Cn3 Livraria Cn3, Duas Cidades

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1 O Banquete Mario de Andrade Cn3 Livraria Cn3, Duas Cidades

2 E q u ip e de realização: P ro jeto g ráfico de L úcio G. M achado e E d uardo J. Rodrigues Assessoria e d ito rial de M ara Valles Revisão de H erb ene M a ttio li e V aléria C. Salles T odos os d ire ito s reservados por L ivraria Duas Cidades L td a. R ua B ento F reitas, São Paulo \ C IP -B ras il. C atalo g ação-n a»^onte C âm ara Brasileira do L iv ro, SP A n d ra d e, M á rio de, A b O b an q u e te. São P aulo, Duas C idades, M úsica Brasil 2. M úsica F ilo so fia e estética I. T ít u lo C D D índices para catálogo sistem ático: 1. Brasil : M úsica Estética musical M úsica : Estética e filo so fia

3 S U M Á R IO S obre O B a n q u e te... 9 C a p ítu lo I A b e r tu r a C a p ítu lo II E n c o n tro no P a r q u e C a p ítu lo III J a rd im de In v e r n o C a p ítu lo IV O A p e ritiv o C a p ítu lo V V a t a p á C a p ítu lo V I S a la d a C a p ítu lo V II D oce de C oco F r u ta s C a p ítu lo V I I I O Passeio em Pássaros C a p ítu lo IX Café P e q u e n o C a p ítu lo X As Despedidas N o t u r n o

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5 D evem os a G ild a de M e llo e Souza a sugestão de p u b lic a r esta im p o rta n te re fle x ã o estética in fe liz m e n te inacabada de M á rio de A n d ra d e, até hoje p ra tic a m e n te in é d ita. Os E d ito re s

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7 Sobre O Banquete

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9 " P a r tir eu p a rto... Mas essa m úsica é m e n tira. Mas p a rtir eu p a rto. Mas eu não sei o n d e v o u. M. de A n d ra d e L ira P aulista na S itu a çã o d '0 B a nquete Em m a io dév ^ á rio de A n d ra d e com eça a escrever cró n ica s m usicais natto/ha da M a n h ã : te x to s h e b d o m a d á rio s que vão aparecendo re g u la rm e n te às q u in ta s -fe ira s sob o títu lo de M u n d o M u s ic a l", até a m o rte d o a u to r, em M á rio a d v e rie desde o p rim e iro a rtig o : não se tra ta de c rític a p ro fis s io n a l, ligada aos a c o n te c im e n to s e m a n ifesta çõ es co n te m p o râ n e o s e loca is; não se tra ta de c o m e n tá rio s sobre a vida m usical p a u lista n a. E s tru tu ra m u ito m ais liv re, o M u n d o M u s ic a l" p e rm itiu a a pariçã o dos m ais diversos te x to s : abordagem de fe n ó m e n o s ou p ro ble m a s gerais ( " D o te a tro c a n ta d o ", "P s ic o lo g ia da c ria ç ã o " e tc.); estudos ou refle xões sobre aspectos e s p e c ífic o s ("C la u d e D e b u s s y ", "P elléas et M é lis a n d e ", " S c a r la tti" e tc.); sobre o fo lc lo re ("C a n ta d o r", "D a n ç a s d ra m á tic a s " e tc.); e m esm o p o r vezes e xcedendo ao d o m ín io p ro p ria m e n te m u sical, c o m o em " A r t e in g lesa ", n o tá vel panoram a que releva a im p o rtâ n c ia da In g la te rra não so m ente no d o m ín io da m úsica, mas das artes plásticas, a rq u ite tu ra e cinem a. A n u n c ie m o s logo q ue, na m a io r p a rte dos casos, tais te x to s não são estudos assépticos, afastados da co n ta m in a ç ã o c o n te m p o râ n e a. A pesar de não se lançar nos p ro b le m a s de c o n c re ta e p ró x im a a tu a lid a d e m usical, M á rio liga fre q u e n te m e n te suas re fle x õ e s sobre o passado, sobre as a tivid ades estrangeiras, o u sobre o fo lc lo re, à situ açã o precisa da cria ção m usical b ra sile ira, aos p ro b le m a s de in fra -e s tru tu ra (ensin o, pesquisa), à e volu çã o dos a c o n te c im e n to s d o seu te m p o. O " M u n d o M u s ic a l", em p rin c íp io tra ta n d o de assuntos d ista n te s da re a lid a d e im e d ia ta de m úsica e arte, é p o r essa razão m esm a um m e io c ó m o d o de situ a r questões a tuais im p o rta n te s, de d is c u tir c a m in h o s, de castigar erros. A lg u n s desses te x to s são longos dem ais para serem tra ta d o s num a ú nica p u b lic a ç ã o : p o r essa razão M á rio instaura séries que p o r vezes são in te rro m p id a s p o r o u tro s te x to s, para serem reto m a d a s m ais a d ia n te : " C a n ta d o r ", " A r t e in g lesa " etc.

10 O B a n q u e te está neste caso e é m esm o a m ais longa série. Ele d ife re sensivelm ente dos o u tro s te x to s p o r seu caráter de fic ç ã o : um " d iá lo g o " e n tre c in c o - personagens im aginárias d u ra n te um ja n ta r, c o n c e b id o em dez c a p ítu lo s que não raro serão fra g m e n ta d o s, de m o d o a se a d a p ta r à publica ção sem anal. O p la no e sta b ele cid o p o r M á rio data de fe v e re iro de 1 944, e a p rim e ira p u b lic a ç ã o de 4 de m aio do m esm o a n o : um p ro je to que se destinava seguram ente à p u b lica ção em v o lu m e, c o m o " A r t e ing le sa " te x to aliás bem m enos a m b ic io s o, q ue aparecera em liv ro d u ra n te a vida de M á rio, fa zendo p a rte do B a ile das q u a tro a rtes. In fe liz m e n te, q u a n d o sobrevêm a m o rte d o a u to r em 1 945, o p ro je to está inacabado, in te rro m p id o na p rim e ira p a rte do c a p ítu lo sexto "S a la d a ", p u b lic a d o em , vigésim o te rc e iro "e p is ó d io ". É este fra g m e n to q ue dam os h oje ao le ito r que se convencerá co m o nós, estam os certo s, de seu interesse e im p o rtâ n c ia. Ele p e rm ite um a com pre ensão m ais aguda d o p ensam e n to de M á rio, e ainda pro voca e a u x ilia a re fle x ã o sobre p ro b le m a s da m úsica, da a rte e da cria çã o na sociedade b ra sile ira. P o r q ue "B a n q u e te? T o m a n d o este t í t u lo e d a n d o à o bra a fo rm a de um d iá lo g o e s té tic o -filo s ó fic o, M á rio de A n d ra d e nos rem ete ao e vidente m o d e lo p la tó n ic o. À questão q ue se im p õ e im e d ia ta m e n te ao e s p írito qual é a d ív id a d o te x to que te m o s em mãos para co m a sua re fe rência clássica?, podem os responder que as ligações são lo n g ín q u a s e gerais, onde fic a m d ifíc e is as separações e n tre as (raras) c o in cid ê n cia s e as derivações. Podem os c o n s ta ta r a sem elhança da situ ação g lo bal um ja n ta r lu x u o s o o n d e os convivas d is c o rre m sobre um assunto preciso, num caso o a m o r, no o u tro a m úsica. Mas M á rio não se d e ixa de m o d o a lg u m levar p o r o u tra s in flu ê n c ia s m ais d e te rm in a n te s o u p ró x im a s, q ue tra n s fo rm a ria m seu te x to num p a stich o a tu a liz a d o, ainda que som e nte in s p ira d o pela org anização fo rm a l. E m lugar de corre sp ondência s precisas, podem os evocar um a espécie de sem elhança de ca rá te r: o d is c o rre r flu e n te e fa m ilia r da narração p la tó n ic a m arca-nos pela sua fle x ib ilid a d e, pela sua iro n ia e p elo seu fra n c o h u m o r: assim o prazer de im ita r os discursas das personagens co nte m p o râ ne as c o m o M á rio im ita rá a fa la d o p o lític o ou a s o fistica çã o da g rã -fin a ou

11 traços irre sistíveis c o m o o soluço de A ris tó fa n e s o u a entrada tem pestuosa de A lc ib ía d e s. Mas se essa e scritu ra d 'O B a n q u e te evocada é um caso um p o u c o especial na o bra p la tó n ic a, ao c o n trá rio a flu ê n c ia e h u m o r são um a das ca ra cte rística s im p o rta n te s que se e n c o n tra m na m a io r parte dos te x to s de M á rio, m esm o q u a n d o tra ta de p ro ble m a s co m p le x o s e árduos. E, além disso, num a o u tra d ire ç ã o, O B a n q u e te p a u lista n o é m u ito m enos risos e à v o n ta d e que seu m o d e lo clássico e q ue os escritos h a b itu a is de M á rio. U m c lim a c o n tín u o de m al-estar e angústia, p o r vezes inte n síssim o, e nvolve os risos e as com idas é que o a u to r se a tira p ro fu n d a m e n te n a q u ilo que fa z suas personagens d ize re m, lançando p ro b le m a s para ele essenciais e para os quais não vê resposta concreta algum a. Mas não a nte cip e m o s. S o b re P latão ainda nos resta d ize r a sem elhança acusada e n tre a ju v e n tu d e, a "g raça do c o rp o n o v o " no d iz e r de M á rio, o e stabanam e nto, a im p e tu o sid a d e a d m ira tiv a e entu siástica (e ao m esm o te m p o d is ta n te ) que e xiste e n tre A lc ib ía d e s e Pastor F id o. E resta-nos ta m b é m le m b ra r o p ro b le m a da m úsica grega. Uma das preocupações fre q u e n te s de M á rio são os e fe ito s p s ic o fis io ló g ic o s da m úsica e a sua in te rvenção, seu papel m u ito a tiv o na sociedade co n te m p o râ n e a : estão ligados a esses problem as a discussão sobre as dissonâncias e o inacabado nas artes (O B a n q u ete págs. 6 2 e 63) e a evocação dos " e th o s " m usical grego: " o c ro m a tis m o na G récia era só p e rm itid o aos g ra n fin o s da v irtu o s id a d e, in c u lc a d o de sensual e d isso lvente, p ro ib id o aos m oços, aos soldados, aos fo rte s ". Esta ú ltim a questão já a tra íra basta nte M á rio, à qual dedica páginas im p o rta n te s na Pequena h is tó ria da m úsica. Nesse c a m in h o, a le itu ra de P latão deve te r-lh e fo rço sam e n te interessado, mas m u ito m ais o liv ro II das L e is ou o liv ro III da R e p ú b lica que o B a n q u e te, cuja ú nica m agra refe rência m usical é a passagem rápid a que se e n c o n tra no d iscu rso de E rix ím a c o. E essa passagem p oderia ser s ig n ific a tiv a co m relação ao estado de in q u ie tu d e, de espera, ao s e n tim e n to de inacabado d in â m ic o e fe c u n d o que M á rio a firm a ser c a ra c te rís tic o da dissonância, pois E rix ím a c o d iz de m o d o o p o s to, que a a rte m usical é a c o n c ilia ç ã o de sons disco rd a nte s pelo a corde, o que p ro d u z a co nso n â n cia, c ria n d o um estado de "a m o r e c o n c ó rd ia ".1 Mas to d a essa a b c, p a 121 da tra d u ç ã o do p ro f. J. C a v a lcan te de S o u za, São P aulo, D ifu s ã o E u ro p é ia do L iv ro,

12 ginástica é in ú til: a idéia de M ário dissonância = inq uie tud e corre as teorias clássicas da música. Para darm os um exem plo, citem os o velho e conhecido manual de Danhauser, de 1872: "L e s intervales dissonants (...) sont ceux qui fo rm e n t entre eux deux sons que Toreille éprouve le besoin de m o d ifie r, en les rem plaçant par d'autres sons; la dissonance donne une im pression d 'in s ta b ilité, les sons ayant une tendence à se dissocier pour a b o u tir à une consonance".2 Deste m odo, O Banquete de Platão se revela com o um padrinho de pouca ou nenhum a influ ência, e o te x to de M ário se insere antes numa linhagem de diálogos filo só ficos, fo rm a que desde o filó s o fo ateniense pontua a h istória das idéias. D iálogo, fo rm a adequada Pontuação discreta, porém. E lem ento essencial da filo s o fia platónica (não há, no F e d ro, o elogio da palavra ora l, viva, e a c rític a da fixação escrita?), a form a dialogada, na sua h istória, acomodar-se-á em funções menores: facilita ção pedagógica (já Santo A gostin h o a u tiliz a com o m eio apropriado de ensino, com o em De m usica, onde as personagens se reduzem significativam ente a Mestre e D iscípulo) ou exposições de argum entação, ocasionais e secundárias, com o os diálogos de Berkeley ou Leibniz. Nos dois casos, e ntre tan to, ela depende de um corp o filo s ó fic o já solidam ente estabelecido, e no fu n d o a form a do diálogo não é senão um m eio... fo rm a l. E que justam ente reaparecerá, vívida e necessária, num pensamento que se ajeita mal com tratados, que faz apelo continuam e nte à experiência para se alim enta r, que não gosta de falar abstratam ente e co n stru ir sistemas áridos: será o m eio de expressão de D id e ro t, por excelência, por vezes mesmo se d istin guin d o pouco do te x to de te atro. Na música, a form a dialogada possui um grande m o m e n to : os escritos de Schum ann. Ele a havia inaugurado com um célebre artigo sobre C hopin, onde intervinham q ua tro personagens, Florestan, arrojado e rfnpetuoso, Eusebius, m elancólico e c o n te m p la tivo, Mestre R aro, espécie de 2 T h é o rie de ta M u s iq u e, Paris, ed. de , p Esse'problem a vem já m encionado em "T erap êu tica M usical'' (in N a m o ro s co m a M e d ic in a, Porto A legre, L ivr. G lo b o, , p. 4 8 ).

13 m ediador cheio de sabedoria, e o narrador, que escreve na prim eira pessoa. Logo Schum ann fundará sua própria revista, onde essas personagens assinarão artigos ou conversarão sobre os mais diferentes problem as musicais, dirigindo-se contra as atitudes estreitas e demagógicas da c rftic a do te m p o, de intérpretes, da falsa arte, dos m odism os estrangeiros (carregando consigo o sonho da criação de uma ópera alemã; in tro d u z in d o com o proporá tam bém M ário a substituição dos term os expressivos italianos allegro, cantabile etc. por outros nacionais) e exaltando a criação verdadeira, honesta consigo mesma e sempre à procura de um auto-ultrapassam ento. No enta nto, Florestan, E u s e b iu s e Raro não são apenas m arionetes postiças que intrigam os leitores e que fa c ilita m os debates; ao co n trá rio, são personificações de aspectos opostos do e spírito do a u to r, das contradições de seu tem peram ento, de suas diferentes facetas d iante de problem as que está longe de perceber com a frieza do profissional e que antes tom am profundam ente seu ser. Por vezes m esmo, sua p rópria produção musical será assinada por Eusebius ou p o r Florestan. Se O Banquete de M ário não tem nenhum a pretensão em cria r uma filo s o fia através do seu desenvolvim ento dia lético, com o em Platão, ou se o diálogo não tem para ele uma função essencialmente pedagógica ou expositiva, ele se m ostra, com o em D id e ro t, um m eio p e rfe ito de expressão para seu pensam ento pragm ático, co n cre to : se Le rêve de d 'A /e m b e rt é quase te atro, O Banquete é quase um conto filo s ó fic o. É uma form a que possui com o em Schum ann de m odo privilegia do, um poder adaptativo aos co nto rn o s do real, uma incisiva m aneira de com bater, de d is c u tir problem as vibrantes da atualidade e ao mesmo tem po de cria r contradições d e n tro do p ró p rio discurso, de não provocar polém icas diretas, lu tando por inte rm é dio das suas personagens, lançando-se de m odo mais p ro fu n d o na fala desses fantasmas, e neles te ntando isolar as facetas de seu p ró p rio e spírito. Na sua m obilidade e na m u ltip lic id a d e das suas vozes, a escritura dialogada p erm ite as ambivalências. Um te x to sem constrangim ento Um dos papéis essenciais do "M u n d o M u sical" e d 'O Banquete é o seu caráter de orientação c rític a. A im portância que a inteligência, os conhecim entos e a personalidade de M á rio de A ndrade tiveram no desenvolver

14 das artes brasileiras fo i imensa e é desnecessário lem brar o que a nossa criação artística lhe deve. E scrito por uma personalidade altam ente prestigiosa, veiculado pelo jo rn a l, logo por uma publicação não especializada, acessível e de grande penetração, a função pedagógica d 'O Banquete devia realm ente ter um alcance considerável. E pela sua natureza e co n te x to, as polém icas levantadas, a virulência do e stilo, o ardor das defesas, sempre ligadas às reflexões es.téticas mais gerais, têm esse sabor de vida que e fetivam e nte!a ta xiderm ia universitária, mais rigorosa, segura, ou o que quer que se queira, não possui. Já vim os que n '0 Banquete a form a dialogada é um m eio que pela sua fle xib ilid a d e pode e x p rim ir o tim a m e n te um pensam ento que seguiu pelos trancos e barrancos do co ncreto e que não se fecha num cristal sem contradições. Ora, ao caráter jo rn a lís tic o e pragm ático se associam projeções c o n flitu a is interiores do a u to r, que confu ndem a clareza dos desenvolvim entos, a precisão das intenções. Pois especialmente neste diálogo, M ário decide não dissertar, mas lançar-se com suas ambiguidades. O que acarreta forçosam ente uma perturbação da pedagogia e das idéias que poderiam vir claras. Mas elas não são claras, e no m om ento em que escreve, M ário está se questionando, p or vezes inseguro. N '0 Banquete não pretende colocar apenas um program a e x p líc ito ou uma direção operatória im ediata. A o c o n trá rio, seu te x to nasce de suas contradições. E as d ificuldades de leitu ra começam. M ário vai te ntar exprim ir-se sem os freios do rig or e, por vezes, sem mesmo os freios da coerência. Para isso prepara o terreno escudando-se por trás de suas personagens, sobre as quais recaem as responsabilidades, e cujo com p o rta m e nto ou caráter explicam ou desculpam o descosido. E por eles o a uto r pode descarregar seu coração. Logo de in íc io, esse jogo de reenvios anuncia as cores de sua am biguidade com a nota iró nica: "O h meus amigos, si lhes dou este relato fie l de tu do quanto sucedeu e se falou naquela tarde boa, boa e triste, não acreditem não, que qualquer semelhança destes personagens, tão nossos conhecidos, com qualquer pessoa do m undo dos vivos e dos m ortos, não seja mais que pura coincidência ocasional. E é tam bém certo, certíssim o, que ao menos desta vez, eu não poderei me responsabilizar pelas idéias expostas aqui. Não me pertencem, em bora eu sustente e proclam e a responsabilidade dos autores, nesse m undo de

15 ambiciosas reportagens estéticas, vulgarm ente cham ado Belas A rte s ". (O B anquete, p. 45). Responsabilidade delegada, mas o sentido é intencionalm ente co n fu n d id o pela iro n ia : "p u ra coincidência ocasional", nestes "personagens tão nossos co nhecidos", e o caráter sib ilin o da ú ltim a frase. Em m om entos mais agudos, to m ado pela dinâm ica de seu discurso, M ário insiste na im precisão dos enunciados: É m u ito vago, Janjão. É m u ito vago. Pastor F ido é..." (O Banquete, p. 133). No 5? ca p ítu lo espanta-se: "M as é incrível com o os meus personagens já estão agindo sem a m inha interferê ncia: não consigo conter mais eles" (O Banquete, p. 122). N um te x to de pura ficção, novela ou rom ance, observações assim teriam sem problem a seu lugar. Elas seriam aí apenas inform ações sobre as personagens, enquanto que n '0 B anquete, te x to de pensador, elas são alertas sobre as idéias que se expõe. Tais precauções, mais as facilidades que lhe perm item o to m de conversa de salão, brilha nte, bem educada e bem hum orada (hum or cuja flo r absoluta é a declaração p erem ptória e inesquecível do Pastor F id o : "M o z a rt é o V icente Celestino do Século D e z o ito!"), todos esses elem entos perm item tiradas e reflexões desvairadas, com o a argum entação em favor da influência francesa (O B anquete, págs. 108 e 109) ou as referências desairosas à m usicalidade germânica: "E a cu ltura musical germânica é quadrada por demais profundam ente estúpida os com positores alemães são os mais burros do m undo só Haendel e Beethoven escapam disso! (...) Os professores m usicalm ente germanizados (...) não têm a m enor capacidade pra entender a música dos outros países, e m u ito menos a d ifíc il rítm ic a nacional. Tocam quadrado. Tocam burram ente, com uma estupidez que chega ao an g é lico" (O Banquete, p. 109). E saltamos o trecho onde B ruckner e M ahler (com parados a Jadassohns!) aparecem com o "fo rm id á ve is técnicos da música e da estupidez h u m ana!". Mas o auge do d e lírio encontra-se seguramente na constatação que Bach, "tip ic a m e n te nas peças de ó rg ã o ", dem onstra a tristeza pós-coito, "aquela psicologia do 'anim al tris te ', dos excessos sexuais"! (O Banquete, p. 136). Mas M ário, no seu p ró p rio

16 te x to, pisca-nos o o lh o, c ria n d o a indignação do p o lític o F e lix de C im a : "A q u e le je ito de tra ta re m M o z a rt, Bach génios respeitados!... E n tã o c o m o é que esses levianos haviam de tra ta r Deus, P átria, F a m ília e o G o v e rn o!" (O B a nquete, p. 101). R e viravo ltas ta m b é m são fre q u e n te s: um a personagem parece ir m u ito bem no seu ra c io c ín io, q u a n d o um o u tro in te rv é m, e as idéias dão guinadas, m u d a m de cu rso, v o lta m atrás o u se co rrig e m. M uitas vezes o pensam ento de um a personagem se esclarece, to m a um a nova dim ensão co m as a firm a çõ es d o s 'o u tro s : as reações m útu as engendram novas direções. E é essa situação mesma que p e rm ite ta m b é m divagações b rilh a n te s, e ntre o u tra s a te o ria sobre a b a tid a, a n u nciada p o r F e lix de C im a, e so b re tu d o a página su b lim e q ue estabelece a ligação e n tre o e spo rte e a m o rte. E n tre ta n to, as astúcias que lib e ra m o e s c rito r c o m p lic a m sem d ú v id a a co m pre en são d o le ito r. P orque, se d e ix a rm o s as regras d o jogo a m b íg u o de lado e p erg u n ta rm o s o nd e e n c o n tra r o p en sam en to do a u to r, a resposta não é sim ples. Para te rm o s um a idéia da e s tru tu ra, p o r vezes d ia b ó lic a, onde M á rio se d iv e rte co m espelhos q ue se re fle te m, to m e m o s um e x e m p lo preciso em seu e nca deam ento. M á rio de A n d ra d e escreve n um rodapé da F o lh a de São P a ulo, onde e xpõe suas idéias. Nesse rodapé cria um d iá lo g o, O B a nq u ete, o n d e elas serão e x p rim id a s e d iscu tid a s p o r personagens. Um a dessas personagens, Sarah L ig h t, te m algum as idéias sobre a estética, que d e sco b rim o s serem notas tom adas pela personagem num curso dado p or... M á rio de A n d ra d e em ! E c o n sid e ra n d o que Sarah L ig h t é um a personagem que, à p rim e ira vista, d ific ilm e n te seria um p o rta -vo z a u to riz a d o d o a u to r, o le ito r só pod e co n sta ta r que se d e ix o u am a rrar c o m o um salame. N u m a te n ta tiv a de situ ar-n o s nesse la b irin to, e x p e rim e n te m o s e ntã o p ro ced er escolarm ente, e x a m in a n d o um a a um a, as personagens do te x to. Sarah L ig h t N o p rim e iro c a p ítu lo, " A s aprese ntaçõ es", M á rio situa as três personagens "d o n o s da v id a ", representantes ou in s tru m e n to s da classe d o m in a n te. Na base está Sarah L ig h t, a m ilio n á ria, " p lu to c r a ta ", co m o ele a d e fin e, que o fere ce o banquete. Sarah L ig h t é "is ra e lita irre d u tív e l", nascida em N ova Io rq u e e co m isso M á rio caracteriza ao m esm o te m p o

17 o c a p ita lis m o in te rn a c io n a l e a ausência de raízes Sarah L ig h t é um p o u c o o ju d e u e rra n te sem p á tria, adaptando-se c o m o p od e às c u ltu ra s o n d e vive. Seu p ra to p o r excelência é a "sa lad a a m e ric a n a ", fa scin a n te, tra iç o e ira, mas "se m c h e iro " sem u m c h e iro q ue a d e fin a c u ltu ra lm e n te. Porém, estas co rre sp o n d ê n cia s m ais gerais, que s itu a m a personagem quase c o m o um s ím b o lo, não são tã o sim ples assim. Por e x e m p lo, e m p re g a n d o o m esm o a d je tiv o " ir r e d u tív e l", associa os ju d e u s à c u ltu ra g e rm â n ica : "É p ândego: os m ais perigosos são ju s ta m e n te os professores sem p á tria, os israelistas. N unca fu i co n tra os jud eus, Deus me liv re! Mas não sei si é p o r virem dum a c u ltu ra m u ito irre d u tív e l, pois são quase to d o s das partes ce n tra is da E u ro p a, e q u a n d o não germ ânicos de te rra de nascença, são p ro fu n d a m e n te g e rm a n iza d o s" (O B a n q u e te, p. 1 09). T am b é m e n c o n tra m o s na p : "a m ilio n á ria fe rid a naquele m eigo p a trio tis m o irre d u tív e l que faz a gente a m a r pra sem pre a te rra em que nasce u". Pois Sarah é ta m b é m um a c a ric a tu ra dos estrangeiros q ue ignora ram o u c o m b a te ra m o m o v im e n to m o d e rn is ta. Na c o n fe rê n c ia que te m e x a ta m e n te esse títu lo "M o v im e n to m o d e rn is ta ", de ,3 M á rio lem bra co m g ra tid ã o da a ris to c ra c ia tra d ic io n a l, a u te n tic a m e n te b ra sile ira, que deu a "m ã o fo r t e " aos jovens. D. O lív ia G uedes P enteado é a a n títe s e de Sarah L ig h t, s ím b o lo (ainda) dos "a ris tô s d o d in h e iro " que "n o s o diava m no p rin c íp io e sem pre nos o lh a ra m com d e sco n fia n ça. N e n h u m salão de ricaços tiv e m o s, nen hu m m ilio n á rio e stra ngeiro nos a colheu. Os ita lia n o s, alem ães, os israelistas se fa zia m dem ais guardadores d o b om senso n a cio n a l q ue Prados, P enteados e A m a ra is...". E n fim, o p o u c o que sabem os de Sarah nos a u x ilia a c o m p re e n d e r que seu interesse pela m úsica passe p e lo desejo fís ic o de Ja njão. É p o r causa dele que, co m seu d in h e iro, pod e c o n s titu ir um a d isco te ca "c o lo s s a l", m a io r d o m u n d o (am ericanam e n te, c o m o a salada, ta m b é m " m a io r d o m u n d o "). D o m esm o m o d o que para o p o lític o e a v irtu o s e, o interesse que dá à m úsica é desonesta c a m u fla g e m : assim na página n A s p e c to s d a lite r a tu r a b ra s ile ira, Sao P au lo, M a rtin s e d., p e

18 n o tá vel em que M á rio traça um p a ra le lo e n tre as m úsicas que ela ouve e as e xperiê ncia s refinadas de sua " t o ile t t e " (O B a n q u e te, p. 7 3 ). A liá s, o tem a da relação e n tre os diversos géneros da m úsica e c o m p o rta m e n to s h u m a n os é ca ro a M á rio desde "T e ra p ê u tic a m u s ic a l", o n d e o p ro b le m a aparece ligado a c o m p o rta m e n to s c o le tiv o s e não in d iv id u a is, tra ta d o de m aneira c e rta m e n te m en os re fin a d a, mas no m esm o e s p írito. Tal tip o de c o n ta to co m a m úsica, segundo M á rio, escapa ao d o m ín io da A rte, co m m aiúscula. A m úsica " f u n c io n a l" está fo ra dos prazeres p u ro s e p ro fu n d o s, p ro d u z id o s pela m úsica pura e p ro fu n d a, "e s té tic a ", desligada do q u o tid ia n o e sacralizada n um m o m e n to d e fin id o. D e p ois de te r e stabele cid o um program a de rá d io que acom panhasse, da m anhã à n o ite as fu n çõ e s hum anas (p. 55 e 5 6 ), M á rio c o n c lu i "T e ra p ê u tic a m u s ic a l" le m b ra n d o : "É que estou p re ssentindo a o b je çã o de to d o s : mas nesse caso não haverá m ais lugar para c o n c e rto s!... Haverá sem pre c o n c e rto s e horas serão ta m b é m dete rm in a d a s para que to d o s escutem u m M o z a rt, um S c a rla tti, um W agner, um H e n riq u e O sw a ld. Mas isso é d o m ín io da estética e não desta n o tíc ia em q ue tiv e a audácia im p e rd o á vel de n a m o ra r co m a m e d ic in a..." (p. 5 6). A ssim Sarah L ig h t tra n s fo rm a m úsica " a r tís tic a " (R arneau, Bach etc.) em m úsica " fu n c io n a l", c o m o má o u v in te, que se in c o m o d a p o u co co m a a rte. E o interesse s u p e rfic ia l que consagra à m úsica fá-la in te rv ir p o u c o nas discussões te ó ric a s : seu papel resume-se fre q u e n te m e n te em c o lo c a r questões sim ples que o u tro s desenvolverão. A ssim ela vai buscar a idéia q ue a "e s té tic a fa z p a rte da p ró p ria té c n ic a " ou o e x e m p lo de S eurat que ilu s tra a q u ilo que M á rio cham a " o d in a m is m o das com o ções e s té tic a s " (O B a n q u e te, págs. 77 e 8 6 ), tira d o d o curso q ue o p ró p rio M á rio fiz e ra no C olé gio des O iseaux. C om c o n h e c im e n to s de " c u ltu r a g e ra l", fo rn e c id o s p o r um co lé g io g rã -fin o, a boa repre senta n te desses "a ris tô s do d in h e iro ", o d ia d os pelo a u to r, Sarah nem sabe que M á rio de A n d ra d e escreveu M a c u n a ím a. Ela d e fe n d e rá a a rte c o m o p riv ilé g io de classe, e nisso terá o a p o io d o p o lític o (O B a n q u e te, p. 9 2 ). E e n contra-se c o m p ro m e tid a e com p ro m issa d a co m ele ta m b é m, na c rític a fa ls ific a d a ao p od er, na p seudo-oposição ao gove rno (O B a n q u e te, págs e ). O a u to r esm iúça, além desses, o u tro s m ecanism os seus, conscientes ou in c o n s c ie n te s : os "d u e lo s " de beleza e fascinaçãç c o m a c a n to ra, as flu tu a ç õ e s de seu a m o r, cujas

19 inclinações passam de Janjão a Pastor F id o, seus s e n tim e n to s e ró tic o s m esm o, em relação aos três hom ens presentes. E inesperadam ente d esco brim o s que Sarah é "u m a grande m u lh e r, m enos s ím b o lo e quase essência fe m in in a, escapando aos caracteres de classe, à p lu to c ra c ia que a d e fin e : Brisa d o e n ta rd e c e r! c h e iro de lírio s d o b re jo, infâ n cia s, mães, te rn u ra s, grutas abism ais, fo rç a te rre s tre q u e n te, g osto, a rro u b o de sexualidade ilim itá v e l (... ) A co n fu são e xistia sim, mas tã o grave, tã o harm o nio sa o s e n tim e n to é c o m o o som, dá sem pre sons h a rm ó n ic o s que Sarah L ig h t estava extasiada, c o m p le ta d a, c o n v e rtid a ao seu to ta l d e s tin o, m u lh e r (... ) E vos g a ra n to que Sarah L ig h t era um a grande m u lh e r, que pena... T ive e te n h o in te n ç ã o de a m o stra r desagradável, co m o de fa to é. Mas nem sem pre consigo conservá-la na sua classe de p lu to c ra ta, p o rq u e, pessoalm ente, às vezes ela se esquece da classe e de m im, um a grande m u lh e r!" (O B a nquete, p. 127). F e lix de C im a "D e o rigem ita lia n a e n a tu ra lm e n te fa c h is ta " (O B a nquete, p. 4 5), é o "c a rc a m a n o ", v ítim a n a tu ra l de um a certa x e n o fo b ia re in a n te, pois o c o n tin g e n te im ig ra tó rio ita lia n o era o mais im p o rta n te em São Paulo e desse m o d o o m ais a m e aça d o r.4 As te rn u ra s dos "m e u s b ra sile iro s lin d a m e n te m is tu ra d o s ", das " ita lia n in h a s " e c o s tu re irin h a s íta lo -b ra s ile ira s " do C/a do J a b o ti, d o galh a rdo filh o de im ig ra n tes, lo ira m e n te d o m a n d o um a u to m ó v e l" de P aulicé ia desvairada, co m pensam m al o a m b íg u o T ie tê ", ta m b é m de P a ulicé ia q ue o põe as "gigantescas v itó ria s " d o passado b a n d e ira n te à " N a d a d o r! V am os p a rtir pela via d u m M a to G rosso? / lo! M ai!... / (... ) / V a d o a p ranzare con la R u th ". 4 A lfre d o E llis (J u n io r) na "R e v is ta N o v a " (d irig id a p or Paulo P rado, M ário de A n d ra d e e A n to n io de A lc â n ta ra M a c h a d o ), lem b rava em 1931 q ue "seria m u ito d iffic il de p rever o resultado da im igração italian a em São P au lo, posta em scena de u m m o d o perigosissim o para a b rasilid ade, c o m as avalanches annuaes, cujo to ta l sobe a 75% da p opulação p re e x is te n te ". Tal in q u ie tu d e é p ró x im a da de M á rio, e a p re c ip ita ção e m que a firm a sem a p o io c ie n tífic o m aio r q u e " o ita lia n o fo i e n g u lid o, sem d e ix a r grandes vestígios de n atu re za e th n ico -so cio lo g ica da sua passagem " é mais u m m eio de a firm a r a fo rça da c u ltu ra a u te n tic a m e n te b rasileira, m in im iza n d o a c o n trib u iç ã o dos recém -chegados. A lfre d o Ellis (J u n io r), P o p u la ç õ e s p a u lis ta s, in "R e v is ta N o v a ", ano 1, n? 1, 15 de m arço de , p. 5 4.

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