O JULGAMENTO DE ESTIMA SOCIAL NOS DISCURSOS DE PROFESSORES EM FORMAÇÃO CONTINUADA ASSIS-BRASIL, Angela Medeiros de 1

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1 O JULGAMENTO DE ESTIMA SOCIAL NOS DISCURSOS DE PROFESSORES EM FORMAÇÃO CONTINUADA ASSIS-BRASIL, Angela Medeiros de 1 Palavras-chave: Avaliatividade. Análise de discurso. Formação continuada de professores 1 Introdução Este trabalho tem como objetivo analisar os discursos de participantes de uma prática de pesquisa de interferência colaborativa entre professores de uma comunidade escolar pública estadual no Rio Grande do Sul, por meio do Sistema de Avaliatividade (MARTIN; WHITE, 2005), especificamente na categoria de Julgamento. A proposta de pesquisa de interferência colaborativa faz parte do Projeto Letramento e interdisciplinaridade: o discurso nas práticas sociais letradas, inserido na Linha de Pesquisa Linguagem no contexto social, do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Grupo de Trabalho (GT) do Laboratório de Ensino e Pesquisa de Leitura e Redação (Labler) e no Grupo de Pesquisa/Cnpq Linguagem como Prática Social. O Sistema de Avaliatividade é um sistema interpessoal no nível da semântica discursiva e é realizado, em termos léxico-gramaticais, pelo estrato da léxico-gramática ou pelo estrato grafo-fonológico, de modo a reforçarmos, ampliarmos ou reduzirmos o alvo da nossa avaliação (VIAN JR., 2011b, p.22). Para Martin & White (2005, p. 25), a avaliatividade possui três domínios que interagem entre si: atitude, engajamento e gradação. Neste estudo, centramos o foco na Atitude, que é o subsistema que está relacionado a sentimentos, reações emocionais, julgamento de comportamentos e avaliação das coisas, mais especificamente na categoria de Julgamento, que está preocupado com os recursos para avaliar o comportamento de acordo com os vários princípios normativos, como caráter, por exemplo. O Julgamento refere-se aos significados que indicam uma visão de aceitabilidade social do comportamento de agentes humanos, sendo uma avaliação feita por meio de referências a algum sistema de normas sociais (WHITE, 2004, p.179). Segundo Carvalho (2011, p. 118, com base em MARTIN, 2000, p.156), há uma distinção entre juízos emitidos, que podem ser de acordo com estima social e sanção social. A estima social está relacionada 1 Doutoranda em Letras/ Estudos Linguísticos no PPGL/UFSM e professora da Escola Estadual de Ensino Médio XV de Novembro, em São Gabriel, RS;

2 à admiração ou a críticas sociais e pode ser categorizada como de normalidade, capacidade e tenacidade. Já a sanção social está baseada em valores como elogio ou condenação moral e pode ser classificada como de propriedade e veracidade (ALMEIDA, 2011, p. 107). Para atingir os objetivos do estudo, organizamos este trabalho em quatro seções, após a Introdução que corresponde à primeira seção, que serão descritas a seguir. 2 Metodologia O universo de análise investigado neste estudo é o segmento de professores de uma escola pública de ensino médio, situada no interior do Rio Grande do Sul. Dentro desse universo de análise, foram investigados os discursos de nove professores, responsáveis por diferentes disciplinas. A seleção do grupo focal foi realizada pelo critério de interesse dos professores da escola, uma vez que todos os professores foram convidados. O corpus de análise deste estudo foi coletado por meio de uma pesquisa de interferência colaborativa, que observou as seguintes etapas: 1) Reflexão sobre a prática; 2) Leitura e discussão de conceitos; 3) Leitura, proposição e elaboração de atividades e discussão; 4) Avaliação do processo. Para a realização da análise, utilizamos como instrumentos de coleta os relatos orais transcritos produzidos pelos professores durante uma sessão da Etapa 2 da prática de intervenção colaborativa. Desse modo, os discursos produzidos durante esta sessão serviram de corpus para análise nesse estudo. Para esta análise dos dados foram consideradas noções do Sistema de Avaliatividade (MARTIN; WHITE, 2005), utilizando, como procedimentos de análise, a identificação e a categorização deste sistema com foco na categoria Julgamento do subsistema de Atitude. A análise do corpus procurou responder como o subsistema de Atitude pode ajudar a identificar as avaliações positivas e negativas materializadas pelos expoentes linguísticos encontrados nos discursos, as quais serão descritas na seção seguinte. 3 Resultados e Discussões Conforme Carvalho (2010, p.115), a avaliação dever ser interpretada e compreendida em consonância com o contexto em que ocorre e, assim, há dificuldade em relação à interpretação dos significados atitudinais, pois ela está ligada a parâmetros que podem variar de pessoa para pessoa. Neste sentido, Vian Jr. (2011b, p.28) argumenta: A relação entre linguagem e contexto e as possibilidades de avaliações que podem ser feitas pelos usuários nos contextos em que interagem faz emergir o Sistema de

3 Avaliatividade como um sistema de recursos interpessoais à disposição do produtor de textos para que se posicione em relação ao que expressa (...) Estamos falando, portanto, de atitudes, ou seja, a posição que assumimos perante algo ao avaliarmos o mundo que nos rodeia (...) (VIAN JR, 2011b, p.28) Pela análise dos discursos reproduzidos no recorte de uma sessão de intervenção colaborativa, percebemos que, em relação ao subsistema de Atitude, a categoria de Julgamento apareceu em nove ocorrências. Das nove ocorrências, sete são de valor negativo (Quadro 1), restritas à estima social. Excerto textual Alvo da Categoria avaliação 01 Estamos enclausurados dentro de uma ideia Nós (professores) Julgamento de estima socialcapacidade 02 nós somos meros reprodutores de conteúdo Nós (professores) Julgamento de estima socialcapacidade 03 eu tô errado? Eu Julgamento de estima socialcapacidade 04 Somos desprezados socialmente Nós Julgamento de estima socialcapacidade 05 Nós não somos nada Nós Julgamento de estima socialcapacidade 06 Professor ainda não é robô Professor Julgamento de estima socialcapacidade 07 As forças ideológicas podem ser contestadas professores Julgamento de estima social capacidade (valor positivo) 08 Pra gente poder lutar contra Nós Julgamento de estima social capacidade (valor positivo) 09 O que que a gente pode fazer? Nós Julgamento de estima social capacidade Quadro 1 - Julgamento Pela análise dos dados do corpus, podemos perceber uma predominância de valor negativo quando o alvo da avaliação são as ações dos professores. Essa predominância pode estar ligada a uma visão que o próprio contexto dos professores emite, pois, conforme Fairclough (2001, p.93), A constituição discursiva da sociedade não emana de um livre jogo de ideias nas cabeças das pessoas, mas de uma prática social que está firmemente enraizada em estruturas sociais materiais, concretas, orientando-se para elas. Assim, considerando a forma negativa como o professor avalia a si mesmo como profissional, conforme a amostra analisada, é necessário que, além dos professores em formação, também o professor em serviço reflita sobre suas práticas de letramento e o seu acesso à cultura letrada. Para tanto, torna-se muito importante a renegociação de sentidos e saberes por meio de projetos de

4 formação continuada, nos quais o professor poderá tanto socializar seu trabalho com a universidade, quanto receber a atualização necessária para a sua prática pedagógica. 4 Considerações finais Por experiência em prática pedagógica escolar, observamos que a pesquisa científica proporciona ao educador um melhor contato com as teorias e práticas pedagógicas atualizadas, contribuindo para uma reflexão crítica sobre sua prática docente. É importante destacar, também, que a formação do professor exige um trabalho de natureza interdisciplinar, já que não se pode construir um posicionamento crítico a partir de uma única perspectiva. Desse modo, talvez seja possível que o professor se reconheça e seja reconhecido como um profissional capaz de transformar a sua prática e levar os seus alunos a agirem como cidadãos críticos em seu entorno. Referências ALMEIDA, F. A. S. D. P. Atitude: afeto, julgamento e apreciação. In: VIAN JR. O; SOUZA, A. A. de; ALMEIDA, F. A. S. D. P. (Orgs.) A linguagem da avaliação em língua portuguesa. Estudos sistêmicos-funcionais com base no sistema da avaliatividade. São Carlos: Pedro & João Editores, CARVALHO, G. de. A prosódia atitudinal: apreciação e julgamento em críticas de cinema. In: VIAN JR. O; SOUZA, A. A. de; ALMEIDA, F. A. S. D. P. (Orgs.) A linguagem da avaliação em língua portuguesa. Estudos sistêmicos-funcionais com base no sistema da avaliatividade. São Carlos: Pedro & João Editores, FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Coordenação da tradução, revisão técnica e prefácio de Izabel Magalhães. Brasília: UnB, MARTIN, J.R.; WHITE, P.R.R. The language of evaluation: appraisal in English, Palgrave Macmillan, MARTIN, J.R. Beyond exchange: appraisal systems in English. In: HUSTON, S. THOMPSON, G. Evaluation in text: authorial stance and the construction of discourse. Oxford: Oxford University Press, VIAN JR. O. Engajamento: monoglossia e heteroglossia. In: VIAN JR. O; SOUZA, A. A. de; ALMEIDA, F. A. S. D. P. (Orgs.) A linguagem da avaliação em língua portuguesa. Estudos sistêmicos-funcionais com base no sistema da avaliatividade. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011a. VIAN JR. O. O Sistema de Avaliatividade e a linguagem da avaliação. In: VIAN JR. O; SOUZA, A. A. de; ALMEIDA, F. A. S. D. P. (Orgs.) A linguagem da avaliação em língua

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