Software Livre: a Experiência da FORP/USP no Desenvolvimento de um Sistema de Informatização de Clínicas

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1 Software Livre: a Experiência da FORP/USP no Desenvolvimento de um Sistema de Informatização de Clínicas Luciano Luiz Finco Juliano Pratti Mercantil Rubens Ferreira de Albuquerque Jr. Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Brasil Resumo - Este trabalho visa descrever e compartilhar a experiência adquirida com a informatização das clínicas da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto/USP e demonstrar a viabilidade do desenvolvimento de sistemas computadorizados nos diversos órgãos brasileiros de Saúde Pública utilizando-se somente ferramentas e padrões livremente distribuídos através da Internet. Palavras-chave: Software Livre, Sistema Odontológico, Saúde Pública. Abstract The aim of this paper is to describe and share the experience gathered during the development of a computerized system for the dental clinic of the Faculty of Dentistry of Ribeirão Preto, University of São Paulo, built with open standards and free software, and to demonstrate its viability on public health systems. Key-words: Free Software, Dental Software, Public Health. Introdução Apesar de muitos congressos e simpósios terem sido organizados sobre o tema Software Livre, percebe-se que pouco tem sido feito no sentido de se desenvolver sistemas corporativos utilizando esta plataforma nos órgãos públicos de saúde do Brasil, apesar desta abordagem ser uma diretriz da Política de Informação e Informática em Saúde do DATASUS [1] e o software livre ser visto como emblemático da Sociedade da Informação e de uma nova cultura de solidariedade e compartilhamento pelo Governo Federal [2]. Na área médica existem algumas exceções como, por exemplo, o SISREG e o HOSPUB [3]. Este último, apesar de não ser propriamente um software livre, pois seu código-fonte não é disponibilizado livremente, é de domínio público e encontra-se à disposição de qualquer interessado vinculado à rede assistencial do SUS [4]. Já na área odontológica, nenhum relato na bibliografia foi encontrado sobre a utilização de software livre para o desenvolvimento de sistemas. A Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP/USP) conta, atualmente, com 197 consultórios odontológicos, instalados em 7 clínicas, que recebem alunos de graduação, pósgraduação stricto e lato sensu e estagiários, totalizando atendimentos em pacientes no ano de Os pacientes atendidos são provenientes de todo o Brasil, mas a grande maioria é oriunda da Divisão Regional de Saúde de Ribeirão Preto (DIR XVIII) e do sul de Minas Gerais, sendo encaminhados pelo SUS ou por demanda espontânea. A infra-estrutura organizacional mantida pela Faculdade para efetuar o atendimento da população é extremamente complexa, pois a demanda é elevada e o perfil dos pacientes é muito variado: são atendidos bebês, pacientes adultos e pacientes especiais. Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar o uso de software livre no desenvolvimento de um sistema para gerenciamento das clínicas da FORP/USP, apontar os problemas encontrados e descrever as soluções adotadas. Metodologia Para efetivar a informatização dos serviços oferecidos pela faculdade da maneira mais racional possível e ser economicamente viável, optou-se pela utilização de software livre e pela contratação de um analista de sistemas com experiência em banco de dados relacional e no uso de ferramentas gratuitas. Além disso, foram adquiridos 25 microcomputadores com o sistema operacional Linux e um servidor potente e robusto capaz de

2 executar um sistema gerenciador de banco de dados de médio porte. O Sistema de Informatização de Clínicas da FORP/USP, formalmente batizado de ROMEU, originou-se da necessidade de centralizar as informações pessoais e de tratamento dos pacientes atendidos pela Faculdade em um servidor corporativo de banco de dados. A elaboração do sistema foi iniciada com a sua análise estruturada. Através dela, a situação em que se encontrava a Faculdade foi abstraída através do uso de Diagramas de Fluxo de Dados (DFD) [5]. De posse destes diagramas, reuniões entre os responsáveis pelas áreas envolvidas (funcionários e docentes) foram realizadas com o pessoal de informática, a fim de que uma forma de trabalho mais racional fosse implementada. A partir dessas reuniões, novos diagramas foram propostos, elaborados e discutidos, sempre buscando a diminuição da burocracia e a melhoria da rotina do paciente dentro da Faculdade. Uma vez chegado ao consenso sobre o funcionamento e a funcionalidade do novo sistema, a metodologia utilizada para a modelagem de dados foi o subconjunto da Unified Modeling Language (UML) [6] oferecido pelo programa de criação de diagramas Dia, como pode ser visto na Figura 1. especificam os princípios fundamentais para transações realmente seguras [8]. Por estes motivos, o servidor de banco de dados escolhidos foi o PostgreSQL, pois, segundo a análise efetuada pelo Alice Database Warsaw Group [9], este servidor, apesar de não possuir todas as características avançadas do banco de dados Oracle, apresenta os principais recursos exigidos para o pleno funcionamento do sistema. Com o servidor de banco de dados escolhido, foi necessário o uso do utilitário tedia2sql para converter o modelo gerado no Dia em script SQL (Structured Query Language) para o PostgreSQL. O script gerado, então, foi executado no servidor através dos aplicativos phppgadmin e pgadmin, que são ferramentas gratuitas e multiplataforma de gerenciamento do servidor PostgreSQL. Para a codificação do sistema foi escolhido o PHP, uma linguagem de propósito geral especialmente adaptada para o desenvolvimento Web embutida em HTML (HyperText Markup Language) [10], além de possuir suporte aos principais servidores de banco de dados do mercado, incluindo o PostgreSQL. Além disto, a escolha da plataforma HTML para a Web seguiu as tendências do mercado e da própria USP ao assumir que o usuário não utiliza um sistema operacional específico e, além de um navegador instalado, não requer nenhuma configuração extra na estação cliente (Fig. 2). Figura 1 Modelagem do sistema no programa Dia Um passo importante foi a escolha do sistema gerenciador de banco de dados a ser utilizado pelo ROMEU. Os requisitos mínimos desejáveis para este servidor eram: ser livre e gratuito, possuir um conjunto sofisticado de tipos de dados (data types) e funções, além de contar com uma farta documentação na Internet e atender às especificações ACID. ACID é um acrônimo que descreve quatro propriedades de um sistema de banco de dados robusto: atomicidade, consistência, isolamento e durabilidade [7]. Estas características Figura 2 Página inicial do sistema A principal dificuldade encontrada durante a etapa de codificação foi a ausência de uma ferramenta que auxiliasse na interface com o banco de dados e na combinação de códigos HTML e PHP. Para contornar este problema foram utilizados o ADOdb, uma biblioteca de abstração de banco de dados para PHP, e o eficiente, porém não-gráfico,

3 editor de textos Vim para a codificação em PHP, visto que a maior parte do código HTML foi encapsulado em uma biblioteca de funções, mantendo a lógica do sistema (PHP) separada das rotinas para exibição gráfica nos navegadores Web (HTML), conforme exemplo na Figura 3. exigências quanto ao preenchimento da Ficha de Atendimento Odontológico (FAO), documento auditado pelo SUS, para o reembolso à Faculdade pelos serviços prestados. A redução dessas exigências possibilitou um avanço significativo na desburocratização do sistema como um todo. Os benefícios abaixo relacionados, proporcionados pelo novo sistema, podem ser agrupados da seguinte forma: Pacientes diminuição da morosidade no atendimento; desburocratização do sistema. Figura 3 Codificação utilizando o editor Vim Resultados A utilização de softwares e padrões livres no desenvolvimento e implantação do sistema de informatização de clínicas da FORP/USP demonstrou que a metodologia adotada foi acertada. O sistema se mostrou completamente confiável e robusto, atendendo a todas as exigências levantadas na etapa de análise. Além disto, a economia gerada pelo uso de softwares livres e gratuitos, apurada em 25/09/2003, foi de cerca de R$ ,00. Uma pequena fração deste montante foi aplicada no treinamento avançado do pessoal de informática em software livre, preferindo-se o investimento em recursos humanos à aquisição de licenças de softwares proprietários. Com a adoção do novo sistema, as informações cadastrais e de atendimento dos pacientes, que anteriormente estavam espalhadas entre os diversos pontos de recepção de pacientes, passaram a residir no servidor central, ficando disponíveis on-line a qualquer usuário do sistema que tenha acesso à rede de computadores da Faculdade. A centralização destas informações facilitou e agilizou o fluxo de informações dentro da Unidade, pois todos os atendimentos podem ser acompanhados através da rede, evitando duplicação de trabalho. Outra vantagem obtida pelo sistema foi o reconhecimento pela Secretaria Municipal de Saúde de que a relação entre a Secretaria e a Faculdade tornou-se transparente e confiável como nunca havia sido anteriormente (Marques, A.M.J., 2004; comunicação pessoal). Assim, diminuíram as Docentes: redução na quantidade de documentos a serem conferidos e preenchidos; controle automático e informatizado da produção clínica dos alunos; possibilidade de acompanhar graficamente o tratamento efetuado no paciente, através do odontograma gerado pelo sistema (Fig. 4); disponibilização de informações precisas e tabuladas dos pacientes, facilitando trabalhos estatísticos e de pesquisa; controle automático da freqüência dos alunos. Figura 4 Odontograma gerado pelo sistema Alunos: redução na quantidade de documentos a serem conferidos e preenchidos; levantamento automático de produção e desempenho. Atendentes: eliminação de registros duplicados de agilidade na recuperação de informações sobre controle automático da freqüência dos

4 eliminação do preenchimento manual da FAO, reduzindo em mais de 85% o tempo gasto nesta tarefa; eliminação das coletas de assinaturas do aluno, do docente e do paciente para as FAO. Instituição: verificação automática do preenchimento das fichas de tratamento; economia de papel; garantia de envio ao SUS da relação de procedimentos executados sem erros de preenchimento e sem problemas com letras ilegíveis; agilidade e aumento no faturamento junto ao SUS; acompanhamento on-line da produção das disciplinas clínicas. Outro benefício observado, mas de difícil mensuração, foi a mudança de atitude dos usuários do sistema (funcionários e pacientes), pois a informatização desperta o interesse e a criatividade de quem passa a ter contato com ela. Este interesse, quase sempre, leva a críticas e sugestões muito pertinentes. Um exemplo desta interação entre a equipe de desenvolvimento e os usuários foi a sugestão de se controlar o tráfego de prontuários entre as clínicas da Faculdade através de etiquetas de código de barras. Outra sugestão foi o envio da produção clínica para o SUS através de meios eletrônicos, evitando-se, assim, o gasto com papel. Estas propostas encontram-se atualmente em implementação. Discussão e Conclusões A implantação do Sistema de Informatização de Clínicas da FORP/USP demonstra que o uso de software livre para o desenvolvimento de aplicativos corporativos nas instituições públicas brasileiras é viável e, além disto, uma necessidade. Esta necessidade se deve ao fato de que, segundo o secretário de logística e tecnologia da informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, sua adoção pode representar uma economia de até um terço nas soluções de informática, pois esta é a parcela que corresponde às licenças de softwares proprietários [11]. Portanto, se mais soluções fossem desenvolvidas utilizando-se esta plataforma, mais instituições públicas poderiam tirar proveito da atual revolução tecnológica, tornando o Brasil mais eficiente e competitivo no cenário internacional, além de beneficiar cada vez mais a população. Além disto, a adoção de padrões abertos torna as soluções desenvolvidas independentes de plataformas e fornecedores, com um leque maior de possibilidades e, por conseqüência, menos dispendiosas, necessitando, apenas, de investimentos no verdadeiro foco das instituições públicas: o recurso humano. O pessoal técnico bem treinado é capaz de escolher as melhores ferramentas disponíveis e combiná-las da melhor forma possível, a fim de construir soluções eficazes para os problemas institucionais. Esta economia, se reinvestida, é vital para Estado e para a população, pois ela retorna à sociedade, por exemplo, na forma de mais vagas nas escolas públicas e de novos leitos em hospitais. Enfim, é dinheiro nacional ficando no Brasil e sendo melhor investido para o bem de sua população. Agradecimentos A equipe envolvida no desenvolvimento do Sistema de Informatização de Clínicas agradece à vital colaboração da administração da FORP/USP, principalmente à Prof. Dra. Sada Assed (Vice- Diretora) e à Profa. Dra. Marisa Semprini (Diretora), que tornaram viável a realização deste desafio. Referências [1] Departamento de Informática do SUS DATASUS. Política Nacional de Informação e Informática em Saúde Versão 2.0. Disponível em [http://politica.datasus.gov.br/politicainformacaosau de29_03_2004.pdf]. Visitado em junho de [2] Cúpula Mundial sobre Sociedade da Informação. Software Livre: cultura de solidariedade e de compartilhamento. Disponível em [http://www.softw arelivre.gov.br/documentos/samuelgenebra/view]. Visitado em julho [3] Revista do Linux. Linux no SUS. Disponível em [http://www.revistadolinux.com.br/ed/028/assinantes /servico_publico.php3]. Visitado em junho de [4] Departamento de Informática do SUS DATASUS. HOSPUB - Sistema Integrado de Informatização de Ambiente Hospitalar. Disponível em [http://hospub.datasus.gov.br/programas/aprese ntacao.php]. Visitado em julho de [5] Yourdon, E. (1990), Análise Estruturada Moderna, Rio de Janeiro: Editora Campus. [6] Booch, G., Rumbaugh, J., Jacobson, I. (2000), UML: Guia do Usuário, Rio de Janeiro: Editora Campus.

5 [7] New Architect: Features. PostgreSQL vs. MySQL. Disponível em [http://www.webtechniques. com/archives/2001/09/jepson/]. Visitado em junho de [8] Dev Shed. Using Transactions In MySQL. Disponível em [http://www.devshed.com/c/a/mysql /Using-Transactions-In-MySQL-Part-1/2/]. Visitado em junho de [9] ALICE Detector Database Group. Comparison of Oracle, MySQL and Postgres DBMS. Disponível em [http://det-dbalice.if.pw.edu.pl/det-dbalice/ttraczyk/d b_compare/db_compare.html]. Visitado em julho de [10] PHP: Hypertext Preprocessor. What is PHP? Disponível em [http://www.php.net/]. Visitado em julho de [11] NA informática. Governo poupa 30% com Linux. Disponível em [http://an.uol.com.br/2004/jun/ 16/0inf.htm]. Visitado em julho de Contato Luciano Luiz Finco Analista de Sistemas Fone: (16) Juliano Pratti Mercantil Técnico em Informática Fone: (16) Rubens Ferreira de Albuquerque Jr. Presidente da Comissão de Informática Fone: (16)

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