CÂNONE X CAPITALISMO LITERÁRIO: A RELEVÂNCIA DA QUALIDADE LITERÁRIA PARA O LEITOR ATUAL

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1 CÂNONE X CAPITALISMO LITERÁRIO: A RELEVÂNCIA DA QUALIDADE LITERÁRIA PARA O LEITOR ATUAL O CÂNONE 24 Cátia Aparecida Vieira Barboza * RESUMO: Neste artigo é apresentado um quadro geral sobre a situação do cânone definindo-o e mostrando sua importância política e ideológica em um determinado momento da história literária. Prosseguindo, observa-se também o processo de dessacralização do cânone e o quadro atual, as conseqüências da dessacralização e abertura e a desvalorização da obra escrita em detrimento da crescente valorização de outras formas de comunicação divulgadas pela mídia. Em outro tópico pretende-se discutir o papel da socialização literária e das práticas pedagógicas neste processo, observando alguns estudos feitos sobre o assunto. Serão apresentadas também outras propostas de estudo e de prosseguimento da discussão buscando solucionar os problemas nesta área. Através destes tópicos, pretende-se discutir a relevância do valor estético e do cânone para o leitor do século XXI observando diacronicamente a evolução e valorização destes conceitos. ABSTRACT: In this article we present a general view about the canon situation defining it and showing its ideological and political value in a specific moment in the literary history. We also observe the process of dessacralization of the canon and its situation nowadays, the consequences of the dessacralization and the depreciation of the written works in face of the growing appreciation for other communication forms influenced by the media. In another topic we discuss the influence of the literary socialization and the pedagogical practices in this process observing some studies about the subject. Through the topics presented we intend to discuss the relevance of the aesthetic value and the canon for the 21 st century reader observing the evolution and valorization of these concepts diacronically. Palavras-Chave: literatura, cânone, ensino. Key Words: literature, canon, teaching. A definição de cânone tem forte relação com none como medida de todas as coisas, o modelo a sua origem etimológica, pois a palavra cânone seguir, a norma, o padrão, a lei. Sendo assim, o vem do grego Kanon, que designava uma vareta cânone possui um sentido geral e se estabelece que servia como instrumento de medida 1. De seu como um modelo não só na literatura, mas também em outras áreas. sentido etimológico, portanto, ficou a idéia de câ- * Mestranda em Lingüística Aplicada (UFRJ); Licenciada em Letras-Português/Inglês (UFRJ); Professora Auxiliar do Centro Universitário Augusto Motta. 1 TB Revista Tempo Brasileiro, n o 129, ver contracapa.

2 Nos estudos literários, o cânone diz respeito a uma seleção de determinados autores, gêneros, obras, em detrimento de outros. Enfim, o cânone se refere ao que se denomina obras primas literárias, escolhidas e sacralizadas por um grupo restrito composto principalmente por acadêmicos e críticos. Este conjunto de obras consagradas de escolas e movimentos literários de diversas épocas acaba por se estabelecer como modelo a ser seguido. Como exemplo, destacam-se os modelos canônicos eurocêntricos, clássicos e românticos entre outros, que vigoraram por muito tempo e que até na atualidade têm sua supremacia defendida por autores como Harold Bloom (cf. Bloom, 1995). Devemos observar também a função política e ideológica dos modelos canônicos. O modelo eurocêntrico, por exemplo, também serviu como forma de propagação da filosofia colonialista. Bhabha (1994), Said (1979; 1994) e Coutinho (1996) são críticos que apontam o processo de colonização através dessa filosofia, destacando a América Latina, onde os estudos literários sempre foram moldados à maneira européia. Observamos paralelamente que o estabelecimento de um modelo canônico serviu durante muito tempo aos interesses políticos das classes politicamente privilegiadas como a aristocracia, por exemplo. O que podemos concluir sobre o cânone é que, além de se estabelecer como modelo formal com o objetivo de preservar a qualidade da produção literária de um certo período, ele também se mostrou como força ideológica que visava manter vivos os interesses de grupos políticos dominantes e esconder ou ignorar os interesses do povo ou de grupos marginalizados socialmente, não existindo, portanto, um cânone popular. A DESSACRALIZAÇÃO DO CÂNONE A partir das revoluções políticas e culturais da década de 60, entretanto, disseminou-se uma temática multiculturalista que fragmentou o modelo canônico eurocêntrico propondo uma reescritura da história literária, na tentativa de se resgatar as vozes caladas pela história literária, oficial moldada pelo cânone. É o que verificamos, por exemplo, em Desafiando o Cânone I (Cunha, 1999) e Desafiando o Cânone II (Cunha, 2001), que destacam a importância da literatura de autoria feminina e também resgatam autoras marginalizadas em sua época, sujeitas a um modelo patriarcal eurocêntrico e obras de autores advindos da minoria, como, por exemplo, a coleção de escritoras lésbicas. O cânone ou cânones tradicionais perderam sua supremacia, e a literatura passou a aceitar modelos mais flexíveis e dinâmicos que considerassem a diversidade cultural e também a necessidade de entender o papel político e não só o aspecto estético da obra literária. Dessa forma, cresce a presença em toda a literatura universal, de manifestações de grupos chamados por Bloom (1995) de Escola do Ressentimento : os negros, as feministas, os latinos, entre outros. Essa proposta nunca pretendeu, ao contrário do que afirmam alguns defensores da crítica literária tradicional (canônica), trocar os padrões estéticos por uma política de reparo de injustiças sociais que aclamasse qualquer tipo de texto, e também não parece que a proposta destes grupos fosse a de desvalorizar as obras clássicas consagradas pelo cânone. À literatura e à crítica, entretanto, coube o papel de dessacralizar um modelo canônico até então inflexível e abrir espaço para outras manifestações artísticas que eram marginalizadas por questões políticas e ideológicas, mas que mereciam um espaço na historiografia literária. A ERA DO CAPITALISMO LITERÁRIO Todo movimento tende a apresentar uma radicalização, com a abertura do cânone não foi diferente. Essa abertura que se iniciou com a dessacralização do modelo canônico, entretanto, culmina no que Affonso Romano de Sant Anna denomina anomia ética e estética, fruto da globalização. Segundo o autor, a transgressão transformou-se no novo padrão e a liberdade formal e ética, que se estabeleceu através da mídia vem levando ao caos e ao nada, à anomia, ao vale tudo, ou seja, arte hoje é qualquer coisa que, tola ou espertamente alguém chama e vende como arte... 2 (grifo nosso). 2 Sant Anna In: O Globo: Prosa & Verso, 17/03/01, p

3 Devemos atentar para a palavra vende, presente na citação acima, pois, o que parece vigorar nesta sociedade globalizada (observando-se aqui o âmbito literário) é o que chamaremos de capitalismo literário. Essa denominação se justifica pelo fato de que atualmente os livros/obras literárias tendem a ser considerados como produtos de consumo e os leitores como consumidores. Nesse cenário, de mercado literário, atuam como forças propulsoras a mídia, as feiras e os agentes literários que divulgam e promovem a multiplicação deste produto em diversas formas e meios (cinema, televisão, souvenirs etc.). Essa mudança se justifica. Lucas (2001) afirma que o homem contemporâneo modela sua sociedade com base na comunicação; dessa forma, as novas tecnologias eletrônicas reformularam o pensamento da sociedade. Segundo o autor, o homem contemporâneo experimenta simultaneamente diversas forças de comunicação utilizandose de mais de um sentido, o que não acontecia com o homem da era da imprensa, que experimentava uma coisa de cada vez. 3 Na propagação dessa filosofia do consumismo multisensorial, o livro e, por conseqüência, a literatura, vêm sendo desvalorizados também como objetos de consumo e substituídos pelo imediatismo visual através da televisão, do cinema e também da Internet. O mesmo se dá no meio acadêmico, como mostram pesquisas realizadas com os alunos de nível fundamental, médio e superior (cf. Rocco, 1992; Zyngier, 2001), onde alunos afirmam preferir versões cinematográficas a leitura e que consideram as obras literárias cansativas e desestimulantes. As obras que formam o que chamamos de cânone, portanto, ficam restritas aos círculos acadêmicos, intelectuais e críticos e permanecem como sinônimos de obras de arte, com alto valor cultural, mas de pouco interesse ao alunado e ao leitor em geral. O PAPEL DA EDUCAÇÃO/ SOCIALIZAÇÃO LITERÁRIA Diante desse cenário, portanto, nos cabe verificar o papel da educação/socialização literária neste processo. Será que as práticas pedagógicas 3 Lucas, 2001:12. não estão atuando negativamente na propagação social da literatura e afastando os alunos de uma experiência prazerosa? Rocco (1992) já apresentava dados que confirmavam essa situação em seu estudo para identificar problemas no ensino de literatura nos níveis fundamental e médio. A partir de um estudo qualitativo, utilizando-se de questionários destinados a professores, alunos e profissionais ligados de alguma forma à educação literária, a autora transcreve vários relatos que confirmam esse quadro. Interessante se notar que, em pesquisa realizada por Zyngier e Shepherd (2001), os alunos de 1º ano da Faculdade de Letras da UFRJ não demonstram qualquer envolvimento afetivo com a leitura literária. Valorizam o texto como um objeto, um meio de se alcançar cultura, educação e promoção social. O cânone literário, que geralmente faz parte das aulas de literatura, não é, na maioria das vezes, bem aceito pelos alunos, principalmente nos níveis fundamental e médio, e faz com que estes jovens se afastem das obras escritas, como confirmam os depoimentos mostrados abaixo: Literatura é um meio de comunicação raramente interessante para estudantes. Serve para nos comunicarmos melhor e para aumentarmos a nossa cultura. (Maria de Fátima 17 anos). Literatura é um estudo que não me agrada, por isso nem gosto de defini-lo. Literatura não serve para nada (José Ivo 17 anos) 4 O que se verifica, nesse sentido, é um afastamento. A criança inicia sua socialização literária como ouvinte, na leitura de textos infantis, atividade geralmente prazerosa. Carvalho (2001b) 5 mostra como as Rodinhas de Leitura no Jardim de Infância cativam e agradam as crianças. No entanto, ao atingir o ponto onde será leitor, o aluno vê a leitura como uma obrigação escolar necessária culturalmente, mas sem prazer e apresenta-se o que Carvalho (2001a) denomina como a dicotomia ler por prazer x ler para estudo. Ao perguntarmos sobre a definição de clássicos da literatura verificamos que muitos alunos 4 Depoimentos transcritos de questionários apresentados por Rocco, 1992, p. 66; Comunicação apresentada II ECEL em agosto de

4 assim consideram os textos antigos de leitura mais difícil e vocabulário rebuscado. A questão é, não existem clássicos atuais? O que podemos chamar de literatura de qualidade hoje em dia? Jovens procuram leituras rápidas, simples, com um vocabulário de uso freqüente e que tratem, principalmente, de questões atuais, o que conseguem através da leitura dos best sellers. A questão da qualidade textual, da arte de se manipular a linguagem é substituída pela questão das respostas rápidas, da temática atual e do prazer que a leitura proporciona. QUAIS SÃO OS CRITÉRIOS? Na verdade, existe, mesmo entre os teóricos, uma grande dificuldade em se definir níveis de qualidade das obras literárias. Para se estabelecer um cânone, ou dizer se uma obra literária possui ou não qualidade, devem ser estabelecidos certos critérios. Entretanto, quando se trata de literatura como um produto artístico, as divergências se estabelecem até mesmo em definir o que é literatura. Widdowson (1999) afirma que a questão sobre o que é literatura se problematiza quando se questiona que qualidades esta literatura deverá ter, citando, como exemplos, a beleza estética e o mérito artístico que, segundo o autor, são conceitos que se estabelecem a partir de critérios de julgamento subjetivos e intuitivos e dependem de valores determinados por diferentes comunidades. Infelizmente, como afirma Sant Anna em outro artigo 6, parece que a modernidade só faz aprofundar o divórcio entre o público e a arte. O problema do cânone, portanto, está no fato de que ele está inserido num discurso avaliativo, cujos critérios são imprecisos, inexplicáveis, instáveis. Cada escola literária, cada grupo de teóricos, se pauta por critérios que, via de regra, serão diferenciados. O leitor comum, por sua vez, também estabelece critérios pessoais para classificar as obras que lê. No entanto, deverão prevalecer os critérios de determinadas comunidades de leitores (cf. Fish, 1982). 6 Sant Anna In: O Globo: Segundo Caderno, 07/04/98, p. 2. O ESTUDO DE LITERATURA SOB UMA PERSPECTIVA SOCIAL: A CEL Está claro que essa questão literária é também social, e para investigá-la utilizaremos os pressupostos da CEL Ciência Empírica da Literatura, pois ela se propõe a definir e estudar a literatura como um sistema social. A literatura seria, a partir dessa perspectiva, um constructo gerado dentro de um sistema chamado literário, e que, dessa forma, é considerada como um fenômeno social e não somente textual conforme o ponto de vista dos estudos literários tradicionais (cf. Schmidt, 1982). Nossa proposta é fazer uma análise da literatura como produto social de forma que possamos questionar práticas e formular soluções para os questionamentos que possam ser levantados nesta área. Considerando que o conceito de literatura é formado por agentes reais atuando dentro de um sistema social-literário real, parece nos que a melhor forma de entender e definir a relevância da qualidade no sistema literário da sociedade atual seria através de uma pesquisa de base empírica, recolhendo dados entre quatro agentes deste sistema: leitor, produtor, mediador e pósprocessador. Portanto, a CEL se mostra como base científica ideal para que possamos estudar a construção empírica dos conceitos de literário e não-literário nos leitores. CONSIDERAÇÕES FINAIS Acreditamos que a questão da qualidade literária é relevante na medida em que leitores em geral deveriam ter acesso a textos canônicos ou não, tornando a leitura de obras literárias de diferentes níveis de prestígio uma atividade social prazerosa. A literatura é relevante, pois atua como forma de expressão/comunicação entre os atores de um sistema social. Ela é antropológica, filosófica e esteticamente significativa para sociedade (cf. Zyngier, 1994). Com isto, queremos dizer que a 27

5 literatura exerce várias funções importantes: contribui para o conhecimento do indivíduo de forma que ele possa, através das experiências adquiridas no ato da leitura, questionar e administrar melhor o mundo em que vive. Além disso, a literatura preserva valores culturais como símbolos, mitos e convenções de determinados grupos, mantendo sua unidade. Através de sua vertente estética, a literatura apresenta uma função lúdica, promovida através do prazer despertado pelo jogo de palavras, pela rima, pelo ritmo, pelo significado e pelo envolvimento criativo do leitor. Portanto, a literatura deve ser preservada inclusive como parte do currículo escolar. Nesse sentido, devemos incentivar pesquisas interdisciplinares que relacionem o sistema literário e o educacional. Assim, estudos empíricos poderão contribuir, investigando a participação dos reais agentes responsáveis pelas atividades literárias na sociedade. BIBLIOGRAFIA BHABHA, Homi K. The Location of Culture. London & New York: Routledge, BLOOM, Harold. O cânone ocidental: os livros e a escola do tempo. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, CARVALHO, Miquilina Machado. Ler por prazer / ler por estudo: uma dicotomia viável? In: ZYNGIER, Sonia (org.) Conhecimento e Imaginação: coletânea dos trabalhos do I ECEL Encontro de Ciência Empírica da Literatura. Rio de Janeiro: UFRJ, A socialização literária e a formação do leitor. Comunicação apresentada no II ECEL Encontro de Ciência Empírica da Literatura realizado na Faculdade de Letras/UFRJ em agosto de COUTINHO, Eduardo F. Literatura Comparada, literaturas nacionais e o questionamento do cânone. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n o 3, 1996, p CUNHA, Helena Parente (org.). Desafiando o cânone: aspectos da literatura de autoria feminina na prosa e na poesia (anos 70/80). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, (org.). Desafiando o cânone (2): ecos de vozes femininas na literatura brasileira do século XIX, Rio de Janeiro: UFRJ, FISH, Stanley. Is there a text in this class? Harvard: Harvard University Press LUCAS, Fábio. Literatura e comunicação na era da eletrônica. Coleção Questões da Nossa Época; vol. 81. São Paulo: Cortez, Revista Tempo Brasileiro, n o 129. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, abril junho, ROCCO, Maria Thereza Fraga. Literatura / Ensino: uma problemática. Ensaios 77, 2. ed., São Paulo: Ática, SAID, Edward W. Orientalism. USA: Random House, Culture and Imperialism. USA: Random House Vintage Books, SANT ANNA, Afonso Romano de. Anomia ética e estética, In: O Globo: Prosa & Verso, 17/03/01, p. 2.. O que fazer de Paulo Coelho?, In: O Globo: Segundo Caderno, 07/04/98, p. 2. SCHMIDT, Siegfried J. Foundation for the Empirical Study of Literature. Hamburg: Buske, WIDDOWSON, Peter. Literature. The New Critical Idiom. London and New York: Routledge, ZYNGIER, Sonia & SHEPHERD, Tania Maria Granja. Hidden concepts of literature in a pedagogical setting: a corpus-based approach. In: 21 st International Pala Conference, 2001, Budapeste. Book of Abstracts. Budapeste: ELTE University, Vol. 1, p (org.) Conhecimento e Imaginação: coletânea dos trabalhos do I ECEL Encontro de Ciência Empírica da Literatura. Rio de Janeiro, UFRJ, Introducing Literary Awareness Language Awareness. Vol. 3, n o 2,

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