Transferência de renda é a principal marca da gestão Lula

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1 Valor Econômico 27 de dezembro de 2010 Governo: Gasto adicional de 2,2% do PIB significa que foram transferidos R$ 75 bi a mais em relação a 2002 Transferência de renda é a principal marca da gestão Lula Ribamar Oliveira De Brasília Houve um gigantesco aumento das transferências de renda para as famílias durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Esta foi a principal marca do gasto público durante os oito anos do mandato do atual presidente. No período de seu governo, as despesas primárias da União (não inclui o pagamento de juros das dívidas públicas) cresceram muito, 2,9 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com dados do Ministério da Fazenda. Deste aumento, 2,2 pontos percentuais do PIB resultaram de gastos com as transferências de renda para as famílias, que subiram de 6,8% do PIB em 2002 para 9% do PIB este ano. As transferências de renda compreendem os gastos do governo federal com o pagamento de benefícios previdenciários, seguro desemprego, abono salarial, benefícios assistenciais, definidos pela Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), e o programa Bolsa Família. Na prática, as transferências representam dinheiro que o governo coloca diretamente na mão do cidadão, sem intermediações. O gasto adicional de 2,2% do PIB significa que o governo está transferindo às famílias cerca de R$ 75 bilhões a mais do que em O aumento das transferências foi tão grande que absorveu todo o crescimento da receita bruta da União (antes das transferências constitucionais para Estados e municípios) no período. Neste sentido, o atual governo pode dizer que transferiu para a população todo o aumento da carga tributária na área federal registrada durante o governo Lula. O aumento das despesas primárias (2,9 pontos percentuais do PIB) superou o crescimento das receitas (2,2 pontos percentuais do PIB), segundo a radiografia feita pelo Ministério da Fazenda. Isso só foi

2 2 possível pela redução do superávit primário do governo central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central). Como pode ser visto na tabela ao lado, o superávit primário do governo central caiu 0,9 ponto percentual do PIB no governo Lula, em comparação com aquele registrado em 2002, sem considerar no cálculo o Fundo Soberano do Brasil (FSB) e a cessão onerosa de 5 bilhões de barris de petróleo do présal para a Petrobras, realizada durante o processo de capitalização da estatal este ano. Mesmo com todos os aumentos salariais concedidos pelo presidente Lula aos servidores públicos, principalmente a partir de 2007, as despesas com pessoal da União, ativo e inativo, permaneceram no mesmo patamar de 2002, em proporção do PIB, ou seja, em torno de 4,7% do PIB. Esse resultado, em grande medida, decorreu da forte expansão real do PIB, a base de comparação, que foi de 4% ao ano, em média, durante o governo Lula. Em termos reais, no entanto, a despesa com os servidores cresceu muito, pois ela acompanhou o aumento real do PIB do período. Este ano, os gastos com pessoal ficarão, em valores correntes, em torno de R$ 180 bilhões, contra R$ 75 bilhões em 2002, segundo o Boletim Estatístico de Pessoal, do Ministério do Planejamento. Para 2010, a previsão é que eles cheguem a R$ 200 bilhões. Houve uma retomada dos investimentos públicos, após uma forte queda no primeiro mandato do presidente Lula. Em 2003, por conta do forte ajuste fiscal realizado pelo governo, os investimentos caíram para 0,3% do PIB, o menor nível já registrado. Em 2002, os investimentos ficaram em 0,8% do PIB. Este ano, a expectativa do Ministério da Fazenda é a de que eles atinjam 1,2% do PIB - um aumento de 0,4 ponto percentual do PIB em relação ao último ano do governo Fernando Henrique Cardoso. As despesas do governo federal com saúde e educação subiram no governo Lula, mas em ritmo menor. Segundo os dados do Ministério da Fazenda, os gastos com custeio e investimento da saúde e educação aumentaram apenas 0,2 ponto percentual do PIB, em relação a Neste cálculo, não estão incluídas as despesas com pessoal das duas áreas. Se elas forem consideradas, o aumento chega a 0,5 ponto percentual do PIB. O secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, concorda que a principal marca do gasto público durante o governo Lula foi o aumento das transferências de renda para as famílias, mas ele destaca também a elevação dos investimentos público, principalmente no segundo mandato do presidente. "A marca da política fiscal do governo Lula foi o aumento do papel do Estado na transferência de renda às famílias, principalmente para combater a pobreza, e uma recuperação dos investimentos. Houve um aumento expressivo dos investimentos, durante o segundo mandato, que passaram de 0,6% do PIB em 2006 para 1,2% do PIB este ano. Observou-se ainda, nestes últimos dois anos, maiores investimentos em educação", analisou o secretário. Expansão dos gastos vem da Constituição de 1988 De Brasília O gasto público no governo Lula seguiu o mesmo padrão que vem sendo registrado depois da promulgação da Constituição de 1988, com o predomínio das transferências relacionadas ao INSS e aos gastos sociais, segundo o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). De 1991 a 2002, Mansueto informou que 55% do crescimento da despesa do governo federal veio do INSS e 41%, de 2003 a "O aumento forte das transferências é um padrão típico do Brasil pós-constituição", explicou o economista.

3 3 A expansão dos gastos sociais no governo Luiz Inácio Lula da Silva foi maior, segundo ele, por causa do aumento do salário mínimo e da expansão da cobertura dos programas voltados para as populações mais carentes. A elevação do mínimo impacta os gastos do governo com benefícios previdenciários, os benefícios assistenciais, o abono salarial e o seguro desemprego. "O que houve no governo Lula foi um menor crescimento dos benefícios previdenciários, como proporção do PIB, e uma expansão mais forte dos gastos sociais", analisou. "O lado positivo desse modelo foi que o aumento do salário mínimo e a expansão dos programas sociais tiveram um forte impacto sobre a redução da pobreza", afirmou. O economista Samuel Pessoa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tem opinião semelhante. Ele também considera que a transferência de renda foi a marca do gasto público durante o governo Lula, mas observa que essa característica da despesa já vem dos governos anteriores. "O presidente Lula teve margem orçamentária para fazer uma política social mais agressiva", explicou. O economista também chamou a atenção para a ampliação das despesas relacionadas com o salário mínimo. Segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas de Estudos Socioeconômicos (Dieese), o aumento real do salário mínimo foi de 53,67% de 2003 a 2010, com ritmo mais acelerado no segundo mandato do presidente Lula. Mas o valor do salário mínimo também aumentou muito durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O modelo baseado em expansão das transferências de renda e aumento real contínuo do salário mínimo tem uma grande limitação. O modelo só pode ser executado com uma elevação também contínua da carga tributária, segundo observou o economista Mansueto Almeida. Até o início da década de 1990, o Brasil tinha uma carga tributária que flutuava em torno de 25% do PIB. De lá para cá, a carga só aumentou. Este ano, ela ficará perto de 35% do PIB. A política fiscal no Brasil pós-constituição de 1988 possui três características principais, na avaliação de Mansueto Almeida. O gasto público cresce por causa das transferências de renda e do aumento real do salário mínimo, o que resulta em elevação contínua da carga tributária. A partir de 1999, o governo começou a fazer superávit primário expressivo. "Não sobrou nada para o investimento público que, na verdade, caiu como proporção do PIB tanto em relação aos anos 1970 como também em relação aos anos 1980", analisou. De 1991 a 2009, o gasto do governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência), incluindo transferências aos Estados e municípios, passou de 13,7% do PIB para 22,3% do PIB - um crescimento de quase 0,48 ponto percentual do PIB a cada ano. "Se essa tendência se mantivesse pelos próximos dez anos, o gasto público não financeiro do governo central seria de 27,6% do PIB em 2020, o que exigiria novos aumentos de carga tributária em pelo menos cinco pontos percentuais do PIB ao longo da próxima década", explicou Mansueto. O investimento público da União no governo Lula ficou, na média, abaixo de 1% do PIB, de acordo com o economista do Ipea. Este ano, o investimento deve ficar em torno de 1,2% do PIB. "O problema da baixa execução do investimento público não é algo específico do governo Lula, mas uma realidade do Brasil pós-constituição de 1988", analisou.(ro)

4 4 Governo: Para especialistas, dívida pública é outro fator de preocupação para a futura presidente Queda do superávit exigirá ajuste fiscal rigoroso de sucessora Ribamar Oliveira De Brasília A política fiscal dos últimos anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva sofreu algumas alterações e o crescimento do gasto público mudou de padrão. Em primeiro lugar, houve uma redução do superávit primário, em função da crise financeira internacional e do ciclo político, de acordo com o economista Samuel Pessoa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em segundo lugar, a conta de juros nominais do setor público está se mantendo constante, apenas da queda da taxa básica de juros da economia (a Selic) e da dívida líquida, como observou Pessoa. Isso mostra que, nos últimos anos, o Tesouro Nacional acumulou passivos muito mais caros que os ativos. Por último, as despesas de custeio da máquina administrativa (viagens, diárias, materiais de escritório, luz, água etc.) foram as que mais cresceram este ano, até outubro, segundo o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A política fiscal do governo Lula teve duas fases, na avaliação do economista Samuel Pessoa. "Nos seis primeiros anos, ela tem uma cara e nos últimos dois anos, outra", afirmou. A primeira fase foi caracterizada por elevados superávits primários, de 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano, em média. O superávit caiu nos últimos dois anos, inicialmente como uma resposta à crise financeira internacional e, em seguida, em decorrência do que os economistas chamam de "ciclo político". Durante os anos eleitorais, a política fiscal costuma ser mais expansionista.

5 5 "O presidente Lula está deixando um superávit primário muito baixo para a presidente Dilma, algo em torno de 2% do PIB", alertou Pessoa. Para obter o superávit de 3% do PIB este ano, meta estabelecida na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a presidente Dilma terá que fazer um ajuste fiscal mais rigoroso do que aquele executado no primeiro ano do governo Lula, de acordo com o economista. Outro indicador preocupante da segunda fase da política fiscal do governo Lula, segundo Pessoa, está relacionado com a dívida pública. Ele observa que apesar da queda da Selic e da dívida líquida nos últimos anos, a conta de juros nominais do setor público não está caindo. Pessoa disse que este fenômeno resulta da constituição de passivos pelo Tesouro Nacional mais caros do que os ativos. Ele citou, como exemplo, a política de aporte de recursos subsidiados ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os recursos do Tesouro são emprestados ao BNDES ao custo de Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que está em 6% ao ano. O Tesouro capta os recursos no mercado ao custo de Selic, que está em 10,75%. O economista Mansueto Almeida, do Ipea, chama a atenção para outra mudança na política fiscal do governo Lula. De janeiro a outubro deste ano os gastos com o custeio restrito cresceram 0,37 ponto do PIB em relação ao mesmo período do ano passado. Essas despesas são aquelas diretamente relacionadas ao custeio da máquina pública. Elas passaram de 1,61% do PIB nos dez primeiros meses de 2009 para 1,98% do PIB no mesmo período de 2010, como mostra a tabela abaixo, que foi construída para que se possa ter uma ideia do resultado registrado no mesmo período dos dois anos. "Este ano há um crescimento forte de duas contas: custeio restrito e investimento público. Nesse aspecto, o padrão de crescimento dos gastos no último ano do governo é um pouco diferente do padrão normal de todo o governo Lula", analisou Mansueto.

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