Novas regras forçaram registo de casas de férias em seis meses

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1 EDIÇÃO LISBOA QUA 27 MAI 2015 OCDE contesta disparidade de atendimento nos centros de saúde p10/11 Novas regras forçaram registo de casas de férias em seis meses PRÉMIOS 2014 JORNAL EUROPEU DO ANO JORNAL MAIS BEM DESENHADO ESPANHA&PORTUGAL Algarve representa 55% dos registos feitos ao abrigo do novo regime de alojamento local, aplicável a casas e apartamentos arrendados a turistas. Do total, 63% são apartamentos e 30% são moradias Economia, 17 NUNO FERREIRA SANTOS Amigo de Sócrates já está em prisão domiciliária BALSEMÃO ESCOLHE SUCESSOR DURÃO BARROSO ENTRA NO PODEROSO CLUBE DE BILDERBERG Carlos Santos Silva deixou ontem a prisão anexa à PJ, onde passou seis meses em prisão preventiva. Sócrates é agora o único preso p6 Portugal, 6 ALIMENTAÇÃO OS SNACKS DO FUTURO TÊM BARATAS, LARVAS E OUTROS INSECTOS TOS Lista VIP estava a funcionar antes de ser aprovada IGF apurou que a lista dos contribuintes VIP arrancou 11 dias antes do despacho favorável e recomenda processos disciplinares p4 Protecção de Dados exige mais autonomia Presidente Filipa Calvão diz que dependência do Ministério das Finanças condiciona actuação p2/3 Ciência, 30/31 O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry Com aguarelas do autor, prefácio de Álvaro Magalhães e tradução dee Ana Saldanha Clooney ganhava as lutas todas, agora leva sempre porrada HOJE por apenas + 2,90 Carreira de George Clooney dá mais uma reviravolta com A Terra do Amanhã. Fomos ouvi-lo antes da estreia, amanhã p28/29 PUBLICIDADE Os prémios atribuídos de valor superior a estão sujeitos a imposto do selo, à taxa legal de 20%, nos termos da legislação em vigor. Ganhe até com a nova Raspadinha dos 20 anos. ISNN: Ano XXVI n.º ,15 Directora: Bárbara Reis Directores adjuntos: Nuno Pacheco, Simone Duarte, Pedro Sousa Carvalho, Áurea Sampaio Directora de Arte: Sónia Matos 05587b c2-bbc7-6dc04a76e1a4

2 2 DESTAQUE PÚBLICO, QUA 27 MAI 2015 ENTREVISTA PÚBLICO/RENASCENÇA Depender das Finanças condiciona a nossa liberdade decisória Filipa Calvão Presumo que não vão legislar sobre drones sem nos consultarem, afirma a presidente da Comissão Nacional de Protecção de Dados Ana Henriques e Liliana Monteiro A presidente da Comissão Nacional da Protecção de Dados entende que é grave a divulgação na Internet do vídeo das agressões ao aluno da Figueira da Foz pelos colegas. A dirigir esta entidade independente desde 2012 e doutorada em Direito, em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Coimbra, Filipa Calvão tem afrontado o Governo em matérias tão sensíveis como a lista de contribuintes VIP, a base de dados de pedófilos ou o uso de drones pela polícia nas manifestações, pondo em causa a legalidade destas medidas. Em casos como o do vídeo das agressões ao jovem da Figueira da Foz, como se equilibra o direito à privacidade com aquilo que pode constituir prova de um crime? Toda a recolha e disponibilização de imagens de pessoas constitui um tratamento de dados pessoais e nessa medida depende de previsão legal ou de autorização da Comissão Nacional da Protecção de Dados que só pode ser dada se houver consentimento de todos os envolvidos ou se existir um interesse público importante que justifique essa divulgação. Acontece que nos processos-crime tem havido alguma jurisprudência que, ponderando os valores em causa, faz prevalecer a sanção do crime sobre as regras da privacidade. Como vê a eventual utilização das imagens deste esbofeteamento em tribunal? A disponibilização destas imagens na Internet é grave, devendo ser adoptadas medidas para prevenir este tipo de situações tal como são graves os comportamentos retratados. As primeiras imagens que apareceram na comunicação social não tinham o rosto dos jovens tapado. É preciso ter algum cuidado nesse tipo de coisas. Os jovens têm hoje um conceito de privacidade diferente do dos adultos? É uma geração que cresceu num mundo tecnológico muito mais avançado que o das gerações anteriores. Por regra, a curto prazo é-lhes irrelevante o que possa ser feito com essas imagens: estão mais à vontade com a exposição da sua vida do que as gerações mais velhas. Mas não sei se estão suficientemente informados sobre as consequências que pode ter, na sua vida, a utilização de determinadas imagens suas a médio e longo prazo. São imagens que mais cedo ou mais tarde os podem vir a prejudicar. Podem servir para contratar ou não alguém no mundo laboral, por mostrarem que ele fez isto e aquilo em dado ponto da sua vida. Situações como a que aconteceu no Marquês de Pombal, em Lisboa, durante os festejos do Benfica, podiam ser mais prontamente resolvidas com videovigilância? Até agora, não há estudos que demonstrem claramente que um sistema de videovigilância sobre uma cidade ou um concelho previna efectivamente desacatos, crimes ou o que seja. A câmara não salva ninguém. Grava, transmite imagem em tempo real. Mas a intervenção policial é seguramente mais eficaz na prevenção da prática de crimes. O Ministério da Administração Interna articula-se com a comissão quando julga necessário recolher imagens de manifestações, por exemplo? Nos termos da lei, isso implica a consulta à Comissão da Protecção de Dados para emissão de parecer. Mas tem-no feito a tempo, tendo em conta que algumas decisões têm de ser tomadas quase de um dia para o outro? Quando é invocada urgência, o pedido chega em cima da hora, sem dar oportunidade à comissão para se pronunciar atempadamente. Nesse caso aprecia-se a posteriori se os pressupostos para a utilização de câmaras pelas forças de segurança estavam preenchidos. Não estando, isso implica a obrigatoriedade de eliminação das imagens, que não podem servir para efeitos de prova. Foi o que já sucedeu com o uso de drones pela PSP. A utilização destes aparelhos já foi regulada, como tem pedido repetidamente a comissão? É uma questão que tem muitas implicações na segurança nacional e na segurança física dos próprios cidadãos há riscos de acidentes com os drones, que podem chocar uns com os outros ou cair em cima das pessoas. E ao nível do impacto na privacidade. Está em preparação um diploma sobre a matéria que, tanto quanto sei, não tem ainda normas relativas à privacidade. Que é evidente que não pode deixar de ter. Recebem muitas queixas de videovigilância ilegal ou inadequada? Feitas por causa de drones são poucas ainda, até porque ainda não existe um sistema que permita saber quem os está a usar em cada momento e em cada local. Mas temos muitas queixas de utilização alegadamente indevida de videovigilância, quer nas relações de vizinhança, quer pelas entidades laborais. Isso é legal? Os sistemas de videovigilância das empresas não podem ser para controlo do trabalhador. Mesmo quando é apanhado a roubar pelas câmaras? A Constituição proíbe a invasão das comunicações entre cidadãos, a não ser que exista um despacho de um juiz a autorizar uma investigação criminal. Aqui põe-se o mesmo problema que nas comunicações electrónicas: em princípio, não é lícito usar essas imagens para levantar um processo disciplinar. Agora, quando está em causa a prática de um crime, o direito à privacidade

3 PÚBLICO, QUA 27 MAI 2015 DESTAQUE 3 EDGAR SOUSA Portugal Ver mais em pode ser ponderado. A comissão perdeu poder quando os seus pareceres sobre a instalação de videovigilância deixaram de ser vinculativos. Isso mudou alguma coisa? Só em relação ao regime da obtenção de imagens em espaços públicos pelas forças de segurança. Tendencialmente, os argumentos da comissão são, alegadamente, tomados em consideração pelo MAI. A comissão já se sentiu pressionada pelo Governo? Pela sua natureza independente, não se sente pressionada. A independência é isso mesmo: sobreviver a todo o tipo de pressões. Mas não tenho ideia que haja verdadeiramente pressões. É então uma entidade querida? [ri-se] Depende por quem. Há pessoas que a respeitam, mas nem sempre é bem-vista, porque diz muitas vezes que não. Emite muitas vezes pareceres negativos sobre diplomas legislativos, e por isso nem sempre é das entidades mais estimadas. Mas junto do público tem uma imagem positiva. Já disse uma vez que o Governo por vezes se esquece de pedir pareceres à comissão... Isso é o contrário do que perguntou atrás: nós é que pressionamos os titulares do poder político e legislativo para que não se esqueçam de nós e nos façam a consulta prevista por lei. É isso que está a acontecer com a lei dos drones? A comissão não foi, de facto, ainda ouvida, mas presumo que não vão legislar sobre drones sem nos consultarem. Tenho dúvidas de que isso possa sequer ser equacionado pelos titulares do poder legislativo. O Governo quer avançar com uma lista de pedófilos que já mereceu parecer negativo de várias entidades, incluindo a Protecção de Dados. Pode ser uma medida morta à nascença? Tenho muitas dúvidas sobre a sua conformidade com a Constituição. Essa informação já existe numa base de dados a que têm acesso as forças policiais e de investigação, que é o registo criminal. Temos dificuldade em perceber por que razão é preciso duplicá-la. Mas o principal problema da lei aprovada na generalidade no Parlamento é termos cidadãos comuns a acederem, por via indirecta, a essa base de dados. Estão a criar-se condições para uma espécie de justiça popular, carimbando na rua quem devia poder reintegrar-se na sociedade, uma vez que já cumpriu pena. Não percebo a utilidade prática desta medida. Não me parece que traga vantagens na prevenção da pedofilia. No direito penal, não me parece que se possa considerar esta lei legítima. O que sabe a comissão sobre a lista VIP do fisco? Tanto quanto sei, já não existe. O maior problema é determinar quem tem legitimidade para aceder aos dados. Ainda estamos à espera que nos digam que medidas serão adoptadas para prevenir esse acesso, que nos pareceu excessivo quer no número de pessoas, quer das entidades fora da Autoridade Tributária (AT) sem que esta controle quer os acessos por entidades internas, quer por externas. Há um prazo para o fazerem que termina em Setembro. Esse descontrolo no acesso aos dados dos cidadãos estende-se a outras áreas? Previmos realizar este ano inspecções a sistemas de bases de dados públicas e privadas para verificar como está a ser tratado o acesso a dados pessoais pela administração pública. A saúde é uma dessas áreas e a Segurança Social outra bem como a base de perfis de ADN. O caso da lista VIP pode dar origem à aplicação de multas ao Governo? Enviámos o processo para o Ministério Público. Se este concluir que não há crime, devolve-nos o processo e nós teremos de avaliar os factos que apurámos do ponto de vista da aplicação de coimas. O sistema está mal construído de raiz, por culpa de vários intervenientes. Desde logo do legislador, que, ao longo destes anos todos, não tem acautelado essa questão. Cada vez mais os dados dos cidadãos estão entregues a empresas privadas, por via do outsourcing feito pelos diferentes ministérios... É um problema. A tentativa de encolher a administração pública desde a última crise financeira teve como consequência a falta de recursos humanos. Não censuramos o recurso ao outsourcing. O que censuramos é que, dentro das entidades privadas, que são muitas, haja tanto trabalhador a aceder a informação sensível, sem que exista um controlo. Neste caso, a AT é responsável por verificar se as empresas que contratou estão a cumprir as regras. Já há resultados sobre a inspecção que a comissão fez à factura electrónica, que permite reconstituir todo o percurso de um cidadão se foi ao cabeleireiro, se foi à farmácia, a que horas o fez? Ainda não a concluímos. A ideia é verificar em que termos é processada a informação recolhida, que é, de facto, muito sensível, por retratar o nosso dia-a-dia. Vamos verificar se essa informação está a ser usada para os fins previstos na lei ou também para outras finalidades. O número de pessoas da AT a aceder a essa informação é, contudo, mais restrito. Como é que só com 25 trabalhadores a Protecção de Dados consegue levar a cabo este manancial de tarefas? A comissão precisa de condições especiais e de autonomia para exercer a sua função com independência A comissão emite muitos pareceres negativos, e por isso nem sempre é das entidades mais estimadas. Mas junto do público tem uma imagem positiva Com muita dificuldade e muitas angústias. Há dez anos entravam anualmente na comissão dois a três mil processos, em 2014 foram cerca de 18 mil. É estranho que o número de trabalhadores da comissão tenha vindo a ser reduzido em vez de aumentado. E o orçamento é suficiente? O problema são os condicionamentos à forma de gastar esse dinheiro. Queríamos contratar juristas e técnicos especializados, que não estão disponíveis no regime de mobilidade da administração pública, e não podemos ir ao mercado buscá-los. Será essa limitação propositada? Também não diria tanto. Mas a comissão precisa de condições especiais e de autonomia para exercer a sua função com independência. Não pode ficar dependente de autorizações ou pareceres favoráveis do Ministério das Finanças para gerir as despesas no seu dia-a-dia. É, evidentemente, condicionador da sua liberdade decisória. Recebem muitas reclamações? Em que áreas? No ano passado tivemos quase 700 queixas. As pessoas queixamse de videovigilância, mas também de spam, as comunicações de marketing que para serem enviadas dependem, nos termos da lei, do consentimento dos cidadãos. Também há queixas sobre o tratamento de dados feito por entidades públicas não ser o mais correcto. Quais são as hipóteses de um cidadão que queira ver-se livre das empresas que o assediam sistematicamente com vendas agressivas? Deve guardar todas as provas disso e queixar-se à comissão. No caso dos telefonemas, é mais difícil, porque os números dos quais nos ligam nem sempre aparecem identificados. É das coisas que mais incomodam as pessoas e em relação às quais é mais difícil garantir a sua defesa. Mas em princípio o contacto é feito em nome de uma empresa, sendo possível seguir esse rasto. E quando o cidadão diz que não quer que o voltem a contactar, normalmente as empresas retiram o seu nome da base de dados. O problema é quando os contactos telefónicos são subcontratados a outra empresa.

4 4 PORTUGAL PÚBLICO, QUA 27 MAI 2015 Lista de contribuintes VIP já estava a funcionar ainda antes de ser aprovada Inquérito pedido por Paulo Núncio à IGF conclui que o fisco não informou o secretário de Estado. Inspecção aponta falhas no controlo dos acessos aos dados dos contribuintes e sugere registo prévio de funcionários Fisco Pedro Crisóstomo Os serviços da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) já tinham a funcionar a lista de contribuintes VIP mesmo antes de o então subdirector-geral José Maria Pires aprovar a criação deste sistema de alerta, que permitia saber quem consultava dados fiscais de quatro contribuintes (Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Paulo Núncio). No inquérito ao caso, a Inspecção- -Geral de Finanças (IGF) arrasa os procedimentos que levaram à criação da lista, considerando que a medida foi aprovada sem fundamentação, sem poder ser hierarquicamente supervisionada e, de resto, sem garantir a protecção do sigilo fiscal. As lacunas que a IGF encontrou em relação à protecção dos dados dos contribuintes, plasmadas nas conclusões ontem publicadas por este organismo do Ministério das Finanças, não se ficam pela lista VIP incluem vários procedimentos internos verificados nesta inspecção. A IGF avançou com este inquérito por ordem do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, um dos nomes incluídos na lista VIP. Em relação a este sistema de controlo, a inspecção diz que a medida não reunia as condições para ser aprovada. Mas foi o que aconteceu a 10 de Outubro, dia em que António Brigas Afonso, então director-geral do fisco, estava ausente e tinha como substituído legal José Maria Pires. Uma das conclusões da IGF é a de que a lista foi testada durante vários dias antes mesmo de José Maria Pires dar despacho favorável à criação deste sistema de alerta. A lista esteve em funcionamento entre 29 de Setembro de 2014 e 10 de Março de 2015, tendo o início ocorrido em momento anterior ao próprio despacho de autorização, a 10 de Outubro. Segundo a IGF, a medida consta de uma informação de página e meia, sem fundamentação, de facto e de direito, dos motivos e dos critérios para o tratamento específico e privilegiado daquele grupo de contribuintes, sem descrição precisa dos procedimentos e tarefas a desenvolver e sem a clara identificação dos responsáveis pela respectiva implementação. O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio (CDS-PP), que tutela a AT, era um dos quatro nomes da lista VIP A entidade de inspecção das Finanças diz que a criação daquele sistema foi uma medida não fundamentada, arbitrária e discriminatória, além de manifestamente ineficiente e ineficaz para proteger o sigilo fiscal dos contribuintes. A falta de definição clara das tarefas e da correspondente responsabilidade, a ausência de supervisão da estrutura hierárquica, diz a IGF, levaram a que a gestão da lista ficasse exclusivamente nas mãos de um só responsável da AT. Suspeitas de actos ilícitos A IGF na dependência do Ministério das Finanças e a quem o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais ordenou este inquérito diz que Brigas Afonso não informou aquele governante da existência e do funcionamento da lista VIP, uma versão que coincide com a de Paulo Núncio. Brigas Afonso, que foi ouvido no Parlamento a 20 de Março, já tinha revelado aos deputados que o secretário de Estado lhe perguntou em Fevereiro se havia uma lista. Eu disse que não. Depois, quando o processo se tornou mediático, fui ver e havia um processo de auditoria em que essa lista era referida, concedeu então Brigas Afonso, que a IGF refere agora como tendo dado uma informação incorrecta à tutela. A IGF recomenda que sejam instaurados processos disciplinares aos funcionários dirigentes da AT envolvidos no caso, considerando que os actos praticados são susceptíveis de integrar diferentes ilícitos, graus de culpa e de censura. O Ministério Público, que abriu um inquérito, a correr no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa, tem em mãos as conclusões de um outro relatório, elaborado pela Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), em que também se admite que o caso pode indiciar ilícitos criminais. E, tal como a CNPD, a IGF encontrou lacunas na segurança dos dados dos contribuintes, que podem comprometer o sigilo fiscal. Uma das falhas tem que ver com o facto de os utilizadores das aplicações informáticas acederem livremente aos dados dos contribuintes. Para além dos cerca de funcionários da AT, há 2302 utilizadores externos (foi este o número identificado pela CNPD, mas a IGF refere apenas 893 utilizadores exteriores). À parte da lista VIP, a IGF diz que a AT não tem um controlo de segurança para verificar acessos indevidos, porque não foi avaliado esse risco e porque parte do pressuposto indevido de que a informação no interior da AT já está protegida pelo dever de sigilo dos trabalhadores. MIGUEL MANSO Segundo a IGF, a AT preocupou-se quase exclusivamente em relação a ataques externos, descurando a protecção contra acessos indevidos e ofensivas por parte dos próprios trabalhadores e colaboradores. Para prevenir acessos indevidos, a IGF recomenda que o fisco desenvolva uma aplicação em que os utilizadores façam o registo prévio do procedimento ou do acto administrativo que justifica o acesso aos dados, tal como já acontece com os dados do E-factura. À AT, actualmente liderada por Helena Borges, a IGF recomenda ainda que monitorize o cumprimento das regras de utilização das credenciais que cada funcionário do fisco tem para consultar os dados fiscais. E, para além de medidas de prevenção, sugere que sejam definidas detalhadamente as medidas de reacção imediata quando há acessos indevidos.

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6 6 PORTUGAL PÚBLICO, QUA 27 MAI 2015 NUNO FERREIRA SANTO Empresário amigo de Sócrates deixa a cadeia e regressa a casa com pulseira electrónica Durão Barroso, da presidência da Comissão Europeia para a direcção do Clube Bilderberg Balsemão escolhe Durão Barroso para lhe suceder em Bilderberg Clube Internacional Maria Lopes Patrão da Impresa deixa direcção do clube ao fim de 32 anos. É altura de dar lugar a outro português, afirmou ao PÚBLICO Ao fim de 32 anos, Francisco Pinto Balsemão vai deixar o restrito clube de Bilderberg e já escolheu o seu sucessor no Steering Committee, o conselho director que organiza os encontros anuais. Será Durão Barroso, o ex-presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro que o irá substituir, apurou o PÚBLICO. O novo nome português terá ainda que ser aprovado pelos restantes membros. Espera-se que Barroso assuma o cargo depois da reunião anual do clube, marcada para os Alpes austríacos para daqui a duas semanas dias depois e a poucos quilómetros do local da reunião do G7 na Alemanha. Ao PÚBLICO, Pinto Balsemão confirmou a decisão de abandonar o Steering Committee de Bilderberg e a escolha de Durão Barroso. Achei que era a altura de dar lugar a outro português, limitou-se a justificar o também fundador do PSD, que poderá continuar a ser convidado para as conferências deste restrito clube. Balsemão é dos mais antigos mem- bros daquele conselho director fez oito mandatos de quatro anos quando o habitual é metade. Em 1999 organizou na Penha Longa, em Sintra, a única reunião em Portugal. Durão Barroso já conhece os cantos à casa: foi convidado em 2003 e 2005 e manteve uma ligação como consultor. Quase tudo é decidido e discutido em segredo neste clube de poderosos. O local da reunião anual só costuma ser anunciado dias antes, assim como os nomes dos convidados, e os tópicos dos temas a discutir. Os participantes não podem divulgar o conteúdo das reuniões e impera o princípio da Chatham House Rule podem usar a informação discutida mas sem atribuir a sua origem. Órgão intermédio da organização, o Steering Committee realiza duas reuniões por ano, escolhe os temas e oradores da conferência anual. É para esta conferência que os conselheiros levam convidados do seu país. Abaixo deste conselho director, há um outro nível de ligação a Bilderberg, constituído por personalidades que prestam algum tipo de consultoria ao Steering Committee, e que podem já ter passado (ou não) pelas reuniões anuais. O Steering é constituído por 33 filiados políticos, académicos de renome, empresários e gestores de topo e de empresas de peso internacional e actualmente é presidido por Henri de Castries, o presidente executivo do grupo AXA. O magnata norte-americano David Rockfeller é conselheiro e integra o órgão supremo, o restrito Advisory Comine, de apenas nove membros. Balsemão, que entrou em Bilderberg em 1983 (acredita-se que por alguma influência de Medeiros Ferreira, que fora ministro dos Negócios Estrangeiros), costuma convidar uma personalidade mais à esquerda e outra à direita. Ainda não se conhecem as duas personalidades deste ano, mas o social-democrata tem tido dedo para a escolha de nomes que acabam por ganhar relevância na vida nacional. Pela sua mão já ali passaram os antigos primeiros-ministros (alguns antes de o serem, como Santana Lopes e José Sócrates, ambos em 2004), assim como praticamente todos os líderes do PS e do PSD excepto Passos, que foi convidado mas acabou por não ir. Mas também gestores como Ricardo Salgado, António Borges, Vasco de Mello, Murteira Nabo, Artur Santos Silva, Vasco Pereira Coutinho ou Miguel Horta e Costa. Jornalistas como Clara Ferreira Alves, Nicolau Santos, Margarida Marante ou José Eduardo Moniz. E muitos políticos António Guterres, Jorge Sampaio, Rui Machete, Deus Pinheiro, António Vitorino, Ferro Rodrigues, Paulo Portas, Leonor Beleza, Rui Rio, António Costa, Manuela Ferreira Leite, Teixeira dos Santos, Paulo Rangel, Nogueira Leite, Luís Amado ou Moreira da Silva. Operação Marquês Pedro Sales Dias Carlos Santos Silva esteve seis meses em prisão preventiva. Juiz ainda não se decidiu se ex-primeiroministro continuará preso O empresário Carlos Santos Silva, amigo do ex-primeiro-ministro José Sócrates e também arguido no mesmo processo, regressou ao final da tarde de ontem a casa, em Lisboa, onde ficará vigiado com pulseira electrónica enquanto decorre o inquérito, confirmou o PÚBLICO junto de fonte dos serviços prisionais. O arguido saiu pelas 18h30 da cadeia anexa de PJ em Lisboa e chegou a casa, em Telheiras, Lisboa, pelas 19h. A alteração da medida de coacção ocorre seis meses após o empresário ser colocado em prisão preventiva e numa altura em que se impunha a revisão da decisão. O juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal, Carlos Alexandre, decidiu a alteração da medida e terá recebido na tarde de segunda-feira o relatório dos técnicos da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais favorável ao regresso a casa. O PÚBLICO tentou, sem sucesso, contactar a sua advogada, Paula Lourenço. Na segunda-feira, os técnicos deslocaram-se à habitação para verificarem as condições para a instalação do equipamento necessário ao controlo dos movimentos do arguido por pulseira electrónica. Já quanto a Sócrates, a alteração da medida de coacção ainda não se verificou. A última revisão teve lugar Carlos Santos Silva está desde ontem em prisão domiciliária em 9 de Março, pelo que ainda não decorreu o prazo legal para nova revisão, referiu o Conselho Superior da Magistratura num enviado ao PÚBLICO. Também um dos advogados de Sócrates, Pedro Delille, garantiu que até ontem a defesa não foi notificada de qualquer mudança na medida de coacção, pelo que o ex-governante se mantém em prisão preventiva. De resto, o advogado congratulou-se com a saída da cadeia de Carlos Santos Silva. Não temos qualquer reacção, mas é sempre um final positivo saber que o engenheiro Carlos Santos Silva deixa de estar em prisão preventiva. Esperemos que o mesmo venha a acontecer com o engenheiro José Sócrates face aos vários recursos interpostos. Aliás, sempre dissemos que a prisão preventiva é completamente injustificável, disse. A revisão da medida de coacção de José Sócrates só deverá ser tomada nas próximas duas semanas, dado que o juiz tem até 9 de Junho para a reexaminar. João Araújo, outro advogado de José Sócrates, expressou sexta-feira um entendimento diferente do juiz, insistindo que o prazo para rever a prisão preventiva do exprimeiro-ministro termina no próximo domingo, 24 de Maio. Santos Silva, que na tese do MP será testa-de-ferro de Sócrates, foi detido a 20 de Novembro, na véspera da detenção do ex-primeiro-ministro. Ambos ficaram presos preventivamente a partir de 24 de Novembro, por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. A defesa de Sócrates, adiantou Pedro Delille, entregou um recurso no Tribunal Constitucional no qual contesta a decisão da Relação de Lisboa, que, em Março passado, confirmou a prisão preventiva de Sócrates, comprovando a existência de indícios suficientes dos crimes e também o risco de perturbação da recolha e conservação da prova. Sócrates é agora o único arguido em prisão preventiva neste processo. Também o ex-motorista de Sócrates, João Perna, que esteve inicialmente na cadeia, foi libertado em Fevereiro após o juiz ter considerado que já não estava em causa os perigos de fuga e de continuação da actividade criminosa. Igualmente o administrador do Grupo Lena Joaquim Barroca Rodrigues, suspeito de ser um dos principais corruptores do ex-primeiro-ministro José Sócrates, deixou no mês passado o Hospital-Prisão de Caxias e regressou a casa, onde aguardará o desenvolvimento do processo em prisão domiciliária.

7 Apoio às micro e pequenas empresas O NOVO BANCO tem soluções moldadas à medida da Indústria, soluções feitas por uma equipa que conhece bem o setor e as ferramentas para o apoiar. Esse conhecimento e essa experiência são determinantes, por exemplo, nas candidaturas ao PME Crescimento 2015, ao Compete 2020 e no acesso à linha de crédito FEI INOVAÇÃO. Se juntarmos a isto inovações como o NB Express Bill que garante pagamentos e recebimentos a horas já percebemos melhor por que razão o NOVO BANCO é uma referência no apoio às micro e pequenas empresas, ou seja, no apoio a quem faz. novobanco.pt/empresas

8 8 PORTUGAL PÚBLICO, QUA 27 MAI 2015 PCP quer metade da dívida perdoada, manter TSU, reduzir IVA e salvar a TAP Há solução para os problemas nacionais, diz Jerónimo de Sousa, que apresentou ontem os principais eixos do programa, com críticas ao Governo e ao PS. PCP quer baixar o IVA da restauração de 23% para 13% Eleições Maria João Lopes Quando o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, disse que o partido é pelo rigor das contas públicas e deu como exemplo de seriedade na gestão de dinheiros públicos as autarquias CDU, a assistência aplaudiu. Na apresentação dos principais eixos do programa eleitoral, ontem, em Lisboa, o líder comunista deixou claro ser possível defender serviços públicos, renegociar a dívida ou aumentar salários, sem ferir as contas do país. Alterações fiscais no IVA, no IRS, o cumprimento integral dos descontos para a Segurança Social com base na TSU, a recapitalização da TAP e o perdão de cerca de metade da dívida são algumas das propostas. Há solução para os problemas do país, afirmou Jerónimo de Sousa. Sobre o tema da sustentabilidade do sistema, e opondo-se a alterações nos descontos através da Taxa Social Única, defendeu a adopção de medidas que garantam o cumprimento integral dos descontos para a Segurança Social com base na TSU e a diversificação das fontes de financiamento através do Valor Acrescentando Líquido criado pelas empresas. No documento está ainda inscrita a revogação da sobretaxa do IRS e a fixação de dez escalões e do regime de deduções deste imposto ; a redução da taxa normal do IVA e o alargamento da aplicação da taxa reduzida ou intermédia a bens e serviços essenciais, o que inclui o IVA a 13% na restauração. E defendem ainda a criação de um imposto sobre transacções financeiras e sobre o património mobiliário. A apresentação do programa final é a 7 de Julho, mas o PCP adiantou já que é pelo fim das taxas moderadoras, pela garantia de que todos os portugueses têm médico de família e pela reposição de transporte a doentes não-urgentes. E querem um Programa Nacional de Combate à Precariedade. Os comunistas defendem a redução dos custos de energia, o fim do pagamento especial por conta pelas pequenas e médias empresas, a reposição dos salários, o aumento destes em geral, assim como o do NUNO FERREIRA SANTOS Jerónimo de Sousa explicou que pretende assegurar uma política fiscal que elimine a protecção ao grande capital e combata a evasão fiscal salário mínimo nacional para 600 euros no início de No que toca a impostos, o PCP assume com toda a clareza que a política fiscal pode e deve garantir as receitas públicas necessárias para que o Estado cumpra as funções sociais: A questão fiscal não é o falso dilema em que insiste a política de direita, de subir ou descer impostos em abstracto. A questão é ver quem pode e deve pagar mais ou quem deve pagar menos, disse Jerónimo, defendendo ser necessário desagravar significativamente a carga fiscal sobre os trabalhadores e sobre quem tem rendimentos mais baixos e onerar fortemente a tributação do grande capital, dos seus lucros e da especulação financeira. Renegociar a dívida O PCP quer ainda romper com dependências externas e renegociar a dívida: Uma renegociação da dívida directa do Estado, em particular da correspondente ao empréstimo da troika, com uma redução dos montantes não inferior a 50% do valor nominal, em simultâneo com a renegociação de prazos e juros, visando a diminuição dos custos com o serviço da dívida em 75% que, associado a um pagamento que tenha como referência o valor das exportações, permitirá libertar mais de seis mil milhões de euros por ano para os atribuir ao investimento público, às funções sociais do Estado, à dinamização da economia. Jerónimo de Sousa explicou que se pretende, do lado da receita do Estado, assegurar uma política fiscal que elimine a protecção ao grande capital e combata a evasão fiscal. Do lado da despesa, as propostas passam pelo resgate das PPP e dos contratos swap, por uma séria limitação à contratualização de serviços externos e por um eficaz combate ao desperdício e descontrolo na utilização dos dinheiros públicos. Sobre a TAP, defendem a recapitalização da transportadora por via do Estado e a garantia do controlo público da totalidade da empresa. E insistem no fim dos constrangimentos externos impostos pela União Europeia, o que passa por preparar o país para se libertar da submissão ao euro. O Jerónimo de Sousa quer onerar fortemente a tributação do grande capital, dos seus lucros e da especulação financeira PCP defende ainda um forte poder local com regiões administrativas e uma estrutura administrativa descentralizada. No discurso, Jerónimo de Sousa insistiu que os portugueses não têm de escolher entre os dois males que os partidos da política de direita propõem. E referiu-se mesmo a inconsistentes cenários macroeconómicos, sem qualquer colagem com a realidade, construídos para justificar o prosseguimento da política de afundamento. Antes, o membro do comité central do PCP, Agostinho Lopes, já tinha abordado o cenário macroeconómico do PS com alguma ironia, quando disse que o programa do PCP, sem desvalorizar a contribuição especializada, não é um programa de sábios. Mas defendeu ser uma farsa haver diferenças entre os programas do PS e da coligação.

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