UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Fabiana Vanini RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO

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1 UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Fabiana Vanini RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO CURITIBA 2010

2 2 RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO CURITIBA 2010

3 3 Fabiana Vanini RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO Monografia apresentada ao Curso de Direito da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em direito. Orientador: Professor Renato Luiz de Avelar Bandini. CURITIBA 2010

4 4 TERMO DE APROVAÇÃO Fabiana Vanini RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR NO ACIDENTE DE TRABALHO Esta monografia foi julgada e aprovada para a obtenção do título de bacharel no curso de Direito da Universidade Tuiuti do Paraná. Curitiba, de de Curso de Direito da Universidade do Paraná Orientador: Prof. Renato Luiz de Avelar Bandini Universidade Tuiuti do Paraná

5 5 AGRADECIMENTOS Ao Professor Renato Luiz de Avelar Bandini, meu orientador, por todo o apoio e incentivo dispensados durante a realização desta pesquisa; A todos os demais professores e colegas que colaboraram direta e indiretamente para a conclusão deste trabalho.

6 6 DEDICATÓRIA Primeiramente, a Deus que me deu o dom da vida, agraciando-me com este momento tão especial. Aos meus pais, que sempre estiveram ao meu lado nos momentos fáceis e difíceis, sempre incentivando, apoiando, mostrando-se presentes e por muitas vezes, abdicando de momentos de lazer, de sono e tranqüilidade em meu proveito. Aos meus irmãos, Fábio e Fernanda, que sempre estiveram ao meu lado nesta caminhada, incentivando-me nos estudos. Aos meus avós, presentes ou não, que certamente vibram comigo neste momento de vitória. Aos meus filhos, Felipe e Rafael, pela paciência, de me acompanharem primeiramente na barriga durante a gravidez, que depois de um dia de trabalho, a noite a faculdade, onde às vezes as aulas foram cansativas, e depois quando nasceram, que por muitas vezes aguardavam a mamãe chegar em casa para dar um cheirinho e depois dormir. E ainda, nesta fase de redigir a monografia, que inúmeras foram as vezes que queriam escrever, ler meus livros, rabiscar, e não entendiam, por que a mamãe não podia dar atenção que eles mereciam, porém tenho a certeza de que quando crescerem irão compreender. Ao meu noivo Julio, que esteve comigo em muitos momentos difíceis, sempre me apoiando e me dando palavras de incentivos aos estudos, ouvindo minhas lamúrias, e a tão esperada conclusão deste estudo. Agradeço, enfim, a todos aqueles que participaram da minha vida acadêmica e que de forma direta ou indireta contribuíram para que este sonho se tornasse possível.

7 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO EMPREGADOR CONCEITO EMPRESA SUCESSÃO DE EMPREGADORES Espécies de sucessões Situações tipo de sucessões Situações tipo: novas de sucessão Requisitos da sucessão trabalhista Transferência de unidade econômico jurídica Continuidade na prestação laborativa Efeitos da sucessão trabalhista Posição jurídica do sucessor empresarial Posição jurídica do empregador sucedido Cláusula de não-responsabilidade O ACIDENTE DE TRABALHO HISTÓRICO DAS LEIS ACIDENTÁRIAS CONCEITO DE ACIDENTE DE TRABALHO REQUISITOS Causalidade Prejudicialidade Nexo causal ou etiológico ESPÉCIES LEGAIS DE ACIDENTE DE TRABALHO Acidente tipo DOENÇAS OCUPACIONAIS Conceito Modalidades de doenças ocupacionais Doença profissional Doença de trabalho Doenças provenientes de contaminação acidental Outras hipóteses NATUREZA JURÍDICA NORMAS DE SEGURANÇA DE TRABALHO Organização Internacional do Trabalho Convenções da OIT e sua eficácia jurídica A saúde do trabalhador e suas principais convenções Princípios Constitucionais e Normas Infraconstitucionais vinculados ao acidente de trabalho Proteção a saúde sob enfoque constitucional RESPONSABILIDADE NA REPARAÇÃO POR ACIDENTE DO TRABALHO RESPONSABILIDADE CIVIL ASPECTOS HISTÓRICOS Conceito Responsabilidade Civil Abuso de direito como fundamento da obrigação de indenizar O ilícito como fato gerador...52

8 Teoria da graduação da culpa ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL Responsabilidade Civil subjetiva e objetiva Risco Proveito Risco Profissional Risco de Autoridade Risco excepcional Risco Criado Risco integral RESPONSABILIDADE CRIMINAL CAUSAS EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL DANOS DECORRENTES DO ACIDENTE DO TRABALHO Danos materiais Dano emergente Lucro cessante Danos morais Aferição dos danos morais Valor da indenização Dano estético Cumulação com danos morais Requisitos para responsabilidade indenizatória A INTERPRETAÇÃO DO ART. 7, INCISO XXVIII DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE CONSIDERAÇÕES FINAIS...84 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...86

9 9 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como finalidade apresentar um estudo sobre a relevância e a complexidade de um tema atual que é a Responsabilidade Civil do Empregador no Acidente de Trabalho. Este estudo se aterá, mais propriamente, à Responsabilidade Civil, consagrada em definitivo no direito brasileiro pelo Código Civil de 2002 e na Constituição Federal de O Código Civil de 1916 era essencialmente subjetivista, pois todo seu sistema estava fundado na cláusula geral do art O novo código de 2002, fez uma profunda modificação nessa disciplina, para ajustar-se à evolução ocorrida na área da Responsabilidade Civil ao longo do século XX. Embora o novo código tenha mantido a Responsabilidade Subjetiva, ampliou a opção pela Responsabilidade Objetiva, tendo em vista as tão extensas e profundas cláusulas gerais que a consagram, tais como o abuso de direito elencado no art. 187, o exercício de atividade de risco ou perigosa, elencado no parágrafo único do art., 927, danos causados por produtos, no art. 933, sobrando muito pouco para a Responsabilidade Subjetiva. Antes do atual código, outros diplomas legais já haviam inovado no aspecto objetivo da Responsabilidade Civil. Nestas leis especiais a teoria da Responsabilidade Objetiva está expressa de forma evidente, verificando-se assim, a vasta legislação sobre acidente de trabalho. Com isso, a teoria da responsabilidade sem culpa foi ganhando espaço primeiramente em casos específicos, sendo assim, o atual código civil sofreu grande influência, pois proporcionou o entendimento de que a teoria da responsabilidade objetiva efetivamente incorporou-se ao direito pátrio.

10 10 1. O EMPREGADOR 1.1 CONCEITO Ao analisarmos o artigo 2, caput, da CLT, vemos que o mesmo nos traz um conceito de empregador, o qual para nosso estudo do tema se faz necessária análise, vejamos: Art. 2 - Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação de serviço. 1 Argumenta DELGADO que Tratando-se de conceito estritamente relacional, a caracterização da figura do empregador importa na simples apreensão e identificação dos elementos fático jurídicos da relação de emprego, aduzindo-se que o tipo legal do empregador estará cumprido por aquele que se postar no pólo passivo da relação empregatícia formada. 2 Segundo entendimento firmado pelo doutrinador colacionado acima, o termo empresa, expresso no artigo 2 da CLT estaria tecnicamente equivocado, tendo em vista que, para a caracterização do empregador, bastaria a análise da existência ou não do vínculo empregatício havido entre as partes. O artigo 3 da CLT, trata por sua vez do vínculo empregatício: Art.3 - Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. 1 BRASIL. Decreto lei n 5.452, de 1º de maio de Aprova a consolidação das leis do trabalho. Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452.htm. Acesso em 15 de março de DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 6. Ed. São Paulo: LTr, 2007, p.393.

11 11 Sendo assim, seguindo esta linha de pensamento, para efeitos conceituais, será considerado empregador quando, em havendo subordinação, não eventualidade e salário, indiferentemente da pessoa que a contrata, seja ela física ou jurídica EMPRESA Segundo MARTINS, empresa pode ser definida como: A empresa é a atividade organizada para a produção ou circulação de bens e serviços para o mercado, com fito de lucro. O essencial em qualquer empresa, por natureza, é que ela é criada com a finalidade de se obter lucro na atividade. Normalmente, o empresário não tem por objetivo criar empresa que não tenha por finalidade o lucro. A exceção à regra, são as associações beneficentes, as cooperativas, os clubes, etc. Lógico também que a empresa pode ter por finalidade a obtenção de outros fins, mas o principal é o de alcançar o lucro; mas também é possível dizer que a finalidade principal da empresa não é o lucro, pois este constitui o resultado da atividade empresarial. 3 expõe: Ainda, para efeitos de conceituação à luz do direito comercial, REQUIÃO [...] é o complexo de bens materiais e imateriais e relações jurídicas que se reúnem como um todo unitário, em função dinâmica e finalidade econômica fixadas por seus titulares. É a organização dos fatores de produção (bens, relações, direitos e obrigações) a serviço de um fim econômico previamente definido. 4 Não obstante o empregador não seja a empresa, esta e o estabelecimento comercial possuem grande significado no direito do trabalho, pois em diversas oportunidades, como na caracterização do grupo econômico, ou mesmo da sucessão de empresas, o complexo de bens materiais e imateriais acentuam a integração objetiva da relação de emprego. 3 MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do trabalho. 23. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p REQUIÃO, Rubens. Curso de direito Comercial. 1 Volume, 22ª ed., São Paulo: Saraiva, p.57.

12 12 Em termos de conceito, não importando sua classificação para o estudo do direito do trabalho, as empresas poderão ser nacionais ou estrangeiras, locais ou regionais, públicas (devem seguir normas específicas para contratação) ou privadas, unipessoais ou coletivas, nacionais ou multinacionais SUCESSÃO DE EMPREGADORES Os artigos 10 e 448 da CLT tratam do tema proposto, que assim dispõem, sucessivamente: Art. 10 Qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa não afetará os direitos adquiridos por seus empregados. 5 Art.448 A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados. 6 forma: A sucessão de empregadores é conceituada por DELGADO, da seguinte Consiste no instituto jus trabalhista em virtude do qual se opera, no contexto da transferência de titularidade de empresa ou estabelecimento, uma completa transmissão de créditos e assunção de dívidas trabalhistas entre alienante e adquirente envolvidos. 7 SAAD, de forma mais prática explica: A sucessão de empregador a rigor concretiza-se quando há uma substituição de sujeito na mesma relação jurídica. A vende a B seu estabelecimento comercial ou industrial. B substitui A na relação jurídico laboral em que o outro pólo (ou sujeito) é o empregado. A norma do art. 10 (como a do art. 448 da CLT) é de ordem pública, e por isso, sobrepõe-se a qualquer disposição contratual ou acordo de vontades. Destarte, quando A vende a B seu estabelecimento e declara que permanece responsável por todas as obrigações de natureza trabalhista, os empregados ignorarão tal ajuste para exigir de B (o novo empregador) o que lhes for devido por lei. Aquela obrigação é válida entre as duas partes A e B, apenas; os empregados ficam alheios. 8 5 VADE MECUM RT 4. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009, p Ibidem. p DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 6.ed.São Paulo:LTr,2007,p SAAD, Eduardo Gabriel, et all. CLT Comentada. 41.ed.São Paulo: LTr, 2008,p.91.

13 13 Cabe salientar que na esfera trabalhista, onde os princípios da continuidade e em especial o da proteção imperam, as disposições contratuais firmadas entre o alienante e adquirente não surtirão efeito, especialmente por se tratarem de disposições inter partis, não atingindo os direitos dos trabalhadores Espécies de sucessões DELGADO explica que: A sucessão trabalhista verifica-se segundo fórmulas variadas de modificações empresariais. Distintas, são, pois, as situações tipo de sucessão de empregadores, todas submetendo-se à regência dos arts.10 e 448 da CLT. O essencial para a CLT é que as modificações intra ou interempresariais não afetem os contratos de trabalho dos respectivos empregados. 9 Assim, cabe a análise das situações tipo existentes na CLT, que prevê a sucessão de empregadores Situações tipo tradicionais de Sucessão A primeira situação tipo a ser analisada, trata-se de alteração na estrutura formal da pessoa jurídica que contrata empregaticiamente a força de trabalho. 10 Trata da incorporação, cisão, fusão, da modificação da modalidade societária, englobando-se inclusive, a modificação de firma individual para empresa societária. A segunda trata da substituição do antigo titular passivo da relação empregatícia (o empregador) por outra pessoa física ou jurídica DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 6.ed.São Paulo: LTr, 2007, p Idem, p Ibidem.

14 14 Neste caso, ocorre a mudança da pessoa jurídica que anteriormente dirigia o negócio, enquanto naquela, esta pessoa jurídica era aumentada, diminuída, mas não substituída Situações tipo: Novas de Sucessão A nova interpretação dada aos dispositivos da CLT, transcritos, garantem que qualquer mudança intra ou interempresarial não poderá afetar os contratos de trabalho. 12 Seguindo a linha de pensamento moderno, a sucessão trabalhista ocorreria com a transmissão de parte significativa do estabelecimento ou da empresa de modo a afetar significativamente os contratos de trabalho Requisitos da sucessão trabalhista dois requisitos: Conforme MARANHÃO expõe, a sucessão trabalhista envolve, via de regra, a) que uma unidade econômico jurídica seja transferida de um para outro titular; b) que não haja solução de continuidade na prestação de serviços pelo obreiro Transferência de unidade econômico jurídica A princípio, ou transferência diz respeito ao controle da sociedade ou ao conjunto desta, que se transfere como um todo. 12 Idem. p Ibidem

15 15 Sendo assim, ocorre a sucessão trabalhista quando ingressa na relação um outro sujeito passivo, seja ele controlador de parte ou de todo o estabelecimento. Segundo DELGADO, não ocorre sucessão de empregadores quando: no caso de venda de máquinas ou coisas singulares. A sucessão pressupõe a transferência de uma para outra titular de uma organização produtiva, ainda que parte de um estabelecimento destacável como unidade econômica 14 transferência. É indiferente, em princípio, o título jurídico utilizado para efetuar a Qualquer título jurídico hábil a operar transferência de universalidades no Direito brasileiro (logo, compra e venda, arrendamento, etc.) é compatível com a sucessão de empregadores. 15 Para o direito do trabalho há três situações interessantes: a primeira diz respeito a sucessão ocorrida na empresa concessionária de serviço público. A segunda aos efeitos do arrendamento, e a terceira na aquisição de acervos empresariais em hasta pública. Na primeira, DELGADO explica: [...] prepondera entendimento de que, assumindo a nova empresa concessionário o acervo da anterior ou mantendo parte das relações jurídicas contratadas pela concessionária precedente, submete-se às regras imperativas dos dois preceitos celetistas, impositivos de obrigações e direitos trabalhistas prévios. 16 Na segunda hipótese, não há qualquer óbice ao reconhecimento da sucessão trabalhista, tendo em vista, especialmente, que o título utilizado para a transferência do estabelecimento, é indiferente. 14 Idem.p Ibidem. 16 Ibidem.

16 16 Portanto, quando se fala em aquisição em hasta pública, o tema é extremamente controvertido. O autor SAAD defende: Falência e arrematação de bens. Ausência de responsabilidade trabalhista do arrematante: Conforme o art. 141, da atual Lei de Falência, Lei n , de , na falência, quando ocorrer a alienação conjunta ou separada de ativos, inclusive da empresa ou de suas filiais (a) todos os credores observada a ordem de preferência definida no art. 83, desta Lei, sub-rogamse no produto da realização do ativo e (b) o objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, as derivadas da legislação do trabalho e as decorrentes de acidente de trabalho. 17 O Tribunal Superior do Trabalho já decidiu: Inexiste a sucessão trabalhista, quando o acervo da empresa falida é adquirido em hasta pública e repassado, sem qualquer ônus sobre ele incidente, para um terceiro adquirente. 18 DELGADO, de outro lado, defende: As demais situações em que se transfere a titularidade do estabelecimento ou empresa, preservando-se as relações de trabalho contratadas. Mas o título jurídico enfocado é tido como excepcional submetido ao interesse de materializar a coisa julgada a que se refere -, sendo hábil, portanto, a neutralizar a regra geral jus trabalhista. Esclareça-se, contudo, que ainda assim emerge como relevante ao efeito elisivo aqui mencionado a previsão nos editais de hasta pública da ruptura propiciada pela aquisição do patrimônio a ser arrematado. 19 Sendo assim, conclui-se de que o tema é controvertido, sendo necessário a análise do edital de venda antes de se fazer uma conclusão precipitada. 17 SAAD, Eduardo Gabriel, et all; CLT comentada. 41.ed.São Paulo:LTr,2008, p Trata-se de texto de ementa do Acórdão TST, 2.T., Processo RR-2.859/86; rel. Ministro Barata Silva; DJ n. 238/ DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 6.ed.São Paulo: LTr, 2007, p.415

17 Continuidade na prestação laborativa Este requisito não é necessariamente obrigatório, mas é muito importante para a análise de diversas situações jurídicas. DELGADO leciona: É que a presença do segundo requisito (ao lado, é claro, do primeiro já examinado), torna inquestionável a incidência do tipo legal celetista. Verificando-se a continuidade laborativa em cenário de transferência de interempresarial haverá, indubitavelmente, sucessão de empregadores com respeito ao novo titular da empresa ou estabelecimento. STOCO, Rui. Tratado de responsabilidade civil. 6. ed.rt: São Paulo, 2004,p Todavia, a falta de continuidade da prestação laborativa, faz com que se faça uma análise mais cuidadosa do tipo de transferência ocorrida Efeitos da sucessão trabalhista Duas são as análises necessárias para dimensionar os efeitos da sucessão trabalhista: aqueles contraídos pelo novo empregador e aqueles existentes pela empresa sucedida Posição jurídica do sucessor empresarial Para efeitos trabalhistas, a empresa sucessora, assume os direitos e obrigações da sucedida, por força de disposição legal. Opera-se, portanto, a automática assunção dos contratos trabalhistas pelo novo empregador. 20 Idem. p.416

18 18 Os efeitos processuais são explicados por MARTINS: A empresa sucessora assume as obrigações trabalhistas da empresa sucedida e a sua posição no processo. Podem os bens da sucessora ser penhorados no processo, pois o empregador é a empresa, independentemente da mudança na sua estrutura ou na sua propriedade. 21 DELGADO vai além, explicando que: Trata-se, assim, de efeitos jurídicos plenos, envolvendo tempo de serviço, parcelas contratuais do antigo período, pleitos novos com relação ao período iniciado com a sua transferência, etc Posição Jurídica do empregador sucedido Segundo DELGADO, a figura sucessória trabalhista provoca a automática transferência de direitos e obrigações contratuais, por força de lei, do antigo titular do empreendimento para o novo titular, ou seja, do antigo empregador para seu sucessor. Opera-se, desse modo, a imediata e automática assunção dos contratos trabalhistas pelo novo titular da organização empresarial ou de sua parcela transferida. O novo titular passa a responder, imediatamente, pelas repercussões presentes, futuras e passadas dos contratos de trabalho que lhe forem transferidos. Direitos e obrigações empregatícias transferem-se, imperativamente, por determinação legal, em virtude de transferência interempresarial operada. Ativos e passivos trabalhistas toda a história do contrato transferem-se em sua totalidade ao novo empregador. Trata-se, assim, de efeitos jurídicos plenos, envolvendo tempo de serviço, parcelas contratuais do antigo período, pleitos novos com relação ao período iniciado com a transferência etc MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 23. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 6. ed. São Paulo: LTr,2007, p

19 19 Apesar do tema não ser pacífico, DELGADO expõe a sua visão: Contudo, a jurisprudência também tem inferido do texto genérico e impreciso dos arts. 10 e 448 da CLT a existência de responsabilidade subsidiária do antigo empregador pelos valores resultantes dos respectivos contratos de trabalho, desde que a modificação ou transferência empresariais tenham sido aptas a afetar (arts.10 e 448) os contratos de trabalho. Ou seja, as situações de sucessão trabalhista propiciadoras de um comprometimento das garantias empresariais deferidas aos contratos de trabalho seriam, sim, aptas provocar a incidência da responsabilização subsidiária da empresa sucedida. 24 A jurisprudência também segue esta mesma linha de raciocínio: Ementa: O sucessor é responsável pelos contratos de natureza trabalhista mantidos com a empresa sucedida e pelos efeitos decorrentes dos vínculos, sejam eles passados, presentes ou futuros, entre os quais se incluem os direitos adquiridos decorrentes de vínculos empregatícios extintos antes que se concretizasse o negócio jurídico determinante da alteração na titularidade da empresa.(ro 15963/96, Ac. 5ª T.) Marcos Bueno Torres - TRT - MG - DJE - 17/5/1997 Portanto, pode-se dizer que a jurisprudência tem ampliado as possibilidades de responsabilização subsidiária do antigo titular do empreendimento, além das situações de fraude Cláusula de Não-Responsabilidade No meio empresarial é comum a estipulação de cláusula de não responsabilidade no ato da aquisição de estabelecimentos comerciais em sua universalidade, prevendo-se que o adquirente responderá na esfera trabalhista somente a contar da transferência efetiva do estabelecimento. Para efeitos jus trabalhistas, referida cláusula não opera qualquer direito. DELGADO assevera: 24 Idem, p.423. Tais cláusulas restritivas da responsabilização trabalhista não tem qualquer valor para o Direito do Trabalho. À medida que o instituto sucessório é criado e regulado por normas jurídicas imperativas, torna-se irrelevante para o Direito do Trabalho a existência de cláusulas contratuais firmadas no âmbito dos empregadores envolvidos

20 20 sustentando, por exemplo, que o alienante responderá por todos os débitos trabalhistas, até a data da transferência, sem responsabilização do adquirente. À luz da CLT, tais débitos transferem-se, sim, imperativamente ao adquirente. 25 Ressalta-se que apesar de não surtirem efeitos perante as relações trabalhistas, ainda sim as cláusulas mostram-se importantes para efeitos civis e comerciais, entre o adquirente e o alienante. Tanto é verdade que aquelas garantias contratuais podem assegurar ao adquirente o ressarcimento, através de ação de regresso, dos prejuízos advindos do período anterior a aquisição. 25 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 6. ed. SãoPaulo:LTr, 2007, p.422.

21 21 2. O ACIDENTE DE TRABALHO 2.1. HISTÓRICO DAS LEIS ACIDENTÁRIAS A partir do século XIX, com o incremento da industrialização, deu causa a ocorrência mais significativa de acidentes em decorrência da atividade desenvolvida pelo obreiro, fazendo com que a Alemanha fosse pioneira na elaboração de uma lei específica para tratar dos acidentes de trabalho. No início do século XX, no Brasil, diversos projetos versavam sobre a instituição de uma lei específica para tratar do tema, advindo daí o Decreto Legislativo nº de 15 de janeiro de 1919, considerada a primeira Lei acidentária brasileira. COSTA descreveu essa lei como significou a emancipação da infortunística do cordão umbilical que a mantinha de alguma forma presa ao direito comum, reforçando sua autonomia do direito trabalhista específico, não obstante as resistências dos saudosistas da monarquia. 26 Quando da edição da segunda lei acidentária, o Decreto nº de 10 de julho de 1934, o conceito de acidente passou a englobar também as doenças profissionais atípicas, determinando o pagamento de seguro ou depósito junto ao Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal para garantir o pagamento das indenizações. Com a edição da terceira lei acidentária, o Decreto-Lei nº 7.036, de 10 de novembro de 1944, passou a incorporar as concausas e o acidente in itinere, determinando ainda que o empregador proporcionasse o máximo de segurança aos seus funcionários, tendo em vista que muito mais valia a prevenção do que o 26 COSTA, Hertz J. Acidentes do Trabalho na Atualidade. Porto Alegre: Síntese, 2003, p. 44.

22 22 pagamento de indenizações posteriores, que não compensavam a perda do ente querido. Com o Decreto-lei nº 293 de 28 de fevereiro de 1967, se deu a quarta lei acidentária, que foi na realidade um verdadeiro retrocesso, foi baixado por força de Ato Institucional, atribuindo ao seguro de acidente caráter exclusivamente privado, permitindo ao então INPS concorrer com as sociedades seguradoras. A quinta lei acidentária foi promulgada em 14 de setembro de 1967, de nº 5.316, restaurando diversos dispositivos do Decreto-lei 7.036, transferindo novamente ao INPS o monopólio do seguro de acidente de trabalho, criando plano específico de benefícios previdenciários acidentários. Em 19 de setembro de 1976, ocorreu uma nova mudança sobre o assunto, quando foi promulgada a sexta Lei nº 6.367, mantendo as mesmas diretrizes da lei anterior, aprimorando os conceitos de acidente de trabalho e concausas. Trouxe uma inovação, acrescentou a doença proveniente da contaminação acidental do pessoal da área médica como situação equiparada a acidente do trabalho. A sétima lei acidentária, que está em vigor atualmente, é a Lei nº de 24 de julho de 1991, disciplina os temas referentes ao acidente do trabalho nos artigos 19 a 23, regulamentados pelo Decreto nº de 06 de maio de Esta lei em seu artigo 19 amplia o conceito da Lei 6.367/76, quando traz a expressão Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei... O referido inciso VII trata dos segurados especiais: o produtor, o parceiro, o meeiro e o arrendatário rural, o garimpeiro, o pescador artesanal e o assemelhado, que exerçam suas atividades individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com o auxílio eventual de terceiros, bem como seus

23 23 respectivos cônjuges ou companheiros e filhos maiores de 14 anos ou a ele equiparados, desde que trabalhem, comprovadamente, com o grupo familiar. 2.2.CONCEITO DE ACIDENTE DE TRABALHO Apresentam-se muitos conceitos para se definir acidente de trabalho, destaca-se o de PEDROTTI: Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa, ou pelo exercício do trabalho dos segurados especiais, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte, a perda ou redução da capacidade para o trabalho permanente ou temporário. 27 Nos ensinamentos do médico BRANDIMILLER, assim ele descreve: No sentido genérico, acidente é o evento em si, a ocorrência de determinado fato em virtude da conjugação aleatória de circunstâncias causais. No sentido estrito, caracteriza-se também pela instantaneidade: a ocorrência é súbita a lesão imediata. Os acidentes ocasionam lesões traumáticas denominadas ferimentos, externos ou internos, podendo também resultar em efeitos tóxicos infecciosos ou mesmo exclusivamente psíquicos. O acidente comporta causas e conseqüências, contudo não pode ser definido, genericamente, nem pelas causas nem pelas conseqüências. As circunstâncias causais permitem classificar os acidentes em espécies: acidente do trabalho, acidentes de trânsito, etc. As conseqüências também classificam os acidentes: acidentes com ou sem danos pessoais, acidentes com ou sem danos materiais, acidente grave, acidente fatal, etc. 28 DINIZ o vê como o evento danoso que resulta do exercício do trabalho, provocando no empregado, direta ou indiretamente, lesão corporal, perturbação funcional ou doença que determine morte, perda total ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade par o trabalho PEDROTTI, Irineu Antônio. Acidentes do Trabalho. 3.ed.São Paulo: Universitária, 1998, p BRANDIMILLER, Primo A. Perícia Judicial em acidentes e doenças do trabalho. 1996, p. 145/ DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. 7. ed.são Paulo: Saraiva, 2003, p.433.

24 24 Nas palavras de TORTORELLO: [...] acidente sofrido pelo trabalhador, a serviço da empresa, e que ocorre pelo exercício do trabalho, provocando lesão corporal, perturbação funcional ou doença que cause a morte, a perda ou a redução permanente ou temporária da capacidade para o trabalho. 30 A lesão é caracterizada por dano físico-anatômico ou mesmo psíquico. A perturbação funcional implica dano fisiológico ou psíquico nem sempre aparente, relacionada com órgãos ou funções específicas. Já a doença se caracteriza pelo estado mórbido de perturbação da saúde física ou mental, com sintomas específicos em cada caso. Analisando todas as conceituações trazidas, para que seja considerado acidente de trabalho, há a necessidade, em sua essência, da demonstração do fato, dano e nexo de causalidade REQUISITOS Conforme visto anteriormente neste estudo, o acidente de trabalho assentase em três requisitos, quais sejam, causalidade, prejudicialidade e nexo causal Causalidade A definição de causalidade é trazida por PEDROTTI: Porque o acidente é um acontecimento, um evento que não é provocado, ao menos em princípio, mas que acontece normalmente por acaso e, assim, não há dolo TORTORELLO, Jayme Aparecido. Acidentes do Trabalho: teoria e prática. 2.ed. São Paulo:Saraiva, 1999, p PEDROTTI, Irineu Antônio. Acidentes do Trabalho. 3.ed. São Paulo: Universitária, 1998, p. 203.

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