que o rodeia, orientado por valores éticos e pela capacidade de análise da realidade. Somos, portanto, livres e capazes de tomar opções individuais. Mas as pessoas, embora partilhem muitos aspectos que têm em comum, não são iguais. Cada pessoa tem as suas particularidades e é naturalmente irrepetível.

23 23 unidade 1 Dimensão Biológica Cada ser humano apresenta características biológicas únicas. Dos nossos pais recebemos a herança genética, através da qual partilhamos traços fisionómicos com a nossa linhagem materna e paterna. Contudo, as nossas características físicas não são apenas o somatório da herança das características da mãe e do pai, pois também apresentamos traços distintos que fazem de cada um de nós um ser único. A identidade sexual é um aspecto importante da dimensão biológica da pessoa. Do pai recebemos a informação genética, que define a nossa identidade sexual. Esta caracteriza-se pela diferenciação dos órgãos genitais masculino e feminino, ou seja, pela diferenciação do homem e da mulher. Os homens e as mulheres não são apenas diferentes do ponto de vista biológico, também se diferenciam do ponto de vista psicológico e comportamental.

24 24 unidade 1 Vocabulário Fisiológica: Que diz respeito às funções dos diferentes órgãos dos seres vivos. Fisionómica: Que diz respeito aos traços do rosto, às feições. Informação genética: Conjunto de informação, presente na cadeia de ADN (ácido desoxirribonucleico), transmitida de pais para filhos através das células sexuais. As células dos seres humanos contêm, cada uma, 23 pares de cromossomas, num total de 46 cromossomas. Cada cromossoma contém uma cadeia, em forma de hélice, de ADN com toda a informação genética. Mas as células sexuais (o espermatozóide e o óvulo), ao contrário das outras células, só têm 23 cromossomas. No momento da fecundação, o óvulo e o espermatozóide unem-se e juntam, em pares, os 23 cromossomas provenientes da mãe e os 23 cromossomas provenientes do pai, dando origem a um ser geneticamente diferente. Todavia, a diferença do novo ser em relação aos pais não se fica por aqui, uma vez que os cromossomas provenientes da mãe e do pai trocam pequenos fragmentos de informação genética (ADN). As diferentes combinações possíveis de cromossomas e ADN são tantas que cada ser humano é uma espécie de «milagre»: um ser único e irrepetível. A identidade sexual do bebé é definida pelos cromossomas da célula sexual masculina, o espermatozóide. Estes cromossomas apresentam a denominação científica de cromossomas X e Y. É o cromossoma Y que define o sexo masculino do bebé. Os cromossomas sexuais dos óvulos são sempre X. Se, no momento da fecundação, o espermatozóide tiver cromossomas sexuais X, o bebé fica com um par de cromossomas XX (do pai e da mãe) e é uma menina. Se, pelo contrário, o espermatozóide tiver cromossomas sexuais Y, o bebé fica com um par de cromossomas XY (da mãe e do pai) e é um menino. O cérebro humano é muito mais desenvolvido do que o das restantes espécies animais. Este desenvolvimento faz com que os seres humanos sejam dotados de inteligência superior, que se manifesta na capacidade de resolver problemas complexos e elaborar raciocínios profundos. Esta inteligência permite-lhes pensar e agir sobre o mundo que os rodeia e confere-lhes grande autonomia, liberdade e capacidade de decisão pessoal.

25 25 unidade 1 Dimensão Social O ser humano afirma-se em sociedade através da família e dos diversos grupos sociais e culturais aos quais pertence. Nela, cada ser humano estrutura os seus conhecimentos e valores que influenciam as suas atitudes e os seus comportamentos, bem como as suas decisões. A família tem uma importância fundamental no desenvolvimento da pessoa. Nela fazemos a primeira experiência de sermos únicos. De igual modo, tomamos consciência de que cada uma das pessoas com quem nos relacionamos é única. Quando os pais dão o nome a um filho, estão, simbolicamente, a atribuir-lhe uma identidade própria que o distingue como pessoa e o diferencia dos outros. Por isso, o profeta Isaías refere que Deus chama cada um pelo seu nome, pois o nome (a identidade) de cada pessoa é sagrado. Assim se entende a origem cristã do direito que cada pessoa tem ao bom nome, ou seja, o direito a ser respeitado na sua dignidade e na sua identidade. Artigo 26.º (Outros direitos pessoais) 1. A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra e à reserva da intimidade da vida privada e familiar. Constituição da República Portuguesa

26 26 unidade 1 A pessoa humana é, e deve ser, o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais. Gaudium et Spes 25,1 As associações culturais e recreativas, os clubes desportivos, assim como outras instituições favorecem a participação das pessoas na vida social. São formas de socialização que manifestam a tendência natural das pessoas para cooperarem, procurando atingir objectivos que vão muito para além das suas capacidades individuais. As associações estimulam as aptidões de cada pessoa, o seu espírito de iniciativa e de responsabilidade, contribuindo para o exercício da cidadania. A vivência em sociedade permite a realização da vocação humana, uma vez que, em princípio, as sociedades estão orientadas para a realização de cada indivíduo e para o cumprimento do bem comum. Ao viver em sociedade, cada pessoa é herdeira de um passado e a ele devedora. Dessa herança, cada um recebe tradições, crenças, formas de vida, leis, regulamentos, etc. Estes últimos enquadram os direitos e os deveres das pessoas. Assim, cada membro da sociedade sabe quais são os direitos que pode reivindicar e os deveres a respeitar. A curiosidade natural e a procura de respostas para problemas levam o ser humano, individual e colectivamente, a progredir através de novas aprendizagens e descobertas, por forma a encontrar soluções inovadoras. Alguns dos resultados concretizam-se no chamado avanço tecnológico, na inovação científica e no desenvolvimento material das sociedades. Tudo isto resulta da acção do ser humano, enquanto sujeito influente e corresponsável pelas transformações que ocorrem à sua volta. Contudo, verificamos que, muitas vezes, as mudanças não respondem aos verdadeiros interesses da pessoa. Por exemplo, algumas aplicações tecnológicas, sendo aparentemente positivas, podem revelar-se prejudiciais para o ser humano. De facto, podemos usar a nossa inteligência e liberdade tanto para o bem como para o mal. Nave espacial Soyuz a descolar, Rússia Explosão Núclear sobre Bikini Atoll Marie Curie no seu laboratório, Escola Inglesa (séc. XX)

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