ACESSO DAS AGÊNCIAS DE SEGURANÇA À INFORMAÇÃO: VIDEOVIGILÂNCIA CONTRA A CRIMINALIDADE/TERRORISMO

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1 DEMOCRACIA ACESSO DAS AGÊNCIAS DE SEGURANÇA À INFORMAÇÃO: VIDEOVIGILÂNCIA CONTRA A CRIMINALIDADE/TERRORISMO Intelligence Agencies: Video Surveilance Against Crime/Terrorism MARIANA YEE RAPOSO DA SILVA Mestranda em Direito e Segurança Há momentos em que a maior sabedoria É parecer não saber nada Sun Tzu RESUMO Os serviços de informação constituem actualmente a primeira linha da defesa e segurança. As ameaças são infinitas e com contornos indefinidos. O único mecanismo de defesa a revelar-se capaz, é a antecipação de ameaças. É aqui que entram os serviços de informação. É necessária uma abordagem integrada da Segurança Nacional, implicando a estreita coordenação e colaboração entre todas as entidades com competências directas ou indirectas para o assunto. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 1

2 A intelligence, é a actividade precisa e especializada, desenvolvida por instituições governamentais, específicas na recolha de informação. A crescente importância deste campo é provocada pelo rápido desenvolvimento da tecnologia militar ou mesmo civil. A Segurança Internacional revela-se tão ou mais importante do que a Segurança Nacional, face ao aumento exponencial de ameaças terroristas e do crime organizado internacional. Mesmo as actividades organizadas por grupos criminosos em território nacional. Caracterizam-se por um grau elevado de flexibilidade e mobilidade, pelo simples facto, da sua subsistência incidir num apoio logístico, que só o conseguem adquirir no estrangeiro como o armamento, financiamento, branqueamento e documentação. Combater terrorismo ou criminalidade internacional com meios meramente nacionais é uma impossibilidade nos seus termos, e daí a necessidade de uma maior integração de estruturas de segurança, polícia e serviços de informações, implementada pela primeira vez com o Espaço Schengen. A videovigilância é um investimento útil e determinante na política de segurança e prevenção de criminalidade. Permite prevenir o crime, fornece mais meios à investigação criminal, permite que as forças policiais cheguem mais rapidamente ao local e com informação mais pormenorizada. No entanto, poder-se-iam colocar objeções a este método (videovigilância), levantando-se o argumento de que a vida privada dos cidadãos não seria respeitada. Felizmente este argumento não procede, face ao facto de que a todos os sistemas de vigilância é obrigatório ter uma utilização licenciada pela Comissão Nacional da Proteção de Dados. Cujo objectivo e o seu regime jurídico visam apenas o dissuadir e registar a prática de algum ilícito. O meio utilizado deverá ser idóneo, atendendo-se ao princípio da intervenção mínima, que obriga à ponderação entre o objectivo final ( a segurança) que se pretende alcançar e a necessidade da violação do direito à imagem e privacidade. A videovigilância pode também ser usada para conflitos armados, nomeadamente para o combate ao terrorismo, neste caso os conhecidos drones. Veículos aéreos, remotamente pilotados para executar acções militares que sejam perigosas para qualquer ser humano. Podendo a estes dar-se dois usos: A videovigilância per si e o disparar de material militar, como bombas e mísseis. São estes os equipamentos utilizados por Obama, tomando como exemplo no Iemén e que pecam por ser afirmarem ataques CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 2

3 cirúrgicos que provocam poucas baixas civis. No entanto, não é isso que se tem verificado, e muitos inocentes tem sido apanhados nas teias das novas tecnologias, criando-se um sentimento de sede de justiça e vingança por parte das famílias das vítimas. É neste sentido que vale colocar-se a seguinte questão: Serão estes ataques de combate ao terrorismo lícitos, ou considerados crimes de guerra, cujos danos não podem ser maiores do que os riscos que se pretende evitar? PALAVRAS-CHAVE Serviços de Informação; Defesa Nacional; Segurança Nacional; Segurança Internacional; Crime organizado; Terrorismo; Videovigilância; Drones; Crimes de guerra. ABSTRACT The intelligence services are the first line of defense and security. The threats are endless and with indefinite boundaries. The only defense mechanism proving to be capable is the anticipation of threats. That s when the intelligence services take a step. It is required an integrated approach to National Security, involving close coordination and collaboration between all entities with direct or indirect power and skills to the matter. The intelligence is the specific activity and specialized, developed by government institutions, specific in information gathering. The growing importance of this theme is caused by quick military/civil technology development. The International Security proves to be more important than National Security, given the exponential increase of terrorist threats and organized crime. Even those organized criminal groups in national territory, are characterized by a high degree of flexibility and mobility, simply because, their livelihoods involve a logistical support, that they can only acquire abroad, such as arming, financing, money laundering and legal documentation. Fight terrorism or international crime with purely national resources is impossible, and there is a need for greater integration of security structures, police and intelligence services. Seen for the first time on Schengen treaty. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 3

4 Video surveillance is a useful and crucial investment in security policy and crime prevention. Allows to provide more resources and evidence to criminal investigation, allows the police to come more quickly at the scene and with more detailed information. However could be placed objections to this method, the raising argument that the private lives of citizens would not be respected. Fortunately this argument doesn t proceed by the fact that all surveillance systems is required to have a licensed use by the National Data Protection Commission. Whose purpose and its legal regime aimed only to deter and record the commission of an offense. The method used should be suitable, given to the principle of minimum intervention, which requires the balance between the ultimate goal (safety) to be achieved and the need for breaching the image and privacy. Video surveillance can also be used on a armed conflict, in particular for the fight against terrorism, the well known drones. Remotely piloted aircraft to perform military action, action considered dangerous for any human being. There are two given uses, to this aircrafts: Video surveillance itself and the shooting of military equipment, such as bombs and missiles. These are the equipment used by Obama, taking as an example in Yemen who sin to be claiming surgical strikes that cause few civilian casualties. However, these allegations don t match the reality and many innocent people have been caught in the trap of new technologies, creating a thirst feeling for justice and revenge by the family s victims. In the end it is well worth to pop the question: Are these anti-terrorism attacks lawful, or considered war crimes, whose damage can not be greater than the risks that are to be avoided? KEYWORDS Intelligence; National Defense; National Security; International Security; Organized crime; terrorism; videosurveillance; Drones, War Crimes CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 4

5 INTRODUÇÃO Os serviços de informação constituem actualmente a primeira linha da defesa e segurança. Num mundo onde as ameaças são infinitas com contornos indefinidos, onde o poder militar já não é suficiente para as combater com absoluta eficácia, o único mecanismo de defesa capaz será a antecipação de ameaças. É neste sentido que entram os serviços de informação. Quer a máquina militar, quer a policial não conseguiram ser eficazes no domínio da prevenção e actuação contra terrorismo e extremismo. Os serviços de informação agem em antecipação, abordando realidades e fenómenos que, na maioria das vezes, não constituem ainda ameaça à segurança nacional. Compõem simultaneamente, a primeira linha ofensiva e defensiva dos Estados de Direito, com a vantagem dos pequenos Estados conseguirem competir com superpotências internacionais e pelos reduzidos custos que implicam, face aos custos dos instrumentos militar e policial. É assim necessária uma abordagem integrada da segurança nacional implicando a estreita coordenação e colaboração entre todas as entidades com competências directas ou indirectas para o efeito. Os atentados de 11 de Setembro de 2001 foram um exemplo do fracasso da colaboração entre os serviços de informação e as restantes entidades competentes, como as unidades anti-terroristas. Tudo é posto em causa, desde os governos e decisores, às consequentes reacções dos mesmos, face às pressões e choques emocionais das populações. Não só as comunicações de informação falharam, mas também a falha na análise da informação existente. Em Portugal, numa tentativa de introduzir alguma coordenação em matéria de segurança foi criado no âmbito do Ministério da Administração Interna (MAI) a Unidade de Coordenação Anti-Terrorista (UCAT). Neste trabalho pretende-se abordar a função da videovigilância no combate da criminalidade, organizada ou não, e no âmbito do terrorismo. Nas palavras do anterior Ministro da Administração Interna, Rui Pereira : CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 5

6 Não podemos abandonar a tecnologia e em particular a videovigilância, porque ela é hoje o elemento decisivo das políticas de segurança e da prevenção da criminalidade. Serão também abordadas, as implicações das gravações resultantes da videovigilância, a nível da Protecção de dados, pelo facto de se colocar em causa a restrição de direitos, liberdades e garantias. Outro ponto que irá ser tratado é o uso dos drones, quer para vigilância e/ou recolha de informações, quer para o exercício da guerra contra o terrorismo Nesta luta para fazer face ao terrorismo, através da utilização de drones, podem ocorrer certas implicações a nível do Direito Internacional Humanitário. Capítulo I Acesso das Agências de Segurança à Informação 1.1 Importância das informações As informações, conhecidas também como Intelligence, são a actividade, precisa e especializada, desenvolvida por instituições governamentais específicas na recolha de informação e notícias, separada do processo de decisão e definição de políticas. A crescente importância da exploração deste campo, pelos governos é provocada pelo rápido desenvolvimento da tecnologia militar e pela complexidade da actividade militar. De facto, observam-se os novos exércitos a possuírem, cada vez mais, equipamento tecnologicamente avançado e acompanhado pela melhoria de meios de comunicação e transporte. As estruturas de comando tiveram assim de se adaptar a uma nova escala e complexidade. A resposta a esta nova realidade coloca a tónica na criação de estruturas permanentes afectas à criação de actividades de planeamento, mobilização e apoio ao processo de tomada de decisão pelos comandantes, que se encarregam de forma CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 6

7 contínua a reunir toda a informação disponível, sobre as capacidades das suas forças armadas, das de países estrangeiros e quaisquer outros factores relevantes para a condução de um possível conflito. Existe a necessidade constante da criação de relatórios regulares, de informação organizada e de comunicações, designado por C3I (Comando, controlo, comunicações e informações). 1.2 Segurança Interna e Defesa Nacional A segurança Nacional É no fim do séc XX e início do séc XXI que se verificam grandes alterações no cenário da segurança internacional e como consequência, no panorama da segurança nacional. O aumento exponencial de ameaças terroristas e do crime organizado internacional, foi claramente a mudança mais visível a salientar. Nos termos da Lei 20/87 de 12 de Junho ou Lei da Segurança Interna (LSI), o seu artigo nº1 refere que: A Segurança Interna é a actividade desenvolvida pelo Estado para garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade públicas, proteger pessoas e bens, prevenir a criminalidade e contribuir para assegurar o normal funcionamento das instituições democráticas, o regular exercício dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos e o respeito pela legalidade democrática. O mesmo diploma refere-se ainda ao âmbito territorial da segurança interna, definindo que a mesma se desenvolve em todo o espaço sujeito a poderes de jurisdição do Estado português, o que é peculiarmente limitante. No nº 3 do art. 1º, são enunciados os fins da segurança interna: As medidas previstas na presente lei visam especialmente proteger a vida e a integridade das pessoas, a paz pública e a ordem democrática contra a criminalidade CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 7

8 violenta ou altamente organizada, designadamente, sabotagem, espionagem ou terrorismo. A lei assume assim, que estes actos criminosos não são exclusivos do domínio da segurança interna. O quadro legal induzido pela LSI, relativamente à competência territorial, não se encontra bem definido. A LSI não inclui fenómenos como o terrorismo, na noção de segurança interna, referindo sim que as medidas de segurança interna visam proteger um conjunto de bens jurídicos e de um conjunto de ameaças, entre as quais o terrorismo. Podemos afirmar que a maioria dos fenómenos que podem afectar a Segurança Interna são cada vez mais de cariz internacional ou transnacional. Mesmo as actividades altamente organizadas por grupos criminosos em território nacional caracterizam-se por um elevado grau de flexibilidade e mobilidade. As organizações terroristas/ criminosas cuja origem e propósitos são nacionais, estão cada vez mais agregadas a ligações internacionais. Para puderem subsistir, estes grupos precisam de um apoio logístico que, muitas das vezes, só o conseguem adquirir no estrangeiro, a grupos com especializações sectoriais, como o armamento, branqueamento, financiamento ou documentação. É em função desta transnacionalidade que os acordos de cooperação são muito importantes, como o que estabeleceu o Espaço Schengen, que exigem e asseguram uma maior integração das estruturas de segurança, das polícias e serviços de informações. Se por um lado, temos ameaças de cariz internacional, por outro temos estados com limitações territoriais; e se de um lado temos mobilidade e flexibilidade, do outro temos rigidez e formalismo. Combater o terrorismo/criminalidade internacional com meios meramente nacionais é uma impossibilidade nos seus termos. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 8

9 Capítulo II Videovigilância 2.1 Videovigilância contra a criminalidade A videovigilância é contributo decisivo para prossecução da política de policiamento de proximidade e de segurança comunitária, considerada um investimento muito útil, que não substitui o patrulhamento policial de proximidade. No entanto, não podemos abandonar a tecnologia e em particular a videovigilância porque ela é hoje o elemento determinante das políticas de segurança e da prevenção da criminalidade, para garantir a segurança, prevenir e reprimir a criminalidade, a começar pela criminalidade violenta e grave. A videovigilância visa "prevenir o crime" e fornecer mais meios à investigação criminal, fazendo com que as forças policiais cheguem mais rapidamente ao local e com uma informação mais apurada. Quando a própria regulamentação social tem brancas na sua competência para solucionar ou antever situações como as que existem nos dias de hoje, quando os centros históricos estão desertificados durante a noite, é natural que tenha de haver alguma compensação em relação às pessoas, para que elas se sintam mais serenas. O Ministério da Administração Interna (MAI) aprovou em 2009, com autorização da Comissão Nacional de Protecção de Dados, sistemas de videovigilância em Fátima, Portimão, Lisboa, Porto, Setúbal, Óbidos e Coimbra. A eficácia da utilização destes sistemas integrados é verificada através de alguns dados. Por exemplo, a criminalidade diminuiu 42% na área coberta pelo sistema de videovigilância da Baixa de Coimbra. Entre 1 de Janeiro e 31 de Outubro de 2010, houve uma redução de 42% no total de crimes registados na área abrangida pelas câmaras, face ao período homólogo de 2009, informou o comandante distrital da PSP, Paulo Sampaio, acrescentando que o sistema "tem-se revelado um instrumento dissuasor de incivilidades". Nenhum acto de vandalismo do tipo grafitos foi registado. Os crimes registados na Ribeira do Porto diminuíram 9,8 por cento desde a instalação do sistema de videovigilância em Novembro de CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 9

10 O ex-ministro da Administração Interna, Rui Pereira, o grande impulsionador da implementação destes sistemas integrados, considerou este decréscimo "uma excelente novidade", referindo ainda a importância do direito à segurança e frisando que a reserva da vida privada é respeitada. "Temos uma Constituição equilibrada e amiga dos direitos fundamentais. O direito à segurança é, justamente, um dos direitos fundamentais", sustentou Protecção de dados pessoais em Portugal Os sistemas de vigilância, quer usados por entidades privadas, quer usados pelas forças de segurança públicas, para terem uma utilização licenciada, terão de obter a aprovação da Comissão Nacional da Protecção de Dados. Esta entidade administrativa e independente, controla e fiscaliza o tratamento de dados pessoais, o cumprimento das disposições legais e regulamentares em matéria de protecção de dados pessoais e autoriza ou regista os tratamentos de dados pessoais. É no âmbito da preservação da vida privada, que começam a existir algumas contestações e problemas a nível da autorização de câmaras de vídeo vigilância. O exercício da actividade de segurança privada foi, inicialmente, regulado no DL 231/98, de 22 de Julho. Artigo 12.º Meios de vigilância electrónica, de detecção de armas e outros objectos 1 - As entidades que prestem serviços de segurança privada previstos nas alíneas b) e c) do n.º 1 do artigo 2.º podem utilizar equipamentos electrónicos de vigilância e controlo. 2 - As gravações de imagem e de som feitas por sociedades de segurança privada ou serviços de autoprotecção, no exercício da sua actividade, através de equipamentos electrónicos de vigilância visam exclusivamente a protecção de pessoas e bens, devendo ser destruídas no prazo de 30 dias, só podendo ser utilizadas nos termos da lei penal. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 10

11 As medidas utilizadas na actividade de segurança privada e o referente tratamento aludem para a existência de restrições ao direito à imagem e à liberdade de movimentos, integrando esses dados, informação relativa à vida privada. Do ponto de vista jurídico, os sistemas de videovigilância implicam restrições de direitos, liberdades e garantias pelo que caberá à lei (cf. Artigo 18.º, n.º 2 da CRP) decidir em que alcance estes sistemas poderão ser empregues e, principalmente, garantir, numa situação de colisão de direitos fundamentais, que as restrições se cinjam ao indispensável para salvaguardar outros direitos ou interesses fundamentais. Nas palavras de Paulo Mota Pinto, o Tribunal Constitucional entendeu que a permissão da utilização dos referidos equipamentos constitui uma limitação ou uma restrição do direito à reserva da intimidade da vida privada, consignada no artigo 26.º, n.º1 da CRP. Acrescenta ainda que as tarefas de definição das regras e a apreciação dos aspectos relativos à videovigilância constituem «matéria atinente a direitos, liberdades e garantias». É neste sentido que a Lei n.º 29/2003 de 22 de Agosto autorizou o Governo a legislar sobre o regime jurídico do exercício da actividade de segurança privada, desde que salvaguardados os direitos e interesses constitucionalmente protegidos. Resumidamente, as preocupações principais, relativas às condições de utilização de aparelhos electrónicos de vigilância, demonstradas na Lei n.º 29/2003 são: - Assegurar o respeito pela necessária salvaguarda dos direitos e interesses constitucionalmente protegidos (artigo 2.º, al. g). - O tratamento dos dados visar exclusivamente a protecção de pessoas e bens, - Delimitação temporal da conservação dos dados recolhidos, - Garantia do conhecimento pelas pessoas da utilização daqueles meios, - Restrição da utilização dos dados recolhidos nos termos previstos na legislação processual penal (artigo 2.º, al. h). O quadro jurídico do regime da videovigilância é, em função das preocupações acima demonstradas, definido na Lei n.º 67/98 de 26 de Outubro e, mais tarde, na CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 11

12 conjugação desta com o Decreto-Lei n.º 35/2004 de 21 de Fevereiro, que revogou o Decreto-Lei n.º 231/98, de 22 de Julho. Atendendo ao facto de colocar em causa a reserva da vida privada, é criada a Lei n.º 67/98: Art. 2º O tratamento de dados pessoais deve processar-se de forma transparente e no estrito respeito pela reserva da vida privada, bem como pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais. Nos termos do Artigo 13.º do Decreto-Lei n.º 35/2004: - As imagens devem ser conservadas pelo prazo de 30 dias, findo o qual serão destruídas, só podendo ser utilizadas nos termos da legislação penal e processual penal. - É ainda obrigatória, afixação, em local visível, de um aviso que assegure o direito de informação, relativamente à existência de um sistema de videovigilância em determinado local. Por força do art. 35.º, n.º 3 da CRP e porque estamos perante dados da «vida privada» o tratamento só pode ser realizado quando houver «autorização prevista em lei» ou «consentimento dos titulares». A CNPD deve, no caso concreto, apurar se será admissível o tratamento à luz do artigo 35.º, n.º3 da CRP e do art. 7.º, n.º 2 e 3 da Lei 67/98. Os sistemas de videovigilância autorizados pela CNPD, no âmbito do Decreto-Lei n.º 35/2004 e da Lei da Protecção de Dados Pessoais, devem ser considerados necessários, adequados e proporcionados às finalidades estabelecidas: a protecção de pessoas e bens e a manutenção da segurança e da ordem pública. Para existir legitimidade para utilização de sistemas de videovigilancia e das gravações, é assim necessário cumprir com alguns requisitos. Com base no art.8º nº2 da Lei 67/98 é imprescindível: - Autorização da CNPD para o tratamento de dados pessoais relativos a actividades ilícitas e aplicação de penas, coimas ou medidas e segurança. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 12

13 - Garantir protecção dos dados e segurança da informação recolhida; - Respeito pelos direitos, liberdades e garantias do titular dos dados. Podemos afirmar que os objectivos deste regime jurídico são, principalmente, dissuadir e registar a eventual prática de infracções; que atinja um universo genérico e indiscriminado de pessoas; revelando utilidade e relevância prática apenas, caso ocorra algum acto ilícito. A CNPD autorizará então o tratamento de som e imagem quando: - Estejam observados os princípios relativos à qualidade dos dados e ao seu tratamento art.5º Lei 67/98; - Seja respeitado o direito de informação art.10º Lei 67/98; - Se cumpram os demais requisitos da Lei 67/98 que forem exigidos no caso concreto. A CNPD entende que a protecção de pessoas e bens deve ser assegurada por meios necessários, proporcionais e adequados. Em cada caso concreto, o meio utilizado - neste caso a videovigilância deverá ser idóneo, atendendo-se também ao princípio da intervenção mínima, que obriga à ponderação entre o objectivo final que se pretende alcançar e a necessidade da violação do direito à imagem e à privacidade, direitos esses fundamentais. O acesso às imagens deverá ser restrito às entidades competentes (pelo princípio da necessidade), cujo procedimento deverá efectuar - se pela seguinte ordem: 1º Detecção da prática de infracção penal 2º Participação do ocorrido 3º A entidade responsável pelo tratamento envia ao órgão da polícia criminal ou à autoridade judiciária competente os dados recolhidos. As únicas excepções à proibição da visualização das imagens são quando, não havendo infracção penal, os titulares dos dados solicitem o direito de acesso e/ou no exercício ou defesa de um direito em processo penal. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 13

14 2.1.2 Utilização das gravações como meio de prova As imagens gravadas também podem servir como prova em processo judicial, no formato em que se encontrem, conforme o regime da Lei 67/98 e nos termos do art 8º: Artigo 8.º Suspeitas de actividades ilícitas, infracções penais e contra-ordenações 2 - O tratamento de dados pessoais relativos a suspeitas de actividades ilícitas, infracções penais, contra-ordenações e decisões que apliquem penas, medidas de segurança, coimas e sanções acessórias pode ser autorizado pela CNPD, observadas as normas de protecção de dados e de segurança da informação, quando tal tratamento for necessário à execução de finalidades legítimas do seu responsável, desde que não prevaleçam os direitos, liberdades e garantias do titular dos dados. Ora, para conseguirmos extrair a conclusão de que podemos obter esta prova, temos de remeter também para o regime definido no Código de Processo Penal que, por exclusão de partes, não proíbe as gravações como meio de prova, aceitando todas as que forem consideradas lícitas. Artigo 125.º Legalidade da prova São admissíveis as provas que não forem proibidas por lei. Artigo 167.º Valor probatório das reproduções mecânicas 1 - As reproduções fotográficas, cinematográficas, fonográficas ou por meio de processo electrónico e, de um modo geral, quaisquer reproduções mecânicas só valem como prova dos factos ou coisas reproduzidas se não forem ilícitas, nos termos da lei penal. CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 14

15 2.2.1 O que é o terrorismo? Terrorismo para fins políticos, versa a exploração do terror, consistindo num conjunto de acções violentas, empreendidas por grupos pouco numerosos contra regimes, classes dirigentes ou minorias (políticas, religiosas, raciais ou étnicas). A directriz dessas acções violentas, é provocar medo, pavor e terror. De facto, o terror obriga a aderir ou, pelo menos, a calar e a História ensina que este sentimento sempre foi a mais poderosa arma de domínio de homens por outros homens. Só há terrorismo quando há violência, se bem que nem toda a violência seja terrorismo. Pode-se afirmar que terrorismo seria a prática reiterada de crimes, incluindo os crimes de delito comum. Entre eles, atentados, visando assassinar ou intimidar; raptos, seguidos ou não de assassínios; roubos à mão armada; destruição ou danificação de edifícios ou outros bens materiais; pirataria aérea; etc.. O uso combinado das várias formas de violência, as alternativas no seu emprego, a metódica sucessão de crimes e o seu escalonamento, por períodos relativamente longos, permite ao terrorismo dosear as ameaças que faz pairar sobre as comunidades, caracterizando uma verdadeira manobra. É a manobra terrorista que garante a continuidade na acção e especifica o terrorismo, como a exploração sistemática do terror. A menos que se trate de terrorismo de Estado, praticado pelas polícias políticas e por milícias dos Estados totalitários, as organizações terroristas são grupos armados pouco numerosos. Esta característica é ditada pela necessidade de não se exporem demasiado e, ainda de não se deixarem infiltrar, o que acarretaria a sua destruição. Logo, como corrolário, o seu esquema organizativo é forçosamente secreto, baseado numa estrutura celular bastante fechada, e por consequência, muito difícil de desmantelar. Embora do ponto de vista quantitativo, o terrorismo disponha de fracos recursos materiais, o mesmo não receia atacar grupos notóriamente mais fortes, tais como as classes dirigentes, os grupos que as sustentam e até algumas minorias. O terrorismo tem quase sempre objectivos políticos, pois baseia-se em reinvindicações cujo carácter político é evidente. Enfraquecer ou anular a influência dos grupos visados, além de CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 15

16 aterrorizar a generalidade da população, forçando-a a aderir à linha política, social, económica ou racial de que a organização terrorista se afirma paladina Internacionalização do terrorismo: Esta internacionalização tornou-se inevitável, com as organizações terroristas a deixarem de poder subsistir sem auxílio exterior pelas razões seguintes. Em primeiro lugar, o terrorismo passa a exigir somas de dinheiro cada vez mais avultadas, tais somas só podem ser conseguidas com o auxílio de países estrangeiros ou de instituições por eles apadrinhadas. Em segundo lugar, o terrorismo artesanal está ultrapassado. Para se obter resultados positivos, as organizações terroristas modernas necessitam de armamentos e equipamentos sofisticados. Só no exterior do Estado a atacar, é que tais armamentos podem ser obtidos. Uma terceira razão, será o facto de não ser possivel o treino de terroristas no interior do estado visado, por falta de quadros especializados, e ainda porque as autoridades poderiam detectar e aniquilar as organizações, antes mesmo, que estas pudessem passar à acção. Quarta razão, como acontece em conflitos armados, o terrorismo também necessita de retaguardas seguras. São os países cúmplices que garantem asilo e negam a extradição de terroristas. Esta dependência do auxílio externo que, por motivos estratégicos, nunca é desinteressado, fez nascer o apoio permanente, dispensado ao terrorismo, por alguns Governos. Existem indícios seguros que países como Cuba, Líbia, Síria, Iémen do Sul, Coreia do Norte e Argélia apoiam o terrorismo. Estes países têm regimes totalitários, que são precisamente os regimes que usam métodos brutais para impedir ou reprimir o terrorismo. Não admira, que desta forma, os crimes terroristas visem normalmente os países democráticos ou de áreas geográficas em que o Ocidente tenha interesses vitais. Sendo o terrorismo uma fonte de destabilização, se não for combatido, conduz a uma ditadura, com a limitação da soberania nacional. Por isso, os Estados dirigentes têm, CEDIS Working Papers Direito, Segurança e Democracia julho de 16

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