Mesa-redonda: Animação - Indústria Criativa e Produção Cultural

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4 Anima Mundi completou 21 anos em 2013 e Anima Forum demarcou o que muitos dos que passaram pela Fundição Progresso consideram a segunda fase da animação no Brasil: amadurecida, consistente e robusta, pronta para ganhar o mercado internacional. Da mesa de abertura ao painel final, durante quatro dias, animadores, produtores, incentivadores, legisladores, responsáveis por políticas públicas revezaram os discursos em busca de consenso. O Fundo Setorial Audiovisual e a Lei /2011 são heróis e algozes. Cada um à sua maneira. As masterclasses serviram para mostrar experiências criativas e exitosas, técnicas tão distintas quanto à origem dos convidados para mostrar seus trabalhos. O Anima Forum também deu um panorama da animação pelo mundo, discutiu os esforços e parcerias possíveis, apontou caminhos para além do Brasil. Discussões, opiniões, ideias, alternativas e trocas sempre frutíferas, devidamente registradas nas páginas que seguem.

5 6 de agosto terça-feira Mesa-redonda: Animação - Indústria Criativa e Produção Cultural Participantes: Leopoldo Nunes (SAV MinC), Sergio Sá Leitão (SMC/ RJ e Riofilme), Kiko Mistrorigo (ABPITV) e Rosaria Moreira (ABCA) Moderador: Cesar Coelho (Anima Mundi) A ambiguidade na produção de animação brasileira, que já se manifesta como indústria e, ao mesmo tempo, firma-se como uma expressão cultural em expansão nas diversas regiões do país. Como estas duas facetas se complementam e devem ser incentivadas. O Anima Forum chegou à sua oitava edição em Um feito que mereceu uma programação esmerada, própria para a reflexão sobre o mercado, a prática e os rumos da animação no Brasil. Na abertura da edição que reuniu como é usual, especialistas de origens diversas, Cesar Coelho anunciou as presenças que viriam no decorrer da semana e ressaltou o momento de euforia.

6 Há oito anos a gente faz, sugere e discute os rumos da animação brasileira. Este espaço é nosso, acolhe todos os atores da produção brasileira de animação, seja ela comercial, industrial ou autoral. Aqui debatemos, planejamos e, muitas vezas, antecipamos os desafios para o desenvolvimento e aprimoramento da nossa arte. Nossa história está apenas começando, portanto, sejam bem-vindos. A casa é sua!, disse ele sobre as novas perspectivas para animadores, estúdios e produtores. Luciane Gorgulho, chefe do Departamento de Cultura, Entretenimento e Turismo do BNDES, foi especialmente chamada para saudar o público. Um dos patrocinadores do evento, o banco tem especial interesse em fomentar as discussões que o Anima Forum promove. Temos muito orgulho de estar mais uma vez apoiando o debate e a reflexão dentro do Anima Mundi, o que casa com a estratégia do BNDES que desde 2006 apoia a cultura como financiador de desenvolvimento de empresas e projetos para tornar esse setor relevante. Dentro da cultura, o foco é o audiovisual. E, nesse setor, a animação tem carinho especial. Principalmente pelo talento dos seus realizadores, ela pontuou o desafio que se impõe: é preciso desenvolver as fontes de recursos e a capacitação em roteiro, assim como outros aspectos que possam aprimorar o setor, como a gestão e formação empresarial do setor. uma boa história é o que faz diferença, todo o mais é subalterno. A história tem de ser interessante. E essa parte de capacitação envolve também capacitação em gestão, para que as empresas possam se organizar. Animação é um setor que vai se desenvolver muito, puxado pela Lei As cotas não são apenas uma reserva de mercado, ela afirmou. Ao retomar a palavra, Cesar Coelho ratificou a importância do apoio dado pelo BNDES ao longo dos anos, bem como o reforço do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas como apoiador na edição de Posso testemunhar que o BNDES deu um apoio fundamental para que o Anima Forum se tornasse o que se tornou. Este ano, o Sebrae despertou para este setor, detectou o seu potencial e juntos, vamos desenvolver cada vez mais iniciativas para promover a capacitação em gestão, anunciou. Como mediador da mesa que reuniria Leopoldo Nunes (SAV MinC), Sergio Sá Leitão Ela pontuou o desafio que se impõe: é preciso desenvolver as fontes de recursos e a capacitação em roteiro, assim como outros aspectos que possam aprimorar o setor, como a gestão e formação empresarial do setor. No quesito recursos disponíveis, Luciane Gorgulho prosseguiu, já houve diversos avanços. Junto com a Lei também vieram várias notícias que fizeram o setor do audiovisual e a animação avançarem em direção à afirmação como indústria. A gente ainda precisa desenvolver aspectos da capacitação geral do setor. Saber contar

7 (SMC/RJ e RioFilme), Kiko Mistrorigo (ABPITV) e Rosaria Moreira (ABCA), Cesar demonstrou o seu conhecimento da causa que defende, com um retrospecto desde os tempos em que o mercado de animação no Brasil se reduzia à publicidade: A gente tem um histórico que nos permite dizer a gente viu. Durante muito tempo, só havia mercado de animação em publicidade. Eventualmente se via um filme aqui e outro ali, filmes autorais, feitos por alguns heróis. Mas não havia uma produção constante, não tinha emprego para animação. A história seguiu com alguns fatos marcantes. O primeiro deles foi a criação do Centro Técnico Audiovisual (CTAV), no convênio estabelecido entre Brasil e Canadá. Ali foi desenhada a possibilidade de se criar um núcleo de produção de animação consistente no Brasil. Mas assim que o convênio com o Canadá acabou, o governo federal não se interessou em manter e, pior ainda, nem a Embrafilme restou, ele relembrou. A turma da resistência, no entanto, permaneceu ativa e, anos depois, foi criado o Anima Mundi, não tardou a ABCA foi oficializada, e vieram o trabalho árduo e as boas surpresas. A gente criou o Anima Mundi e começou a detectar um talento enorme na produção autoral. O festival passou de um filme ou dois por ano, para uma produção constante de 300 filmes brasileiros. Esse número, por si, já é impressionante em qualquer país do mundo. É um dado importante e foi nossa munição para provar que existia, sim, um potencial muito grande no Brasil, contou Cesar Coelho. Não faltaram encontros de gente animada a ir além do story board. A gente começou a se juntar para se conhecer e se organizar. Essas reuniões, mais tarde, resultaram na associação, que é ABCA. A gente teve ouvidos sensíveis em várias instâncias governamentais. Rapidamente, a gente começou a ser ouvido e o desenvolvimento se deu de forma muito acelerada. Hoje, finalmente, a gente pode dizer que tem uma indústria de animação no Brasil. Uma indústria cuja competência se pode comprovar inclusive pelos números que ostenta, como Cesar Coelho fez questão de enfatizar. Já podemos dizer que há falta de animador, pois as produtoras têm dificuldade em formar suas equipes, disse ele, com fala exultante, mas sem deixar de reconhecer as dificuldades que ainda persistem. A própria natureza da atividade cria desafios. Você precisa de um estúdio, tem de ter um cronograma de produção que vai além de uma temporada de série, tem de ter vários projetos acontecendo ao mesmo tempo. Esse é o desafio que agora se apresenta. Outro deles é alcançar um nível de acabamento de excelência, o que é exigido para o desenvolvimento de longa-metragem. Esse é o desafio de agora, o longa-metragem, que demanda excelência em todas as etapas. Da produção ao roteiro, a qualidade é um requisito muito importante. É um mercado em que a qualidade é muito importante. O longa-metragem brasileiro de animação Uma história de amor e fúria levou o prêmio de Melhor Filme na mostra competitiva oficial do 53º Festival de Animação de Annecy, na França. Cesar afirmou que a conquista recente de Luiz Bolognesi abriu muitas portas para o que está sendo feito no Brasil. O presidente do júri disse um país do qual até bem pouco tempo não se ouvia falar, agora aparece aqui, com um trabalho muito bem feito, digno de um prêmio em Annecy. Foi mais ou menos esse o discurso. O prêmio veio em boa hora, antes até do que todos esperavam. Um reconhecimento ao Brasil como criador, o que indica a necessidade de se continuar investindo na produção autoral. É o que vai garantir a permanência da gente no mercado como criador, ele incluiu o tema como essencial para a mesa que se iniciava. Leopoldo Nunes (SAV MinC) Compartilhar ideias é bom, refletir e assistir às novas produções é animador e uma honra,

8 Gustavo Dahl, do Centro Técnico Audiovisual, um depósito de matrizes cuja construção levou quase dez anos. O Rio de Janeiro volta a ter espaço com capacidade para 100 mil latas, o que vem dar sentido à interligação entre diferentes instituições que estavam trabalhando de maneira independente. O nome devese ao fato de Gustavo Dahl ser o mentor da iniciativa. Foi ele quem decidiu fazer a reserva técnica, o que consideramos uma visão estratégica. A única certeza que se tem é que não devemos depositar todas as matrizes em um único local, mas em vários. A preservação veio com todas as novidades que a tecnologia vem permitindo. Estamos fazendo investimento alto em tecnologia gerada dentro das universidades públicas brasileiras, o que permeia toda a cadeia de preservação do audiovisual, explicou. Linha do tempo disse o Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Leopoldo Nunes, que fez uma saudação especial ao público: Vocês são a razão de estarmos aqui, disse. Leopoldo iniciou sua participação na mesa já abordando um tema considerado central. A questão autoral, segundo ele, é uma preocupação de longa data e conta com defesa constante nas ações do Ministério da Cultura: Sempre garantimos a produção autoral nos editais. É o espaço de experimentação, de revelação de novos autores, é o que revigora. Toda arte é resultado do defeito e da experimentação. Se não fizermos a produção autoral, a arte se torna estagnada. O consumo é uma faceta da maior importância, mas até mesmo os produtos de consumo são resultado do defeito e da experimentação. Tudo teve lá um início experimental, ele afirmou. Preservar, guardar, tratar, preservar e restaurar também são ações consideradas de primeira necessidade, Leopoldo aproveitou para anunciar a inauguração da Reserva Técnica Leopoldo iniciou uma retrospectiva sobre os momentos mais marcantes na história da Secretaria do Audiovisual e suas políticas para a animação. Desde o início, em 2003, quando foram lançados os primeiros editais, ainda experimentais, muita coisa mudou. Editais como Curta Criança, Anima TV, Curta Animação e Desenvolvimento de projetos, segundo ele, são iniciativas que contribuíram para impulsionar o negócio no país. O Meu Amigãozão, por exemplo, foi produto de uma pílula de um minuto, em uma parceria com a TVE. Um prêmio de R$ 10 mil, em um edital autoral, mas que tinha um recorte. A provocação o meu melhor amigo é permitia a revelação de personagens. Hoje, é um exemplo de projeto bem-sucedido, relembrou. Nessa mesma linha, estamos fazendo atualmente 40 projetos de R$ 15 mil. São filmes de um minuto, com um prêmio um pouquinho maior do que há dez anos, mas estamos permitindo a realização e experimentação dentro das condições econômicas que se tem. A criação da ABCA também foi relevante e

9 determinante para que o setor de animação de desenvolvesse em território brasileiro. A associação desempenhou papel fundamental principalmente pelas ações que desempenhou no campo da política, segundo Leopoldo. Por todos os lados, os desafios se impõem. Para animadores, produtores, e também para quem está do outro lado, na criação das políticas públicas. Refazer o percurso histórico da animação é importante porque ajuda na reflexão que o momento atual exige. A busca é por oportunidade de aliar as diferentes tecnologias e técnicas de animação, especialmente as mecânicas e analógicas dentro dos suportes digitais. Isso vai redundar em resultados e possibilidades absolutamente novos, defendeu Leopoldo. A realidade digital trará grandes benefícios em termos de criação e acessibilidade, mas é preciso pensar sobre a realidade refletir sobre o conhecimento acumulado da civilização. Não se está criando tudo agora. A cultura remix é uma realidade, mas não se cria a partir da cultura do remix. O remix pode ser comparado com a colagem, que já existiu no passado. Há muitas possibilidades de linguagem, mas é necessário conhecer os clássicos e as linguagens que redundaram as matrizes, os originais. É fruto de muita experimentação, erro e defeito, reflexão e pensamento, ele insistiu no ponto. No recorte dos desdobramentos e consequências do que vem sendo implementado em animação no Brasil nas duas últimas décadas, a criação do Fundo Setorial é emblemática no âmbito da política pública. Assim como a implementação da Lei , que impõe a criação de bons conteúdos. A gente tem uma possibilidade histórica de criar a demanda interna, o que permite uma chegada ao mercado internacional com um impacto que nunca se teve: com diversidade de títulos e linguagens, com oportunidades de novos negócios. E (estamos) muito mais preparados para a realidade do mundo globalizado do que estávamos dez anos atrás. Fomos atrás dos outros e fomos bem acolhidos. Houve conjunção de fatores e pessoas que permitiu esse salto, avaliou. E, pelo volume de produção que terá de ser gerado, o salto será ainda mais exponencial. A animação brasileira, para ele, já tem robustez. Produção digital para todos No âmbito do Ministério da Cultura e da Secretaria do Audiovisual, os frutos das iniciativas estão surgindo, assegurou Leopoldo Nunes. A ênfase na complementação dos Núcleos de Produção Digital (NPD) é um bom exemplo. Laboratórios de apoio à produção, aliados à cinefilia e baseados no conceito da experimentação e da inovação, os núcleos criados alguns anos atrás estão ganhando fôlego novo e destinos diversos. O plano atual é levá-los a todas as regiões do país e estimular a animação entre a população. Estar para os animadores da geração atual assim como o CTAV esteve para o grupo de jovens que, três décadas atrás, estava viajando para o Canadá e se tornando personalidade, defendeu Leopoldo, numa referência à turma que criou o Anima Mundi. Quando foram criados, os NPD s eram uma coisa singela em termos de equipamento de captação digital e em termos tecnológicos. Cerca de um mês atrás, um representante de Roraima disse que lá surgiram, no último ano, 15 produções em torno desses núcleos. Então, nossa meta é levar os NPD s a todos os estados. Isso vai permitir muito mais coisas, inclusive fomentar a animação fora dos grandes centros, afirmou. Com os núcleos, o objetivo é atender a uma política de base de formação de pessoas. Iniciá-las técnica e intelectualmente, mostrar como elas podem localizar no tempo e no espaço a sua realidade. Mas nem tudo se reduz ao esquema da tecnicidade. Precisamos dos técnicos, mas a formação pode ser mais humanística, envolver conhecimento de história das artes, do cinema, da animação, ponderou. No rol de novidades estão também os cursos de dramaturgia contemporânea, produção seriada para televisão e de preservação digital que serão oferecidos pelo CTAV. Vocês são

10 testemunhas e inauguraram essa vocação de formação incutida na missão do CTAV. Dentre os quatro segmentos que estamos lançando, há cursos curiosíssimos, como o de projeção em película. O CTAV está voltando aí também a um aspecto da sua essência e atividade. O setor cinematográfico é todo grato. Eu mesmo passei boa parte da minha vida ali, utilizando os equipamentos, afirmou ele. Para fechar a fala, Leopoldo lançou ainda outra questão: a relação da cadeia dos jogos eletrônicos com animação. Os jogos são um segmento de varejo, apesar de se utilizarem da banda larga, que fecha a conta super bem e é cada vez mais crescente. Já há a discussão de significados, de impacto cultural, por exemplo. Como esse setor e a animação se tangenciam? Cesar Coelho aproveitou para abrir um parêntese e lembrou que o joguinho Angry Birds, aquele dos pássaros enfezados criado pela empresa finlandesa Rovio, em dezembro de 2009, já foi alvo de 1,7 bilhão de downloads. Não é pouca coisa. Sérgio Sá Leitão (SMC/RJ e Riofilme) O Secretário Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e diretor-presidente da RioFilme, Sérgio Sá Leitão, tinha pressa. Pediu desculpas porque teria de sair logo após a abertura e não ficaria para o debate final. Mas adiantaria o que coubesse no seu tempo. O Anima Mundi coincidiu com a realização da Conferência Municipal de Cultura, ele justificou. O meu grande sonho de infância era ser como o Super Dínamo, um menininho japonês que tinha uma copia dele mesmo e, quando precisava salvar o mundo, mandava o robô para a escola, ele provocou risos da plateia ao lamentar não ter desenvolvido o dom da ubiquidade. Ao que interessa, avisou o secretário. Retornando ao panorama da animação brasileira traçado por Cesar Coelho, Sérgio Sá Leitão expressou otimismo diante do cenário atual. E usou uma metáfora conhecida, o copo meio cheio e meio vazio. Sempre prefiro ver os aspectos positivos, o que evoluiu e cresceu. Faço isso, até para não desanimar, ele disse como enxergava o copo. A evolução é visível, segundo ele. A animação saiu de um estado em que era feita por pouquíssimas pessoas, para consumo próprio ou para trabalhos universitários, para uma produção significativa como se vê atualmente, tanto na publicidade como para a televisão. No que diz respeito aos longas-metragens, ainda estamos engatinhando. Mas o fato é que já avançamos muito também do ponto de vista das políticas públicas. A partir de 2003, nós passamos a ter o reconhecimento da animação como um segmento importante, merecedor de políticas públicas especificas, ressaltou. Dez anos depois de quando começaram as ações do poder público para o setor, o momento é de encarar o desafio e resolver as faltas e pendências. Sem deixar de celebrar

11 o que foi feito, ou seja, constatar que o copo está meio cheio, é urgente fazer a reflexão: O que existe hoje foi o bastante para chegar aonde chegamos, mas não foi o suficiente para darmos o salto que precisamos. Do ponto de vista das políticas públicas, conseguimos e fomos bem-sucedidos no sentido de criar condições e estimular o setor para chegar aonde chegamos. Mas a avaliação que faço de tudo que fizemos até agora não é suficiente para encher a outra metade do copo. Em busca do grande salto Mas que salto é esse? O salto a que o presidente da RioFilme referiu-se, diz respeito ao momento único que atravessa animação no Brasil. Pela primeira vez na história da produção audiovisual brasileira, que se caracteriza pela sucessão de ciclos, estamos com a possibilidade, de fato, de nos transformarmos numa indústria estabelecida, com alto grau de impacto econômico e, sobretudo, sustentável e com grau de dinamismo muito grande. É uma possibilidade real. Obviamente, eu me refiro ao conjunto do setor, mas a animação está inserida ai, reforçou. Com um crescimento exponencial cerca de 30% de 2011 para 2012, o mercado de TV paga ultrapassou em volume de receita a TV aberta e passou a ser mais importante economicamente do que a própria TV aberta. Uma situação inimaginável até alguns anos atrás. Mas estou falando de um potencial. Temos a TV paga crescendo, a Lei regulando o setor e criando a demanda pelo conteúdo independente nacional, no que a animação aparece muito forte. Mas temos o Fundo Setorial que não anda. Os produtores sofrem com isso no dia a dia, mas o fato é que nós tivemos, até 2012, uma arrecadação do Fundo Setorial em torno de R$ 500 milhões. E quanto foi efetivamente desembolsado?, Sérgio Sá Leitão deu a resposta: Segundo a Ancine, até o final de 2012 saíram apenas R$ 39 milhões para serem aplicados na produção. Ou seja, menos de 10%. Este ano, até dezembro vamos passar a ter R$ 1,5 bilhão do Fundo Setorial. Esses recursos, é bom dizer, são extraídos da própria atividade, não é parte do bolo da arrecadação tributária geral do governo. A gente está falando de uma contribuição recolhida de uma série de atividades e negócios feitos no setor. E não somente no setor audiovisual, mas também no bolo das empresas de telecomunicações, expôs. É preciso, portanto, buscar o equilíbrio entre oferta e demanda para produção independente para TV paga. É fundamental que o Fundo Setorial deslanche, defendeu Sá Leitão. Segundo ele, para que isso ocorra, é preciso incorporar dois fatores igualmente urgentes: agilidade e cooperação com o poder público local. O Fundo Setorial deve passar a funcionar por meio de mecanismos automáticos, com critérios pré-concebidos e fluxo contínuo, não mais fazendo análise discricionária dos elementos artísticos do projeto. Isso contribuiria para casar a dinâmica com o mercado, ele explicou. As propostas já estão sendo encaminhadas pela RioFilme ao Comitê Gestor do Fundo Setorial. Já foram implantadas, em 2012, duas linhas de financiamento reembolsável automático. Uma voltada para produção independente de conteúdo para televisão, outra para produção de longas-metragens, ambas incluindo animação. No caso da televisão, é o clássico formato já estabelecido na Europa, em que para cada um real que o canal coloca no projeto de produção independente de série feita por produtora no Rio de Janeiro, a RioFilme coinveste mais um real. São dois mecanismos automáticos, republicanos, transparentes, com capacidade de desembolso de no máximo um mês, desde a entrada da documentação, contou ele. Está em análise a proposta feita ao Comitê Gestor para que o do Fundo Setorial seja

12 coinvestidor, nessas duas linhas, à base de dois reais para cada real investido pela Riofilme. Foi uma contribuição que demos para, de certo modo, destravar esse lado do investimento público. A gente hoje vive um descompasso entre a demanda dos canais e a capacidade de produção de conteúdo. E o que está gerando esse gap é a falta de investimento público, avaliou. Na lista de entraves, outro ponto importante, segundo Sá Leitão, é a estrutura, que inclui o custo de produção. O déficit ocorre em muitas frentes: mão de obra qualificada; infraestrutura, ou seja, de parque de produção e finalização, o que tem gerado custos; de profissionais; de equipamentos, já que os existentes custam mais. Nossos custos de produção estão muito altos se comparados aos de outros países. O que é maléfico não somente para nós, internamente, como diminui nosso poder de atração de parcerias internacionais. Isso é especialmente sensível no caso do longa-metragem. Porque se nós crescemos e nos estabelecemos na publicidade e na produção independente para televisão, nessa área ainda estamos engatinhando, disse. Trata-se, portanto, de um ponto fundamental que precisa ser enfrentado: Se não houver uma preocupação especial com esse assunto dentro das linhas de fomento, continuaremos na mesma. Ou criamos especificidades para garantir a produção de longa-metragem, ou não saímos da média de um filme por ano, um filme aqui, um filme ali, ressaltou. E enfrentar a questão, de acordo com Sá Leitão, não é apenas garantir linhas de fomento específicas para o segmento de longas-metragens. A gente está falando de uma questão mais ampla. Hoje, a forma de estruturação da atividade dá conta da demanda de produção independente para TV e para publicidade. Em geral, nós temos birôs de criação que contratam mais gente para produções especificas e encolhem quando o projeto acaba, ele comentou o funcionamento das empresas consideradas sanfona. O modo de produção que funciona para televisão e publicidade, Sá Leitão sustentou, não é adequado ao longa-metragem, dadas as muitas exigências de um mercado ultracompetitivo. A excelência da produção no longametragem deve estar em todos os seus aspectos. É preciso avaliar a qualidade e também o custo. Não adianta dizer que vamos fazer um longa-metragem e que ele custará R$ 20 milhões, se não sabermos onde conseguir esse dinheiro. Acho que é necessário que a gente (Secretaria de Audiovisual, Ancine e Riofilme) pare e desenvolva um programa especifico para desenvolvimento da animação no Brasil, disse ele, ao questionar o que vem nesta segunda etapa que se anuncia e em que o longa-metragem aparece como estratégico. Não se trata apenas de oportunidade de desenvolvimento de um setor que vai gerar renda e emprego. Isso é importante, mas não é só. No que diz respeito à animação infantil, estamos falando do nosso mercado em relação aos corações e mentes do nosso público, das nossas crianças. Hoje nós entregamos, sem nenhuma resistência, um terço do faturamento em salas de cinema no Brasil para as major. Ano passado, o mercado faturou R$ 1,8 bilhão e um terço dessa receita foi de animações infantis, sobretudo as americanas. E nós não competimos. É curioso, porque nós competimos, e muito bem, nas comédias. O Brasil é muito competitivo. Se isolarmos o segmento da comédia na bilheteria, vimos que as brasileiras têm mais market share que as estrangeiras. Mas, no caso da animação, a gente abriu mão de competir. E estamos falando das crianças, de um público que consumirá ou não o conteúdo brasileiro durante toda a sua existência. Isso é algo que realmente me preocupa. E aí, volto a olhar para o copo meio vazio, ponderou. O momento é chave e exige pressa. Como se resolve a questão do longa-metragem? Como dar conta da demanda que já existe para televisão? Responder a essas perguntas de modo assertivo é fundamental para que a animação não perca a oportunidade evidente.

13 É preciso estar à altura dessa oportunidade. Precisamos nos preparar para isso. Faço um apelo aos demais órgãos públicos e demais interessados: nós precisamos sentar para definir uma política, programa e conjunto de ações específicas para animação, focando especialmente no longa-metragem e em formas de se aproveitar a produção para TV. Se não, talvez nós desperdicemos a maior oportunidade da história da indústria audiovisual brasileira. É tarefa de todos nós não deixar que isso aconteça, finalizou. Cesar Coelho assentiu, agradeceu a participação de Sérgio Sá Leitão e fez um anúncio de um projeto que está sendo desenvolvido pelo Anima Mundi e o Ministério da Cultura, com foco em treinamento e desenvolvimento de ponta. A gente vai realizar, em conjunto com uma escola japonesa e a dinamarquesa Animation Workshop, uma das maiores escolas de animação do mundo, uma oficina de conteúdo para animação. É uma iniciativa que vai reunir três estruturas e três culturas, brasileira, europeia e japonesa. Serão duas semanas em que vão ser desenvolvidos conceitos para produtos comerciais de animação, como séries, longas e microsséries, anunciou Cesar. Na empreitada, cinco artistas brasileiros viajarão, com tudo pago, para a Dinamarca, onde terão palestras e aulas com os melhores profissionais do ramo. É pra já, começa a convocação para os artistas que quiserem participar. Haverá uma triagem, obviamente. Faremos um website internacional, nas três línguas. É uma oportunidade maravilhosa. Trata-se de um piloto, uma primeira, que depois será mais ambiciosa no sentido de trazer esse treinamento pra gente, aqui no Brasil, o recado foi dado. Kiko Mistrorigo (ABPITV) Kiko Mistrorigo, da ABPITV, já perdeu as contas de quantos Anima Forum presenciou. E a cada vez que comparece há mais para contar, discutir, aprender. Na edição de 2013, começou animado. Recém-chegado de um evento internacional, ele estava cheio de orgulho do que estão dizendo da animação brasileira lá fora. Olhando para trás, a gente vê quanta coisa aconteceu desde então. E tudo aconteceu muito rapidamente. A gente está num momento super interessante no Brasil. Acabo de chegar de um evento na Inglaterra, no qual os animadores e produtores britânicos se encontram com os canais de TV. A gente olha aquilo e pensa puxa, que legal, eles se encontram anualmente. Vendo a organização da comunicação, senti uma inveja saudável desse encontro regular, do mercado mais organizado. Por outro lado, estava lá a Vera Zaverucha, representando a Ancine, e vi que o fato de a Lei do cabo ter entrado em vigor mostrou para o mercado internacional que a gente está aqui como parceiro, não como mero espectador. Eles começaram a nos encarar de maneira mais respeitosa e não vêm mais com aquelas propostas indecorosas com que nos abordaram nos últimos anos, contou.

14 Os brasileiros seguem entusiasmados em busca de aprovação no mercado internacional. Mas um pouco mais de orgulho pode fazer bem. Muitas vezes eu ouvi animador dizer puxa, o canadense adorou o meu projeto. Mas o canadense faz um produto igual a nós. Isso ainda é um reflexo do nosso complexo. A Vera (Zaverucha) apresentou todos aqueles dados e os ingleses ficaram embasbacados porque não têm mais para onde crescer. Eles olham para o Brasil e o nosso mercado com possibilidade de crescimento gigante de TV por assinatura, e ficam loucos, Kiko brincou que, obviamente, a apresentação feita pelos brasileiros não revelou detalhes negativos. Claro que a gente não conta que aqui não se faz as coisas em longo prazo. O único longo prazo que conhecemos é o longo tempo que Fundo Setorial leva para chegar até nós (risos). De tudo isso, a gente não falou, mas a leitura inglesa foi muito interessante. Você vê tanta coisa e fica orgulhoso, porque a gente tem oportunidade enorme de fazer nossa animação funcionar, emendou. Para inglês e quem mais quiser ver A fala entusiasmada veio com outras lembranças. Como o primeiro MIPCON do qual Kiko Mistrorigo participou, quando a maioria das empresas ainda vivia de publicidade, no ano de Naquela época, você dizia Ah, também faço conteúdo. A gente usava essa expressão. E conteúdo não é só virar um botãozinho e de repente começar a fazer. Em publicidade, o filme tem de ir ao ar no dia seguinte, e eles pagam dali a 30 dias. É muito rápido, comparou. Ao contrário, a aventura do projeto próprio exige tempo. Quem conseguiu fazer uma série de animação sabe o quanto é lento. Mas essa velocidade teria de aumentar. Conceitualmente, o Fundo Setorial é sensacional, porque ele passa uma grande responsabilidade para o produtor. Tem um grau enorme de empreendedorismo para a empresa que requisita o investimento e isso tudo é interessante. Kiko Mistrorigo ostenta um dos exemplos mais conhecidos de persistência e êxito com o projeto próprio. Com o Peixonauta, ele disse que já sofreu o que tinha de sofrer: A gente sofreu tanto, que hoje não se sofre mais tanto. Na época, não existia nenhuma lei na Ancine que cobrisse obra seriada em geral. A gente estava começando a conversar com o BNDES sobre a atividade no Brasil. E o conselho que a gente teve foi que juntássemos alguns episódios e entrássemos no edital do longa-metragem, que existia. Quem pôde sanar nosso buraco foi o BNDES. A empresa foi obrigada a passar por uma série de análises que até então não tinha passado. Foi uma aula de como cuidar e gerir uma empresa. Isso a gente usa até hoje, relatou. Ser dono de empresa tem dois lados e não é tarefa para todo mundo, ele reforçou. É muito difícil. Primeiro, a gente para de desenhar. Não tem jeito, você tem de cuidar da empresa. Segundo, nem todo mundo tem paciência para esperar cinco anos por um projeto inscrito no Fundo Setorial. Muitos colegas acham que têm de ter projeto autoral. Não penso assim. Acho que eles estão se frustrando, perdendo dinheiro e tempo, afirmou ele, em franca defesa da coprodução nacional. A gente fez o Peixonauta junto com o estúdio Belli, de Florianópolis. E deu tudo certo, a relação foi ótima, foi uma ideia super legal e ficamos super amigos, elogiou os parceiros. Se a coprodução funciona, a ideia de desenvolver o mercado em lugares mais distantes já não o anima. É muito complicado. Se o nosso exibidor é a TV a cabo e o mercado é animação, a gente tem concentração nas grandes cidades. É inevitável, nesse momento, que os produtores ou os criadores mais distantes estabeleçam um diálogo com as produtoras que já estão mais estabelecidas. Isso é muito mais plausível para viabilizar a animação mais imediatamente, ressaltou.

15 Que se tomem atitudes O mercado de animação vai bem, obrigado, e a forte demanda por mão de obra é sinal de crescimento do setor. O poder de atração é forte. Animação, segundo ele, é uma profissão imediata. A gente conseguiu, em algumas ONGs de São Paulo, introduzir a ideia de formar animadores. A atividade de animação gera uma linha de produção, é fascinante para qualquer criança. Não necessariamente você precisa saber desenhar ou ser um criador. Em animação, você é um técnico. Isso é uma coisa que a gente vai gerenciando dentro da produtora, afirmou ele. É preciso, a partir de agora, pensar mais em longo prazo, defendeu Kiko. Investimento em projeto, não em produto final. Que se façam editais, concursos em que se desenvolvam 20 projetos e se realizem dois, não sei que mecanismos a gente pode usar, mas tem de ser pensamento em longo prazo. Da mesma forma é preciso pensar sobre o patrocínio, que deveria ter contratos mais extensos. É um pensamento que deve ser aplicado a tudo. No Brasil, ainda perdura a ideia de imediatismo nos resultados. Se eu fizer as contas, foram nove anos para fazer o Peixonauta. Hoje eu não teria essa paciência de ficar pensando em uma coisa que fosse ao ar depois de tanto tempo, com todos os riscos que eu corri. A ideia é essa. Longo prazo, mesmo. Não é médio, é longo. Se a gente pensa num futuro próximo, tem de pensar num longo prazo para esse futuro. Rosária (ABCA) A tarefa de Rosária, atual presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação foi explicar o que está sendo feito em prol dos animadores, da animação e do setor como um todo. Não à toa: com mais de 350 associados, a ABCA completa dez anos em Representatividade foi o mote da criação da ABCA, Rosária começou. A associação nasceu pela necessidade de organização de um setor que movimentava muita gente, mas não promovia conexões. Já existia uma produção espalhada pelo Brasil e as pessoas que estavam fazendo já se conheciam. Mas elas precisavam se organizar e se sentirem representadas em diversas situações, diante dos órgãos do governo, por exemplo, ela explicou o surgimento e as atribuições da associação: A gente batalhou por editais, por direitos. Há dez anos, a gente trabalha para tentar representar cada vez mais esses profissionais. Uma das principais preocupações da ABCA é a produção autoral. Segundo Rosária, é esse o equilíbrio que está faltando ao mercado como um todo. O que falta para encher o copo de que tanto falaram até agora é a gente conseguir não parar de trabalhar. Falaram aqui sobre déficit de infraestrutura e de mão de obra e, absolutamente, não concordo. Vejo uma leva inteira de profissionais com necessidades que não estão sendo consideradas, afirmou.

16 Falta espaço para o curta, falta espaço para a experimentação, falta possibilidade de crescimento real aos profissionais. A gente precisa trabalhar, precisa ter o dinheiro, mas falta escola. O curta é escola para todo mundo. É o que fez o estúdio grande estar lá, o que fez o cara que está gerenciando o estúdio grande, que já teve a experiência do curta, inevitavelmente, afirmou ela, em defesa de formação de excelência e variada. É preciso gente nova, mas é preciso, também defendeu ela, mirar mais adiante. Essas pessoas novas, daqui a cinco anos, não vão ter formação. Quem está formando o pessoal que chega é quem já está lá. É muita gente chegando, muita gente para formar, mas tem um pessoal no meio que não vai ser absorvido. E é isso que está nos estagnando. A resposta à escassez de produção de longas-metragens, segundo Rosária, não se resume ao investimento. A gente precisa de excelência em geral, para se habilitar a fazer o longa. Não adianta formar profissionais para atender a um método só de trabalhar. É lógico que temos de manter o que já foi desenvolvido, mas falta o crescimento dos profissionais que estão ali. Você não tem para onde manda-los. A urgência maior, Rosária finalizou, é continuar o edital de curtas, o que garante independência. O curta é a formação mais completa, a que dá mais inspiração, é onde há mais troca, e a gente trabalha com quem a gente escolhe. Resumo do dia Cesar Coelho realçou o consenso geral de que a animação está mudando de fase. A luta já não é mais pela sobrevivência, ninguém mais vende almoço para garantir a janta, ele brincou, ao fazer uma retomada do que foi tratado pela mesa. É preciso pensar uma estratégia sólida, competente e ambiciosa para o setor. planejamento estratégico de longo prazo, mudar o escopo dos planejamentos. Isso, para os estúdios de animação, sejam médios ou grandes, é questão de sobrevivência. Ou não se conseguirá desenvolver um parque industrial consistente de animação. O que acontece agora é que você começa projeto, treina equipe, acaba projeto, perde a equipe. Temos de pensar em agregação, ou seja, treinou a equipe, no próximo projeto melhora essa equipe. Mas para isso temos de pensar em longo prazo. Também é importante investir em qualidade, em treinamento, na formação da base. Assim como manter arquivos para preservar a história e ter esse material disponível para consulta e retrospectivas. Quem está na ponta da produção não pensa muito nisso, mas é também estratégico, resumiu Cesar. Leopoldo Nunes retomou a palavra para anunciar outras medidas da Secretaria do Audiovisual, além do edital de curtas. A gente está retomando o Curta Criança Animação, voltado para infância, mas de filmes autorais, de invenção pura. Além disso, estamos criando um curso de animação que será implantado no CTAV, que ainda será discutido com a ABCA. São políticas que a gente já executou em outros anos com bastante êxito, daí a retomada, finalizou. Kiko Mistrorigo também assumiu a defesa dos curtas. Tem várias pessoas que trabalham conosco cujo o teste foram os curtas. É fundamental que continuem existindo os incentivos. É a hora em que você descobre o que tem de talento de verdade dentro de você, disse. E que o Brasil deixe de ser novidade para o mercado internacional, prosseguiu. A animação tem de ser pensada de forma globalizada. Nossas séries e longas vão ter de rodar o mundo para fechar a conta. O Brasil está deixando de ser novidade. Nos primeiros MIPCON, o Fernando Meirelles era a referência para se falar de Brasil. Agora, A história de amor e fúria é o novo marco, fechou a fala. É muito importante pensar e começar a ter

17 Conversa com a plateia A primeira pergunta da plateia veio em forma de constatação: todos já assumem que existe uma indústria da animação no Brasil. Tanto que já existe cobrança por gestão e outros ajustes e incrementos nessa indústria. Assumindo que se tem uma indústria e que esse é um começo difícil, do que essa indústria mais precisa nesse momento? Para Leopoldo Nunes, demanda e mercado interno existem. Temos de produzir bastante para cumprir as cotas exigidas dentro do acesso condicionado da TV paga. Posto isso e comprovada a profusão de talentos, a questão crucial é a formação, a preparação para o futuro, o encontro com o conhecimento, a troca de experiências com outros povos e linguagens. Estamos diante de uma realidade que talvez não seja um mero ciclo e, de fato, a gente entre numa rota de desenvolvimento. Inclusive por uma questão de necessidade de soberania e afirmação da língua, é essencial garantir a formação. Além de aprimorar o Fundo Setorial e os mecanismos automáticos, respondeu Kiko Mistrorigo, faltam produtores executivos. A gente tem necessidade de pessoas que vão viabilizar as ideias. Muita gente tem ideias, o que falta é viabilizá-las. Falta quem vai colocar o projeto de pé, o que o mediador Cesar Coelho corroborou: Produtor executivo de animação no Brasil é uma joia raríssima. Segundo Rosaria, é preciso formação, mas não formação básica. O que você vai fazer com mais 30 pessoas que chegam ao seu estúdio com uma formação básica? Daqui a pouco, quem vai receber essas pessoas? Obviamente, a longo prazo, só se baixa a qualidade e fica tudo mais ou menos igual. Tenho amigos que trabalham em vários estúdios e todos estão no mesmo nível técnico e utilizando o mesmo método. Não há muita escolha, tanto faz trabalhar em um estúdio ou em outro. A formação pode trazer o diferencial, abrir possibilidades para quem entra no

18 mercado saber que essa é uma indústria em funcionamento. Cesar Coelho, já concordando com a necessidade de capacitação, explicou o cenário: Tem o pessoal que já é animador profissional e o pessoal que está entrando. Falta o pessoal do meio, o animador formado, mas ainda sem muita experiência. E quem é animador formado, precisa aprender também. A gente aprendeu muito as próprias custas, foi autodidata e é carente de formação de alto nível, o que não tem no Brasil. Formação, ele repetiu. O amadurecimento da indústria de animação no Brasil vai depender também de paz, pontuou Cesar. É preciso paz financeira, acabar com o meu Deus, como vou pagar? Paz para poder errar. Oito anos, o tempo do Amor e fúria, é um tempo longo. Mas, para longa-metragem, não é tão absurdo. Até a Disney já levou dez anos para terminar um filme. A média de produção normal é quatro anos, mesmo na Pixar. Acontece que os caras demoraram oito anos porque tiveram de parar no meio do caminho. É muito tenso isso. A gente tem de acertar no primeiro tiro. Mudar isso será um pouco de consequência do planejamento de longo prazo, completou. Não discordando, Leopoldo Nunes, respondeu com uma explicação didática do primeiro movimento de fomento feito no Brasil, no final da década de 1960, que repercutiu e influenciou o cenário atual. Em franca ditadura militar, o senhor Reis Veloso criou a Contribuição para Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica (Condecine). Ele foi o responsável por toda a transversalidade da cadeia do audiovisual, econômica e não econômica. Foi colocado ali um mecanismo de fomento que financiou tudo que está no imaginário das pessoas até hoje, desde a Embrafilme, inclusive o CTAV. O imposto durou até A canetada do Collor, que acabou com tudo, acabou também com o repasse desse recurso. O que houve agora, com o Fundo Setorial, foi retomar esse imposto, aprimorá-lo, para poder arrecadar em cima das empresas de comunicação, o que permitiu que se criassem espaços, as demandas dentro da TV por assinatura, do acesso condicionado, com metas a serem cumpridas, esmiuçou. Explicada a origem, a figura do produtor executivo, segundo Leopoldo, só faz sentido dentro de um contexto que inclui a ação política setorial. Nos últimos dez anos, fizemos mais longas que em toda história do século XX. E, no entanto, esses filmes não tiveram mercado. Tiveram mercado os que estavam dentro da televisão por assinatura. É importante ressaltar que o produtor executivo é uma consequência de uma demanda gerada pela política setorial, que faz com que as coisas existam. Poucos anos atrás, a gente se deslumbrava, aqui no Anima Mundi, com a diversidade de animação que o mundo todo produz. E você liga a televisão e vê aquele lixo hegemônico, aquela miséria cultural, inclusive uma produção extremamente neurotizada para a infância. Era quase tudo assim até recentemente. Então, houve mudança substancial na aplicação das políticas, o que era uma demanda nossa, da classe setorial. Nós fomos lá, brigar, normatizar, regular e, inclusive, recuperar dinheiro para poder financiar nossa atividade. Mas, em qualquer outra parte do mundo não é comum a política de fomento. Os EUA, maior sinônimo de mercado, não têm política de fomento. Lá, você paga e esse pagamento gera um outro bem. Era assim no Brasil antes de A Vera Cruz quebrou e fechou para pagar as contas com o Banespa. O Cinema Novo foi financiado por um banqueiro que patrocinava diretamente os filmes. Há uma série de realidades, hoje, e é preciso ter um referencial histórico para que as pessoas não pensem que o mundo foi criado dessa forma. A gente foi abrindo a marretadas, concluiu. O cinemão americano já produz filmes pensando nos produtos derivados. O quanto se consegue já elaborar isso no projeto? Ainda dá para explorar esse filão no mercado brasileiro? Kiko Mistrorigo Obviamente, quando a gente faz o plano de negócios, há uma estimativa

19 de quanto se pode arrecadar com o mercado de licenciamento, que parece uma grande solução, mas pode ser bom e também mais ou menos. A prateleira é uma só e o espaço é finito. Os americanos pensam em licenciamento porque terão retorno mundial. A gente ainda está engatinhando nesse sentido. No mercado americano, o licenciamento gera volumes de dinheiro enormes. A gente olha com desejo, mas não chegamos nem perto. Um dia, se a gente tiver um hit mundial, talvez consiga contratos que vendam no mundo inteiro. O grande dilema é: vende por que está na vitrine ou está na vitrine porque vende? O que a ABCA está pensando sobre o curta como escola, sobre a necessidade de convencer o público de que o produto nacional pode ser bom? A lei do curta está empacada. O que o Minc está fazendo? A ABCA pensa nisso como mais uma janela, ou é assunto morto? Leopoldo Nunes Com a criação da Lei Rouanet, foi tirada a sanção da lei do curta. Não acabaram com a lei, mas tiraram a sanção. No Congresso, você vai lidar com o lobby dos exibidores, por exemplo, que é bastante forte, já que eles são um dos tripés da existência do cinema. Eles argumentam que a bomboniere, que virou espaço publicitário antes do longa, representa 40% do faturamento de um filme. A argumentação é que impor o curta seria um retrocesso. A lei do curta não existe. Se ela existe é só colocar a sanção nela para voltar a ser aplicada. É uma questão caótica de se enfrentar do ponto de vista legal. Por outro lado, os formatos curtos são atraentes para novas mídias. Nesse ambiente de convergência, ele se afirmou. O que era o Curta um Curta vai virar um canal, como acontece em outros países. O curta é um formato útil e necessário para a televisão também. Você tem uma oferta de títulos para estoque muito grande e o uso depende muito da criatividade de quem dirige e opera a televisão. As pessoas, no entanto, são muito conservadoras. As emissoras praticamente reproduzem a grade da Rádio Nacional, criada nos anos Com o advento da internet, você começa a ver de novo a coragem de experimentar também na programação e na forma de interação com o público. Sempre defendi o curta como mercado, como economia. Tenho argumentos de sobra para defender sua viabilidade. Rosaria O assunto ainda não está na pauta da ABCA. Hoje, mais preocupante, até pelo que está acontecendo, é que a gente esteja fazendo. Considerando a arte e a identidade cultural, qual o caminho que se está tomando? O que as pessoas do lado de fora do Brasil, que estão vendo o florescimento da animação brasileira, estão buscando na gente? Franca, EUA, Espanha, Japão, cada um tem sua identidade. O que pode nos levar a pensar uma animação brasileira? Kiko Mistrorigo Não sei o que estão buscando na gente, são manifestações espontâneas. Todo projeto passa por um crivo de mercado. Sempre conto que nos eventos em que os canais se apresentam para os produtores, você leva o projeto e ele olha e diz não vai dar. O cara não quer correr o risco de botar no ar mesmice e falta de ousadia. Até a TV a cabo botar suas séries no ar, ninguém acreditava. O argumento da Sky para a Lei da TV paga era que os brasileiros vão ter de engolir lixo produzido no Brasil. Mas há uma subida de audiência na hora de exibição dos produtos brasileiros. Isso significa que a gente tem um espaço. Não tem como programar, é uma coisa absolutamente espontânea. Mas é certo que a gente pode fazer produtos de alta qualidade. Cesar Coelho A gente vê, no Anima Mundi, 1500 filmes por ano, e frequenta festivais internacionais. O que identifica a animação brasileira? Não sei, também. Mas a gente está em início de processo, entrando em um mercado de 80 anos. A gente está entrando agora e de várias maneiras. A História de amor e fúria é um filme de adultos. O Peixonauta é outra coisa. O fundamental

20 Que tal aproveitar o SEBRAE para formar os capitães e não apenas os marinheiros? Aproveitar os especialistas para pensar a questão da gestão executiva? Cesar Coelho O SEBRAE tem muito interesse em conhecer o mercado da animação. Essa relação com o Anima é uma troca. A gente está dando a eles o conhecimento de uma área que até então eles não conheciam, mas têm muito interesse em entender e atuar. nessa questão é que a gente começa a criar vínculos. Quando se começar a falar de Brasil, não vão mais se lembrar do (Carlos) Saldanha ou do (Fernando) Meirelles. Vão lembrar-se de animação brasileira mesmo. A gente está começando a criar uma reputação e isso é mais importante que estilo. É importante ter um festival com respeito internacional. As pessoas te reconhecem por valores inerentes àquela atividade que você exerce. E os games? Como encaixar a animação dentro de outros setores da arte e da cultura pop? Kiko Mistrorigo Os games, lógico, todos nós queremos. É um grande mercado do qual cada vez mais se fala. O mercado lá fora é duro e a gente está tentando entrar de uma forma diferente. No Brasil, sempre tem alguém fazendo alguma coisa de game em algum lugar. A gente vai entrar nessa de cabeça, fatalmente. Leopoldo Nunes O SEBRAE é uma instituição de excelência e sempre aberta a acolher novas propostas. Criamos um programa internacional de exportação junto com a PEX e o SEBRAE. A gente trabalha de forma alinhada: MEC, MINC, SEBRAE, MCTI, enfim, todos que atuam com formação, inovação e tecnologia. Temos 12 NPD s, os Núcleos de Produção Digital voltados para a formação em configuração digital. São 12 centros espalhados pelo país. Cada um recebe uma pequena quantia de recursos para formação. São R$ 80 mil para apoiar ações já existentes, e existe uma cota para animação. Estamos criando cinco novos NPD s, com R$ 200 mil. Estamos trabalhando também com o MEC em um projeto chamado Universidade das Artes, que vai realizar um mapeamento das universidades e institutos federais. Estamos trabalhando. Quais os editais atuais para curtas autorais? Pessoas físicas podem participar? Existe uma proposta de ciclos de oficinas ABCA/SAV? Leopoldo Nunes Primeiro nada que se fala é excludente, tudo é complementar. Comercial, não comercial, autoral e linguagens formatadas. Um gera emprego, o outro renova a linguagem. No organograma do Ministério da Cultura, o papel da Ancine é regulação para coibir abusos e estabelecer regras de coexistência. E tem o financiamento de fomento. Haverá edital de curtas, serão 11 editais para usar os recursos até o fim do ano, e também o edital de longa de baixo orçamento. Todos garantem total diversidade de expressão, o que tem de ser absolutamente

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