INTELIGÊNCIA NA TEORIA SOCIO-CULTURAL Vera Lucia Saraiva de Toralles Leite 1 Mara Regina Nieckel da Costa 2

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1 INTELIGÊNCIA NA TEORIA SOCIO-CULTURAL Vera Lucia Saraiva de Toralles Leite 1 Mara Regina Nieckel da Costa 2 INTRODUÇÃO O objetivo deste artigo é apresentar uma centelha da obra tão atual do escritor russo morto na década de 30 Lev Seminovich Vygotsky. O tempo foi-lhe exíguo, mas sua mente trabalhou com avidez, produzindo páginas e páginas de conhecimento extraordinário sobre diversos temas, destacando-se filosofia, educação e psicologia. O presente artigo procura mostrar como Vygotsky percebia a inteligência na Teoria Histórico-Cultural. BIOGRAFIA Lev Seminovich Vygotsky, nasceu na cidade de Orsha, Bielorussia, aos cinco dias do mês de novembro de 1896 (PALANGANA, 1994), sendo oriundo de uma família de judeus, culta e estável economicamente. Estas condições somadas ao zelo dos pais pela formação intelectual dos filhos, propiciam o desenvolvimento, (guiado por tutor privado), da capacidade de pensar de forma questionadora e crítica. Segundo Blanck (1996), o contexto histórico russo do início do século, dominado pelo czarismo impunha discriminação aos judeus russos, quanto ao morar, a locomoção, e também limitava o número de vagas nas universidades. Vygotsky vence as discriminações e ingressa no Curso de Medicina, transfere-se logo em seguida para o curso sobre leis. Não encontrando eco para seus anseios intelectuais na Universidade de Moscou, ingressa na Universidade de Schaniaski, nos cursos de História e Filosofia e, em 1917, gradua-se em ambas as Universidades. 1. Acadêmica do Curso de Psicologia ULBRA/Campus de Guaíba. 2. Professora da disciplina Técnicas de Exame Psicológico e orientadora do artigo.

2 Vygotsky, recém formado retorna a Gomel, onde reside sua família, trabalhou como professor, profissão que agora lhe era permitida, graças a abolição da legislação anti-semita, começa a lecionar Literatura, Russo, Lógica, Psicologia, Estética e História da Arte em diversos cursos e graus acadêmicos (PALANGANA, 1994). Lá é fundador do Laboratório de Psicologia da Escola dos Professores de Gomel. O resultado de seu trabalho, desse período, resulta no livro Psicologia Pedagógica editado em 1926 (BLANCK, 1996). Vygotsky contraíra tuberculose em 1919, mas, apesar da doença, continuava a trabalhar com profundo afinco. Este fato também não o impediu de casar-se em 1924 com uma mulher determinada e inteligente (BLANCK, 1996). Tiveram duas filhas. A mais velha iria se graduar em Psicologia Educacional, e, a outra em Biofísica. No mesmo ano de 1924, desloca-se para Leningrado para participar do II Congresso de Psiconeurologia, apresentando o trabalho Metodologia da Investigação Reflexológica e Psicológica, o que marcou decisivamente sua carreira profissional. Nesta ocasião, ao se apresentar falou de improviso. Não tinha nada escrito, mas falou seguro e fluentemente, mesmo sendo a primeira vez que estava frente a uma platéia de especialistas no assunto. Vygotsky assinalou a relação entre reflexos condicionados e comportamentos conscientes, afirmando em sua tese que: a psicologia científica não pode ignorar os fatos da consciência (BLANCK, 1996), o que lhe oportunizara o convite de Kroinilov, diretor do instituto acima referido, para ser pesquisador, e, mais tarde, integraria a equipe de seus colaboradores: Alexander Luria, e Aleksei Leontiev (SANTOS, 2002). Em 1926, Vygotsky, cria o Instituto de Defectologia da Academia de Ciências Pedagógicas, objetivando a pesquisa sobre ensino e programas educativos para crianças portadoras de necessidades especiais (SANTOS, 2002). Neste ínterim, sua saúde oscila, mas não o impede de concluir a Psicologia da Arte, como tese de doutorado. Internado no hospital escreveu o ensaio Significado histórico da crise na Psicologia, um estudo crítico à Psicologia naquele momento histórico (BLANCK, 1996). No trecho grifado, que se segue, Vygotsky, escreve para seus estudantes da 1ª Universidade Estatal da Ásia Central: Um sentido da enormidade das tarefas que a Psicologia contemporânea enfrenta (que estamos vivendo uma época de

3 cataclismo, neste campo) é hoje meu sofrimento mais basilar. Isso faz com que uma responsabilidade infinita a mais séria, quase trágica (no sentido mais preciso e genuíno da palavra) pese sobre os ombros daqueles poucos que estão conduzindo pesquisas em qualquer ramo da ciência e especialmente, na ciência da pessoa. Vocês podem testar em vocês mesmos, milhares de vezes, e suportar incontáveis provações, antes de tomarem uma decisão, porque esse caminho tortuoso demanda devoção total do self (LEVITIN, apud BLANCK, 1999, p.40). O conjunto de sua obra denota a devoção à pesquisa, ensino e a produção literária, e ainda, o estabelecimento de novos projetos. A morte ganhou de Vygotsky a luta contra a doença tuberculose -. Seus manuscritos foram banidos durante 20 anos por uma facção degenerada do stalinismo, mas sua obra ressurge na Rússia em 1956 (BLANCK, 1996). O mundo pode conhecer a genialidade do bielo-russo, que, segundo Reviérè (1985) cruzou a psicologia deste século como um gavião feroz, deixando atrás de si um longo rastro cuja influência ainda não se exauriu. Ou como afirmam Veer e Valsiner (1999): um processo que ainda não foi compreendido inteiramente. TEORIA SÓCIO-CULTURAL Vygotsky precursor da teoria Histórico-Cultural afirma que, ao nascer, a criança apresenta uma única potencialidade, a potencialidade para aprender potencialidades, com uma única aptidão: a aptidão para aprender aptidões; com uma única capacidade: a capacidade ilimitada de aprender (MELLO, 2004, p136). Como conseqüência deste processo ocorre a gênese da inteligência. O homem como ser histórico-cultural desenvolveu suas habilidades, capacidades e aptidões desde a Pré-História até o momento atual, criando coisas materiais como: máquinas, livros e ainda coisas não materiais como: hábitos, costumes, a língua, os conhecimentos, as idéias. A este conjunto de criações, Vygotsky denominou cultura. O resultado é que, o homem apropriase dessa cultura acumulada para constituir-se e modificar suas condições de vida e a si próprio (MELLO, 2004).

4 Na medida em que o homem criou esse conjunto de objetos, também desenvolveu condições para sua utilização: a criança aprende a utilizar os objetos daquela sociedade e vai acumulando experiências no convívio com as pessoas. Desta forma, a criança forja sua inteligência e sua personalidade (MELLO, 2004). O mesmo autor refere que, para Vygotsky, o processo de desenvolvimento resulta do processo de aprendizagem. O processo de aprendizagem da cultura é um processo socialmente mediado, significando a necessidade de uma pessoa (professor ou não), possuidor de maior experiência, exemplificar verbalmente ou não o uso de determinado objeto. Por exemplo, a criança apropria-se das aptidões cristalizadas no lápis quando ela aprende a exercitar a atividade para a qual ele foi criado, ou seja, desenhar ou escrever... A linguagem é o instrumento basilar do processo de criação como também é produzido social e historicamente. Através dela, o homem dela apropria-se do conhecimento.. A linguagem materializa e dá forma a uma das aptidões humanas que permite de representar a realidade. Juntamente com a atividade, o homem desenvolve o pensamento, através da linguagem o pensamento objetiva-se permitindo a comunicação das significações e o seu desenvolvimento. A linguagem apresenta, para Vygotsky, três características fundamentais: 1º) permite lidar com os objetos do mundo exterior, mesmo quando eles estão ausentes; 2º) fornece conceitos e modos de ordenar o real em categorias conceituais (abstrair e generalizar); e, 3º) garante a preservação, transmissão e assimilação de informações acumuladas pela humanidade ao longo da história. A linguagem é interiorizada, induz a criança a procurar a solução de problemas é a linguagem em sua função intrapessoal (VYGOTSKY, 2003). A história do processo de internalização da linguagem social é também a história da socialização da inteligência prática na criança (VYGOTSKY apud in SANTOS, 2002, p.142). O processo de aprendizagem pode ser espontâneo (observação) ou intencional (o professor). Portanto, é esse processo de apropriação que desencadeia o desenvolvimento histórico da humanidade para gerações seguintes. O homem necessita dos outros homens para aprender a constituir-se em ser humano com inteligência, personalidade e consciência (VYGOTSKY, 2003).

5 O papel do educador seja exercida por professores, pais, pelas gerações mais velhas, pelas crianças mais experientes é importante, porque estes são os mediadores da relação da criança com o mundo que ela irá aprender. Os objetos da cultura só fazem sentidos quando aprendemos o seu uso social. Só pode ensinar quem conhece o uso social do objeto. As funções psíquicas como linguagem oral, o pensamento, a memória, o cálculo ocorrem primeiramente em nível interpsíquico. Num segundo momento, este processo desenvolve-se no interior da criança, em nível intrapsíquico (SANTOS, 2002). A aprendizagem da criança constrói-se mediante a relação da mesma com o ambiente sóciocultural. A Zona de Desenvolvimento Proximal que, segundo Vygotsky (2003), é a distância entre o nível real (da criança) de desenvolvimento determinado pela resolução de problemas independentemente e o nível de desenvolvimento potencial determinado pela resolução de problemas, sob orientação de adultos ou em colaboração com companheiros mais capacitados. A aprendizagem somente acontece quando o ensino incide na Zona de Desenvolvimento Proximal. Então quando a criança incorpora o conhecimento e o manipula de forma independente, ela está no nível de desenvolvimento real, que é aquele que corresponde aos ciclos evolutivos já alcançados e se definem, operacionalmente, pelo conjunto de atividades que a criança é capaz de realizar sozinha, sem a orientação ou ajuda de outros. Infere-se que o processo de aprendizagem é colaborativo, resultante da ação entre o educador e o aprendiz. Este processo é ativo porque o aluno deve reproduzir o uso social do objeto para o fim que o mesmo foi criado, e outras características são os períodos sensitivos. O ensino influencia principalmente aquelas qualidades que estão em processo de formação. Vygotsky percebe que o desenvolvimento da criança dentro de condições adequadas de vida e de educação, assim acontece (MELLO, 2004). Quanto ao desenvolvimento infantil, Vygotsky também deixou contribuições. Nos primeiros meses de vida, a comunicação entre bebê e adulto é mais emocional, não é verbal. A manipulação pelo adulto de objetos para que a criança perceba e o falar do adulto incitará a criação de novas necessidades no bebê, ou seja, as necessidades de comunicação e de manipulação de objetos. Em torno de três anos, a criança passa a imitar os adultos em suas relações sociais e com a cultura. Até os seis anos a criança exercitará o faz-de-conta, também chamado jogo, e então fluirá o pensamento, a linguagem, atenção, a memória, os sentimento morais, os traços de

6 caráter (MELLO, 2004). A criança, portanto, aos poucos, vai assimilando o processo da convivência em grupo e exercerá controle sobre sua conduta. Ao ingressar na Escola Fundamental, o estudo será sua atividade principal, o qual propiciará a ampliação de seu conhecimento levando a maturação e ao reordenamento de sua visão de mundo. Segundo Vygotsky (MELLO, 2004), a criança aprende e se desenvolve naquelas situações que provocam o seu interesse sobre aquilo que está fazendo. O corpo e intelecto concentrados envolvem-se na atividade do momento. Vygotsky propõe a aprendizagem compartilhada, o que significa que o educador precise compartilhar com a criança os passos do processo didático, considerando os objetivos das atividades propostas, estimulando a iniciativa e a execução das mesmas, e também a levando a participar do processo de avaliação. O professor deveria ser um lutador além de um artista (VEER e VALSINER, 1999). CONCLUSÃO Ao final deste artigo, conclui-se que o conceito de inteligência na obra Teoria Histórico- Cultural é de uma clareza singular habilidade para aprender em que a criança vai construindo sua inteligência e personalidade à medida que vai utilizando a cultura no convívio com outras pessoas. A obra de Vygotsky é extremamente atual, suas colocações sobre aprendizagem e como se processa, a importância da linguagem falada ou escrita em muito tem contribuído para a renovação de posturas retrógradas de muitos educadores.

7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BLANCK, G. Vygotsky: O homem e sua causa. In: MOLL, Luis C. Vygotsky e a Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, MELLO, S. A. A Escola de Vygotsky. In: CARRARA, K. Introdução à Psicologia da Educação. São Paulo: Avercamp, PALANGANA, Isilda Campanes, Desenvolvimento e Aprendizagem em Piaget e Vygotsky. São Paulo: Plexus Editora Ltda., SANTOS, B. S. dos. Vygotsky e a teoria histórico-cultural. In: ROSA, J. de la. Psicologia e Educação. O significado de aprender. 5ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, VEER, René van der; VALSINER, Jaan. Vygotsky = Uma Síntese. 3a ed. São Paulo: Edições Loyola, VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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