Capítulo 2: O Pólo da Sociedade

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1 Capítulo 2: O Pólo da Sociedade A importância da sociedade na educação resulta óbvia, já que é para produzir cidadãos capacitados para viver em sociedade que, em grande medida, os sistemas educativos existem e são financiados. Tanto a dimensão educere como a educare atrás referidas 229 estão presentes, na medida em que se trata, por um lado, de ajudar a desenvolver harmoniosamente as capacidades naturais e atingir a meta socrática do auto-conhecimento (educere) e por outro de preservar os valores que se revelaram válidos e de actuar em conformidade, com um exercício de prospectiva sobre as características da sociedade para onde a educação está a levar os alvos da sua acção (educare). Este exercício de prospectiva implica uma análise da sociedade nos seus vários aspectos, particularmente das tendências, em especial as mais actuais, reveladas pela ciência descritiva que se ocupa da sociedade: a Sociologia. Muito relevante será, também, considerar as tendências de ramos de conhecimento que se ocupam de aspectos particulares da sociedade, como a Economia e a Gestão. Será especialmente importante debruçarmo-nos sobre a transição que actualmente se observa entre a Sociedade Industrial e a Nova Sociedade, designada de várias maneiras por diversos autores: Sociedade da Informação, do Conhecimento, do Risco, Pós-Industrial, etc. É comum atribuir-se um carácter revolucionário a essa transição, tal como já se tinha atribuído esse carácter à Revolução Industrial 230. Embora historicamente só se localize o aparecimento da Revolução Informacional 231 nos anos 70 do século XX 232, costumam distinguir-se três períodos na transição entre a Vide Introdução, educere significando tirar de dentro para fora ; educare levar para Consideram-se muitas vezes duas Revoluções Industriais: uma, a da máquina a vapor, no século XVIII, e outra, a da electricidade, no século XX Às vezes também designada por 3ª Revolução Industrial Localizada na Califórnia e irradiando a partir daí, como a Revolução Industrial tinha sido localizada em Inglaterra e daí se tinha propagado. 99

2 Sociedade Industrial e a Sociedade Pós-Industrial ou de Informação: desde os fins dos anos 40 do século XX, a sociedade começou a inspirar-se num novo tipo de economia baseada na informação, suportada pelas ideias de Schumpeter (1942), que foram, progressivamente, substituindo as de Lord Keynes (1936); desde os anos 60 do século XX, começou a considerar-se a sociedade como Pós- Industrial ou Sociedade de Serviços; desde os anos 80 do século XX, começou a discutir-se a mudança da sociedade da modernidade para outra situação que se convencionou designar por Alta Modernidade. A descrição dessa mudança foi muito alimentada pelas utopias e especulações que já se referiram, duma forma ensaística ou literária 233, mas foi apenas abordada cientificamente por alguns cientistas sociais eminentes de que nos ocuparemos neste capítulo, como Giddens (1984), Beck (1992), Habermas (1989), Castells (2000) 234, que mostraram de maneiras diferentes e recorrendo a terminologias também, por vezes, distintas a relação entre as mudanças sociais, a ideologia e o conhecimento - a Ciência - de um modo particular, no que se convencionou chamar a Alta Modernidade do Mundo Ocidental. Isto aconteceu também na Economia (Schumpeter, 1942) e na Gestão (Senge, 1990). É uma síntese crítica de algumas dessas teorias, particularmente implicações que possam ter mudança do sistema educativo, que se pretende fazer neste capítulo. O Legitimadas na concepção reformada da Sociologia, como veremos adiante Não faltam referências à Sociedade de Informação, mas a grande maioria são superficiais, especulativas ou literárias. Castells, principalmente na sua trilogia intitulada The Information Age, faz um estudo muito profundo e empolgante desta problemática. A obra de Castells é uma referência, elogiada pelo próprio Giddens, e valeu-lhe o título de primeiro filósofo do ciberespaço. 100

3 tratamento das relações recíprocas entre a sociedade e a ciência será feito no capítulo 4, enquanto que as interacções da esfera social com a individual serão abordadas no capítulo 6 de acordo com o plano editorial mencionado na Introdução. Também, de acordo com esse plano, as importantes consequências desta problemática para a educação serão desenvolvidas no capítulo 7 e segundo volume. Assim, neste capítulo, para caracterizar a sociedade contemporânea nas suas várias vertentes, começaremos por examinar como é que contemporaneamente se concebe, em traços muito gerais, a Ciência-Sociologia, que tem por objectivo o estudo da sociedade, principalmente na sua versão reformulada: a Sociologia como ciência (2.1) e a reformulação do paradigma da Sociologia (2.2), proposta por Edgar Morin (1998). Embora de uma forma crítica, torna-se imprescindível abordar a perspectiva pós-moderna da Sociologia (2.3). Ainda no campo disciplinar da Sociologia e como, em nosso entender, se trata das melhores e/ou mais influentes caracterizações científicas da sociedade actual, optámos por fazer, em seguida, uma referência às concepções de Habermas (A Importância da Esfera Pública 2.4), de Beck (Sociedade de Risco 2.5), de Castells (Sociedade Informacional em Rede 2.6) e de Giddens (Sociedade em Fuga 2.7). Posteriormente, como inseparável destes aspectos, embora se admita que não seja tão condicionante como Marx pretendia, nem tão acessória como Weber 235 queria, tentaremos caracterizar a economia contemporânea, particularmente o modo de produção actual que sucede ao Fordismo da Sociedade Industrial e a Nova Economia baseada no Conhecimento (A Perspectiva da Economia: Pós-Fordismo, Capitalismo do Conhecimento e Nova Economia 2.8) com as suas peculiares tendências nomeadamente a da globalização e a da coopetição. Seguidamente (A Perspectiva da Gestão: Organizações Aprendentes e as suas Marx e Weber correspondem às ainda grandes tendências da Sociologia: os seus condicionamentos respectivamente pela Economia e pela Ideologia (Religião). A influência ideológica foi defendida por Weber (1958) ao caracterizar o capitalismo como espírito do protestantismo e, por outro lado, tem sido muitas vezes invocada para explicar a própria derrocada recente da URSS e do marxismo. 101

4 disciplinas 2.9), depois de mencionar algumas das várias tendências que correspondem à gestão contemporânea e inspiram a estrutura organizacional da nova sociedade, referiremos a aprendizagem organizacional de Argyris e Schön (1978) que conceptualizam pioneiramente as instituições que designam por organizações aprendentes. Referir-nosemos, em seguida, ao aproveitamento e à divulgação deste conceito devidos à teoria de Peter Senge (1990) que, com as suas cinco disciplinas, se propõe não só desenvolver a arte e a prática da organização aprendente e, consequentemente, reorganizar o tecido empresarial, mas também, como será retomado na segunda parte deste trabalho, todo o sistema educativo, propondo um novo tipo de escola, agora também encarada como organização aprendente, adaptada à Sociedade de Informação: A Escola que Aprende (Senge et al., 2000). Segue-se uma secção, menos descritiva e mais normativa e prospectiva, sobre a Sociedade do Futuro em que se integrará essa escola, baseada na obra de Haddad e Drexler (2002) para a UNESCO 236 e AED 237 (2.10). Finalmente (2.11), estaremos em posição de apreciar a visão da ciência dada pelo Construtivismo Social, quer nas suas formas radicais relativistas do Programa Forte (Bloor, 1976) ou pela Escola Actor Rede (Latour & Wolgar, 1976), quer nas suas formas mais moderadas, como a do compromisso histórico introduzido pelo postulado de simetria de Golinski (2005). 2.1 A Sociologia como Ciência A Sociologia é, segundo um dos seus maiores expoentes contemporâneos (Giddens, 2001), o estudo da vida social humana, grupos e sociedades. É uma ciência relativamente United Nations Educational Scientific and Cultural Organization, Paris Academy for Educational Development, Washington, DC. 102

5 recente, cuja fundação se atribui unanimemente a Augusto Comte [ ] durante a primeira metade do século XIX. Até aí, a curiosidade natural que sentíamos pelas razões do nosso comportamento social era satisfeita pela transmissão de ideias, histórias, mitos e mesmo formas de pensar de geração em geração. Comte procurou aplicar as ideias do Positivismo Científico 238 ao estudo da sociedade humana. Esse esforço foi prosseguido, ainda em pleno século XIX e princípios do século XX, por outros vultos eminentes, como Karl Marx [ ], Émile Durkheim [ ], Max Weber [ ] e também George Herbert Mead [ ]. Estes sociólogos não se limitaram a um estudo descritivo da sociedade, mas procuraram explicar o funcionamento das sociedades, em geral, e a natureza da mudança social, embora utilizando abordagens muito diferentes. Assim, enquanto Durkheim e Marx procuram explicações em forças externas, Weber enfatiza a capacidade de os indivíduos agirem de forma criativa sobre o mundo exterior. Se Marx teve, através da sua concepção materialista e dialéctica da História, a importância que todos lhe reconhecemos, por causa da tentativa de implementação das suas ideias durante tod o o século XX, do ponto de vista teórico, sustentou uma das grandes correntes na Sociologia designada como Marxismo. Já Durkheim seguiu uma linha de continuidade com Com te e é responsável pela também grande abordagem teórica contemporânea da Sociologia que é o Funcionalismo. A terceira grande tendência contemporânea deve-se directamente a Mead (1967) e à sua preocupação com a linguagem e o sentido, mas deriva em grande parte da concepção da acção humana como intencional e significativa, de Weber (1978): o Interaccionismo Simbólico. Estas três tendências coexistiram durante muito tempo e nunca se envolveram numa revolução, no sentido kuhniano 239, pelo que são melhor descritas pelo conceito lakatosiano 240 de programas de investigação científica do que pelo conce ito kuhniano de paradigma. Efectivamente, elas são relativamente estanques e metodologicamente diferentes, pois baseiam-se: o Marxismo, na perspectiva do conflito; o Funcionalismo, na analogia orgânica; e o Interaccionismo, na acção social. No entanto, Vide Vide Vide

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