"ASPECTOS DA IMPLANTAÇÃO DE FERRAMENTAS BIM EM EMPRESAS DE PROJETOS RELACIONADOS À CONSTRUÇÃO CIVIL.

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1 ISSN "ASPECTOS DA IMPLANTAÇÃO DE FERRAMENTAS BIM EM EMPRESAS DE PROJETOS RELACIONADOS À CONSTRUÇÃO CIVIL. Otávio Knaipp de Sousa (LATEC/UFF) Marcelo Jasmim Meiriño (LATEC/UFF) Resumo: "Esta pesquisa tem como objetivo identificar as dificuldades de implantação das ferramentas tecnológicas baseadas no conceito BIM, bem como os impactos de sua utilização no gerenciamento e desenvolvimento de projetos arquitetônicos, além de propor diretrizes para estimular e otimizar sua prática nas empresas de planejamento arquitetônico e projetos complementares relacionados à construção civil. Embora seja um conceito antigo, o uso da metodologia BIM é relativamente recente e, por conseguinte, muitos profissionais abordam o assunto de forma equivocada. Procurou-se desmistificar o tema, elucidando diversos aspectos, com o propósito de eliminar crenças errôneas e situar o leitor no contexto do trabalho. Palavras-chaves: BIM, implantação, CAD, Construção Civil, tecnologia, projeto.

2 1. Introdução Diante do atual cenário da economia mundial, em que o ambiente produtivo encontra-se completamente inserido no contexto da globalização, os processos industriais necessitam constante atualização, a fim de aumentar a produtividade nas empresas e, por conseguinte, atender demandas cada vez mais exigentes. Portanto, é vital situar-se no contexto das inovações tecnológicas como estratégia competitiva. A indústria da Construção Civil vem sendo um dos principais alvos de questionamentos no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável, em razão da complexidade dos seus processos e, também, dos impactos sociais e ambientais oriundos de seus empreendimentos. Torna-se necessário otimizar procedimentos e investir em novas tecnologias, de forma que os processos construtivos incorporem práticas adequadas a determinados padrões de sustentabilidade. Não basta, no entanto, renovar sistemas de gerenciamento e gestão na fase da construção propriamente dita, mas sim rever e reavaliar os conceitos e procedimentos que norteiam todo o ciclo de vida do empreendimento, desde a concepção até a demolição ou reconstrução. Neste sentido, as empresas de AEC devem adotar modelos de gestão com foco em sistemas de projeto integrado, evitando, dentro do possível, a fragmentação das etapas que envolvem a produção. As etapas de concepção, ou seja, as fases de projeto são de extrema relevância na conformação do produto final. Sobre este aspecto, Oliveira (2005) destaca: Os processos de concepção e projeto são estratégicos para a qualidade do edifício ao longo do seu ciclo de vida. E a busca de novos métodos e processos que possam considerar precocemente a totalidade das questões envolvidas no projeto é de extrema relevância para o sucesso dos empreendimentos e para o progresso do setor de construção. (OLIVEIRA, 2005). 2

3 A evolução da tecnologia da informação tem estreita relação com o desenvolvimento da produção industrial. Após a Segunda Guerra Mundial, um grupo de pesquisa do Massachusetts Institute of Technology (MIT) desenvolveu um sistema informatizado com foco na produção de desenhos técnicos. Este sistema deu origem ao conceito CADD (Computer Aided Draft and Design Desenho e Projeto Auxiliado por Computador) ou simplesmente CAD. A partir de então, vários sistemas informatizados foram desenvolvidos com base neste conceito, criando uma verdadeira revolução na forma de projetar. A construção civil, além de incorporar os sistemas informatizados com base em CAD, consolidou sua utilização como principal ferramenta para o desenvolvimento de projetos. Até então, as ferramentas CAD possibilitavam somente a automação digital dos desenhos, utilizando a mesma lógica do processo manual. Contudo, o nível de precisão na execução de comandos, associado às facilidades de edição das formas geométricas, incrementaram significativamente a produtividade, evidenciando grande avanço em relação ao desenho artesanal. Segundo Ayres (2009), na década de 60 já se pensava em ir além das informações geométricas. A idéia era criar um banco de dados com vários tipos de informações sobre um determinado empreendimento. Todavia, a indústria do Hardware, na época, não conseguiria atender às demandas de processamento requeridas pela manipulação de grande quantidade de informações interligadas. Com relação à evolução dos sistemas baseados em CAD, Souza (2009) cita o prenúncio da metodologia BIM: Na sua concepção inicial, o CAD foi pensado como ferramenta capaz de abrigar dados referentes a diferentes disciplinas, permitindo o trabalho simultâneo de diversos projetistas e a integração de vários tipos de informações, viabilizando o desenvolvimento de análises e simulações diversas. No entanto, a baixa capacidade de processamento dos computadores da época não permitia suportar a grande quantidade de informações gerada pela complexa rede de processos envolvidos no projeto. Desta forma, as empresas de software desenvolveram inicialmente a parte geométrica, mais fácil de ser resolvida diante das tecnologias disponíveis na ocasião. (SOUZA, 2009) 3

4 BIM é a abreviação de Building Information Modelling ou Modelagem de informações da Construção. Trata-se de uma metodologia de trabalho vinculada a sistemas informatizados, que tem por finalidade promover o gerenciamento de todas as etapas de um empreendimento relacionado à construção civil. Os sistemas BIM podem trazer muitos avanços para a indústria da construção civil quando bem empregados, como por exemplo, a minimização de problemas freqüentes tais como a fragmentação das etapas de projeto, identificação tardia de interferências entre projeto arquitetônico e projetos complementares, desperdício de materiais, retrabalho, alto custo da produção e a baixa qualidade dos produtos finais. Observa-se, atualmente, expressivo crescimento na utilização do BIM em empresas de AEC, incorporando novas estratégias para concepção e desenvolvimento de projetos. Por outro lado, também existe muita resistência à adoção destas práticas, uma vez que os sistemas CAD tradicionais ainda estão culturalmente enraizados nas empresas e escritórios de Arquitetura e Engenharia Civil. O presente trabalho, além do propósito elucidativo, tem como objetivo identificar as maiores dificuldades enfrentadas pelas empresas de AEC na incorporação da metodologia BIM, bem como abordar os aspectos positivos e negativos da sua aplicação nas etapas de desenvolvimento dos projetos relacionados à construção civil. Por fim, pretende-se formular condutas de implantação com base em experiências relatadas, a fim de facilitar a transição entre os métodos tradicionais e as novas práticas operacionais decorrentes do avanço tecnológico. Ressalte-se que o BIM, por si só, não é um conceito de vanguarda. Entretanto, a evolução da informática possibilitou o desenvolvimento de sistemas que incorporaram seus preceitos, fazendo surgir novas opções de gestão para empreendimentos relacionados à construção civil. 4

5 2 EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS CAD E DEFINIÇÃO DE BIM O crescente desenvolvimento da tecnologia da informação observado após a Segunda Guerra Mundial possibilitou o surgimento de sistemas informatizados baseados em CADD ( Computer Aided Draft and Design Desenho e Projeto Auxiliado por Computador ou simplesmente CAD). Segundo Nunes (1997), um sistema CAD constitui uma tecnologia para utilização de recursos computacionais associada ao ato de projetar e criar, servindo como apoio para o desenvolvimento do projeto de concepção, análise, dimensionamento e representação. (NUNES, 1997). Em janeiro de 1963, por ocasião da defesa de sua tese de doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MTI), o norte americano Ivan Edward Sutherland apresentou como resultado do desenvolvimento de sua pesquisa um editor gráfico inovador chamado Sketchpad. Esta ferramenta possibilitava a criação e edição de formas geométricas de maneira distinta, sendo considerada um marco na história da informática e no desenvolvimento da computação gráfica, tornando-se o primeiro software baseado em CAD. Desenho de linhas, pontos e círculos com extrema precisão, além da inserção de textos e da realização de operações básicas tais como copiar, colar e apagar, constituíram características que, associadas às possibilidades de armazenamento, utilização e re-utilização da informação total e/ou parcial (especialmente em desenhos repetitivos) tornaram-se premissas dos sistemas CAD desenvolvidos posteriormente. Os primeiros softwares de CAD tiveram utilização restrita às empresas do setor aeroespacial e também à indústria automobilística, não comercializados, sendo o seu desenvolvimento baseado em demandas específicas dos referidos setores. Com base no trabalho de Kale e Arditi (2005), Souza (2009) cita a evolução dos softwares CAD dividida em três gerações. A saber: 1) desenho auxiliado por computador, 2) modelagem geométrica e 3) modelagem de produto. Ainda de acordo com Kale e Arditi (2005), Souza (2009) explica as fases de desenvolvimento dos sistemas CAD: 5

6 Na primeira geração, o objetivo era automatizar e levar para o computador o processo de desenho até então realizado nas pranchetas. A segunda geração permitia a inserção de informações na terceira dimensão, possibilitando a obtenção de visualizações tridimensionais dos objetos. Os softwares da terceira geração surgiram efetivamente nos anos 80 e baseiam-se na associação de dados geométricos e não-geométricos criando uma relação de parametrização e correlação de dados. (SOUZA, 2009) Como já foi dito, apesar dos primeiros softwares de CAD trabalharem com foco na criação e edição de geometrias, já se pensava, ainda na década de 60, em associação das informações geométricas com outros atributos. Em 1975, o norte americano Charles M. Eastman publica o artigo Building Description System, propondo um sistema informatizado com as principais características que constituem a essência do conceito BIM. Martinez (2010) descreve o trabalho de Estman : O BDS (Building Description System) proposto possibilitava a geração de diversos cortes e perspectivas e consistia em um modelo de elementos da edificação interativos e atributáveis, com consistência e não duplicidade das informações, possibilitando que as alterações fossem realizadas somente uma vez no modelo e consequentemente atualizadas em todos os outros documentos do projeto. Além disso, permitia realizar qualquer tipo de análises quantitativas, como de material e de custos, em uma base de dados integrada. (MARTINEZ, 2010) BIM é a sigla de Building Informatiom Modeling ou Modelagem de Informações da Construção. Trata-se de um conceito relacionado a procedimentos de trabalho informatizados com foco na construção civil. Apesar de muitos autores utilizarem o termo Tecnologia BIM, deve-se ter ciência que, neste caso, as tecnologias (Tecnologia da Informação) são utilizadas como meios para realização de tarefas que constituem o ciclo operacional deste método. Portanto, o BIM, em sua essência, não é uma tecnologia, não é um software e sim um conceito, uma metodologia baseada em sistemas informatizados, mais precisamente em sistemas 6

7 CAD. Existem vários softwares baseados no conceito BIM desenvolvidos a partir de tecnologias diversas. Pode-se citar como exemplo a comparação entre o aplicativo ArchiCAD da empresa Graphisoft e o Revit da Autodesk : enquanto o primeiro é construído a partir da linguagem de programação GDL (uma variação da linguagem BASIC ) o segundo desenvolve-se a partir da linguagem C#. De acordo com o trabalho de Kale e Arditi (2005), os softwares BIM fazem parte da terceira geração dos softwares CAD, ou seja, são desenvolvidos com base na associação de informações geométricas com informações não geométricas. Sendo assim, um software baseado em BIM também é um sistema CAD. Alguns autores utilizam as expressões CAD geométrico e CAD-BIM. Os sistemas CAD-BIM permitem a criação de um protótipo digital da edificação, ou seja, uma construção virtual composta não somente por dados geométricos, mas também por informações relativas a todas as atividades envolvidas na produção, operação e manutenção de um empreendimento. De acordo com Martinez (2010), Toledo (2009) define BIM como: (...) um modelo digital do edifício que representa não só suas características geométricas, mas também o interrelacionamento entre seus componentes e os inúmeros parâmetros e atributos destes, fornecendo informações relevantes para a tomada de decisão pelos diferentes agentes envolvidos no empreendimento, em todo o ciclo de vida da edificação. (TOLEDO, 2009) Os edifícios virtuais gerados através da metodologia BIM diferem das tradicionais maquetes eletrônicas, pois além da representação tridimensional, constituem fontes de análises quantitativas, possibilitam a geração automática da documentação projetual (plantas, cortes, fachadas, perspectivas), facilitam os processos de modificações de projeto, evitando o retrabalho e otimizando a integração profissional dos diversos agentes envolvidos na concepção, construção e manutenção do empreendimento. 7

8 3 METODOLOGIA Adotou-se a Revisão da Literatura como principal método para realização da pesquisa. Foram analisadas teses de mestrado e diversos artigos científicos publicados sobre o tema, buscando o aprofundamento na compreensão do conceito BIM e a assimilação das principais características de seus sistemas informatizados. Também foram considerados os Estudos de Caso abordados em algumas das teses e artigos estudados, com a finalidade de situar o trabalho no contexto da implementação dos sistemas BIM em escritórios e empresas de AEC, além de consultas a profissionais liberais e experiência pratica do autor através de treinamento intensivo nos softwares ArchiCAD 12 da Graphisoft e Revit 2009 da Autodesk (durante 3 semanas em 2010) e Revit 2012 da Autodesk (durante 2 meses em 2012). 4 AS PRINCIPAIS BARREIRAS PARA A ADOÇÃO DO BIM. A principal característica dos sistemas BIM consiste na criação de modelos tridimensionais alimentados por diversos tipos de informações nas fases iniciais de projeto. Os protótipos, uma vez construídos, permitem a geração de todo e qualquer tipo de documentação, tais como plantas, cortes, elevações, perspectivas e tabelas, além de possibilitar a realização de análises e simulações relacionadas ao empreendimento. Considerando a metodologia tradicional, culturalmente enraizada nos escritórios e empresas de AEC, o desenvolvimento de um projeto, invariavelmente tem início a partir de uma planta baixa, ou seja, ao invés das partes serem obtidas da totalidade, busca-se o resultado final através de etapas fragmentadas e desconexas. Neste aspecto, a modelagem de produto na construção civil consiste em uma grande mudança 8

9 de paradigma para os projetistas, existindo muita resistência à incorporação deste conceito. Com base no trabalho de Bazjanac (2004), Souza (2009) expõe: (...) a grande maioria dos projetos de edifícios ainda é desenvolvida no método tradicional, com desenhos 2D e documentos de texto. O setor de projetos, em geral, está resistindo à mudança em direção a esse novo modelo de informação. (SOUZA, 2009) De acordo com os trabalhos de Jacoski (2005) e Kymmel (2008), a necessidade da configuração de parâmetros e definição de informações não geométricas nas fases iniciais de concepção do modelo, exige do usuário um certo nível de experiência e conhecimento projetual, dificultando o uso dos sistemas por estagiários e projetistas recém formados, uma vez que a maioria dos cursos universitários de Arquitetura e Engenharia Civil ainda não incorporaram as novas ferramentas computacionais ao ensino de projeto. Outra questão relevante é o investimento financeiro necessário à implementação da metodologia BIM. Os custos dos softwares são considerados altos, dependendo do porte da empresa, além dos gastos com treinamento e aquisição de Hardware de alto desempenho. Souza (2009) ressalta o tamanho dos arquivos gerados em plataformas BIM e suas demandas de processamento, sendo necessária a utilização de máquinas mais robustas para otimizar o desempenho das ferramentas. Justi (2008), em seu estudo de caso sobre a implementação da plataforma Revit em escritórios brasileiros, aborda as objeções com relação ao preço do software oferecido pela Autodesk : 9

10 Em visitas aos escritórios, uma das primeiras reclamações é quanto ao custo de implantação. O software é relativamente caro para alguns, principalmente para os profissionais liberais. (JUSTI, 2008) Destacam-se, também, a existência de custos extras para aquisição de módulos complementares e plugins bem como as restrições de tempo para avaliação gratuita dos softwares. Observam-se dificuldades de interoperabilidade entre os softwares, ou seja, um arquivo do Revit, por exemplo, não pode ser aberto no ArchiCAD e vice versa. O mesmo problema pode ocorrer entre versões diferentes do mesmo aplicativo, onde um modelo construído na versão mais recente não pode ser acessado por versões anteriores, contrariando a premissa dos ambientes acessíveis e colaborativos. A integração entre as informações geradas por diferentes softwares torna necessário o desenvolvimento de padrões de interoperabilidade que permitam a troca irrestrita de informações garantindo sua consistência (KYMELL, 2008). O protocolo IFC (Industry Foundation Classes) surge como principal alternativa de intercâmbio entre os aplicativos relacionados à modelagem de produto na construção. Trata-se de um formato de arquivo que pode ser gerado e acessado por diferentes softwares BIM. Todavia, esta tecnologia ainda apresenta deficiências, uma vez que não consegue manter a integridade total das informações contidas nos arquivos originais. Estudo de caso realizado por Bottega (2012) aponta a dificuldade para troca de arquivos BIM através da internet em função da grande quantidade de informações contidas, fato que torna o arquivo muito pesado. De acordo com esta pesquisa, profissionais que enfrentam este empecilho sugerem a utilização do BIM SERVER, um servidor específico para BIM que utiliza a tecnologia Cloud Computing, permitindo que os modelos sejam enviados através do formato IFC. No entanto, como já foi dito, este formato necessita melhorias no sentido de 10

11 minimizar os problemas com a manutenção da consistência das informações. Bottega (2012) destaca que a tecnologia dos models servers ou servidores BIM está apenas no começo. Por se tratar de uma prática relativamente recente, o número de projetistas capacitados fazendo uso efetivo das ferramentas BIM é insuficiente para promover total integração entre os escritórios, empresas e profissionais autônomos de AEC. De acordo com Campbell (2007), o isolamento daqueles que investiram nos sistemas BIM acarreta uso incipiente da totalidade de suas possibilidades. Reclamação freqüente entre usuários remete à falta de flexibilidade dos softwares, ou seja, às poucas possibilidades de customização, sendo necessária a aquisição de plugins para o desenvolvimento de geometrias complexas. Apesar das versões mais recentes do Revit Architecture ( Autodesk ) e ArchiCAD ( Graphisof ) terem incorporado melhorias significativas às ferramentas de modelagem tridimensional, ainda se gasta muito tempo com o desenvolvimento de formas não triviais, além das dificuldades para atribuir parâmetros e informações a tais elementos. Kymell (2008) aborda a questão dos direitos autorais e responsabilidades técnicas. Por se tratar de modelo utilizado por diversos profissionais ao longo de todas as fases de projeto, inclusive após o término das obras, é necessária a criação de mecanismos jurídicos que assegurem a autoria dos projetos e a integridade das informações técnicas especificadas por todos os especialistas envolvidos. 5 IMPACTOS DA IMPLANTAÇÃO DE SISTEMAS BIM Justi (2008) cita o resultado de pesquisas realizadas pela Autodesk com foco na implantação do sistema Revit em escritórios de AEC nos Estados Unidos. Na maioria dos casos, observou-se inicialmente uma queda na produtividade em função do tempo gasto para treinamento dos projetistas e adequação do software às necessidades de cada escritório. Com a 11

12 adaptação das empresas às novas práticas, foi constatado crescimento exponencial da produção e melhorias na qualidade dos projetos. O Estudo de caso realizado por Sheer et al (2007), com base na utilização do aplicativo ArchiCAD10 em determinado escritório da cidade de Curitiba, apontou aumento significativo da produtividade, tendo em vista que as atualizações e alterações de projeto puderam ser realizadas automaticamente em toda a documentação, evitando o retrabalho com modificações em desenhos. Os usuários relataram dificuldades na atribuição de parâmetros aos elementos tridimensionais, fato que provavelmente ocorreu nas etapas iniciais de concepção do modelo. Também foram citados os benefícios da visualização tridimensional, tais como a facilidade para identificar interferências de projeto, além da previsão criteriosa de detalhes construtivos, contribuindo, desta forma, para a redução de erros na execução da obra. Hippert e Araújo (2010) relatam a experiência da implantação do software Revit Architecture 2008 ( Autodesk ) em um pequeno escritório de Arquitetura localizado em Juiz de Fora. Os estudos preliminares de cada projeto eram desenvolvidos no aplicativo AutoCAD, através da produção de plantas, cortes e elevações, sendo estes desenhos importados para o software 3D Studio MAX, a partir do qual era construída maquete eletrônica elemento utilizado como grande estratégia de marketing para impressionar os clientes. Muitas vezes, por questões de tempo, as maquetes eletrônicas eram terceirizadas. O Revit Architecture começou a ser utilizado como alternativa para o desenvolvimento das maquetes eletrônicas e imagens renderizadas, oferecendo facilidades para alterações do projeto, caso não fosse aprovado pelo cliente. Com isto, todo o trabalho de transferência de arquivos entre AutoCAD e 3DStudio MAX deixou de ser necessário, bem como a preocupação com ajustes nos desenhos em função de modificações no projeto, uma vez que os sistemas BIM atualizam automaticamente toda a documentação gerada. Ressalte-se que houve a necessidade de um aprendizado específico para a utilização do programa através de pesquisas na internet, treinamento e consultorias a outros profissionais. Em sua tese de mestrado, Souza (2009) resume diversas vantagens oferecidas pelos sistemas BIM em relação a otimização da produção dos desenhos de projeto: 12

13 (...) todas as informações complementares e simbologias (indicações de corte, numeração de desenhos e pranchas) são geradas automaticamente e se ajustarão conforme a mudança de escala. Também não há preocupação com configurações de espessuras de linhas, que já se encontram pré definidas em função dos elementos de projeto. Do mesmo modo, as cotas também podem ser lançadas com grande facilidade, muito rapidamente. (SOUZA, 2009) Desta forma, o projetista tem mais tempo para dedicar-se às soluções de projeto, minimizando o trabalho com o desenvolvimento de desenhos técnicos (BIRX, 2006). Assim, o desenho tornase uma conseqüência do processo de projeto (SOUZA, 2009), não sendo o meio através do qual se concretiza o ato de projetar. Oliveira (2011), através de entrevistas com diversas empresas de AEC que assimilaram o BIM, comprova os benefícios da utilização dos módulos complementares (de softwares BIM) referentes às disciplinas de cálculo estrutural, instalações elétricas e hidráulicas, demonstrando ser realmente possível trabalhar de forma conjunta, através da troca de informações dentro de um modelo único. Uma das empresas entrevistadas, no estudo supracitado, alegou elevado número de interferências detectadas pelo módulo Revit MEP, ainda na fase de anteprojeto, possibilitando a realização de ajustes antes das etapas executivas. Questão relevante refere-se à relação dos sistemas BIM com a realização de simulações energéticas. Os sistemas BIM, de maneira geral, realizam com sucesso estudo de insolação, limitando-se, porém, às questões de sombreamento. Alguns softwares possuem módulos complementares que permitem análise superficial da massa edificada, não sendo possível cálculo mais preciso da carga térmica na envoltória. De acordo com Martins (2011), no cenário atual, a maior contribuição dos sistemas BIM para avaliação energética de edificações é a importação do modelo para softwares específicos, evitando o retrabalho de modelagem. Todavia, os problemas de intercâmbio entre as plataformas BIM e os referidos aplicativos constituem entraves para otimizar este tipo de inferência. 13

14 6 ADOÇÃO DA METODOLOGIA BIM 6.1 Estágios de Implantação Oliveira (2011), a partir dos trabalhos de Tobin (2008) e Clayton et al. (2008), menciona níveis de adoção para a metodologia BIM, com base no grau de utilização efetiva das premissas do conceito. Tobim (2008) caracteriza três gerações distintas: BIM 1.0, BIM 2.0 e BIM 3.0. A primeira geração, chamada BIM 1.0, refere-se ao estágio de transição entre os sistemas CAD Geométricos e os sistemas CAD-BIM. Nesta primeira fase, os modelos tridimensionais são desenvolvidos individualmente com foco na geração automática dos desenhos (plantas, cortes, esquemas, elevações, etc), sem o envolvimento e a colaboração de outros profissionais. A geração BIM 1.0, representa a prática atual de projeto na maioria dos escritórios que utilizam o BIM. (ANDRADE e RUSCHEL, 2009) Na segunda fase, ou BIM 2.0, entram em cena outros agentes além dos projetistas de arquitetura, estrutura e instalações prediais. Informações relativas ao tempo (4D), custos (5D), análise de eficiência energética, dentre outras, são inseridas no modelo, sendo necessária a adoção de estratégias que minimizem os problemas de interoperabilidade, a fim de promover melhorias no intercâmbio entre os diversos participantes. Segundo Tobim (2008), a adoção efetiva do BIM 2.0 já é realidade na América do Norte, na Ásia e na Europa. (OLIVEIRA, 2011) De acordo com o trabalho de Andrade e Ruschel (2009), a era BIM 3.0 (Tobim, 2008) ou BIG BIM (Jernigan, 2007) é apenas uma tendência, não existindo na prática. Caracterizar-se-á pela integração total entre todos os agentes envolvidos no empreendimento, não existindo qualquer tipo de obstáculo com relação à interoperabilidade entre sistemas e ao intercâmbio de informações. 14

15 6.1 Diretrizes para Implantação Bottega (2012) destaca que a caracterização do perfil da empresa é fundamental para implantação da metodologia BIM. É necessário um planejamento, levando-se em consideração o porte da empresa, os tipos de projetos desenvolvidos e os resultados esperados com a adoção destes métodos, definindo-se o nível de utilização do BIM, bem como as soluções tecnológicas mais adequadas. Em outras palavras, deve-se ter em mente os seguintes questionamentos: é uma empresa pequena, média ou de grande porte? Quantos funcionários possui? Desenvolve projetos de arquitetura? Em que níveis? (estudo de viabilidade, estudo preliminar, anteprojeto, projeto executivo). Realiza cálculo estrutural? Desenvolve projetos de instalações prediais? Quais? (elétrica, hidráulica, instalações de gás e prevenção de incêndio) Realiza levantamento topográfico? Desenvolve Maquetes eletrônicas? Executa obras? Terceiriza serviços? Quais? Como é realizada a troca de informações técnicas com os profissionais de outras especialidades? Como é a estrutura hierárquica? Existe algum modelo de gestão voltado ao desenvolvimento de projetos? Quais são os procedimentos básicos dos processos de projeto? Estas informações são de extrema utilidade para direcionar os investimentos, uma vez que possibilitam a escolha das opções de software e hardware que melhor se adaptam às necessidades da empresa. Sobre o processo de implantação, Bottega (2012) discorre: O processo de implantação é longo, exige das empresas investimento em licenças de softwares, computadores com capacidade de processamento maior, tempo para aprendizagem dos intervenientes e adequação dos processos. (BOTTEGA, 2012) Importante é salientar que o processo de transição deve ser gradual, sendo impertinente, inoportuna e imprudente a total abolição dos sistemas CAD geométricos. Justi (2008), em seu trabalho sobre a implantação da plataforma Revit em escritórios brasileiros, aborda esta questão: 15

16 Com a finalidade de expandir o mercado do Revit, a Autodesk lançou um pacote, que é oferecido aos usuários, contendo o AutoCAD. Isso se deve a preocupação das empresas, que adquirem o Revit, sobre a implantação da plataforma junto a sua equipe de trabalho sem perda de produtividade. Com a venda do AutoCAD no pacote, as empresas podem se manter trabalhando com uma ferramenta conhecida até conseguirem passar pela fase de treinamento e adaptação, não perdendo os trabalhos (JUSTI, 2008) Existem vários softwares BIM disponíveis no mercado. A maioria oferece um período mínimo de treinamento incorporado ao pacote de aquisição da licença. Os serviços de suporte técnico e consultorias essenciais para a assimilação da tecnologia podem representar custos adicionais. Por exemplo: a Graphisoft, responsável pelo desenvolvimento do sistema ArchiCAD, oferece suporte técnico gratuito através de serviço telefônico 0800, enquanto a Nemetschek (fabricante do software Vector Works ) oferece opção de suporte gratuito via internet e, também, uma opção mais completa (com custos extras), incluindo serviço telefônico e conexão remota. Justi (2008) destaca a importância das consultorias após o período de treinamento: A definição de um projeto piloto com apoio de um consultor experiente permite definir processos de trabalho organizados, colocando em prática todas as fases de um projeto usando as ferramentas do Revit, sem esforços desnecessários tentando descobrir por conta própria como realizar determinada tarefa utilizando o software. (JUSTI, 2008) Ainda com relação ao aprendizado dos softwares, existem vários tutoriais disponíveis gratuitamente na internet, bem como vídeos explicativos gravados informalmente por usuários e que constituem material de grande valia para troca de experiências e difusão do conhecimento. No Brasil, dentro deste contexto, destacam-se os trabalhos de David Pinto, Dênio Guimarães e Eron Costin cursos em vídeo aula do Revit Architecture 2012 com acesso irrestrito através do site You Tube. 16

17 A ASBEA Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura criou uma tabela comparativa entre as principais plataformas BIM comercializadas, cuja última atualização se deu em dezembro de Trata-se de um breve levantamento dos valores e características das licenças, dos meios de suporte técnico, dos aplicativos complementares, da interoperabilidade entre os sistemas, etc. Este material encontra-se disponível para download no próprio site da associação. O mesmo site, disponibiliza um roteiro que aborda aspectos básicos para adoção do BIM em escritórios de arquitetura. Este guia de implantação, desenvolvido pela ASBEA, observa a importância da padronização de arquivos modelo, também conhecidos como arquivos templates, ou seja, a pré definição de configurações de projeto utilizadas pelo escritório, tais como unidades de medida, modulações, níveis de pavimentos, formatos de pranchas, carimbos, etc. A referida cartilha sugere também a aquisição e/ou organização de bibliotecas paramétricas. As bibliotecas são compilações de arquivos que contêm modelos prontos, muito úteis para a inserção de elementos triviais no arquivo principal, onde é desenvolvido o projeto, tais como eletrodomésticos, peças sanitárias, portas, janelas, mobiliário, dentre outros. A principal diferença entre as bibliotecas BIM e aquelas utilizadas nos sistemas CAD geométricos é a parametrização. Diversos modelos de portas e janelas, por exemplo, podem ser ajustados a quaisquer dimensões, desde que investidos dos parâmetros apropriados, tais como largura, altura, profundidade, altura de peitoril, dimensões do alisar, etc. 7 CONCLUSÃO Embora se tratando de um conceito antigo, foi necessário determinado nível de desenvolvimento tecnológico para dar início à prática da metodologia BIM. O advento dos sistemas BIM é comparado à fase de transição ocorrida nas empresas de AEC, na qual as pranchetas foram substituídas por computadores. Entretanto, apesar da metodologia BIM representar mudanças significativas no processo de trabalho tradicional, realizado nos CAD geométricos, sua implantação não é tão impactante como foi a incorporação dos sistemas informatizados nos escritórios de projeto, haja visto que as novas práticas também demandam suporte da tecnologia da informação. Existe uma linha tênue de similaridades operacionais entre os CAD Geométricos e os CAD-BIM e, desta forma, um sistema BIM pode vir a ser mais intuitivo para o usuário de CAD geométrico do que um computador para o projetista que trabalha na prancheta. 17

18 BIM é uma metodologia de contínuo refinamento, não de mudança drástica. O sucesso vai ocorrer por evolução, não revolução (traduzido de KRYGIEL e NIES, 2008 por OLIVEIRA, 2011) Contudo, é evidente que a metodologia BIM constitui uma grande mudança de paradigma com relação ao ato de projetar. É fato que os sistemas BIM disponíveis estão em fase de desenvolvimento, uma vez que o nível de tecnologia utilizado, principalmente no que se refere à parte lógica (ou de programação), ainda não é suficiente para promover a aplicação efetiva de todas as premissas do conceito. Ao longo do estudo, observou-se a existência de inúmeras deficiências com relação ao intercâmbio de informações e à comunicação entre sistemas, de maneira que, atualmente, o grande desafio tecnológico das empresas que desenvolvem os softwares é resolver os entraves com relação à interoperabilidade. Outra questão, que merece destaque, está relacionada aos processos de modelagem tridimensional nos sistemas BIM. Alvos de críticas entre usuários, as ferramentas de modelagem foram melhoradas nas versões mais recentes dos softwares, facilitando o desenvolvimento de geometrias complexas. Todavia, ainda existem limitações, principalmente se compararmos, dentro deste contexto, os sistemas BIM com softwares específicos de modelagem tais como o 3D Studio MAX, por exemplo. Além disto, a modelagem 3D nos sistemas BIM demanda alta capacidade de processamento e produz arquivos muito grandes. Cabe ressaltar que, mesmo com restrições, a modelagem gerada em plataformas BIM permite inúmeras possibilidades de ajustes e modificações instantâneas, constituindo, neste aspecto, vantagem em relação ao uso de softwares exclusivos da área de computação gráfica. A evolução é questão de tempo. Fato curioso remete à criação de um mito com relação à extinção dos sistemas CAD geométricos, cujo maior representante é o AutoCAD da empresa Autodesk. Muitos profissionais de AEC acreditam que, com o estabelecimento das plataformas BIM, o AutoCAD irá sair de linha. Ora, sendo o BIM um conceito relacionado à indústria da construção civil, obviamente que os sistemas baseados em BIM não atendem às necessidades de 18

19 outros setores industriais, tais como o setor automobilístico, o setor aeroespacial, o setor naval, etc. É evidente que o conceito de modelagem de produto pode e deve ser aplicado em diversos segmentos industriais, mas não seria a indústria da construção civil a única responsável pela remota possibilidade de abolição do AutoCAD. Com relação a este aspecto, Justi (2008), em seu artigo sobre o software Revit Architecture, é taxativo: Vale lembrar que o AutoCAD não será extinto ou substituído pelo Revit, pois não existem apenas arquitetos e engenheiros usando o AutoCAD. (JUSTI, 2008) Aliás, como já foi mencionado, seria um grande equívoco, na atual conjuntura, a abolição dos sistemas CAD geométricos nas empresas de AEC. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Max Lira Vergas X. de; RUSCHEL Regina Coeli. BIM: conceitos, cenário das pesquisas publicadas no Brasil e tendências. Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído - IX Workshop Brasileiro de Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios. São Carlos, Disponível em: < >. Acesso em: março ASBEA - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS ESCRITÓRIOS DE ARQUITETURA. Disponível em: < Acesso em: abril AYRES F., Cervantes. Acesso ao modelo do edifício f. Dissertação (Mestrado em Construção Civil) - Setor de Tecnologia, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Disponível em: < Acesso em: fevereiro

20 BIRX, Glenn W. Getting started with Building Information Modeling. The American Institute of Architects Best Practices, Revisado em Disponível em: < Acesso em: fevereiro BOTTEGA, Bruna Sara. Avaliação dos efeitos do uso da tecnologia BIM sobre a coordenação de projetistas f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Engenharia Civil) Departamento de Engenharia Civil, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Disponível em: < Acesso em: março HIPPERT, Maria Aparecida Steinherz; ARAÚJO, Thiago Thielmann. A contribuição do BIM para a representação do ambiente construído. I Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Rio de Janeiro, Disponível em: <http://www.anparq.org.br/dvd-enanparq/simposios/173/ sp.pdf>. Acesso em: março JUSTI, Alexander Rodrigues. Implantação da plataforma Revit nos escritórios brasileiros: relato de uma experiência. Gestão e Tecnologias de Projeto, São Paulo, v. 3, n 1, p , maio Disponível em: < 20

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