SOB O VÉU DE MNEMOSYNE: A MUSEÓLOGA THETIS NUNES E OS SILÊNCIOS DA HISTÓRIA

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1 SOB O VÉU DE MNEMOSYNE: A MUSEÓLOGA THETIS NUNES E OS SILÊNCIOS DA HISTÓRIA Clovis Carvalho Britto * Os silêncios me praticam Manoel de Barros As mulheres ainda continuam personagens silenciadas em grande parte das exposições museológicas e sua contribuição ainda necessita ser revisitada no cenário da Museologia brasileira. Muitas museólogas foram esquecidas ou suas trajetórias associadas a outros campos como a história ou as artes, tendo sua atuação nos museus e patrimônios culturais visualizada apenas nesses domínios do conhecimento. O intuito deste texto é promover apontamentos iniciais a respeito de como os indivíduos e as instituições, ao contribuírem para a fabricação de imortalidades e perpetuação de legados monumentalizadores, manipulam essas narrativas ocasionando silêncios e silenciamentos de determinados aspectos de uma trajetória ou, em outras palavras, esquecimentos. Desse modo, os pressupostos que orientarão a elaboração da pesquisa dialogam com os apresentados por Suely Kofes (2001) quando projetou fazer da intenção biográfica um exercício etnográfico. Para tanto, a autora destaca que não narrar alguém ou algo é um mecanismo eficaz de instituí-los como mortos metaforicamente, de conferir uma identidade a partir da não identificação. Soma-se a esse fato, o reconhecimento de que a memória se pauta em um jogo entre lembranças e esquecimentos e, no âmbito individual, na disputa entre o que deve ser lembrado, narrado, fabricado. Questões que desembocam em embates de uma política da memória que permeia a constituição das narrativas. Reconhecendo tais embates, nosso intuito será inventariar tais estratégias de fabricação do silêncio visando compreender alguns trajetos da sergipana Maria Thetis Nunes ( ) tendo como fio condutor sua formação/atuação como museóloga, faceta ainda encoberta nas brumas do esquecimento. Tal proposta é fundamental para o reconhecimento do papel das mulheres na formatação da Museologia em Sergipe e no Brasil, visto que é uma das * Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília, professor do Núcleo de Museologia da Universidade Federal do Sergipe. 1

2 primeiras museólogas brasileiras formada na década de 1950 no Curso de Museus do Museu Histórico Nacional (Cf. SIQUEIRA, 2009). Nesse sentido, a discussão problematizará como os indivíduos e as instituições ao instituírem usos políticos do passado também fabricam determinados silêncios que contribuem para iluminar outros aspectos de suas trajetórias ou outros agentes na batalha das memórias. Não é por acaso que para problematizar esta discussão sobre os procedimentos de enquadramento do passado a intitulamos de Sob o véu de Mnemosyne, deusa grega da memória, mãe das musas cujo templo ou Mouseion teriam originado a idéia de museu produzida pelo Ocidente. Sob esse véu, aqui vislumbrado como barreira, disfarce e, principalmente, convite à amnésia, é que enveredaremos. Nessa discussão a contrapelo, suscitamos em que medida determinados silenciamentos e silêncios são convenientes na construção dos repertórios e manipulação de legados, contribuindo para o velamento de determinadas informações e para a cristalização de certos discursos. 1. Entre a fabricação da imortalidade e a invenção do anonimato A problematização da fabricação dos silêncios surgiu em virtude da reiterada tensão em torno da atuação de Maria Thetis Nunes no campo da história e da amnésia em torno de sua formação e atuação como museóloga. Enquanto o campo da História sergipana se digladia em torno dos méritos ou deméritos de sua contribuição para a historiografia, percebemos que ao iluminar essa faceta de sua trajetória os agentes contribuíam (in) conscientemente para obscurecer sua contribuição no campo da Museologia, alguns questionando a sua atuação nessa área do conhecimento em virtude de uma provável ausência de indícios. Possivelmente, os pesquisadores se depararam com a dispersão e/ou o discurso da ausência de fontes, fatores que obstaculizaram o processo empírico de busca e a tessitura da narrativa. Todavia, tais silêncios podem ter sido deliberadamente construídos pela própria agente e por seus herdeiros legais e simbólicos dentre outros motivos, por exemplo, em virtude da Museologia ainda não ter atingido o mesmo prestígio que Clio atingiu no campo de produção simbólico. Questão compreensível na medida em que ainda hoje a Museologia tem seu estatuto científico colocado em xeque por alguns agentes, discussão mais acirrada na década de 1950, época em que Thetis Nunes estudou, quando era vislumbrada apenas como um saber técnico estampado, 2

3 inclusive, na proposta de seu berço formador: o Curso Técnico em Museus, promovido pelo Museu Histórico Nacional. Nesse sentido, a pesquisa se enveredará pelos rastros/restos que sobraram da trajetória e da história oficial no intuito de esboçar outra história e inventar o presente, conforme esclareceu Jeanne Marie Gagnebin (2001) quando destacou que as tentativas de apagar os indícios criam involuntariamente rastros que permitem recuperar fragmentos de uma determinada trajetória social, ou seja, resistir à ação silenciadora do tempo e da história: ao apagar rastros, [o sujeito] deixa outros que não quis (p. 115). Seria, conforme a autora, um dos efeitos da atividade de rememorar: Tal rememoração implica uma certa ascese da atividade historiadora, que, em vez de repetir aquilo de que se lembra, abre-se aos brancos, aos buracos, ao esquecido e ao recalcado, para dizer, com hesitações, solavancos, incompletude, aquilo que ainda não teve direito nem à lembrança nem às palavras. A rememoração também significa uma atenção precisa ao presente, particularmente a estas estranhas ressurgências do passado no presente, pois não se trata somente de não se esquecer do passado, mas também de agir sobre o presente. A fidelidade ao passado, não sendo um fim em si, visa à transformação do presente (GAGNEBIN, 2006, p. 91). Mesmo visualizando uma sólida engenharia de silêncios, aos poucos nos deparamos com alguns indícios/rastros da atuação de Thetis Nunes como museóloga no Rio de Janeiro e em Sergipe. Os silêncios e os interditos serviram de estímulo na criação de estratégias para a captação de rastros, através de um paciente desvendamento de pistas, sintomas, indícios (Cf. GINZBURG, 1999). Nosso intuito aqui não é apresentar esses indícios encontrados nos trajetos e nas fontes, mas visualizar em que medida esses silêncios interferiram e interferem na construção de legados. De acordo com Luciana Heymann (2004) os legados não são apenas uma herança material e política deixada às gerações futuras, mas entendidos como investimento social em virtude do qual uma determinada memória individual é transformada em exemplar ou fundadora de um projeto, ou, em outras palavras, ao trabalho social de produção da memória resultante da ação de herdeiros ou guardiões : a produção de um legado implica na atualização constante do conteúdo que lhe é atribuído, bem como na afirmação da importância de sua rememoração (p. 3). Ciente dessas questões é importante destacarmos que no caso de Thetis Nunes não é a sua trajetória que está no silêncio, mas uma faceta que ficou silenciada como resultante de um projeto de lembrança/esquecimento. Isso demonstra a existência de 3

4 espaços em branco, repletos de ausências e incompletudes entre os ditos e os interditos: é preciso aprender a ler os testemunhos às avessas, contra as intenções de quem os produziu. Só dessa maneira será possível levar em conta tanto as relações de força, como aquilo que é redutível a elas (GINZBURG, 2002, p. 43). É nesse sentido que devemos visualizar os agentes interessados em selecionar estratégias para a criação, manutenção e divulgação de determinadas memórias, fomentando a criação de espaços de evocação da imagem e de atualização da trajetória do titular por meio de trabalhos acadêmicos, reedições, exposições, eventos e comemorações. Não desconsideramos as estratégias que o próprio titular forjou com vistas à criação de uma memória que sobrevivesse a sua morte, das quais a constituição do acervo pessoal e a instauração de escritas de si seriam ilustrativos exemplos. Mas também nos interessam perceber as apropriações posteriores dessa memória e as formas de encenação da imortalidade instituídas pelos agentes e instituições que se revestem da condição de herdeiros ou guardiões. Por isso a produção do legado se estabelece conjuntamente com a produção da crença nesse legado (No caso da trajetória em análise, produziu-se a crença na Thetis Nunes historiadora e as lembranças de sua atuação como museóloga foram esquecidas em função da sobreposição de camadas do tempo). Para além da existência de uma trajetória e de um projeto criador considerado excepcional, torna-se necessário que a energia social produzida em torno de um nome próprio se estenda ao longo do tempo (Cf. BOURDIEU, 2002). Quanto maior a extensão cronológica do prestígio, maior é a eficácia dos mecanismos materiais e simbólicos mobilizados contra a ameaça do esquecimento. Desse modo, não basta ser um agente conhecido e reconhecido em sua geração, é necessário reunir subsídios para que seu nome/obra conquiste perenidade ou reconquiste o prestígio perdido ou não obtido em outros tempos. Tarefas empreendidas não apenas pelos herdeiros legais e simbólicos, mas pelo conjunto de agentes que integram o espaço de possíveis expressivos de produção simbólica: escritores, editores, críticos literários, biógrafos, jornalistas, instituições de ensino e cultura, historiadores, museólogos, dentre outros. Aqui é importante compreendermos as ações empreendidas pelo protagonista (e post mortem pelos demais agentes) para a gestão e manutenção do capital de legitimidade acumulado. Ações que convergem para o estabelecimento de uma marca distintiva, identificada com o capital simbolizado por seu nome e renome e, conseqüentemente, com a 4

5 posição ocupada no campo simbólico. Seria a atuação dos guardiões da memória, reconhecidos por Ângela de Castro Gomes (1996) como os responsáveis por um trabalho de solidificação e enquadramento da memória, narradores privilegiados da história de um grupo que pertencem ou que estão autorizados a falar. Tais embates contribuem para a instituição de explosões discursivas em torno de determinadas narrativas, ou seja, o processo de invenção da imortalidade, a exemplo de quando uma pessoa passa a integrar o patrimônio de uma nação ou região, tornando-se homem ou mulher-monumento (Cf. ABREU, 1994). Nas palavras de Jacques Le Goff (2003), para a fabricação de um documento-monumento, uma construção repleta de interesses que projeta uma imposição voluntária ou involuntária de futuro: resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio (p ). A questão é que são esses mesmos mecanismos seletivos que iluminam percursos, nomes e legados, os utilizados para a invenção do anonimato, a fabricação da desimportância, a instituição de vazios. Vazios repletos de significados reproduzidos pelas instituições, comemorações e rituais. Por isso Michele Asmar Fanini (2009) reconhece que investigar presenças consiste em um estudo das ausências, fruto de uma engenhosa operação. Dessa forma, os silêncios podem sinalizar não sua inexistência de fato, mas sua presença como parte do inenarrável, estando situadas, por constrições várias, fora do acontecimento (p. 16). Interditos que em nosso itinerário também serão reconhecidos como rastros, indícios que possibilitarão ler os testemunhos a contrapelo, problematizando, inclusive, as intenções de quem os construiu. Questões mais evidentes no caso das trajetórias de mulheres que tiveram sua atuação (ou parte dela) esquecida na política da história, compreendida como jogos de poder nos exercícios de registro/escrita da história (Cf. SCOTT, 2002). 2. Mulheres anarquivadas ou os silêncios da história A fabricação dos silêncios em torno da atuação de Maria Thetis Nunes no campo da Museologia e, desse modo, seu reconhecimento enquanto não-museóloga, também consiste em uma invenção, uma manipulação. Seja para fortalecer a sua contribuição como 5

6 historiadora se imortalizando nesse cenário estratégia deliberadamente urdida em vida pela agente -, seja para criar outros criadores fundadores do campo museal sergipano ou para outras intencionalidades, a construção de seu anonimato na Museologia se torna um empreendimento classificatório. Surge, nesse aspecto, uma identificação pela nãoidentificação. Tensões evidenciadas em alguns trabalhos destinados a recompor aspectos da trajetória de Thetis Nunes. Na edição n.º 39 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe em sua homenagem, por exemplo, o texto de Ibarê Dantas (2009) apresenta aspectos de sua trajetória e obra, silenciando a sua formação e atuação no campo da Museologia. Silenciamento também reproduzido em seu livro História da Casa de Sergipe (1912/2012) (2012). Já o texto de Thiago Fragata (2009), diretor do Museu Histórico de Sergipe, se intitula Maria Thetis, museóloga sim!, visando justificar a inserção de nome da museóloga no auditório do referido museu, localizado em São Cristóvão/SE. Todavia, embora reconheçamos tal ação como uma vigilância comemorativa ou uma voz dissonante na batalha das memórias, o texto contribui de algum modo para reafirmar sua não-identificação quando dispõe que Thétis conquistou o título de museóloga, mas nunca se apresentou ou executou trabalho na área. Nunca foi pegar o diploma (p. 19). Será que Thetis Nunes nunca teria se apresentado ou executado trabalhos na área? Em que medida essa não-apresentação ou a ausência de atuação também não seria uma fabricação? Quais os interesses que atravessam tais silêncios ou a inserção de seu nome no auditório do museu com essa ressalva? Isso se torna mais problematizador quando visualizamos a biografia Professora Thetis: uma vida, escrita pela pesquisadora Maria Nely Santos (1999). Sabedores de que a própria biografada contribuiu diretamente para a obtenção/fabricação de fontes interferindo, inclusive, no rascunho do texto, tal obra torna-se uma importante síntese dessa batalha das memórias. A palavra museologia aparece apenas três vezes em todo o livro. A autora, certamente seguindo as orientações de Thetis, não jogou luz sob sua atuação como museóloga. Ao analisar/apresentar os nove anos em que ficou fora do Sergipe, ilumina sua participação na primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), em 1956, e os cinco anos em que atuou como adida cultural em Rosário, na Argentina, dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros, entre 1960 e Em diversos capítulos essa atuação é celebrada em detalhes, 6

7 deixando os três anos em que cursou Museologia no Museu Histórico Nacional, entre 1957 e 1959, sob o véu do esquecimento. Ao longo do trabalho, uma entrevista de Thetis consiste no único momento em que se vislumbra uma informação mais explícita sobre sua atuação no Curso de Museus. Nele, a autora deixa rastros que revelam um dos supostos motivos que podem ter contribuído para esse silêncio - sua falta de afinidade teórica com Gustavo Barroso, uma das figuras centrais na Museologia brasileira, idealizador do curso e então diretor do Museu Histórico Nacional: Sua vida no Rio de Janeiro também lhe propiciou a realização do curso de Museologia, com o não menos renomado professor Gustavo Barroso. A propósito de Gustavo Barroso, várias vezes me acentuou que ele não se identificava com a sua concepção de História: Nunca nos entendemos. Tive outros professores no Curso de Museus, mas não posso deixar de destacar Mário Barata, a quem devo meu conhecimento de História da Arte (SANTOS, 1999, p ). Embora sua fala destaque uma tensão, ela também revela a importância que o Curso de Museus teve em sua formação na área de Artes, fator que poderia ser um acionador de lembranças com relação ao período. Do mesmo modo, a despeito de suas orientações divergentes, a utilização do capital simbólico em torno do nome de Gustavo Barroso e do Curso de Museus poderia lhe render lucros simbólicos. Todavia, Thetis preferiu registrar em suas memórias os impactos que os professores do ISEB tiveram em sua formação, encobrindo suas vivências e experiências nos três anos em que cursou Museologia, evitando pelo menos nos últimos anos de vida - a associação de seu nome ao métier museológico. Teriam sido essas divergências com Gustavo Barroso, responsável pelo ensino de técnica de museus, um dos motivos de sua não-identificação enquanto museóloga? Quais foram as divergências? A identificação de Thetis Nunes com o professor Mário Antônio Barata, responsável pelas disciplinas de História da Arte, renomado crítico, conservador e restaurador, museólogo fundador do Conselho Internacional de Museus (ICOM), não teria influenciado sua atuação na Museologia? Sua atuação exitosa ao longo do curso, obtendo o primeiro lugar entre sua turma e notas de destaque em todas as disciplinas cursadas, incluindo as de técnicas de museus, não teria impactado sua formação e possibilitado a sua atuação posterior na Museologia? Em última instância, o que teria motivado sua participação no curso? Sua formação anterior em história e o perfil técnico manifesto nas disciplinas teriam influenciado essa escolha? O que a impulsionou a permanecer em um curso que formava os 7

8 chamados conservadores de museus? Em que medida essa não-identificação e/ou identificação, assim como os silêncios em torno de sua formação no Curso de Museus e da sua atuação na Museologia, não foram fabricados? Na verdade, o intuito destas reflexões iniciais não é responder a essas provocações, mas reconhecê-las como fundamentais para a visualização dos enquadramentos, tensões e versões da história e da memória. No caso das mulheres, essas práticas assumem outra preocupação na medida em que reconhecemos as estratégias forjadas em prol da dominação masculina e as clivagens de gênero (Cf. BOURDIEU, 2005). De acordo com a clássica expressão de Michelle Perrot (2005), as mulheres são os silêncios da história. Essa aproximação ganha fôlego na medida em que relatamos irrupções de presenças e de falas femininas em locais até então proibidos ou não familiares e que, ainda hoje, são envoltas por muitas zonas mudas, relacionadas à partilha desigual dos traços, da memória e da história. Para tanto, concordamos com a autora quando afirma que esta reflexão não intenta modificar o lugar ou a condição destas mulheres, mas um esforço para que possamos compreendê-las melhor e, indistintamente, compreender como a dominação masculina se naturaliza e rever a importância da atuação feminina (aparentemente embargada) na tessitura e na invenção de tradições: Evidentemente, a irrupção de uma presença e de uma fala femininas em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, esqueceu as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento. No início era o Verbo, mas o Verbo era Deus, e Homem. O silêncio é comum das mulheres. Ele convém a sua posição secundária e subordinada. Ele cai bem em seus rostos, levemente sorridentes, não deformados pela impertinência do riso barulhento e viril. Bocas fechadas, lábios cerrados, pálpebras baixas, as mulheres só podem chorar, deixar lágrimas correrem como água de uma inesgotável dor. [...] O silêncio é um mandamento reiterado através dos séculos pelas religiões, pelos sistemas políticos e pelos manuais de comportamento. Silêncio das mulheres na igreja ou no templo; maior ainda na sinagoga ou na mesquita, onde elas não podem nem ao menos penetrar na hora das orações. [...] Silêncio até mesmo na vida privada (PERROT, 2005, p. 9-10). Na maioria das vezes, quando lembradas, as mulheres não receberam a mesma avaliação dispensada aos homens e seus nomes foram apenas citados entre uma exaustiva 8

9 enumeração de autores, cortesia que reforça a idéia de excepcionalidade a uma regra masculina. Ausentes por mais de meio século das instituições brasileiras destinadas para traçar a biografia da nação e, conseqüentemente, a historiografia, a exemplo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) e da Academia Brasileira de Letras (1896), não foram consideradas legítimas para organizar a história e consolidar e preservar a língua e a literatura nacionais. Somente entre fins do século XIX e início do XX algumas mulheres conquistaram um maior espaço em função de oportunidades profissionais e expressivas que lhe apresentavam, embora em meio a intempéries de uma vida pautada em diversas formas de sujeição e dependência em virtude de um quadro de assimetrias entre os sexos, para utilizarmos o pensamento de Sérgio Miceli (2005) quando constatou o silêncio da história brasileira a respeito da contribuição feminina e os acidentados itinerários de trabalho intelectual vivenciados por algumas mulheres integrantes dos círculos da elite brasileira. Nesse aspecto, destacou os gigantescos investimentos promovidos por elas no intuito de obter uma chance e tornar protagonistas do campo intelectual, construindo, nesses moldes, uma vida na contramão, à margem das posições ao alcance dos homens. Apresentava-se, assim, uma situação de impasse social nos moldes da exclusão enunciada por Norbert Elias, segundo o qual o nobre mais fajuto pode sempre passar por esgrimista, mas o esgrimista mais habilidoso jamais pode aspirar à condição aristocrática (p. 13). Curioso é que ainda hoje as mulheres enfrentam algumas das dificuldades encontradas por suas precursoras no século XIX. Se antes lhes eram vedado o acesso à formação escolar e a divulgação de seus trabalhos, atualmente continuam minoria nas historiografias, nas instituições responsáveis pela canonização/monumentalização e ainda devem mobilizar pesados trunfos para obter autoridade ou respeitabilidade no campo simbólico. É certo que ocorreram conquistas, um número maior de mulheres forçou passagem e ajudou a construir um espaço que, embora restrito, demonstra que sua competência já não pode ser mais questionada como nos séculos anteriores. Para tanto, concordamos com Kátia da Costa Bezerra (2007) quando destacou as estratégias de algumas mulheres para romper com práticas discursivas opressivas e alcançar um lugar de fala no século XX. Tais ações visaram distanciar de leituras hegemônicas do passado, apresentando outras vozes que reafirmam diferenças, instituidoras de uma memória em falsete. Conforme salientou Constância Duarte (2007), a maioria dos acervos sobre as 9

10 mulheres ou de mulheres encontram-se dispersos e/ou custaram a aparecer, demonstrando como a censura e a repressão contribuíram para a destruição dos acervos, antes mesmo de sua produção, tornando-as anarquivadas. Esses silêncios ou não-ditos são significativos, do mesmo modo que as sub-representações no caso da participação das mulheres na narrativa regional e nacional. A ausência de rastros (de fato ou fabricada) seria um dos aspectos que contribuiriam para a instituição de silêncios. Todavia, podemos reconhecer que mulheres como Thetis Nunes (e sua atuação como museóloga) não foram anarquivadas, mas justamente seu silenciamento consistiu em uma operação de arquivamento, foram arquivadas na rubrica nãoidentificadas, sendo arquivadas apenas partes previamente selecionadas/interessadas de seus trajetos. Também é fundamental reconhecermos que as mulheres não receberam passivamente a dominação masculina (Cf. BOURDIEU, 2005). Como demonstrou Paulo Brito do Prado (2014), ainda que silenciadas, esse silenciamento era acompanhado de disputas, resistências e técnicas que frustravam alguns efeitos da dominação: No entanto, é importante destacar que mesmo se calando no interior de determinados momentos e/ou contextos, esses silêncios têm em seu interior objetivos particulares. Por esta razão se tornou interessante, senão instigante, avaliarmos melhor estes silêncios vendo-os como formas, ou mesmo técnicas de contornar toda a situação marcada pela dominação masculina e lançar mão de planos para ocupar lugares pouco comuns às mulheres, ou mesmo aparecer publicamente sem, todavia perder o status da mulher íntegra. É por isso que se fez e se fazem necessários estudos interessados em desvelar as mulheres retirando-as das sombras e atribuindo-as vida para que desta forma possamos ter a expectativa de no futuro uma história não da dominação masculina sobre a mulher, mas uma história das relações de gênero (p ). Na verdade, muitas vezes as mulheres aceitaram se apagar em alguns momentos para obterem visibilidade em outros, desenvolvendo concessões de ordem simbólica. Muitas fizeram do silêncio uma arma, esquivando-se, ocupando os vazios do poder e as lacunas da história. Os não-ditos e os interditos também foram estratégias utilizadas pelas mulheres. Muitas vezes os silêncios, o apagamento de rastros e os esquecimentos foram táticas para resistir a algo, conquistar direitos e exercer algum poder. Em meio a um terreno movediço, muitas mulheres forjaram situações para conquistar objetivos e metas, daí a existência de tempos plurais entre silêncios e gritos que propiciaram a construção de paradoxos, fazendo 10

11 circular um conjunto de verdades desafiadoras, sem, contudo, abalar as crenças ortodoxas (Cf. SCOTT, 2002, p. 28). Talvez não seja por acaso que Maria Thetis Nunes, de algum modo, tenha contribuído para a fabricação dos silêncios em torno de sua atuação na Museologia. Provavelmente esse silêncio e o silenciamento foram frutos de uma tática/concessão para o exercício de poderes e saberes. Imortalizadores de ausências é certo que existem muitos indícios forjados sob o véu de Mnemosyne. Silêncios que são cuidadosamente praticados e nos praticam (em som, mudez e fúria). Compete-nos capturar tais rastros, na tentativa de ressoar tais vozes, mesmo quando embargadas. Referências Bibliográficas ABREU, Regina. Emblemas da nacionalidade: o culto a Euclides da Cunha. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.º 24, BEZERRA, Kátia da Costa. Vozes em dissonância: mulheres, memória e nação. Florianópolis: Editora Mulheres, BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, BOURDIEU, Pierre. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. São Paulo: Zouk, DANTAS, Ibarê. História da Casa de Sergipe (1912/2012). Aracaju: Editora UFS/IHGSE, DANTAS, Ibarê. Maria Thetis Nunes ( a ). Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Aracaju, n.º 39, DUARTE, Constância Lima. Arquivos de mulheres e mulheres anarquivadas: histórias de uma história mal contada. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, v. 30, FANINI, Michele Asmar. Fardos e fardões: mulheres na Academia Brasileira de Letras ( ). Tese (Doutorado em Sociologia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, FRAGATA, Thiago. Maria Thetis, museóloga sim! Divirta-se, Aracaju, Ano 1, n.º 6, nov GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Ed. 34,

12 GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, GOMES, Ângela de Castro. A guardiã da memória. Acervo - Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v.9, nº 1/2, p.17-30, jan./dez HEYMANN, Luciana Quillet. Cinqüenta anos sem Vargas: reflexões acerca da construção de um legado. XXVIII Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, KOFES, Suely. Uma trajetória, em narrativas. Campinas, SP: Mercado de Letras, LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora Unicamp, MICELI, Sérgio. Relegação social e chance literária. In: ELEOTÉRIO, Maria de Lourdes. Vidas de romance: as mulheres e o exercício de ler e escrever no entresséculos Rio de Janeiro: Topbooks, PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, PRADO, Paulo Brito do. Entre o perfume de angélicas e estrelas do norte as mulheres tornam perpétua a tradição do Perdão: por uma história (fe) minina em terras goianas nos séculos XIX e XX. In: BRITTO, Clovis Carvalho; PRADO, Paulo Brito do; SIQUEIRA, Guilherme Antônio de (Orgs.). Por uma história da saudade: itinerários do Canto do Perdão na Cidade de Goiás (Séculos XIX e XX). Goiãnia: América, SANTOS, Maria Nely. Professora Thetis: uma vida. Aracaju: Gráfica Pontual, SCOTT, Joan Wallach. A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os direitos do homem. Florianópolis: Editora Mulheres, SIQUEIRA, Graciele Karine. Curso de Museus MHN, : o perfil acadêmicoprofissional. Mestrado (Museologia e Patrimônio), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro,

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