HUSSERL E A HERANÇA CARTESIANA: DO EGO

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1 HUSSERL E A HERANÇA CARTESIANA: DO EGO PSICOLÓGICO O À SUBJETIVIDADE TRANSCENDENTAL Edson Ribeiro de Lima Doutorado Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Bolsista CAPES. I Dentre os muitos paralelismos afirmados entre o pai do Cogito e o fundador da Fenomenologia, certamente o problema do sujeito possui um papel fundamental. Afinal, se Husserl afirma que a fenomenologia é o sonho secreto de toda a filosofia moderna 206, é em Descartes que ele encontra o germe de uma filosofia verdadeiramente rigorosa. Mesmo o tema do transcendental teria aí sido vislumbrado pela primeira vez na história da filosofia: As sementes da filosofiafia transcendental encontramo-las nós historicamente em Descartes 207. Deste modo, constatamos algo no mínimo inusitado ao percorrermos o tema do transcendental na fenomenologia: nas Investigações lógicas, onde não há ainda o transcendental observamos um Husserl efetivamente cartesiano em seus temas e, a partir de 1907, um Husserl que se refere freqüentemente ao pai do cogito, mas num nível de análise que lembra muito pouco os fundamentos cartesianos estritos, pois a redução que possibilitaria o verdadeiro transcendental não faz restar nada das oposições que ainda a vigoravam nas Investigações de Como pergunta Pedro Alves, por que razão, no momento em que a fenomenologia a si mesma se determina como um filosofia transcendental, se põe ela surpreendentemente sob o signo de Descartes e não de Kant (...)? 208. É sabido, também, que ao mesmo tempo em que Descartes vislumbra a possibilidade de uma filosofia realmente científica, põe tudo a perder ao confundir o transcendental com o empírico. Entre a idéia ia sem efetividade, seja em Descartes seja na posteridade cartesiana, e a efetividade kantiana da idéia do transcendental, por que razão a fenomenologia insiste apesar de tudo na reivindicação de uma filiação que, olhados os 206 Erste Philosophie, Erster Teil: Kritische Ideengeschichte, Hua VII. 207 Krisis, Beilage VIII, Hua VI, p Alves, Pedro M. S., Subjetividade e tempo na fenomenologia de Husserl, p PPG-Fil - UFSCar

2 legítimos sucessores de Descartes, se arrisca a só se poder afirmar como uma descendência bastarda? 209 Se a confusão entre o transcendental e o empírico encontra no conceito de sujeito seu fio condutor, é necessário, portanto, investigar os seus motivos. Esta confusão se torna ainda mais grave ao lembrarmos que Descartes toma como fundamento filosófico a evidência e a exigência de encontrar apenasas conteúdos que sejam certos e indubitáveis, (...) uma vez que a razão já me persuade e de que não devo menos cuidadosamente impedir-me de dar crédito às coisas que nos parecem manifestamente ser falsas s (...) 210. Com efeito, se antes de Descartes, havia sempre um conteúdo que o pensar não havia colocado e que se devia acolher como o verdadeiro antes de filosofar. É com esse habitus que rompe a resolução cartesiana de tomar por primeiro princípio metafísico a certeza imediata do pensar e, por conseguinte, de não reconhecer como verdadeiro senão o que comporta a evidência interior da consciência 211. Aos olhos de Husserl, contudo, este rompimento parece não ter sido completo. Ou ainda, a epoché cartesiana não tirou todas as conclusões que poderia ter tirado a partir do princípio io da dúvida, uma vez que quando Descartes descobre o ego ele o determina como uma esfera obtida por abstração do corpo e, neste momento, só pode concebê-lo como mens sive animus sive intellectus. Este ego só poderá ser visto agora como um resíduo do mundo, como uma região oposta a uma outra região, e a independência da subjetividade em relação ao mundo será interpretada como a separação (Trennung) entre duas substâncias 212. O problema do sujeito, assim, parece vir acompanhado do papel que a redução deveria exercer na economia do método fenomenológico. Ora, é a redução fenomenológica e transcendental a responsável pelo ultrapassamento da posição natural rumo à conquista de um território propriamente fenomenológico. II O pensamento natural define-se pela relação imediata e direta com as coisas compreendidas enquanto meros objetos componentes do mundo, tomados independentemente da tematização desta relação. Ou melhor: as coisas são apreendidas sempre a partir do juízo, da percepção, da recordação, da imaginação, do querer, etc, entretanto o modo de apreensão mesmo, ou a condição de possibilidade de da apreensão, no 209 Alves, idem ibidem, p Descartes, Meditações, primeira meditação, 2, p Lebrun, Gérard Hegel e a ingenuidade cartesiana, in Revista Analytica, vol. 3, n 1, p. 158, Moura, Carlos Alberto Ribeiro de Cartesianismo e fenomenologia: exame de paternidade, in Revista Analytica, vol. 3, n 1, p. 197, PPG-Fil - UFSCar

3 domínio natural, não é ainda tematizada. Neste contexto, o mundo é compreendido como uma extensão no espaço no interior do qual as coisas se situam, numa relação de exterioridade absoluta entre si. As coisas estão à disposição, e a partir dos diferentes modos da percepção sensível pode se estabelecer cadeias dedutivas, relações de causalidade, semelhança, diferença e contigüidade. E tudo isto não somente de maneira arbitrária, mas segundo uma pretensa catalogação lógica em que os conhecimentos concordam uns com os outros, seguem uns aos outros, quer dizer, se organizam numa região de coisas passíveis de serem tratadas por uma ciência positiva regional 213. Quando afirmamos que as coisas estão disponíveis descobrimos que esta disposição se dá para um eu que observa. Este eu pode igualmente tornar-se objeto de uma ciência particular. É este o recuo básico que Descartes realiza a ao suspender o conhecimento sensível enquanto fonte de erro e engano. No entanto, este recuo é feito apenas ao modo de um recuo psicológico, uma vez que assimilando a consciência à alma, esta é ainda parte em relação à realidade. Deste modo, o psicologismo cartesiano pretende um conhecimento mais radical ao operar o deslocamento das coisas para a estrutura que permanece na base deste aparecimento: o ego. Não obstante, ele é tomado no mesmo nível das coisas 214, como extensão psíquica dos objetos no espaço e, mutatis mutandis, o própriorio eu é compreendido espacialmente ou naturalizadamente e, assim o conhecimento é um fato da natureza, é vivência de seres orgânicos que conhecem, é um factum psicológico. Pode, como qualquer factum psicológico, descrever-se segundo as suas espécies e formas de conexão e investigar-se nas suas relações genéticas 215. O eu e a consciência são, segundo esta posição, compreendidos enquanto factum. Não obstante, o eu não está num mero mundo de coisas, mas num mundo contendo valores, bens ou num mundo prático, mesmo na atitude natural. Mesmo aí onde as coisas são tomadasas em si há um horizonte (ainda que natural) em que elas são determinadas como isto ou aquilo: As coisas se apresentam imediatamente como objetos usuais: a mesa com seus livros, o copo, o vaso, o piano, etc. Estes valores e aspectos práticos pertencem também a título constitutivo aos objetos 213 A propósito das ciências da natureza material e das diferentes regiões da realidade, compreendidas num sentido pré-fenomenológico, conferir Idéias III: A natureza material está aí como algo de inteiramente fechado e ela conserva sua unidade fechada e o que lhe é próprio, de modo essencial, neste fechamento: não somente no simples contexto da experiência teórica, mas também no contexto do pensamento teórico da experiência, que nós denominamos, no sentido habitual, de ciência da natureza que seria preferível nomear mais precisamente de ciência da natureza material ( 1, p. 5-6) 6). 214 Para a caracterização da psicologia (em especial o psicologismo) e a antropologia como ciência natural do psíquico e ciência natural do homem respectivamente cf. Investigações Lógicas, Prolegômenos Die Idee der Phänomenologie / Fünf Vorlesungen, Martinus Nijhoff, p. 19, PPG-Fil - UFSCar

4 presentes enquanto tais..... (idem). Contudo é justamente pelo fato de que as coisas possuem um sentido prático que o problema da possibilidade do conhecimento não é posto: a crença na existência real não é tematizada, pois na atitude natural ela ainda não sabe de si mesma. Somente a suspensão da crença permitiria revelar a existência da crença, o que aqui ainda não é realizado 216. Radicalizando a investigação na atitude natural da consciência, descobre-se que por detrás de cada ato de conhecimento há um cogito tácito que acompanha todas as nossas representações, o que é, em grande parte a concepção kantiana que carece igualmente de uma depuração o. Embora esta constatação de uma instância pré-reflexiva nos mostre com mais clareza a região consciência o passo decisivo da redução do mundo natural ainda não é dado: o que temos é somente um cogito mundano ou psicológico 217. É somente com a redução da objetividade que a atitude fenomenológica tem início. A reflexão que produz um corte entre a região consciência e a região do mundo na atitude natural precisa recuar ainda mais e operar, primeiramente, uma redução eidética da vivência. Neste recuo, a consciência descobre-se aquém ou além, mas não no mesmo plano dos objetos naturais, estabelecendo uma separação entre fato e essência, segundo a terminologia das Idéias I 218. A primeira redução move-se já no domínio das essências: neste o objeto é somente o que nos aparece como cogitatum do cogito. O que assim se evidencia é a consciência pura como correlato essencial do objeto reduzido, consciência esta que já não possui qualquer predicado substancial como ocorre no âmbito do psicologismo. O que o psicologismo realiza sem a redução é somente uma mudança de objeto, não de atitude, permanecendo (no que se refere e ao problema do conhecimento) tributário de todos os prejuízos naturalistas. É necessário apresentar a redução como a atitude propriamente e fenomenológica, pois esta instala-se numa região aquém de toda oposição e dualidade, na qual a própria posição natural é tematizada 219. A atitude reflexiva nos mostra que ali onde parecia 216 Cf. Nabais, Nuno in A evidência da possibilidade, Introdução, p. 22. Há assim uma não autonomia metodológica dos argumentos que tornam necessária a redução fenomenológica. Só a suspensão da crença permite revelar a existência da crença. Mas essa suspensão, porque é uma decisão metodológica, só pode ser praticada ou melhor ensaiada sobre a tese da sua existência como um dado prévio. 217 Para Descartes, o que poderia ser compreendido como imanência transcendental tal é encarado apenas como imanência real, como uma região interior, como res cogitans oposta à res extensa. 218 Idéias I, 3, p Cf. Barbaras, Renaud, in Introduction à la phénoménologie de Husserl, p. 91: O mundo não é posto, ele é reencontrado, descoberto. O próprio da atitude natural é justamente que o mundo se dá como anterior e fundador dos atos pelos quais eu me refiro a ele e não como o correlato o destes atos, ou seja, como posto por eles. Assim, em virtude desta própria tese natural, a dimensão propriamente subjetiva da relação ao mundo é, ela mesma, concebida de modo intramundano PPG-Fil - UFSCar

5 haver somente uma atitude ingênua já habitava o transcendental al de modo não tematizado. Temos, pois, a posição de existência dos objetos reduzida perante a consciência pura em que o que aparece é tomado como um dado (Gegebenheit)) absoluto. Nada inquirimos então acerca de fenômenos psicológicos, não falamos deles, nem de certas ocorrências da chamada realidade efetiva (cuja existência permanece e inteiramente em questão), mas do que é e vale, quer exista ou não algo como a realidade objetiva, quer seja ou não legítima a posição de tais transcendências 220. A redução transcendental, por conseguinte, reduz toda transcendência objetiva ao absolutamente dado à consciência, a um campo de imanência transcendental. Neste sentido, pouco interessa a existência efetiva do puramente percepcionado. O mundo é isto que se apresenta enquanto pensado, expresso pela fórmula tardia a que a Krisis nos apresenta: Ego-cogito-cogitata qua cogitata. O dado numa vivência puramente considerada é um dado absoluto. Porém, a partir da caracterização feita acima não acabamos recaindo na mesma posição de Descartes ao estabelecer a certeza apodítica do Cogito?? Isto exige que retornemos mais uma vez à noção de intencionalidade e o estatuto radical que Husserl lhe confere como essência da consciência. Como é sabido, nas Meditações cartesianas, Husserl l afirma que a fenomenologia poderia mesmo ser considerada, em certa medida, como um neocartesianismo. No entanto, um dos muitos aspectos que separam Husserl do pai do Cogito é o conceito de intencionalidade que está na base da compreensão de consciência pela fenomenologia 221. A intencionalidade é um conceito que Husserl herda de Brentano, e é enunciado o da seguinte maneira: Na percepção é percebido algo; na representação imaginativa é representado imaginativamente algo; no enunciado é enunciado algo; no amor r algo é amado; no ódio algo é odiado, etc Ou seja, toda consciência visa algo que e não ela mesma, ruma constantemente para fora de si. Mas Husserl divide ainda a intencionalidade em psicológica e transcendentaltal e, segundo seu 220 Die Idee der Phänomenologie, p Descartes ao atravessar o percurso da dúvida metódica chega à conclusão indubitável de que é algo enquanto duvida: Ora, eu sou u uma coisa verdadeira e verdadeiramente existente, mas que coisa? Já o disse: uma coisa que pensa. (Descartes, Meditações metafísicas; meditação segunda). O problema posterior será o de saber como se dá a relação entre a consciência e os objetos compreendidos como duas instâncias separadas, como exteriores enfim. Esta separação, para Husserl, é a continuação filosófica dos prejuízos galilaicos que estavamam na base da teorização da natureza, pois Galileu, ao enxergar o mundo pelas lentes da geometria, fazia abstração dos sujeitos e compreendia a natureza como mundo de corpos realmente fechado sobre si. Com a redução, não faz sentido pensar o subjetivo oposto ao nãosubjetivo. O objetivo torna-se também subjetivo como seu ato correlato. Cf. Krisis, p. 82 e ss. 222 Investigações Lógicas V, PPG-Fil - UFSCar

6 juízo, seu mestre havia ficado apenas na primeira. Além desta distinção, Husserl dá ainda um passo radical ao definir a intencionalidade como essência da consciência e, neste sentido, a consciênciacia não preexiste ao seu ato. A unidade da consciência não está dada previamente à multiplicidade das vivências, não sendo, desta maneira, mera condição de possibilidade para as vivências. Antes, é no interior do próprio fluxo da vivência que a consciência ia se dá. Os atos da consciência são definidos como vivências intencionais, e não como o atividades psíquicas; distante de qualquer compreensão psíquica, a consciência é (...) referência intencional 223. No entanto, se a consciência é necessariamente consciência de algo, em que se pese ser a intencionalidadede sua estrutura fundamental, qual o estatuto da coisa a qual a consciência se refere? Há também a necessidade de que toda intenção seja preenchida através de uma intuição sensível? Estas questões exigem um retorno à VI Investigação. Aí, já a distinção entre intenção de significação e preenchimento de intenção nos mostra que a intuição possui um sentido mais amplo que aquele dado por Kant a este conceito. O preenchimento de intenção comporta graus, não havendo, então, a necessidade de que a toda intenção corresponda uma intuição, embora para o caso específico do conhecimentonto o preenchimento deva ocorrer. Desde as Investigações lógicas Husserl admitia uma modalidade de intenção que é vazia, meramente significativa, para os casos em que não há preenchimento possível. Trata-se neste caso apenas de uma intenção significativa, sem preenchimento real. A percepção é um ato que apenas determina a significação, mas não a contém: a significação reside numa esfera anterior à percepção como uma intencionalidade peculiar que a possibilita. O visar algo se preenche na percepção, mas não é a própria percepção 224. Podemos dizer, de modo geral, que a intencionalidade é anterior à esfera da percepção e do juízo, como componente essencial para a consciência perceptiva ou judicativa, componente essencial este que se constitui como significação. O caráter de ato do indicar, quando regido pelo intuir, recebe uma determinação de intenção que se preenche, nesse intuir, de acordo com um teor de componentes 225. Desde então a intencionalidade é este indicar, esta direção que expressa um sentido sem mesmo, num primeiro momento, reivindicar qualquer base intuitiva. Por outro lado conhecemos também o teor antiformalista expresso no lema zu den Sachen selbst pelo qual as Investigações se tornaram célebres. 223 Investigações Lógicas V, Cf. Investigações Lógicas VI,, 5, p Idem, ibidem p PPG-Fil - UFSCar

7 BIBLIOGRAFIA Obras de Husserl: Die Idee der Phänomenologie, Haag: Martinus Nijhoff, Band II, Erste Philosophie, Haag: Martinus Nijhoff, Band VII, Erster Teil, Idées directrices pour une e phénoménologie (Introduction generale à la phénoménologie pure), Trad. Paul Ricoeur, Paris: Gallimard, Investigações lógicas (Sexta investigação). Trad. Zeljko Loparic e Andréa Loparic, in Col. Os Pensadores, es, São Paulo, Ed. Abril, Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie, Haag, Martinus Nijhoff, Husserliana, Méditations cartésiennes,, Trad. Gabrielle Peiffer et E. Lévinas, Paris: Vrin, Philosophie als strenge Wissenschaft, Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann, Outras Obras: Alves, Pedro M. S. Subjectividade e tempo na fenomenologia de Husserl, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Barbaras, Renaud Introduction à la philosophie de Husserl, Paris: Les Éditions de la Transparence, Conrad-Martius, H. Die transzendentale und die ontologische Phänomenologie, in Edmund Husserl , Haag: M. Nijhoff. Descartes, René Meditações, Trad. J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, in Col. Os pensadores, São Paulo: Abril Cultural, Kant, Immanuel Kritik der reinen Vernunft, Felix Meiner, Hamburg, Lebrun, Gérard Hegel e a ingenuidade cartesiana, in Revista Analytica, volume 3, número 1, Levy, Lia Eu sou eu existo: isto é certo; mas por quanto tempo? O Tempo, o Eu e os Outros Eus. In Analytica, Vol. 2, N 2, Moura, Carlos Alberto Ribeiro de Cartesianismo e fenomenologia: exame de paternidade, in Revista Analytica, volume 3, número 1, Nabais, Nuno A evidência da possibilidade (A questão modal na fenomenologia de Husserl), Lisboa: Relógio D Água Editores, PPG-Fil - UFSCar

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