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3 EXPEDIENTE MINAS FAZ CIÊNCIA Assessora de Comunicação Social e Editora Geral: Ariadne Lima (MG09211/JP) Editor Executivo: Fabrício Marques Assessora Editorial: Vanessa Fagundes Redação: Ariadne Lima, Fabrício Marques, Vanessa Fagundes, Juliana Saragá, Maurício Guilherme Silva Jr., Ana Flávia de Oliveira, Marcus Vinicius dos Santos, Hely Costa Jr., Kátia Brito (Bolsista de Iniciação Científica). Diagramação: Beto Paixão Revisão: Glísia Rejane Projeto gráfico: Hely Costa Jr. Editoração: Fazenda Comunicação & Marketing Montagem e impressão: Lastro Editora Tiragem: exemplares Capa: Hely Costa Jr. Sem Fronteiras AO LEITOR Redação - Rua Raul Pompéia, º andar, São Pedro - CEP Belo Horizonte - MG - Brasil Telefone: +55 (31) Fax: +55 (31) Site: Blog: Facebook: GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador: Antonio Augusto Junho Anastasia SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR Secretário: Narcio Rodrigues Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Presidente: Mario Neto Borges Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação: José Policarpo G. de Abreu Diretor de Planejamento, Gestão e Finanças: Paulo Kleber Duarte Pereira Conselho Curador Presidente: João Francisco de Abreu Membros: Antônio Carlos de Barros Martins, Dijon Moraes Júnior, Evaldo Ferreira Vilela, Giana Marcellini, José Luiz Resende Pereira, Magno, Antônio Patto Ramalho, Paulo César Gonçalves de Almeida, Paulo Sérgio Lacerda Beirão, Rodrigo Corrêa de Oliveira Estar conectado com o mundo é uma necessidade da civilização contemporânea. Os pilares Ciência, Tecnologia e Inovação, de maneira especial, precisam interagir nas diversas nacionalidades, a fim de garantir e, mesmo, acelerar o progresso científico da humanidade. Atenta às movimentações globais, a Fundação de Amparo à Ciência do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) promove a internacionalização da ciência mineira, estabelecendo o intercâmbio de pesquisadores e a pesquisa conjunta. Assim, potencializa as ações similares desenvolvidas em diferentes países e aproxima a ciência brasileira dos padrões científicos internacionais. Na FAPEMIG, as parcerias internacionais cresceram ao longo dos anos e foram institucionalizadas em 2011, com a criação da Assessoria Científica Internacional, voltada especialmente para gerir as relações internacionais da Instituição. Esta edição especial procura colocar em primeiro plano os acordos já firmados e aqueles em processo de efetivação, num total de oito países, como no exemplo a seguir: em 29 de setembro de 2009, por meio da Deliberação nº 43, foi regulamentada, pelo Conselho Curador da FAPEMIG, a bolsa de iniciação científica internacional, que beneficiou, desde então, estudantes interessados em fazer intercâmbio científico na Alemanha, por meio da parceria com o Serviço Alemão de Intercâmbio Científico (Daad). Outra parceira nesse país é a Fundação Alemã de Pesquisa Científica (DFG). Na França, os diálogos tiveram início em 2007 e foram oficializados em 2008, com o Instituto Nacional Francês para Pesquisa em Ciência da Computação e Automação (Inria). Desde então, editais já foram lançados e projetos científicos e tecnológicos de cooperação binacional estão sendo desenvolvidos por meio da parceria. As aproximações com a Itália se deram com a região de Piemonte, com o Politecnico di Torino (PoliTO), em que professores da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) têm a oportunidade de fazer Doutorado, e graduandos podem obter a Dupla Titulação. No Reino Unido, um acordo de cooperação científica foi firmado com o Centro de Inovações Csem Brasil e o Imperial College London, um dos principais centros de referência internacional no estudo e no desenvolvimento da eletrônica orgânica e impressa. Outros acordos, não menos importantes, se dão com a Austrália (Universidade de Queensland), o Canadá (Universidade Alberta) e Estados Unidos (Purdue). Ao mesmo tempo, uma comissão criada pela FAPEMIG tem feito contatos com Israel. Convidamos o leitor a ler as reportagens e conhecer um pouco mais desses diálogos.

4 ÍNDICE 08 Assessoria internacional Em busca de cooperação e entendimento entre instituições internacionais e o Estado, assessoria científica internacional da FAPEMIG desenvolve estratégias de aproximação entre países 44 A vida dos bolsistas lá Histórias de estudantes e pesquisadores brasileiros no exterior revelam rotinas atribuladas, mas, ao mesmo tempo, coroadas por conhecimento, amizade e cultura 10 Entrevista Abrindo as portas para o mundo: o reitor da UFMG, Clélio Campolina, aponta as perspectivas da Ciência brasileira no campo internacional 28 Canadá Estudos são referência na pesquisa da Mata Seca e embasam até mesmo decisões jurídicas 14 Itália Referência mundial, design praticado na região de Piemonte liga a riqueza da terra de Dante à Estrada Real mineira 31 Inglaterra Do Reino Unido, o suporte teórico para a ciência dos chips orgânicos impressos feitos em Belo Horizonte 20 França Projetos de cooperação com Nord-Pas de Calais estimulam desenvolvimento em diversas áreas, como Tecnologia da Informação, Mineração, Saúde e Materiais 34 Israel Sistema de inovação israelense acrescenta novas perspectivas para promover a união entre academia e empresas 25 Austrália Parceria promove a expansão da indústria mineral sem causar danos ao meio ambiente 38 Alemanha Acordos com agências alemãs proporcionam a pesquisadores cooperarem em diversas áreas 42 EUA Trazendo à memória antigos vínculos de cooperação entre Minas e Purdue, novo acordo promete avanços científicos na área de bioenergia

5 Estar junto ao Politecnico di Torino (PoliTO) é fundamental. O know how e as pesquisas desenvolvidas propiciam uma vivência aprofundada e dinâmica a respeito do meu tema de pesquisa, amplamente investigada e trabalhada por eles. Estar aqui é acima de tudo conhecer, aprender e experimentar, Paulo Miranda Doutorando em Pesquisa em Sistema de Produção e Desenho Industrial PoliTO A extensão dos conhecimentos científicos para o processamento industrial é o principal foco de interesse, além do contato com a experiência dos ingleses, que são pioneiros na área de dispositivos eletrônicos orgânicos Giovani Gozzi Físico Escola FAPEMIG/Csem Brasil/Imperial/College London (Eficc) FRASES Esse acordo de cooperação focou especificamente a área de mineração e mostra como pode ser multiplicado para outras iniciativas. A Austrália também é um país com tradição em atividade mineradora. E Minas Gerais tem recebido um volume expressivo de investimentos do setor Virgínia Ciminelli Coordenadora da parte mineira do acordo com a Universidade de Queensland Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais (Demet-UFMG) Quando nos aliamos a instituições que são destaque na área de Ciência e Tecnologia ganhamos em qualidade. Com isso, criamos oportunidades para os nossos pesquisadores trabalharem com o top do mundo. Evaldo Ferreira Vilela Subsecretário Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais (Sectes) A participação em um projeto internacional, com a Universidade de Alberta, no Canadá, enriquece a formação dos alunos. Esse intercâmbio também se estende aos pesquisadores. Já recebemos vários colegas que ministraram palestras ou minicursos para a nossa comunidade acadêmica. Mário Marcos do Espírito Santo Pesquisador, membro da Rede Tropi-Dry Departamento de Biologia Geral da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) Seria excelente que os estudantes mineiros tivessem Israel como opção de intercâmbio e que, da mesma forma, as universidades mineiras pudessem receber estudantes israelenses. Nada impede que possamos fazer os contatos necessários para que as universidades mineiras assinem acordos com as universidades israelenses. Cynthia Rocha Assessora para Parcerias Nacionais e Internacionais Sectes Com o acordo entre FAPEMIG e DFG, criamos uma base bem definida e segura pelos pesquisadores que querem estabelecer projetos conjuntos entre Alemanha e Minas Gerais Detrich Halm Diretor Fundação Alemã de Pesquisa Científica (DFG) Para receber gratuitamente a revista MINAS FAZ CIÊNCIA, preencha o cadastro no site ou envie seus dados (nome, profissão, instituição/empresa, endereço completo, telefone, fax e ) para o ou para o seguinte endereço: FAPEMIG / Revista MINAS FAZ CIÊNCIA - Rua Raul Pompéia, º andar - Bairro São Pedro - Belo Horizonte/MG - Brasil - CEP MINAS FAZ CIÊNCIA tem por finalidade divulgar a produção científica e tecnológica do Estado para a sociedade. A reprodução do seu conteúdo é permitida, desde que citada a fonte. MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL

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8 estratégia De asas bem abertas Ações da Assessoria Científica Internacional da FAPEMIG buscam aproximar instituições mineiras dos mais importantes centros de pesquisa do planeta Maurício Guilherme Silva Jr. Ao pretender internacionalizar-se, uma organização prepara-se, definitivamente, para se mostrar ao mundo. Com a instauração de sua Assessoria Científica Internacional, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FA- PEMIG) incrementa-se com o objetivo de aproximar os pesquisadores mineiros de alguns dos mais importantes centros de produção do conhecimento, sediados nos quatro cantos do planeta. Até o momento, a Fundação estabeleceu dez acordos com instituições estrangeiras (confira reportagens ao longo da revista). Além de facilitar o acesso a prestigiados centros de pesquisa e universidades, buscamos fazer com que a ciência produzida em Minas Gerais seja conhecida em diversos países, ressalta Flávia Perdigão Cerqueira, assessora científica internacional da FAPEMIG. Como fruto de tal iniciativa, abrem-se importantes canais de comunicação, estimulados por instituições idôneas e com tradição em intercâmbio científico. Some-se a isso o fato de haver um lado subjetivo no desenvolvimento de um acordo. Afinal, tais negociações baseiam-se em confiança e compromisso mútuos, ressalta Cerqueira. Em seu projeto de internacionalização, a FAPEMIG tem buscado acordos com renomados centros de pesquisa e instituições de ensino superior, a exemplo de Fundação de Pesquisa Alemã (DFG) e Intercâmbio Acadêmico Brasil-Alemanha (DAAD); Instituto Nacional de Pesquisa em Informática e Automa- 8 MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL 2011

9 ção (Inria), na França, e das universidades de Purdue (EUA), Queensland (Austrália), Alberta (Canadá), e Imperial College (Inglaterra). Namoro científico Para que as metas de parcerias científicas e/ou de inovação sejam efetivadas entre instituições de distintos países, é necessário, por vezes, que se cumpram etapas. Trata-se, em síntese, do período para identificação recíproca de terreno. Num primeiro momento, costuma-se elaborar cartas de intenção. Trata-se de documento mais simples. Ao assiná-los, as instituições revelam que estão se conhecendo, ressalta a assessora, ao lembrar que a parceria da FAPEMIG com o DFG, a Fundação Alemã de Pesquisa Científica, começou exatamente assim, em A segunda etapa dos relacionamentos entre as organizações tem como caminho natural a assinatura de memorandos de entendimento, documentos que, geralmente, pregam benefícios mútuos e têm duração mais prolongada. Neste estágio, a confiança entre os parceiros já se revela consolidada. Por fim, como terceiro estágio do processo de intercâmbio científico e/ou de inovação, parte-se para a efetivação de um acordo de cooperação. Nestes casos, trabalha-se sem quaisquer vestígios de desconfiança, destaca Flávia Cerqueira. Linhas de ação A filosofia do processo de internacionalização da FAPEMIG segue, em síntese, três vertentes de ação, todas desenvolvidas simultaneamente. Em primeiro lugar, está o objetivo de desenvolvimento de projetos e pesquisas conjuntas entre instituições mineiras e estrangeiras. Some-se a tal iniciativa o estímulo ao intercâmbio de estudantes, professores e PHDs e a organização de eventos principalmente, workshops, em parceria com entidades internacionais. As parcerias começam de diversos modos. Por vezes, somos procurados por representantes de instituições estrangeiras. Em outras ocasiões, a FAPEMIG aproxima-se de universidades e centros de pesquisa com quem o Governo de Minas Gerais tem conversado, explica Flávia Cerqueira, ao ressaltar que o importante, para o início de um relacionamento institucional, é a vontade dos parceiros e o compromisso que surgirá a partir de tal proximidade: Os processos de negociações, contudo, revelam-se longos. Para que um acordo seja assinado, são necessários muitos s e encontros. Afinal, os dois lados buscam iniciativas que lhes garantam zonas de conforto. Daí a importância de a FAPEMIG investir, permanentemente, em editais muitíssimo bem elaborados, que atraiam pesquisadores aptos a preencher os requisitos de projetos que envolvam parceiros internacionais. A Assessoria Desde que foi criada, em 2009, a Assessoria Científica Internacional da FA- PEMIG desenvolve uma série de iniciativas simultâneas. A área é responsável por gerenciar os acordos assim como por manter seu histórico, organizar missões internacionais e promover o que se pode chamar de reconhecimento oficial do terreno, no caso de parcerias em potencial. Precisamos estar sempre atentos. Lidamos, ao mesmo tempo, com prospecção de oportunidades e realização de eventos. Além disso, é preciso conhecer as necessidades dos parceiros, conta Flávia Cerqueira. Setores com a responsabilidade de buscar parcerias internacionais delineiam-se de acordo com a dimensão e a natureza da instituição que representam. Além disso, as relações internacionais dizem do direito do outro. Daí a necessidade de pensar, de modo particular, as principais diferenças entre duas instituições, explica Cerqueira, ao ressaltar o caráter generalista da Assessoria Científica Internacional criada pela FAPEMIG: É preciso sempre mudar de estratégias de acordo com as demandas e as oportunidades. MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL

10 Entrevista Não podemos fechar as portas para o mundo Em entrevista à Minas faz Ciência, o reitor da UFMG, Clélio Campolina, comenta os primórdios e as perspectivas da produção científica brasileira no cenário internacional Maurício Guilherme Silva Jr. À frente de uma das mais importantes instituições de ensino superior do País, o professor Clélio Campolina Diniz conhece muito bem a importância, para o desenvolvimento da ciência, do cultivo de projetos e redes de contato nos quatro cantos do mundo. Pós-doutor pela University of Rudgers, nos Estados Unidos, o atual Reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) discute, nesta entrevista, as dificuldades, trunfos e desafios rumo ao aprimoramento do processo de internacionalização da pesquisa brasileira. Durante os chamados anos de chumbo, muitos pesquisadores saíram do Brasil rumo a universidades estrangeiras. Já nos anos 1980, tais cérebros retornam e garantem novos contornos à ciência e à educação no País. Esse seria, realmente, o momento inicial do processo de internacionalização de nossa pesquisa? O retorno de tais pesquisadores foi importante, mas não diria que tudo tenha começado apenas nos anos Já na década de 1960, muitos pesquisadores começam a voltar. Exemplo interessante aconteceu na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, que começou a operar em 1966 e teve política muito objetiva no sentido de atrair os pesquisadores brasileiros que estavam no exterior. Isso ocorreu, por exemplo, com os importantes físicos César Lattes e Rogério Cerqueira Leite. A rigor, os pesquisadores começam a retor- nar quando aqui são criadas as condições para o desenvolvimento da pesquisa. Isso se dá, exatamente, com a montagem da pós-graduação no País. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) foram criados em Em sua fase inicial, contudo, investiam mais na capacitação de professores. A pós-graduação e a pesquisa brasileiras são fundamentalmente desenvolvidas a partir dos anos Mas, na década de 1960, também houve a reforma universitária... A reforma universitária foi autoritária, mas, ao mesmo tempo, trouxe ares de progresso. Como exemplo, cito o fim da cátedra, ação que interpreto como um grande avanço, já que o catedrático era o dono da matéria, a ponto de nomear quem bem desejasse como assistente. Antes disso, aqui na própria UFMG, recordo-me que, durante a gestão do professor Aluísio Pimenta, houve significativo processo de modernização. Os institutos centrais foram criados, à época, com o intuito de permitir maior complementaridade entre áreas do conhecimento, o que auxiliaria a pesquisa. Até então, só se investia na formação profissional, em áreas como Direito, Medicina, Engenharia, Farmácia e Odontologia. A ciência era vista como mero subsídio a tal formação. Ao contrário, nos institutos centrais, buscava-se a pesquisa. 10 MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL 2011

11 Foto: Foca Lisboa

12 Investimento em pesquisa e internacionalização, portanto, precisam caminhar juntos? Sem pesquisa não há internacionalização. Além disso, não se pode dissociar pesquisa de ensino. Hoje, grande parte dos estudos está vinculada aos programas de pós-graduação. Um bom professor, para avançar no conhecimento científico, não pode apenas transmitir o conhecimento disponível. Ele precisa ser capaz de gerar conhecimento novo. Se, na dissertação, reproduz-se um conhecimento já disponível; na tese, prevê-se que o trabalho apresente nova contribuição. A pós-graduação e, em especial, o doutorado é o locus da pesquisa, onde há a conjugação de um professor e pesquisador experiente com um aluno já na fronteira, capaz de desenvolver temas próprios e inéditos. Como o senhor analisa, hoje, o processo de internacionalização das universidades brasileiras? Estou muito à vontade para dizer que sempre batalhei, como integrante do Conselho Científico e Coordenador de Área da Capes, para a manutenção das bolsas de alunos brasileiros no exterior. Afinal, houve um momento em que o Brasil enxugou tal processo. De 1950 a 1980, muitos estudantes foram fazer pós-graduação em outros países. Já nos anos 1990, à medida em que nossa pós-graduação crescia, houve a ideia, por parte dos órgãos brasileiros de fomento principalmente, Capes e CNPq, de que era muito caro enviar alunos para fora do País e, por isso, tal processo deveria ser reduzido. A meu ver, isso era um erro que sempre combati. O País é muito grande, precisa desenvolver pesquisas internamente, mas sem fechar as portas ao mundo. Nenhuma nação desenvolvida se fecha. Vejo muitos pesquisadores americanos na Europa e vice-versa. Quanto aos países asiáticos, nem se fala: há muitos japoneses e coreanos pelo mundo. A partir dos anos 1990, o Brasil limitou muito o envio de estudantes ao exterior, investindo, apenas, no doutorado sanduíche, em que o pesquisador passa um período fora. É vital, porém, que uma cota de estudantes faça pós-graduação integral no exterior, não só pelo conhecimento gerado, mas pela experiência de vida, pelo convívio com outras culturas. Assim como para evitar a endogenia, quando se começa a criar uma espécie de pensamento único, por meio de grupos que se realimentam. Nestes grupos, os padrões culturais e referenciais são os mesmos, o que percebo como muito negativo. E a validação de diplomas estrangeiros, no Brasil, seria um problema a ser superado? Há dois lados para este problema. O mais grave é a grande quantidade de diplomas falsos, que não merecem ser reconhecidos. Quando estava no Conselho Técnico-Científico da Capes, avaliávamos que existiam cerca de 17 mil diplomas de mestrado e doutorado, no Brasil, que não podiam ser reconhecidos. Por outro lado, precisamos facilitar o que é correto, legítimo e não pode ficar parado em função da longa burocracia. Esse é um problema das universidades brasileiras. O Brasil precisa acelerar o processo de reconhecimento dos diplomas legítimos, adequados e corretos. Ao mesmo tempo, é vital, aumentar a fiscalização. Aliás, há cerca de cinco anos, a possibilidade de transformar a educação em serviço de livre comércio foi tema da Organização Mundial do Comércio (OMC). Isso não pode acontecer. O País precisa preservar o controle sobre a educação, pois se trata dos fundamentos culturais da nação. Não se pode abrir a educação para o mercado. Atualmente, o Brasil é mais respeitado pela comunidade científica internacional, em função do maior volume de patentes, de artigos publicados em renomados periódicos etc.? Sim. O Brasil avançou muito e temos, hoje, uma comunidade científica, nas diversas áreas do conhecimento, com padrões internacionais. E olha que, por muitos motivos, ainda não temos as condições de trabalho de muitas universidades estrangeiras. As instituições brasileiras são relativamente novas e é preciso consolidar e institucionalizar a pesquisa. Além disso, ainda há variações no comportamento governamental. Nesse momento, contudo, vivemos um período favorável. A postura dos governos federais e estaduais, em relação às universidades, é muito positiva. Mas já houve momentos em que não era assim. Atualmente, nossa qualificada comunidade científica atrai pesquisadores estrangeiros para o Brasil e facilita nossa inserção na comunidade internacional. Estou seguro de que isto será ampliado. Para tal ampliação, o que falta ao País? Enfrentamos várias dificuldades. Em primeiro lugar, embora tenha melhorado nos últimos anos, o recurso para pesquisa sempre foi limitado. Além disso, os padrões salariais para quem deseja dedicar-se à pesquisa permanecem insuficientes. Isso leva à cópia de algo complexo no mundo: a mercantilização da academia. Há, hoje, autorizações formais para que você desenvolva atividades remuneradas fora da universidade, por exemplo. Acho importante tal flexibilidade, mas o ideal seria que o professor não dependesse de rendas externas. Digo isso para o padrão de vida normal de um docente, que, no mundo inteiro, é modesto. O ideal é que o pesquisador não precisasse buscar subterfúgios ou alternativas. Há, ainda, graves deficiências de infraestrutura, como recursos para laboratórios, instalações físicas etc., que, mais recentemente, estão sendo sanadas. A maior de todas as dificuldades, porém, é institucional. Trata-se das normas legais que, nas universidades, são as mesmas para todo o setor público. Há, por exemplo, a lei das licitações, nº 8.666, que diz que tudo precisa ser licitado, pelo menor preço. A pesquisa, contudo, precisaria ter certa autonomia para eleger o que lhe é prioritário. Seriam necessários critérios científicos de avaliação, e não mercadológicos. Outro problema diz respeito à transferência de tecnologia, que enfrenta dificuldades formais. O Brasil produz muita ciência, mas pouca tecnologia. Por que isso ocorre? Tal realidade relaciona-se ao fato de termos base produtiva internacional. Coreia, Alemanha, Japão e Estados Unidos são 12 MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL 2011

13 países que se industrializaram com base em empresas nacionais. O Brasil, ao contrário, industrializou-se com forte presença de empresas estrangeiras, que não necessariamente têm interesse em desenvolver pesquisa no País. Esse é um desafio a ser enfrentado, para que se consiga fazer a ponte entre o conhecimento científico e a sua aplicação prática, seja de mercado, seja social ou pública. Hoje, os dois grandes desafios para o avanço e a aplicação da ciência no Brasil resumem-se em melhorar o aparato jurídico-institucional que possui muitas proibições e pouca flexibilidade e convencer o capital estrangeiro de que é preciso investir em pesquisa, transformando-a em tecnologia. Em setores nos quais se pôde concentrar a pesquisa, de modo a desenvolver iniciativas com base em empresas nacionais, percebe-se sucesso absoluto. A que setores, exatamente, o senhor se refere? A Petrobras é, hoje, um dos maiores sucessos mundiais na exploração de petróleo em águas profundas. Tínhamos o monopólio estatal do petróleo, o que fez com que se concentrasse pesquisa nessa área. A Embraer, que também era estatal, é uma empresa extremamente bem sucedida do ponto de vista tecnológico e comercial. Na área agrária, o Brasil possui tecnologias que são fronteiras em todo o mundo. Isso porque a especificidade da tecnologia agrícola está muito vinculada às condições climáticas do País. Em resumo, setores ligados ao petróleo, à aviação e à produção agrícola desenvolveram-se na ausência do capital estrangeiro. Não sou xenófobo em relação a tais recursos, mas, conforme comentei com o Ministro de Ciência e Tecnologia [Aloizio Mercadante], é preciso criar condições para que o capital estrangeiro invista em pesquisa no Brasil. Nos Estados Unidos, hoje, boa parte das empresas que pesquisam é estrangeira. Entre Nova Iorque e Princeton há um corredor nas áreas de biotecnologia e farmacêutica, com estudos realizados por centros e escritórios ligados a grandes corporações europeias. Com relação à UFMG, hoje uma das mais importantes universidades brasileiras, quando se dá o início do processo de internacionalização? Na UFMG, a pesquisa é relativamente recente e remonta, como já ressaltei, a criação dos institutos centrais, nos anos 1960 e O grande salto de nossa pesquisa, contudo, dá-se dos anos 1990 para cá, devido à consolidação da pós-graduação, ao desenvolvimento de muitos grupos de pesquisa e ao aumento do número de alunos de mestrado e doutorado. Importante destacar, ainda, a disponibilidade de recursos via instituições de pesquisa, como CNPq, Capes e FAPEMIG. Não sou filiado a nenhum partido político, mas diria que o grande apoio ao ensino superior e à pesquisa no Brasil vai se dar no governo Lula. Com relação à FAPEMIG, que andou claudicante no final dos anos 1980, o apoio veio a partir do governo Aécio Neves. Não resta dúvida de que mudou a cara da Fundação. Neste sentido, de que modo o senhor avalia o atual investimento da FAPE- MIG em iniciativas de internacionalização? Acompanho a trajetória da FAPEMIG desde o início. Fui presidente da Câmara de Ciências Sociais, no final da década de 1980, quando o Newton Cardoso queria acabar com a Fundação e lhe fizemos heroica resistência. Nos últimos anos, o governo apoiou a entidade, que, hoje, tem uma direção com fundamentação, visão e bagagem acadêmicas. No que se refere à internacionalização, percebo as ações como extremamente louváveis. É preciso, contudo, internacionalizar com qualidade. Não adianta buscar o mundo sem cuidar do andar de baixo : há que se tratar muito bem da qualidade de nossos cursos, de nossa pós-graduação e de nossa pesquisa. A UFMG, por exemplo, acaba de oferecer um curso de mestrado e doutorado em Angola. Eis o nosso compromisso com o hemisfério sul do planeta. Precisamos manter nossa internacionalização para cima e a FAPEMIG possui importante papel a cumprir nesse sentido. Segundo o senhor, em depoimento sobre o programa Ciência sem fronteiras, a UFMG receberá de 500 a mil bolsas de um total previsto de 25 mil por ano. Com números assim, não seria possível falar em mudança paradigmática da ciência no Brasil? É verdade que tais investimentos permitem outros modos de pesquisa no País. Creio, porém, que a ideia de mudança paradigmática seja muito pesada. Já recebemos uma batelada de bolsas do CNPq e tentaremos responder da melhor forma possível. Mas não será simples. O programa Ciência sem fronteiras está em fase de implantação, precisa de ajustes, e daremos toda a contribuição necessária para tal. Importante lembrar que o programa exige ampla articulação com as instituições estrangeiras. Para distribuir 500 bolsas para intercâmbio, também preciso selecionar 500 alunos, encontrar universidades que desejam recebê-los e saber de suas contrapartidas. Em seguida, terei que receber os alunos de volta e realizar a adaptação curricular. Sabemos que não é simples porque, na UFMG, já realizamos intercâmbio há bastante tempo, por meio de nossa Diretoria de Relações Internacionais. É preciso internacionalizar com alta qualidade em todo o processo. MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL

14 O lugar ITÁLIA do design Referência na área, Escola Politécnica de Torino recebe estudantes e pesquisadores da Uemg Fabrício Marques O Instituto Politécnico de Torino (Regio Politecnico di Torino) foi fundado em 1906 como uma instituição, mas suas origens são mais antigas. Remontam a Escola de Aplicação para Engenheiros, fundada em Seguindo o modelo dos grandes politécnicos europeus nos primeiros anos do século XX, o Real Instituto Politécnico de Turim ampliou sua ação em várias direções, tecendo relações tanto com o mundo científico europeu, quanto com a indústria local e nacional. 14 MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL 2011

15 Em um acordo de cooperação entre instituições de dois países, como o que acontece entre a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e o Politecnico di Torino (PoliTO), todos ganham, diz o reitor da Uemg, Dijon Moraes Júnior, sentado no sofá de sua sala, no oitavo andar do prédio Gerais, na Cidade Administrativa, sede do governo mineiro, na manhã do último dia de setembro. Dijon, que também é membro do Conselho Curador da FAPEMIG, prossegue: Ganha o aluno, ao adquirir experiência internacional; ganha a Uemg, que amplia e efetiva seu programa de mobilidade estudantil; e ganham a FAPEMIG e o governo estadual, que cumprem sua missão de promover o ensino e a pesquisa em Minas Gerais. Dezesseis dias antes, em um fim de tarde extremamente quente, cinco alunos de graduação da Escola o de Design, selecionados c u m - para primento do Acordo de Dupla Titulação entre Brasil e Itália, chegavam ao país de Dante Alighieri e eram apresentados ao PoliTO, com cronograma de atividades acadêmicas previsto para integralização em dois anos. O acordo de Dupla Titulação foi assinado pela Uemg e pelo PoliTO em novembro de 2008, como parte do programa de cooperação do Estado de Minas Gerais com a Região de Piemonte, na Itália. Pelo PoliTO, todos os títulos outorgados serão Laurea in Design (Design di Prodotto), e pela Uemg dois alunos obterão título de bacharel em Design de Produto e os outros três receberão o título de bacharel em Design Gráfico. Por que PoliTO e por que Design? A ação é também um resultado de uma extensa parceria entre o Brasil e a Itália e baseia- -se em acordos internacionais assinados entre o Estado de Minas Gerais e a região de Piemonte, a partir de linhas gerais de desenvolvimento entre os países, especificamente formação profissional e cooperação cultural. A escolha sobre o Design como área do conhecimento faz parte de estratégia maior do Governo. Na época, o então governador Aécio Neves firmou acordo com a Itália, e, nesse contexto, Uemg e Torino puderam realizar as parcerias, observa o reitor. Gabriela Cristina de Souza Silva, 22 anos, graduanda do 7º período de Design Gráfico na Universidade do Estado de Minas Gerais, do 6º período de Comunicação Social da UFMG e do primeiro período de Ecodesign no Politecnico di Torino, é uma das selecionadas que estão em Turim, ao lado de Gabriel Figueiredo, Márcio Pinho, Thayana Meneses e Ravi Bellard. Ela comenta o impacto da experiência: Para nós tem sido uma grande honra ser os primeiros alunos da graduação da Escola de Design da Uemg a participar de intercâmbios (algo que já é corriqueiro em muitas universidades por todo o País e que pudemos comprovar ao nos encontrarmos com muitos brasileiros em Torino e universidades que possuem até 17 alunos em MINAS FAZ CIÊNCIA ESPECIAL

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