ECONOMIA DOS RECURSOS NATURAIS E DO AMBIENTE

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1 1 MESTRADO EM ECONOMIA E POLÍTICA DA ENERGIA E DO AMBIENTE 2006/2007 2º TRIMESTRE ECONOMIA DOS RECURSOS NATURAIS E DO AMBIENTE ISABEL MENDES

2 3 ECONOMIA DO AMBIENTE 3.1 Valorização dos Bens Ambientais Conceito de Valor Total Métodos de Valorização dos Benefícios e dos Custos Métodos Baseados nas Preferências Expressas Métodos Baseados nas Preferências Reveladas ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 2

3 3.1.1 O Conceito de Valor Total O CONCEITO ECONÓMICO DE VALOR DE BENS DE MERCADO Em sentido comum VALOR = IMPORTÂNCIA; ALGO DESEJÁVEL. VISÃO NEOCLÁSSICA DO VALOR: antropocêntrica e utilitarista algo é valioso se servir a humanidade ou se conferir utilidade (satisfação) aos seres humanos. CRÍTICAS O PARADOXO DO VALOR o conceito económico do valor não é adequado à valorização do meio ambiente nem do stock de capital natural. MAS o conceito de valor económico, para além de ser antropocêntrico e utilitarista reflecte também a escassez do que se pretende valorizar um bem útil e raro é muito caro. CONCLUSÃO: o conceito de valor económico é útil e vital para a estão ambiental desde que seja passível de ser quantificado. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 3

4 CARACTERÍSTICAS GENÉRICAS DO CONCEITO DE VALOR ECONÓMICO 1. RELATIVIDADE: o valor não é absoluto mas relativo refere-se sempre a uma escolha (real ou hipotética) entre duas situações possíveis e que envolvam uma troca (valor custo de oportunidade); 2. A ESCOLHA tem dois elementos: O objecto da escolha = incluem todos os objectos, processos ou actividades que permitam fazer escolhas entre si quer sejam tangíveis ou intangíveis; O Objecto de Escolha é definido por um conjunto de características físicas e pelos atributos que são objecto de percepção pelos indivíduos, mas não necessariamente por todos os indivíduos Circunstâncias da escolha = conjunto de elementos que descrevem/caracterizam o contexto no âmbito do qual a escolha é feita: elementos físicos, temporais e geográficos; Objecto da escolha + Circunstâncias da escolha definem o Contexto da Escolha; ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 4

5 Escolher ter atenção a: Àquilo que se deixa de ganhar / aquilo que se vai ganhar com a escolha importância do efeito substituição; À forma de indicar a escolha há duas situações de escolha possíveis: - o indivíduo desiste de algo para receber o objecto de escolha que lhe afectará a utilidade - WTP; - ou o indivíduo recebe algo em troca para desistir do objecto de escolha que lhe poderia afectar a utilidade - WTA; À definição do mecanismo da escolha, ou seja, a forma pela qual o indivíduo exerce a sua escolha: voto; referendo; mercado; outros. O Valor Económico é uma resposta, traduzida em unidades monetárias (mas não necessariamente), dada em função de uma escolha, cuidadosamente definida, entre duas alternativas comparáveis. A resposta está dependente dos elementos da escolha. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 5

6 O CONCEITO DE VALOR TOTAL VISÃO NEOCLÁSSICA DO VALOR: antropocêntrica e utilitarista algo é valioso se servir a humanidade ou se conferir utilidade (satisfação) aos seres humanos. O paradigma utilitarista atribui VALOR a qualquer tipo de uso, directo ou indirecto, tangível ou intangível, que os indivíduos (a Sociedade) façam do ambiente e dos bens e serviços que produz Conceito de Valor Total (VT) (FIGURA 1). VALOR ECONÓMICO TOTAL = benefícios associados ao uso do capital natural = disposição a pagar pela manutenção de um determinado stock e fluxo de benefícios de uso associados à existência de uma certa quantidade/qualidade de capital natural. VALOR DE USO DIRECTO (VUD) = benefícios associados ao uso directo do capital natural, pelos agentes económicos ou famílias; ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 6

7 VALOR VALOR DE USO VALOR DE USO DIRECTO VALOR DE USO INDIRECTO VALOR DE OPÇÃO Agricultura; Pecuária; Floresta; Pesca; Caça; Industria Extractiva, Manufactureira; Comércio; Construção; Turismo; Recreio; Lazer Educação e Investigação Funções das Bacias Hidrográficas (controle de erosão, controle de correntes,..); Processos ecológicos (fixação e reciclagem de nutrientes, formação de solo, limpeza de ar e água; Bens Vigários TOTAL VALOR DE QUASE-OPÇÃO VALOR DE EXISTÊNCIA VALOR DE NÃO-USO OU VALOR PASSIVO OU DE EXISTÊNCIA Figura 1 VALOR ECONÓMICO TOTAL VALOR DE LEGADO (bequest) ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 7

8 VALOR DE USO INDIRECTO (VUI) = benefícios associados ao uso das funções e dos processos ecológicos do ambiente. VALOR DE OPÇÃO (VO) = benefício associado à certeza da conservação/preservação do ambiente para uso futuro = disposição a pagar para adiar para o futuro o uso do capital natural e das suas funções. VALOR DE QUASE-OPÇÃO (VQO) = benefício associado à certeza da conservação/preservação do ambiente para garantir um maior conhecimento e investigação do capital natural e das suas funções = disposição a pagar para conservar/preservar o capital natural para melhorar a informação e fomentar a investigação. VALOR DE NÃO-USO (VNU) = benefício (satisfação) associado à conservação/preservação do ambiente, por questões de ética, altruísmo, religiosas, solidariedade inter-geracional, = disposição a pagar pela preservação do capital natural. VALOR DE EXISTÊNCIA (VE) = benefício (satisfação) associado à conservação/preservação do ambiente, por questões de ética, altruísmo, ou religiosas, não associadas a uso presente ou futuro. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 8

9 VALOR DE LEGADO (OU Testamentário) (VL) = benefício (satisfação) associado à conservação/preservação do ambiente para que as gerações futuras possam acerca dos melhores usos a dar ao capital natural. A estratégia básica da valorização económica do capital natural, baseia-se na interpretação do stock de capital natural e dos fluxos de bens e de serviços enquanto mercadorias (commodities) que podem ser monetarizadas. Os processos de monetarização dos benefícios ambientais podem ser através de mercados ou sem ser através de mercados. Tudo depende do que se quer valorizar e das características económicas da mercadoria ambiental. O VALOR TOTAL DO CAPITAL NATURAL é um valor compósito: VT = VU + VNU EXEMPLO: O VALOR TOTAL DA FLORESTA (QUADRO 1). ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 9

10 OUTPUTS DA TIPO DE USO FLORESTA Madeira Input (I) TIPO DE UTILIZADORES RIVALIDADE EXCLUSÃO VALOR VUD Empresas(E) R Excluível (E) Árvores Paisagem, Recreio VUD E; Famílias(F) +/- NR +/-Nãoplantadas e Lazer (P) Excluível (NE) Minerais I; Cons Directo (CD) VUD E; F R E VALOR DE MERCADO M Flora I;P;CD;Suporte de VUD + VUI E; F; R; NR E, NE M, NM Serviços(SS) Fauna I; P ;CD; SS VUD + VUI E; F; R; NR E,NE M, NM Protecção SS VUI E; F; NR NE NM cheias Qualidade da Assimilação(A);P;SS VUI + VUD E; F; R,NR E, NE NM água Protecção de SS;I; VUI + VUD E; F; NR NE NM solos Clima local SS; VUI E; F; NR NE NM Sumidouro Carbono Produção húmus Produção biomassa de de QUADRO 1 O VALOR TOTAL DA FLORESTA A; SS VUI E; F; NM M NR NE NM SS; I VUI + VUD E; F; R, NR E, NE NM I;CD VUD E; F; R, NR E, NE M, NM ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 10

11 FORMALIZAÇÃO DO CONCEITO DE VALOR DE BENS QUE NÃO SÃO TRANSACCIONÁVEIS EM MERCADOS O Valor Económico é uma resposta, traduzida em unidades monetárias (mas não necessariamente), dada em função de uma escolha, cuidadosamente definida, entre duas alternativas comparáveis. A resposta está dependente dos elementos da escolha. Se as mercadorias forem transaccionáveis em mercados, é fácil saber a disposição a pagar por elas = Excedente do Consumidor (Compensado ou Equivalente). As alterações de valor (do Excedente do Consumidor) estão relacionadas com as variações dos preços das mercadorias nos mercados. MÄLER adaptou as medidas de valor económicas de mercado às mercadorias que não são transaccionáveis em mercados. Ele redefine as medidas económicas de valor em função das variações nas quantidades e/ou na qualidade do capital natural, ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 11

12 as quais influenciam a utilidade dos utilizadores (Teoria das Escolhas e do Bem-Estar em função das Quantidades). MÄLER definiu quatro medidas de valor da variação do bem-estar individual associadas às escolhas envolvendo mercadorias não transaccionadas em mercados: 1. Se o Objecto de Escolha melhoria de bem estar: WTP C = quantidade de dinheiro que o indivíduo está disposto a pagar para assegurar a mudança; WTA E = quantidade de dinheiro que o indivíduo está disposto a aceitar, em troca da não efectivação da mudança; 2. Se o Objecto de Escolha deterioração de bem estar: WTP E = quantidade de dinheiro que o indivíduo está disposto a pagar para evitar a mudança; WTA C = quantidade de dinheiro que o indivíduo está disposto a aceitar, como compensação pelos danos sofridos. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 12

13 Formalização das Quatro Medidas Monetárias de bemestar Relacionadas com Benefícios/Custos Ambientais t Medida de Valor Individual no momento t ( VET i ): Seja: Ux,q) ( = função de utilidade do indivíduo representativo i; x = x 1,x 2,...x n vector de bens/serviços convencionais de mercado; q = q 1,q 2,...q m vector de bens/serviços ambientais; q pode ser um escalar se relacionado com um único bem/serviço; é dado é um Bem Público não-rivalidade + não exclusão inexistência de mercado; i i é a restrição orçamental do indivíduo i; i px = m O PROBLEMA DUAL do indivíduo i é: ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 13

14 min x c i p x i i ( ) sujeito a U x,q =U A solução do dual dá as Funções Procura Hicksianas ou Compensadas para x: ic i ( ) x = h p,q,u E a função de Custo Mínimo é: ( ) ph i i( p,q,u ) m e p,q,u = = i Vamos agora assumir dois estados para q: q 0 = estado actual do ambiente; q 1 = estado futuro do ambiente tais que: ( ) ( ) U 0 = U 0 p,q 0,m U 1 = U 1 p,q 1,m Esta variação do bem-estar associada à alteração de q pode ser valorizada usando as medidas definidas por Mäler: ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 14

15 ( ) ( ) 0 ( ) ep,q,u q C C WTP /WTA = CS = e p,q,u e p,q,u = 1 dq 0 q e ( ) ( ) q 1 ( ) ep,q,u q E E WTP / WTA = ES = e p,q,u e p,q,u = 1 dq 0 q q A escolha das medidas mais adequadas depende do tipo de variação sofrida pela utilidade por causa da alteração de q. Por exemplo se considerarmos que ( ) ( ) q < q U x,q < U x,q (por exemplo, se a variação de q tem a ver com o desaparecimento de um ecossistema) as medidas serão: WTA C = compensação mínima que o indivíduo está disposto a aceitar a título de compensação monetária para tolerar a desutilidade da perda do ecossistema; E ou então WT P = valor máximo que o indivíduo está disposto a pagar para evitar a perda do ecossistema. A representação gráfica destas duas medidas associadas a uma degradação ambiental é feita na FIGURA 1. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 15

16 x m + CS D CS x = m m -ES B ES A C U 1 U 0 q 1 = 0 q 0 q Figure 1 Compensating and Equivalent Surpluses for a loss in q from q 0 to q 1, where q 1 = 0 Em termos práticos, a medida mais usada é WTP. Medida de Valor para a Sociedade (VET t ): t t VET = w N onde: t w = é a média das medidas monetárias de bem-estar de todos os indivíduos i da sociedade, com i = 1,..., N. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 16

17 Medida de Valor para Capital Natural (VET): O Valor do Capital Natural é igual à soma dos fluxos monetários actualizados dos benefícios ambientais gerados pelo capital em questão, ao longo de um período de tempo T e para uma dada taxa de desconto ρ: VET T VET t e ρt = dt t= 0 ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 17

18 SUGESTÃO DE LEITURAS: Mendes, I Valuing Ecosystems. A Methodological Applying Approach. Working Paper 11/2004/DE/CIRIUS. ISEG, Departamento de Economia: Lisboa. ERNA2006/2007 ISABEL MENDES 18

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