5 Considerações finais retomando o problema

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1 5 Considerações finais retomando o problema A análise dos dados, dividida nos eixos critérios de avaliação, interpretação e juízo moral, tentou responder as perguntas formuladas no início da pesquisa como as crianças lidam com os programas ER como os avaliam? A quem os endereçam? Como interpretam? Como lidam com os valores (morais) ali presentes? Em resumo podemos dizer que elas os avaliam, a partir do seu conteúdo ensinar coisas e animar como bons programas, dirigidos a todas as crianças do Brasil ; os interpretam com muita propriedade; reconhecem os valores morais presentes nesses programas e lidam com eles de acordo com seus esquemas de assimilação (em relação aos níveis de desenvolvimento cognitivo e moral, descritos por Piaget) Mas afinal, retomando o problema da pesquisa, apesar da crescente oferta de programas educativos, do cuidado com que são produzidos, das premiações que recebem e apesar de terem sido especialmente recomendados, por que esses programas não estão entre os prediletos das crianças? A pesquisa não permitiu encontrar uma resposta para o problema, mas possibilitou o levantamento de algumas hipóteses. A primeira delas, diz respeito a uma possível padronização do gosto. O fato de avaliarem os programas como bons, não significa que gostem deles, ou, ao menos, não a ponto de os incluírem na lista dos mais queridos. A formação do gosto audiovisual parte da experiência do ver, da sensibilidade ao assistir um produto, mas não se restringe a essa vertente. É também no contexto social onde o indivíduo está imerso que a formação do gosto se desenvolve, sob a influência das instâncias de socialização. (SACRAMENTO, DUARTE E 2009)

2 98 As entrevistas individuais com as crianças indicaram que elas assistem aos mesmos programas, em geral desenhos animados e filmes exibidos na TV aberta, produtos que não se diferenciam muito em seu padrão estético e narrativo. Sacramento (2008) levanta um possível embotamento ou pasteurização do gosto provocado pela saturação da enorme quantidade de filmes do mesmo padrão geralmente produzidos por grandes estúdios e distribuídos em larga escala assistidos pelas crianças. Uma segunda hipótese, de certa forma ligada à primeira, diz respeito à divulgação, circulação e acesso aos programas ER. A fala de Breno a esse respeito foi categórica: eu não sei em que canal passa (referindo-se ao programa Cocoricó). Enquanto observamos um aumento nas ultimas décadas de canais dedicados exclusivamente ao público infantil e com programação 24 horas na TV por assinatura (ainda que com muitos anúncios e programas repetidos), a programação infantil encontra-se em declínio na TV aberta, com cada vez menos horas dedicadas a esse público. Além disso, a maioria dos programas exibidos tanto em uma quanto em outra, são produções estrangeiras. Segundo o colunista Daniel Castro 26, as TVs públicas que tem fins educativos sofrem de falta de recursos para investimentos em novos produtos, o que faz com que os poucos programas nacionais sejam reprisados à exaustão. Apesar de não ter empiria suficiente para levantar como hipótese a falta de identificação com os personagens, essa foi uma questão no mínimo curiosa: as crianças só verbalizaram a identificação eu sou esse aí, eu sou o de azul, eu sou o de vermelho, etc. em dois programas: Um menino muito maluquinho e Jakers. No caso desse último, é interessante notar que as crianças identificaram-se com os netos do personagem principal, Piggley, que se vestiam e se comportavam como crianças (americanas) de hoje, enquanto as cenas que representam a história do avô, passada em outra época, na Irlanda, não causaram tamanha repercussão. O fato das crianças não terem manifestado a identificação com os personagens da maioria dos programas exibidos é curioso por contrariar tanto o que se sabe a partir da experiência com crianças, quanto a 26 Pesquisa do IBOPE Media Workstation organizada pelo colunista Daniel Castro, da Folha de São Paulo. (em anexo na Tese de Doutorado de Maria Inês Delorme, 2009)

3 99 partir de pesquisas sobre a relação delas com televisão. (FERNANDES 2003, SALGADO, PEREIRA e JOBIM E SOUZA, 2005.) Não podemos afirmar com certeza que há ou não há identificação com os personagens, simplesmente pelo fato das crianças não terem expressado verbalmente essa identificação. Para Duarte, há sempre algum nível de identificação quando há o pacto de leitura. (DUARTE, 2005). De qualquer forma, a identificação/não identificação com os personagens dos programas ER pode ser um caminho a ser melhor investigado. Uma última hipótese seria um excesso de filtros. Na tentativa de fazer programas que incentivem atitudes positivas, como a solidariedade, o respeito mútuo, a amizade, que promovam a paz, a tolerância, o respeito à diversidade, que excluam qualquer tipo de violência e conflito, pode-se cair na armadilha de retratar um mundo maravilhoso, mas completamente desvinculado da realidade e um pouco chatinho, como disse Arthur a respeito de um dos programas. Não é minha intenção advogar que os programas tenham que ter realidade, nem que eles não devam incentivar a cultura da paz, mas os conflitos, as incertezas, as incoerências, fazem parte da nossa sociedade. Talvez devêssemos buscar compreender porque as cenas de luta e violência exercem tanto fascínio sobre as crianças. O tema da violência, como vimos no primeiro capítulo, é uma das principais preocupações quando se fala em televisão e crianças. (PECORA, 2007) O numero e a intensidade das cenas de violência (ao lado das cenas de nudez e sexo) é um dos principais critérios para a classificação indicativa por faixa etária (ROMÃO, CANELA E ALARCON, 2006). Pode-se dizer que uma das características dos programas ER é a ausência total de cenas de violência. Arroyo (2007), Pino (2007) e Georgen (2007) discutem a violência e abordam, inevitavelmente o tema da moral, da educação moral e do papel da escola, da mídia, da família, da sociedade nessa educação. Georgen, citando Adorno, afirma que se a educação não tematizar a barbárie, poderá favorecê-la indiretamente. a educação tem um papel fundamental na formação do sujeito moral, crítico e autônomo, dando novos e

4 100 transformadores rumos ao movimento dialético entre o indivíduo e a coletividade. (p. 745) e, completa, a tarefa de educação moral é um compromisso da sociedade como um todo e de todas as suas instituições políticas, jurídicas, midiáticas e também educacionais. (p. 759, grifo meu) 5.1 Os programas funcionam? Se pensarmos que as crianças da pesquisa interpretaram de forma pertinente os programas, reconheceram neles os valores, as normas de conduta e os conhecimentos ali veiculados, fazem generalizações e os avaliaram como bons programas, podemos dizer que sim, esses programas que foram especialmente recomendados para crianças e adolescentes pelo Ministério da Justiça, por, além de não conterem conteúdos inadequados, conterem conteúdos adequados (ROMÃO, CANELA E ALARCON, 2006) cumprem seu papel. Cabe retomar aqui a idéia de multimediação de Orozco, para quem o processo de recepção televisiva é um fenômeno onde interferem inúmeros fatores, presentes antes, durante e depois do momento em que se assiste à televisão, que se combinam em uma complexa rede de mediações. De forma semelhante ao que Orozco afirma sobre a recepção televisiva, Puig descreve a respeito da construção da personalidade moral, onde diferentes meios de experiência moral dos quais os meios de comunicação, em particular a televisão, é apenas um estruturam metas, possibilidades de comportamento, formas de regulação e relação, normas, papéis, guias de valor, dispositivos que orientam o tipo de experiências morais, em uma perspectiva ecológica, onde além de toda a riqueza que aporta um meio com quantidade e variedade de elementos morais, ainda deveremos levar em consideração os efeitos de conjunto que esse meio é capaz de propiciar. (1998, p. 157) A recepção dos programas ER/educativos/apropriados, seja como chamarmos, dependerá de todo um contexto complexo e multifacetado e será

5 101 ainda só um dos aspectos dentro de muitos os que interferem direta e indiretamente na construção da personalidade moral.

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