Crédito e bancos no sul de Minas Gerais ( ): reconstituição da história econômica da região em sua transição para o capitalismo

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1 Crédito e bancos no sul de Minas Gerais ( ): reconstituição da história econômica da região em sua transição para o capitalismo RELATÓRIO FINAL APRESENTADO À FAPEMIG PROJETO SHA APQ (PROGRAMA PRIMEIROS PROJETOS - PPP) Thiago Fontelas Rosado Gambi (Coord.) Andréa Vieira Megda (Bolsista) ICSA/ UNIFAL-MG Agosto de

2 Sumário Introdução ª PARTE REGIONALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO DO SUL DE MINAS Sul de Minas em transição: opção por uma regionalização como ponto de partida Urbanização no sul de Minas: elementos históricos ª PARTE A DINÂMICA BANCÁRIA DE MINAS GERAIS E OS BANCOS DO SUL DE MINAS Bancos e desenvolvimento econômico Bancos em Minas Gerais Bancos no sul de Minas Gerais ª PARTE AS CIDADES E OS BANCOS NO SUL DE MINAS ( ) Bancos na região de Varginha Bancos na região de Guaxupé Bancos na região de Pouso Alegre Considerações finais Referências ANEXO I ANEXO II ANEXO III

3 Introdução Este relatório final de pesquisa apresenta uma caracterização dos bancos do sul de Minas Gerais na passagem do século XIX para o XX. Ele está dividido em três partes. Na primeira, são feitas considerações sobre a regionalização e a urbanização dessa parte do território mineiro, observando como os bancos, além de outros elementos, ajudam a caracterizar o espaço sul-mineiro e a formação de suas cidades. Na segunda, os bancos da região são brevemente analisados no contexto mais amplo da dinâmica bancária de Minas Gerais. Finalmente, na terceira parte, são apresentadas características gerais de bancos fundados nas principais cidades do sul de Minas. O foco da análise neste item são os bancos criados em Varginha, Alfenas, Campanha e Paraguaçu entre 1917 e Na tentativa de encontrar documentação primária sobre essas instituições - mais especificamente sobre o Banco da Varginha e o Banco Comercial e Agrícola, de Varginha; a Cooperativa Pastoril Sul Mineira, de Três Corações; o Banco da Campanha; o Banco de Paraguaçu e o Banco Comercial de Alfenas -, percorremos o fórum e o cartório de registro de títulos de Varginha, e acessamos a coleção particular de jornais do Sr. Nico Vidal; o Centro de Memória Cultural do sul de Minas (CEMEC) e o arquivo do Museu Regional do sul de Minas, em Campanha; o cartório de registro de títulos e um arquivo particular, em Alfenas; e, finalmente, o Museu Alferes Belizário e o cartório de registro de títulos em Paraguaçu. Ao longo das buscas, deixamos de lado a Cooperativa Pastoril Sul Mineira por não ter a atividade bancária como finalidade específica. Diante da escassa documentação encontrada sobre essas instituições, a principal fonte primária utilizada neste trabalho foram os jornais regionais, que publicaram propagandas e balanços desses bancos. Embora os dados coletados não sejam suficientes para se fazer uma caracterização mais ampla da dinâmica do crédito e dos bancos da região, as informações apresentadas neste relatório certamente serão úteis para a construção posterior dessa caracterização. Encontramos no arquivo do fórum de Varginha um conjunto de documentos interessantes sobre a falência do Banco do Sul de Minas, que funcionou em Varginha de XX a XX. Não os exploramos nesta pesquisa, porque o banco escapava ao nosso recorte temporal. Apesar disso, digitalizamos essa documentação, que abre uma boa perspectiva para um trabalho futuro que trate especificamente dessa instituição (Anexo I). Vale ressaltar que o objeto da pesquisa foi discutido durante 2011, no Núcleo de Estudos em História Econômica e Economia Política, no contexto de um debate mais amplo sobre a urbanização do sul de Minas; que a documentação digitalizada 3

4 ficará disponível em CD; e, finalmente, que parte desta pesquisa foi publicada como capítulo A expansão bancária no sul de Minas em transição ( ) no livro Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20, organizado pelos professores Alexandre Saes (USP) e Marcos Lobato (UNIFAL-MG), e publicado pela Edusc, com o apoio institucional da FAPEMIG. Além disso, a bolsista do projeto utilizou a pesquisa em seu trabalho de conclusão de curso (Anexo II) e apresentou a pesquisa em dois eventos acadêmicos de Iniciação Científica organizados pela universidade (Anexo III). Esses foram os principais resultados da concretização deste projeto. Finalmente, é preciso dizer que este foi apenas um primeiro esforço de busca de fontes primárias sobre o crédito e os bancos no sul de Minas, e o apoio da FAPEMIG foi fundamental para que ele pudesse ser realizado. 4

5 1ª PARTE REGIONALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO DO SUL DE MINAS 1. Sul de Minas em transição: opção por uma regionalização como ponto de partida * Entender a economia de Minas Gerais durante o século XIX tem sido um desafio que a historiografia tem cumprido muito bem. Desde que os trabalhos de Roberto Martins e Robert Slenes lançaram um frutífero debate acerca da economia escravista mineira oitocentista, diversas pesquisas se preocuparam em dar contribuições novas ao debate em outros importantes temas. A historiografia econômica conseguiu apreender bem o que Guimarães Rosa já afirmara há tempos, Minas são muitas. A diversidade regional é uma das marcas da economia mineira, um espelho do Brasil. Nesse sentido, parte dos trabalhos que abordam a Minas Gerais do século XIX buscou analisar a história da Província levando em conta esses aspectos regionais. Apesar dessa ênfase na diversidade regional, estudos como de Roberto Martins e Douglas Libby baseavam-se em recortes políticos tradicionais do território mineiro, recortes estes que remontam à realidade do século XX e que, por isso, nem sempre são os mais adequados ou relevantes para a abordagem histórica. 1 Esse recorte político do território mineiro também seria retomado por John Wirth, mediante o uso do Anuário Estatístico de 1922, para a análise de Minas Gerais no período entre 1889 e Foi somente com os trabalhos de Marcelo Godoy e Clotilde Paiva que a regionalização passou a ser problematizada para Minas Gerais. 3 Levando em conta aspectos históricos, por meio de relatos de viajantes estrangeiros, dividiram o território mineiro oitocentista em 18 regiões. Nos relatos eram os aspectos geográficos, econômicos e populacionais que definiriam as regiões por níveis de desenvolvimento, * Reprodução parcial de texto publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc, MARTINS, Roberto. Growing in Silence: The Slave Economy of Nineteenth-Century Minas Gerais, Brazil. Tese de Doutorado: Varderbilt University, 1980; MARTINS, Roberto. A economia escravista de Minas Gerais no século XIX. Belo Horizonte: Cedeplar/UFMG, 1980a, e LIBBY, Douglas. Transformação e trabalho em uma Economia escravista: Minas Gerais no século XIX. São Paulo: Brasiliense, WIRTH, John. O fiel da balança: Minas Gerais na federação brasileira ( ). Rio de Janeiro: Paz e Terra, PAIVA, Clotilde Andrade. População e Economia nas Minas Gerais do século XIX., São Paulo: USP/Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 1996; GODOY, Marcelo Magalhães. Intrépidos viajantes e a construção do espaço: uma proposta de regionalização para as Minas Gerais do século XIX. Belo Horizonte: UFMG/CEDEPLAR,

6 de maneira que considerassem tanto o grau de mercantilizarão da economia como o papel da escravidão. A idéia principal dessa metodologia era apontar para a importância de uma regionalização construída a partir de elementos históricos e geográficos. Assim, fundamental era perceber a diversidade e o contraste dos mais variados espaços mineiros nos oitocentos. Tal regionalização, como é possível avaliar no mapa abaixo, apreende a realidade da primeira metade do século XIX, da grande fazenda mineira, cuja diversificação produtiva ganhava destaque. 4 Na área mais escura, vinculada tanto às cidades mineradoras como ao circuito mercantil em direção ao Rio de Janeiro, se encontravam as regiões mais urbanizadas e desenvolvidas da Província. Nas áreas de cor intermediária, por sua vez, predominavam as regiões de abastecimento, como da pecuária de Araxá e dos leitos do São Francisco e Rio das Velhas, como também, as fronteiras da Província com o Rio de Janeiro e São Paulo, a Mata e o Sul Central respectivamente. Nas áreas de baixo desenvolvimento, por fim, representadas pela cor clara, a produção comercial ou a integração aos circuitos exportadores era limitada. O que hoje comumente conhecemos como o Sul de Minas está caracterizado acima pelas regiões Sudoeste (XVIII) e Sul-Central (XVII) que, conforme as listas nominativas de 1831/2, concentravam juntas cerca de 16,5% da população. E ainda: Contrastando com a Região da Mata, a Região Sul apresentava a vegetação de campos como cobertura dominante, sendo que as florestas predominavam, sobretudo, na sua porção meridional. A criação, principal atividade da região, era exercida nos campos. As matas, derrubadas para o cultivo, eram dominadas por agricultura voltada para o abastecimento de mercados intra e inter-regionais ou auto-consumo. Alguns gêneros respondiam por importantes fluxos comerciais, sendo exportados para fora da região. Spix/Martius, vindos de São Paulo, cruzam a Região Sul na sua porção central, passando inclusive por Campanha. Saint-Hilaire também cruza a região por duas vezes, porém, na sua porção oriental. Podemos dividir o território percorrido por Spix/Martius em duas porções. Até mais ou menos a altura de Campanha os autores relatam a grande incidência de matas, a agricultura voltada para o auto-consumo e na área de Campanha, a mineração de ouro vigorosa. Já a parte percorrida entre Campanha e São João Del Rei apresentava a criação como atividade preponderante. 5 4 PAIVA, Clotilde A. & GODOY, Marcelo M. Território de contrastes: economia e sociedade das Minas Gerais do século XIX. X Seminário sobre a economia mineira. Diamantina, 2002, p CUNHA, Alexandre Mendes & GODOY, Marcelo Magalhães. "O espaço das Minas Gerais: processos de diferenciação econômico-espacial e regionalização nos séculos XVIII e XIX". 6

7 A região apresentava, portanto, vínculos com mercados externos à Província enquanto a sua economia era caracterizada pelas atividades de criação e agricultura de abastecimento. Godoy e Paiva consideraram as regiões Sudeste e Sul-Central com nível de desenvolvimento médio, em contraposição a região central local em que concentravam as áreas mais dinâmicas da Província. Afinal, nos tradicionais centros mineradores tanto tendo em vista suas atividades econômicas como a concentração da população, constituíam-se as maiores cidades e as mais abastadas redes comerciais da Província na primeira metade dos oitocentos. 6 Contudo, ao longo desse período, o Sul de Minas alcançaria um crescente destaque no jogo político e econômico da Província. Na historiografia essa identidade do Sul de Minas seria revelada por Alcir Lenharo. 7 Neste trabalho pioneiro, ao abordar o real valor da economia de gêneros de abastecimento em Minas Gerais durante a primeira metade do século XIX, o autor passaria a enfatizar a relação da emergência do Sul de Minas como ator político no período imperial quanto da rápida expansão da demanda do mercado interno em função da instalação da Corte no Rio de Janeiro em A Revolta Liberal de 1842 marcaria a ascensão definitiva dos grupos sul-mineiros no tabuleiro político da Província, 9 numa fase em que na ponta norte da Mantiqueira o café passava a ser introduzido, recriando o território mineiro. Mas nunca é demais advertir: o próprio Sul de Minas é recortado por diferentes dinâmicas, resultantes das articulações dos transportes, especialmente as ferrovias, Congresso brasileiro de história econômica, 5; conferência internacional de história de empresas, 6. Caxambu (MG). Anais ABPHE, (Disponível em CD-ROM), p Mas isso não significa nos apegarmos necessariamente a ideia de regionalização mediante o conceito de rede de cidades, em que destacam-se relações econômicas, hierarquias e graus de influência entre as cidades. Para trabalhos que seguem essa análise, conferir: VELLOSO, André e MATOS, Ralfo. A rede de cidades do Vale do Jequitinhonha nos séculos XVIII e XIX. Anais do VIII Seminário sobre a Economia Mineira, vol. 1. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, 1988; RODARTE, Mário Marcos Sampaio. O caso das minas que não se esgotam: a pertinácia do antigo núcleo central minerador na expansão da malha urbana da Minas Gerais oitocentista. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, (Dissertação de mestrado); RODARTE, Mário Marcos Sampaio e GODOY, Marcelo Magalhães. Pródromos da formação do mercado interno brasileiro: um estudo de caso das relações entre capital mercantil, rede de cidades e desenvolvimento regional, Minas Gerais na década de Anais do XII Seminário sobre a Economia Mineira. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG, RODARTE, Mário Marcos Sampaio; PAULA, João Antônio de; SIMÕES, Rodrigo Ferreira. Rede de cidades em Minas Gerais no século XIX. História Econômica & História de Empresas. São Paulo: Hucitec/ABPHE, v. 7, n. 1, Para uma crítica ao argumento de rede de cidades: MARTINS, Marcos Lobato. Regionalidade e história: regionalização nos estudos historiográficos mineiros. XVI Encontro Regional de História ANPUH-MG, LENHARO, Alcir Lenharo. As tropas da Moderação - O abastecimento da Corte na formação política do Brasil São Paulo: Edições Símbolo, Mas como lembra Amilcar Vianna Martins Filho, Daniel de Carvalho em 1916 já teria feito a primeira crítica ao modelo de ciclos de exportação para Minas Gerais com o trabalho Notícia histórica sobre o algodão em Minas. Cf. MARTINS FILHO, Amilcar. O segredo de Minas: a origem do estilo mineiro de fazer política ( ). Belo Horizonte: Crisálida: 2004, p LENHARO, op. cit., p

8 das variações geográficas e das próprias relações mercantis e culturais dos fazendeiros e comerciantes locais. Cidades tradicionais no abastecimento, cidades com aptidões turísticas, cidades que rapidamente se convertem em economias exportadoras. Enquanto o café alcançava com maior rapidez as áreas da Serra da Mantiqueira, o planalto sul-mineiro ainda preservava sua produção bastante diversificada, com marcado apego ao gado, milho, fumo entre outros produtos. Ao mesmo tempo em que as áreas da Mantiqueira e seus contrafortes (como por exemplo, Itajubá, Pouso Alegre, Poços de Caldas, Guaxupé e até Passos), pertencentes à faixa de fronteira com São Paulo, vinculam-se a dinâmica econômica paulistana e ao fluxo comercial com o Porto de Santos, as áreas do planalto sulmineiro (como por exemplo, Alfenas, Varginha, Três Corações e Campanha) conservaram até meados do século XX relações mais estreitas com o Rio de Janeiro. Isso levante a quantidade de variáveis a serem consideradas em qualquer tentativa de regionalização do chamado Sul de Minas. É nessa perspectiva que uma questão se faz necessária: mas afinal, quais são os caminhos percorridos pelo Sul de Minas ao longo do século XIX? Considerando a regionalização como um processo dinâmico, 10 nosso objetivo neste livro é perceber as transformações na região no período de transição do século XIX para o século XX. Transição essa, fundamental para entender os caminhos da formação do capitalismo em Minas Gerais, que não perpassa um único caminho, mas ergue percursos que precisam ser desvendados conforme as articulações entre sociedade, economia e política. O Sul de Minas na transição para o século XX como referido nas pesquisas de John Wirth é um território bastante distinto daquele na regionalização proposta por Paiva & Godoy para o início do século XIX. Assim, como reconstruir esse novo território que emerge nas décadas finais dos oitocentos? Para tanto, não podemos deixar de compreender que a regionalização política proposta por Wirth, com demarcações permanentes e objetivas, esconde uma regionalização que é dinâmica na sua construção histórica e, por outro lado, que deve ser flexível quanto às suas demarcações CUNHA, Alexandre Mendes & et alli. História Econômica e Regionalização: Contribuição a um Desafio Teórico-Metodológico. Estudos Econômicos. São Paulo, V.38, N. 3, Julho- Setembro, Carlos Eduardo Rovaron lembra, por exemplo, que a definição da fronteira entre São Paulo e Minas Gerais na região da caldeira vulcânica da região de Poços de Caldas somente foi plenamente definida em acordo entre os governadores dos dois estados, Armando Sales de Oliveira e Benedito Valadares Ribeiro, em ROVARON, Carlos Eduardo. A utilização de 8

9 Seguindo essa ideia de regionalização, incorporando maior flexibilidade nas demarcações e de processo dinâmica, Marcos Lobato Martins considera: que as unidades regionais não se distinguem tanto por suas características naturais, mas por serem espaços socialmente construídos a partir da materialização das relações sociais. 12 Por isso mesmo, o Sul de Minas não esgota sua existência econômica, social e cultural nas fronteiras paulistas ou cariocas, mas pelo contrário, é transformado e promove transformações em seus longos territórios de intersecção. A economia cafeeira do Sul de Minas não se difere completamente da cafeicultura da região da Mogiana. Assim, é possível imaginar maiores similaridades entre cidades próximas a fronteira Minas São Paulo, do que uma completa homogeneidade entre o Sul de Minas ou toda a região da Mogiana. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lado a perspectiva da dinâmica do território sul-mineiro que, ainda na primeira metade do século XIX, se integrava plenamente ao abastecimento da capital do Império, e que na transição para o século XX já estende maiores relações com o estado de São Paulo, não apenas produzindo gêneros de abastecimento, mas inclusive, ampliando substancialmente a produção primário-exportadora de café. Assim, no último quartel dos oitocentos o Sul de Minas vinha constituindo tanto seu sistema de transportes por meio das estradas de ferro, como vendo a abertura de seus primeiros bancos. Entretanto, ao que parece, a região ainda mantinha sua economia subordinada às suas fronteiras: a comercialização do café se voltava para os comissários do Rio de Janeiro ou para as Casas Comerciais paulistas. Os bancos locais, aparentemente, supriam pequenas atividades, enquanto o grande capital ainda seria suprido ou por fontes governamentais ou por bancos de São Paulo e Rio de Janeiro. Nesse sentido, o Sul de Minas tornou-se mais um caso específico dentro o mosaico mineiro: uma região historicamente dinâmica, tanto por sua função de abastecimento da corte imperial, como em transformação por causa da expansão das lavouras de café na transição para o século XX, mas que não conseguiu se aproximar do ritmo e pujança econômica dos estados vizinhos do Rio de Janeiro e São Paulo. Para uma regionalização mais flexível, é possível considerar que o Sul de Minas seria formado por um complexo de cidades medianas, com populações entre memorialistas como fonte de pesquisa alternativa para acompanhar processos de ocupação. XVIII Encontro Regional de História ANPUH-SP, Assis, 2006, p MARTINS, Regionalidade e história..., p.5. 9

10 vinte e quarenta mil habitantes, atendidas pela rede ferroviária Sul Mineira, resultado da fusão das estradas Minas e Rio, Sapucaí e Muzambinho. Todavia, mesmo uma regionalização flexível não garante a homogeneidade ao território: o Sul de Minas não deixa de agregar a economia cafeeira em expansão, as atividades de abastecimento tradicionais aos comerciantes locais, um complexo turístico com o circuito das águas, enfim, pequenas dinâmicas particulares dentro de uma estrutura econômica regional. No início do século XX, a população da região cresce. O mesmo fenômeno se verifica para o transporte ferroviário, a indústria e o sistema bancário da região. Em Minas Gerais, as ferrovias se desenvolveram primeiro nas regiões onde o comércio era mais intenso. Depois da Mata e do Oeste, as ferrovias chegam ao sul da província, na década de 1880, por meio de quatro empresas, a saber, a Estrada de Ferro Rio Verde, posteriormente chamada de Minas e Rio ; a Viação Férrea Sapucaí; a Estrada de Ferro Muzambinho e, finalmente, já nos primeiros anos do século XX, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, originária de São Paulo, atenderia o triângulo e o Sul de Minas. Apesar de um sistema ferroviário em expansão para quase toda a região neste período de transição para o século XX, a inexistência de centro irradiador para o transporte promoveria, na verdade, a integração ferroviária do Sul de Minas não com suas próprias cidades, mas sim com os mercados exteriores. Ainda que provisoriamente, é possível pensar que as ferrovias no Sul de Minas Gerais começaram a se instalar para atender uma região dinâmica e promissora voltada para o comércio de abastecimento do Rio de Janeiro e de São Paulo, e para o plantio e exportação de café. E, mais importante, o que se observa é a constituição do sistema ferroviário com interligação do Sul de Minas com os portos do Rio de Janeiro e Santos, ou com os mercados dos Estados vizinhos, uma modernização do transporte que poderia surgir como condição para fortalecer o mercado interno, 13 mas que ao que parece, surge para estreitar as relações, inclusive de dependência, com outras regiões. Nesse ensejo é que se verifica o processo de formação das primeiras indústrias do Sul de Minas: uma dinâmica ainda frágil em comparação com aquela experimentada nas regiões da Zona da Mata e Metalúrgica. 14 Tais indústrias, geralmente ligadas à economia de abastecimento ou à economia agrário-exportadora 13 GODOY, Marcelo Magalhães & BARBOSA, Lidiany Silva. Uma outra modernização. Transportes em uma Província não exportadora Minas Gerais, Economia e Sociedade. Campinas, vol. 17, n.2 (33), Cf. classificação de Diniz, Estado e capital estrangeiro... 10

11 cafeeira, 15 apresentavam uma média muito baixa de apenas quatro trabalhadores por empresa quando comparada aquelas empresas de Juiz de Fora, por exemplo. Essa característica está disseminada em praticamente todas as cidades sul-mineiras, com indústrias mais próximas de pequenos artesanatos e empreendimentos familiares, fundamentalmente no ramo de alimentos, e para o consumo local. 16 Era, portanto, a típica e rudimentar manufatura, com poucos trabalhadores, sem sofisticações tecnológicas e que, assim, crescia numa dinâmica ambígua, ora reproduzindo o modelo cafeeiro da Zona da Mata, ora recuando às suas heranças de abastecimento interno. É somente na década de 1920 que a região Sul amplia sua participação para a produção industrial, praticamente dividindo a segunda posição com a região metalúrgica. Um argumento plausível para essa aproximação é, de um lado, a continuidade de uma estrutura industrial arcaica na região metalúrgica, somada, por outro lado, com a maior representatividade da região Sul na produção da economia mineira de maneira geral. O modo como se deu sua industrialização revela o Sul de Minas como síntese de uma economia periférica na periferia. Era uma região que, participando de uma contínua integração regional, incorporando os elementos modernos difundidos do centro do capitalismo, não conseguia criar a grande indústria. A falta de um mercado consumidor amplo e a reduzida capacidade de acumulação pode ser indicativa para essa estrutura industrial arcaica. Sua produção industrial vinha ampliando a participação no valor total da produção de Minas Gerais, quase dobrando entre 1907 e 1920, mas, ainda assim, a indústria mantinha uma estrutura bastante rudimentar. Processo semelhante ocorre com os bancos da região. Nas décadas de 1910 e 1920, há uma expansão significativa do número de bancos criados no Sul de Minas, cujo setor financeiro passa a se desenvolver com maior vigor num espaço mais ligado à ascendente economia paulista, à ferrovia, à indústria e ao café. 17 No entanto, apesar da mudança da direção da expansão bancária de Minas Gerais rumo ao Sul, o grosso das operações bancárias estava concentrado em poucos grandes bancos, nenhum deles localizado nessa região. O banco Hipotecário e Agrícola e o banco Comércio e 15 PAULA, Ricardo Zimbrão A. de. Indústria em Minas Gerais: origem e desenvolvimento. X Seminário sobre a Economia Mineira. Diamantina, Vale a noção de artesanato, manufatura e grande indústria do historiador Paul Mantoux (s/d). A grande indústria exige a introdução de máquinas e equipamentos, da maior divisão social do trabalho e dos preceitos fundamentais que definem uma sociedade e produção capitalista. A produção artesanal, quase familiar, não permite a ruptura com o modelo arcaico de produção, permitindo a formação efetiva de uma lógica capitalista de produção e sociabilidade. 17 COSTA, Fernando Nogueira. Os bancos de Minas Gerais ( ). Campinas: Unicamp Dissertação de Mestrado,

12 Indústria, ambos de Belo Horizonte, e o banco de Crédito Real, de Juiz de Fora, por exemplo, eram responsáveis em conjunto por cerca de 90% dos depósitos em conta corrente de Minas entre 1920 e O Sul de Minas expande seu sistema bancário, mas como as indústrias e as cidades da região, são bancos pequenos, locais, fragmentados em uma economia que se transforma, mas ainda muito lentamente. Em que pese o grau de concentração na Zona da Mata a expansão bancária do Sul de Minas no período não deixa de refletir que algo se passava com a economia daquela região. O Sul de Minas estava definitivamente em transição na passagem para o século XX. Uma transição para uma sociedade capitalista, em que as relações sociais e econômicas seriam cada vez mais impostas pelas regras do mercado, mercado este capitalista. Mas a dinâmica para que as transformações dessa região levassem a consolidação da estrutura capitalista, isto é, a efetivação do trabalho assalariado, de uma produção capitaneada pela indústria e de toda uma infra-estrutura necessária, avançaria por caminhos próprios no Sul de Minas. Em parte por esse flerte da economia tanto com as atividades de abastecimento como com o setor exportador; em parte pela fragmentação da economia em diversos municípios médios, com variadas e pequenas indústrias, e numerosos bancos com atuação local; e, ainda, possivelmente com uma capacidade de acumulação reduzida em comparação com outras regiões de Minas Gerais, ou mesmo do país. Todas essas condições dão um caráter especial para esse Sul de Minas em transição, uma dinâmica própria e nova cuja problemática é lançada agora com este livro. Sem a pretensão de responder as causas da peculiaridade dessa transição, os textos que seguem certamente colocaram o Sul de Minas neste debate. 2. Urbanização no sul de Minas: elementos históricos ** Nesse quadro de disparidades, a urbanização do sul de Minas se dá no contexto contraditório em que a economia brasileira ainda é majoritariamente agrícola e mercantil e, ao mesmo tempo, vê a construção do mundo urbano moderno de início do século XX atrelado ao avanço do capitalismo nos países centrais. Esse contexto contraditório é característico da transição, o rural atrasado como base econômica, ao mesmo tempo estimula e limita o avanço do urbano moderno, criador de uma vida de 18 COSTA, Os bancos de Minas Gerais... ** Reprodução parcial a partir de texto apresentado no Encontro da ANPUH-MG de 2012, realizado em Mariana/MG. 12

13 cidade pequena 19 e de uma infraestrutura básica para atender às necessidades do capital. As condições para sua reprodução chegam, via provisão de infraestrutura, mas de modo limitado, respeitando os contornos impostos pela interação entre o rural e o urbano. Aquelas cidades ou partes de cidades que não outorgam ao capital as condições gerais de sua valorização simplesmente permanecem inexploradas 20. Já é possível notar nas cidades do Sul de Minas em transição a produção de valores de uso complexos e extrair delas uma quantidade de consciência diferente da que a vida rural extrai. Na virada do século XIX para o XX, muitas dessas cidades assistem à construção de praças, teatros e cinemas (Minas Gerais, 1909). Acompanham, em certa medida, o processo de modernização que vinha ocorrendo nas maiores cidades do país, cujo caso mais exemplar é o do Rio de Janeiro. As cidades da região, apesar de não apresentarem um padrão demográfico muito diferente de outras regiões neste período de transição, não geravam grandes efeitos úteis de aglomeração, 21 nem chegavam a constituir o conjunto frenético de impressões da metrópole, o turbilhão de fenômenos responsável por sua diversidade. Suas maiores cidades, no Sul de Minas, como algo recorrente entre outras experiências, contavam entre 30 e 40 mil habitantes nessa época 22 (Minas Gerais, 1909). Mantinham ainda o caráter simples da vida mental de pequena cidade, que descansa mais sobre relacionamentos profundamente sentidos e emocionais. Estes últimos se enraízam nas camadas mais inconscientes do psiquismo e crescem sem grande dificuldade ao ritmo constante da aquisição ininterrupta de hábitos 23. Apesar dessa mentalidade hipotética de vida de pequena cidade, as condições para a expansão da produção capitalista vão se formando no sul de Minas: as cidades entre final do XIX e início do XX começam a se dotar da infraestrutura que garantirá 19 SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: Velho, Octávio (org). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Guanabara, p TOPALOV, Christian. La urbanizacion capitalista. Cidade do México: Editorial Edicol, Benefícios decorrentes da concentração espacial. TOPALOV, Christian. La urbanizacion... Op.Cit. 22 Se considerar a comparação com São Paulo, conforme o censo de 1912, o perfil populacional das cidades do estado, de maneira geral, era muito próximo ao paulista. Em Minas Gerais encontramos apenas uma cidade com mais de cem mil habitantes (em São Paulo eram duas); quatorze cidades entre cinqüenta e cem mil habitantes (em São Paulo eram sete); e, setenta e sete cidades com população entre vinte e cinquenta mil habitantes (em São Paulo eram 52). IBGE. Annuario estatistico do Brazil Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatistica, v. 1-3, ; Minas Gerais. Annuario Historico-Chorographico de Minas Gerais. Belo Horizonte, SIMMEL, Georg. A metrópole... Op.Cit. p

14 seu predomínio sobre o mundo rural. 24 Concretamente, não é possível dissociar o crescimento da população na região das transformações decorrentes da transição para o século XX. Com uma população de aproximadamente de 260 mil habitantes em 1872, o Sul de Minas em 1907 já apresentava quase 730 mil habitantes e, finalmente, mais de 1 milhão em Região que sustentava cerca de vinte por cento da população do Estado de Minas Gerais, teve dois grandes ciclos econômicos que incentivaram o crescimento urbano: uma primeira fase por conta dos circuitos de abastecimento da Corte, e uma segunda fase, por conta da expansão econômica cafeeira. Assim, com a ampliação das atividades econômicas e da população, nasciam os novos municípios. Alfenas, Boa Esperança, Três Corações e Varginha, por exemplo, faziam parte desta segunda fase de emancipação de municípios, entre as décadas de 1860 e 1880, como resultado da introdução do café na região (Anexo 1). Com a disseminação da produção cafeeira entre os municípios do Sul de Minas, novo movimento de formação de municípios, ainda mais vigoroso, teria início nas duas primeiras décadas do século XX. O ano de 1911, por exemplo, seria o ano de formação de 12 novos municípios no Sul de Minas, resultado da emancipação de antigos distritos que cresciam e reivindicavam sua autonomia política. A região administrativa passava, então, de 36 para 48 municípios. Por meio desta tendência de formação de novos municípios, o Sul de Minas se destacava como uma região dinâmica na expansão das atividades urbanas em comparação ao restante do Estado de Minas Gerais. Em 1872, a concentração de municípios na região era de 22%, alcançando 27% na primeira década do novecentos. Gráfico 1. Número de cidades e população em milhares Sul de Minas (1872, 1907, 1912, 1920) Mil habitantes Número de cidades Fonte: IBGE. Annuario estatistico do Brazil Rio de Janeiro: Directoria Geral de Estatistica, v. 1-3, Embora haja predominância do urbano, a formação da cidade é resultado de um processo histórico e não de uma geração espontânea, o que mistura o rural com o urbano, pois há permanência dos comportamentos anteriores que, se não eram urbanos, eram rurais. Assumindo aqui que o rural vem primeiro e depois o urbano. Mas é preciso atentar para o processo contrário, o rural que sai do urbano. Cf. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes,

15 Como indicado acima, os dados coletados nos censos demográficos, entre 1872 e 1920, indicam esse aumento significativo do número de cidades no Sul de Minas, isto é, novas cidades se formam ou se desmembram de outras já existentes ao longo do período. Mas, ainda mais importante é considerar que, apesar da população aumentar em várias dessas cidades, o que indica um processo de expansão urbana em curso, foi mantido na região um padrão de formação de cidades medianas. Como é possível observar no gráfico abaixo, as cidades para todos os censos permanecem sem grande disparidade entre suas populações. Mas mais importante, ao que parece, mesmo com uma ligeira expansão populacional, estes municípios medianos não constituíam vidas efetivamente urbanas. Seguindo a classificação tomada por Yves Leloup 25, o Sul de Minas em 1920 não teria nenhuma cidade (como núcleo urbano) com mais de 20 mil habitantes. Para o autor, o núcleo urbano do município era a população total deste menos os cidadãos referentes aos distritos, e ainda, considerar apenas como centros urbanos, as sedes de cidades que apresentariam mais do que cinco mil habitantes. Em suma, apesar de 48 municípios, segundo o critério de Leloup, o Sul de Minas teria em 1920, apenas 5 cidades com população entre sete e doze mil habitantes, outras 4 entre cinco e sete mil habitantes e, finalmente, mais três entre quatro e cinco mil habitantes. Diferentemente da Zona da Mata com Juiz de Fora, da área central a partir da década de 1920 com Belo Horizonte e de Teófilo Otoni para o Vale do Mucuri, a região do Sul de Minas seria marcada por uma profunda fragmentação de sua população em cidades pequenas e medianas, sem um centro irradiador das atividades econômicas. Ainda que sem a criação de uma grande cidade irradiadora de dinamismo, o crescimento populacional e a concentração de municípios na região foram acompanhados por mudanças qualitativas na infraestrutura urbana. Como vimos, a constituição de 1891, ao outorgar maior autonomia financeira aos municípios, fomentou a tendência de aumento nos investimentos em melhorias urbanas 26. Em Minas Gerais, particularmente, a lei n.546, de 27 de setembro de 1910, garantia empréstimos do Estado para melhoramentos urbanos 27. Esse movimento regional em compasso com o movimento nacional atesta a existência de um projeto político mineiro que passava pela proposta de valorização do mundo urbano encabeçado pelo Estado, e que era seguido à risca pelas cidades do Sul de Minas. 25 LELOUP, Yves. Lês Villes Du Minas Gerais. Paris: Université de Paris, COSTA, Emília Viotti da. Urbanização no Brasil no século XIX. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Unesp, MINAS GERAIS. Relatório de Presidente de Estado. Julio Bueno Brandão. Belo Horizonte: Imprensa Oficial,

16 Emília Viotti da Costa diz que, nesse contexto de preocupação governamental com o urbano, foi estimulada a construção de hotéis, jardins, teatros, cafés e destaca as melhorias nos sistemas de calçamento, iluminação, transportes e abastecimento de água. Essas seriam, portanto, características que indicariam certo processo de urbanização. É o que também diz Wirth para o caso de: A predominância da cidade, especialmente da grande cidade, poderá ser encarada como uma conseqüência da concentração, em cidades, de instalações, e atividades industriais e comerciais, financeiras e administrativas, de linhas de transporte e comunicação e de equipamento cultural e recreativo como a imprensa, estações de rádio, teatros, bibliotecas, museus, salas de concerto, óperas, hospitais, instituições educacionais superiores, centros de pesquisa e publicação, organizações profissionais e instituições religiosas e beneficentes 28. Se tomarmos as descrições do anuário histórico-corográfico de Minas Gerais de 1909 para as cidades do sul de estado podemos vislumbrar justamente esse processo. Vejamos o caso de Campanha, município com mais ou menos 20 mil habitantes em O anuário destaca o teatro, a biblioteca, os hotéis, o abastecimento de água, o serviço de correios e a ampla cadeia pública: A cidade possui um hospital de caridade (...); uma praça de mercado, boa iluminação pública, o Colégio Sion, o Noviciado dos Padres Jesuítas, teatro, uma excelente biblioteca pública, volumes (...), estação férrea da Cia Muzambinho, cemitério público, vários templos e prédios excelentes (...). Há na cidade regular suprimento de água para as necessidades da população, sendo proveniente de fontes públicas e particulares, cisternas, etc. A municipalidade possui um encanamento, obra de valor, e que hoje não se faria com poucas centenas de contos, e que é destinado a trazer água aos pontos mais elevados da Campanha. (...) Foi criada a diocese de Campanha por decreto pontifício de 8 de setembro de (...) Publica-se na cidade a mais velha das folhas do Estado, o Monitor Sul Mineiro, com 35 anos de existência. (...) A sub-administração dos Correios da Campanha compreende todas as agências postais do sul e sudoeste do Estado de Minas. (...) O teatro São Cândido existente na cidade foi reconstruído em (,,,) A cadeia de Campanha é uma das melhores de Minas e tem capacidade para guardar 100 presos 29. Itajubá, uma das cidades mais prósperas do Sul de Minas à época, com uma população de mais de 40 mil habitantes, já contava com a energia elétrica, que impulsionava o dinamismo do município. Diz o mesmo anuário sobre a cidade: 28 WIRTH, John. O fiel..op.cit.. p MINAS GERAIS. Annuario Historico-Chorographico de Minas Gerais. Belo Horizonte, pp.295-6; p

17 A cidade de Itajubá (...) é iluminada à luz elétrica, instalada a 12 de janeiro de 1907, com grandes festejos populares, e por iniciativa da Câmara Municipal presidida pelo farmacêutico sr. José Manso Pereira Cabral. (...) Possui a cidade um Instituto de Educação secundária equiparado ao Ginásio Nacional. Itajubá tem três igrejas (...). Tem o lugar um cemitério que era pequeno, mas que vem sendo aumentado (...) Contava a cidade cerca de 450 casas, das quais 59, seguramente, feitas nos últimos 10 anos; tem um bom teatro com o nome de Santa Cecília (...), uma cadeia com acomodações para 20 presos, tendo no pavimento superior sala para as sessões do júri e da municipalidade; uma praça de mercado (...), pretendendo-se substituí-la por um edifício melhor (...), tinha banda de música boa (...) As ruas são bem calçadas (...) Nos subúrbios da cidade existem fontes de água boa, havendo em diversas casas cisternas. (...) Em 1884, fora fundada na cidade, a Biblioteca Machado de Assis (...) Havia então na cidade uma Sociedade Dramática, a loja maçônica Deus e Humanidade, 2 tipografias, colégios, fábricas e outros melhoramentos locais 30. Pouso Alegre também contava com energia elétrica desde 1907 e tinha, segundo o anuário, o melhor teatro do sul de Minas, com capacidade para quase 1000 pessoas. Era sede da diocese, com uma catedral para cerca de 3000 pessoas, e, em 1904, havia sido inaugurado o Ginásio Nacional, com cursos superiores de medicina, direito, engenharia, seminário maior, farmácia e odontologia 31. Interessante notar a referência às mudanças ocorridas na cidade após a proclamação da República: Depois da República, foi grande a transformação material e moral operada em Pouso Alegre: a comarca subiu de entrância, criou-se a diocese católica, fundaram-se seminário, catedral, colégios e fábricas; apareceram jornais novos, foi instalada a iluminação elétrica, e estendeu-se por maior área a cidade 32. De maneira geral, é recorrente a presença de teatros, praças, igrejas, hospitais, colégios, ferrovias e bondes, hotéis, calçamento, iluminação pública e outras características citadinas nas descrições das cidades sul-mineiras apresentadas no documento. Apesar do caráter impressionista de muitas dessas descrições, elas são ilustrativas do processo de urbanização que estava em curso na região combinado com o avanço da indústria, das ferrovias e dos bancos 33. Mas afinal, qual é o impacto da formação de suposto novo mundo urbano na construção das relações capitalistas no Sul de Minas? As mudanças quantitativas e qualitativas apontadas acima indicam o fortalecimento do mundo urbano, das 30 Idem. Idem. pp Idem. Idem. pp Idem. Idem. pp SAES, Alexandre Macchione, COSENTINO, Daniel do Val, SILVA, Marcel Pereira da, GAMBI, Thiago Fontelas Rosado Gambi. Sul de Minas em transição... Op.Cit. 17

18 atividades comerciais citadinas, e da necessidade de construção de aparatos políticos que sustentassem os municípios. Portanto, a urbanização de transição para o século XX possui um significado ainda mais particular do que aquele presente nos sinais de modernidade existentes nas origens de Minas Gerais, de sua vocação urbana. Apesar de a Província durante os séculos XVIII e XIX ser a região mais urbanizada e populosa do Brasil, com níveis de urbanização e dinâmica demográfica que poderia ser ressaltada em comparação com o padrão urbano do conjunto do Novo Mundo e da Europa 34, isto não garantia a superação das amarras escravistas e coloniais na construção de um mercado interno pleno. Essas condições emergiam na construção do mundo urbano moderno de início do século XX, permeado pela crescente monetarização das atividades econômicas, pela incorporação das técnicas e padrões de consumo modernos, resultantes da Segunda Revolução Industrial. O crescimento do número de cidades e de suas populações, a formação da malha ferroviária e a formação de bancos e indústrias indicam que a região seguia os rumos da integração da economia brasileira com o mercado externo, internalizando as relações capitalistas para seu território. Mas o que permite considerar o Sul de Minas com essa dinâmica própria, e por isso, pensar em sua regionalização e urbanização, é uma certa homogeneidade no perfil das cidades e a intensidade das transformações econômicas do período. A região, não há dúvidas, integrou-se no mercado capitalista nacional, mas diferentemente da Zona da Mata e Central, não conseguiu criar uma plena hierarquização de suas cidades. Permaneceu com um perfil citadino muito próximo: pequenas e medianas cidades, mercados consumidores restritos e, conseqüentemente, atividades econômicas de caráter local. Por isso um grande número de indústrias, mas pequenas. Por isso um grande número de bancos, mas também pequenos. Assim, as relações econômicas capitalistas avançavam, mas vagarosamente (e com uma intensidade limitada). 2ª PARTE A DINÂMICA BANCÁRIA DE MINAS GERAIS E OS BANCOS DO SUL DE MINAS 34 PAULA, João Antônio de. Urbanização e modernização em Minas Gerais. Relatório de pesquisa Urbanização e Formação do Mercado Interno em Minas Gerais Belo Horizonte: FAPEMIG/UFMG, p.39; p

19 3. Bancos e desenvolvimento econômico *** Para uma economia industrial, assalariada e capitalista, os estudos que tentam descobrir as relações entre bancos e desenvolvimento econômico indicam que, do ponto de vista macroeconômico, o sentido mais geral dessas instituições é promover o crédito e o desenvolvimento da economia. A literatura que trata da relação entre bancos e desenvolvimento é vasta, mas, freqüentemente, não consegue fugir da circularidade dessa relação, pois nela se firmam duas visões predominantes que estabelecem relações de causa e efeito simetricamente opostas. Enquanto uma visão aponta a expansão dos bancos como efeito, a outra aponta tal expansão como causa do desenvolvimento econômico. Hugh Patrick chamou essas duas visões predominantes de demand following e supply leading 35. Entre elas, estão as visões que tentam negar a relação entre bancos e desenvolvimento econômico 36 e as que tentam mostrar que essa relação seria total, quer dizer, por mais que se quisesse, não seria possível estabelecer o sentido da relação de causa e efeito, uma vez que o processo que leva ao desenvolvimento econômico seria duplamente determinado. 37 Embora muitos economistas privilegiem o demand following na explicação do desenvolvimento econômico, 38 os estudos de história econômica têm sugerido o supply leading como fator importante para promovê-lo. Joseph Schumpeter foi um dos primeiros estudiosos do tema a relacionar explicitamente sistema bancário e desenvolvimento econômico. 39 Bancos, crédito, empresário e inovação são pilares de sua teoria do desenvolvimento econômico. Não cabe aqui entrar em detalhes da teoria schumpeteriana, vale dizer apenas que o crédito fornecido pelos bancos é visto como condição para que o empresário, agente da inovação, possa concretizá-la. Assim, a disponibilidade de crédito estaria na base do desenvolvimento econômico. Inspirado em Schumpeter e em pesquisas empíricas, Rondo Cameron comparou processos de industrialização em diferentes países e notou que o traço comum do início da industrialização em todos eles era o relacionamento entre bancos *** Reprodução parcial do capítulo publicado em SAES, Alexandre e LOBATO, Marcos. Sul de Minas em transição: a formação do capitalismo na passagem para o século 20. Bauru: Edusc, PATRICK, Hugh. Financial Development and Economic Growth in Underdeveloped Countries. Economic Development and Cultural Change, v.14, n.2, jan pp MODIGLIANI, Franco e MILLER, Merton H. The Cost of Capital, Corporation Finance and the Theory of Investment. American Economic Review, 48, pp GOLDSMITH, Raymond. Financial Structure and Development. New Haven: Yale University Press, ROBINSON, Joan. The Model of An Expanding Economy. The Economic Journal, v.62, n.245, mar pp SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do desenvolvimento econômico :uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo: Abril Cultural, Cap.1. 19

20 e indústrias. 40 O crédito ligava o setor financeiro ao produtivo, sendo condição importante para o desenvolvimento tecnológico do processo produtivo e, conseqüentemente, para o incremento da produção. Na mesma linha, o estudo clássico de Alexander Gerschenkron destacou o papel desempenhado pelos bancos, particularmente pelos bancos de investimento, que privilegiavam o risco e o investimento em longo prazo, possibilitando o desenvolvimento industrial nos países atrasados ao suprir sua demanda por crédito. 41 O estudo de Patrick já referido, que relaciona desenvolvimento financeiro e econômico, corrobora parcialmente a conclusão de Gerschenkron. Segundo ele, o supply leading predominaria nos estágios iniciais do processo de industrialização. Contudo, uma vez que a economia atingisse um estágio de maturidade, passaria a predominar o demand following. No caso da França, Jean Bouvier chamou atenção para o papel dos bancos comerciais e dos banqueiros privados no início da industrialização do país e apontou que, embora privilegiassem o comércio, os bancos organizaram o sistema de crédito francês construindo o caminho rumo ao desenvolvimento econômico. 42 Em suma, seja em países atrasados ou avançados, seja como demand following ou supply leading, os estudos de história econômica apontam forte ligação entre bancos, processos de industrialização e desenvolvimento econômico. A relação entre bancos e desenvolvimento econômico também aparece na historiografia brasileira. Flávio Saes, ao observar a realidade brasileira e compará-la com a de outros países apoiando-se nos estudos de Cameron e Gerschenkron, propôs a hipótese geral de que, a priori, não se pode atribuir um papel determinado ao crédito, e por extensão aos bancos, no processo de desenvolvimento econômico. 43 Esse papel dependeria da especificidade de cada processo. É nesse sentido que Bárbara Levy e Ana Maria Ribeiro de Andrade afirmaram a especificidade da relação entre Estado, moeda e crédito nas colônias da América do Sul. Como colônias de exploração, a gestão monetária e creditícia se realizava no âmbito do grande comércio internacional, subordinado no século XIX à hegemonia inglesa. Dessa maneira, as instituições 40 CAMERON, Rondo. Banking in the Early Stages of Industrialization. A Study in Comparative Economic History. Nova York: Oxford University Press, pp GERSCHENKRON, Alexander. Economic backwardness in historical perspective: book of essays. Cambridge: Harvard University Press, Introdução. 42 BOUVIER, Jean. Relaciones entre sistemas bancarios y empresas industriales en el crecimiento europeu del siglo XIX. In: VILLAR, Pierre et al. La Industrialización Europea. Estadios y tipos. Barcelona, Ed. Crítica, p SAES, Flávio Azevedo Marques de. Crédito e bancos no desenvolvimento da economia paulista São Paulo: IPE/USP,

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