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1 Clipping Nacional de Educação Segunda-feira, 13 de Abril de 2015 Capitare Assessoria de Imprensa SHN Qd2Edifício Executive Office Tower Sala 1326 Telefones: (61) (61)

2 O GLOBO 13/04/15 ECONOMIA Com dólar a R$ 3, estudar no exterior exige planejamento maior ANA PAULA RIBEIRO ana. sp.oglobo.com. br Como opção para reduzir custos, analistas sugerem alterar o destino Para compensar a alta da moeda americana, Ronaldo Martins (foto) optou por um destino fora dos EUA -SÃO PAULO- O zootecnista Ronaldo Martins começou a planejar um curso de aperfeiçoamento no exterior há um ano, quando a cotação do dólar não ultrapassava os R$ 2,25. O plano inicial era aproveitar as férias para fazer um curso de inglês nos Estados Unidos. Em outubro, quando a moeda americana começou a subir com mais força, já encostando nos R$ 2,60, ele percebeu que a viagem estava ficando fora do orçamento. O jeito foi refazer as contas e cortar algumas despesas, o que significou mudar o destino e o tipo de hospedagem. Novos horizontes. Ronaldo Martins trocou os EUA pelo Canadá: A economia foi suficiente para pagar a passagem A economia que eu fiz em mudar o destino dos Estados Unidos para o Canadá foi o suficiente para pagar a passagem, mantendo-me no orçamento inicial conta Martins, que viaja em maio. Refazer os planos iniciais tem sido a saída de alguns estudantes para manter o sonho de estudar no exterior e driblar o aumento da cotação do dólar, que só neste ano já subiu 15%. Com o novo destino escolhido, em outubro Martins usou os recursos aplicados na caderneta de poupança para pagar curso, hospedagem e estadia. Além disso, continuou juntando dinheiro para comprar os dólares canadenses. ANTECEDÊNCIA DE UM A 2 ANOS Segundo Mauro Calil, fundador da Academia do Dinheiro, planejar com antecedência um curso no exterior é essencial para que os custos não fujam do controle: No início do planejamento, é bom checar ao menos três possibilidades de destino, já que as moedas se comportam de forma diferente. É também importante embutir todos os outros custos, como passagem, hospedagem e gastos com alimentação. Ao ter ideia do custo total, é possível estipular o prazo necessário para juntar os recursos. Nesse período, a dica é escolher alternativas seguras e que tenham um bom rendimento, como títulos públicos, que acompanham a alta dos juros. A poupança, escolhida por Martins, é considerada pouco favorável neste momento. Calil afirma que, no caso de cursos de longa duração, como um intercâmbio para estudantes do nível médio, o ideal é começar o planejamento dois anos antes. Para os mais curtos, um prazo de 12 meses é adequado. Mas ele ressalta que nem todo mundo consegue iniciar o projeto com essa antecedência. Sobre os recursos a serem usados no exterior, Calil tem duas recomendações. Se o curso for de longa duração e a pessoa for gastar mais de US$ 20 mil, é melhor abrir uma conta no exterior e enviar o dinheiro do Brasil para o país escolhido. A cotação do dólar em uma remessa como essa é mais baixa que a do dólar turismo, e também se evita o custo do IOF de 6,38% dos cartões pré-pagos explica, lembrando que essa conta pode ser utilizada para pagar o curso e a hospedagem, se o estudante não quiser recorrer a uma agência. Se a quantia a ser gasta for inferior, Calil recomenda juntar dinheiro e concentrar a compra da moeda estrangeira em uma ou duas vezes, para negociar uma taxa de câmbio melhor e reduzir os gastos com os custos fixos dessas operações.

3 13/04/15 ALTERNATIVAS MAIS BARATAS O diretor de vendas da Central de Intercâmbio (CI), Jan Wrede, conta que, com o dólar acima de R$ 3 na sexta-feira, fechou a R$ 3,072 cresceu a procura por destinos fora dos EUA e por alternativas mais baratas de hospedagem. Afinal de contas, o dólar vem ganhando força em todo o mundo, e não foi apenas o real que perdeu valor. Mostramos que há outras opções, como fazer inglês na Irlanda ou África do Sul, ou um high school (ensino médio) no Canadá em vez de nos Estados Unidos explica Wrede. Mudar o destino já rende uma bela economia: um curso de quatro semanas de inglês com hospedagem em meia pensão em Vancouver, no Canadá, custa R$ 4.366,43, valor 45% menor que em Nova York. Outra maneira de cortar gastos é ficar em casa de família algo mais barato que alugar um flat ou ficar em residências estudantis, em geral nas regiões mais centrais e caras. A gerente de Curso da STB, Marcia Mattos, diz ainda que, para reduzir os gastos, as pessoas têm procurado cursos em cidades do interior da Inglaterra, cujo custo de vida é inferior ao de Londres, e fora das grandes cidades americanas. Isso barateia o custo de acomodação, que tem um peso grande no total dos gastos da viagem. Mas o mais importante é fazer o planejamento com antecedência.

4 O GLOBO 13/04/15 SOCIEDADE Convênios aditivados Projetos entre Dnit e UFPR tiveram aumento de mais de 90% em relação ao custo inicial Felippe Aníbal* Dois convênios firmados entre o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR) foram aditivados em milhões de reais. Juntos, os projetos tiveram acréscimo de mais de 90% em relação ao custo inicial: saltaram de R$ 6,2 milhões para R$ 12 milhões. Um dos aditivos teve parecer contrário da Procuradoria Federal, mas, mesmo assim, a UFPR acabou aprovando a injeção de mais dinheiro no contrato. Ontem, a série de reportagens Universidades S/A mostrou que o Dnit driblou licitações a partir da UFPR, em projetos que somam R$ 58,5 milhões. Um esquema semelhante com a Petrobras chegou a R$ 15 milhões em convênios. Um dos projetos aditivados é conhecido como BR-487/PR. Ele prevê a execução de programas ambientais em obras de pavimentação da rodovia. Quando o convênio foi formalizado, em setembro de 2013, os serviços estavam estimados em R$ 2,6 milhões. Com o aditivo, o projeto teve um acréscimo de verba de 140%, passando a dispor de R$ 6,3 milhões. O prazo do projeto também foi prorrogado. Na minuta de aditivo assinada em novembro de 2014 e disponibilizada no portal de gestão de acordos da UFPR não consta qualquer justificativa para o aporte de mais verba no contrato. O dinheiro foi repassado pelo Ministério da Educação (MEC), via fundação de apoio. Outro contrato que prevê a realização de programas ambientais em obras de recuperação de acostamentos na BR-262/MS também recebeu mais dinheiro. Um dos aditivos injetou R$ 2 milhões no projeto. Com isso, os recursos envolvidos na proposta pularam de R$ 3,6 milhões para R$ 5,7 milhões. Inicialmente, o projeto abrangia 284 quilômetros da rodovia, ao custo médio de R$ 13 mil por quilômetro. Entretanto, por conta de uma paralisação parcial nos trabalhos, restaram 11 quilômetros da estrada sem as intervenções. A UFPR solicitou ao Dnit mais R$ 2 milhões para finalizar este pequeno trecho. O custo médio saltou para R$ 181 mil por quilômetro. Na justificativa apresentada ao Dnit, o coordenador do Instituto Tecnológico de Transportes e Infraestrutura (Itti) da UFPR, Eduardo Ratton, argumentou que precisava implantar elementos para a redução de atropelamentos de animais como cercas, sinalizações e redutores de velocidade o que justificaria o novo aporte. Segundo a gestão de acordo da UFPR, Ratton recebeu uma bolsa de R$ 60 mil para coordenar o projeto. INSTITUTO INVESTIGADO PELA PF Outro contrato, entre a UFPR e a Petrobras para prestação de serviços de avaliação na Bacia Potiguar, também foi aditivado. O acréscimo foi cravado em 25%, justamente o limite estabelecido pela Lei de Licitações. Com isso, o custo aumentou de R$ 1,3 milhões para R$ 1,6 milhões. A equipe técnica da universidade argumentou que foi necessário acrescentar serviços que não estavam previstos no início e suprimir outros. Uma instituição acusada pela Polícia Federal (PF) de integrar um esquema de desvio de dinheiro público o Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas para Otimização da Tecnologia da Qualidade Aplicadas (Ibepoteq) foi subcontratada pela universidade para atuar em dois convênios da UFPR com o Dnit. Mesmo depois da operação policial, a empresa continuou a receber dinheiro da parceria. A universidade alega que o Ibepoteq foi subcontratado antes da investigação.

5 13/04/15 No total, R$ 1,7 milhão foi repassado ao Ibepoteq, para que a entidade fizesse a elaboração e aplicação de programas de educação ambiental ao longo das obras. Segundo o presidente do Ibepoteq, Gilson Amâncio, o instituto foi contratado com base em preços praticados no mercado. Estava tudo dentro do preço de mercado. Nem acima nem abaixo. Eu só tenho cara de bandido ironizou. Amâncio foi preso em agosto de 2013, na Operação Sinapse da PF. Ele responde, ainda hoje, por peculato, corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, o Ibepoteq teria participado do desvio de recursos estimados em R$ 11 milhões, após ter sido contratada para projetos de educação à distância. Mesmo depois da operação, o instituto continuou a receber dinheiro da parceria com o Dnit. Por meio de nota, a Funpar, que fez a gestão financeira dos projetos, o controle dos serviços prestados pelo Ibepoteq foram aprovados pela UFPR. Já o Itti informou que a empresa foi subcontratada antes de as suspeitas terem se tornado públicas. A terceirização havia sido adotada como forma de minimizar o envio de equipes da universidade ao local das obras. Num certo momento, resolvemos diminuir o número de idas (viagens) e fazer educação a distância. Nisso foi utilizada a estrutura do Ibepoteq disse Ratton. NECESSIDADE DE MAIS TRANSPARÊNCIA Dois procuradores federais que auditam contratos da UFPR haviam apontado indícios de irregularidades no projeto conhecido como BR-262/MS e em seus aditivos. Ambos emitiram pareceres contrários à efetivação do aditamento, mas as observações foram ignoradas pela UFPR, que aprovou a destinação de mais dinheiro ao projeto. O então procurador-chefe da Procuradoria Federal na UFPR, Marcos Augusto Maliska, observou a necessidade de haver mais transparência no processo, principalmente no que diz respeito aos planos de trabalho e às seleções para concessões de bolsas. Ele destaca ainda as altas cifras do aditivo "da ordem de mais de 50% do valor inicialmente acordado" e as consequências que isso traria à universidade. Já a procuradora federal Jussara Maria Leal Meirelles apontou que, mesmo antes disso, já haviam sido levantadas irregularidades no termo cooperação entre o Dnit e a UFPR, "recomendando-se a regularização para o prosseguimento da tramitação". Apesar das ressalvas, diz a procuradora, a universidade continuou a dar andamento ao processo. (*Da "Gazeta do Povo")

6 O GLOBO 13/04/15 SOCIEDADE USP: 40% com dedicação exclusiva são liberados para outras atividades Associação critica percentual elevado de professores com autorização para realizar trabalhos extras Mais de 40% dos professores da Universidade de São Paulo (USP) contratados para se dedicarem integralmente ao ensino e pesquisa são liberados para realizar outros trabalhos. Cerca de docentes têm autorização para trabalhar e receber por atividades como aulas em cursos pagos e pesquisas por empresas. O grupo faz parte dos (87% do total) contratados pelo Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP). Têm salário 37% maior do que os sem dedicação exclusiva. Ao exigir dedicação exclusiva, em 40 horas semanais, o sistema veta que o professor seja remunerado além do que recebe como servidor. Há exceções, como bolsas de agências de fomento. A legislação prevê atividades extras com limitação de até 240 horas/ ano. Liberação e controle cabem às instituições. Ter mais de 40% dos professores nessa condição mostra o quanto está desvirtuado o RDIDP critica o presidente da Associação dos Docentes da USP (Adusp), Ciro Correia. Nem todos que têm a autorização desenvolvem trabalhos extras, diz a universidade, assim como há atividades que exigem a exceção, mas não são remuneradas. Um dos problemas do modelo é que não há controle e transparência, diz a Adusp. O especialista em educação Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) do Rio de Janeiro, discorda das críticas: O professor tem de ter contato para fora, ele pode trabalhar na universidade, na área empresarial diz. É necessário avançar na flexibilização. O processo já está em andamento na USP. O Conselho Universitário começou a discutir, semana passada, mudanças no regime de docentes. UM TERÇO DO CONSELHO LIGADO A FUNDAÇÕES Instância máxima de decisões da USP, o Conselho tinha 21% de seu membros ligados a fundações privadas em Neste ano, 33% estão nessa situação. São 39 dos 122 integrantes, segundo levantamento da Adusp. A associação indica que essa realidade representa conflito de interesses. O reitor da USP, Marco Antonio Zago, aparece como presidente do Conselho Curador da Fundação de Apoio à USP (Fusp), cargo não remunerado. Ele não respondeu a pedido de entrevista. De 2007 a 2013, a Fusp recebeu R$ 740 milhões em projetos da instituição. Conforme noticiado ontem, a CGU questionou, em 2014, convênio em que a Fusp cobrava aluguel de espaço da USP e terceirizava serviço para uma ONG. (*Do Estado de S. Paulo )

7 O GLOBO 13/04/15 SOCIEDADE Ex-decano e médicos seriam coniventes com fraude de UniRio e Petrobras Seis professores foram beneficiados com R$ 10 milhões em bolsas Lauro Neto O ex-decano do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET) da UniRio Astério Kiyoshi Tanaka teria sido conivente com as irregularidades de um contrato de mais de R$ 17 milhões entre a universidade e a Petrobras. Conforme O GLOBO revelou ontem, seis professores de dedicação exclusiva da instituição foram beneficiados com quase R$ 10 milhões em bolsas como pesquisadores e verbas para empresas das quais eram sócios, subcontratadas sem licitação. Além de Tanaka, dois médicos, diretores da fundação universitária FunRio, autorizaram as contratações ilegais. O Ministério Público Federal do Rio (MPF-RJ) investiga as irregularidades apontadas pela Controladoria Geral da União (CGU) em inquérito civil. Em março de 2014, o Tribunal de Contas (TCU) determinou que a UniRio explicasse como ressarciria os danos ao Erário. No entanto, a universidade já engavetou quatro Processos Administrativos Disciplinares (PADs) sobre o caso e ainda não puniu ninguém. O último PAD decidiu pelas penas de suspensão da professora Kate Cerqueira Revoredo e da demissão dos docentes Leonardo Guerreiro Azevedo, Cláudia Capelli Aló, Fernanda Araújo Baião Amorim, Flávia Maria Santoro e Renata Mendes Araújo, todos ligados CCET. O mesmo processo determinou a devolução dos valores recebidos irregularmente por eles no período de vigência do contrato, entre 2008 e Além das penas atribuídas aos professores pela comissão do último PAD, o relatório conclusivo também sugere a demissão, por improbidade administrativa, de Tanaka, que à época era decano do CCET. Apesar de concordar com as penas, a Procuradoria Federal da UniRio anulou o processo. Em seu depoimento à comissão, Tanaka confirmou ter conhecimento do termo de cooperação com a Petrobras, mas negou participação na sua execução e gestão, alegando desconhecer a subcontratação das quais os professores eram sócios. Não era minha atribuição a fiscalização nem tomar conta disse Tanaka ao GLOBO. Além dos docentes da UniRio, a comissão indiciou servidores da FunRio. Apesar de atestar as notas fiscais de pagamento às empresas, o médico José Cortines Linares, presidente da FunRio, foi absolvido pelo PAD. Ficou concluído que os pagamentos e as contratações eram tratados pela Secretaria Executiva da FunRio e não diretamente pela presidência. Eu apenas assinava os documentos. Como era um cargo não remunerado, havia uma divisão de tarefas, e quem analisava os contratos era o doutor Azor (José de Lima) alegou o médico Linares ao GLOBO. O advogado da FunRio Eloadir Pereira da Rocha Filho também atribuiu a responsabilidade ao médico e servidor inativo Azor, secretário executivo da fundação. Procurado duas vezes pelo GLOBO, Azor não quis se manifestar sobre o assunto. O GLOBO procurou insistentemente todos os docentes da UniRio envolvidos no caso, mas eles não quiseram se manifestar. O escritório Chediak Advogados, que representa as professoras Cláudia, Fernanda, Flávia e Renata, tentou celebrar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) como alternativa à aplicação de sanções, o que foi indeferido pelo MEC.

8 O GLOBO 13/04/15 SOCIEDADE Avaliações de aprendizado são limitadas, mas pensar o papel da escola de forma ampla não justifica esquecer que é função dela ensinar o básico "Sempre estudei em escola pública e tive professores incríveis. Hoje, as coisas que mais valorizo em mim minha imaginação, minha paixão por atuar e escrever, minha curiosidade e prazer em aprender são resultado da maneira como fui criado e ensinado. Nenhuma dessas qualidades que me fizeram ser tão bem-sucedido poderiam ser avaliadas por testes" A declaração é do ator Matt Damon, e foi feita num encontro de professores nos Estados Unidos, em Não foi a primeira vez em que ele usou seu prestígio para criticar os testes padronizados nos EUA. A militância de Damon no tema é explicada por ser filho de uma especialista em educação infantil, Nancy Carlsson-Paige, bastante crítica do uso desses exames para avaliar professores e escolas. O debate segue acalorado lá. Há duas semanas, o apresentador da CNN e colunista do "Washington Post" Fareed Zakaria escreveu no jornal americano um artigo em que criticava a Para além dos testes Antônio Gois prioridade dada ao ensino de ciências, tecnologia, engenharia e matemática naquele país, em detrimento da área de humanidades. Zakaria argumentou que os EUA sempre se saíram mal em testes internacionais de aprendizado, mas que nem por isso deixaram de ser a economia mais dinâmica, inovadora e empreendedora do mundo. Para ele, isso acontece exatamente por causa do tipo de educação que agora estariam tentando defenestrar: "Essa abordagem mais ampla ajuda a desenvolver o pensamento crítico e a criatividade. Ciência e tecnologia são componentes cruciais desse tipo de ensino, mas também o são filosofia e inglês. Americanos devem ser cautelosos antes de imitar sistemas asiáticos bem-sucedidos na memorização de conteúdos avaliados em testes". Por outro flanco, os testes padronizados já eram alvo no mundo acadêmico desde que o prêmio Nobel de economia James Heckman, da Universidade de Chicago, passou a criticá-los com o argumento de que eles deixam de medir, segundo seus estudos, características da personalidade. São habilidades como persistência, motivação, capacidade de superar obstáculos e frustrações, de trabalhar em grupo, tão ou mais essenciais para o sucesso na vida adulta quanto o aprendizado de disciplinas tradicionais. Em certa medida, o debate também acontece no Brasil. O novo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, tratou do assunto em algumas entrevistas. Sem entrar em detalhes de como colocaria em prática a ideia, ele afirmou que uma de suas prioridades será estimular a criatividade em sala de aula, "para tornar a educação mais prazerosa". Disse que avaliações nacionais são importantes, mas que não medem a contribuição das escolas para a formação ética e psicológica do aluno. A pressão por bons resultados em exames cresceu no Brasil depois que a imprensa passou a fazer rankings de escolas a partir das notas divulgadas pelo MEC. Muitos diretores relatam histórias de famílias que, já desde a educação infantil, cobram do colégios bons resultados no Enem. Reduzir a avaliação de um colégio a uma nota ou posição em ranking é mesmo um erro. Além de

9 13/04/15 testes medirem apenas uma dimensão do aprendizado, seus resultados são influenciados por variáveis especialmente o nível de pobreza e escolaridade das famílias que nada têm a ver com o trabalho em sala de aula. A reflexão crítica sobre essas avaliações é necessária para melhorarmos a maneira como interpretamos seus resultados. Há, no entanto, um cuidado a tomar: pensar o papel da escola de forma mais ampla não justifica esquecer que é função dela também ensinar o básico. E, no Brasil, nem isso estamos fazendo a contento em disciplinas de matemática, português, ou outras tradicionalmente avaliadas que, sim, são fundamentais na garantia do direito de aprendizado de todas as crianças.

10 FOLHA DE SÃO PAULO 13/04/15 COTIDIANO Pré-sal frustra expectativa de alavancar verba na educação Recursos do petróleo para ensino estão muito abaixo do esperado pelo governo Receita de 2014 ficou 57% inferior à previsão; pasta culpa decisão do STF, mas Dilma mantém otimismo MARIANA HAUBERT FLÁVIA FOREQUE GUSTAVO PATU DE BRASÍLIA Principal aposta do governo federal para promover uma evolução na educação brasileira, a exploração do petróleo do présal ainda não resultou em verba expressiva para a área e tem sido uma fonte de recursos muito abaixo das expectativas oficiais. O Orçamento do Ministério da Educação do ano passado previa um montante inicial de R$ 6,7 bilhões do Fundo Social, espécie de poupança com recursos do présal. As receitas, entretanto, somaram só R$ 2,9 bilhões --e os desembolsos do ministério com esses recursos se limitaram a R$ 1 bilhão. O Executivo previu em seu projeto de Orçamento de 2015 R$ 8,7 bilhões da mesma fonte para a educação. A verba já caiu para R$ 7 bilhões durante a tramitação do texto no Congresso. Devido ao ajuste promovido nas contas do governo, corre sério risco de ser recalculada para baixo. A lei sancionada em 2013 pela presidente Dilma Rousseff (PT) previa que metade do Fundo Social deveria ser aplicada em educação, prioritariamente no ensino básico. O então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, atual titular da Casa Civil, dizia se tratar provavelmente do "maior legado" do governo Dilma "para as futuras gerações do nosso país". Mas uma combinação de fatores contribuiu para frustrar as expectativas. O Ministério da Educação diz que os recursos do petróleo para a pasta acabaram afetados por deliberação da ministra Carmen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), em março de que suspendeu parte das regras de distribuição previstas. A decisão foi motivada por ação do governo do Rio, que alegou que teria perda expressiva com a nova destinação dos royalties do pré-sal. Mas ela é provisória --depende de uma análise definitiva do plenário da Corte. A arrecadação dos recursos para a educação também foi afetada pelo baixo patamar do preço do petróleo no mercado internacional e pela crise na Petrobras, detentora do monopólio da exploração dos campos do pré-sal. Em 2014, a receita dos royalties do petróleo chegou a R$ 35,3 bilhões --ante a expectativa de R$ 42,7 bilhões. 'REVOLUÇÃO' O compromisso do governo federal, previsto no Plano Nacional de Educação, é destinar, até 2024, 10% do PIB (Produto Interno Bruto) para a educação. O índice, pelos dados mais recentes, de 2013, estava no patamar de 6,6%. Na semana passada, ao dar posse ao novo ministro da pasta, Renato Janine Ribeiro, Dilma Rousseff demonstrou otimismo diante da verba extra --mesmo com os resultados fracos até este momento.

11 13/04/15 "Os recursos dos royalties e do Fundo Social do pré-sal vão viabilizar uma verdadeira revolução na educação brasileira, que se realizará nas próximas décadas, mas que vai começar, progressivamente, a partir de agora", disse a presidente, em cerimônia no Palácio do Planalto. 'EXCESSOS' O novo ministro assumiu a função reconhecendo um cenário de restrições orçamentárias nos próximos meses. Janine Ribeiro disse que a pasta dará sua "contribuição" ao ajuste fiscal promovido pelo governo e que haverá empenho em preservar aquilo que for essencial, mas "sacrificando excessos". Em relação ao Orçamento de 2014, a pasta diz que os recursos do petróleo na educação ficaram muito aquém do previsto porque, quando elaborado, em agosto de 2013, esperava que a situação já estivesse resolvida no STF.

12 FOLHA DE SÃO PAULO 13/04/15 COTIDIANO FOCO Decisão inédita põe jovem que estudou em casa na faculdade MATEUS LUIZ DE SOUZA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Após quatro anos, Lorena Dias, 17, voltará a ter colegas de classe. De 2011 a 2014, ela estudou em casa, com os pais no lugar dos professores. Agora, acaba de se matricular na faculdade graças a uma vitória na Justiça. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, com sede em Brasília, concedeu liminar para que a jovem obtenha o certificado de conclusão de ensino médio. O IFB (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) e o Inep (instituto ligado ao MEC), que emitem o documento, ainda podem recorrer. Trata-se de decisão inédita no país, segundo Alexandre Magno, diretor jurídico da Aned (Associação Nacional de Educação Domiciliar). No final de 2014, Lorena foi aprovada em jornalismo em duas faculdades em Brasília, onde mora. Para ingressar no curso, prestou o Enem. Desde 2012 o Ministério da Educação permite que o desempenho na prova seja utilizado como certificado. Lorena tirou a pontuação necessária, mas foi impedida de obtê-lo por ser menor de idade, um dos requisitos. Foi então que ela entrou na Justiça. A jovem frequenta as aulas desde março. Ela relata não ter problemas de sociabilidade por causa da educação domiciliar -- uma crítica comum de especialistas a essa forma de ensino. "Fui eleita a representante da turma já na primeira semana", diz. Lorena saiu da escola porque, segundo ela, sofria bullying e os pais estavam preocupados com as greves e a presença de drogas no colégio em que estava matriculada, em Contagem (MG). Ao menos famílias praticam ensino domiciliar, segundo a Aned. Ao contrário dos Estados Unidos, no Brasil a prática não é regulamentada. Assim, não há consenso sobre sua legalidade.

13 CORREIO BRAZILIENSE 13/04/15 EDITORIAL Educação reprovada Quinze anos depois de aceitar o desafio de atingir as seis metas fixadas pela Cúpula Mundial da Educação, realizada no Senegal, o Brasil alcançou apenas duas do Marco de Ação Dakar, Educação Para Todos (EPT). O país universalizou o primeiro ciclo do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano), principalmente para meninas, minorias étnicas e crianças às margens do sistema. Conseguiu estabelecer paridade e igualdade de gênero nas escolas. Foi passo pequeno para as necessidades do país, que abriga mais de 203 milhões de pessoas. O avanço na direção da erradicação do analfabetismo foi inexpressivo. O país nem sequer reduziu à metade o número de brasileiros que não sabem ler e escrever taxa alcançada por um quarto dos 73 países. Hoje, mais de 13 milhões não dominam as letras. Na América Latina, o Brasil segue atrás do Peru, do Suriname e da Bolívia, que deverão alcançar a meta pactuada na capital senegalesa. A Unesco prevê que Colômbia e Nicarágua estão longe de conquistar o objetivo. O Relatório de Monitoramento Global da EPT, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reconhece o esforço brasileiro, frente à complexidade das dimensões continentais do país. As desigualdades são profundas na comparação dos cenários rural e urbano. Programa sociais, como o Bolsa Família, vistos de forma positiva pela Unesco, não respondem satisfatoriamente à necessidade de eliminar a extrema pobreza, indispensável ao avanço da educação. A avaliação constatou que o Brasil não conseguiu expandir a educação infantil e os cuidados na primeira infância, como estabelecido pelo EPT, a fim de atender as crianças em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Ou seja, o país precisa universalizar a oferta de creche e de pré-escola para os pequeninos na faixa de até 5 anos. Até 2012, a taxa de matrícula na educação infantil 4 a 5 anos ficou abaixo de 80%. Para crianças e adolescentes, o país deve a universalização do acesso aos ensinos fundamental e médio. A oferta de cursos profissionalizantes ficou muito aquém da demanda. Sem habilidade, os jovens não conseguiram ingressar no mercado de trabalho ou prosseguir na escola. Em uma década e meia, a educação não melhorou o quanto deveria e o Brasil precisa. O país não garantiu resultados mensuráveis de aprendizagem. Está longe de conquistar a condição de Pátria Educadora, como pretende o governo federal. As dificuldades não se restringem à oferta de vagas em todos os níveis de ensino. Elas residem na qualificação dos docentes a fim de que a escola, nos vários patamares, seja espaço efetivo de construção, transferência e aprendizado do conhecimento. Exige investimentos vigorosos em infraestrutura e firme disposição de eliminar o fosso entre os diversos segmentos da sociedade. Os cortes orçamentários não são os únicos desafios a serem vencidos pelo novo ministro da Educação. As dificuldades são muito maiores, quando se compreende que a educação é ação continuada e que não pode ser compromisso apenas de palanque ou de acordos internacionais. Deve ser ação prioritária e constante para ter efeito transformador.

14 CORREIO BRAZILIENSE 13/04/15 CIDADES A NOVA SENZALA» Escola protege kalungas Desde que o colégio da comunidade de Engenho ganhou o ensino médio, meninas deixaram de viver como escravas sexuais a 27km dali, em Cavalcante. Antes disso, elas trabalhavam em casas de famílias da cidade e sofriam abusos e humilhações RENATO ALVES ENVIADO ESPECIAL Crianças e adolescentes caminham rumo à escola municipal da comunidade quilombola de Engenho: segurança e dignidade garantidas para as próximas gerações Cavalcante (GO) Fiz uma promessa: as minhas filhas nunca vão sair da comunidade para estudar ou trabalhar, conta Lourença dos Santos Rocha, 45 anos. Nascida em uma comunidade de descendentes de escravos, então isolada dos grandes centros, ela, como todas as crianças do povoado em sua época, teve de sair de casa aos 11 anos para estudar. Os pais a entregaram a uma família de Cavalcante, município mais próximo, no nordeste de Goiás, a 310km de Brasília. Em troca de abrigo, comida e acesso à escola, no entanto, a menina era submetida a uma jornada de trabalho doméstico que chegava a 12 horas diárias. Ainda era sujeita a todos os tipos de humilhação, os quais prefere não detalhar. Adulta e de volta ao lugarejo, ela fez o pacto consigo mesma de nunca deixar as três filhas passarem pelo que ela passou na cidade. Como mostrou o Correio ontem, ainda hoje, meninas de até 10 anos, bisnetas e tataranetas de escravos, sofrem abusos, inclusive estupros, em casas de famílias para as quais são levadas, em Cavalcante. Devido à falta do ensino médio nas comunidades quilombolas onde nasceram, na região da Chapada dos Veadeiros, os pais delas enxergam o município goiano de 10 mil habitantes como única esperança de um futuro promissor. Mas os crimes, que vinham sendo tratados como mera questão cultural e acobertados pela omissão e pelo medo, agora são investigados pela Polícia Civil de Goiás. Desde dezembro, agentes e escrivães concluíram oito inquéritos de estupro de vulnerável, em que a vítima tem menos de 13 anos. Todas as crianças violentadas são negras. Entre os acusados estão o vicepresidente da Câmara Municipal, marido da vice-prefeita, um dentista e o dono de um mercado, ex-vereador. Outro ex-vereador, condenado e preso, espera o julgamento de recurso, enquanto exerce a função de assessor na Câmara. Os ataques sexuais são os casos mais comuns em Cavalcante, segundo o Ministério Público de Goiás (MPGO) e a Polícia Civil goiana. A Corregedoria do MPGO apura denúncia contra o trabalho da única promotora do município, no cargo há 18 anos e casada com um primo do vice-presidente da Câmara. Lourença sofreu humilhações no passado: realidade distante para as filhas Realidades A maior prova de como a falta de acesso à educação nas comunidades quilombolas da Chapada dos Veadeiros expõe crianças e adolescentes

15 13/04/15 descendentes de escravos a todo tipo de violência nas cidades vem da comunidade de Engenho, a 27km de Cavalcante, onde nasceu e mora Lourença Rocha. Nenhuma das filhas dela precisou deixar o povoado porque, além da promessa da mãe, a escola municipal do Engenho ganhou o ensino médio há sete anos. Dessa forma, Lourença trabalha tranquilamente como guia turística a comunidade abriga duas das mais belas cachoeiras da Chapada, com as filhas por perto, além dos outros quatro filhos. Apesar de o Engenho não ter faculdade, uma delas estuda pedagogia por meio do serviço de curso a distância da Universidade de Brasília (UnB). Irmã de Lourença, Dorotéia dos Santos Rocha, 44 anos, foi entregue pelos pais a uma família de Cavalcante ainda mais nova, aos 10. Também sem citar detalhes, diz ter sofrido bastante humilhação nas residências onde tinha que trabalhar como doméstica para ter o que comer e uma cama para descansar. Nunca recebi salário. As únicas roupas, pouquinhas, eram levadas, por nosso pai, que viajava horas a cavalo até chegar à cidade. Não sabia de nada do que a gente passava na casa do povo que, acreditava, estar cuidando bem das filhas dele, lembra. De volta ao Engenho, apenas com o ensino básico, ela aproveitou um programa do governo estadual e concluiu o magistério. Há 13 anos, leciona no primeiro ano da escola municipal do povoado. Também confiada pelos pais a uma família de desconhecidos moradores da cidade, Divina Francisca Vieira, hoje com 35 anos e trabalhando como atendente do Centro de Antendimento ao Turista (CAT) do Engenho, deixou a comunidade aos 11 anos. Passei por todo tipo de situação de humilhação e vergonha que você pode imaginar. E sempre fiquei calada, por medo, ressalta. Para se livrar dos patrões brancos, ela se casou aos 16 anos e retornou ao seu povoado, decidida a impedir que as irmãs mais novas passassem pelas mesmas situações vexaminosas. Quando uma mulher da cidade veio buscar as minhas irmãs para trabalhar na casa dela, falei aos meus pais que não deixaria. Eles responderam não ter opção, pois não tinham como alimentá-las. Então, disse que elas morariam comigo e com o meu marido, na minha casa, e que daria comida a elas. E assim foi. As irmãs, segundo Divina, são gratas até hoje. Cenários distintos A prosperidade do Engenho é a exceção. Com cerca de 700 moradores, é a comunidade do Sítio Histórico e Patrimonial Kalunga da Chapada dos Veadeiros (leia Para saber mais) mais próxima de um núcleo urbano e a única com energia elétrica, ensino fundamental, posto de saúde e toda a infraestrutura para o turismo, que incluiu um CAT e uma loja com produtos artesanais feitos por quilombolas. Os demais povoados da região, onde residem mais 3,3 mil descendentes de escravos, não contam com nada disso. Na maioria, distante até 100km de uma cidade, isolada por serras e rios, só se chega a cavalo ou em lombo de burro. Crianças caminham até quatro horas, em trilhas arriscadas, para chegar a escolas onde há apenas o ensino básico. Diante desse cenário, morando em terras improdutivas e sem oferta de emprego, os pais dessas crianças costumam entregá-las a moradores das cidades mais perto com o intuito de vê-las alimentadas e com o ensino médio concluídos. E, com mais sorte, empregadas, ainda na adolescência, para não terem de retornar ao lugar de origem. São justamente as crianças dessas localidades as principais vítimas de estupro em Cavalcante. E a maioria das vítimas, admitem os policiais e os conselheiros tutelares do município, nem sequer denunciam os crimes. Nem para os pais ou qualquer outro parente. Por desinformação ou medo.

16 13/04/15 Para saber mais Isolados por 200 anos Calunga ou kalunga é o nome atribuído a descendentes de escravos fugidos e libertos das minas de ouro do Brasil Central que formaram comunidades autossuficientes e viveram mais de 200 anos isolados em regiões remotas, próximas à Chapada dos Veadeiros. São três comunidades, nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás. A mais populosa fica em Cavalcante, com pouco mais de 2 mil pessoas, distribuídas nas localidades de Engenho, Prata, Vão do Moleque e Vão das Almas, sendo a última a mais recente a se integrar no seio do município (há cerca de 30 anos). Alguns estudos têm indicado a presença de calungas também em regiões do Tocantins, nos arredores de Natividade e em regiões isoladas do Jalapão. Durante todo esse período, houve miscigenações com índios, posseiros e fazendeiros brancos, além de forte influência de padres católicos, dando lugar a uma cultura hibridizada, característica que se manifesta na alimentação e no forte sincretismo religioso da mistura do catolicismo e de ritos africanos.

17 CORREIO BRAZILIENSE 13/04/15 CIDADES VIOLÊNCIA» Depois da tragédia, a ação Governo adotará três medidas até o fim do ano para que a segurança volte às escolas do DF. Uma delas havia sido recomendada pelo Ministério Público. Em Taguatinga, violência ocorrida no mês passado ainda assusta alunos e funcionários CAMILA COSTA ISA STACCIARINI Você pode passar 24 horas aqui e nunca ver a polícia. Fico com medo, principalmente depois do caso da Estrutural. Aqui entra gente que nem é estudante ou funcionário Ronaldo Rocha Siqueira, pai de aluno do CEF Carlos Mota, no Lago Oeste Até o fim do ano, pelo menos três medidas serão implantadas pelo Executivo para evitar novos episódios de violência dentro das escolas do DF. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), inclusive, já havia recomendado uma das ações: a mediação. As outras duas tratam da contratação de mais profissionais para a área e da reestruturação curricular de estudantes da rede pública do DF. Com o episódio da Cidade Estrutural em que um homem entrou no Centro de Ensino Fundamental 1 e feriu 11 pessoas, o secretário da Segurança Pública e da Paz Social, Arthur Trindade, determinou a elaboração de um estudo sobre violência nas escolas. O trabalho servirá para orientar as ações do Batalhão Escolar. Um mapa com as áreas mais problemáticas do DF será traçado. A promessa do secretário é reforçar o policiamento nessas localidades. O mesmo trabalho terá como destino a Secretaria de Educação, com o objetivo de subsidiar estratégias de resolução de conflitos ou até mesmo promover mudanças na distribuição dos vigilantes, explicou o chefe da segurança pública. Segundo a promotora de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc), Márcia da Rocha, a mediação será um mecanismo para criar segurança entre as pessoas. No formato de grupo de encontro, alunos, professores, servidores e pais seriam, com a institucionalização da medida, capacitados a ouvir o outro de forma a entender as atitudes de todos. Uma espécie de mesa redonda para aprender a respeitar as opiniões diversas. É uma medida primária para evitar que as pessoas transformem um simples desentendimento em conflito, na reprodução da violência. E que, juntos, possam começar a trabalhar o entendimento do que o outro está dizendo, explicou a promotora. Temos uma atenção com a segurança para que os alunos não sintam receio em estar aqui. O que nos preocupa é a `drogadição que gera violência. Depois do ocorrido, muitos falaram em deixar de estudar no colégio, pelo impacto do susto%u201d Temos uma atenção com a segurança para que os alunos não sintam receio em estar aqui. O que nos preocupa é a `drogadição que gera violência. Depois do ocorrido, muitos falaram em deixar de estudar no colégio, pelo impacto do susto Rodrigo de Franco Filgueira, diretor do CED 6 de Taguatinga Ato egoísta Atualmente, algumas escolas do DF já trabalham com o método, mas o número é baixo. Das 627 escolas públicas do DF, menos de 10 usam a mediação. A violência

18 13/04/15 é um ato egoísta. Quem pratica não está pensando no outro. A pessoa pode até se vitimizar, dizer que foi para se defender, mas é incapaz de estabelecer um diálogo. E a mediação é uma das formas de mudar isso. Não é a única, mas já surte grandes resultados", ponderou Márcia. A Secretaria de Educação também estuda a contratação de profissionais para o posto de inspetor: um profissional que fará o monitoramento dos intervalos, do horário de entrada e saída da escola e das salas de aula e vigiará o comportamento dos estudantes. A licitação, segundo o secretário Júlio Gregório, está encaminhada. Ainda não temos definição da quantidade de profissionais, mas será algo que atenda às escolas maiores do DF, onde existem os conflitos de violência, adiantou. A longo prazo, o plano do governo é alterar a estrutura curricular e criar atividades estimulantes, que mantenham os alunos mais conectados com o estudo e menos dispersos. Eles precisam estar ocupados com coisas mais interessantes para não terem tempo de outras coisas, justificou o secretário. Carlos Mota Há seis anos, o diretor Carlos Mota dá nome ao Centro de Ensino Fundamental do Lago Oeste. A homenagem, infelizmente, veio após ele ser assassinado por alunos e ex-estudantes, em casa. O motivo: ele atuava fortemente no combate às drogas na instituição de ensino. Em 20 de junho de 2008, quatro rapazes foram flagrados tentando entrar no colégio com entorpecentes, mas o educador os impediu. Criminosos foram até a chácara onde o professor morava com a mulher e dois dos três filhos, e atiraram contra Carlos. A viúva, Rita Pereira, 45 anos, socorreu o marido até o hospital, mas era tarde. O professor trabalhava em projetos para implementar o ensino de tempo integral na escola, criar uma biblioteca virtual, levar o cinema à instituição e estimular atividades culturais. Mesmo pais de alunos recémchegados conhecem a história do professor. O jardineiro Ronaldo Rocha Siqueira, 30 anos, busca o filho Erick Feitosa Siqueira, 7, todos os dias no colégio. A escola fica a cerca de 100m de um posto da Polícia Militar que não funciona. Ronaldo tem medo da insegurança. Você pode passar 24 horas aqui e nunca ver a polícia. Fico com medo, principalmente depois do caso da Estrutural. Aqui entra gente que nem é estudante ou funcionário. À noite, a venda de droga na porta da instituição ocorre sem ninguém fazer nada. Entrego meu filho na sala de aula e o busco com a professora, destacou.

19 CORREIO BRAZILIENSE 13/04/15 CIDADES Vulnerabilidade no CED 6 Quase um mês depois da morte de Diego Henrique Vicente Silva, 20 anos, assassinado com três tiros no Centro Educacional 6 de Taguatinga (CED 6), as recordações violentas imperam. Na última quinta-feira, a reportagem visitou o colégio. Em um painel logo na entrada da instituição, uma pomba da paz recebe alunos, professores e funcionários. Com ela, a frase: Tem tanta coisa errada que não cabe no cartaz. O desabafo é dos alunos e expõe a realidade do colégio. O CED 6 atende, entre outros, a adolescentes e jovens que cumprem medidas socioeducativas em unidades de internação. Desde a morte de Diego, policiais do Batalhão Escolar estão no local, mas a presença não inibe os malintencionados. No dia em que o Correio esteve no colégio, um aluno foi flagrado com droga. Em 2013, professores encontraram um revólver dentro de um vaso sanitário masculino. Aluna do 3ª ano, Rosângela Carolina dos Santos, 20, reclamou da insegurança. Aqui nunca teve policiamento. Estão aqui esses dias por causa do que aconteceu. Vejo constantemente gente entrando na escola com o que não pode. Eu fico com medo, porque é um risco que a gente corre, lamentou. A amiga Keylla Alves, 19, também aluna do 3ª ano, tem a mesma sensação. O colégio era para ser um lugar seguro, mas viemos para cá apreensivos. Tenho receio, inclusive, de ser confundida com alguém e sofrer algum tipo de violência. O diretor do CED 6, Rodrigo de Franco Filgueira, reconhece que o colégio ainda está em fase de recuperação. Temos uma atenção com a segurança para que os alunos não sintam receio em estar aqui. O que nos preocupa é a `drogadição que gera violência. Depois do ocorrido, muitos falaram em deixar de estudar no colégio, pelo impacto do susto, revelou.

20 15/04/15 GUSTAVO IOSCHPE O último a sair que apague a luz (se houver) Nos últimos três anos, seis amigos próximos se mudaram para o exterior cinco para os Estados Unidos e um para a Europa. Três deles decidiram ir depois das eleições. Mudaram-se com mala e cuia, levando a família. Não saíram por desespero nem por falta de oportunidades: todos foram bem-sucedidos no Brasil. Saíram porque acreditaram que dariam melhores oportunidades a si e a seus filhos alhures. Eles não são representativos da população brasileira geral a maioria estudou fora, todos têm ensino superior e renda alta, e não quero aqui presumir que é possível traçar qualquer conclusão aplicável ao país como um todo a partir de uma amostra de seis pessoas. Mas acredito que esses seis são ilustrativos de um fenômeno que me parece ser inédito na história do Brasil: uma parte considerável da elite brasileira perdeu a esperança no país. Não a elite do bolso, mas a elite do cérebro: as pessoas mais instruídas, mais empreendedoras e ambiciosas. Não tenho dados para comprovar essa impressão, e não descarto a hipótese de eu ter o azar ou o viés de seleção de falar com gente que é a exceção que confirma a regra, mas é algo que tem ficado cada vez mais aparente nos últimos meses, em conversas com pessoas de várias profissões e regiões do Brasil. E, ainda que a vitória de uma presidente à frente de um governo tão incompetente e maculado por denúncias de corrupção tenha sido um contribuinte para o desânimo, não creio que ele seja sua principal razão nem, portanto, que uma (desejável, diga-se) troca de governo resolverá o problema. O que mudou? O Brasil, afinal, nunca teve um nível de desenvolvimento de países de Primeiro Mundo, e nos últimos vinte anos alcançou uma série de avanços, que tiraram um contingente enorme de brasileiros da miséria. Muitos membros da elite lucraram com esse movimento. Olhando apenas no retrovisor, não parece haver razões para desalento. Sempre convivemos com pobreza, desigualdade, insegurança, corrupção etc. Antes convivíamos bem com tudo isso, mas agora não mais. O que aconteceu? O que mudou é a sensação de que batemos no teto das nossas possibilidades; de que, para alçarmos voos mais altos, precisamos de mudanças importantes: de leis, de instituições, de valores, de ética. E de que não há no país a disposição e a fortaleza para fazer essas mudanças. Esse governo não tem a força política, nem as ideias certas, nem a reputação necessária para operar essa mudança. O Legislativo está em descrédito. Não há lideranças inspiradoras na sociedade civil, fragmentada em dezenas de guildas que defendem exclusivamente o seu interesse corporativo, ocupadas em achar um jeito de dar uma mordida a mais no baú da Viúva. As lideranças populares estão há tempos no bolso do governo, e a massa da população não tem tempo nem conhecimento suficiente para se engajar nas discussões mais complexas para criar um novo país. Estamos à deriva. Todo mundo sabe que podemos mais, ninguém em sã consciência aguenta mais a situação atual, mas não parece haver vivalma que possa nos conduzir deste atoleiro ao eldorado. Desde que eu me conheço por gente, sempre houve alguma crise urgente que servia para mascarar os outros problemas. Primeiro foi a ditadura, então a dívida externa, a inflação, o impeachment, o câmbio, a fome, a seca, uma ou outra crise internacional. Depois que superamos tudo isso, que passamos de um presidente Ph.D. para um operário sem solavancos nem traumas, que estabilizamos a moeda e consertamos as contas públicas, que privatizamos, matriculamos quase todas as crianças na escola, que conseguimos crescer reduzindo a desigualdade, que conseguimos colocar grandes corruptos e corruptores na cadeia depois de

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