1 A PRODUÇÃO DA SURDEZ NOS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DOCENTE DAS POLÍTICAS INCLUSIVISTAS

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1 1 A PRODUÇÃO DA SURDEZ NOS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DOCENTE DAS POLÍTICAS INCLUSIVISTAS Fernanda de Camargo Machado, Universidade Federal de Santa Maria, RESUMO: A investigação analisa os efeitos de verdade produzidos pelas políticas inclusivistas de formação docente em educação de surdos. Assim, objetiva examinar os discursos que se articulam para produzir o aluno surdo no material de formação docente do Projeto Educar na Diversidade, do governo federal, tomados como exemplos de procedimentos que operacionalizam a produção de significados sobre a surdez. Para tanto, utiliza como ferramentas analíticas conceitos foucaultianos, como discurso e dispositivo, no sentido de mapear os sentidos circulados neste texto e explicar como a engrenagem da inclusão e da globalização se movimenta. Assim, os enunciados pesquisados formam um circuito interconectado que posiciona o sujeito surdo no terreno da educação especial. Terreno este que, articulado ao enredo discursivo da inclusão educacional, inscreve tal sujeito no campo da diversidade. Nesta rede, a tolerância é posicionada como instrumento suficiente para o trabalho pedagógico com a diferença e a língua de sinais ocupa um lugar de recurso metodológico e variedade lingüística, produzindo assim uma exotização da surdez. Dessa forma, problematiza se a formação docente na esteira das políticas neoliberais como um dispositivo pedagógico contemporâneo de regulação dos sujeitos surdos. PALAVRAS CHAVE: Políticas de inclusão Surdez Formação Docente. PRODUCTION OF DEAFNESS AT PROCESSSES OF TEACHERS TRAINNING BY POLITICS OF INCLUSION The investigation analyses the effects of true producted by inclusion politics for teachers trainning in deaf education. Then it intends to examine what discourses articulate itselves for producting the deaf student at material for docent trainning s Projet Educar na Diversidade, from federal government, analised as samples of proceedings which operacionalize the production of meanings about deafness. So that

2 2 this study uses as analitical tools notions by Foucault s thought, such as discourse and dispositive, to find senses circulated in this text and explicate how the gear of inclusion, globalization motions. So enunciateds researched are an interconected circuit that posiciones deaf subject at especial education ground. Ground that is articulted to the discourse of educational inclusion and localizes deaf ones at diversity field. In this network, tolerance is a sufficient instrument to work with difference and sign language is a metodological resource, a linguistic variety, producting the deafness as a exotic aspect. Thus it problematizes teachers trainning by neoliberal politics as a contemporary pedagogical dispositive to regulate deaf subjects. KEY WORDS: Politics of inclusion Deafness Taechers Trainning. DEMARCAÇÕES INICIAIS Toda prática pedagógica é interpelada por discursos produzidos e produtores de significados. Muito mais do que saber quem é o sujeito pedagógico, torna se imprescindível discutir qual a correlação de forças que o constrói. Nesse sentido, as representações culturais acerca de quem é o educando está intrinsecamente imbricada com a prática de ensino. Tal premissa é uma das vigas mestras que configura o terreno da educação de surdos, o qual me inscrevo como docente. Levando em conta a noção de que as representações tramadas na cultura constituem identidades, penso ser necessário discutir acerca do que se fala, do que se espera e, conseqüentemente, de como se educa um aluno surdo no contexto atual em que a inclusão educacional é posicionada como paradigma hegemônico nos planos governamentais. Nesse contexto, penso ser pertinente discutir também os processos de formação docente que tentam dar conta de tais objetivos, bem como os significados tramados em meio a esse enredo discursivo da diversidade. Diante destas reflexões, pareceu me interessante problematizar as formações discursivas que atravessam o Projeto Educar na Diversidade, do governo federal, tendo em vista a discussão acerca das representações sobre a surdez e os surdos. Ademais, é preciso que se discuta a própria noção de diversidade que permeia o referido projeto, debatendo a narração e a localização da cultura surda neste espaço discursivo.

3 3 Assim, acredito que o debate sobre as representações a respeito da surdez e dos surdos como sujeitos pedagógicos constituem se num excelente insumo para que se possam problematizar os processos de formação docente, principalmente neste contexto em que a diversidade se cristaliza como discurso recorrente das ditas práticas pedagógicas inclusivas. Desta forma, pode se vislumbrar o papel central das forças discursivas que cruzam a formação docente, visto que moldam práticas de ensino imbricadas nas possibilidades de significação da cultura. Nessa direção, por meio desta pesquisa busco debater: Quais representações sobre a surdez e os surdos circulam no Projeto Educar na Diversidade, do Governo Federal? De que forma este documento se configura como espaço privilegiado de construção de significados sobre a educação de surdos nos processos de formação docente?como se negociam as noções de diversidade e diferença nessa produção discursiva? Sendo assim, este trabalho se propôs a problematizar as reincidências discursivas que constituem o surdo enquanto sujeito pedagógico nos processos de formação docente a partir da análise do projeto Educar na Diversidade, entendido como um documento constituído e constituidor de representações culturais. Tendo em vista a necessidade de situar o estudo, discorrerei brevemente sobre as condições de emergência do documento foco desta pesquisa: o Material de Formação Docente do Projeto Educar na Diversidade. O cenário político no qual se localiza o texto em questão é marcado por dispersões e continuidades, mas especialmente pela recorrência do discurso da inclusão escolar. Tal enredo discursivo trafega com muita força no contexto mundial. Trata se de um conjunto de enunciados que constituem narrativas acerca da necessidade de oferecer possibilidades de inserção educacional a todos os alunos na rede regular de ensino. Esse discurso emerge a partir de uma rede de saberes e poderes que constituem verdades sobre direitos humanos, democracia, igualdade de oportunidades, em especial com a Declaração Mundial dos Direitos Humanos, em Contudo, é nos anos 90 do século XX que estas produções discursivas assumem caráter hegemônico. Com as exigências internacionais tecidas pelo discurso inclusivista, vários países cuja situação educacional é narrada como preocupante, comprometem se a estabelecer formas de combate à exclusão neste campo, em especial no que se refere à escolarização de pessoas com necessidades especiais.

4 4 Para dar conta desta reconfiguração educacional, as instâncias governamentais, representadas principalmente pelo Ministério da Educação (MEC) e pela Secretaria de Educação Especial (SEESP) entre idas e vindas administrativas tomam uma série de outras medidas para trilhar o caminho da inclusão. Nessa direção, criou materiais de informação e reorientou o processo de formação de professores. Entre as medidas para reorientação, foi elaborado do Projeto Educar na Diversidade, baseado numa experiência compartilhada entre os países do Mercosul. No Brasil, trata se de um projeto piloto que teve início em julho de 2005, estendendo se até dezembro do ano seguinte. Ele integra um plano mais amplo da Secretaria de Educação Especial (SEESP), do Ministério da Educação (MEC), o Projeto Educação inclusiva: direito à diversidade, que tenciona expandir a política de inclusão, formando gestores, multiplicadores e docentes comprometidos com esta premissa em todo território brasileiro. É a partir desta materialidade que busco delinear este estudo, sem a pretensão de criticar, julgar ou acusar supostas falsas verdades em nome de outras narrativas pretensamente mais verdadeiras. Ao fazer isto, estaria rompendo com a matriz teórica que utilizarei, a qual não pretende separar o certo do errado, mas problematizar a produção de significados e seus efeitos de verdade. Diante disso, esta investigação pretende examinar quais os discursos que se conjugam no projeto Educar na Diversidade e como constituem o sujeito escolar surdo neste cenário político em que a diversidade permeia os processos de formação docente. Em outras palavras, de que forma estas narrativas criam representações, moldando subjetividades e produzindo as ações pedagógicas dirigidas a estes sujeitos. Considerando os propósitos da investigação, torna se importante localizar a escolha teórico metodológica na qual se embasa. Tendo em vista o debate de noções como subjetivação, cultura, alteridade, diferença, diversidade e surdez, elejo a perspectiva dos Estudos Culturais e dos Estudos Surdos em Educação como importantes alicerces no enredamento conceitual desta pesquisa. O terreno investigativo dos Estudos Culturais de vertente pós estruturalista trabalha num viés marcado pela constante inquietude, tendo como base o movimento intelectual pós moderno. Este espaço de discussões não é passível de uma definição essencial, em função do seu caráter cambiante e controverso. Por conta disso, trata se de uma vertente metodológica extremamente flexível, pautada na análise contextual com orientação

5 5 qualitativa. Sendo assim, permite a alquimia de diferentes métodos de pesquisa, dada a possibilidade de combinação entre variadas articulações metodológicas que vão se apresentando face às necessidades de uma pesquisa. Desta forma, não há a preocupação com uma metodologia unificada. Para fundamentar seus debates, tal paradigma dos Estudos Culturais toma emprestado o conceito que introduz a noção de práticas que dão caráter de existência às coisas, atribuindo a elas significados. Trata se da noção foucaultiana de discurso, a qual me valerei nesta investigação. Nas palavras de Veiga Neto (2005, p. 122), os discursos definem regimes de verdade que balizam e separam o verdadeiro de seu contrário. Desse modo, os discursos não descobrem verdades, senão as inventam. Nessa direção, as tramas de enunciados que formam o discurso apontam o que é estabelecido como verdade num dado tempo e lugar, excluindo o certo do errado, o que assinala uma vontade de verdade e, conseqüentemente, uma vontade de poder. Em suma, o discurso tem o poder de atribuir representação, posição, identidade, alteridade, sendo mediado por atos lingüísticos. Dito de outra forma, a linguagem é uma ponte entre o discurso e a representação que produz. E assim se entrelaça o circuito Discurso Linguagem Representação Discurso. Processo este que envolve as práticas de significação engendradas na cultura, pois as coisas e pessoas bem como o local que ocupam não são algo natural, mas socialmente determinados. É nesse sentido que passo a buscar subsídios que falem, não da surdez, mas da invenção da surdez e dos sujeitos surdos a partir das representações culturais. Para tanto, faço uso da perspectiva dos Estudos Surdos em Educação. De acordo com Skliar (1998, p. 29), Os Estudos Surdos abarcam pesquisas sobre as identidades, as línguas, os projetos educacionais, as histórias, as artes, as comunidades e culturas surdas, focalizados e entendidos a partir de um posicionamento político que luta por uma nova territorialidade : um espaço constituído pelas problematizações sobre a normalidade, pelos embates com as assimetrias de poder e de saber, pelas diferenças construídas histórica e socialmente. Portanto, é a partir destas balizas teóricas que este trabalho se vale para problematizar as representações sobre educação de surdos formadas nos e pelos discursos que cruzam o projeto Educar na Diversidade do governo Federal. Tal documento é entendido muito mais do que parte de um processo de formação docente,

6 6 mas como um espaço privilegiado de produção de representações, as quais não podem ser compreendidas fora dos sistemas discursivos que forjam e de que são forjadas. Para tanto, intento mapear as recorrências discursivas que engendram a constituição do escolar surdo no projeto em questão. Então, busco discutir a teia de sentidos que inscreve o surdo como sujeito pedagógico, bem como as possíveis implicações educacionais produzidas por estas representações e sua relação com os processos de formação docente, a partir da análise dos discursos que atravessam o Projeto Educar na Diversidade, do governo federal. Novamente reitero que meu objetivo não é julgar o mérito deste projeto ou simplesmente averiguar o que é dito sobre o educando surdo, mas produzir uma análise descritiva, histórica e contextualmente específica das condições de possibilidades que fazem estes discursos funcionarem. POLÍTICAS DE INCLUSÃO E DIVERSIDADE: O SUJ EITO PEDAGÓGICO SURDO NESSA RACIONALIDADE Discutir a formação profissional, em qualquer nível, implica discutir significados, discursos, representações culturais. Em especial, os processos de formação de educadores não podem ser entendidos fora da negociação cotidiana que se estabelece no terreno cultural. O fato desses significados serem negociados na cultura dá ao poder um caráter flutuante, visto que diferentes discursos disputam lugares para seus significados no cenário cultural. Daí o entendimento de que a formação docente, ao privilegiar saberes, não pode ser compreendida fora dos sistemas de poder. Como em toda parte, na formação de professores, há discursos implicados e, por conseqüência, fabricação de subjetividades. A partir desta exposição inicial, trago alguns recortes do Material de Formação Docente do Projeto Educar na Diversidade, os quais considero importantes para esta problematização. Entre eles, salta aos olhos a recorrência do enredo discursivo da inclusão educacional. Conforme o material analisado, o movimento mundial em direção à sistemas educacionais inclusivos indicam uma nova visão de educação, que recupera seu caráter democrático através da adoção do compromisso legal com a oferta de Educação para Todos, na qual a diversidade deve ser entendida e promovida como elemento enriquecedor da aprendizagem e catalizador do desenvolvimento pessoal e social. (BRASIL, 2005, p. 58)

7 7 Sendo assim, o texto acima tece narrativas acerca do processo educacional inclusivo como um paradigma atrelado à democracia, à igualdade de oportunidades e aos direitos humanos, constituindo assim a grande bandeira sobre a qual se alicerça o projeto Educar na Diversidade. Nesse sentido, Skliar traz o entendimento de Foucault sobre o tema. Foucault afirma que a inclusão não é o contrário da exclusão, e sim um mecanismo de poder disciplinar que a substitui, que ocupa sua espacialidade, sendo ambas as figuras igualmente mecanismos de controle. (SKLIAR, 2003, p. 96). Isto porque a exclusão é uma estratégia que opera o distanciamento do indivíduo e a inclusão, por sua vez, tratase de um exercício de poder a partir do cuidado. Uma marginaliza; a outra torna visível. Ambas narram, representam e, portanto, governam a alteridade, enunciando seu espaço na dinâmica cultural, o que supõe poder. Sendo assim, embora aparentemente diferentes, Inclusão/Exclusão compartilham a mesma função, ou seja, são medidas para capturar, conhecer e administrar aqueles posicionados à margem da norma. Além disso, a palavra diversidade também é recorrente no contexto políticoeducacional brasileiro, nominando não só este projeto, mas inúmeras ações políticoeducacionais com o intuito de promover a inclusão. Significados como enriquecimento, aceitação, respeito, colaboração, atenção, apoio, flexibilidade, valorização, acolhimento, ajuda, conscientização, contemplação são ícones desta política da diversidade (Brasil, 2005). No documento em análise, a construção do conceito de diversidade como natural e enriquecedora da cena educacional se processa em vários trechos, os quais disseminam significados de que seríamos naturalmente diferentes, a diversidade enriqueceria as relações humanas que, havendo tolerância, se tornariam harmônicas. Tal ordem discursiva assume caráter de verdade com e a partir da conjuntura internacional, em que a diversidade e a inclusão se configuram como balizas da globalização. Estar na arena global é um direito e quase um dever, ninguém pode estar à margem deste local. O próprio projeto Educar na Diversidade posiciona o conhecimento dos avanços produzidos pela globalização como uma das aptidões de um bom docente, juntamente com a reflexão, o trabalho em equipe e a atenção à diversidade (BRASIL, 2005, p. 23). Sob o rótulo da inclusão como atitude politicamente correta, o discurso da globalização encontra na noção de diversidade uma estratégia neoliberal que cria um

8 8 inventivo acordo de igualdade, o que pode acabar encobrindo as diferenças. Isto porque se trata de uma tentativa de aproximar do pólo normal todos aqueles que estão à margem, desconsiderando se as correlações entre poder/saber imbricadas nesta relação binária de estar dentro/fora. Dito de outra forma, penso que, antes de aproximar a todo custo a outridade da curva da mesmidade, seria necessário problematizar seu posicionamento na tangente como algo construído, não como algo neutro e natural. Bhabha (1998) aponta uma distinção interessante entre os termos diversidade e diferença, ressaltando que o primeiro não ocupa o mesmo lócus representacional do segundo. Destaca que a diversidade, entendida como variedade e aspecto de igualdade, mascara as diferenças culturais, pois o olhar dedicado às diferenças pelo véu da diversidade as vê como falhas por trabalharem com o intuito de selar as lacunas da diferença (LUNARDI, 2005, p. 39). Assim, esta estratégia de abarcar as diferenças, localizando as junto ou, ao menos, próximas, da norma, faz me provocar o leitor: estar dentro significa estar sempre incluído? Aproximar e tolerar exclui a exclusão? O fato de ser ou estar excluído é culpa dos diferentes ou das narrativas que os posicionam como diferentes? Será que estas indagações não seriam importantes para os processos de formação docente? Nesse contexto, é visível o quanto os processos culturais tramam significados que inventam os indivíduos e os objetos no campo social, atribuindo lhes sentidos de acordo com a posição que lhes é dada no e pelo discurso. Sendo assim, a forma como representamos as coisas e as pessoas não é natural, mas cultural. Esta noção é trazida dos Estudos Culturais pelos Estudos Surdos para debater o campo da surdez. Antes de saber o que é, deve se problematizar como esta condição é narrada. Por isso trata se de uma questão cultural. Tal problematização é essencial para entendimento do cenário político e cultural que permeia os indivíduos surdos, pois o sujeito surdo é produzido em meio aos discursos que se conjugam, tecendo sua constituição. Desta forma, é possível entender o quanto a alteridade surda é constituída em meio a relações hierárquicas e assimétricas de poder, visto que os significados sobre os surdos são produzidos e administrados pelos dizeres de quem exerce o poder de definir. Nesse sentido, Skliar (1999) escreve que a deficiência foi inventada tendo como parâmetro os valores da normalidade. Nesse contexto, a surdez é posicionada no espaço da deficiência, sendo entendida como uma lacuna sensorial, já que o normal, para o

9 9 projeto moderno, é ouvir. Neste campo representacional, o surdo é considerado um indivíduo em falta, passível de correção e, portanto, sujeito da Educação Especial. Diante disso, o foco da discussão não está na deficiência, mas na produção social desta. No caso da surdez, é justamente neste ponto que pode ser compreendida como diferença política e experiência visual. De acordo com esta ótica, o campo da educação de surdos adquire outros contornos. As práticas de significação da surdez e dos surdos se deslocam da alteridade deficiente para se reconfigurar em alteridade surda. Isto porque outros dizeres sobre estes sujeitos constituem narrativas que falam de uma cultura singular, de sua comunicação por meio de outra língua (a língua de sinais), a partir de um outro canal (espaço manual). Enfim, discursos que emergem de outros lugares, como os movimentos surdos, os quais se narram não como melhores ou piores do que os ouvintes, mas como diferentes. É a partir deste embate discursivo que os surdos lutam pela circulação de suas narrativas na cena cultural, significando a si mesmos como sujeitos que criam e compartilham cotidianamente uma cultura visual (Wrigley, 1996). Narrativa esta que forja as múltiplas identidades surdas e instituem a esfera política de sua diferença. Ao compartilhar deste entendimento, penso que é mister debater como o documento em análise produz o surdo como sujeito pedagógico diverso, ou seja, que ferramentas utiliza para demarcar seu local no ensino comum. O texto do material de formação docente do Projeto Educar na Diversidade é atravessado por conjuntos de enunciados que significa os processos de formação docente, especialmente os jogos de ensinar e aprender. Para tanto, diferentes procedimentos são utilizados para instituir narrativas que são legitimadas como verdades. No projeto Educar na Diversidade, vários instrumentos metodológicos são eleitos para constituir a formação docente. Tais aparatos são enunciados que se costuram, assinalando representações sobre os sujeitos da educação. No projeto em foco, as histórias, embora fictícias, constituem se como importantes balizas metodológicos, visto que narram exemplos de experiências educacionais inclusivas bem sucedidas. Nesse sentido, elegi este artefato para debater as forças discursivas que se tramam para inscrever o escolar surdo no terreno da diversidade. O material de formação docente do projeto Educar na Diversidade recomenda a leitura de três histórias para discutir a questão da pertinência cultural: a primeira trata

10 10 de um menino com dificuldades de aprendizagem, a segunda fala sobre um aluno surdo e a terceira narra uma situação de estudantes que vivem longe da escola. A narrativa representa o escolar surdo como um garoto que saiu de uma escola especial para crianças com deficiência auditiva (BRASIL, 2005, p. 72) e foi acolhido pela escola regular. Os professores, diante desta situação, ficaram inseguros, mas aceitaram a missão. No início, o aluno chorava e os docentes tinham dúvida quanto à melhor forma de comunicação com ele. Para tentar dar conta desta questão, foi criada uma sala de apoio e, aos poucos, a comunidade local também passou a se interessar pela língua de sinais. Com isso, mais surdos foram matriculados na escola. Segundo o documento, a ajuda dos professores, de seus colegas de classe, aliada ao apoio das famílias e à presença de intérpretes, resultou no êxito desta experiência (BRASIL, 2005, p. 72). Nessa história, a surdez é representada como mais uma categoria entre as necessidades educacionais especiais e, portanto, localizada no contexto da inclusão. Um exemplo deste enunciado é o posicionamento da surdez juntamente com outros alunos que são localizados no terreno da educação especial. Assim, o Projeto Educar na Diversidade narra o estudante surdo como um indivíduo cultural, passível de ser incluído, já que as múltiplas culturas deveriam conviver no mesmo espaço. Nesse contexto, o discurso da diversidade privilegia elementos como a importância da língua de sinais, sua função como meio de acesso ao currículo da escola regular, através de intérpretes (Brasil, 2005), produzindo uma certa folclorização da língua e da cultura surda. Esses elementos são objeto de interesse e, porque não dizer, de curiosidade, constituindo a surdez como algo exótico. Além disso, nesse documento, a questão lingüística ganha dimensão central, reduzindo a surdez a este aspecto. E mais do que isso, a língua ou melhor, as línguas são concebidas como estratégias de metodologização, sugestões ao trabalho docente. Em outras palavras, o uso da língua de sinais em sala de aula, assegurado pelo intérprete, associado à aprendizagem da língua portuguesa como segunda língua na sala de recursos, modalidade de atendimento da educação especial, são táticas que instrumentalizam a prática pedagógica, sinalizando para a tão esperada solução do impasse lingüístico da surdez e possibilitando a tão necessária inclusão do aluno surdo. Enfim, há a conformação de um campo de saber, que implica efeitos de poder. Um poder extremamente sedutor, pois oferece uma pretensa solução para o problema

11 11 da exclusão dos surdos e sutil, já que atua na esfera da recomendação e não da repressão. No contexto específico examinado, a rede de significados tramada entre o discurso dos especialistas em educação, o discurso político e o discurso da globalização constituem saberes que elegem a diversidade como a grande bandeira da inclusão e esta, por sua vez, como o melhor caminho para a igualdade. Estes dizeres alertam para um possível risco que a exclusão, em especial, a educacional, implicaria. Com isso, produzem verdades que falam da necessidade de aproximar grupos, como os surdos, para o espaço da norma, que é legitimado como o mais adequado. Convém lembrar que, ao debater estas questões, não estou tecendo uma crítica, mas analisando como estas narrativas se produzem, bem como as representações passíveis de serem construídas a partir deste material de formação. Foucault (2006, p. 7) salienta que não se trata de fazer uma partilha entre o que num discurso revela da cientificidade e da verdade e o que revelaria de outra coisa; mas de ver historicamente como se produzem efeitos de verdade no interior de discursos que não são em si nem verdadeiros nem falsos. Assim, também acredito, possuo e construo (a mim e aos outros) por meio de verdades, mas sem a pretensão de que a(s) minha(s) sejam as únicas, tampouco as melhores. Desta forma, não pretendo me opor ao discursos verificados, mas analisar sob outra perspectiva a questão da educação de surdos. Do lugar por onde olho, problematizo as narrativas que estabelecem que a diferença surda precisa compartilhar o mesmo lócus educacional da comunidade ouvinte. Diante disso, valo me dos Estudos Surdos, que questionam se a diversidade e a inclusão educacional não seriam formas de pautar a mesmidade ouvinte como o parâmetro sobre o qual os surdos deveriam se orientar, bem como as assimetrias de poder e saber que não autorizam a escola de surdos como o local mais apropriado. Desse lugar, a inclusão de alunos surdos em classes comuns se configuraria numa experiência de exclusão, já que as significações ouvintes ocupam a centralidade das relações sócio culturais (SKLIAR, 1999). Isto não significa negar os benefícios da inclusão nem dizer que os surdos não devem ter acesso às mesmas oportunidades que os ouvintes. Significa entender as

12 12 correlações de forças que tecem estas asserções de verdades e suas implicações na produção de representações sobre a alteridade surda e sobre a vida dos alunos surdos. Assim, na tentativa de equiparar todos os estudantes, a racionalidade que atravessa o projeto Educar na Diversidade postula a alteridade surda em relação ao ouvinte, produzindo a representação do escolar surdo como um sujeito que deve ser incluído na escola regular, desde que haja colaboração e uso da língua de sinais. Estes procedimentos são concebidos como satisfatórios para a singularidade surda, sem uma discussão mais específica sobre a educação de surdos, tais como: a língua de sinais como elemento de subjetivação, o papel da comunidade surda na aquisição dessa língua, na construção identitária e na produção de uma cultura visual. Dito de outra forma, estas questões estão fora da ordem discursiva verificada na analítica. Nas noções de inclusão e diversidade, os sujeitos são nivelados sob a égide de uma pretensa igualdade, o que reduz a discussão sobre a diferença política surda e a implicação desta diferença na educação dos surdos. Nesse sentido, ouso dizer que o documento tece três blocos de representações sobre a surdez e os educandos surdos, os quais não se separam, pelo contrário, constituem um circuito interconectado. Há uma rede de significados que posicionam o surdo na esteira da educação especial. Tais narrativas se enlaçam com o discurso da inclusão, já que os sujeitos da educação especial são passíveis de serem incluídos na escola comum. Este discurso, por sua vez, trama se à noção de diversidade, a qual inscreve a surdez como uma variedade lingüística que se manifesta na escola, reduzindo a educação de surdos à questão da língua. Tais enunciados são postos em movimento no material de formação docente do projeto Educar na Diversidade a partir de diferentes práticas discursivas. Destas, citei as histórias como exemplos de procedimentos metodológicos que operacionalizam a produção destas representações. NOTAS PARA (NÃO) FINALIZAR O Projeto Educar na Diversidade enquanto subsidío teórico prático para a formação inicial, contínua e auto formação de professores para a inclusão produz sentidos sobre o estudante surdo, constituindo sua identidade. É por isso que, muito mais do que subsidiar professores na identificação dos alunos e no planejamento

13 13 didático que respondam às suas necessidades, os processos de formação docente produzem estes alunos. A partir do mapeamento discursivo realizado neste trabalho, analisei a regularidade dos enunciados da inclusão escolar e da diversidade, que constroem a escola comum como o local adequado para a educação dos surdos. Desta forma, tramam se significados que representam o surdo como sujeito educacional diverso, usuário da língua de sinais como suporte para acessar o currículo da escola regular e passível de atendimento educacional especializado para aprendizagem da língua portuguesa como segunda língua. Com isso, o educando surdo é inscrito no terreno da educação especial e submergido pelos discursos da inclusão e da diversidade. Estes enunciados que atravessam o material de formação docente analisado são produzidos por forças de poder/saber que atribuem à diversidade e à inclusão educacional o estatuto de verdade, constituindo narrativas que servem de baliza, de direção da prática pedagógica dos professores alvo. Por conta disso, não se intenta tecer um juízo de valor sobre este projeto, mas entender a questão dos jogos de poder, das políticas de verdades implicadas na constituição da diferença e sua incidência nas práticas pedagógicas dos educadores em formação. Nesse sentido, reitero que os discursos da inclusão e da diversidade, embora centrais na analítica efetuada, não são os únicos possíveis. Significados sobre a surdez e os surdos emergem de outros lugares. Em razão de tal virada epistemológica, produzem se deslocamentos representacionais. Com isso, abrem se múltiplas possibilidades de problematização e produção de uma política da diferença, que busca outras maneiras de narrar a alteridade surda e sua educação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, BRASIL. Educar na diversidade: material de formação docente / organização: Cynthia Duk. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, p. FOUCAULT, M. Micr ofísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

14 14 LUNARDI, M. L. Diferentes Representações da Língua: 3º semestre. 1. ed. Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, Pró reitoria de Graduação, Centro de Educação, Curso de Graduação a Distância de Educação Especial, SKLIAR, C. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto alegre: Mediação, A invenção e a exclusão da alteridade deficiente a partir dos significados da normalidade. Tradução: Márcia Lise Lunardi. In: Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 24, nº 2, jul/dez, 1999, p Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Trad. Giane Lessa. Rio de Janeiro: DP&A, VEIGA NETO, A. Foucault & Educação. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica WRIGLEY, O. The Politics of Deafness. Washington, D.C.: Gallaudet University Press, 1996.

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