Revista da Faculdade Integrada do Ceará

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2 Revista da Faculdade Integrada do Ceará ISSN Anima Fortaleza ano 7 n. 11 p jan.jul

3 FACULDADE INTEGRADA DO CEARÁ DIREÇÃO GERAL ANA FLÁVIA ALCÂNTARA ROCHA CHAVES DIRETORIA ACADÊMICA MICHELLE RABELO DIRETORIA ADMINISTRATIVA-FINANCEIRA C,NOEME MILFONT MAGALHÃES COMISSÃO DE PUBLICAÇÃO Editoria Científica: Profª Ms. Letícia Adriana Pires Teixeira Profª Ms. Maria da Graça de Oliveira Carlos Conselho Editorial: Profª Antonia Cláudia Lopes - FIC Prof. Ms. Carlos Alberto dos Santos Bezerra - FIC Prof. Dr. Francisco José da Costa - FIC Prof. Dr. Guilherme Lincoln Aguiar Ellery - FIC Prof. Dr. José de Sousa Neto - FIC Prof. Dr. José Afonso Bruno - FMJ Profª Ms. Letícia Adriana Pires Teixeira - FIC Profª Dra. Lydia Maria Pinto Brito - UNP/RN Prof. Ms. Osório Cavalcante de Araújo - UFC/CRC Profª Ms. Roberta Cristiana Barbosa Terceiro - FIC Profª Dra. Maria do Socorro Silva Aragão - UFPB/UFC Prof. Ms. Francisco Thauzer Coelho Fonteles - FIC/CRA Profª Dra. Maria Elias Soares - UECE/UFC Profª Dra. Eulalia V. L. Fraga - UFC Prof. Ms. Mirna Gurgel Carlos da Silva - FIC Prof. Ms. Maria de Fátima Medina Lucena - FIC Produção Editorial José Vauni de Freitas Bibliotecárias Responsáveis Luíza Helena de Jesus Barbosa CRB 830 Adriana Patrícia Costa Batista CRB 883 Anima/Faculdade Integrada do Ceará. ano 7, n.11, (jan./jul. 2007). Fortaleza: Faculdade Integrada do Ceará, v.: il, 30cm. Semestral Início da coleção v.1, n,1, out./dez Periódico científico 2. - Faculdade Integrada do Ceará 3. Artigos diversos CDD Printed in Brazil ISSN

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5 Editorial A Anima é uma revista generalista de caráter multidisciplinar que busca atender um espectro abrangente de domínios do conhecimento. O público-alvo da Anima é composto por professores, pesquisadores e estudantes da comunidade acadêmica que se propõem divulgar o resultado de estudos técnico-científicos. A Anima tem interesse na publicação de artigos de desenvolvimento teórico, com ampla revisão bibliográfica; trabalhos empíricos respaldados em procedimentos meto- dológicos criteriosos e em ensaios que apresentam perspectiva crítica e de relevante contribuição científica. Com uma linha editorial que contempla a diversidade de enfoques e abriga temas que a tornam um espaço múltiplo de debate acadêmico, a Anima busca contribuir como canal para a disseminação de estudos e de manifestação plural de saberes. Assim, reafirmando o compromisso institucional com o desenvolvimento acadêmico, temos a satisfação de oferecer à comunidade o nº 8 da revista Anima, em que são apresentados oito artigos: Abordagem da Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva em Portadores de Seqüela Hemiplégica por Acidente Vascular Cerebral Isquêmico. A pesquisa foi realizada pelos professores Patrícia Ma. M. Mota, Teresa M. da S. Câmara, Maria do Socorro Brito Lucetti, Cristiano T. de Sousa, e professor Vasco P. Diógenes Bastos. Trata do Acidente Vascular Cerebral, fatores de risco, causas, complicações e discute fatores de reabilitação. Funções Exportação e Importação da Região nordeste 1990/02 da professora Mariana Damasceno. Faz uma abordagem econométrica das exportações e importações da Região nordeste e dos seus principais e estados em termos do Produto Interno Bruto PIB: Bahia, Ceará e Pernambuco no período de 1990 a Auto-Avaliação na Faculdade Integrada do Ceará, como forma de Repensar e Melhor Cumprir com a sua Missão. 4

6 Os professores Jose de Souza Neto, Guilherme Lincoln Aguiar Ellery, Nilzarina de Deus Loyola Lopes e Amélia Carmelita Gurgel dos Anjos relatam a experiência vivenciada com o processo de avaliação com ênfase na auto-avaliação docente e discente na Faculdade Integrada do Ceará no ano de Incerteza e Prospectiva: Sonho de Ícaro ou Asas de Águia? Os professores Maria da Graça de Oliveira Carlos e Eleazar de Castro Ribeiro realizam um estudo das dimensões culturais em organizações da área metropolitana de Fortaleza, avaliando especialmente sua atitude ante o futuro e a intolerância à incerteza. A Tutela Penal do Ambiente: a Lei nº 9.605/98 e as Normas Penais em Branco, o professor Nestor Araruna estuda o princípio da legalidade penal e suas repercussões na construção da norma penal incriminadora nos crimes ambientais. Expectativas dos Turistas em Área de Proteção Ambiental: uma Análise da Serra da Ibiapaba, estudo de autoria da professora Lorena Cunha de Sena que analisa atributos relativos à oferta de produtos turísticos associados à expectativa dos visitantes da região do Parque Nacional de Ubajara como área de proteção ambiental. Dialética do Turismo: Construindo o Saber Turístico, em que a professora Cristiane Buhamra Abreu faz uma revisão conceitual da literatura no tema, dando enfoque à teoria e à prática do turismo, abordando ainda o aspecto social e econômico. Abertura Comercial Brasileira: Panorama Político e Conseqüências. Trabalho do aluno Pedro Rebouças, orientado pelos professores, Ricardo Eleutério Rocha e Caline Barros de Oliveira MontAlverne, que venceu o concurso de artigos de comércio exterior em Trata da abertura comercial do Brasil na década de 90, do processo de adaptação das empresas, atração de recursos externos, nível de emprego, balança comercial e da vulnerabilidade externa como um elemento histórico-estrutural da economia brasileira. Os artigos ora publicados evidenciam conteúdo abrangente e refletem a inserção, em temáticas relevantes, da agenda contemporânea, que plena de transformações constantes abre espaço para a participação e produção de conhecimentos e a colaboração da comunidade acadêmica. Os Editores. 5

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8 Sumário Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma 09 Relação Possível ou Necessária? Eliane Paiva Montenegro, Marcelle Colares Oliveira Gestão Participativa e Voluntariado: Sinais de uma Racionalidade Substantiva na Administração de Organizações do Terceiro Setor. Francisco ANTONIO BARBOSA Vidal, Denise PIRES BASTO Costa, Silvia Costa, Isolda Castelo Branco 27 Análise de um Programa de Assistência à Mastectomizadas como facilitador das realizações das atividades de vida diária Rafaely Ferreira Rodrigues, Teresa M. da S. Câmara, Cleoneide Paulo Oliveira Pinheiro, Cristiano T. de Sousa, Vasco P. Diógenes Bastos 43 Gestão Social: Um desafio para captar recursos nas Organizações do terceiro mundo Maria da Silva, Léia Mayer Eyng 69 Sexualidade da Mulher na Terceira Idade Márcia Maria César Marinho Araújo, Maria Cely Carvalho Ramos Linhares, Rosiléa Alves de Sousa, Cleoneide Paulo Oliveira 57 Responsabilidade Social Empresarial e a Sustentabilidade: Tecendo Novas Relações Sociais Maria do Carmo Aguiar da Cunha Silveira 99 Responsabilidade Socioambiental Corporativa: diálogos com as teorias em busca de sinais de uma nova racionalidade empresarial Francisco Antônio Barbosa Vidal Daniel Rodriguez de Carvalho Pinheiro 85 Responsabilidade Social no Setor de Transporte de Passageiros Adelita Adiers, Léia Mayer Eyng 111 As Novas Demensões da Responsabilidade Social e o Desenvolvimento Sustentável OtilianA FARIAS MARTINS, MARIA LUIZA CRISPIM DANTAS 123 A Ética como Diálogo e Tarefa do Pensamento Carlos Roger Sales da Ponte 133 Implementação de Práticas de Responsabilidade Social: Estudo de Multicasos em Empresas da Área Metropolitana de Fortaleza SARAH CAMARGO CAMPOS, MARCELLE COLARES OLIVEIRA137 7

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10 Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma Relação Possível ou Necessária? Eliane Paiva Montenegro 1 Marcelle Colares Oliveira 2 Resumo: Este estudo enfoca a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) num contexto mundial transformado por fatores como a globalização, a tecnologia da informação e o fim do comunismo, desvendando novos desafios para as empresas, ampliando o debate sobre o Estado e inserindo as comunidades como um elemento fundamental na sociedade. Caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa que tem como objetivo principal analisar as práticas de RSE na Região II de Fortaleza, procurando distinguir as relações e as formas de atuação dos agentes envolvidos no processo: empresas, Estado e comunidades. Os dados coletados por meio de entrevista semi-estruturada revelam que a relação entre esses agentes sociais ainda é delicada, uma vez que o Estado não tem uma completa percepção sobre a questão da RSE. Indicam que as ações sociais empresariais são pulverizadas, simplistas, sem focos estratégicos e a idéia da RSE, apesar de haver avançado, ainda é vista como marketing social ou como forma de isenção de impostos. Ficou comprovada a significância do tema, até porque, como indicado, as empresas vêm percebendo a necessidade de desempenhar um novo papel na sociedade, e o Estado não pode mais ser visto como único responsável pelas demandas das comunidades. 1 Mestre em Administração pela UNIFOR - Fortaleza 2 Doutora em Controladoria e Contabilidade pela USP Abstract: This study it focuses the Enterprise Social Responsibility (ESR) in a world-wide context transformed by factors as the globalization, the technology of the information and the end of the communism, unmasking new challenges for the companies, extending the debate on the State and inserting the communities as a basic element in the society. It is characterized as a research of qualitative nature that has as objective main to analyze the practical ones of ESR in Region II of Fortaleza, being looked for to distinguish the relations and the forms from performance of the involved agents in the process: companies, State, and communities. The data collected by means of half-structuralized interview disclose that the relation enters these social agents still is difficult, a time that the State does not have a good perception on the question of the ESR. They indicate that the enterprise social actions are sprayed, simple, without strategic focus, and the idea of the ESR, although to have advanced, still it is seen as social marketing or as form of tax exemption. One shows its importance, even because, as indicated, the companies come perceiving the necessity to play a new role in the society, and the State undisputed cannot more being seen as only responsible for the demands of the communities. Palavras Chaves: Responsabilidade Social. Estado. Comunidades. Key words: Social responsibility-res. State. Communities. Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jun

11 Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma Relação Possível ou Necessária? 1 Introdução Nos últimos quarenta anos, o setor empresarial tem sofrido pressões sistemáticas de diferentes segmentos da sociedade, cobrando mudanças nas práticas de negócios. Diante de um contexto favorável a uma nova lógica empresarial, um número crescente de empresas tem abandonado práticas ultrapassadas de filantropia e abraçado novas formas de inserção social, protagonizando diferentes papéis junto às comunidades. O capitalismo global tem-se transformado de tal modo que a rentabilidade não pode mais basear-se exclusivamente em consumismo e competição. Diversas empresas vêm alargando seus objetivos ao transcenderem sua vocação básica de geradoras de riquezas, passando a atuar em sintonia com as necessidades das comunidades em que estão inseridas. Num contexto mundial abalado por transformações como a globalização, a tecnologia da informação e a queda do comunismo internacional, ampliou-se o debate sobre o papel do Estado, suas funções e áreas de influência. Sofrendo ataques de distintos grupos de pressão, o modelo de Estado vigente entrou em crise, provocando propostas diferenciadas de reforma. Desse modo, fala-se em um novo paradigma de Estado menos interveniente, mais forte, mais regulador do que investidor, mais parceiro e menos protetor, que precisa assumir a tarefa de atuar mais nas causas do que nos efeitos e de tirar maior proveito de recursos escassos. Redesenhando o cenário do recente final de século, novos movimentos sociais em prol de direitos sociais para o homem e a mulher; em busca do desenvolvimento sustentável; em defesa das minorias; pelos direitos dos consumidores; contra a proliferação de armas nucleares; em favor da ética e da transparência nos negócios trouxeram embutida a dimensão da comunidade, como força fundamental no desenho da sociedade. Nesse cenário global, as empresas têm procurado adotar diferenciais competitivos, estratégias distintas de negócios que atendam às necessidades da organização e de seus públicos, construindo um novo paradigma de negócios. É uma saída para escapar da racionalidade econômica e uma passagem para a racionalidade social, preenchendo os vazios, resgatando a solidariedade e o interesse pelo bem-comum. Neste estudo sobre Responsabilidade Social Empresarial foram introduzidos outros atores sociais, além das empresas: o Estado e as comunidades, percebendo-os como elementos básicos para a compreensão das relações desenvolvidas nas ações sociais empresariais. Buscouse responder os seguintes problemas de pesquisa: Como se desenvolve a relação entre as empresas, o Estado e as comunidades na definição das ações sociais empresariais? Como tais ações são percebidas por esses distintos atores? O objetivo geral deste trabalho consiste em analisar as práticas de Responsabilidade Social Empresarial na Região II da cidade de Fortaleza, distinguindo-se as relações e as formas de atuação dos agentes envolvidos no processo: as empresas, o Estado e as comunidades. Para se assegurar o alcance desse propósito, foram estabelecidos como objetivos específicos: a) contextualizar a temática Responsabilidade Social Empresarial; b) expor aspectos concernentes ao Estado, suas funções e áreas de influência; c) situar as comunidades nesse contexto; d) investigar o relacionamento existente ente os três atores nas ações sociais empresariais; e) averiguar o envolvimento do poder público local nas ações de Responsabilidade Social Empresarial, sob quaisquer formas, como parceiro ou como indutor do processo. Para se atingir os objetivos propostos, estabeleceram-se como pressupostos: 10 Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul. 2007

12 Eliane Paiva Montenegro, Marcelle Colares Oliveira as ações sociais empresariais são pulverizadas, desarticuladas e de cunho predominantemente assistencialista; as relações entre empresas e comunidades são frágeis e inconstantes, resultando um desconhecimento sobre as necessidades dos interessados; não há relacionamento entre empresas, governo e comunidades no sentido de soluções integradas para as questões sociais ou do desenvolvimento de parcerias estratégicas; as empresas ainda adotam formas tradicionais (calcadas em interesses e decisões dos gestores) de gestão da responsabilidade social, de modo que as ações não têm contribuído para a construção da cidadania e de uma sociedade sustentável; os efeitos da atuação social empresarial não são relevantes no sentido do resgate das comunidades; as empresas não conhecem os mecanismos de participação popular que possibilitam a criação de espaços de integração dos distintos setores da sociedade. O presente estudo fundamenta-se nos conceitos, princípios e dimensões da Responsabilidade Social Empresarial, nas noções de Estado, formas de atuação e propostas de mudança de paradigma, nas concepções de comunidades e em sua presença no mundo em transformação. Para a consecução dos objetivos do trabalho, a pesquisa de natureza qualitativa, envolveu empresas vinculadas à Federação das Indústrias do Estado do Ceará-FIEC, que atuam junto às comunidades, secretarias municipais responsáveis pela realização de obras e serviços no âmbito da Região II, além da Secretaria de Planejamento e Orçamento e da Coordenadoria do Orçamento Participativo da Prefeitura de Fortaleza, e dezesseis comunidades cadastradas por ocasião da elaboração do Plano Plurianual de Investimentos e da Lei Orçamentária Anual Um novo paradigma de Estado As três últimas décadas, cenário de transformações como a globalização, a tecnologia da informação, o fim do comunismo na União Soviética e nos países do Leste Europeu, inseriram debates sobre o Estado, suas funções e áreas de influência, assim como suas obrigações para com o cidadão. Essa diferente conjuntura permitiu se delinear um esquema de construção institucional, com a participação de novos atores sociais, visando à melhoria da qualidade de vida do homem, ao alargamento dos espaços de colaboração e de interação e à ampliação da cidadania. O Estado chegou à primeira metade do século XX sobrecarregado de múltiplas atribuições, que, de acordo com Brandão (1998), podiam representar atividades judiciais, de controle, provisão de serviços públicos, envolvimento direto no processo produtivo por meio da propriedade pública de certo número de empresas, e atividades regulatórias, destinadas a limitar o impacto coletivo do comportamento individual. A partir da década de 70, esse Estado começou a ser criticado pelo seu gigantismo, manifesto por estruturas de poderes diferentes e esferas distintas e pela criação de múltiplas agências. Passou-se a falar em crise do Estado, sendo colocadas questões relacionadas ao crescente aumento do aparato burocrático estatal, à ineficiência e ineficácia governamental, à corrupção nas instituições do setor público, aos retornos inexpressivos para a sociedade, em contrapartida às crescentes taxas e impostos cobrados dos cidadãos. De acordo com Dupas (1999), o relatório do Banco Mundial The State in a Changing World (World Development Report, 1997) apontava como razões para a preocupação generalizada sobre a redefinição e os limites do novo Estado o desmoronamento das economias socialistas; a crise do Welfare State em parte das economias de- Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul

13 Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma Relação Possível ou Necessária? senvolvidas; o colapso dos Estados e a explosão de emergências humanitárias, principalmente nos países em desenvolvimento, e o importante papel do Estado nas economias asiáticas. Na visão de Castells (1999), o Estado continuava sendo um importante agente de intervenção estratégica nos processos econômicos, ainda em sua dimensão global, e que os contextos institucionais e reguladores são importantes para as empresas, para os trabalhadores, para a economia e para a sociedade. As políticas públicas desempenham papel relevante, uma vez que podem constranger, orientar ou, ao contrário, tornar sem controle os fluxos de capital e as tendências de mercado. As convergências do cenário internacional provocaram a necessidade de uma revisão no papel do Estado. Conforme Dupas (1999), após a ampla aceitação do esgotamento do modelo do Welfare State, ancorado nas práticas keynesianas, o debate acabou balizando-se entre a idéia de Estado mínimo que não crie nenhum embaraço ao mercado e de um Estado forte que opere no mundo globalizado minimizando seus conflitos, inclusive a exclusão social. Surgiram então, na Europa e nos Estados Unidos, novas propostas, dentre elas, a neoliberal, que se define a partir da capacidade de gestão do aparelho estatal. Apoiados na figura impessoal e abstrata do mercado, os neoliberais defendem uma concepção que representa menos uma teoria do que uma receita de governo, chegando a afirmar que não se baseiam em demandas sociais, e sim em princípios de gestão pública. Essa fase do movimento da reforma do Estado iniciou-se com o Consenso de Washington e prolongou-se até o início da década de 90. Para Santos (1999), foi dominada pelos interesses das forças capitalistas, constituindo-se num movimento global orquestrado pela ação combinada dos estados centrais e instituições financeiras multilaterais, com recurso a dispositivos normativos e institucionais, tais como dívida externa, controle do déficit público e da inflação, privatização, ameaças de desmoronamento do Welfare State e, sobretudo, da segurança social, e a conseqüente redução dos mecanismos de proteção social. Para Dowbor (1999, 2002), a reforma do Estado tem uma orientação fundamental, que seria humanizar e reequilibrar a sociedade; nesse contexto as empresas devem assumir a sua responsabilidade social e ambiental. Todavia, enquanto o planeta se reduz, e tudo se torna mais próximo, as desigualdades crescem rapidamente; a proximidade e o convívio entre riqueza e miséria, luxo e privações, representando uma mistura explosiva e insustentável. Santos (1999) observa que uma segunda fase da reforma do Estado poderia ser considerada social e politicamente mais complexa que a anterior, onde haveria duas concepções opostas: o Estado-empresário e o Estado-novíssimo-movimento-social. A primeira, traduzida por meio de recomendações básicas como privatizar as funções que não são exclusivas do Estado e submeter a administração pública a critérios de eficiência, eficácia e efetividade, próprios do mundo empresarial. Tem relação com a primeira fase da reforma do Estado, e a filosofia política a ela subjacente revela igualmente a busca de uma mais íntima articulação entre o princípio do Estado e o princípio do mercado, sob o domínio do último. A segunda concepção, do Estado-novíssimomovimento-social, funda-se na idéia de que diante da força opressora do princípio do mercado, nem o princípio do Estado, nem o princípio da comunidade podem garantir isoladamente a sustentabilidade de interdependências não-mercantis. De acordo com Santos (1999, p. 264), traduz-se Numa nova forma de organização política, mais vasta que o Estado, de que o Estado é o articulador, e que integra um conjunto híbrido de fluxos, redes e organizações, em que se combinam e interpenetram elementos estatais e nãoestatais, nacionais, locais e globais. O horizonte seria uma solução pactuada em que não há o predomínio de nenhum dos padrões 12 Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul. 2007

14 Eliane Paiva Montenegro, Marcelle Colares Oliveira de organização da sociedade, nem o Estado, nem o mercado, nem as comunidades, como força emergente, a partir dos anos 60. Para Offe (1999), seria um redesenho institucional das relações entre o Estado e a sociedade. Nesse cenário, o Estado deve desempenhar um novo papel, ultrapassando a fase intervencionista e a fase do Estado mínimo. As experiências comprovaram que no mundo globalizado esses dois modelos não foram capazes de atender adequadamente às demandas sociais e enfrentar as questões embutidas nos processos contraditórios do final do século XX. Nas palavras de Thompson (2005), o grande desafio seria ver como, a partir do social, o mercado pode ser reinventado, para satisfazer as necessidades de bens e serviços da maioria da população, e como se pode reinventar o Estado enquanto extensão de um contrato social que reflita uma relação em que as pessoas estejam no centro das preocupações políticas. Para Junqueira (2001), essa articulação de pessoas e organizações da sociedade civil não retira do Estado o papel de formulador e financiador das políticas sociais; ao contrário, amplia suas funções de planejamento, avaliação e controle, para garantir aos cidadãos o acesso a uma vida com qualidade. Nesse sentido, o Estado agrega na sua tarefa parceiros que tenham o compromisso com o social, viabilizando a construção de uma sociedade justa e solidária. Seria uma nova lógica social, transformando a lógica econômica empresarial, utilizando a racionalidade e a eficiência das empresas no sentido da construção de propostas inovadoras em prol da qualidade de vida dos homens e da sustentabilidade do planeta. 3 A Construção da Responsabilidade Social Empresarial O quadro de desigualdades sociais do país tem contribuído para o fortalecimento do tema Responsabilidade Social Empresarial (RSE), fazendo com que um número crescente de empresas busque formas diferenciadas de atuação que contribuam para a formação de uma sociedade ética e justa. Na opinião de Tenório et al (2004), a RSE constitui tema polêmico e dinâmico, envolvendo desde a geração de lucros pelos empresários, em uma forma simplificada, à implantação de ações sociais como estratégia empresarial, num contexto abrangente e complexo, podendo tornarse questão fundamental para a continuidade dos negócios. Para Duarte e Dias (1986) a expressão pode representar a idéia de responsabilidade ou de obrigação legal; também um dever fiduciário, que impõe às empresas padrões mais elevados de comportamento. Pode ser traduzida, ainda, como prática, papel e função social, ou associada a um comportamento eticamente responsável, ou a uma contribuição caridosa. Nos primórdios da literatura sobre RSE, o conceito proposto por Bowen (1957 apud AL- VES, 2001) inspirou novas idéias: os administradores de empresas tinham o dever moral de programar políticas, tomar decisões ou seguir linhas de ação que fossem desejáveis em torno dos interesses da sociedade; a empresa teria que atender a diferentes públicos, como funcionários, clientes, fornecedores, e a outros com os quais realizasse transações comerciais. Bowen (1957 apud ALVES, 2001) restaura a noção de que as organizações devem compreender melhor seu impacto social, e que o desempenho social e ético deve ser avaliado por meio de auditorias e incorporado à gestão dos negócios. Ao considerar as empresas como reflexos dos objetivos e valores sociais, contrapunha-se aos princípios da caridade e do zelo, até então especialmente sedutores para os que desejavam preservar o sistema de livre iniciativa como garantia de liberdade em relação a outras formas de pressão social. Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul

15 Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma Relação Possível ou Necessária? A temática da RSE adota, ao longo do tempo, novos elementos, traduzindo as cobranças da sociedade. Melo Neto e Froes (2001) observam que a noção de RSE vem se alargando, passando da filantropia, que expressa uma vocação para a caridade, para uma nova lógica, aliando a sustentabilidade, a cidadania e inclusão social. Consiste numa atitude coletiva, numa soma de vontades, refletindo um consenso. A filantropia é restrita a empresários caridosos e prescinde de planejamento, organização, gerenciamento e avaliação; a RSE, ao contrário, constitui-se num processo de transformação, não podendo prescindir dessas funções. Mcintosh et al (2001) e Tenório et al (2004) ressaltam três abordagens que formam um continuum. Uma abordagem econômica do conceito pode significar o cumprimento das obrigações legais que governam a operação da empresa. Uma outra, podendo ser chamada de cidadania empresarial, sugere designar o envolvimento da empresa em atividades comunitárias. Uma terceira pode representar uma série de compromissos da empresa com a sua cadeia produtiva: clientes, colaboradores, comunidades, meio ambiente e sociedade. Stoner e Freeman (1985) reportam-se ao desafio da mudança, e Austin, Herrero e Reficco (2004), assinalam uma profunda mudança de paradigma de negócios, enfatizando a importância do ambiente externo ou do entorno social para a sobrevivência das empresas. Os empresários são chamados a alterar seus padrões de administração, sua maneira de conduzir os negócios, no sentido de responder às diversas forças externas e pensar globalmente. Para Stoner e Freeman (1985), as empresas devem igualmente responsabilizar-se pelo entorno social, pela comunidade maior e mais variada de stakeholders grupos ou indivíduos direta ou indiretamente afetados pela busca de uma organização por seus objetivos. Abrangem o público interno proprietários e colaboradores e o público externo fornecedores, governo, meio ambiente e comunidades, ou outros que afetem ou sejam afetados pelos interesses da organização. Sob o mesmo enfoque, Machado e Lage (2002) observam que a RSE está associada à consciência de que as decisões e os resultados das atividades das empresas atingem um universo de agentes sociais mais amplo do que aquele composto por seus sócios e acionistas (shareholders); também geram conseqüências para os diversos agentes com os quais interagem na sociedade (stakeholders). Ferrel, Fraedrich e Ferrel (2001) defendem que a RSE compreende uma obrigação por parte da organização em maximizar seu impacto positivo sobre os stakeholders internos e externos, e tentar minimizar o negativo. Na visão de Almeida (2004), as transformações provocadas pela globalização na ordem econômica mundial têm obrigado o empresariado a repensar seu papel na sociedade, que não pode mais ser apenas o de gerador de empregos e impostos. Tem-se enraizado a percepção de que a empresa tem compromisso não apenas econômico, mas também social e ambiental, e que o desenvolvimento sustentável é fator decisivo para a sobrevivência dos povos. Ao longo do tempo, o conceito de RSE vem incorporando as mudanças sucessivas e rápidas por que passa o ambiente externo das empresas, com efeitos de grande alcance sobre suas estratégias administrativas. Entretanto, já é possível depreender que seu conteúdo reúne a ética nos negócios e a ampliação contínua e progressiva das relações com os stakeholders, além de uma visão estratégica das comunidades e o respeito e a responsabilidade para com o meio-ambiente. A essa perspectiva subjaz a consciência primeira da ética e da transparência no relacionamento com o público interno, no sentido da implantação de uma cultura organizacional fluida e receptiva para o exercício da responsabilidade social externa. 14 Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul. 2007

16 Eliane Paiva Montenegro, Marcelle Colares Oliveira Nesse contexto, pode-se entender a RSE como um processo de gestão fundamentado na ética, que pressupõe um compromisso de toda a empresa com seu público interno acionistas, proprietários e colaboradores - e externo meio ambiente, fornecedores, governo, clientes e comunidades, em busca de uma sociedade justa e sustentável. 3.1 Teorias sobre a Responsabilidade Social Empresarial A literatura contemporânea sobre RSE mostra que o tema tanto é atacado quanto apoiado, apresentando-se argumentos contrários e a favor, baseados em diferenciadas abordagens. Carrol (1979) avançou significativamente nos estudos sobre a temática ao tentar combinar, numa única teoria da ação social das empresas, as idéias filosóficas de RSE e os primeiros modelos de reatividade social. Desenvolvido em forma piramidal, o modelo representa um marco, ao articular e inter-relacionar dimensões do comportamento empresarial socialmente responsável, até então analisadas isoladamente. Essa abordagem foi revista por Schwartz e Carroll (2003), ao indicarem uma alternativa ao modelo piramidal, em função de duas limitações evidenciadas: uma, mencionada por Borger (2001), refere-se à representação gráfica, que sugere haver uma hierarquia entre as dimensões ou categorias; a segunda relaciona-se à dificuldade de capturar a sobreposição da natureza das dimensões da responsabilidade social corporativa. A abordagem alternativa recomenda a utilização de um diagrama de Venn, composto de três dimensões centrais (econômica, legal e ética) e quatro outras oriundas da sobreposição das três anteriores. A nova representação considera a dimensão social subjacente às dimensões econômica e ética, dependendo da atividade da empresa, não devendo ser considerada obrigação, já que se trata de um papel voluntário, não-mandatário, e nãoesperado do ponto de vista ético. Wartick e Crochan (1985), introduziram a noção de Corporate Social Performance, ou desempenho social das empresas, traduzida como ação, atos, obras e efeitos passíveis de identificação e avaliação. Significa a integração das linhas teóricas básicas das relações entre sociedade e negócios, envolvendo seus desafios e preocupações, expressos em segmentos distintos: princípios de RSE (econômico, ético, legal e discricionário); processos de responsividade (reativo, defensivo, acomodativo e interativo); e administração das questões. Com base no estudo desenvolvido por Wartick e Cochran (1985), Wood (1991) consolidou os trabalhos teóricos sobre responsabilidade social empresarial até então desenvolvidos. Desenvolveu um modelo de avaliação do desempenho social das empresas, compreendendo uma configuração que corresponde às três faces da atividade empresarial com relação às preocupações sociais: os princípios de responsabilidade social, os processos de responsividade e os resultados/efeitos/ impactos sociais observáveis. Os princípios da RSE são expressos no nível institucional, correspondendo ao princípio da legitimidade, formulado por Davis e Newstrom (1992); no nível organizacional, compreendendo o princípio da responsabilidade pública, proposto por Preston e Post (1975 apud STONER e FREEMAN, 1985; BORGER, 2001); e no nível individual, onde se tem o princípio da prudência, por meio do qual o direito individual e a responsabilidade de decidir e de agir devem ser definidos dentro dos limites das restrições econômicas, legais e éticas. Para Queiroz (2000) e Borger (2001), os processos de capacidade de resposta foram além da articulação das dimensões propostas por Carroll (1979). Contribuem com uma dimensão de ação, ajudando a mapear a forma como as empresas agem em relação às condições e às expectativas do ambiente e dos stakeholders. Os efeitos das ações das empresas são avaliados sobre o negócio enquanto instituição; assim como os resultados Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul

17 Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma Relação Possível ou Necessária? do comportamento empresarial devem ter como base os stakeholders atingidos. 4 As Comunidades no Brasil e a Formação do Tripé Social O Brasil se construiu historicamente como uma nação marcada por uma longa tradição autoritária, desde a colonização, tendo como uma de suas peculiaridades básicas uma forte desigualdade social, agravada com as transformações econômicas, sociais e políticas ocorridas no país e no mundo nas últimas trinta décadas. Para Murta (2002), a década de 80 foi caracterizada pelo surgimento de novos atores na cena política, contribuindo para as conquistas sociais que culminaram na elaboração das Emendas Populares para a Constituinte. A Constituição de 1988 trouxe o reconhecimento legal de novos direitos, ampliando a democracia por meio da criação de legítimos canais de participação da sociedade junto aos poderes Legislativo e Executivo. Por sua vez, Fedozzi (2001) e Azevedo (2003) ressaltam que o contexto de redemocratização vivido pelo Brasil a partir de 1985, com a volta das eleições diretas para as capitais e as tendências descentralizadoras promovidas pela Carta de 1988, a qual definiu os municípios como entes autônomos da Federação, abriu novas potencialidades para a gestão local, com novas práticas de poder, e trouxe novas complexidades à ação dos agentes urbanos. Pela Constituição de 1988, a participação popular tem lugar em todos os níveis de exercício do poder político, todavia o nível local é seu habitat por excelência. A proximidade que as comunidades menores a maioria dos municípios, portanto ensejam entre o povo e os governantes é elemento incentivador e facilitador da participação. Na gestão local é que as coisas podem acontecer; as empresas podem promover espaços de diálogo e formas de inserção social, desde que articuladas com os governos locais, com entidades não-governamentais e com as forças comunitárias. É o resgate da dimensão comunitária, com suas virtudes, solidariedade e espaços de interação. As garantias constitucionais iniciam uma nova era de participação, ensejando a criação de diferentes perspectivas para as comunidades, até então afastadas dos processos de planejamento e de organização da sociedade. A eficácia dos instrumentos disponibilizados na Carta de 1988 depende das condições de se assegurar à coletividade o direito à informação. Murta (2002) ressalta que, para cada canal de participação que se abre, é necessário que haja comunicação, sem bloqueios ou filtragens, esclarecimento das propostas e debates públicos sobre os programas e projetos do governo. É um processo construído, visando à expansão da cidadania e o desenvolvimento da participação do cidadão, que se torna sujeito de seus interesses e da coletividade que o cerca. A Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade, ao estabelecerem garantias de participação popular no planejamento municipal, ensejam a formação de espaços de consensos e de troca de experiências, no intuito do fortalecimento dos laços de solidariedade e de convivência. Dowbor (1994), observa que uma nova concepção implica a criação de mecanismos participativos simplificados e muito mais diretos dos atores-chave do município, como empresas, sindicatos, organizações comunitárias e instituições científicas e de informação. De acordo com Melo Neto e Froes (2002), para que haja uma ação transformadora é imprescindível um novo paradigma a busca de um redesenho das relações entre comunidades, Estado e empresas. Como ressalta Dowbor (2000), é a mudança do tripé estatal para o social, centrado em práticas de fortalecimento das comunidades, tornando-as 16 Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul. 2007

18 Eliane Paiva Montenegro, Marcelle Colares Oliveira protagonistas, conscientes do direito de construir o próprio caminho, e não apenas de serem beneficiárias de favores, seja do Estado, ou de empresas. Não é suficiente que o Estado ou as empresas façam algo útil para as comunidades; elas têm que aprender, utilizando os mecanismos institucionais de informação e de participação. É um processo contínuo de construção e reconstrução dos objetivos sociais, incorporando-se a idéia de cidadão e ultrapassando-se a concepção de sujeitos passivos e manipulados. 5 Metodologia 5.1 Tipologia do estudo Buscando-se atender aos objetivos geral e específicos deste trabalho, optou-se pela pesquisa qualitativa, classificando-se este estudo como exploratório, uma vez que não se verificou a existência de trabalhos que investiguem o tema pelo ponto de vista aqui abordado. Quanto ao delineamento, o trabalho utilizou-se de pesquisa bibliográfica, documental e do estudo de caso. 5.2 Técnicas de coleta de dados A coleta dos dados primários foi realizada empregando-se como fonte: entrevista semi-estruturada, documentação e observação direta. A entrevista, realizada utilizando-se de equipamento de áudio-gravação, compreendeu questões abertas, visando a deixar o informante com liberdade para expressar suas crenças, seus valores e sentimentos. 5.3 O Caso da Região II do Município de Fortaleza e as unidades de estudo Optou-se pela realização de um estudo de caso incorporado, tendo sido definidas três unidades para análise: as empresas; o Estado, neste trabalho representado pelo poder público local; e as comunidades. A Região II do município de Fortaleza compreende vinte bairros, sobressaindo-se o Centro, a Aldeota e a Praia de Iracema, caracterizadas pela convivência de áreas desenvolvidas e ricas ao lado de bolsões de pobreza, espelhando a realidade das desigualdades sociais que são a marca registrada do país e do estado. Configura-se como uma região representativa para a cidade, onde se localiza grande parte dos hotéis, restaurantes, clubes e áreas de esporte, além de âncoras cívicas e culturais, espaços naturais e construídos de relevância para os fortalezenses. Possui um significativo número de empresas, além de variadas estruturas nas áreas de comércio e serviços. Com referência ao setor empresarial, a pesquisa fundamentou-se em levantamento preliminar feito na Federação das Indústrias do Ceará-FIEC, onde foram identificados os projetos Formação Cidadã, patrocinado por Instituições de Ensino Superior e o Pão, Educação e Arte, realizado por panificadoras, relevantes para a pesquisa, por incorporarem a visão de rede de relacionamento. A entrevista foi aplicada em dez empresas do primeiro projeto e quatro do segundo, localizadas na área de abrangência da Região II. No que se refere às comunidades, foram entrevistados dez representantes comunitários da Região II, dos dezesseis eleitos quando da elaboração, de forma participativa, do Plano Plurianual de Investimentos e da Lei Orçamentária Anual 2006, da Prefeitura Municipal de Fortaleza. No setor público, a pesquisa foi realizada com os gestores municipais das Secretarias: Executiva Regional II, de Infra-estrutura e Controle Urbano e de Planejamento e Orçamento, além da Coordenadora do Orçamento Participativo. 5.4 Categorias de Aná lise Objetivando-se atender aos objetivos da pesquisa, buscou-se analisar: a) a relação entre as empre- Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul

19 Responsabilidade Social Empresarial, o Estado e as Comunidades: Uma Relação Possível ou Necessária? sas, o Estado e as comunidades na definição das ações sociais empresariais; e b) a percepção sobre as ações sociais empresariais; considerando-se as três unidades pesquisadas: as empresas, o Estado e as comunidades. Para se atender a critérios de coerência, consistência e objetivação, foram a priori, definidas categorias de análise, valiosas para a interpretação dos dados, apresentadas no Quadro I. Quadro 1 Categorias de análise Fonte: elaborado pelas autoras 5.5 Metodologia de análise dos dados O método utilizado para tratamento dos dados foi a análise do discurso. Visando a uma melhor compreensão dos aspectos destacados, os dados foram, a princípio, organizados, sendo posteriormente transcritos para análise e interpretação. No processo de análise e interpretação, os dados ou materiais, reunidos por meio das entrevistas, da documentação e da observação direta, que constituíram as referências empíricas, foram inter-relacionados com os diversos conceitos dispostos no referencial teórico, procurando-se extrair inferências e, sobretudo, responder aos objetivos geral e específicos propostos pelo estudo. 6 Análise da relação entre as Empresas, o Estado e as Comunidades na definição das ações sociais empresariais e da percepção de tais ações por esses distintos atores Os dados brutos resultantes da aplicação do instrumento de pesquisa foram devidamente organizados e deram origem às categorias empíricas representadas pelas falas dos entrevistados. Tais categorias, que emergiram dos diversos depoimentos, foram correlacionadas às categorias construídas com base nas referências teóricas. Após estabelecer-se essa correlação, foram erigidas as categorias analíticas do conteúdo dos dados empíricos. 6.1 Unidade de Análise O Estado A relação entre as empresas, o Estado e as comunidades na definição das ações sociais empresariais Analisando as respostas, observou-se que a idéia do Estado mínimo não tem coerência, uma vez que a sociedade cobra um Estado com grande capacidade de intervenção. Os depoimentos indicam a necessidade de um Estado forte, mas democrático, que atenda à complexidade da sociedade atual. Em função da impossibilidade 18 Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul. 2007

20 Eliane Paiva Montenegro, Marcelle Colares Oliveira de o Estado recuar, ao mesmo tempo em que igualmente não pode avançar, pelo fato de ainda não haver sido solucionada a questão do financiamento público, cabe-lhe o papel de induzir um processo participativo em busca de soluções concretas para as questões sociais. Os depoimentos indicam ser fundamental o envolvimento da sociedade naquilo que é de interesse público, uma vez que não dá para se pensar no Estado como único responsável pelas demandas colocadas; não pode mais existir o Estado Provedor, os outros setores da sociedade têm que participar. Segundo os entrevistados, A idéia de um Estado parceiro é interessante, e a proposta de um novo paradigma de Estado é uma tentativa de adaptação a um momento em que as demandas são sempre crescentes. O Estado tem que procurar transformar em oportunidades os conflitos existentes na sociedade. Para os respondentes, é importante a relação entre o Estado e as empresas na definição das ações sociais empresariais, independentemente de a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) ser vista como mera estratégia de marketing. Ainda se trata de uma relação frágil, extremamente frágil, porquanto o Estado não tem boa percepção sobre a questão da RSE. Foi afirmado que a RSE resulta mais de iniciativas das próprias empresas, que estão chegando mais rápido, do que de uma política pública em relação a elas ; o Estado tem sido incompetente nessa questão. Foi apontado certo preconceito contra conversar com o empresariado, isso é visto com um pé atrás, e quebrar esse paradigma é o desafio. Com relação às comunidades, os respondentes afirmam ter havido uma evolução, embora ressaltem a permanência de interesses eleitoreiros permeando essa questão. Os depoimentos indicam que a tecnologia da informação colaborou com desenvolvimento das comunidades, uma vez que a informação chega a todos os rincões. As comunidades organizaram-se muito, conseguindo vitórias importantes com a CF/1988. Nesse processo de organização, têm sido decisivos os mecanismos de participação popular um exercício de cidadania ativa, dando visibilidade e publicidade às demandas coletivas. Os entrevistados apontam certa inabilidade do poder público municipal na articulação com as empresas, apesar de ter conseguido relacionar-se de forma positiva com as comunidades. Os depoimentos indicam que, apesar de importante e necessária a relação entre as empresas, o Estado e as comunidades na definição das ações sociais, isso ainda não acontece institucionalmente. O acúmulo de experiências do setor empresarial é relevante, e utilizando-se uma relação transparente, esse potencial poderia ser traduzido para uma política pública, visando à universalização de direitos A percepção sobre as ações sociais empresariais Para os entrevistados, a RSE é uma idéia ainda incipiente, recente no Brasil e em particular no Ceará, restrita a grandes empresas. É vista como uma forma de marketing e uma saída para a isenção de impostos. Ainda assim, entendem como incontestável a participação das empresas em projetos sociais. A RSE é importante não apenas pelo aporte financeiro que garante, mas sim pelo envolvimento direto da sociedade com as questões sociais. Os depoimentos revelam que, no sentido da expansão da cidadania, as ações sociais empresariais teriam de resultar de um trabalho junto ao poder público, aos conselhos setoriais e a outras organizações da sociedade que já trabalham nessa direção. Apesar de experiências exitosas, as ações sociais empresariais ainda são isoladas, sendo necessário um maior diálogo entre os setores da sociedade, para que se incorpore a visão da cidadania plena. Não vejo a concepção da sustentabilidade; são ações pulverizadas e isoladas, assim foi afirmado. Igualmente foi colocado: As ações são estanques, são pulverizadas, não se concentram nos focos estratégicos de ação. A questão da susten- Anima, Fortaleza, ano 7, n.11, p. 9-25, jan./jul

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