DIÁLOGO ENTRE PROJETOS: VESTÍGIOS DE CIRCULARIDADE EM FOTOGRAFIAS

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1 DIÁLOGO ENTRE PROJETOS: VESTÍGIOS DE CIRCULARIDADE EM FOTOGRAFIAS Anna Luiza Ferreira Romão EEFFTO/UFMG Profª Drª Andrea Moreno FaE/UFMG CISIDIF/Jornadas470 RESUMO: O Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer (CEMEF) /UFMG possui diversos projetos em andamento, entre eles, o Projeto de Extensão Garimpando, Organizando e Divulgando a Memória no CEMEF e o Projeto de Pesquisa: Circularidade de modelos pedagógicos e formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte: vestígios de práticas no acervo do CEMEF/UFMG ( ), os quais dialogam entre si, uma vez que, algumas fotografias, as quais são vinculadas ao primeiro projeto, possuem rastros de circularidade, o que as confere um significativo potencial enquanto fontes para pesquisa. Palavras-Chave: Escola de Educação Física, Fotografias, Circularidade. O Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer (CEMEF), localizado na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi criado em 2001 e se constitui como um espaço de pesquisa, ensino e extensão. Neste espaço são desenvolvidos diversos projetos, entretanto, neste presente texto, enfatizarei apenas o Projeto de Extensão, existente desde 2007, intitulado Garimpando, Organizando e Divulgando a Memória no CEMEF, o qual é orientado pela professora Drª Andrea Moreno 1 e o Projeto de Pesquisa: Circularidade de modelos pedagógicos e formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte: vestígios de práticas no acervo do CEMEF/UFMG ( ), cujo coordenador é o professor Dr. Tarcísio Mauro Vago 2, pois, acredito que estes projetos dialogam entre si. Assim 1 Andrea Moreno: professora da Faculdade de Educação/UFMG; Professora do PPGE/FaE/UFMG; Membro do GEPHE/FaE/UFMG; Membro do CEMEF/EEFFTO/UFMG. 2 Tarcísio Mauro Vago: Professor Associado da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional 1

2 sendo, há a possibilidade de estabelecer uma aproximação entre eles, uma vez que, a Série Iconográfica, pertencente ao primeiro projeto, possui duas Séries Tipológicas, compostas por um conjunto de fotografias, cujos temas são as Jornadas e o Projeto Brasil. Estas séries abordam, explicitamente, dois dos seis eixos temáticos que norteiam o Projeto de Pesquisa citado anteriormente. Os eixos, a saber: as Jornadas Internacionais de Estudos de Educação Física; o convênio celebrado entre a Escola de Educação Física da UFMG e o DAAD; o Projeto Brasil/MEC Secretaria de Desporto e a criação do Laboratório de Fisiologia do Exercício (LAFISE); as reformas curriculares realizadas no período; os dispositivos didáticos; os cursos de treinamento e pós-graduação. Para além desta característica, todas as fotografias datam da década de 50 a aproximadamente a década de 90, ou seja, o recorte temporal da Série Iconográfica engloba totalmente o recorte do Projeto Circularidade de modelos pedagógicos e formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte: vestígios de práticas no acervo do CEMEF/UFMG ( ). O CEMEF, enquanto espaço de pesquisa, ensino e extensão se propõe a recuperar, preservar e divulgar a memória da Escola de Educação Física da UFMG, bem como a história da Educação Física, do Esporte e do Lazer em Belo Horizonte. Somando-se a isto, este Centro se estabelece como um local de encontro entre a memória e a história. Neste sentido, a memória é definida como uma forma de representação embasada na seleção, na tradução e na organização, o que demanda um longo processo. Compondo um verdadeiro resgate a esta memória, possuímos um acervo o qual, atualmente, abrange um conjunto de documentos diversificados, entre eles: objetos tridimensionais, livros nacionais e estrangeiros, periódicos, atas, fichas biomédicas, fotografias, entre outros. Esses diversos documentos estão sendo organizados em fundos e coleções, os quais se configuram como fontes para a realização de diversos projetos. Na lida cotidiana com o acervo, temos que fazer escolhas e solucionar muitos problemas. Esse trabalho nos motiva a estabelecer questões, buscar caminhos, retificar opções, aprender com a experiência: o quê e como preservar? Qual o melhor lugar para se conservar determinado tipo de documento? Como e quando restaurar e higienizar os documentos? Entendemos, assim, que a forma de organização do acervo pode ser compreendida como uma das dimensões da própria história, pois as escolhas feitas revelam nossas tendências e prioridades. da UFMG; Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFMG. 2

3 A Série Iconográfica, a qual é vinculada ao Projeto de Extensão, faz parte da Coleção Institucional (CI) uma das Coleções do Acervo do CEMF. Atualmente, encontra-se dividida em vinte Séries Tipológicas, possuindo no total mais de duas mil fotografias, as quais possuem dimensões que variam de 3cm x 4cm à 30cm x 40cm e abrangem o período que se estende da década de 50 até aproximadamente a década de 90. Uma parcela destas fotografias foi doada pela própria Escola de Educação Física da UFMG e a outra, ao que tudo indica, são doações efetuadas por ex-professores de seus acervos particulares. Esta Série é submetida a diversas etapas: preservação, catalogação, identificação, digitalização e divulgação. A preservação representa um conjunto de operações necessárias para perenizar o acesso a documentos em seu maior grau de integralidade. Buscamos qualificar nosso trabalho estabelecendo contato com o Centro de Referência Audiovisual da Prefeitura de Belo Horizonte, que domina técnicas apuradas de higienização, conservação e identificação de documentos audiovisuais e iconográficos. Essa troca de experiência tem sido relevante para ordenação e orientação do nosso trabalho, além de reforçar o caráter interdisciplinar deste fazer. Todo este processo é acompanhado de leituras de artigos e construções de oficinas, visando avançar a competência técnica que o trabalho exige, além de aprender a partir das experiências de outros acervos. Com relação à catalogação, processo o qual estou envolvida diretamente desde 2009, constitui-se como uma ferramenta facilitadora para a localização desses documentos, tornando a informação contida em cada fotografia mais clara para os pesquisadores. Com o objetivo de facilitar a busca por determinada fotografia e estimular sua utilização, elaboramos uma ficha de catalogação a qual apresenta as principais informações acerca do documento em questão. A identificação, por sua vez, consiste no reconhecimento de pessoas e lugares presentes nas fotografias e é efetuada por ex-professores da Escola de Educação Física da UFMG que vivenciaram diversos eventos. Este processo é contínuo e sempre necessário. Muitas fotografias requerem diferentes identificadores. Longe de ser uma tarefa meramente técnica, é um procedimento que exige um vagar, uma vez que estamos instigando os sujeitos a resgatar, em sua memória, o contexto e os personagens presentes naquela imagem, naquela época. Sendo assim, este trabalho envolve a emoção da lembrança, por meio das histórias singulares, pelas versões dadas a cada fragmento da memória. Como ressaltou Bosi (2003, p.15), a memória de velhos pode ser trabalhada como um mediador entre a nossa geração e as testemunhas do passado. Por conseguinte, a digitalização se caracteriza como um dos procedimentos da nossa política de preservação e facilitação do acesso aos documentos. Com o objetivo de 3

4 disponibilizar o arquivo digitalizado e não mais a fotografia original evitando, dessa maneira, sua perda. Assim, corroboramos com a ideia defendida por Chagas (2006): a razão da preservação não é o suporte material, mas a informação. Por fim, a divulgação representa o principal ponto de nosso trabalho, uma vez que é de extrema importância possibilitar o acesso a informação há um maior e diversificado público. Enfim, o Projeto Garimpando, Organizando e Divulgando a Memória no CEMEF se constitui como um trabalho acadêmico, que envolve além de procedimentos técnicos, subjetividades, rememorações, lembranças e esquecimentos. Nessa perspectiva, entendemos que a imagem se configura como uma ferramenta de conhecimento e de compreensão da história. Uma vez que a fotografia, pela sua própria natureza, possibilita uma percepção do mundo diferente daquela oferecida por outros suportes, confere acesso a informações que dificilmente poderiam ser obtidas por outros meios. Dessa forma, reconhecemos este Projeto como um grande aliado em um processo que requer cuidados e, consequente, a compreensão e a divulgação da história da Educação Física, do Esporte e do Lazer. Como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, ainda é tempo de contar histórias e há muitas histórias a serem contadas. O Projeto de Pesquisa: Circularidade de modelos pedagógicos e formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte: vestígios de práticas no acervo do CEMEF/UFMG ( ), possui como temática a formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte, de 1950 a Tal período corresponde ao surgimento e à consolidação da Escola de Educação Física da UFMG como instituição responsável pela formação de profissionais para a atuação no ensino e pelo desenvolvimento de pesquisas, com seus desdobramentos para a produção de conhecimentos na área. Em meados do século XIX, a organização do campo pedagógico da Educação Física brasileira sofreu diversas modificações, uma das principais causas foi a intensa circulação de saberes que ocorreu neste período. Como consequência, desencadeou-se um processo de mediação de interesses e de necessidades produzidos em outros âmbitos, como na medicina, no exército e no esporte, os quais influenciaram, sobremaneira, esta área. Entretanto, não podemos acreditar que esta circulação ocorreu de maneira simplificada ou por uma reprodução passiva em um determinado espaço. Por conseguinte, devemos nos interrogar de qual maneira ocorreu essa circularidade cultural de modelos, tanto pedagógicos quanto científicos, os quais teriam orientado a formação de professores de Educação Física no Brasil, particularmente em Minas Gerais, em diferentes momentos históricos. 4

5 Este movimento de circulação de modelos, de saberes, bem como de suas práticas e de seus objetos foram apropriados e reconfigurados pelos sujeitos envolvidos. Neste momento, torna-se imprescindível destacar que o conteúdo que circulava não se configura como uma entidade desencarnada, autônoma e que não possui vínculo com seus mediadores culturais. Sempre houve e haverá envolvimento de pessoas, de instituições ou de suportes materiais que promovem as mestiçagens culturais (GRUZINSKI, 2001a; FONSECA, 2003). É importante ressaltar ainda que nestas mediações e nestes espaços existiram choques e entrelaçamentos de uma cultura com as outras, uma vez que, nada é passível de receber determinada influência e não reagir diante dessas transformações. Embora, não podemos negar que constantemente ocorrem relações assimétricas de poder, de dominação e de subordinação (GRUZINSKI, 2001a; GRUZINSKI, 2001b; PRATT, 1999). Assim, este conhecimento que circulava passou por reinterpretações e modificações realizadas por aqueles que, segundo seus interesses, suas demandas, foram o adequando às suas necessidades, às circunstâncias locais. Neste momento, a Educação Física, com suas várias representações pedagógicas e culturais, foi gradativamente sendo incluída nas escolas, atendendo às suas regras e seus conteúdos disciplinares. Diante dessa dinâmica circulatória, o desafio desta Pesquisa será compreender as apropriações, reapropriações e interações entre os pressupostos pedagógicos, políticos e científicos que fundamentaram a formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte. Seus objetos serão os intercâmbios internacionais estabelecidos entre a Escola de Educação Física de Minas Gerais, a República Federal da Alemanha e a dos Estados Unidos, os quais promoveram viagens de estudos e qualificação de seus professores àqueles países. Somando-se a isto, foi promovida a circulação de professores oriundos de instituições americanas e alemãs. A hipótese que rege esta Pesquisa é que tais professores atuaram como mediadores culturais para afirmar modelos pedagógicos e demarcar referências para a constituição da Educação Física em Belo Horizonte. O objetivo, por sua vez, é investigar as práticas realizadas em tais atividades acadêmicas considerando a circularidade cultural de modelos pedagógicos e as mediações realizadas na Escola como elementos centrais da análise. Esta Pesquisa será desenvolvida seguindo os procedimentos metodológicos da pesquisa histórica, utilizando fontes documentais obtidas, sobretudo, no Acervo do CEMEF, além das fontes produzidas a partir de depoimentos e acervos particulares de sujeitos envolvidos com a Escola de Educação Física no período determinado. 5

6 CISIDIF/Jornadas449 Com relação às fontes presentes no Acervo do CEMEF, enfatizando a Série Iconográfica, uma de suas Séries Tipológicas, é a denominada Jornadas, a qual se configura como uma possibilidade um tanto quanto relevante, uma vez que esta Série é composta por 32 fotografias que apresentam essa temática. As Jornadas foram eventos realizados nas décadas de 1950 e 1960, com participação de professores e estudantes da Escola, além de professores de Educação Física que atuavam no ensino regular, de professores de outros estados e outros países, os quais eram convidados para ministrar cursos e proferir palestras. Há o registro de aulas de recreação, de palestras, de aulas práticas as quais envolviam danças, esportes, ginástica, entre outros. Outra Série Tipológica que apresenta a mesma relevância como fonte para a realização dessa Pesquisa é a intitulada Projeto Brasil, a qual possui 100 fotografias. Este Projeto foi desenvolvido no âmbito nacional e possibilitou a criação de Laboratórios de Fisiologia em Escolas de Educação Física do Brasil. Seus objetivos eram o desenvolvimento do esporte competitivo, a detecção e promoção de talentos esportivos, além de propor o desenvolvimento de estudos e pesquisas em áreas consideradas como ciência, de modo a sustentar a formação de professores em bases científicas. Nessa Série, há registros de serviços médicos realizados com crianças e adultos, de CISIDIF/Projeto Brasil485 aulas práticas, de exercícios físicos, entre outros. A maioria destas fotografias de ambas as Séries Tipológicas foram identificadas pelo ex-professor da Escola de Educação Física da UFMG, Élcio Paulinelli. CISIDIF/Projeto Brasil1138 Concluindo, reforço minha hipótese de que há um diálogo entre o Projeto Circularidade de modelos pedagógicos e formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte: vestígios de práticas no acervo do CEMEF/UFMG ( ) e a Série Iconográfica. Um, pode sim alimentar o outro, pois há nas fotografias vestígios de 6

7 circularidade e elas se configuram como suportes que apresentam realidades, as quais possivelmente não seriam captadas utilizando outros meios. As fotografias, por si somente, são capaz de fornecer ao pesquisador uma imensidão de informações, uma vez que, segundo Nuno Godolphim (1995), uma fotografia é um texto e, como toda manifestação comunicacional, possui linguagem própria. 7

8 REFERÊNCIAS: BOSI, Eclea. O Tempo Vivo da Memória - Ensaios de Psicologia Social. Ateliê Editorial, CHAGAS, Mário. Há uma gosta de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. Chapecó: Argos, CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Cia das Letras, GODOLPHIM, Nuno. A fotografia como recurso narrativo: Problemas sobre a apropriação da imagem enquanto mensagem antropológica. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p , jul./set GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001a. GRUZINSKI, Serge. «Un honnête homme, c est n homme mêlé. Mélanges et métissages. In :GRUZINSKI, Serge; TACHOT, Louise B. Passeurs culturels : Mécanisme de métissage. Paris : Éditions de la Maison des Sciences de l homme, 2001b, 319p. PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império: relatos de viagem e transculturação. Bauru, SP; EDUSC, ROSA, Maria Cristina e LINHALES, Meily Assbú (orgs.). Guia de Fontes: acervo do Centro de Memória da Educação Física do Esporte e do Lazer. Belo Horizonte: EEFFTO UFMG, VAGO, Tarcísio Mauro (orgs.). Circularidade de modelos pedagógicos e formação de professores de Educação Física em Belo Horizonte: vestígios de práticas no acervo do CEMEF/UFMG ( ). Belo Horizonte: EEFFTO UFMG,

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