Cidadania e Política: Leituras do Brasil Atual. O reconhecimento da Língua de Sinais: Surgimento de uma nova profissão.

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1 Cidadania e Política: Leituras do Brasil Atual. O reconhecimento da Língua de Sinais: Surgimento de uma nova profissão. Dayse Garcia Miranda 1 Historicamente, a surdez foi estigmatizada, vista como uma patologia que precisava ser curada; a Língua de Sinais como uma expressão corporal e o individuo surdo como um deficiente. Em contra partida, pesquisadores têm demonstrado que a condição de ser surdo está relacionado à situação social de grupos minoritários falantes de uma língua estrangeira ( Leite, 2008). A mudança de estatuto da surdez, de patologia para o fenômeno social, através do reconhecimento de sua língua, promove não apenas uma repercussão lingüística e cognitiva, mas também uma repercussão social. É no uso de sua língua que as pessoas constroem e projetam suas identidades; isso é, determinadas pelas práticas sociais impregnadas por relações simbólicas de poder. A Língua de Sinais passa a oferecer uma possibilidade de legitimação do surdo como sujeito da linguagem, sendo o passaporte para a entrada do universo social. Nesse sentido, a Língua de Sinais é capaz transformar a anormalidade 2 em diferença. Apesar do meu profundo envolvimento com a comunidade surda, visto ser uma CODA 3 filha de pais surdos, foi ao exercer a minha profissão de ILS intérprete de Língua de Sinais que o olhar para a esta comunidade se modificou: atuar e observar profissionais da área e a convivência com os surdos sempre me remeteu a profundos questionamentos. Entretanto, constata-se que a elaboração e o mergulho na operacionalidade de uma atividade investigativa instigaram mais e mais questionamentos que ainda borbulham em minha mente: há tanto a investigar! No momento investigativo, minha história e a pesquisa realizada se entrelaçavam a ponto de não saber onde a pesquisa estaria e onde eu deveria me colocar 1 Mestre em Educação - FaE/ UFMG, Especialista em Educação Inclusiva, Bacharel e Licenciada em Psicologia, Analista de RH da CODABE, TILS da REDE MINAS de TV, Intérprete de Libras/LP (Certificado pelo MEC - Prolibras), professora do CAS-BH/MG Centro de Capacitação e Formação à profissionais da Educação na área da surdez, professora da PUC-MINAS, professora da UNIPAC/BH. 2 Todo aquele que através da linguagem não fosse considerado possuidor de atributos humanos. (...) aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros; pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância (...) (Foucault, 70, p. 10 e 11) 3 CODA Children of Deaf Adults.

2 como pesquisadora. Por várias vezes, nas análises das filmagens e nas leituras dos teóricos, era impossível não contemplar os eventos de minha história pessoal, minha própria inserção escolar e todo o meu processo de aprendizagem da Língua Portuguesa, que para mim é também uma segunda língua. Relembrar as histórias de meus pais e seus amigos, meu lar, ponto de encontro de vários surdos, sempre foi local para calorosas discussões. As idéias e diretrizes eram criadas por eles, e eu, apenas com o olhar, acompanhava toda a organização da comunidade surda em prol de seus direitos. Esses momentos inflamaram em mim um espírito que necessitava buscar a solução para tantos entraves. Hoje, percebo que a comunidade surda diferenciou suas ações, inseriu-se nas universidades, buscou pela pesquisa e pela condição para verdadeiramente abrir as portas e alcançar suas metas e crescimento. Como uma boa aprendiz, segui o mesmo caminho. Nesse caminho, podemos relatar essas conquistas tiveram como ponto de partida a Escola. Chamo aqui de Escola todo e qualquer Instancia que pretende promover o ensino e aprendizado. A Escola foi, e é o embrião das articulações a favor da cidadania e política de uma dado movimento, comunidade e/ou povo. Para a comunidade surda a condição de qualidade de vida e a permissão de gozar de seus direitos e deveres cívis estavam no reconhecimento de sua língua: Língua de Sinais. A busca pela conquista desse direito lingüístico sai da Escola e parte para as organizações políticas oriundas dentro das entidades de surdos. Representantes dessa comunidade surda pressionando todas as Instancias políticas conquista o reconhecimento de sua língua. Como resultado dessa luta, em 2002, pela Lei nº , reconheceu-se a Língua de Sinais como a Língua da pessoa surda e que, por isso, deveria ser usada e respeitada em todos os meios educacionais. Com base nesta lei, abriu-se a porta para um movimento popular mais amplo que provocou, em todo o estado brasileiro, a oficialização da Libras. Em paralelo à oficialização da Libras 4, a profissão do ILS 5 passa a ser discutida. Nesse sentido, configura-se como importante apresentar alguns relatos históricos sobre a origem dos primeiros tradutores, pois nos dão uma noção sobre o início desta atividade profissional. Acredita-se que a atuação dos intérpretes foi originada pela necessidade dos homens de estabelecer contato com outros povos, por 4 Libras Língua brasileira de Sinais. 5 ILS Intérprete de Língua de Sinais.

3 questões mercadológicas e/ou econômicas, inicialmente. Diante das dificuldades de comunicação, era necessária, assim, a presença de pessoas que intermediassem as relações comerciais de compra e venda. A Bíblia é outra fonte histórica muito citada, na qual se faz referência ao papel do intérprete nos relatos sobre a construção da Torre de Babel, tendo em vista as distintas línguas que surgiram a partir da construção daquela gigantesca obra. Segundo Pagura (2003, apud Aguiar, 2006) as missões evangélicas e as guerras civis também foram outro fator importante para a disseminação da importância da Língua, considerada como condição da intermediação lingüística e cultural, pois promovia o controle e o poder de um povo sobre o outro. De acordo com Aguiar (2006), a função do intérprete era executada, geralmente, por um nativo da língua colonizada, que, após ser seqüestrado, era obrigado a intermediar as diferentes línguas em uso naquele contexto. Essa atuação era desenvolvida na prática, sem conhecimentos dos processos interpretativos, e a forma mais comum de seu exercício era a interpretação consecutiva. Atualmente, a partir do desenvolvimento econômico e da globalização mundial, a atuação profissional do intérprete passou a ser solicitada em conferências internacionais, nas atividades de traduções de livros, na redação das legendas de filmes, em dublagem de vídeo etc. Cabe ressaltar, entretanto, que a primeira iniciativa para a formação desse profissional, segundo Lacerda (2009), ocorreu em 1941, na Universidade de Genebra. Historicamente, as primeiras atuações do intérprete na área da surdez ocorria de forma voluntária, sem que o seu profissionalismo fosse reconhecido. Geralmente, essa atividade era exercida por filhos de surdos, professores de surdos ou até religiosos que conheciam a LS, todos eles chamados para ajudar na comunicação com os surdos. Diante dessas conjunturas, podemos considerar que os ILS se construíram nas tramas da luta pelo reconhecimento dos direitos da comunidade surda, e que atualmente ainda vivenciam um processo de redescobrimento das habilidades consideradas necessárias para a atuação desse profissional. Portanto, é somente com o movimento de luta da Comunidade Surda, para o reconhecimento de direitos importantes para a sua cidadania, que os intérpretes deixam de atuar de forma voluntária e iniciam também a sua própria luta pelo reconhecimento de sua profissionalização. Isso ocorre porque passa a ser necessária a sua participação

4 nos mesmos espaços públicos em que se travam os movimentos sociais dos surdos pelos seus direitos. Outro fator importante para o surgimento da profissão de intérprete diz respeito a oficialização da Libras como a língua da pessoa surda, que ocorreu com a publicação do Decreto de nº 5626, aprovado em 22 de dezembro de Esse decreto regulamentou a Lei nº , ao dispor sobre a Libras Língua Brasileira de Sinais nas escolas do país. Esse reconhecimento de uma língua oficial para os surdos significou a possibilidade de acesso às informações por toda comunidade, originando, como conseqüência, a necessidade de se criar competências profissionais nesse campo de domínio. Assim, cresceu o mercado de trabalho para a atuação do profissional que dominava a Libras, uma vez que as instituições educacionais públicas e privadas foram pressionadas a disponibilizar em seu quadro um profissional com essa competência para garantir o acesso dos alunos surdos às informações e favorecer a comunicação entre os sujeitos aprendizes (Quadros, 2003). Enfatizo que as conquistas da comunidade surdas resultam nas conquistas para o profissional intérprete de LS 6, sendo assim, então, a profissão de ILS foi regulamentada pelo Senado Federal, em 7 de Julho de 2010, pelo PLC Projeto de Lei da Câmara nº 325 de Diante dessas considerações, cabe-nos refletir sobre o processo de institucionalização da profissão de Intérprete de Sinais a partir do pressuposto do sociólogo, Durkein ( apud Dubar, 1997, p. 127), segundo o autor, considera que não se trata de restaurar uma antiga atividade, mas da instauração de associações profissionais de um novo tipo que, quando reconhecidas simultaneamente pelo Estado e pela comunidade, constitui um corpo investido de uma autoridade legal, assegurando as bases concretas da integração e das relações sociais. Por fim, Dubar (1997) descreve que está na elaboração e no desenvolvimento das profissões as características essenciais de uma sociedade civilizada. Nesse contexto, Cidadania e Política: Leitura do Brasil Atual, reforça se o principio que as conquistas emergem pela condição individual e a qualidade de vida dessas necessidades emerge no individuo a busca da condição de ser cidadão, porém está nas estratégias das organizações políticas, na direção e administração de direitos e deveres a obtenção de algo que nos oferta o sentimento de pertencimento, de reconhecimento e o de tornar-se humano. 6 LS Língua de Sinais.

5 Então, é nesse sentido, considerando esse pequeno relato, uma possibilidade de despertar nos envolvidos e trazer novos aliados, que as conquistas somente acontecem a partir dos movimentos políticos e a academia é um desses movimentos e que vocês a partir do lugar que ocupam reivindiquem as melhorias efetivas de sua formação e profissionalização. Referencia AGUIAR, S. Intérpretes de Língua de Sinais : um estudo sobre as identidades. UFSC. Ciência da Educação. Dissertação de Mestrado. SC BERGAMO, A.; SANTANA, A.P. Cultura e identidade surda: Encruzilhada de lutas sociais e teóricas. Caderno CEDES, Campinas, Vol. 26, N. 91, p , maio/agosto DUBAR, C. A Socialização: construção das identidades sociais e profissionais. Tradução: Anette Pierrette R. Botelho e Estela Pinto Ribeiro Lamas. Porto Editora. Portugal, LACERDA, C. B. F. Intérprete de Libras em atuação na educação infantil e no ensino fundamental. Editora Mediação. SP LEITE, T. A. Língua, identidade e educação de surdos. Ponto Urbe: Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP. 2008, v.2. Disponível em n-au.org/pontourbe02/leite.html. QUADROS, R. M. O Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais e Língua Portuguesa/ Secretaria de Educação Especial, Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos Brasilia: MEC; SEESP, 2003.

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