1. A criação: projeto do amor de Deus. amor caridade 2. O indivíduo: os valores.

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1 VISÃO de PESSOA HUMANA para FRANCISCO: Uma visão contrastante Para a nossa reflexão tomaremos dois textos-base: Rnb 23, 1-5 e 2CtaF E a partir destes textos nos serviremos de outros que possam vir a enriquecer a visão franciscana de pessoa humana. O referido texto da Rnb faz uma proclamação laudativa de Deus na sua comunhão trinitária. Ali o homem (esta expressão é usada por Francisco. Significa 'pessoa humana, o ser humano ), juntamente com toda a criação, ocupa um lugar especial. Deus e homem aparecem inseparáveis e, em qualquer modo, interdependentes. Nosso intento é perceber a antropologia de Francisco: a pessoa como indivíduo, como ser de grandeza e, também, de miséria. 1. A criação: projeto do amor de Deus. Antes de olhar para o homem, Francisco (Fco) contempla Deus. De Deus celebra a potência, a alteridade, a suma grandeza, a senhoria e a paternidade (e por isso mesmo sua pequenez e proximidade), como que insinuando que o homem só pode ser compreendido em toda a sua dignidade a partir de Deus. A grandeza de Deus se põe como fundamento e garantia daquela do homem. A 'aventura' de Deus e do homem será apresentada dentro do quadro de ação de graças. Render graças é, para Fco, uma necessidade primária: só nos primeiros versículos da Oração (Rnb 23, 1-5) a expressão aparece 4 vezes! O "dar graças" pressupõe, antes de tudo, o acolhimento e o reconhecimento de uma graça, de um dom gratuito, sem pretender conservá-lo ou atribuí-lo a si! É preciso devolvê-lo a Deus. "E restituamos todos os bens ao Senhor Deus altíssimo e sumo e reconheçamos que todos os bens são dele e por tudo demos graças a ele, de quem procedem todos os bens" (Rnb 17,17). O primeiro dom que o homem recebe é o si mesmo", o chamado à própria existência como pessoa vivente, capaz de conhecimento e amor. Fco vê a origem de um tal dom nas profundidades do Pai. Agradecendo a Deus por causa dele mesmo, descobre que o abismo divino não é centrado sobre si mesmo, mas que "a sua vontade e o seu santo amor" (Rnb 23, 1-5) se dirigem na direção da obra da criação. A solidariedade de Deus acontece no participar-se. As palavras amor e caridade, nos Escritos, designam quase sempre o amor do Pai e de Jesus pelos homens: este amor está na origem da criação: é participado ao ser humano, feito no amor e para amar. As duas palavras expressam relação. O fazer diz o ser! (Qual fazer escolhemos? Quais, nossas opções?). O homem, cúlmine da criação, faz parte do todo da criação, dos seres espirituais e corporais, que o Pai criou pelo único Filho e com o Espírito Santo. No coração da pessoa está o dinamismo da Trindade Santa. 2. O indivíduo: os valores Imagem e semelhança de Deus. Nos Escritos, dois textos falam da pessoa como imagem e semelhança de Deus". No hino do capítulo 23 da Rnb, onde fala da criação e do homem, no vértice desta obra do Pai: "Criaste todas as coisas espirituais e corporais e nos fizeste à tua imagem e semelhança e nos colocaste no paraíso" (Rnb 23, 2-3). 1

2 Com mais solenidade, a Admoestação V insiste e precisa: "Considera, ó homem, a que excelência te elevou o Senhor, criando-te e formando-te segundo o corpo à imagem do seu dileto Filho e, segundo o espírito, à sua própria semelhança" (AdmV,l). É evidente que a antropologia bíblica (Gn 1,26) marca fortemente Francisco: o homem é imagem de Deus. Faz até uma anotação original. Ele, o homem, se eleva acima de todas as realidades criadas porque só ele é uma espécie de réplica de Deus, só ele carrega a Sua Imagem. Recebendo de Deus "todo o corpo, toda a alma e toda a vida" (Rnb 23, 8), matéria e espírito, o homem é, como Deus, um ser pessoal, consciente e sobretudo capaz de uma relação de amor, de compaixão, de misericórdia. Entre ele e Deus existe uma relação de semelhança, de busca: um recorda o outro, um diz do outro. Após a exclamação de estupor e de encantamento pela sublime condição e grandeza do homem, a Admoestação introduz uma distinção entre imagem e semelhança, distinção clássica, objeto de reflexão já dos Padres da Igreja (Orígenes e outros). Segundo Fco, o homem, com o seu corpo é imagem não tanto do Deus incorpóreo e invisível, mas do Filho dileto, Jesus, protótipo celeste de Adão. Formando o corpo do homem - e o texto não se limita a Adão do Gênesis, mas vale para cada pessoa - Deus tinha diante dos olhos a forma humana de seu Unigênito. Daqui a incomparável dignidade do corpo, dom de Deus dado a nós (Rnb 23,8). O espírito do homem é criado à semelhança de Deus (o texto latino não permite precisar se se trata da semelhança do próprio Filho ou, em geral, de Deus!) A originalidade de Fco consiste no afirmar que o homem traz a imagem do Filho, até no seu próprio corpo. Nos dois textos o homem é colocado no paraíso; a Rnb o diz explicitamente e a Admoestação na sua abertura: "a que excelência te elevou o Senhor" (diz Thaddée Matura, Francesco un altro volto, 106). O «nós» tem um significado de atualidade: nós somos contemporâneos tanto da criação quanto da entrada no Éden da felicidade. O que Fco quer dizer com esta imagem do paraíso do qual caímos é explicado na Admoestação II: enquanto o homem (no caso Adão) reconhece o que é e de que o que faz de bom provém de Deus "pode comer dos frutos de qualquer árvore do paraíso", pois assim não vai contra a obediência e se move no espaço da verdadeira liberdade. Não obstante sua grandeza, qual ícone de Deus, e destinado a grandes coisas, "nós caímos por nossa culpa" (Rnb 23,4). Assim o homem experimenta, também, a miséria. Vamos, então, deter-nos nestes dois aspectos da realidade humana, assim como os percebe Fco: a sua excelência e a sua decadência Estruturas e valores da pessoa humana. Somos enriquecidos por dons: Francisco esclarece em que consiste esta "sublime condição - excelência" na qual Deus colocou o homem desde a sua origem e descreve quais são os bens que o Senhor Deus "fez e faz a nós!" (Rnb 23, 8) e que continuará a nos fazer no futuro (2CtaF 61). O primeiro bem é "todo o nosso corpo" criado à imagem do Filho. Isto restabelece ao corpo o seu justo valor e relativiza o ascetismo ou o desprezo do corpo tantas vezes atribuído a Francisco; outro dom é "toda a nossa alma", semelhança, busca e desejo de Deus. Segue, por fim, "toda a nossa vida" (como que a nossa alma em movimento!). São valores elementares, concretos, simples. Constituem a totalidade do ser 2

3 humano chamado à comunhão com Deus. Todos os dons, qualidades e aptidões fazem parte destes bens. É óbvio que o valor destes bens pode ser pervertido. Isto acontece quando um dom é entendido como próprio e quando alguém procura tirar dele vantagem em favor próprio (cf. Adm 7) Dinamismo do amor: somos todos criados para amar! Francisco lança um apelo-convite a todas as pessoas do mundo-universo: "que perseveremos todos na verdadeira fé e penitência, porque de outra forma ninguém poderá salvar-se" (Rnb 23, 7). Explicitando este convite conclamativo, continua: "Amemos todos, de todo o coração, com toda alma, com todo o pensamento, com todo o vigor (Mc 12,30) e fortaleza, com todo o entendimento (Mc 12,33), com todas as forças (cf. Lc 10,27), com todo empenho, com o todo afeto, com todas as entranhas, com todos os desejos e vontades ao Senhor Deus" (Rnb 23, 8). Aos seis vocábulos tomados da bíblia, Fco acrescenta outros seis. Tudo é reconduzido ao amor por Deus, ao desejo de Deus, à relação permanente com Ele. Francisco enumera 12 dinamismos de amor. O dinamismo do amor se multiplica em possibilidades inauditas: o centro da pessoa é uma extraordinária concentração de energias. A pessoa humana, segundo Francisco, é capaz de grandes coisas, pois Deus colocou nela uma série de possibilidades para serem realizadas. Francisco quer que amemos com intensidade afetiva e voluntária. Não é um peso que nos é imposto: Deus nos dá a graça de particiarmos do seu jeito de amar. Isto é amar com amor maternal-paternal, amor misericórdia, com compaixão e com paixão. Estar todo envolvido e dado no ato de amar. Amar com a prática da vida. Não só amar, mas ser amor "Fazer mais e maiores coisas, mas sem deixar estas" (2CtaF 36). Na Rnb 17, Francisco previne os Frades contra a tentação de se apoiar nas boas obras e assim pensar serem perfeitos e salvos: "não se gloriar nem se regozijar consigo mesmos nem se exaltar interiormente das boas palavras e obras, e menos ainda, de nenhum bem que Deus muitas vezes faz ou diz e opera neles e por eles" (v. 6). Seis Admoestações retomam esta advertência: II, 3; VIII, 3; XII, 2; XVII, 1; XXII, 2; XXVIII, 1. Evidentemente, este era um perigo na vida dos primeiros Frades, pois viviam heroicamente o radicalismo evangélico das origens! Muitos procuravam a Ordem: era aprovada pela Igreja... estudiosos se faziam frades e pessoas importantes da sociedade! A tentação era pensar que esta vida os tornava santos e lhes dava motivo de glória, desconsiderando que tudo é graça de Deus. Porém, olhando o texto positivamente, vemos Deus, agindo nos Frades e neles e, graças a eles, fazendo o bem. De fato, Francisco reconhece que Deus realiza, naqueles que se confiam a ele, "mais e coisas maiores" (2CtaF 36); o homem não é só capaz de realizá-las (deixando Deus nele agir), mas pode fazê-las por meio de palavras ou obras, ou por meio de intuições e conhecimentos espirituais ("os bens que o Senhor lhe mostra" - Adm 22,2). Estas "palavras e obras" não vêm atribuídas aos Frades ou aos cristãos como uma realidade que esses possuam: Francisco fala indicando a pobreza e o pecado do homem; fala do bem a realizar 3

4 num tom de convite e exortação: o mal está presente, o bem é proposto para o futuro. Então, se os convites e as exortações para agir bem são tantas e insistentes é porque Francisco acredita que o homem será capaz de responder positivamente, isto é: que é capaz da sua dignidade! O que seriam estas "muitas outras coisas e maiores"! Limitar-nos-emos a elencá-las. Rnb 22,26: "removido todo impedimento e todo cuidado e postergada toda preocupação, do melhor modo que puderem, eforcem-se por servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus com o coração limpo e com a mente pura, pois é isso que ele deseja acima de tudo". Rnb 23, 9.10: "Portanto, nada mais desejemos, nada mais queiramos, nada mais nos agrade ou deleite a não ser o nosso Criador, Redentor... Nada, portanto, nos impeça, nada nos separe, nada se interponha entre nós". Este nada fala da importância do que está em questão: o objetivo central, que engloba e absorve todo o resto, é a experiência de Deus. Sempre que Fco fala disso usa expressões absolutas: «nada» ou «sobretudo» ("desejar acima de tudo" ou "acima de todas as coisas" - Rnb 17,16; 23, 8; Rb 10, 9). Este é o caminho proposto para Deus: caminho exigente, árduo, radical, contudo possível. Do mesmo modo é possível (e obrigação que brota de dentro) amar o próximo como Jesus o amou (Jo 15,12; Rnb 11,5), com um amor humilde, compassivo, concreto, semelhante ao de uma mãe (Rnb 9, 11; Rb 6, 9). Amor que, no Espírito, será serviço e obediência recíprocos (Rnb 5, 13), mas também ajuda, perdão e rejeição de toda e qualquer perturbação frente ao mal (Rnb 5, 7-8; Rb 7, 4; 2CtaF 42-43; CtaM 11). Este amor terá concretude e será oferecido não só àqueles que parecem «inúteis» (o doente: Adm XXV, 1), mas também aos inimigos, chegando, assim, ao ápice do amor. E sobre isto Francisco retorna com insistência (Rnb 22, 1; Rb 10, 11; 2CtaF 38; Adm IX; POS 8). Chamado a construir uma relação de amor, de louvor e de serviço com Deus e com o próximo, o homem é ainda convidado ao discernimento e à liberdade espirituais. Conforme os Escritos, Francisco acredita no discernimento que o Espírito realiza. As Regras, mesmo sendo textos legislativos, deixam várias decisões ao juízo pessoal (18 vezes na Rnb, 13 vezes na Rb!). Mesmo se o termo discernimento não é usado, as expressões 'espiritualmente' (8 vezes), 'com a bênção de Deus' (7 vezes), 'como lhes parecer' (7 vezes), 'como lhes parecer mais oportuno' (5 vezes) e, bem entendido, os verbos 'possam', 'se o quiserem', exprimem suficientemente o espaço da liberdade espiritual no qual se move o agir humano "Chegar até ao Altíssimo". A grandeza da pessoa diz respeito ao que é, ao que é vocacionada, ao que pode fazer: é imagem de Deus, rica de valores, de dinamismos, de possibilidades: é chamada a grandes coisas. Mas o que a torna maior ainda é a sublime experiência espiritual à qual é chamada já nesta vida, antes da entrada definitiva no Reino (POS 3). Dois textos mostram a qual altura Deus conduz os seus amigos. Um é a Oração conclusiva da Carta a toda Ordem (50-52): "Onipotente, eterno, justo e misericordioso, dai-nos a nós, míseros, por vossa causa fazer o que sabemos que quereis e sempre querer o que vos agrada, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados e abrasados pelo fogo do Santo Espírito, possamos seguir os passos (cf. 4

5 1Pd 2,21) de vosso dileto Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, e, unicamente por vossa graça chegar até vós, ó Altíssimo, que em Trindade perfeita e unidade simples viveis e reinais e sois glorificado como Deus onipotente por todos os séculos dos séculos. Amém". Esta Oração descreve um itinerário concreto no qual a ação da pessoa (saber, querer, fazer, seguir as pegadas de Cristo) é subordinada àquela do Espírito (que purifica, ilumina, torna ardente ou abrasa), a fim de chegar, somente por meio da graça do Pai, ao mistério glorioso da sua comunhão trinitária. Vejamos: já nesta vida, libertos do que não é o essencial, se soubermos conservar um coração puro e se deixarmos que o Espírito repouse sobre nós para preparar uma habitação e moradia a Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, tornamo-nos filhos do Pai dos céus e fazemos as suas obras agindo como ele. Como Maria, filha e serva do altíssimo sumo Rei, o Pai celeste, como Clara e as irmãs, que merecem os mesmos títulos, os filhos do Pai podem cantar a sua alegria: Ó, como é glorioso e santo e sublime ter no céu um Pai (2CtaF 54). A experiência de Pai, nesta vida, permanece velada e fragmentária. Na Paráfrase do Pai nosso, Fco afirma que o Pai nosso santíssimo, luz, amor e sumo bem reina já nos anjos e nos santos, doando a eles pleno coonhecimento, inflamando-os de amor e cumulando-os de felicidade. Quanto a nós, pedimos-lhe que o seu nome seja santificado, que brilhe em nós o conhecimento de vós para que conheçamos qual seja a largura dos vossos benefícios, do seu mistério de Pai, que ainda nos escapa. Somente quando o Pai nos chamará ao seu Reino, teremos finalmente dele uma visão clara, um amor perfeito, uma beata companhia e uma alegria eterna (cf. POS 2-3). O Pai é a figura central e tudo está voltado par Ele. Também o Filho, que revela o seu nome, chamando-o de Meu Pai. Francisco, quando reza como o Filho lhe ensinou, está endereçado ao Pai. O Pai é o centro da Trindade, origem de cada ação e par quem tudo retorna. O Pai Onipotente tem um Filho dileto. Ao Pai são apresentados nossos pedidos que, por causa de si mesmo e por somente por sua graça, serão atendidos. Vem traçado um itinerário no qual a atividade humana, dependente de Deus, se une à passividade pedida para sermos purificados, iluminados e acesos no fogo divino. Os guias nesse caminho são o Espírito Santo e o Filho dileto. Para onde conduzem as pegadas do Dileto, quando estamos acesos no Espirito, senão ao Pai? Chegar a vós. Esta é a meta final do itinerário. Se o amor, o por causa de vós mesmo (propter timetipsum) faz sair de si o Pai na direção da sua obra no mundo, reconduz tudo a si. O outro texto é da segunda Carta aos Fiéis (48-56): "E à medida que todos aqueles e aquelas fizerem tais coiss e perseverarem até ao fim, pousará sobre eles o Espírito do Senhor' (Is 11,2), e Ele fará neles habitação e um lugar de repouso (Jo 14,23); e eles serão filhos do Pai celestial (Mt 5,45), cujas obras realizam. E são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 12,48-50). Somos esposos, quando a alma fiel se une a Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai, que está nos céus (Mt 12,50); somos suas mães, quando o trazemos em nosso coração e nosso corpo (1Cor 6,20) através do amor e da consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santa operação que deve brilhar (Mt 5,16) como exemplo para os outros. Como é honroso e santo ter no céu um Pai! Como é santo, consolador e deleitável ter no céu 5

6 um esposo! Como é santo e como é querido, agradável, aprazível, humilde, tranqüilizador, doce, amorável e sobre todas as coisas desejável ter um tal irmão que entregou sua vida por suas ovelhas (Jo 10,15) e por nós orou ao Pai". Aqui a experiência espiritual é mais centrada na obra do Espírito. Esta experiência mística é expressa através das relações de filho, esposo, irmão e mãe que o Espírito cria entre o Pai, o Filho e "aqueles e aquelas" (homens e mulheres) que perseveram na vida cristã. Eis o significado da "sublime condição" na qual a pessoa foi criada e colocada por Deus. Isto é importante sempre ter presente, mesmo diante de tantos textos que apresentam o lado mais sombrio do ser humano. A visão de pessoa humana de Francisco é, realmente, contrastante: a incomparável dignidade parece ser anulada com aquilo que é dito de nós como "míseros e pecadores" (Rnb 23, 8; Rnb 22,6 e 2CtaF 46). 3. O indivíduo: o negativo. Francisco não olha o ser humano de modo estático (ontológico), mas dinâmico, inserido na história da salvação e atento ao caminho pessoal de cada um. As nossas origens são gloriosas: criados "à imagem e semelhança", conduzimos a bom e pleno termo a obra de Deus; e é no nosso hoje que partecipamos do paraíso no qual Deus nos colocou. Acontece, porém, a queda: "E nós caímos por nossa culpa". A afirmação por nossa culpa, Fco desculpa Deus, autor do bem (isto lemos também em Rnb 22, 6 e em 2CtaF 46). A Admoestação II narra em que consiste esta culpa: o homem se crê proprietário do bem que descobre em si; considera-se autônomo e auto-suficiente em relação a Deus, "apropria-se da própria vontade e exalta-se dos bens que o Senhor diz e opera nele" (Adm 11,3); torna-se ou se crê centro e acima dos demais, não mais vendo as demais pessoas a partir do olhar do próprio Deus; não mais cuidador (guardião e responsável) e bom pastor como Deus: Onde está o seu irmão? Caim respondeu: Não sei. Por acaso eu sou o guarda do meu irmão? (Gn 4,9). Eis a raiz de todo o pecado. No lugar da liberdade que o homem pensa poder se dar, desta maneira sobrevém, no entanto, a escravidão (e nós caímos por nossa culpa, Rnb 23,4). Sempre que Francisco olha com atenção a situação atual da pessoa, para poder descrevê-la, recorre a expressões fortes, que temos dificuldade em aceitar e compreender. Vejamos: "E estejamos firmemente convencidos de que não temos coisa própria nossa senão os nossos vícios e pecados" (Rnb 17, 7); somos (nóss como entidade erigida, desvinculados de Deus, nossa Fonte) "miseráveis e míseros, pútridos e fétidos, ingratos e maus" (Rnb 23, 8); Pois por nossa própria culpa somos asquerosos, míseros e contrários ao bem, mas dispostos para o mal (Rnb 22, 6); "e mantenhamos nossos corpos em opróbrio e desprezo, pois somos por nossa própria culpa míseros e pútridos, fétidos e vermes" (2CtaF 46). A expressão "vícios e pecados" é muito usada nos Escritos! Encontramo-la 12 vezes (em especial na carta aos Fiéis e na Rnb). Como acontece na Carta aos Gálatas 5, 24, por 'vícios' entendem-se as más tendências, as paixões egoísticas; 'pecados' são as ações concretas e voluntárias que derivam dos vícios. Só para nos darmos conta de como Fco é sabedor do mal moral no homem, vejamos a série de vocábulos que usa: miseráveis e míseros, ingratos e maus, contrário ao bem, inclinado e decidido ao mal, pecadores, pútridos, fétidos, vermes (consomem a carne, a vida, 6

7 destroem a força e sujam o sangue. O contrário é: mãe, guardião, ministra/o, irmã, irmão... Ver paralelo 1CtaF II, 18). Estas expressões têm origem bíblica (Ap 3,17; Lc 6,35; Rm 1,28-32; 3,9-20; 1Cor 6,7-11) e da tradição agostiniana. Agostinho diz, por exemplo: "de nosso não temos que maldade e pecado" e ainda "para que visse como andava torpe, disforme, sujo, manchado e ulceroso. Via-me e horrorizava-me" (Confissões VIII, 7,16). A visão de Fco vai nesta linha. Estranho é sua insistência sobre os aspectos olfativos (pútrido, fétido: 3 vezes: na repulsa, como o nosso corpo reage?) A fonte do mal: o coração do homem Podemos pensar que este pessimismo antropológico era a tônica na Idade Média e que Fco tenha sido simplesmente influenciado e que essa visão corresponda à sua experiência. Isto explicaria esta concepção um tanto negativa. Contudo, além dessas possíveis e prováveis influências e das suas experiências pessoais, o que fortemente impressionou o Santo são as palavras do Senhor sobre "o mal que procede do coração do homem" (Mt 7,21), citadas 4 vezes (Rnb 22,8; 1CtaF II, 12; 2CtaF 37.69). Somos inclinados e levados ao mal porque "como diz o Senhor no Evangelho: 'É do coração do homem que provêm maus pensamentos, adultérios, fornicação, homicídios, furtos, cobiças, maldades, fraudes, devassidão, maus olhares, falsos testemunhos, blasfêmias, orgulho, insensatez. Todas estas maldades procedem do interior e mancham o homem' (Mc 7,21-23)" (Rnb 22,7-8). Tudo isso provêm de uma única fonte impura o coração do homem (o centro da pessoa, desconectada de Deus). Sendo filhos do Altíssimo = relações de gratuidade e de interesse e ajuda mútuas: Deus é bom! Sendo filhos do diabo = relações de interesse, submissão e descomprometimento com o outro, o próximo: ingratos e maus. Este pessimismo antropológico se embasa na declaração de Jesus Cristo "que conhecia o homem por dentro" (Jo 2,25), "ingrato e mau" (Lc 6, 27-36). O 'coração', para Francisco, é o centro unificador da pessoa; verdadeiro e próprio «eu» quando se distancia de Deus e se perverte, torna-se fonte envenenadora capaz de corromper o todo da pessoa. O coração é também o campo de batalha onde Deus e o inimigo (o diabo) combatem para se estabelecer. Fco insiste na responsabilidade da pessoa, e isto é importante: "E nós por nossa culpa caímos". Ainda: "Não foram tampouco os espíritos malignos que o crucificaram, mas tu em aliança com eles o crucificaste e o crucificas ainda, quando te deleitas em vícios e pecados" (Adm V, 3). Quando se peca ou se perde uma luta espiritual, é-se tentado a dar a culpa ao inimigo (o diabo) ou ao próximo. É bom não errarmos quanto à identidade do inimigo! É fácil e cômodo apontar para fora. "Cada um tem sob o seu domínio o inimigo, isto é, o próprio corpo (o «eu» pecador), por meio do qual ele peca" (Adm 10,2). Verdade é que "o diabo quer privar-nos do amor de Nosso Senhor Jesus Cristo e da vida eterna e consigo arrastar a todos para o inferno" (Rnb 22,5). A estratégia do Mal é bem analisada nos Escritos: sugere, engana (ilusão), corrompe, torna cego (Adm 2,4; 2CtaF 69; Rnb 5, 10; 8, 5). Em suma: "E muito nos acautelemos da malícia e sutilidade de Satanás, que não quer que o homem eleve o seu espírito e coração para o Senhor seu Deus. Ele anda por aí e gostaria, sob as aparências duma recompensa ou vantagem, de atrair para o seu lado o coração do homem e sufocar-lhe na memória a palavra e os preceitos do Senhor; ele quer obcecar o coração do homem por meio das solicitudes e cuidados 7

8 mundanos e nele habitar" (Rnb 22, 19-20) e fazer dos homens seus filhos (1Jo 3,10; 1CtaF 16; 2CtaF 66; Rnb 21, 9). Francisco adverte que "só a santa sabedoria confunde Satanás e todas as suas astúcias e a santa caridade confunde todas as diabólicas e carnais tentações" (EV 9 e 13) Deleitar-se em vícios e pecados". O homem é capaz de realizar o bem, é criado para fazer o bem e este bem a realizar é sempre apresentado como profundamente desejado por ele. Curiosamente, porém, a situação presente e atual do ser humano é apresentada na situação degradante e pecadora, e não cheia de satisfação e de elogios. A propósito, vejamos o que significam as expressões 'operam' ou 'deleitar-se' (2CtaF 64 e Adm 5,3). Fazer o mal e nisto encontrar prazer significa uma série de comportamentos negativos. Os que mais aparecem são os comportamentos negativos nas relações interpessoais. Uma longa lista encontramos na Rnb, capítulo 11: acusar-se um ao outro, discussões vãs, brigar, irar-se, murmurar, criticar, julgar e condenar, manter os olhos nos erros do outro e no preconceito. A ira e o perturbamento são perigos constantes contra a paz interior e exterior (Adm XI; XIV; XXVII, 2; Rnb 5,10; Rb 7,3; 2CtaF 44). A Adm XXVII elenca os pecados opostos às virtudes: medo e ignorância, ira e perturbação, cobiça e avareza, nervosismo e divagação, prodigalidade e dureza de coração. Fco também pede que se cuide do olhar, do desejo e da fornicação (Rnb 12 e 13). Para Fco a pessoa é responsável pelo seu pecado. Diz: "enxergam, conhecem, sabem e praticam o mal e perdem deliberadamente suas almas" (2CtaF 68. As posturas de pecado são citadas logo anteriormente, nos versículos 63-67). Então, estes exemplos mostram que Francisco não se iludia no tocante à pessoa humana. Tinha um fino conhecimento psicológico do ser humano "Apropriar-se dos bens de Deus". A pior situação, no entanto, não é aquela onde o mal é reconhecido como tal, onde ele se mostra às claras; mas onde o mal é feito a partir do bem. Francisco teme, acima de todas as coisas, que a pessoa, reconhecido o bem que o Senhor faz e diz nela e através dela, em vez de restituí-lo a Deus com uma ação de graças de louvação, o atribua a si mesma, apropriando-se deste bem ('apropriar' é usado 6 vezes). Na Adm II, 3 diz: "Come, porém, da árvore da ciência do bem e do mal aquele que reclama sua vontade como propriedade sua e se vangloria dos bens que o Senhor diz e opera nele". Quem se retém proprietário do que é, da sua existência de homem e de crente, realiza pessoalmente o pecado original: pensa elevar-se, como Adão, quase a um ser divino, autônomo e auto-suficiente. É necessário, porém, não se apropriar de nada: nem dos bens materiais (Rnb 7,13; Rb 6, 2), nem das responsabilidades de governo (Adm IV, 1-2), nem da tarefa de pregação (Rnb 17, 4), nem, sobretudo, da própria vontade (Adm II, 3), isto é, do valor que é o próprio eu. Francisco não pára aí. Diz que o Frade nem deve atribuir a si o conhecimento espiritual das Escrituras, porque se não a retribui (dar de volta) ao Senhor, ao qual pertence todo bem, torna-se "letra que mata" (cfr. 2Cor 3,6; Adm VII), pois não deixa o Senhor nele falar e o Espírito fluir através dele. Francisco considera esta atitude um roubo, como aquele de Judas (Jo 12,6; Adm IV,3). E tem 8

9 conseqüências. A primeira é a "soberba e a vanglória" (Rnb 17,9; Rb 10, 8), cujas manifestações internas são caracterizadas pelos verbos exaltar-se, considerar-se importantes, crer-se auto-suficiente (Adm II; XII; XVII). Francisco acautela e exorta os Frades quanto a este mal, particularmente aqueles mais expostos a esta tentação (Adm V, 3-7; Rnb 17, 5-8). Estas atitudes, diz, são oriundas do "espírito da carne que tem grande interesse em fazer muito em palavras e pouco em obras, nem procura a piedade e santidade interior do espírito, mas antes visa e deseja uma piedade e santidade que apareça por fora diante dos homens" (Rnb 17,12). Estes não conservam em seus corações os bens que o Senhor lhes manifesta, mas querem mostrá-los aos outros com palavras e não com as obras. E até se gloriam do que os outros fazem: "È, pois, uma grande vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos praticado tais obras, e nós querermos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram" (Adm 6,3). A outra conseqüência diz respeito ao próximo: trata-se da inveja, do desejar o bem que é de um outro e isto com tristeza por não possuí-lo. Francisco também aqui acautela os Frades contra este vício (Rb 10, 8). Denuncia a raiz deste mal: "Todo aquele, pois, que tem inveja do seu irmão por causa do bem que o Senhor por ele diz e faz, comete pecado de blasfêmia, porque tem inveja do próprio Altíssimo, que é quem diz e f az todo bem" (Adm VIII, 3). Não se deve ficar triste, sinal de inveja e ciúme, mas "gozar dos bens dos outros como dos nossos" (POS 7) e não querer receber do próximo mais do que eu mesmo daria de mim ao Senhor meu Deus (Adm XVII) como que fazer o outro melhor do que eu sou para Deus. Francisco sabe contrapor, assim, o amor incondicional de Deus e a condição pecadora do homem. Exalta a pura gratuidade desse amor absoluto de Deus. Para sair desta miserável condição é proposto o caminho da conversão: não se empenhar significa expor-se ao risco da danação eterna "Perder-se no inferno". Francisco é simples e segue a orientação de Jesus. Assim, como na pregação de Jesus, a rejeição do dom da salvação, possibilidade ligada à liberdade humana, fecha o homem na negação de si mesmo e o leva à ruína absoluta. Diz Fco: "Os que não querem provar 'como é doce o Senhor' (SI 33,9) e 'amam mais as trevas do que a luz' (Jo 3,19), porque não querem cumprir os mandamentos de Deus, esses são malditos. É deles que foi dito pelo Profeta: 'malditos os que se afastam dos vossos mandamentos '(SI 118,21)" (2CtaF 16-17). Francisco quer a salvação de todos. Dá graças a Deus porque o Senhor mostrou o caminho da salvação. Eis que recorda o juízo universal de Mt 25. Mostra o fogo eterno aos que não fizerem penitência e não reconhecerem o Pai e, o seio do Pai, o reino preparado para os que reconheceram, adoraram e serviram o Pai em penitência (Rnb 23,7-8). No final do Cântico das criaturas retorna ao mesmo tema: "Ai dos que morrerem em pecado mortal! Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!" (v. 13). O mesmo discurso encontramos na Rnb 21,7-9. As motivações da rejeição e da danação não devem ser procuradas em Deus, mas na vontade do homem. Morrer em pecado mortal consiste em não reconhecer Deus e em não fazer penitência: 9

10 não praticar a misericórdia e a compaixão. Aqui a lógica de Francisco é incrivelmente simples, popular: enganado pelo diabo, de quem é filho e cujas obras faz (Jo 8,41 e Rnb 21, 8), tornado cego, privado da inteligência espiritual, o homem não se perde por acaso, mas por uma escolha voluntária pessoal: "Só enxergam, conhecem, sabem e praticam o mal e perdem deliberadamente suas almas" (2CtaF 68). A preocupação pastoral de Francisco com os que não acolhem a Boa-nova é dramaticamente descrita por ele: "Onde e como quer que um homem venha a morrer em pecado mortal sem a devida reparação - e ele pôde fazer penitência, mas a não fez - o diabo lhe arranca a alma do corpo sob tal angústia e medo que ninguém é capaz de conhecer senão quem no experimenta em sua própria pele... O corpo comem-no os vermes. E assim ele perde a alma e o corpo neste mundo passageiro, e irá para o inferno, onde será atormentado para sempre" (2CtaF 82.85). Francisco, a exemplo do que Jesus faz no Evangelho, não ignora o risco da liberdade do homem e da conseqüente responsabilidade. Claro, usa uma retórica própria de seu tempo. Contudo, servia para chamar a atenção sobre a seriedade do viver e de suas conseqüências, visto estar em jogo a escolha e destino últimos. Isto porque ele, no seu amor misericordioso por todos, não pode admitir que alguém se perca. Parece que Fco sente em sintonia com o que o sentir de Jesus: Ovelha desgarrada, filho pródigo... Com certeza, a possibilidade positiva (conversão, salvação, bem-aventurança final) ocupa, na perspectiva de Francisco, um lugar de maior relevo. Este caminho de conversão conduz à felicidade. Visto agora este tema não ser do nosso interesse, elencamos, apenas, vias que Frei Francisco mostra e sobre as quais insiste: ter o coração voltado ao Senhor (relação com Deus); viver como católicos (a vida na Igreja); amar o nosso próximo como a nós mesmos (o amor do próximo, prática da caridade misericordiosa); nada reter para si; seguir as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porto Alegre, Natal do Senhor Frei João Inácio Müller, ofm. 10

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