JOAQUIM QUINTINO AIRES. 15 Minutos. com o Seu Filho TUDO O QUE O SEU FILHO PRECISA É DE TEMPO DE QUALIDADE. Prefácio de Maria Rita Mendes Leal

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1 JOAQUIM QUINTINO AIRES 15 Minutos com o Seu Filho TUDO O QUE O SEU FILHO PRECISA É DE TEMPO DE QUALIDADE Prefácio de Maria Rita Mendes Leal

2 Dedico este livro a todos os pais e a todas as mães. Àqueles que planearam o nascimento de um filho quando a relação de casamento entre os dois estava já bastante estável e o nascimento de um filho (biológico ou adoptado) era um desejo partilhado pelos dois, àqueles para quem o nascimento de um filho resultou do acaso, mas que hoje querem que ele ou ela seja uma Pessoa realizada e feliz, e também àqueles cuja irresponsabilidade da adolescência levou à gestação antes do tempo. Criar um filho é uma tarefa muito exigente. Muito mais exigente do que produzir o mais belo dos objectos de arte ou a mais complexa das construções de engenharia. Mas não tem de ser difícil, é apenas preciso aprender. E não implica que o pai ou a mãe deixem de viver a própria vida. Criar um filho não exige estar sempre com ele. O truque é saber construir com ele uma ligação psicológica que promova o desenvolvimento cerebral e da personalidade, de modo a que ele ou ela se torne um homem ou uma mulher capaz de tomar a própria vida nas mãos. E para isso cada mãe e cada pai necessitam de pouco tempo, quinze minutos diários quando ele ainda é bebé, ou quinze minutos semanais quando ele já é mais crescido.

3 Conteúdos PREFÁCIO 9 1 > A ARTE DE EDUCAR NÃO ESTÁ NO TEMPO DE QUE DISPÕE 13 2 > UMA RELAÇÃO MUTUAMENTE CONTINGENTE 29 3 > UMA RELAÇÃO EMPÁTICA 49 4 > UMA RELAÇÃO COM NARRAÇÃO 71 5 > UMA RELAÇÃO QUE PROMOVE O DESDOBRAMENTO LINGUÍSTICO 87 6 > UMA RELAÇÃO PREOCUPADA COM AS EMOÇÕES E COM A RAZÃO > UMA RELAÇÃO QUE PERMITE A ANSIEDADE > AS CONCLUSÕES DE UM PSICÓLOGO 147 7

4 Prefácio É para mim um prazer e uma honra aceder ao convite do meu amigo Joaquim Quintino Aires para prefaciar o seu mais recente livro 15 Minutos Com o Seu Filho, que podia ser um complexo tratado sobre o tempo e a memória deste Professor Emérito da Universidade de Moscovo, e Doutorado pelo Departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa. Pelo contrário, trata -se de um conjunto de conversas, de falas descomplicadas, em que o autor manifesta o seu dom de colocar em termos simples assuntos bem complicados: o que é ESTAR PRESEN- TE a um filho, quando não há tempo, e se percebe nele a incomensurável carência de encontrar aquele Pai, aquela Mãe DISPONÍVEIS para aqueles insubstituíveis quinze minutos. O Professor Quintino realiza, ainda, o descomunal feito de explicar ao leigo o que é aquele acto suplementar da acção de outros educadores, oferecido por um psicoterapeuta de orientação dinâmica: que se coloca PRESENTE (a alguém que nesse momento carece), vivendo -se no modelo de um Pai/Mãe cuidadores que se fazem ENCONTRA- DOS por QUINZE MINUTOS vitais. Apesar de ser difícil prefaciar um livro tão surpreendente, quer no conteúdo como na forma, a verdade é que ele desperta em mim a vontade de continuar sempre esse diálogo fundamental que o Professor Joaquim Quintino Aires aponta e que diz respeito a esperar 9

5 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO e responder, acreditando no diálogo do qual emerge a PRESENÇA com que se constrói esse novo ser, que conta com o outro para poder erguer -se. Por isso, quero aproveitar o espaço que me é oferecido nesta preciosa publicação para agradecer ao meu amigo Joaquim por ter escrito uma obra clara e simples, que acaba explicando os paralelos entre o que acontece na vida de família, entre pais e filhos, e connosco, quando estamos presentes, como psicoterapeutas dinâmicos, nos nossos quinze a trinta minutos semanais, a um cliente (que é o mesmo que dizer desconhecido ), pequeno ou grande, que, para nós, está ali, à espera de se encontrar ao ser encontrado, e pretendendo entrar em contacto com essa lesão funda no sentir dele de não ser Eu, origem dos próprios actos, senhor das próprias intenções. Neste livro, é demonstrado que os pais também possuem os instrumentos para se descobrirem num mundo sem norte e sem ideal, abrindo caminho aos filhos para rejeitarem as confusões do dia -a-dia demasiado corrido e sofrido, e seguirem um rumo por eles próprios traçado, assim se construindo como Eu, sempre de novo, em cada idade. Com os melhores augúrios por esta feliz edição, MARIA RITA MENDES LEAL Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Lisboa 10

6 Deus não conseguia realizar tudo e, por isso, criou as mães. ANTIGO PROVÉRBIO JUDEU

7 1. A arte de educar não está no tempo de que dispõe A dificuldade de ser mãe ou pai Educar um filho é certamente a mais difícil das artes! Aquelas figuras maravilhosas que sorriem e brincam, que nos abraçam e nos beijam com carinho, que na praia fazem bolinhos de areia que depois, com alegria, nos oferecem para provar, que calçam os sapatos da mãe e colocam a carteira desta ao ombro, ou gritam pelo Sporting (ou pelo Benfica, ou pelo Porto, ou etc.) como faz o pai, existem também noutra versão. A versão dos gritos no supermercado, das birras na loja de brinquedos, dos atrasos durante o pequeno -almoço, do ser contra tudo e contra todos na adolescência, da teimosia em namorar com aquele rapaz toxicodependente que deixa a família enlouquecida, dos amigos com mau aspecto com quem se relaciona como se estes fossem as pessoas mais importantes do mundo. Se a mãe é católica, lá se escuta a frase Que mal fiz eu a Deus? Se o pai é conservador, lá diz outra vez à mãe, com aquele horrível ar de desprezo, Olha a educação que lhe deste! E se a televisão estiver ligada, lá estarão os professores a dizer que hoje os pais se demitem da educação dos filhos ou um qualquer psicólogo a dizer que a culpa é dos pais, que não têm tempo para os filhos. TEMPO PARA OS FILHOS! Frase bonita, politicamente correcta, que fica sempre muito bem em qual- 13

8 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO quer debate ou programa de televisão. Mas se o problema se resolvesse apenas com tempo, provavelmente não existia o antigo provérbio judeu: Deus não conseguia realizar tudo e, por isso, criou as mães. E que tempo é este de que tanto se fala? Quando de manhã os pais demoram duas horas para chegar ao trabalho, à tarde mais duas horas para voltar do trabalho, sofrem dois fortes empurrões para entrar no metro, duas pisadelas no autocarro e todo o desconforto possível em transportes públicos demasiado cheios de gente. Depois ainda compram pão para o jantar e recolhem as crianças no ATL, e, ao chegarem a casa, quando colocam a chave na porta, já não sabem se preferem que o tempo passe rápido e o dia acabe para poderem dormir, ou se querem que ainda dure, de modo a terem tempo para fazer o jantar, verificar os trabalhos de casa dos filhos, que os professores teimam em ordenar, dar banho às crianças, servir -lhes o jantar (sim, SERVIR -LHES o jantar!), deitar cada um e, quando se preparam para dizer já está tudo pronto, toca novamente o despertador, dando o sinal de que um novo dia, outra vez com as mesmas rotinas, já começou. São estes os pais de quem os professores reclamam mais atenção para os filhos? É destes pais que os psicólogos estão a falar quando dizem que é necessário mais tempo para os filhos? É claro que se um dos filhos bate no outro no exacto momento em que o arroz dentro da panela começou a queimar, toda a atenção que aquelas crianças recebem é um grito, pois a boca não faz o trabalho das mãos que deitam água fria para dentro da panela. Sentados à mesa, se um filho come com as mãos, os pais já nem reparam, porque naquele momento parece que a alma lhes saiu do corpo, e apesar dos sentidos continuarem em actividade, o cérebro já não vê nem ouve. E se durante o tempo de limpar a cozinha os filhos se fecham no quarto ligados à Internet, a mãe até agradece, e convence -se de que aquele sossego é a resposta de Deus ou de algum Santo às suas orações. É fácil para os professores dizerem que os pais não dão educação aos filhos. Mas a verdade é que os filhos de professores, porque os professores quase sempre também são pais, têm os mesmos problemas. É fácil para os psicólogos dizerem que os pais devem passar mais tempo com os filhos. Mas a verdade é que aquele tempo em que os 14

9 A ARTE DE EDUCAR NÃO ESTÁ NO TEMPO DE QUE DISPÕE psicólogos se ocupam de crianças é o tempo do seu trabalho, e durante esse tempo nada mais acontece, já que é o tempo de uma consulta. Durante todo esse tempo apenas estão com aquela criança, ou com um pequeno grupo de crianças, quando se trata de terapia de grupo, e foram treinados durante vários anos para fazerem esse trabalho. Difícil, na arte e no tempo, é ter o ónus da educação, sem formação e sem tempo específico, como acontece com os pais. Novos tempos, outra educação E pode acontecer ser domingo e que a avó esteja por perto. Então tudo fica ainda mais pesado e complicado. O discurso vai alternando entre o têm de ter mais paciência, são apenas crianças! e a famosa e irritante teoria de que antigamente as crianças não eram assim! Mas é claro que as crianças eram assim. Simplesmente havia mais gente envolvida na educação dos pequenotes e também sobrava mais tempo a cada adulto para se ocupar deles. Noutros tempos, nos velhos tempos, cada adulto considerava -se responsável pelo comportamento de qualquer criança. Se um adulto via um comportamento errado ser realizado por qualquer criança, primeiro repreendia -a e só depois perguntava de quem era filha, para informar os pais. Agora, pode ser que pergunte de quem é filha, mas apenas para comentar com uma vizinha como aqueles pais não dão educação aos filhos. Até há poucas décadas, a educação das crianças estava entregue à sociedade. Claro que os pais eram reconhecidos como pais, mas todos os adultos se consideravam responsáveis pela educação de cada criança. Ninguém estranhava que um adulto repreendesse uma criança. O raro era que ninguém dissesse nada quando uma criança agia mal. Hoje a sociedade está organizada em unidades bem mais pequenas. A família está mais individualizada, menos misturada com os vizinhos da rua, menos socializada com os professores e funcionários da escola, menos socializada com a proprietária do quiosque onde todos os dias as crianças compram alguma coisa. E até com os tios e com os padrinhos a socialização está agora bastante reduzida. É como se cada família fosse um reino à parte, com fronteiras bem delimitadas, 15

10 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO e ninguém se confunde na distinção entre os que são de dentro da família e os que são de fora, sendo que estes nada têm que ver com a educação das crianças daquela família. Antigamente os pais tinham mais tempo livre, é verdade. Mas também é verdade que, ainda assim, não passavam mais tempo com os filhos. Nem sequer havia a ideia de brincar com as crianças. Os pais tinham as suas tarefas, e quer nas horas de trabalho quer nas horas de livre gestão do próprio tempo, rodeavam -se de adultos, enquanto as crianças e os adolescentes se ocupavam uns com os outros. Os homens não levavam os filhos para as tabernas, nem as mulheres levavam as crianças para o lavadouro, e se o faziam, era apenas para que estas brincassem umas com as outras, enquanto as mães lavavam e conversavam também umas com as outras. A diferença, a grande diferença nestes novos tempos, é que a educação e o desenvolvimento das crianças e dos jovens estão entregues apenas a uma mãe e a um pai. Agora a educação está entregue apenas a dois adultos, enquanto no passado estava entregue a todos os adultos da comunidade. É lógico que se a mesma exigência, a mesma responsabilidade, está dividida por menos pessoas, o trabalho destes dois adultos é muito maior e muito mais difícil. A natureza das crianças Muitas vezes ouvimos dizer que as crianças hoje são muito diferentes. Esta ideia corresponde apenas a uma ilusão. As crianças de hoje têm a mesma natureza das crianças dos tempos passados. Ao longo de todos estes anos, não ocorreu nenhuma alteração genética significativa, e por isso a biologia não se alterou. Os programas biológicos de comportamento que cada criança tem à nascença são exactamente os mesmos que os de qualquer outra criança nascida há anos, altura em que se estima ter surgido a nossa espécie. E ao contrário do que o pedagogo suíço do século XVIII afirmou, as crianças não nascem belas e puras, sendo só mais tarde contaminadas pela maldade da sociedade. A ideia do Bom Selvagem, de Jean -Jacques Rousseau, é 16

11 A ARTE DE EDUCAR NÃO ESTÁ NO TEMPO DE QUE DISPÕE uma ilusão, que em muito se afasta da realidade. Todas as crianças nascem com todos os instintos que as empurram para se comportarem em função da sua vontade e do seu belo prazer, desconhecendo responsabilidades e perigos, completamente despreocupadas com a dor ou sofrimento que podem causar aos outros, e sem capacidade para anteciparem os problemas que lhes podem advir no futuro em função da sua irresponsabilidade no momento presente. É assim qualquer criança, quer no passado quer hoje. E é assim que deve ser, pois se fosse diferente, nenhuma criança sobreviveria ao entrar no mundo. A vida exige de cada um de nós a capacidade de reclamar o que o próprio necessita, como uma arte de se preocupar consigo mesmo, como forma de aumentar a probabilidade de sobreviver. É durante o processo de desenvolvimento, que acontece na relação da criança com os outros humanos, e também pelo seu agir sobre as coisas do mundo, que o seu cérebro se reorganiza, ganha uma nova estrutura, pois formam -se novos órgãos e conexões entre as diferentes regiões dessa unidade maravilhosa que é o cérebro. É um processo lento e muito complexo. E exige uma atenção muito especial da parte dos adultos e, mais tarde, também da parte dos amigos. Mas no final, esse fantástico órgão, o cérebro, irá funcionar como mais do que uma estrutura biológica, dominada por caprichos e pela urgência da satisfação de desejos, como se ignorasse a atenção e o respeito pelos outros, para passar a funcionar como um cérebro psicológico, no qual os caprichos e os desejos são negociados com o trabalho, tendo em atenção as consequências futuras dos actos no presente, e o seu bem -estar é negociado em função do bem -estar das outras pessoas e das consequências para si próprio no futuro. Mas então já não será uma criança, isso já dirá respeito ao ser adulto. Para que serve a relação que exige tempo? Nem todos os humanos têm a felicidade de o seu cérebro biológico evoluir para um cérebro psicológico. Isso não depende da própria pessoa, mas dos adultos que se relacionam com ela. Só pelo mecanismo de uma relação dialógica, e com o agir da própria criança sobre 17

12 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO o mundo, dentro dessa relação dialógica, é possível que ocorra essa transformação. Ao contrário das características naturais, que já vêm inscritas nos genes, como é o caso da cor dos olhos ou do aparecimento de pêlos no corpo (e por isso é necessária apenas a paciência para esperar pelo tempo do seu amadurecimento), as características psicológicas não estão predeterminadas. Assim, se durante a vida de uma criança não se reunirem as condições necessárias à estruturação de alguma das características psicológicas no cérebro, essa característica nunca vai existir. Talvez seja mais fácil explicar esta ideia com um exemplo. Se algumas sementes de plantas, incluindo algumas delicadas roseiras, forem lançadas num qualquer terreno baldio, é claro que, passados uns anos, muitas dessas sementes germinaram e até se podem encontrar várias sebes e flores nesse terreno. Não é necessário que alguém cuide delas, pois dentro da semente estão todas as informações bioquímicas necessárias para que dela germinem novas plantas e em certa fase brotem flores e sementes. Este é o desenvolvimento biológico. Mas se tentar visualizar o mato onde cresceram essas plantas, provavelmente não chamará jardim ao que vê. Nem seria confortável que atravessasse esse mato, pois o mais provável era que se arranhasse e saísse todo magoado do contacto com toda aquela vegetação. Mas quando o crescimento destas sementes é acompanhado por um jardineiro, que vai orientando o crescimento de cada uma, eliminando os rebentos não desejados e as ervas daninhas, o novo espaço que ali nasce não apenas é bonito, como é agradável de usufruir. E durante o processo de desenvolvimento das plantas, o jardineiro pode até juntar algumas novidades que modifiquem a planta em adulta. Já noutro livro escrevi sobre o efeito de um prego com ferrugem colocado junto à raiz de uma hortênsia, que lhe modifica a cor para azul. Ao pensar neste exemplo, facilmente compreende que não existe nada na genética das plantas que oriente a formação de um jardim. Claro que é necessária a informação genética que dará origem ao seu crescimento e ao brotar das flores. Mas sem o jardineiro 18

13 A ARTE DE EDUCAR NÃO ESTÁ NO TEMPO DE QUE DISPÕE que acompanhou o seu desenvolvimento o resultado não teria sido aquele. Dizemos em ciência que o crescimento com base na informação genética se chama maturação e o crescimento orientado pela participação do jardineiro se chama cultivo ou construção. É como se o jardineiro fosse um construtor que aproveita a força da natureza, pelo processo de maturação, e o melhora substancialmente pela relação que estabelece com esta natureza. No final, a mesma natureza deu origem a duas realidades completamente distintas, uma a que chamamos mato, e outra a que chamamos jardim. Uma o mato, queremos eliminá -la, e muitas vezes as pessoas até lhe pegam fogo para que arda e desapareça. Outra o jardim, gostamos de a apreciar e sempre que podemos aproximamo -nos e desfrutamo -la. Podemos fazer o mesmo raciocínio quando pensamos no desenvolvimento das crianças. Mesmo na falta de uma relação que constrói, a criança cresce e desenvolve -se de acordo com os processos biológicos que estão predeterminados na sua genética. Dizemos que matura. Mas maturar significa apenas maior força e tamanho, os comportamentos continuam os mesmos que os de uma qualquer criança. Birrenta, egoísta e insensível às outras pessoas. Estes não são comportamentos próprios à vida em sociedade, e por isso queremos eliminá -los. Não pegando fogo, como ao mato, claro, mas de uma forma semelhante, enviando quem se comporta assim para a prisão. Ao contrário, a criança que teve a possibilidade de construir novos órgãos cerebrais no encontro com uma relação, torna -se um adulto bonito, a sua companhia é apreciada, e certamente terá sucesso na vida. Muitas vezes procurando -me no consultório, os pais queixam -se de que os seus filhos não obedecem, que lhes dizem uma coisa mas que eles sempre fazem outra, que falam com eles e parece que nem os ouvem. Falam dos filhos como se eles fossem máquinas com tantos graus de liberdade que se torna quase impossível interagir com eles. Por vezes, ao ouvir os pais, tenho a impressão de que me estão a falar de um qualquer salta -pocinhas tão irrequieto e imprevisível, que ter a responsabilidade de o educar e orientar é uma tarefa absolutamen- 19

14 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO te impossível. Alguns pais falam de filhos adolescentes como se falassem de algum metal com carga eléctrica de mesmo sinal, que os repele, ou de algum peixe escorregadio que tentassem agarrar nas águas de um rio e sempre lhes escorregasse das mãos. Não há razão para tanto sofrimento. Quando uma criança ou um adolescente estruturaram uma boa relação com os pais, apesar de poderem e deverem afirmar as suas opiniões e posicionamentos perante a vida, os pais funcionam como bússolas orientadoras, utilizadas para nortearem a vida. As características desta importante relação Penso que já consegui transmitir -lhe a importância e a necessidade da relação no desenvolvimento cerebral e da personalidade de cada pessoa. É minha obrigação escrever -lhe agora sobre as características dessa relação. E para lhe falar das características dessa relação quero referir o aspecto TEMPO e o aspecto FORMA. Quanto ao aspecto forma, e ainda voltando ao exemplo do jardineiro, gostava de chamar a sua atenção para o facto de que o jardineiro não está sempre junto às suas flores. Ele tem a sua vida, e a não ser que seja um profissional a quem pagam para cuidar de plantas, se o jardineiro em sua casa for você mesmo, naturalmente terá de ir trabalhar, ir às compras, arrumar a casa, fazer a inspecção ao seu carro, etc., etc. Vai gostar de assistir a alguns programas de televisão, ler um livro, ir ao cinema, passar algum tempo no cabeleireiro ou assistir a um bom jogo de futebol. E durante todas estas suas ausências, o jardim continua a crescer sem qualquer problema. Se foi contratado como jardineiro profissional, claro que tem muito mais tempo para cuidar do jardim. Certamente teve uma formação especial, que recebeu durante um curso ou durante os anos que trabalhou ao lado de um outro profissional. Com toda a certeza o contrataram agora para cuidar de algum jardim suficientemente grande, com um número elevado de plantas, pois só assim se justifica contratar um profissional. Este é um tema interessante e certamente escre- 20

15 A ARTE DE EDUCAR NÃO ESTÁ NO TEMPO DE QUE DISPÕE verei um livro especialmente para esses importantes jardineiros, tão fundamentais na nossa sociedade, os educadores e professores. Mas o presente livro está a ser escrito a pensar em jardineiros domésticos, ou seja, quando o jardineiro não é um profissional mas quer que o seu jardim seja bonito e saudável: os pais. Neste caso, sendo apenas pai ou mãe, é claro que não deixa de fazer todas aquelas outras coisas importantes que fazem parte da sua vida. Por isso precisa de saber como rentabilizar o tempo que tem para cuidar do seu jardim. Saindo da metáfora e entrando no tema concreto deste livro, a educação dos seus filhos, o que você precisa de saber é como rentabilizar o seu tempo para cuidar do desenvolvimento dos seus filhos, sem deixar de fazer a sua vida. E agora uma boa notícia no que respeita ao aspecto TEMPO na relação que constrói o cérebro e a personalidade: quantidade, claramente, não é qualidade. Para fazer um bom trabalho, tudo o que você precisa é de 15 MINUTOS por dia quando o seu filho ainda é bebé, ou quinze minutos por semana quando ele já é crescidinho. Mas claro, estes quinze minutos devem ser quinze minutos de qualidade! Nada disto significa que não veja os seus filhos nos restantes minutos e dias da semana ao assegurar o seu suprimento material. O que lhe estou a dizer é que uma boa relação, que garanta o desenvolvimento saudável do cérebro e da personalidade do seu filho, requer apenas quinze minutos de cada vez. Pode ser óptimo se tiver mais do que este tempo para partilhar com ele. O contacto com os filhos pode ser muito agradável e recompensador para os pais, portanto, se tem mais do que os 15 minutos, terá com certeza muitas possibilidades de ser você a ganhar com a companhia do seu filho. Mas neste livro eu estou centrado no desenvolvimento do cérebro e da personalidade, e para que esse desenvolvimento aconteça com muita qualidade, tudo o que precisa é destes quinze minutos por dia, ou por semana, em que esteja em relação. Gostou desta informação? Certamente está um pouco descrente. Mas agora vem a outra parte. No que respeita ao aspecto tempo, como então já sabe, implica apenas quinze minutos de presença. Bastante fácil. Mas no que diz respeito ao aspecto FORMA, a exi- 21

16 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO gência é já bastante maior. E foi por isso que decidi escrever este livro. Para que, numa sociedade onde o desenvolvimento dos filhos está demasiado dependente apenas dos pais, e tendo estes pouco tempo disponível, o tempo possa ser reduzido ao mínimo, centrando a exigência de qualidade no aspecto forma. Quero então ensinar- -lhe a forma ideal de uma relação entre si e o seu filho, uma relação que constrói e desenvolve o cérebro e a personalidade de uma forma saudável. Deve estar a perguntar -se como calculei os quinze minutos. Muito simples, a partir do tempo que gastamos com cada criança numa consulta semanal de psicoterapia. Na verdade, o tempo de cada sessão de psicoterapia é de vinte e cinco minutos. Mas há que tomar em consideração que estamos a trabalhar de forma técnica com uma criança ou com um jovem, para quem é necessário um formato que afecte o desenvolvimento de modo a que algum ou alguns aspectos do seu comportamento ou da sua personalidade sejam corrigidos. Alguns pais, preocupados e aflitos com os problemas evidentes no comportamento e sofrimento dos filhos, ao princípio insistem no prolongamento do tempo da sessão de psicoterapia, ou na realização de mais sessões semanais. Mas com o decorrer do tratamento, percebem então que o tempo estipulado ao longo de dezenas de anos de estudos e de prática está correcto e é suficiente para que se observem as mudanças pretendidas. No caso de uma criança que está a fazer o seu desenvolvimento saudável, posso então garantir -lhe, quinze minutos por semana são suficientes. Quero partilhar consigo o que aprendi ao longo de 26 anos de estudo de Psicologia e 22 anos de prática clínica psicológica. Muito do que durante um século se estudou e aperfeiçoou em relação ao trabalho dos psicólogos clínicos com crianças e adolescentes pode, e deve, ser adaptado para a melhoria da qualidade da relação entre pais e filhos. É o que pretendo fazer neste livro. Ao longo de cada capítulo, vou apresentar -lhe as estratégias de relação que nós, psicólogos clínicos, utilizamos durante aqueles breves vinte e cinco minutos semanais com cada criança ou jovem, breves minutos que fazem verdadeiros milagres no desenvolvimento cerebral e da 22

17 Para reflectir O mito da necessidade de mais atenção e da aprendizagem com os pais Conversava recentemente com uns amigos que me falavam de como as crianças estão sozinhas durante todo o dia. Acordam cedo, e é a toda a velocidade que os pais as preparam para as levar à escola. À noite, dão -lhes banho e preparam o jantar, e querem deitá -las o mais cedo possível, e o mesmo se repete no dia seguinte. Diziam os meus amigos que deste modo a criança está isolada, pois não tem com quem se relacionar e quem a ajude a crescer. Lembrei -lhes que na escola a criança tem outras crianças, educadores ou professores e auxiliares de educação, funcionários da secretaria da escola, adultos da sala de estudo, professores das actividades extracurriculares, e mesmo funcionários do quiosque onde gosta de comprar pastilhas e rebuçados, e com todos eles interage e cresce. Quando chega a casa, ao fim do dia, a criança interagiu com várias pessoas, e o que mais quer, naturalmente, é descansar. Com cada uma daquelas pessoas a criança e o jovem formam laços emocionais, e é uma ilusão e um erro pensar que a criança esteve sozinha todo o dia. É claro que com os pais estrutura um vínculo emocional especial, um vínculo de afecto. Mas depois dos três anos de idade não precisa de o alimentar todos os dias de uma forma especial. As interacções durante as refeições, a preparação para sair e o assistir a algumas actividades da casa são suficientes no dia -a -dia. Mais, quando os pais estão demasiado presentes, a criança e o jovem não sentem espaço para estabelecer novos vínculos emocionais fora da família, neste caso de amizade, e o seu desenvolvimento fica comprometido. 23

18 QUINZE MINUTOS COM O SEU FILHO personalidade de cada um deles. Naturalmente vou adaptar essas estratégias ao dia -a -dia de uma relação entre pais e filhos, pois este livro não pretende ser um manual de psicoterapia. Mas na medida em que as estratégias de relação que utilizamos na sessão foram copiadas de relações de sucesso entre crianças, ou jovens, e adultos, tenho a sensação de que devolvo o que foi aprendido aos seus autores originais, já refinado ou lapidado, de modo a que cada pai e mãe sejam mais certeiros no seu uso, e um maior número de pais e mães possa ver crescer de forma mais saudável os seus filhos. E tudo isto assumindo o que lhe prometi, de que necessita apenas de QUINZE MINUTOS SEMANAIS. Hoje em dia um número enorme de crianças e jovens é levado à consulta de Psicologia Clínica, e os pais gastam enormes quantias de dinheiro e de tempo com as sessões de psicoterapia dos filhos. Estou convencido de que muitos mais ainda necessitam deste tipo de trabalho. Mas era desnecessário. Estou absolutamente convencido de que apenas uma muito pequena quantidade de crianças e de jovens necessitaria de cuidados especiais de Psicologia Clínica, se os pais soubessem como relacionar -se com os filhos e, por meio dessa relação, proporcionassem um desenvolvimento saudável e feliz aos seus filhos. Mais, a maioria dos actos praticados pelos psicólogos clínicos em consulta foram copiados de interacções pais -filhos que resultaram no sucesso do desenvolvimento. Se assim é, se foi observando a relação entre pais e filhos que os psicólogos clínicos aprenderam a trabalhar, não se justifica esta procura desenfreada e tão aflita destes profissionais. Então, acredite que pode poupar muito dinheiro e muito do seu valioso tempo lendo com atenção as páginas seguintes deste precioso livro. Algumas regras que sempre deve respeitar Só precisa de quinze minutos. Mas esses quinze minutos devem ser de máxima qualidade. Por isso, e ainda antes de lhe apresentar o formato da relação que constrói, a que chamarei relação dialógica, quero 24

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