ALFABETIZAR PARA E PELA EDUCAÇÃO DO CAMPO: UM DESAFIO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

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1 ALFABETIZAR PARA E PELA EDUCAÇÃO DO CAMPO: UM DESAFIO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES Ana Raquel de Sousa Poubaix Diniz Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF / Gabriela da Silva Sardinha Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ/ INTRODUÇÃO O presente estudo trata-se da análise de encontros de formação continuada de professores, no viés da alfabetização para e pela Educação do Campo, no interior do Estado do Rio de Janeiro, no ano de Neste trabalho, buscaremos apontar as convergências e divergências entre a proposta de educar a partir da cultura do campo e as vivências alfabetizadoras tecidas nesses momentos. Sabe-se que ainda existem muitos fatos da realidade educacional camponesa a serem refletidos e também desafios a serem enfrentados, a saber: evasão escolar, fechamento de unidades escolares, desmotivação dos alunos e professores e a construção do ensino fundamentada nas experiências dos sujeitos sociais da aprendizagem. Entre tais elementos, discutiremos o último apontamento, que aborda os (im)possíveis hiatos entre as concepções defendidas nos encontros de formação e a operacionalização do processo de alfabetização realizada na/pela cultura camponesa. A concepção freiriana de alfabetização defende que a construção da leitura e da escrita está intimamente relacionada à realidade social do sujeito aprendente, de modo que, língua e contexto são interdependentes. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. (Freire, 1989, p.9) A ideia de construção do processo de aprendizagem fundamentada na valorização do contexto social, do sujeito de direito à educação, defendida pela Educação do Campo converge com a defesa de uma alfabetização significativa, pautada em experiências de leitura e de escrita inerentes à realidade de quem aprende.

2 Esses encontros de formação de professores oportunizaram a defesa da modalidade Educação do Campo como uma ação pedagógica com marcas da identidade camponesa. Assim, possibilitando evidenciar o direito da população do campo à uma educação que seja norteada por seu contexto. Além de provocar reflexões a respeito da importância das políticas públicas que não se limitam a preocupar com o que os alunos aprenderam, mas como aprenderam. A análise das práticas pedagógicas dos docentes, envolvidos no período de formação de Educação do Campo, possibilita discussões acerca da concepção e das vivências alfabetizadoras por eles desenvolvidas. A oitava meta do Plano Nacional de Educação (PNE) vigente exige a elevação da escolaridade média da população de 18 a 29 para as populações do campo, da região de menor escolaridade no país. Esta meta apresenta-se como um grande desafio diante dos problemas prementes na realidade das escolas situadas no campo. Deste modo, a proposição do governo federal reforça a urgência de uma formação continuada de professores solidificada no entrelaçamento entre a Educação do Campo e a contextualização das práticas alfabetizadoras. METODOLOGIA Esse trabalho é resultante das reflexões tecidas durante a confecção de um trabalho de conclusão de curso de graduação em Licenciatura em Geografia, apresentado ao Instituto Federal Fluminense - Campos dos Goytacazes/ Rio de Janeiro em Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, que prioriza os aspectos subjetivos relacionados às ações dos sujeitos em seus contextos profissionais. Os instrumentos de coletas de dados foram à observação e acompanhamento dos cursos de formação continuada de professores, oferecidos pela secretaria de educação, do município de Campos dos Goytacazes, durante o ano de Viero e Trevisan (2010) afirma que o diferencial das pesquisas qualitativas está relacionado com a inclusão da subjetividade; não é possível pensá-las sem a participação do sujeito.

3 A formação consistiu em três encontros: primeiramente, foi abordado o histórico da Educação do Campo e da educação rural e os significados da educação do campo. Depois, foram apresentadas as Diretrizes Operacionais para Educação do Campo; a educação do campo no viés da alfabetização e as políticas públicas que valorizam a inclusão do sujeito, logo o respeito às diferenças, ao multiculturalismo recorrente no Brasil. RESULTADOS E DISCUSSÕES As discussões sobre a formação continuada de professores voltada para Educação do Campo, no ano de 2010, em Campos dos Goytacazes - RJ, apontou tensões em relação ao alinhamento da fundamentação da Educação do Campo e as práticas educativas recorrentes. A imagem 01 retrata um dos momentos de aprofundamento teórico no que tange os princípios da Educação do Campo. Estes estudos bibliográficos oportunizaram a ressignificação da concepção dos professores acerca da aprendizagem no e para o campo. Imagem 01 Estudo de referencial teórico 22/07/2010.

4 A reflexão das práticas dos professores (imagem 02) envolvidos nos encontros de formação em questão representa um desdobramento do estudo da teoria da Educação do Campo (imagem 01). Imagem 02 Socialização das práticas realizadas pelos professores. 02/08/2010. A inter-relação entre os estudos teóricos sobre Educação do Campo desenvolvido na formação continuada e as experiências docentes apontam para divergências entre as práticas subjaz aos processos alfabetizadores e a cultura camponesa. Isso porque, na maioria das vezes, os professores reproduzem formalmente metodologias ditadas pela cultura hegemônica. Nas palavras de Souza (2010):...a realidade escolar e a rotina vivida por crianças, jovens, adultos, professores e gestores das escolas localizadas no campo, marcadamente precárias ainda haja vista que em muitas localidades interioranas as condições de acessibilidade à escola são difíceis para professores e aluno. E, também, a organização do trabalho pedagógico, muitas vezes, segue a rotina costumeira, mediante a reprodução dos conteúdos escolares reproduzidos nas escolas públicas que não distinguem as relações contraditórias que integram campo e cidade no Brasil (p.441). As práticas reprodutoras de cultura alfabetizadora dos centros urbanos na vivência da aprendizagem do campo podem ser justificadas, em parte, pela carência de fundamentação teoria tanto nas concepções de Educação do Campo como uma modalidade de educação construída na e pela cultura do campo ( Caldart, 2004), bem

5 como a visão restrita de alfabetização que não contempla a acepção de letramento, que para Soares (1998, p.46) significa estado ou condição de quem não sabe apenas ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita. Uma constante (re)elaboração dos saberes do professor pode fortalecer o vínculo entre a acepção de Educação do Campo e suas respectivas práticas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho buscou discutir a relação entre teoria e prática implícita nas vivências de professores vinculados à formação continuada de professores que atuam na Educação do Campo, em Campos dos Goytacazes RJ. Por meio das vivências de encontros periódicos com os professores dessa política pública de inclusão, identificamos recorrente dificuldade de articulação entre as práticas realizadas e as concepções de Educação do Campo já internalizadas. Os debates acerca dos desafios de atrelar os princípios de Educação Campo aos processos alfabetizadores são fundamentais para estreitar a relação entre os saberes teóricos e as práticas significativas. REFERÊNCIAS BRASIL. Plano nacional de educação PNE: lei nº13005 de 25 de junho de Diário oficial da república federativa do Brasil. Brasília, 10 de janeiro de Disponível em: Acesso 4em 13/03/2015. CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. 3ª ed. São Paulo: Expressão Popular, FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores associados: Cortez,1989. SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, SOUZA, Maria Antônia de. Educação e movimentos sociais do campo: a produção do conhecimento no período de 1987 a Curitiba: UFPR, 2010.

6 VIERO e TREVISAN. Sobre a proximidade do senso comum das pesquisas qualitativas em educação: positividade ou simples decadência. Revista Brasileira de Educação. V. 15. n. 43. jan/abril 2010.

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