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1 ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA MURILO MAC CORD MEDINA COMANDO LOGÍSTICO DO TEATRO DE OPERAÇÕES: sua importância para a otimização da aplicação dos recursos logísticos das Forças Armadas do Brasil Rio de Janeiro 2012

2 MURILO MAC CORD MEDINA COMANDO LOGÍSTICO DO TEATRO DE OPERAÇÕES: sua importância para a otimização da aplicação dos recursos logísticos das Forças Armadas do Brasil Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Cel Int R1 Antonio Celente Videira Rio de Janeiro 2012

3 C2012 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG. Biblioteca General Cordeiro de Farias Medina, Murilo Mac Cord Comando Logístico do Teatro de Operações: sua importância para a otimização da aplicação dos recursos logísticos das Forças Armadas do Brasil / CMG(IM) Murilo Mac Cord Medina - Rio de Janeiro: ESG, f.: il. Orientador: Cel Int R1 Antonio Celente Videira Trabalho de Conclusão de Curso Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), Interoperabilidade. 2. Logística. 3. Estado-Maior Conjunto. 4. Teatro de Operações. I. Título.

4 Aos meus pais, esposa e filhos, pelo suporte e presença constante nas horas de dúvida e de grandes decisões, que muito me ajudaram a manter o rumo em minha missão.

5 AGRADECIMENTOS Aos estagiários da Turma Programa Antártico Brasileiro pelo convívio harmonioso e amigo ao longo de Ao Corpo Permanente da ESG pelo estímulo às reflexões e conhecimentos transmitidos durante o CAEPE, que me fizeram conhecer melhor o Brasil e seu extraordinário potencial. Ao Cel. Celente, meu orientador, pelas contribuições e paciência. Ao CF(IM) Anderson Oliveira Marendaz pelas inúmeras contribuições a este trabalho.

6 A diferença entre o impossível e o possível reside na determinação de uma pessoa. Tommy Lasorda

7 RESUMO Esta monografia aborda o Comando Logístico do Teatro de Operações, criado em 2011 pelo Ministério da Defesa, e sua importância para a otimização da aplicação dos recursos logísticos das Forças Armadas do Brasil. Para a perfeita compreensão desse novo conceito, é realizada uma breve abordagem sobre a evolução da logística, desde sua origem até os tempos atuais, com ênfase na Logística Militar, procurando familiarizar o leitor com as nuances dessa atividade, despertando sua atenção para a relevância do assunto no sucesso dos empreendimentos civis e militares. Para a contextualização do CLTO, são apresentados os principais pontos da Estratégia Nacional de Defesa, que introduziram relevantes ações para o incremento da integração das Forças Armadas. A Doutrina de Operações Conjuntas, emitida pelo Ministério da Defesa em 2011 e que estabeleceu as normas para o funcionamento do CLTO, é analisada sob o ponto de vista da integração da logística conjunta, descrevendo as normas estabelecidas pelo MD para sua ativação e guarnecimento pelas Forças Singulares. Fruto da análise desse documento e das experiências adquiridas por ocasião da ativação desse Comando em exercícios de Operações Conjuntas promovidas por aquele Ministério, são identificadas e apresentadas oportunidades de melhoria para o aprimoramento da operacionalização do CLTO, quando da revisão das referidas normas em Palavras chave: Interoperabilidade. Logística. Estado-Maior Conjunto. Teatro de Operações.

8 ABSTRACT This end of course work addresses the Theater Logistic Command Operations (CLTO) created in 2011 by the Ministry of Defense and its importance to optimize the application of logistics resources of the Brazilian Armed Forces. For a full understanding of this new concept a brief approach is performed on the evolution of logistics from its origins to modern times, with emphasis on Military Logistics, trying to familiarize the reader with the nuances of this activity by bringing to their attention the relevance of the challenges and its success within civil and military ventures. To contextualize the CLTO, the main points of the National Defense Strategy are presented which introduced relevant actions to increase the integration of the Armed Forces. The Doctrine for Joint Operations, issued by Ministry of Defense (MD) in 2011 in which standards for the operation of CLTO were established, is analyzed from the point of view of integration of joint logistics, describing the standards set by the MD to its activation and manning of the respective military services. As a result of the analysis of this document and experiences gained during Joint Operations exercises executed by the command after its activation which were promoted by that Ministry, are identified and opportunities presented to improve the operations of CLTO will be taken into consideration in 2013 when a complete review of the standards will take place. Keywords: Interoperability. Logistics. Joint Chiefs of Staff. Theater of Operations.

9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Recursos logísticos Mapa 1 O mundo grego durante as guerras com a Pérsia Figura 2 Exemplo de aplicação de itens de suprimento em equipamentos Figura 3 Estrutura organizacional do Comando Operacional Conjunto Figura 4 Estrutura organizacional do CLTO... 34

10 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APA AVL BaLogCj BIEG CAT-BR CCL CECAFA CLTO COMDABRA ComTO EB EG EMCFA EMCj EMD EMFA END EPT EQ ESG FAB FAC FGV FNC FTC HE IS MB MD OM OMLS PAED Análise Pós Ação Automatic Vehicle Location Base Logística Conjunta Banco de Informações Estratégicas e Gerenciais Catálogo de Itens e Empresas Centro de Coordenação Logística Centro de Catalogação das Forças Armadas Comando Logístico do Teatro de Operações Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro Comandante do Teatro de Operações Exército Brasileiro Equipagem Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Estado-Maior Conjunto Estado-Maior de Defesa Estado-Maior das Forças Armadas Estratégia Nacional de Defesa Eixo Prioritário de Transporte Equipamento Escola Superior de Guerra Força Aérea Brasileira Força Aérea Componente Fundação Getúlio Vargas Força Naval Componente Força Terrestre Componente Hipótese de Emprego Item de Suprimento Marinha do Brasil Ministério da Defesa Organização Militar Organização Militar Logística Singular Plano de Articulação e de Equipamento da Defesa

11 RFID Radio Frequency Identification SAbM Sistema de Abastecimento da Marinha SCM Supply Chain Management SEGAR Segurança da Área de Retaguarda SELOM Secretaria de Ensino, Logística, Mobilização, Ciência e Tecnologia SEORI Secretaria de Coordenação e Organização Institucional SEPESD Secretaria de Pessoal, Ensino, Saúde e Desporto SEPROD Secretaria de Produtos de Defesa SIGLD Sistema de Gerenciamento de Logística de Defesa e Mobilização SINCONSUP Sistema de Controle de Suprimentos SILOMS Sistema Integrado de Logística de Material e de Serviços SIMATEX Sistema de Material do Exército SINFORGEx Sistema de Informações Organizacionais do Exército SINGRA Sistema de Informações Gerenciais de Abastecimento da Marinha SISMA Sistema de Material Aeronáutico SISMAB Sistema de Material Bélico SISMICAT Sistema Militar de Catalogação SPEAI Secretaria de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais TO Teatro de Operações ZA Zona de Administração ZC Zona de Combate ZI Zona do Interior

12 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO LOGÍSTICA A ORIGEM DA LOGÍSTICA A LOGÍSTICA NA ATUALIDADE A LOGÍSTICA MILITAR O COMANDO LOGÍSTICO DO TEATRO DE OPERAÇÕES A ESTRATÉGIA NACIONAL DE DEFESA A DOUTRINA DE OPERAÇÕES CONJUNTAS O CLTO EM EXERCÍCIOS DE OPERAÇÕES CONJUNTAS OPORTUNIDADES DE MELHORIA INTEGRAÇÃO DOS SISTEMAS LOGÍSTICOS DAS FORÇAS MANUAIS OPERACIONAIS COMANDO CONJUNTO PERMANENTEMENTE ATIVADO CONCLUSÃO REFERÊNCIAS... 45

13 12 1 INTRODUÇÃO Os altos e crescentes custos inerentes à obtenção e à manutenção de meios navais, terrestres e aéreos dotados de tecnologia de ponta, capazes de contribuir efetivamente para o atingimento dos Objetivos Nacionais, tornaram indispensável à união de esforços no âmbito das três Forças Armadas, para a manutenção da expressão militar do Poder Nacional compatível com os interesses do País. Essa integração teve significativo incremento com a criação do Ministério da Defesa (MD), em 1999, quando se iniciaram, no seio da sociedade brasileira, discussões mais substantivas acerca da Política Nacional de Defesa e da necessidade de o Brasil dispor de Forças Armadas bem aparelhadas. O consequente estreitamento do relacionamento entre as Forças, combinado com a crescente necessidade de otimização da aplicação dos escassos recursos orçamentários alocados à manutenção das tropas e meios da Marinha, Exército e Força Aérea, incrementou o diálogo sobre a interoperabilidade nas operações conjuntas. Ganhando maior importância naquele Ministério, essas operações passaram a ser objeto de diversos estudos, buscando a atualização das doutrinas. Nesse contexto, demonstrando sua preocupação com a integração da logística, o MD dedicou especial atenção à revisão de diversos documentos normativos sobre o tema, como, por exemplo, a Doutrina de Logística Militar, aprovada pela Portaria Normativa nº 614/MD, de 24 de outubro de 2002, e a Política de Logística de Defesa, aprovada pela Portaria Normativa nº 1.890/MD, de 29 de dezembro de 2006, aprimorando a gestão dos recursos empregados no apoio logístico das Forças. Dando início a um novo conjunto de programas de reaparelhamento voltados para o fortalecimento da Defesa do País, o Presidente da República aprovou, por meio do Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008, a Estratégia Nacional de Defesa (END). Esse documento foi elaborado com base em ações estratégicas de médio e longo prazo, visando à modernização da estrutura nacional de defesa, atuando em três eixos estruturantes: a reorganização das Forças Armadas, a reestruturação da indústria brasileira de material de defesa e a política de composição dos efetivos das

14 13 Forças Armadas. A interoperabilidade nas operações conjuntas foi estabelecida como uma capacidade desejada para as Forças Armadas, quando da sua reestruturação, demonstrando a consolidação do entendimento ministerial quanto à necessidade de maior integração entre as Forças. Um importante desafio atual para as Forças Armadas é a consolidação da nova Doutrina de Operações Conjuntas (MD-30-M-01), aprovada pela Portaria Normativa nº do MD, de 8 de dezembro de 2011, que estabeleceu os fundamentos doutrinários para o planejamento, preparo e emprego das Forças em Operações Conjuntas, principalmente no tocante à logística conjunta no Teatro de Operações (TO). Conforme bem exposto naquele documento, os conflitos contemporâneos não admitem mais o emprego isolado de uma única Força em campanha, sendo que a união de esforços, com a combinação dos meios navais, terrestres e aéreos, constitui-se em indispensável catalisador para a obtenção do rendimento máximo das Forças. No seu prefácio, alerta que o planejamento de uma operação conjunta diferencia-se das demais pela heterogeneidade dos processos de emprego e pelas peculiaridades técnico-profissionais das Forças, ressaltando, desta forma, a relevância da coordenação e da integração das ações planejadas. Após alguns anos de estudos e de ativações em caráter experimental em operações conjuntas, nessa Doutrina, foi estabelecido, formalmente, o novo conceito de Comando Logístico do Teatro de Operações (CLTO), concebido com o propósito de promover a execução da logística conjunta de modo eficiente e otimizado nessas operações. Com a criação do CLTO, novos paradigmas terão que ser quebrados, a fim de permitir que as lições aprendidas no TO sirvam de subsídio para a revisão do planejamento estratégico, operacional e tático da Logística Militar em tempo de paz. As dificuldades enfrentadas por aquele Comando, inerentes à previsão e provisão de materiais e serviços de toda monta para as Forças Componentes em operações conjuntas, podem proporcionar a adequada retroalimentação para os tomadores de decisão no MD e nas Forças Singulares. Para a perfeita compreensão do valor desse assunto, o presente trabalho

15 14 apresentará um breve histórico da logística e seus aspectos militares, discorrerá sobre a importância da END, para a integração logística das Forças e avaliará a atual concepção conceitual do CLTO, instituída pelo MD na Doutrina de Operações Conjuntas, procurando apresentar oportunidades de melhoria, que maximizem o emprego eficiente, racional e judicioso dos recursos logísticos disponíveis pelas Forças Armadas nas operações conjuntas.

16 15 2 LOGÍSTICA Com a finalidade de proporcionar um adequado entendimento da importância do CLTO, a Logística será apresentada, nesta seção, abordando-se sua interessante origem histórica, seus aspectos atuais e aqueles específicos das atividades militares. 2.1 A ORIGEM DA LOGÍSTICA Logística. O quê significa esta palavra tão comumente encontrada no dia a dia das pessoas, que tem despertado muito interesse nos meios acadêmico e empresarial. Diuturnamente, ouve-se falar em Logística Nacional, logística de transporte, operador logístico, custos logísticos, etc. Qual, afinal, a origem dessa palavra? Segundo o Dicionário Michaelis, logística é um substantivo comum feminino, originário da palavra grega logistiké, pertencente à área de estudo militar, que significa ciência militar que trata do alojamento, equipamento e transporte de tropas, produção, distribuição, manutenção e transporte de material e de outras atividades não combatentes relacionadas. Essa definição é corroborada pelo Dicionário Houaiss, que conceitua essa palavra como organização teórica da disposição do transporte e do abastecimento de tropas em operações militares. Essa etimologia, desta forma, remete o leitor à época em que a logística estava relacionada tão somente às atividades do campo militar do extenso conhecimento humano. A primeira menção literária na história sobre logística é consignada ao Barão Antoine Henri Jomini, um importante teórico militar da primeira metade do século XIX, que, tendo participado das campanhas napoleônicas, escreveu o Sumário da Arte da Guerra em 1836, dividindo as operações militares em cinco grandes ramos: Estratégia, Grande Tática, Logística, Engenharia e Tática Menor. De acordo com Crocoft (1862), àquela época faltava às escolas de formação de militares manuais que provessem os necessários princípios básicos nessas áreas das campanhas terrestres. O aprendizado dos militares no século XIX era obtido, principalmente, por meio do convívio com seus chefes mais antigos, que lhes

17 16 transmitiam suas experiências e ensinamentos adquiridos nas guerras. O Sumário da Arte da Guerra de Jomini tinha como propósito preencher essa lacuna, disponibilizando um manual que transmitisse conhecimento teórico no campo militar de forma clara aos jovens oficiais. Em seu livro, esclarece que a palavra logística é originária do termo francês Major General des Logis, atribuído ao Oficial encarregado pela acomodação, orientação e preparação de tropas para o combate. Esse militar era responsável, em resumo, por quase tudo no campo das atividades militares, exceto o combate. que: No que diz respeito à Logística, Jomini (1836, p. 51, tradução nossa) ensina Logística é a arte dos exércitos em movimento. Compreende a ordem e os detalhes das marchas e acampamentos e do aquartelamento e abastecimento de tropas; [ ] compreende os meios e mecanismos que executam os planos estratégicos e táticos. A Estratégia decide onde atuar; A Logística traz as tropas até esse ponto; [...] 1. Coadunado com esse relevante raciocínio, conforme o pensamento da Escola Superior de Guerra (ESG) expresso em seu Manual Básico Volume II (2009, p. 79), a Logística fornece os meios necessários, que foram planejados e determinados pela Estratégia e que serão aplicados pela Tática. A capacidade logística de uma Força Armada é, portanto, o grau de competência que dispõe para desenvolver um conjunto de atitudes visando a prever e prover, na quantidade, qualidade e oportunidade, os recursos humanos, o material e os serviços necessários ao seu preparo e emprego. Sem a pretensão de esgotar as ilimitadas opções sobre o assunto, a Figura 1, a seguir, esquematiza resumidamente os recursos logísticos necessários para a conquista do pleno emprego das forças combatentes, cuja provisão deve ser equacionada em quantidade, qualidade, momento e local adequados, sob pena de não ser possível o cumprimento de sua missão. 1 Do original em inglês: Logistics is the art of moving armies. It comprises the order and details of marches and camps, and of quartering and supplying troops; [ ] comprises the means and arrangements which work out the plans of strategy and tactics. Strategy decides where to act; logistics brings the troops to this point; [...]

18 17 Figura 1: Recursos logísticos Fonte: O autor (2012) O estudo dos conflitos armados é repleto de exemplos, que evidenciam a influência cada vez maior da logística nos seus resultados. Exércitos e forças navais mal preparados aprenderam, nos mares e campos de batalha, que as necessidades de alimentos, munição, uniformes, transporte, serviços de saúde, reparos, dentre outras, vitais para o sucesso de suas empreitadas, não podem ser atendidas sem um perfeito diagnóstico prévio das possibilidades da Nação, de forma improvisada e sem planejamento adequado. Necessidades estas que tendem a crescer em volume e complexidade, à medida que as inovações tecnológicas disponibilizam novos recursos para as forças militares, que proporcionam vantagem competitiva aos seus detentores e logo se tornam imprescindíveis ao sucesso das batalhas. Como exemplo, pode-se citar o sistema de propulsão dos navios de guerra. Até a Revolução Industrial, em meados do século XVIII, as necessidades logísticas desses meios, para esse sistema, eram, basicamente, remadores, remos, velas e adriças, que, muito possivelmente, estavam disponíveis para reposição em

19 18 curtíssimo prazo em qualquer porto longe de sua base. Hoje, esse mesmo sistema necessita de especialistas em motores, combustíveis, lubrificantes, graxas, sobressalentes de máquinas e eletrônicos, ferramentas especiais, estopas, computadores, softwares, etc. cuja disponibilidade para obtenção pode demandar tempo demasiado longo, em face da distância onde se encontra a fonte do material ou do serviço necessário à prontidão operativa do meio. Um acontecimento histórico em que a logística influenciou diretamente os rumos da humanidade foi a Batalha de Salamina entre gregos e persas. Segundo o Livro Fatos da História Naval (1971, p. 18), em 480 a.c., um exército persa de cerca de 180 mil homens atravessou o estreito de Dardanelos, apoiado por uma força naval de aproximadamente navios, com a missão de conquistar a Península Helênica. No mais significativo confronto naval do mundo antigo, uma frota naval grega, em desvantagem numérica, derrotou a Armada Persa e conquistou, decisivamente, o domínio do mar. As monumentais forças terrestres persas lideradas por Xerxes, que já haviam derrotado o Rei Leônidas, transposto o desfiladeiro das Termópilas e alcançado a cidade de Atenas, tiveram suas indispensáveis linhas de reabastecimento pelo mar cortadas. O exército persa, que era bastante grande para a época e não podia encontrar todos os meios necessários ao seu sustento no território ocupado, dependia dos recursos trazidos de suas fontes de reabastecimento no Império Pérsia. Devido à impossibilidade de receber apoio logístico pelo mar e às longas distâncias terrestres para transporte dos seus recursos logísticos, que podem ser observadas no Mapa 1 a seguir apresentado, os persas viram-se obrigados a retirarse da Grécia. O triunfo grego no mar pôs fim às invasões persas e garantiu a segurança da maior democracia da história, graças ao problema logístico do inimigo.

20 19 Mapa 1: O mundo grego durante as guerras com a Pérsia Fonte: Wikipedia (2012) A importância da logística também pode ser exemplificada pelos acontecimentos históricos na frente oriental alemã contra os soviéticos na Segunda Guerra Mundial. Conforme Davies (2009, p. 117): A vitória de Jukov 2 nas proximidades de Moscou geralmente é atribuída ao inverno, à inconstância de propósitos de Hitler e aos sucessivos atrasos na implementação dos estágios finais da Barbarossa 3. Todavia, há outros fatores envolvidos. Um deles é a logística. O Exército Vermelho pôde recorrer a reservas desconhecidas de efetivos militares e possuía seis ferrovias pelas quais transportá-los. Os alemães tinham poucas reservas e somente uma estrada de ferro para enviar suprimentos ao fundamental setor central. No início do conflito entre esses dois países em 1941, a Alemanha estava muito melhor preparada militarmente para a campanha do que a União Soviética, tanto em material quanto em pessoal. Na fase inicial dos combates, chegou a invadir 2 O Marechal Jukov liderou o Exército Vermelho na expulsão dos alemães da União Soviética. Foi o Oficial-General mais condecorado da história daquele País. 3 Operação Barbarossa foi o codinome da operação militar alemã para invadir a União Soviética, iniciada em 22 de junho de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, rompendo assim com o Pacto Nazi-Soviético de não-agressão.

21 20 aproximadamente cerca de 5% do território soviético. Seu avanço somente foi interrompido graças à obstinação de Stalin em evitar a ocupação da cidade que levava seu nome e a capital do país, Moscou, sacrificando significativo contingente de soldados nessas frentes. Entretanto, toda a capacidade logística da União Soviética foi empregada, revelando ao seu inimigo sua dimensão praticamente inesgotável. Apesar de as perdas soviéticas em combate serem muito superiores às alemãs, a impressionante reposição de pessoal, tanques, aviões e armamento as compensou, superando largamente a capacidade logística de seu oponente, fator esse crucial para reversão de sua situação e alcance da vitória na guerra. Essa variável do problema militar, as incalculáveis possibilidades logísticas da União Soviética, certamente não foi levada em consideração por Hitler e seus estrategistas no seu planejamento de campanha, vaticinando sua derrota. 2.2 A LOGÍSTICA NA ATUALIDADE Ensinamentos adquiridos no campo militar, principalmente aqueles ligados à inovação, costumeiramente migram para o mundo empresarial onde encontram campo fértil para disseminação em função da lucratividade que proporcionam. Como não poderia deixar de ser, as lições aprendidas acerca da logística e de sua relação com o sucesso dos empreendimentos militares, foram absorvidas pelo mundo corporativo, sendo o conceito original de Jomini, paulatinamente, adaptado àquele metiê. Para uma visualização atualizada desse conceito, pode-se recorrer à definição de Logística atribuída pelo Council of Supply Chain Management Professionals (2010, não paginado): Logística é o processo de planejar, implementar e controlar de maneira eficiente o fluxo e a armazenagem de produtos, bem como os serviços e informações associados, cobrindo desde o ponto de origem até o ponto de consumo, com o objetivo de atender aos requisitos do consumidor. 4 4 Do original em inglês: The process of planning, implementing, and controlling procedures for the efficient and effective transportation and storage of goods including services, and related information from the point of origin to the point of consumption for the purpose of conforming to customer requirements.

22 21 Como pode ser observado, num ambiente empresarial altamente competitivo, o conceito de logística está diretamente ligado ao atendimento das necessidades das corporações, indispensáveis ao seu pleno funcionamento e atingimento dos seus objetivos. O foco no planejamento da armazenagem, circulação e distribuição de produtos tem como propósito a indispensável redução dos custos logísticos, maximização de eficiência e otimização da satisfação dos clientes. Segundo Videira (2008, p. 104), a Logística dos tempos modernos é o desafio que se impõe àqueles que estão compromissados com o sucesso dos negócios de suas empresas. O mesmo autor nos ensina que, no mundo moderno, o sucesso da logística carece do suporte da tecnologia. Cita como exemplos o uso da Identificação por Rádio Frequência 5, mais conhecida pela sua sigla em inglês RFID, para o gerenciamento de estoques; a Localização de Veículos Automática 6 para o controle de frotas; e a conteinerização para o transporte de produtos, em especial, aquela dotada de refrigeração, que introduziu possibilidades ilimitadas para o transporte transcontinental de produtos perecíveis. O conhecimento sobre logística adquiriu tamanha importância no Brasil, que diversos centros universitários criaram cursos de nível superior, com o propósito de capacitar profissionais para atuarem como catalisadores da melhoria dos níveis de qualidade, produtividade e competitividade de suas organizações. Farto é o campo de atuação de profissionais formados nessa área, em face da capilaridade com que a logística se espraia em todos os setores da economia. Nesse diapasão, há que ser ressaltada a necessidade de um adequado gerenciamento de toda a cadeia de suprimentos de uma empresa. A título de ilustração, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) oferece um MBA em Logística e Supply Chain Management, cujo objetivo é o desenvolvimento de competências estratégicas e operacionais relacionadas à logística e à gestão da cadeia de suprimento, dentro de uma visão voltada para a eficiência e a eficácia. Segundo a FGV (2012, não paginado): A gestão da cadeia de suprimento (supply chain management) é a aplicação mais avançada dos recursos da moderna logística. Trata-se de uma ação 5 Do original em inglês: Radio Frequency Identification (RFID) 6 Do original em inglês: Automatic Vehicle Location (AVL)

23 22 que busca otimizar os elos de uma cadeia produtiva de bens ou de serviços de modo a alcançar o cliente final com produtos de menor custo e maior qualidade e, sempre que possível, sustentáveis. Aquela Fundação esclarece, também, que, no ambiente da economia globalizada e sob o impacto da crise financeira internacional, a gestão das cadeias de suprimentos pode contribuir para a neutralização dos efeitos negativos e conjunturais da recessão econômica. Além disto, voltada para a redução dos impactos ambientais e para mitigação dos seus efeitos, é fator de grande significância para o alcance do desenvolvimento econômico sustentável. Em tempos de generalizada preocupação com essa seara, nota-se a tendência a ser transportada para a esfera de atuação da Logística a necessidade de observância de modernos métodos de preservação ambiental, sendo este um fator diferencial para o sucesso dos futuros empreendimentos. 2.3 A LOGÍSTICA MILITAR Para a compreensão das possibilidades de integração logística entre as Forças, pressuposto básico onde se contextualiza o CLTO, é necessário serem conhecidos, primeiramente, os aspectos específicos da Logística Militar. A Logística Militar consiste no conjunto de atividades relativas à previsão e à provisão dos recursos e dos serviços necessários à execução das missões das Forças Armadas. Os conceitos básicos acerca dessas atividades estão normatizados na Doutrina de Logística Militar, documento de alto nível do MD, emitido em outubro de 2002, que serve de base para o planejamento e a execução das atividades logísticas das Forças. Esse documento agrupa as atividades logísticas em conjuntos de atividades afins, correlatas ou de mesma natureza, denominadas Funções Logísticas, quais sejam: Recursos Humanos, Saúde, Suprimento, Manutenção, Transporte, Engenharia e Salvamento. Essas funções logísticas recebem tratamento específico em cada Força, que se organiza administrativamente em tempo de paz, com estrutura organizacional e procedimentos próprios, da forma que melhor atenda suas peculiaridades. Não há padronização sob esse aspecto. As Forças devem se estruturar per se, de modo estarem capacitadas para apoiar logisticamente suas próprias tropas em operações.

24 23 As organizações militares de uma Força Singular, existente desde o tempo de paz ou ativada em operações, dotada de pessoal, equipamentos e outros meios especializados, apta para executar atividades e tarefas de uma ou mais funções logísticas é denominada, na Doutrina de Operações Conjuntas, como Organização Militar Logística Singular (OMLS) (Volume I, p. 49). A execução das Funções Logísticas é dividida, na Doutrina de Logística Militar, nas seguintes fases: determinação das necessidades; obtenção; distribuição; acrescidas de determinação das capacidades logísticas e reversão nas operações conjuntas pela Doutrina de Operações Conjuntas (Volume I, p. 48). Em que pese a interdependência de todas as Funções Logísticas para o sucesso de uma operação, seja isolada ou conjunta, uma das que se vislumbram com a maior possibilidade de integração entre as Forças é a Função Logística Suprimento, em face da possibilidade de essa integração poder ser amadurecida sistemicamente pelo MD em tempo de paz, independentemente da realização de adestramentos operacionais. Conforme a finalidade de emprego, os itens de suprimento são agrupados em classes. Essas classes são definidas pela Doutrina de Logística Militar como: Classe I - Material de Subsistência; Classe II - Material de Intendência; Classe III - Combustíveis e Lubrificantes; Classe IV - Material de Construção; Classe V - Armamento e Munição; Classe VI - Material de Engenharia e de Cartografia; Classe VII - Material de Comunicações, Eletrônica e de Informática; Classe VIII - Material de Saúde; Classe IX - Material Naval, de Motomecanização e de Aviação; e Classe X - Materiais não incluídos nas demais classes. A Função Logística Suprimento é mais conhecida, no âmbito da MB, como Abastecimento. Tendo em vista as peculiaridades daquela Força, onde seus meios devem apresentar como característica fundamental a mobilidade pelos mares e oceanos do planeta, a logística dos itens de suprimento é vital para a operação dos navios, especialmente, quando afastados de suas bases. A falta de um sobressalente de eletrônica para um radar, por exemplo, pode

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