João Batista Mafaldo Junior HOJE É DIA DE MARIA: CONEXÕES CENOGRÁFICAS E AUDIOVISUAIS

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1 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE COMUNICAÇÃO, TURISMO E ARTES PROGRAMA ASSOCIADO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES VISUAIS João Batista Mafaldo Junior HOJE É DIA DE MARIA: CONEXÕES CENOGRÁFICAS E AUDIOVISUAIS João Pessoa

2 2 João Batista Mafaldo Junior HOJE É DIA DE MARIA: CONEXÕES CENOGRÁFICAS E AUDIOVISUAIS Dissertação apresentada ao Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba e de Pernambuco, como exigência parcial para a obtenção do título de mestre, sob orientação da Profª Drª Annelsina Trigueiro de Lima Gomes. João Pessoa-2012

3 3 João Batista Mafaldo Junior HOJE É DIA DE MARIA: CONEXÕES CENOGRÁFICAS E AUDIOVISUAIS Aprovado em.../.../2012 BANCA EXAMINADORA Profª Drª Annelsina Trigueiro de Lima Gomes orientadora (Membro Interno) PPGAV-CCTA/UFPB-UFPE Profº Dr. Luiz Antonio Mousinho Magalhães (Membro Externo) PPGL-CCHLA/UFPB Profª Dr. José Augusto Costa de Almeida (Membro Interno) PPGAV-CCTA/UFPB-UFPE João Pessoa-2012

4 4 Dedicatória Às minhas pérolas Ísis, Irla, Ícaro e Norma Maria Meireles M. Mafaldo pela impaciente paciência que tiveram para comigo, quando ausentava-me a fim de estudar e redigir este trabalho. Aos meus pais e irmãos

5 5 AGRADECIMENTOS Quero expressar minha gratidão especial a Norma Maria Meireles M. Mafaldo pelas ideias, apoio intelectual e encorajamento nos momentos de desânimo. Aos meus familiares. É impossível agradecer a todos que colaboraram com este trabalho, pois são muitos. Quero agradecer a todo o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFPB/UFPE, em particular as Professoras Doutoras Annelsina Trigueiro de Lima Gomes (orientadora), Lívia Marques Carvalho, e Madalena Zaccara Agradeço também a todos meus/minhas colegas de turma do PPGAV que suportaram-me durante dois anos, em especial a Marluce Vasconcelos pelo incentivo a superar as turbulências cotidianas. Aos técnicos administrativos Rosangela Xavier e Carlão. Meus sinceros agradecimentos A doutora Suelly Maria Maux Dias, a mestra Liana Chaves que direto ou indiretamente ajudaram-me na realização deste trabalho. Aos seres terrestres e aos ET s que de uma forma ou de outra energizaram-me e ajudaram-me a enxergar as forças do mal e do bem. Pois com eles aprendi a viver com energia, amor e criatividade para superar obstáculos; a caminhar com coragem, a desprogramar os espaços e mensagens que aqui já estavam programados e deram-me abertura para reprogramá-los.

6 6 "A arte não reproduz o visível, ela torna visível." ( Paul Klee ) "E assim as artes estão invadindo umas às outras, e de um uso apropriado dessa invasão surgirá a arte que é verdadeiramente monumental." ( Wassily Kandinsky )

7 7 RESUMO Esta dissertação é uma pesquisa qualitativa, bibliográfica e documental, cujo objeto de estudo é a microssérie Hoje é dia de Maria, adaptada para televisão pelo diretor Luiz Fernando de Carvalho, com base na obra homônima de Carlos Alberto Soffredini, sobre a fala caipira. O corpus é formado por frames selecionados das duas jornadas da obra televisiva analisada. Teoricamente fomos norteados pelas concepções de hibridismo cultural de Canclini, de hibridismo estético preconizado por Narlöch; as noções sobre cenografia vieram de Manttovani, Roubine entre outros. A metodologia utilizada une análise de frames a reflexões semióticas, fundamentadas, principalmente, a partir de Goffman, Peirce e Deleuze e Guattari. O objetivo é estudar a influência das artes visuais no processo cenográfico de criação audiovisual da microssérie, assim como as interrelações entre os campos da comunicação e das artes visuais. A ênfase da análise aponta para qualidade estética cenográfica produzida a partir da proposta de reciclagem artesanal com artefatos heteróclitos, o que faz desta obra audiovisual um diferencial dentre as demais produções do gênero na televisão aberta brasileira. Como resultado, observamos que a microssérie Hoje é dia de Maria apresenta convergência entre as artes visuais e a comunicação através da cenografia, podendo ser considerada uma peça artística que dialoga com as artes visuais por meio da hibridação de linguagens, da história da arte e através das poéticas visuais obtidas pelo contexto cenográfico. PALAVRAS-CHAVE: Cenografia; microssérie; artes visuais; hibridismo.

8 8 ABSTRACT This dissertation is a qualitative, bibliographic and documental research, whose object of study is the Hoje é dia de Maria microsserie, adapted for television by director Luiz Fernando Carvalho, based on the homonymous work of Carlos Alberto Soffredini on folk speech. The corpus is composed of selected frames of two journeys of television work considered. Theoretically we were guided by the concepts of cultural hybridity by Canclini and aesthetic hybridity recommended by Narloch; notions about scenery came from Manttovani, Roubine, among others. The methodology combines the analysis of frames semiotic reflections, based primarily on Goffman, Peirce and Deleuze and Guattari. The aim is to study the influence of the visual arts in the process of creating scenic microsserie audiovisual as well as the interrelationships among the fields of communication and visual arts. The emphasis of the analysis points to scenic aesthetic quality produced from the proposed recycling artisanal artifacts mixed, which makes this book a visual difference among the other productions of gender in Brazilian public television. As a result, we observed that the Hoje é dia de Maria microsserie presents convergence between the visual arts and communication through the scenery, can be considered an artistic piece that talks with the visual arts through the hybridization of languages, art history and through the obtained by visual poetics scenic context. KEYWORDS: Scenography; microsserie; visual arts; hybridity.

9 9 Lista de ilustrações Fig. 1 Frame: 00:21:42. Dom Chico Chicote e as asas metálicas recicladas Fig. 2 Frame: 00:24:12. Dom Chico ensaiando o voo na cidade Fig. 3 Frame: 00:21:43. Dom Chico alça voo e admira o planeta Terra Fig. 4 Detalhe do Frame: 00:13:13. Dom Chico Chicote Fig. 5 Tela - O bibliotecário Óleo sobre tela 97 x 71 cm. Giuseppe Arcimbolo ( ) Fig. 6 Escultura - "Women of antiquity: Myrtis", Anselm Kiefer Fig. 7 Frame: 00:31:40. Bailarinas na dança do cancã Fig. 8 Frame: 00:30:33. Bailarinas no teatro de variedades Fig. 9 Cartaz La Goule Detalhe, Henri Toulouse-Lautrec Fig. 10 Tela - At the Moulin Rouge, The Dance, 1890, óleo sobre tela. 115,5 x 150 cm. Henri Toulouse-Lautrec Fig. 11 Frame: 00:06:23. O Domo vista externa Projac Fig. 12 Frame: 00:48:40. Pintura da cena interiorana caminho da roça Fig. 13 Frame: 00:02:01. Telão com paisagem sertaneja - ao fundo Fig. 14 Frame: 00:06:22. Estrutura metálica do domo usado em HDM Projac Fig. 15 Frame: 00:21:19. Efeitos com luz, som e movimento envolvendo vídeo e computação Fig. 16 Frame: 00:22:37. Projeção multissensorial Fig. 17 Frame 00:14:04. Superposição de artefatos do cotidiano explorando as três dimensões - assamblagem Fig. 18 Frame: 00:14:16. Cenários compostos com colagem de revistas, jornal e fotografias velhas Fig. 19 Frame: 00:06:22. Estrutura metálica do domo em HDM Fig. 20 Ilustração da Cúpula geodésica Fig. 21 Foto do Cenário de HDM onde a Menina Carvoeira contracena com Maria Fig. 22 Frame: 00:16:20. Profundidade de campo Fig. 23 Frame: 00:07:11. Mistura de elementos cênicos Fig. 24 Frame: 00:21:14. Simulacro de uma perspectiva da renascença

10 10 colagem em HDM Fig. 25 Tela - Venice - Grand Canal 1738, Canaletto. 119 Fig. 26 Tela - A carroça de feno 182. John Constable Fig. 27 Tela - O mar de gelo cm, Óleo sobre tela de Caspar David Friedrich Fig. 28 Tela - A Batalha de Avaí. Pedro Américo, Óleo sobre tela, 10.0 m x 5.0 m Museu Nacional do Rio de Janeiro Fig. 29 Tela - Candido Portinari, Auto-Retrato (Autorretrato) 1957 Óleo s/ madeira, 55 x 46 cm. Col. Particular, Brasil Fig. 30 Pintura - Casamento na Roça, Fig. 31 Frame: 00:19:31. Casamento na roça entre o pai de Maria e a madrasta, em HDM Fig. 32 Pintura - Lavadeiras, Fig. 33 Frame: 00:27:03. Maria a caminho do riacho Fig. 34 Pintura - Cangaceiro, Fig. 35 Frame 00:35:17. Cangaceiro em HDM Fig. 36 Desenho - Dom Quixote de cócoras com ideias delirantes Fig. 37 Frame (detalhe): 00:19:50. Chico chicote em HDM Fig. 38 Frame: 00:47:45. Madrasta joga praga a Maria Fig. 39 Frame: 00:30:37. Expressões caricaturais Fig. 40 Pintura de Edvard Munch. O grito Óleo sobre tela, têmpera e pastel sobre cartão Fig. 41 Frame: 00:64:34. Desespero do pai de Maria Fig. 42 Frame: 00:04:14. A cidade em escombros Fig. 43 Frame: 00:33:39. Quirino apaixonado por Maria Fig. 44 Frame: 00:42:20. Tonheta na espera pela namorada espetáculo Fig. 45 Frame: 00:15:27. Zé Cangaia vendendo a sombra ao diabo Fig. 46 Frame: 00:05:41. Em busca de caça Fig. 47 Frame: 00:00:02. Drapeado com andorinhas Fig. 48 Frame: 00:00:03. Paisagem caipira Fig. 49 Desenho da Menina com traças e laço. Candido Portinari Desenho a grafite, giz de cera e lápis de cor sobre papel, 34.5 x 20 cm.) Fig. 50 Frame: 00:00:18. Pagamento de divida

11 11 Fig. 51 Frame: 00:00:24. Exôdo rural Fig. 52 Frame: 00:00:30. Cavalgada pelo sertão Fig. 53 Frame: 00:00:46. Casamento matuto Fig. 54 Frame: 00:00:48. Ave sobrevoa o altar Fig. 55 Frame: 00:00:01. Cenário imitando palco italiano Fig. 56 Frame: 00:00:13. Materiais heteróclitos no cenário Fig. 57 Frame: 00:00:15. Dragão e engrenagens Fig. 58 Frame: 00:00:22. Engrenagens e boneca Fig. 59 Frame: 00:00:26. Cidade assemblagem Fig. 60 Frame: 00:00:28. Cidade e espigões Fig. 61 Frame: 00:00:32. Maria e o teatro de variedades Fig. 62 Frame: 00:00:37. Dom Chico Chicote metálico Fig. 63 Frame: 00:00:45. Retorno às origens Fig. 64 Frame: 00:19:54. Retirantes episódio No país de sol a pino HDM Fig. 65 Diagrama 1 Episódio no País do sol a pino HDM Fig. 66 Diagrama 2 Episódio no País do sol a pino HDM Fig. 67 Tela - Retirantes (1944), Cândido Portinari óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 68 Tela - Retirantes (1944), detalhe da Genitália da criança. Cândido Portinari óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 69 Tela - Retirantes (1944), detalhe da Trouxa. Cândido Portinari óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 70 Frame, detalhe da trouxa de Maria em Hoje é dia de Maria Fig. 71 Tela Retirantes (1944), detalhe da trouxa sobre a cabeça da mulher. Cândido Portinari óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 72 Escultura/objetos: Trouxa. Artur Barrio Técnica mista. 31 x 44cm Fig. 73 Tela Retirantes (1944), detalhe da lágrima no rosto do idoso. Cândido Portinari óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 74 Tela Retirantes (1944), detalhe Foice da morte. Cândido Portinari óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 75 Tela Retirantes (1944), detalhe da Estampa Pierrot. Cândido Portinari

12 12 óleo sobre tela. 190 x 180 cm Fig. 76 Frame: 00:20:50. Cidade cenográfica: microssérie Hoje é dia de Maria Fig. 77 Pintura sobre escudo da Medusa de Caravaggio Fig. 78 Instalação da Medusa depois de Caravaggio, Fig. 79 Foto da Medusa Marinara, Fig. 80 Tela - Estate, Robert Rauschenberg Fig. 81 Combine painting - Charlene, Robert Rauschenberg Fig. 82 Recorte HDM, Máquina cenográfica Fig. 83 Klamauk (blau), Jean Tinguely Fig. 84 Desenho - Fatamorgana Méta-Harmonic IV (1985). Jean Tinguely Fig. 85 Detalhe da roda de bicicleta, em Hoje é dia de Maria Fig. 86 Frame, Cena da cidade cenográfica, em Hoje é dia de Maria Fig. 87 Roda da fortuna. Obra de Bispo do Rosário Fig. 88 Ready-made Roda de bicicleta. Obra de Marcel Duchamp Fig. 89 Fotografia - Vinheta de lixo da novela Passione, TV Globo Fig. 90 Fotografia - Adereços encontrados no lixo e transformados em bijuteria Fig. 91 Fotografia Lixo criativo de papel reciclado Fig. 92 Fotografia - Figurino inspirados em insetos Fig. 93 Fotografia Ensaios visuais baseados em Velazqauez e Portinari

13 13 SUMÁRIO Rumos iniciais Capítulo 1 Teorias e metodologias para as jornadas de Maria Trilhas teóricas Cenografia e produção de sentido Hibridismos: tessituras entrecruzadas Processos criativos O sentido estético Sobre a imagem Da arte e da comunicação Trilhas metodológicas Bricolagem: montagens múltiplas Frame: espaço recortado A lente da cultura visual Semiótica em cena Capítulo 2 Televisão, teledramaturgia e arte Teias: eclosão tecnológica, televisão em cena Ginga, Giotto e os afrescos televisivos Outras percepções e trocas simbólicas Trilhando à ideologia Televisão e vídeo = a imagem eletrônica: espetáculo Influências das artes visuais Estranhamento estético Impulsos visuais, videoarte e arte pop Arte pop, recortes, colagens e assemblagem No mundo da ficção Teledramaturgia no cenário brasileiro Retrospectiva teleficcional Minisséries e as possibilidades audiovisuais Mini, micro, macro espaços de criação serial Era uma vez... 86

14 Quem quiser que conte outra Capítulo 3 Paisagens cenográficas, pintando quadros em movimento O habitat de Maria O domo por dentro e por fora Um mundo para personagens Do palco grego para o Projac Das vedutas aos Frames Hoje é dia de Maria, Portinari e outras paisagens Pinceladas expressionistas e a teledramaturgia A estética da microssérie a partir da obra de Portinari e de outros artistas O nordeste em cena Contribuição e conexão Armorial com a microssérie e outras artes Capítulo 4 A interpretação de Frames na microssérie Hoje é dia de Maria Desfibrando as vinhetas em Hoje é dia de Maria Vinhetas primeira jornada Vinhetas segunda jornada Desfibrando a cena dos Retirantes em Hoje é dia de Maria e em Portinari As franjas do mar a cidade em cena Processos híbridos: feiúra, monstruosidade e estranhamento Assemblagem, vinhetas e materiais perecíveis Lixo, obra de arte e a memória: exercício de criatividade Considerações finais Referências Apêndice Esquema visual de Hoje é dia de Maria

15 15 RUMOS INICIAIS Delineada em arquétipos, na audiovisualidade das estórias infantis, no imaginário e oralidade da cultura popular, na música brasileira e nas mais diferentes concepções artísticas, a microssérie Hoje é dia de Maria 1 (HDM) (2005), dirigida por Luiz Fernando Carvalho, introduziu na cenografia novos elementos estéticos através do processo de reciclagem artesanal, apresentando um conceito diferente dos modelos de cenografia convencional até então utilizados na televisão brasileira. Ao proceder assim, a novidade causou inquietação à crítica especializada em tevê, devido ao fato de grande parte da cenografia ser arquitetada a partir de materiais extravagantes, oriundos das sucatas e, sobretudo, por expressar uma linguagem híbrida como reflexo da conexão com outras áreas, a exemplo do teatro, artes visuais, da literatura e da comunicação. Ao fazer uso desses materiais exóticos nos cenários da microssérie, o diretor trouxe da arte pop conhecimentos estéticos que sugerem fugir da trivialidade imagética contida nas cenografias da televisão comercial brasileira na atualidade. O reuso de revistas, jornais, folders velhos justapostos aos cenários da microssérie por meio do processo de reciclagem artesanal, parece conduzir o diretor Luiz Fernando Carvalho e equipes de criação dessa obra a ingressarem na quarta dimensão, ou seja, no tempo da existência inicial dos objetos por eles reutilizados, aproveitando as potencialidades estéticas daqueles artefatos precários, com objetivo de contar estórias através de novas imagens sem fugir da realidade. A utilização de imagens como forma de registro advêm das civilizações mais antigas como aponta Santaella (2008, p. 141) imagens são uma das formas de expressão da cultura humana. Em oposição aos artefatos, que servem para fins práticos, elas se manifestam com função puramente sígnica. Entretanto a análise desses registros é algo recente, acontece no século XX. Em algumas culturas, a expressividade visual, a comunicação por meio de símbolos, foi extremamente explorada, a exemplo dos egípcios, que mesclavam imagens e hieróglifos nas pinturas e relevos feitos nas paredes de seus túmulos. 1 A primeira jornada de Hoje é dia de Maria foi exibida de terça a sexta-feira, no horário das 22h30, entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2005, pela Rede Globo. A segunda jornada de Hoje é dia de Maria foi exibida entre os dias 11 e 15 de outubro de Nela Maria chega à cidade grande, onde vive outras aventuras e desafios.

16 16 Porém, essa vontade inesgotável de se expressar através das imagens não ficou restrita aos egípcios. Ao longo dos tempos, a história da arte demonstra bem isto. A natureza do nosso trabalho está relacionada às formas de expressão artísticas provenientes de uma construção cenográfica que conjuga linguagens visuais na hibridação da arte, do lixo e das tecnologias. Por essa razão, num primeiro momento, direcionamos nosso olhar para a assemblagem, por encontrarmos nesse campo ferramentas que nos auxiliarão na compreensão do nosso objeto. No século passado, mais precisamente no início da década de 1950, a assemblagem incorporou-se aos trabalhos do artista americano Robert Rauschenberg, reforçando assim os Combine painting (combinação híbrida entre pintura e escultura). Na justaposição e acumulação de objetos exóticos, Rauschenberg utilizou em suas pesquisas estéticas, garrafas de cola-cola, embalagens de produtos industrializados, pássaros empalhados e jornal amassado e outros objetos da indústria fabril e cultural. Esses trabalhos foram precursores da arte pop. Em seu trabalho sobre a arte de vanguarda no Brasil, Reis (2006, p.32) nos lembra que na década de 1960, sintonizado com a temática da arte pop, Hélio Oiticica apresentou publicamente pela primeira vez seus parangolés e o artista ítalo-paulista Waldemar Cordeiro engendrou nos popcretos sua trajetória de novas pesquisas dentro do projeto construtivista brasileiro. O expoente da arte brasileira, Oiticica partiu para novas experimentações com seus parangolés e com esses objetos buscava um diálogo mais ativo com o espectador. Já Waldemar Cordeiro usou guache sobre grade de ovos de papelão na obra Objeto (1962) e colagem de jornal sobre papel, na obra Jornal (1964). Ao experimentar tais materiais e técnicas ambos os artistas procuravam dialogar através de ideias (conceitos) e imagens com a temática pop. Os popcretos segundo Max Bense relacionavam-se às experiências anteriores à arte pop e arte concreta. A tônica era estabelecer diálogos entre os dois estilos e eliminar a ideia de sucata em sua banalidade para atribuir ressignificações através do conceito de ordenação. Ainda com a intenção de massificar imagens, no século XX, Roy Lichtenstein ( ) começa a ampliar histórias em quadrinhos e anúncios comerciais, utilizando a pintura como técnica. Os recortes desvinculados do contexto de uma história em quadrinhos aludiam à produção em série das imagens frias, intelectuais, símbolos ambíguos do consumo, da repetição, do mundo moderno. Os quadros tematizavam e refletiam assuntos ligados ao cotidiano de uma metrópole que estava influenciada pelo consumo e pelos mass media.

17 17 Outro exemplo foi Andy Warhol com suas cem latas da sopa Campbell s (1962). Seus quadros também procuravam mostrar produtos de consumo da época. O artista retratava uma série de latas de sopa de uma marca conhecida, que tinha como objetivo expressar os símbolos do consumo no contexto da sociedade norte-americana. A obra de Warhol ultrapassou o tempo e espaço. As ideias dele e de outros artistas da arte pop influenciam ainda hoje o mundo ocidental. no que concerne ao modo de sentir, pensar e agir das pessoas na atualidade (DEMPSEY, 2005), inclusive, podemos notar indícios dessas poéticas nos cenários desta microssérie. Do mesmo modo que outrora a história da arte registrou a prática da colagem e assemblagem em suporte diferentes dos equipamentos eletrônicos atuais, hoje, em pleno século XXI, a mídia televisual, através do formato de microssérie se apropria do hibridismo das linguagens artísticas e das práticas de bricolagem tradicional para se reinventar; para pôr em circularidade a memória esquecida de um povo, através de narrativas visuais inventadas a partir dos rejeitos industriais. A novidade é que atualmente com a utilização de tecnologia digital associada aos velhos métodos (reciclagem, por exemplo), se obtêm resultados estéticos específicos à linguagem do vídeo e da tevê (imagem eletrônica). Neste contexto as imagens moventes ganham novas vidas através da linguagem audiovisual e passam a compor o que podemos denominar de as múltiplas paisagens móveis da cena eletrônica, sem perder de vista o fazer artístico e artesanal. No que se refere ao objeto de estudo do nosso trabalho, a microssérie Hoje é dia de Maria, o próprio diretor Luiz Fernando Carvalho atua como um bricoleur ao incorporar elementos imagéticos das obras de diversos autores e artistas, a exemplo de Câmara Cascudo, Sílvio Romero, bem como a música de Heitor Villa-Lobos, que são referências imprescindíveis à microssérie em questão. Há também um universo vasto de influências e tendências artísticas bem diversificadas, em especial, a concepção de arte advinda do Movimento Armorial que lançou as bases para compreensão da arte nordestina brasileira erudita baseada na essência da cultura popular do Nordeste com raízes africanas, indígenas, ibéricas e mouras. Observamos ainda traços da pintura de paisagem, da arte pop (Robert Hauschenberg e Roy Lichtenstein), do expressionismo, pelas incursões e influências das obras de pintores europeus (Van Gogh e Edward Munch), dos brasileiros Cândido Portinari, Artur Bispo do Rosário e Vik Muniz, em especial, por tratarem em suas poéticas artísticas temáticas que atiçam o debate sociopolítico, de modo sensível, e

18 18 quase imperceptível, mas sempre trazendo elementos da cultura brasileira ao diálogo visual/cenográfico televisivo. Assim, com base nesse contexto analítico/teórico situamos nosso trabalho como resultado de uma pesquisa qualitativa, bibliográfica e documental, onde buscamos tembém ferramentas de outros campos como a semiótica, que nos auxiliou na análise dos frames. O objeto de estudo deste trabalho é constituído por uma peça ficcional, exibida pela Rede Globo em formato de microssérie, dividida em duas partes denominadas de jornadas; pois, é no caminhar infinito que a personagem Maria percorre seu trajeto, e a história se desenvolve em dois momentos: a primeira jornada, na qual a garota Maria sai das terras de sol a pino o sertão, e a segunda jornada, em que Maria, para alcançar as franjas do mar, chega à cidade. Tratamos essa temática com o objetivo de estudar a influência das artes visuais no processo cenográfico de criação audiovisual da microssérie, assim como as inter-relações entre o referido campo e a comunicação. A microssérie (DVD ROM 2 ) em sua totalidade contém vinhetas e treze episódios, dos quais destacamos dois para compor o corpus. E é exatamente dessas vinhetas e dos episódios que fizemos o recorte dos frames analisados: as vinhetas das duas jornadas, No País de sol a pino e A cidade. Vale observar que mesmo sendo feito estes recortes é necessário ter uma visão geral da microssérie. O critério de seleção para o recorte dos frames tem base em Hernandez (2000) e Campbell (2007). Na primeira jornada, a história da personagem Maria narra o drama de uma garota que perde a mãe, e passa a conviver com uma madrasta má. Maltratada a jovem foge de casa, e segue a caminhada, mais especificamente da terra de sol a pino. Neste lugar, exceto as grosseiras da madrasta, Maria leva uma vida interiorana, em que o sossego é o seu maior bem-estar, mas diante da relação tensa entre elas, seu desejo é chegar às franjas do mar. Já na segunda jornada, chegar às franjas do mar para Maria significa aportar na cidade grande. Na metrópole, Maria experimenta das dores e das delícias de um mundo que simultaneamente encanta e assusta. Neste aspecto, o diretor Luiz Fernando Carvalho mescla realidade e ficção. Os contos fantásticos aludem ao imaginário coletivo nos quais os arquétipos são carregados de informações imaginárias associadas aos problemas sociais relacionados às crianças em situação de exclusão. O contexto é 2 Contém as duas jornadas da microssérie em questão, um encarte com entrevistas, fotografias e demais informações técnicas. Os trezes episódios são compostos por trinta e seis capítulos.

19 19 tratado na microssérie de modo ético, trazendo para o cerne da discussão, através da poética visual, valores morais e questões relativas a tais problemáticas na contemporaneidade. O lixo, que geralmente é produzido e rejeitado pela sociedade do consumo, ganha notoriedade em Hoje é dia de Maria pela visualidade que a microssérie consegue obter. As imagens são impregnadas de memórias, referentes a temas ambientais que pautam a agenda universal. As duas jornadas de Hoje é dia de Maria são obras abalizadas em texto original a partir das pesquisas do dramaturgo Carlos Alberto Soffredini, sobre a fala caipira. Adaptada por Luis Alberto Abreu e Luiz Fernando Carvalho (que também fez a direção), traz a representação ficcional sob os olhares acurados das equipes e artistas plásticos: Ulisses Tavares (Companhia de Teatro de Bonecos Giramundo), Clécio Regis (pintura) e Raimundo Rodrigues (nordestino radicado no Rio de Janeiro); este último, por meio da bricolagem, trabalhou com materiais descartados, considerados sucata, criando desse modo artefatos especiais à narrativa visual da microssérie, a exemplo de coroas, adereços de cabeça, carroças e gaiolas. A produção de arte teve direção de Lia Rinha. Os objetos cenografados ficaram sob a criatividade de João Irênio e Fernando Schmith que buscaram utilizar os artefatos sucateados para criar cenários, que aludem a literatura, a pintura e a realidade campesina do sertão nordestino e da metrópole. As canções de Villas- Lobo, as obras de Guerra Peixe, Francisco Mignone, Alceu Boquino, entre outras composições, receberam novos arranjos (para a música incidental) orquestrados por Tim Rescala. O figurino de Luciana Buarque e a iluminação de José Tadeu Ribeiro seguiram a ideia de reaproveitar materiais e através da bricolagem artística revisitaram a história da arte que antecede o século XIX, bem como exploraram expressões do século XX, em especial, as vanguardas artísticas, a fim de construir narrativas textuais/orais/visuais baseadas no passado com viés voltado à presente diversidade cultural do meio rural e urbano brasileiro (HOJE, 2006). Ambas as jornadas fazem incursões na questão da violência infantil e de gênero (a questão feminina); expondo para os mais ingênuos uma história como um simples conto de fada. A partir do contexto narrativo e visual desta peça ficcional, cada espectador pode enxergar e reelaborar sua história de forma mais criativa, como se estivesse no cotidiano da menina que é maltratada pela madrasta, foge de casa e encontra um mundo mágico. Maria entra em um universo fantástico que evidencia o simulacro da realidade. Nesse universo a microssérie apresenta ardis de mensagens

20 20 híbridas e intertextualidades artísticas que se tornarão o fio condutor de toda sua construção discursiva. De início, em contato com o DVD da microssérie Hoje é dia de Maria, textos, aulas, orientações e conversas com o corpo docente e discente, vimos mergulhados diante de um oceano tão gigante de indagações que recortamos e condensamos a questão desta pesquisa da seguinte maneira: como as artes visuais dialogam com o processo cenográfico de criação e veiculação audiovisual na microssérie Hoje é dia de Maria? Tal indagação nos conduz ao esforço de coordenar e articular diferentes ideias bem como imagens para compor nossa análise. Pela multiplicidade de conteúdos audiovisuais, envolvendo as áreas de arte visuais e comunicação que a microssérie possui, adotamos a postura de um bricoleur, porque consideramos que só uma abordagem metodológica seria insuficiente para compreendermos a dimensão do nosso objeto de estudo. Ao mergulharmos nesse oceano de signos, tivemos a necessidade de nos aproximar da tradição pictórica através dos estudos relacionados ao gênero pintura de paisagem, de algumas características barrocas para compreendermos a monumentalidade do domo e de algumas tendências artísticas marcadas pela desconstrução da materialidade da formas convencionais, com a finalidade de investigar visualidades cenográficas no fazer e pensar da televisão brasileira contemporânea. Ao analisarmos Hoje é dia de Maria buscamos o diálogo entre as áreas das artes visuais e da comunicação, observando na microssérie as conexões com o imaginário popular, as expressões caricaturais das personagens, as cores quentes na fotografia, as tensões dramáticas e a peculiaridade estética. Quanto a esta última, vale observar que parte dos objetos que dão materialidade ao cenário são reutilizados, vem do lixo (descartado, na maioria das vezes, pela própria indústria cultural). O lixo é a matéria prima para a criação de visualidades e de narrativas, que também pode designar uma característica expressionista nesta obra. Além de explorar o universo das artes visuais, este trabalho também procura analisar o grau de transversalidade da comunicação com questões relacionadas ao meio ambiente. Perceber as manifestações visuais que estão entre os fios quase invisíveis das estruturas, operações e processos complexos das mensagens visuais no formato das microsséries requer cuidadosa análise. Assim, é possível observar elementos da produção de sentidos, nos processos de composição visual cenográfica a partir do

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