Reassentamento de Mwaladzi: modelo ou pesadelo?

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1 Reassentamento de Mwaladzi: modelo ou pesadelo? Por: Célia Sitoe e Tomás Queface (CIVILINFO) Quando o arranque da mina de carvão de Benga determinou, em 2010, o início do reassentamento involuntário de 736 agregados familiares planificados, de Capanga para a região de Mwaladzi, na Província de Tete, acabavam de ocorrer as primeiras revoltas dos camponeses reassentados pela Empresa Vale, em Cateme, em protesto contra as condições de vida degradantes em que viviam. Para evitar novas ʺCatemesʺ, anunciava-se, para Mwaladzi, um reassentamento-modelo, o que pressupunha, pelo menos, habitação condigna, terra fértil e suficiente para todos, água acessível e meios de vida mínimos para os reassentados. Agora, cinco anos depois, com a mina de Benga passando sucessivamente de empresa em empresa - da Riversdale ( ) para a Rio Tinto ( ), e desta para a International Coal Ventures Limited (ICVL), da India - a fome e o impacto do desenraizamento abatem-se severamente sobre Mwaladzi, ameaçando transformar o idealizado reassentamento-modelo em reassentamento-pesadelo. ʺÀs vezes descobrimos pessoas mortas de fome, nas machambasʺ, disserem os aldeões a uma equipa de pesquisa do SEKELEKANI que trabalhou recentemente no local. Benga: a mina amaldiçoada Perto de quinhentas famílias em Mwaladzi, bairro de reassentamento da população retirada da área de exploração da mina de carvão de Benga, na Província de Tete, vivem em condições humanas deploráveis. Estas famílias foram retiradas, em fases sucessivas, de Capanga, cerca de 50 Km de Mwaladzi, para dar lugar à exploração de carvão na região. Mwaladzi situa-se no posto administrativo de Cambulatsitsi, distrito de Moatize, e 4 km de Cateme. Em Mwaladzi a terra é árida, sendo por isso imprópria para a actividade agrícola, principal base de sustento das famílias no local de origem, aonde elas também dedicavam-se ao fabrico e venda de carvão vegetal e de tijolos, para suplementar os rendimentos agrícolas e sustentar a educação dos filhos. Por outro lado, o acesso à água é também uma grande ʺdor de cabeçaʺ:já em Capanga, 1

2 pelo contrário, a comunidade vivia próximo do rio Rovubue, em cujas margens, férteis, praticava agricultura. Mais importante que casas de cimento e zinco, é garantir aos reassentados terra arável suficiente, água potável, cuidados de saúde, educação para os filhos e meios de vida. Como ensina a experiência com as revoltas de Cateme, os factores determinantes para o sucesso de um reassentamento, não se concentram numa casa moderna, feita de cimento e coberta de zinco, mas sim no tamanho, potencial e produtividade da terra disponível para cada família, acesso a água e a meios de vida, condições que escasseiam em Mwaladzi. Assim, e devido à fome e à falta de trabalho ou ocupação produtiva, pelo menos 15 famílias decidiram regressar à zona de origem, Capanga, na expectativa de, pelo menos, recuperarem as suas condições de vida anteriores ao reassentamento. Noutras situações, mulheres ficaram sozinhas com as crianças, abandonadas pelos maridos: uns refugiados na mata, aonde se dedicam à caça furtiva, outros em paradeiro incerto: é o desenraizamento, provocando destruturação social. Para piorar este quadro, a contínua sucessão entre diferentes empresas concessionárias - aparentemente com políticas sociais diferentes - parece contribuir para o agravamento dos problemas de raiz do reassentamento de Mwaladzi. Por exemplo, e segundo o secretário do 2

3 bairro, Rosário José, a multinacional Rio Tinto oferecia uma cesta básica de alimentos por família, como forma de ajuda-la no período de estabilização. Porém, com a entrada da indiana ICVL, esta prática de assistência alimentar foi cancelada, criando revolta entre os camponeses. Fontes oficiais locais, ouvidas pela nossa equipa, dizem entretanto que a retomada desta ʺcesta básicaʺ, aparentemente já acordada entre as partes relevantes no local, mantém-se contudo ʺsuspensaʺ, por falta de entendimento ou de acção, de ʺestruturas centraisʺ em Maputo. Como o assunto é comentado com certo azedume pelas autoridades distritais, não foi possível obter dados mais claros e conclusivos sobre aonde a referida cesta básica se encontra ʺbloqueadaʺ, na cadeia que faz a ligação comunidade-governos distrital e provincial - governo central. Uma maldição sobre Benga: três empresas sucedem.se em apenas cinco anos! A Mina de Carvão de Benga está localizada ao sul do Rio Rovuboé e a leste do Rio Zambeze, Província de Tete, e o processo da sua exploração, pela empresa australiana Riversdale, iniciou em É nesta altura que ocorre a primeira vaga de reassentamentos, abrangendo, no total, 71 famílias. Pouco depois, em 2011, veio suceder-lhe o grupo mineiro anglo- australiano, Rio Tinto, que compra a mina de Benga e outros activos, adquirindo dessa forma 100 por cento das acções da Riverdale Mining Limited por milhões de dólares: é quando ocorre a segunda vaga de reassentamentos. Uma terceira vaga de reassentamentos, chamados reassentamentos urbanos, viria a iniciar na altura em que, por sua vez, a Rio Tinto vende a minha ao consórcio estatal indiano, International Coal Ventures Private Limited (ICVL) em A Rio Tinto vende a mina por 50 milhões de dólares norte-americanos. Esta venda inclui os activos de carvão da Rio Tinto na região Tete, nomeadamente a mina Benga (65%), a concessão mineira do Zambeze e as licenças de exploração do Tete Leste, bem como licenças de exploração de carvão associadas e a Benga Energia, SA. Estes activos constituíam colectivamente a Rio Tinto Coal Mozambique. O consórcio ICVL, constituído pelas empresas estatais indianas Coal India, Steel Authority of Índia, National Thermal Power Corporation (NTPC), National Mineral Development Corporation (NMDC) e Rashtriya IspatNigam Limited (RINL), foi criado para adquirir e 3

4 explorar em regime de parceria carvão de coque, bio-energias e outros minerais. No total, foram reassentadas, ao longo de diferentes fases e por diferentes empresas explorando a mesma mina de Benga, 478 famílias em Mwaladzi. O facto das três empresas não seguirem, exactamente, as mesmas políticas sociais, tem-se reflectido sobre as condições de vida da população reassentada, que, como em muitos outros casos, clama por uma maior protecção do Estado. Para a sua alimentação, a maioria das famílias socorrem-se de folhas de plantas silvestres, denominadas Thovhe. Segundo explica Tierina Sinai, reassentada em Mualadzi, primeiro secamse as folhas, para a sua conservação, sendo posteriormente mergulhadas em água fervida, para servirem de alimento humano. Segundo conta uma outra residente, Isaura Bento, as mães asseguram a sobrevivência das crianças preparando-lhes papas a partir de farelo de milho. Em algumas outras famílias, toma-se uma única refeição por dia, que se resume a pedaços de pepino temperado com sal, ou simplesmente feijão cozido, o que se traduz em fome crónica, provocando desnutrição nas crianças e dores uterinas nas mulheres. Liliana Ruben, residente naquele bairro, fala de morte de pessoas em Mwaladzi, devido à fome. As vezes a pessoa morre na machamba e só descobrimos dias depois, afirma ela. Vivemos mesmo mal; aqui não se toma matabicho; quando temos algo para comer, preferimos guardar para uma única refeição do dia, no período da tarde. Geralmente é um pouco de farinha, misturada com um pouco de farelo; às vezes colhemos folhas nas machambas ou feijão bwere - para aqueles que conseguem encontrar, reforça, por seu lado, o secretário do bairro. 4

5 Nos seus depoimentos, os reassentados de Mwaladzi dizem que, de uma forma geral, viviam muito melhor na sua região de origem, Capanga, pois tinham meios de vida que lhes permitiam obter alguns recursos financeiros para suplementar os rendimentos agrícolas. Em Capanga tínhamos plantas de fruta como maçaniqueiras e malambe, das quais fabricávamos cerveja tradicional que vendíamos para sustentar as nossas crianças e custear os seus estudos. Agora aqui é tudo muito difícil; aqui não tem nada e quando pedimos socorro ameaçam-nos com agentes da Unidade de Intervenção Rápida, - UIR. Nas machambas não estamos a tirar nada: será que vamos partir as pedras destas casas, para alimentar os nossos filhos, para eles poderem ir a escola?ʺ, interrogam-se. Mulheres e crianças são as mais afectadas pelo consumo de água imprópria Em Mwaladzi a comunidade queixa-se de escassez de água potável, pois consideram que as fontenárias abertas pelas empresas concessionarias ou são insuficientes ou ficam demasiado distantes das suas residências. Por isso alguns afirmam que bebem da mesma água dos poços construídos para a beberragem de animais. Outros ainda suspeitam da qualidade da água das fontenárias, que dizem apresentar uma camada grossa, de cor metálica: esta, quando fervida, 5

6 chega a corroer até panelas de alumínio. Algumas mulheres contaram que têm sentido dores no útero e dores de estômago, e ainda dificuldades para urinar, o que deve ser causado por consumo de água impropria para consumo humano. A equipa do SEKELEKANI não pôde, contudo, confirmar a veracidade destas alegacões. Tierina Sinai lava roupa e louça no bebedouro feito para bois. Questionada sobre a preferência daquela água em detrimento da fontenária, Sinai respondeu nos seguintes termos aqui é mais próximo e lavamos à vontade. Na fontenária fica cheio de gente; com uma única torneira, não chega para todos. Ela pede que se aumente o número de fontenárias para reduzir as enchentes e as distâncias; caso contrario, muitas mulheres continuarão a partilhar a mesma água com os bois. Crianças abandonam a escola devido às longas caminhadas Em Mualadzi não existe escola secundaria; a escola mais próxima situa-se no reassentamento de Cateme, que dista 4 km de Mualadzi. Quando a mina de Benga era explorada pela Rio Tinto, esta tinha disponibilizado duas viaturas para transportar os alunos; mas a medida não durou muito tempo: cedo os autocarros - adquiridos em segunda mão - ficaram obsoletos e, aparentemente, a nova concessionaria (ICVL) não está disposta a manter as políticas sociais da antecessora. Em consequência disso, e devido à distância, algumas crianças têm abandonado as aulas, pois faltamlhes recursos para custear ʺchapa 100ʺ todos os dias. Com vista a mitigar o problema, a empresa ICVL está a desenhar um programa, visando oferecer a cada aluno uma bicicleta, mas segundo a comunidade a medida não é sustentável, pois os estudantes poderão ser assaltados, no caminho para a escola. O jovem Maputo Domingos conta que, por causa da distância, chega sempre atrasado às aulas; pois percorre diariamente 10 quilómetros a pé, e só consegue chegar à escola no terceiro tempo, por volta das 9 horas. As minhas notas estão a baixar porque perco muitas aulas, gostaria que colocassem a escola mais perto. Tenho 6 filhos em idade escolar, mas um deles teve de interromper a escola, pois não tenho recursos; vendo algumas coisas no mercado, mas não rendo nado; prefiro regressar a Capanga, pois lá conseguia dar de comer aos meus filhos e custear a escolaʺ, afirma, por sua vez, Fátima Fernando. 6

7 Por seu lado, de semblante fechado, Felícia Abdala, uma menina de 15 anos, conta que interrompeu a frequência da 8ª classe, porque a sua mãe não tem dinheiro para pagar a matrícula. Ela é órfã de pai e a mãe não desempenha qualquer actividade produtiva. Segundo referem os jovens estudantes, por cada prova feita na Escola Secundaria de Cateme, são-lhes cobrados cinco meticais, sendo mais um custo longe da capacidade financeira dos pais. Jovens clamam por trabalho produtivo Apesar da agricultura de subsistência ter sido uma parte significativa da vida em Capanga, a comunidade desenvolvia outras actividades para reforçar os seus rendimentos, que incluem o fabrico de tijolos e de carvão vegetal, pesca artesanal no rio, bem como o corte de lenha. Em Mwaladzi o cenário é completamente diferente, não havendo praticamente qualquer oportunidade económica. Aqui não há oportunidades de emprego; já inscrevemos todos jovens para a mineradora indiana ICVL, mas os postos de emprego foram ocupados por parentes dos donos da empresaʺ, alegam alguns camponeses. ʺAinda que saiba que uma empresa está a recrutar trabalhadores, como vou lá chegar, sem meio de transporte? Assim os meus filhos não têm o que comer, por favor estamos a sofrer, suspira Majiricão Jaime. Domingos Evaristo conta que em Capanga eu fabricava tijolo e partia brita; mas aqui em Mwaladzi não estou a fazer nada; estou parado, mesmo tentar queimar carvão ninguém compra, com a venda de tijolos dava para arrecadar até 100 mil meticais por mês. Titos Fernando também considera que em Capanga a vida era melhor, pois conseguia sustentar a família. A empresa prometeu que teríamos trabalho, mas não existe. Quando acordamos eu e minha mulher, só nos olhamos: como vamos viver assim? A comunidade pede para que as condições sejam melhoradas ou que sejam colocados em zonas que haja acesso à água e à terra fértil. Sugerem ainda que haja programas de geração de rendimento para reduzir o nível de fome. 7

8 A versão da(s) empresa(s) A interpretação da realidade de Mwaladzi, tal como feita pelos aldeões, difere, em grande medida, daquela feita pelas empresas que têm estado a realizar os sucessivos reassentamentos. Na óptica destas, Mwaladzi é um aldeamento dotado de condições mínimas de vida, onde as famílias reassentadas beneficiam de boa habitação (comparativamente ao modelo de Cateme); e estão providas de infra-estruturas sociais como sistemas de abastecimento de água, escola, hospital e orfanato, bem como de infrastruturas de assistência pecuária (incluindo tanques de desparasitação de vacas, ora em construção) e centros de aprendizagem de produção de aves e de caprinos. Contudo, na perspectiva dos camponeses, falta-lhes o mais importante: terra arável suficiente, meios de rendimento, nomeadamente para garantir a educação dos filhos; acompanhamento social e psicológico adequado e sistemas de comunicação abertos e funcionais, quer com as empresas, quer com as autoridades administrativas, onde possam apresentar as suas preocupações e obter respostas em tempo útil. Défice de comunicação com as autoridades locais A comunicação entre a comunidade e as autoridades não parece fluida nem aberta. A população critica a ausência da chefe da localidade de Mwaladzi no seu gabinete. Os aldeões dizem mesmo que os funcionários da instituição nunca se fazem presentes no local de trabalho e, como resultado, o estabelecimento fica encerrado em dias úteis da semana, deixando a população sem possibilidades de submeter as suas preocupações ao governo ou tratar documentos. O secretário disse que quando eles apresentam preocupações à Administradora do Distrito, esta limita-se a dizer que ʺtomou conhecimento e promete uma respostaʺ; contudo há mais de dois anos que a administração não responde as preocupações apresentadas pela comunidade, alega o Secretario do bairro. Desta informação pode depreender-se que, por sua vez, a Administradora do Distrito não recebe respostas adequadas e atempadas, junto dos seus superiores hierárquicos ou das empresas. Como forma de exprimir o seu protesto contra as condições de vida prevalecentes em Mwaladzi, o Secretario do Bairro diz que a comunidade vai, um dia, paralisar a mina, bloqueando todas as vias de acesso. 8

9 Quando a equipa do SEKELEKANI solicitou uma entrevista à Administradora do Distrito, foilhe exigida uma credencial ou autorização proveniente do governo provincial. *Pesquisadores do Centro de Estudos e Pesquisa de Comunicação SEKELEKANI 9

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