O MISTÉRIO DOS BANCOS. Murray Rothbard

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1 ASPE CT OS I NT RODUT ÓRI OS DAE CONOMI A UMC UR S OP A R AP R OV OC A R DE BA T EEI DE A I SNOV A S MOE D A, C R É DI T O EBA NC OS 3 MÓDUL O

2 3ª Aula Moeda, crédito e bancos Moeda, crédito e bancos Vídeo N 1: Por que não imprimir mais dinheiro? (15 minutos) Veja o vídeo a seguir e discuta as perguntas abaixo: 1. A troca entre duas pessoas se realiza quando: a) Cada um atribui um valor maior ao que entrega do que ao que recebe. b) Cada um atribui um valor igual tanto ao que entrega quanto ao que recebe. c) Cada um atribui um valor maior ao que recebe do que ao que entrega. d) Nenhuma das anteriores. 2. Quais são os problemas apresentados pelo escambo? 3. Por que o dinheiro soluciona este problema? Leitura N 1: Importância e origem da moeda 1, de Murray Rothbard (15 minutos) O MISTÉRIO DOS BANCOS Murray Rothbard Importância e origem da moeda Hoje em dia os investidores estão sempre preocupados com os últimos dados estatísticos da oferta de moeda do Banco Central, se ela aumentou rapidamente, como que ela vai repercutir sobre as taxas de juros. Os jornais se enchem de previsões sobre as medidas que o Banco Central irá tomar e sobre as novas leis de regulação de bancos e de entidades financeiras. Este interesse pela oferta monetária é algo recente. Em meados do século XX, quando imperava o pensamento de John Maynard Keynes ( , economista britânico), falar de moeda e de crédito era algo exótico e distante das páginas financeiras. Falava-se da evolução do PIB 2, da política fiscal do governo, dos gastos, das receitas e dos déficits. Os bancos e a oferta monetária eram ignorados. No entanto, depois de décadas de uma inflação crônica e desastrosa que os Keynesianos não conseguiam remediar, e depois de várias crises inflacionárias e recessivas, começou-se a suspeitar que algo estava errado. A oferta de moeda passou a ser objeto de grande discussão. 1 Original disponível em inglês em (acesso em setembro, 2013). 2 Produto Interno Bruto, a soma de todos os bens e serviços finais produzidos no país em um ano. 1

3 A pessoa comum pode se confundir com tantas definições da oferta de moeda. O que significam todos aqueles Ms, M1-A e M1-B até M8? Qual é a verdadeira oferta de moeda, se é que existe uma única definição? Por que se incluem os depósitos nos bancos como uma parte importantíssima da oferta monetária? Todos sabem que as notas emitidas pelos Bancos Centrais possuem curso legal, isto é, poder liberatório de toda dívida pública ou privada. Isto é o dinheiro. Mas por que as contas correntes bancárias são dinheiro, e qual a sua origem? Por acaso as contas correntes não são conversíveis em dinheiro sempre que o correntista assim desejar? Então por que esses depósitos são considerados eles mesmos dinheiro, e não simplesmente o dinheiro em espécie a que eles se referem? As contas correntes são incluídas na oferta monetária porque os bancos criam dinheiro, eles são fábricas de dinheiro. Mas o que banco faz não é simplesmente tomar dinheiro e emprestálo? Como criam dinheiro? Como podem seus passivos se converterem em parte da oferta monetária? Apenas no princípio do século XX que a ciência econômica passou a considerar os depósitos bancários como parte da oferta de dinheiro. Mas antes de analisar o que é o dinheiro, vejamos como ele surge. Como surge a moeda Ludwig von Mises demonstrou já em 1912 que o dinheiro não pode ser criado por ordem de Estado algum ou por meio de qualquer contrato social formado por todos os cidadãos. O dinheiro deve sempre surgir espontaneamente dentro do processo do livre mercado. Antes das primeiras cunhagens de moeda, havia o escambo. Os bens eram produzidos por aqueles que estavam especializados em sua produção e seus excedentes eram intercambiados com outros produtos que eles não produziam. Todo produto possuía um preço denominado em quantidades de outro produto. Toda pessoa se beneficiava através da troca entregando algo de que necessitava menos por algo de que necessitava mais. No entanto, o comércio se via limitado no escambo por três causas. Para poder comprar determinado artigo desejado, o indivíduo tinha que encontrar um vendedor que quisesse naquele momento exatamente o que ele tinha a oferecer. Se o vendedor de ovos queria comprar sapatos, tinha que encontrar um sapateiro com vontade de comer ovos. Mas suponha que o sapateiro fosse alérgico a ovos... Se um professor de economia quisesse comprar um jornal, tinha que encontrar um vendedor que quisesse aprender economia austríaca. Este problema é conhecido como o da dupla coincidência de desejos, e limitava imensamente a produção. O segundo problema era das indivisibilidades. Se desejo vender uma casa e comprar um carro, uma máquina de lavar roupas e alguns cavalos, o que faço? Divido a casa em vinte pedaços para trocar? Sendo a casa indivisível, se eu a divido, ela perde seu valor. O mesmo acontece com outros produtos grandes (tratores, máquinas etc.). E se casas, tratores, máquinas são difíceis de trocar, poucas pessoas se interessarão em produzi-los. 2

4 O terceiro problema é relativo ao cálculo econômico. As empresas devem ser capazes de calcular prejuízos e lucros em cada uma de suas transações. Em um sistema de escambo seria impossível realizar este cálculo. Uma economia industrial moderna não poderia funcionar mediante o escambo. O escambo só pode solucionar os problemas econômicos de um pequeno povoado, se tanto. Mas o homem é criativo e engenhoso. Pouco a pouco produziu um dos inventos mais prodigiosos, que elimina os obstáculos apresentados pelo escambo: a moeda. O vendedor de ovos que queria sapatos se perguntou: O que o vendedor de sapatos quer? O que ele está disposto a comprar? É peixe? Bem, então conseguirei peixe. O vendedor de ovos não compra o peixe para consumi-lo (ele pode mesmo ser alérgico a peixe), mas para revendêlo por sapatos. O peixe é demandado não para seu consumo, mas como meio de troca, como um instrumento de troca indireta. Uma vez que determinada mercadoria começa a ser usada como meio de troca e isto é de conhecimento geral, seu uso como meio de troca se generaliza mais e mais. Começa a haver demanda desta mercadoria porque se sabe que está sendo usada como meio de troca, com o que o uso da mercadoria se expande. Quando uma mercadoria é utilizada como meio de troca para a maior parte das trocas realizadas, tal mercadoria é definida como sendo moeda. Assim, a moeda surge quando os participantes de um mercado escolhem uma mercadoria para uso como meio de troca. Como todas as grandes invenções do homem, demorou a aparecer e revolucionou o mundo. Solucionou todas as dificuldades do escambo: 1. O vendedor de ovos e o economista trocam seus bens e serviços pela mercadoriadinheiro porque por sua vez sabem que poderão vender essa mercadoria pelo que necessitam. 2. Também desaparece o problema das indivisibilidades; posso vender minha casa e comprar o que necessito. 3. O terceiro problema também desaparece: as empresas podem calcular, podem saber se perdem ou ganham. Suas receitas e despesas podem ser expressas em dinheiro. Recebi , gastei 9.000: então ganhei Já não preciso somar ou subtrair objetos incomensuráveis. A empresa de aço já não tem que pagar seus empregados com barras de aço. Pode pagar com dinheiro. Além disso, para saber se um preço é bom, já não é preciso comparar milhões de quantidades relativas (quantos ovos vale um peixe, quantas carnes, quantos casacos etc.). Todas as mercadorias agora são medidas por uma única mercadoria: a moeda; e é fácil comparar o preço do peixe, dos ovos, da carne, do casaco. As qualidades da moeda Que mercadorias foram escolhidas no mercado como dinheiro? Que mercadorias viram sua demanda incrementada por converterem-se em meio de troca? Peixe, peles, tabaco, sal, açúcar, gado etc. A escolha recaiu sempre sobre mercadorias que já possuíam um uso difundido, que tinham grande demanda, que possuíam a aceitação da maioria. Além disso, deviam ser altamente divisíveis para facilitar as transações. Outra qualidade consistia em que não perdessem seu valor ao serem divididas; e por isso uma casa nunca chegou a ser utilizada 3

5 como moeda. As qualidades que uma mercadoria deveria reunir para ser utilizada como moeda foram: 1. Ser uma mercadoria com muita demanda 2. Ser altamente divisível 3. Ser facilmente transportável 4. Ter alto valor por peso (para ser facilmente transportável) 5. Ser relativamente escassa (muita demanda e pouca oferta eleva o preço) 6. Ser uma mercadoria não perecível, isto é, que possa ser armazenada para comprar outra mercadoria no futuro. Com isto ficam descartados, por exemplo, o peixe, a carne etc. Durante a Segunda Guerra Mundial, em alguns campos de concentração, assim como em muitas prisões de hoje em dia, os cigarros cumpriam todos estes requisitos: eram divisíveis, transportáveis, com alto valor por peso, e relativamente duráveis. Com isto, serviam como meio de troca para o comércio de todo tipo de bem e serviço disponível na reduzida economia local, como sobremesas, remédios, cortes de cabelo, proteção etc. 3 Na economia mundial, com o passar dos séculos, houve duas mercadorias que, sempre que disponíveis, dominaram a concorrência como moedas: o ouro e a prata. Eram demandadas pelo seu brilho e pelo seu valor ornamental. Possuíam grande demanda e grande escassez, eram divisíveis e transportáveis, não se corroíam e duravam para sempre. Em geral, ambos os metais se impuseram como moedas. O ouro era mais caro e se usava para as transações mais caras. A prata para transações menores. A unidade de conta geral foi o ouro; possuía um valor relativo mais estável por ser relativamente mais escasso. Perguntas: 1. Como surge o dinheiro? É uma criação do Estado? 2. Quais são as três limitações do escambo? Explique-as brevemente. 3. Que qualidades deve reunir uma mercadoria para ser utilizada como moeda? 3 Para uma descrição deste curioso caso, ver o famoso artigo, em inglês, de R. A. Radford, The economic organization of a P.O.W. Camp, Economica (Novembro 1945):

6 Discussão N 1: A desvalorização dos reis 4 (10 minutos) Uma vez estabelecido o ouro como moeda, no reinado de Henry Goldman circulavam 100 mil moedas de ouro de 0,5 kg cada uma. As moedas eram cunhadas com a efígie do rei Goldman. Um dia, o ambicioso rei Goldman percebeu que poderia limar minimamente cada moeda, retirando-lhe uma quantidade ínfima de ouro. Em pouco tempo, o rei Goldman havia retirado 100 gramas de cada moeda em circulação. Cada moeda agora pesava, portanto 0,4 kg. Para que as pessoas não suspeitassem, ele resolveu mudar o nome da moeda. Se a moeda que pesava 0,5 kg se chamava Ruurs, a moeda de 0,4 kg desvalorizada por Henry Goldman se chamava HenGold, com o que se iludia a população para que não suspeitasse de nada. Não apenas as moedas pesavam um pouco menos, mas devido à desvalorização agora o rei contava com 10 mil kg de ouro a mais, o que lhe permitia criar 25 mil novas moedas de 0,4 kg. Desta maneira, a oferta monetária, isto é, a quantidade de moedas de ouro em circulação, subiria para 125 mil. 1. Como esta situação afetará o preço das mercadorias? 2. Quanto cresceu, em porcentagem, a oferta monetária? 3. A emissão monetária é favorável à economia? Leitura N 2: Oferta e demanda de dinheiro, de Murray Rothbard (15 minutos) O MISTÉRIO DOS BANCOS Murray Rothbard Os preços dos distintos bens são determinados pela oferta e pela demanda 4 A tradução por desvalorização tenta manter o trocadilho próprio da expressão inglesa debasement, que tanto remete à corrosão da base monetária, quanto à corrupção moral da autoridade emissora de moeda. 5

7 Todo preço, em um momento dado, sempre se encontra determinado pela oferta do produto e pela intensidade da demanda para adquiri-lo. Por oferta de um bem entendemos a quantidade objetiva de bens disponíveis para o consumidor. A demanda, por sua vez, é o resultado da valorização subjetiva e da demanda dos compradores individuais ou consumidores. Os preços sempre esgotam um mercado, isto é, igualam oferta e demanda eliminando rapidamente excessos ou faltas. Chama-se preço de equilíbrio ao que iguala a quantidade disponível para a venda com a quantidade que os compradores desejam comprar. O mercado, se deixado em liberdade, sempre tende ao equilíbrio. Todos os produtos são escassos com relação aos seus possíveis usos. Por isso que têm um preço de mercado. O preço determina o racionamento do bem, mediante o qual os bens podem ser distribuídos livre e voluntariamente àqueles mais desejosos de adquiri-los. Quando um preço sobe, refletindo uma oferta menor, os consumidores diminuem suas compras e passam a consumir outros produtos até que a quantidade demandada diminua o suficiente para igualar a menor oferta. Se a oferta aumenta, os empresários deverão baixar os preços para induzir os consumidores a comprar mais, e este processo ocorrerá até que se alcance novo equilíbrio. Se a oferta aumenta os preços caem, se ela diminui, os preços sobem. Ao mesmo tempo, os preços também respondem diretamente às alterações na demanda: se a demanda aumenta, os preços aumentam, se ela cai, os preços caem. Se o aumento da demanda for percebido pelos produtores como um aumento sustentável, isto é, de longa duração, eles decidirão expandir sua produção e a oferta futura aumentará. Do mesmo modo, se a queda na demanda for vista como permanente, a oferta será reduzida. A oferta sempre responderá à demanda que os produtores preveem. Um aumento na demanda de um produto sempre é compensado pela diminuição na demanda de outro produto. A única maneira de todos demandarem mais é que aumente a oferta de bens, ou que aumente a oferta de dinheiro. Isto é, sob outro ponto de vista: uma inflação sustentada, em que os preços aumentam persistentemente, somente pode resultar em duas coisas: 1. Uma queda na oferta de bens e serviços 2. Um aumento na oferta de dinheiro A inflação não está dada por falta de oferta, mas é um problema de demanda. Oferta e demanda na determinação do preço do dinheiro Os preços sempre são determinados pela oferta de um produto e pela intensidade da demanda para adquiri-lo. Em microeconomia se aceita que os preços são determinados pela oferta e pela demanda, mas em macroeconomia não. Vemos termos como velocidade de circulação, transações totais e Produto Bruto. No entanto, a verdade é que o conjunto dos preços (ou o nível de preços) se forma da mesma maneira que cada preço em separado. Se o preço de 1 kg de pão é de R$ 0,70, isto significa que o poder de compra de 1 kg de pão é de R$ 6

8 0,70 e que com ele só posso comprar até R$ 0,70 de qualquer outra coisa. O mesmo acontece com todos os outros bens. O preço de um bem equivale ao seu poder aquisitivo. Se o preço de cada bem nos mostra o seu poder aquisitivo, a determinação do poder aquisitivo de todos os bens ao mesmo tempo pode ser compreendida ao analisarmos o preço do poder aquisitivo do dinheiro. O preço do dinheiro, ou o que é o mesmo, seu poder aquisitivo, é a inversa do nível de preços. Por exemplo: Ovos R$ 0,50 a dúzia Manteiga R$ 1,00 o quilo Sapatos R$ 20,00 o par Televisão R$ 200,00 o aparelho Poder Aquisitivo do Dinheiro = 1/Nível de preços O poder aquisitivo do dinheiro, que é o poder aquisitivo da unidade monetária, está dado por uma série de alternativas da inversa dos preços: Poder Aquisitivo do Dinheiro = R$ 1,00 = 2 dúzias de ovos = 1 kg de manteiga = 1/20 pares de sapatos = 1/200 aparelhos de televisão Se o preço de cada um destes bens dobrar, o poder aquisitivo da unidade monetária cairá à metade. O poder aquisitivo do dinheiro é a inversa do nível de preços. P.A.D. Oferta = M (oferta monetária) Demanda Quantidade de moeda Demanda por moeda A demanda por moeda não é a quantidade de moeda que idealmente as pessoas gostariam de possuir essa quantidade é, por definição, infinita. O que a demanda por moeda indica é o quanto os agentes estão dispostos a ceder para obter moeda. O quanto de dinheiro preferem conservar a gastar. Se alguém adquire dinheiro só pode fazer duas coisas: 1. Gastá-lo em bens de consumo ou em investimentos; 2. Conservá-lo e aumentar seu estoque de moeda 7

9 O que a pessoa decidir conservar em moeda será a sua demanda por moeda. A demanda dos agentes por moeda depende do nível de preços. Se os preços caem a 1/3 do nível atual, os agentes não necessitarão de tanto dinheiro em espécie para pagar suas transações diárias ou emergenciais. Precisarão de apenas 1/3 do que precisam hoje. O resto poderá ser gasto ou investido. Se os preços triplicam, os agentes necessitarão de mais dinheiro para realizar suas transações diárias. Se o poder aquisitivo do dinheiro é alto, a demanda por moeda é alta ou baixa? É baixa. Se o poder aquisitivo do dinheiro é baixo, a demanda por moeda é alta. Se subitamente o poder aquisitivo do dinheiro aumenta, os preços estão baixos, a demanda por moeda cai e os agentes começam a gastar com o que os preços sobem; ao aumentarem os preços, o poder aquisitivo da moeda cai, mais moeda torna-se necessária para as transações e aumenta a demanda por moeda. A ação do mercado equilibra a oferta e a demanda por moeda. O preço do dinheiro varia diretamente com a demanda por moeda, e varia inversamente com a oferta. Ao mesmo tempo, o nível de preços varia diretamente com a oferta de moeda e inversamente com a demanda por moeda. Por que o nível geral de preços se altera? O nível de preços só pode variar se a oferta ou a demanda por moeda variarem. Vejamos o que acontece se a oferta de moeda variar. Aumenta-se a oferta de reais, dólares ou euros, aumenta a quantidade de moeda em circulação, há mais dinheiro nas mãos dos agentes. Os agentes agora possuem um dinheiro excedente sobre o que antes necessitavam; gastam parte desse dinheiro, aumentando a demanda pelos bens e com isso os seus preços. À medida que os preços aumentam, o excesso de dinheiro diminui. Os preços aumentam até que a demanda por moeda tenda a deixar de cair, isto é, os preços sobem até que não haja mais dinheiro excedente. Retorna-se ao equilíbrio anterior, mas com preços mais altos. Quando os agentes dispõem de dinheiro excedente, eles gastam esse dinheiro, com o que o nível de preços sobe até um ponto de equilíbrio mais alto. Aumenta-se a oferta de presunto, o preço cai para que alguém passe a comprar o presunto excedente. Aumenta-se a oferta de reais, o poder aquisitivo do real cai até que os agentes necessitem conservar o real excedente como ativo. E se a oferta de moeda cai? Há então uma falta de dinheiro, a demanda por moeda sobe (pois todos gastam menos) e o nível de preços cai. No novo preço de equilíbrio, a menor oferta de moeda é suficiente para as transações necessárias. Cada real vale mais ao subir o poder aquisitivo da moeda, portanto se aumenta a oferta monetária, o poder aquisitivo diminui e o nível geral de preços aumenta; se a oferta monetária se contrai, o poder aquisitivo do dinheiro sobe e o nível geral de preços cai. Demanda por moeda Aumenta-se a demanda por moeda, qualquer que seja o nível de preços, os agentes desejam possuir mais dinheiro em espécie. Se a oferta permanece fixa, os agentes pouparão mais e o nível de preços cairá. Se os preços baixarem, não haverá mais escassez de moeda. A queda de preços é compensada pelo aumento nos gastos, e a situação retorna ao equilíbrio. 8

10 Se a oferta permanece igual e a demanda aumenta, cai o nível geral de preços. Se a demanda por moeda cai, os preços sobem até que a demanda se reestabeleça e as pessoas deixem de gastar. Por conseguinte, o equilíbrio se reestabelece a um nível de preços maior. O nível de preços pode variar por mudanças na oferta de moeda ou na demanda por moeda. Resumindo: Se a oferta monetária aumenta, o nível de preços sobe. Se a oferta monetária cai, o nível de preços cai. Se a demanda por moeda cai, sobe o nível de preços. Se a demanda por moeda aumenta, o nível de preços diminui. O poder aquisitivo do dinheiro varia inversamente com a oferta de moeda e diretamente com a demanda por moeda. A oferta de moeda Para entender o fenômeno da inflação e para entender também por que se alteram os preços dos distintos bens e serviços, devemos centrar nossa análise na oferta e na demanda por moeda. A oferta de moeda é o número total de unidades monetárias existente na economia. Originalmente, quando a unidade monetária era definida como certo peso de ouro ou prata, o nome e o peso eram intercambiáveis. Se havia $100 bilhões na economia e a unidade monetária (o mil-réis, o dólar, a libra) equivalia a 1/20 de onça (peso) de ouro, a oferta monetária M era então de 5 bilhões de onças de ouro. À medida que os padrões monetários foram se afrouxando e desvalorizando, conforme se diminuía o conteúdo metálico da moeda, a oferta monetária aumentava. Uma mesma quantidade de onças de ouro passava a representar mais dólares, libras, mil-réis. A desvalorização era um processo relativamente lento. Em geral, somente quando um novo rei assumia e trocava a efígie da cunhagem das moedas que a paridade da moeda com o metal podia ser redefinida. Deste modo, este aumento de oferta monetária não ocorria mais do que uma vez por geração. Como não existia o papel-moeda, os reis tinham de se conformar com a desvalorização monetária e sua dissimulada tributação dos súditos. Qual deveria ser a oferta de moeda? Qual deveria ser a oferta de moeda? Qual é a oferta de moeda ótima? A oferta de moeda M deveria aumentar, diminuir, ou permanecer constante, e por quê? Esta pergunta pode parecer estranha, ainda que os economistas a discutam todo o tempo. Afinal, os economistas não ficam discutindo qual deveria ser a oferta de biscoitos, de sapatos, de titânio. Não, esse problema fica para o mercado. Por que não se dá o mesmo com o dinheiro? Aparentemente, este raciocínio é correto, mas é verdade que a moeda é diferente. Apesar de a moeda ser uma grande invenção da humanidade, não decorre daí que, quanto mais moeda, melhor. Se houver mais bens de consumo ou mais fatores de produção, evidentemente haverá 9

11 um bem-estar social maior. Mas o dinheiro não é consumido, ele apenas é transferido do ativo de uma pessoa para o de outra. Na verdade, se a moeda apenas desempenha uma função de troca, podemos concordar com os economistas que dizem que uma oferta monetária é tão ótima quanto qualquer outra. Não importa qual é a oferta monetária; qualquer oferta monetária pode cumprir a função de meio de troca na economia. Um aumento na oferta de moeda apenas diminui o poder aquisitivo de cada moeda. Se a oferta de moeda é de 100 bilhões, o aumento para 150 bilhões não trará nenhum benefício social. Uma oferta monetária pode cumprir as mesmas funções monetárias que qualquer outra. Responda: 1. O que é a oferta de um bem? E a demanda por um bem? O que é o preço de equilíbrio? 2. Defina a demanda por moeda. O que determina a demanda por moeda? 3. Defina a oferta de moeda. 4. Ainda que a moeda se ajuste às leis da oferta e da procura como qualquer outra mercadoria, ela apresenta uma particularidade. Pode-se dizer que quanto mais dinheiro, mais bem-estar? 5. Por que o nível de preços pode se modificar? Discussão N 2: Anjo Gabriel, o benevolente (10 minutos) Anjo Gabriel, o benevolente Este anjo, com espírito benevolente, deseja à humanidade o melhor. Apenas não entende nada de economia. Vendo o povo se queixar de não ter dinheiro, ele resolve fazer algo. Durante a noite, quando todos estavam dormindo, o Anjo Gabriel desceu e duplicou magicamente a quantidade de dinheiro que todos possuíam. Quando as pessoas acordaram, encontraram na carteira e nas contas dos bancos o dobro do que antes tinham. Todos saltaram de alegria, acreditando-se mais ricos. A oferta monetária passou de 100 bilhões para 200 bilhões. Com esse dinheiro excedente, todo mundo saiu gastando. E ao gastar, cresceram as curvas de demanda individuais. Responda: 1. O que acontecerá com o nível geral de preços? 2. Quem serão os mais beneficiados neste cenário? 3. A criação de moeda: a) Beneficia a todos igualmente. 10

12 b) Prejudica a todos igualmente. c) Beneficia os devedores e prejudica os poupadores. d) Beneficia os poupadores e prejudica os devedores. Observação para o Voluntário 1: Deve ser destacado que o maior benefício vai para os que primeiro começam a gastar o novo dinheiro, enquanto que os mais precavidos que preferem poupá-lo sairão prejudicados ao utilizar o dinheiro mais tarde. Discussão N 3: O valor do dinheiro (15 minutos) Essa é uma imagem real, na qual uma mulher queima dinheiro na Alemanha de Responda: 1. Por que esta mulher prefere queimar dinheiro para acender seu fogão, em vez de usar carvão? 2. No trabalho de Hanke-Krus publicado pelo Instituto Cato (http://object.cato.org/sites/cato.org/files/pubs/pdf/workingpaper-8.pdf) podemos ver a partir da página 12 as maiores hiperinflações ocorridas no mundo. A sétima coluna indica quanto tempo demorava para que os preços dobrassem. Em Taiwan (1947) os preços duplicavam a cada 51 dias; na Hungria ( ) chegaram a fazê-lo a cada 15 horas. Levando em conta os riscos envolvidos no monopólio da emissão de papel-moeda, você acredita que o Estado deve ser o único encarregado de imprimir cédulas? 11

13 Observação para o Voluntário 2: Deve ser ressaltada a importância das expectativas quanto à inflação futura para a tomada de decisões. Se os agentes esperam inflação alta, consomem hoje. Se, pelo contrário, esperam que os preços não subam, ou mesmo que caiam, preferirão adiar seu consumo. Na foto, a mulher queima dinheiro porque a perda de poder aquisitivo foi tão grande que chegou a ser mais barato queimar dinheiro do que comprar carvão. Discussão N 4: Imagine que uma cidade é atingida por um terremoto. O terremoto provoca destruição, diminuindo, portanto o estoque de capital, o que por sua vez implica em uma redução da capacidade produtiva da economia e finalmente em uma menor quantidade de bens à disposição. (10 minutos) Para auxiliar a discussão, introduziremos uma definição de capital. Capital: Elemento indispensável para a produção, que se encontra constituído em diversos modos (maquinário, terra, trabalho etc.) para que a produção seja mais efetiva. O capital é destinado para bens de consumo e bens de serviço. Responda: 1. O que acontecerá com o nível de preços, aumentará ou diminuirá? 2. Como pode ser melhorada a produtividade da economia? Discussão N 5: O dinheiro é sinal de vício ou de virtude?, de Ayn Rand Leia o seguinte trecho, extraído do romance A revolta de Atlas (1957), de Ayn Rand ( , escritora e filósofa americana). A REVOLTA DE ATLAS Ayn Rand - Então você acredita que o dinheiro é a origem de todo o mal? disse Francisco d Anconia. - Alguma vez você já se perguntou qual é a raiz do dinheiro? O dinheiro é um instrumento de troca, que não pode existir a menos que haja bens produzidos e homens capazes de produzilos. O dinheiro é apenas a forma material do princípio segundo o qual os homens que querem se beneficiar da divisão social do trabalho, e que desejam, portanto trocar entre si, devem fazê-lo pela troca de valores iguais. O dinheiro não foi criado para presentear mendigos suplicantes, nem para ser roubado à força pelos ladrões. O dinheiro só é possível por haver pessoas produzindo para a sociedade. É isso o que você considera maligno? Quando você aceita dinheiro em troca do seu próprio esforço, você o faz unicamente sob a convicção de que poderá trocá-lo pelo produto do esforço de outras pessoas. Não são os apelos dos mendigos, 12

14 ou a violência dos ladrões, que dão ao dinheiro o seu valor. Não é um oceano de lágrimas, nem todos os canhões do mundo, que podem transformar esses pedaços papel na sua carteira no pão que você precisa para sobreviver. Esses pedaços de papel, que deveriam ser ouro, são um título de honra que lhe dá direito à energia das pessoas que produzem. Sua carteira é a declaração de sua esperança de que em algum lugar deste mundo que o cerca existam homens incapazes de trair o princípio moral que é a raiz do dinheiro. É isso que você considera maligno? Você já parou para pensar nas raízes da produção? Observe um gerador elétrico e atreva-se a dizer a si mesmo que ele foi criado pelo esforço muscular de bestas irreflexivas. Tente fazer uma semente de trigo crescer sem os conhecimentos que lhe foram transmitidos por aqueles que tiveram de descobri-los pela primeira vez. Tente obter seu alimento unicamente com seu esforço físico e você rapidamente descobrirá o seguinte: a mente humana está na raiz de todos os bens produzidos e de toda a riqueza que já existiu sobre a terra. Mas você garante que o dinheiro é feito pelos fortes, às custas dos fracos. A que força você está se referindo? Não é a força das armas ou dos músculos! A riqueza é produto da capacidade do homem de pensar. O dinheiro é feito então pelo homem que inventa um motor às custas dos que não o inventaram? O dinheiro é feito pelo inteligente às custas dos imbecis? Pelo habilidoso às custas do incompetente? Pelo ambicioso, às custas do preguiçoso? O dinheiro é feito antes que possa ser roubado ou mendigado; ele é feito pelo esforço de cada homem honesto, de cada um, até o limite de sua capacidade. O homem honrado é o que sabe que não pode consumir mais do que ele mesmo produziu. Realizar uma troca através do dinheiro é o código dos homens de boa vontade. O dinheiro se baseia no axioma de que cada qual é dono de sua mente e do seu esforço. O dinheiro não concede à pessoa o poder para decidir qual o valor do seu próprio esforço. Isto cabe apenas ao juízo voluntário da pessoa que estiver disposta a retribuir dinheiro ao seu esforço. O dinheiro apenas permite a você obter, com seus bens e seu trabalho, o que eles valem para as pessoas que os comprarem, e nada mais. O dinheiro não permite outros tratos, exceto aqueles realizados em benefício mútuo pelo juízo espontâneo dos que trocam. O dinheiro exige de você o reconhecimento de que os homens devem trabalhar não por punição, mas para seu próprio benefício. É para ganhar e não para perder o reconhecimento de que não são bestas de carga nascidas para transportar o peso de sua miséria; é por conta disso que se oferece um valor como recompensa, e não um castigo. O laço comum entre os homens não é um intercâmbio de sofrimentos, mas um intercâmbio de mercadorias. O dinheiro exige que você venda: não a sua miséria para a força bruta dos homens, mas seu talento para o juízo racional dos outros. Exige que você compre, não as piores coisas que lhe oferecem, mas o melhor que o seu dinheiro possa encontrar. E quando os homens vivem com base no comércio e com a razão e não a força como árbitro decisivo, triunfa o melhor produto, a melhor ação, o homem de melhor juízo e de maior talento. E o grau de produtividade do homem será também a sua recompensa. Tal é o código da existência cujo instrumento e símbolo é o dinheiro. É isso que você tanto condena? 13

15 Mas o dinheiro é apenas um instrumento. Pode levá-lo aonde você quiser, mas não escolherá por você. Proporciona os meios para satisfazer os seus desejos, mas não define os seus desejos. O dinheiro é o açoite daqueles que tentam reverter à lei da causalidade, que buscam usurpar o lugar da razão, apropriando-se dos produtos da razão. O dinheiro não compra a felicidade para quem não tem o conceito do que deseja; o dinheiro não cria um código de valores para quem não sabe mais o que valorizar; o dinheiro não dá um propósito a quem já não sabe o que busca. O dinheiro não pode comprar inteligência para o burro, admiração para o covarde, ou respeito para o incompetente. O homem que tenta comprar as mentes de seus superiores, para que estes o sirvam, colocando o dinheiro no lugar onde deveria estar sua própria argúcia e discernimento, termina por converter-se em vítima dos seus inferiores. Os homens de inteligência o abandonam, os trapaceiros e farsantes acodem-no em massa, atraídos por uma lei que ele desconhece: a de que nenhum homem pode ser inferior ao seu dinheiro. É essa a razão pela qual você o considera maligno? Só está pronto para herdar uma riqueza o homem que dela não precisa o homem que construirá sua própria fortuna e felicidade, não importando de onde comece. Se um herdeiro está à altura de seu dinheiro, o dinheiro lhe serve, do contrário, o dinheiro o destrói. Mas as pessoas dirão, neste caso, que foi o dinheiro quem o corrompeu. É isso mesmo? Não terá sido ele a corromper o dinheiro? Não invejem um herdeiro indigno; sua riqueza não é a de vocês e vocês não a haveriam empregado melhor. Não julguem que ela deveria haver sido distribuída entre vocês. Trazer ao mundo cinquenta parasitas no lugar de um não ajudará em nada a reviver a virtude morta em que aquela fortuna consistia. O dinheiro é um poder vivente, que morre sem sua raiz. O dinheiro não servirá a uma mente que não esteja à sua altura. É por isso que você o chama de perverso? O dinheiro é o seu meio de sobrevivência. O veredito que você pronuncia acerca da fonte do seu sustento, é o mesmo que você pronuncia acerca da sua própria vida. Se a fonte é corrupta, você está condenando sua própria existência. Você adquiriu o dinheiro por fraude? Adulando os vícios e as estupidezes humanas? Servindo a imbecis com a esperança de adquirir mais do que a sua habilidade merece? Rebaixando os seus princípios? Realizando tarefas que você despreza, para clientes por quem sente desdém? Nesse caso o seu dinheiro não lhe proporcionará nem um momento, nem o equivalente ao valor de um centavo sequer da autêntica alegria. Tudo o que você comprar se converterá, não em recompensa ao seu favor, mas em reprimenda; não em triunfo, mas em constante lembrança da vergonha. Então você vai gritar que o dinheiro é mau. Mau porque não substitui o respeito que você devia a si mesmo? Mau por que não lhe deixa desfrutar da sua própria depravação? É essa a causa do seu ódio ao dinheiro? O dinheiro sempre será um efeito e se recusará a ser colocado como causa. O dinheiro é produto da virtude, mas não confere virtude nem redime dos vícios. O dinheiro não lhe trará o que você não mereceu, nem material, nem espiritualmente. É essa a raiz do seu ódio ao dinheiro? 14

16 Por acaso você disse que o amor ao dinheiro é a origem de todo o mal? Amar uma coisa é conhecê-la e amar sua natureza. Amar o dinheiro é conhecer e amar o fato de que o dinheiro é a criação do melhor dos seus poderes internos e o seu passaporte para poder comerciar os seus esforços pelos esforços dos mais capazes de nossos semelhantes. A pessoa que venderia sua alma por alguns poucos centavos frequentemente é a que proclama mais alto seu ódio ao dinheiro; e na verdade tem razão em odiá-lo. Os amantes do dinheiro desejam trabalhar por ele. Sabem que são aptos a merecê-lo. Permita-me uma indicação acerca da chave que conduz ao conhecimento do caráter humano. Quem amaldiçoa o dinheiro, o obteve de maneira desonrosa. Quem o respeita, ganhou honradamente. Fuja por sua vida daqueles que lhes dizem que o dinheiro encarna o mal. Esta frase é o sinal que denuncia a proximidade de um ladrão, como antigamente havia um sino que anunciava a chegada do leproso. Enquanto os homens viverem em comunidade sobre a terra e necessitarem de meios para tratar uns com os outros, os únicos substitutos para o dinheiro são o canhão e a arma de fogo. Mas o dinheiro exige as mais altas virtudes, caso se queira ganhá-lo ou conservá-lo. Aquele que carece de valor, de orgulho ou de respeito por si mesmo, os que carecem do sentido moral do direito que possuem ao seu dinheiro e não estão prontos a defendê-lo como se assim defendessem as suas próprias vidas, e finalmente os que se escusam pelo fato de serem ricos, não conservarão seu dinheiro por muito tempo. São a presa natural dos ladrões e dos exploradores que há séculos se escondem sob os mais variados disfarces, mas que mostram sua índole assim que captam no ar o cheiro de um homem que anseia o perdão pelo pecado de possuir riquezas. Logo aliviarão este homem de sua culpa e de sua vida como ele bem merece. Então será a hora dos homens que militam sob duas bandeiras; aqueles que vivem pela força, mas que dependem daqueles que vivem do comércio para lhes criar valor ao dinheiro roubado; homens que são parasitas da virtude. Em uma sociedade moral, eles são os criminosos e é para proteger-se deles que as instituições se estabelecem. Mas quando uma sociedade estabelece a existência de criminosos por direito e de ladrões legítimos, isto é, de homens que utilizam a força para apoderar-se da riqueza de vítimas desarmadas, então o dinheiro se converte em vingador de quem o criou. Tais malfeitores se acreditam seguros ao roubar seres indefesos, já que aprovaram uma lei que os desarma. Mas seu saque se converte em ímã para outros ladrões que logo o arrebatarão com os mesmos escrúpulos dos primeiros. Então o triunfo caberá não ao mais competente em produção, mas ao mais impiedoso em sua brutalidade. E quando a força vira a regra geral, o assassino triunfa sobre o ladrão e a sociedade se desfaz entre chacinas e escombros. Vocês querem saber se esse dia vai chegar? Olhem para o dinheiro. O dinheiro é o barômetro das virtudes de uma sociedade. Quando se realizar um comércio, não por consentimento das partes, mas por coerção; quando, para poder produzir, for necessária a autorização daqueles que não produzem; quando o dinheiro afluir para aqueles que negociam não em mercadorias, mas em favores; quando os homens se fizerem mais ricos mediante o suborno e a influência, e não pelo trabalho, e as leis não protegerem vocês contra eles muito pelo contrário, pois as 15

17 leis os protegem contra vocês; quando a corrupção for recompensada e a honra for convertida em sacrifício, vocês podem estar seguros, sem equívoco, de que a sociedade está condenada. O dinheiro é um meio tão nobre que não disputa com as armas nem pactua com a brutalidade. Nunca permitirá a um país sobreviver como propriedade de alguns, ou como saque dividido. Sempre que aparecerem os elementos destruidores entre os homens, eles começarão por destruir o dinheiro, porque é ele a proteção do homem e a base de uma existência moral. Tais elementos se apoderarão do ouro, entregando aos donos em troca um monte de papel falsificado. Isto destrói as regras objetivas e deixa os homens à mercê do capricho de um pregador de valores. O ouro é um valor objetivo, equivalente a uma riqueza produzida. O papel é uma hipoteca sobre uma riqueza que não existe, reforçada por uma arma apontada ao peito de quem se espera que a produza. O papel é um cheque que os ladrões legitimados passam sobre a conta alheia: é um cheque sobre A virtude das vítimas. Aguardem o dia em que tal cheque retornar com a anotação: Cheque sem fundo. Quando o mal for convertido em meio de sobrevivência, não acreditem que os homens continuarão sendo bons. Não esperem que eles conservem a moral e percam a vida como capachos dos imorais. Não esperem que produzam quando a produção é castigada e o roubo recompensado. Não perguntem: Quem está destruindo o mundo? porque serão vocês mesmos. Vocês encontrarão essa situação em meio às maiores conquistas da civilização mais produtiva da história, e lhes perguntarão por que tudo desmorona ao seu redor, quando vocês mesmos bloqueiam a fonte sanguínea que alimenta a civilização, que é o dinheiro. Contemplem o dinheiro da maneira que os selvagens faziam antes de vocês, e lhes perguntem por que a selva está retornando às cidades. Através de toda a história da humanidade, o dinheiro sempre foi o espólio dos saqueadores de um tipo ou de outro, cujos nomes mudaram, mas cujos métodos continuam sendo os mesmos: apoderar-se do dinheiro pela força e manter os produtores de mãos atadas, desonrados e difamados. O que foi dito de pecaminoso sobre o dinheiro e que vocês repetem com esse ar de virtude irresponsável data da época em que a riqueza era produzida pelo trabalho dos escravos; e os escravos trabalhavam com a mesma técnica que alguém inventara séculos antes, e que nunca se dera ao trabalho de melhorar. Enquanto a produção foi governada pela força e a riqueza foi obtida pela conquista, pouco houve o que conquistar. Apesar disso, ao longo dos séculos de escassez e de fome, os homens exaltaram os saqueadores como aristocratas da espada, aristocratas de sangue azul, e mais tarde como aristocratas do ressentimento, desprezando os produtores primeiro enquanto escravos, logo como comerciantes, vendedores e industriais. Para a glória da humanidade, houve pela primeira e única vez na história do mundo um país de dinheiro e não me é possível fazer uma homenagem maior aos Estados Unidos da América, porque isto significa: um país onde reinam a razão, a justiça, a liberdade, a produção e o sucesso. Pela primeira vez a mente e o dinheiro dos homens foram livres, deixou de existir a fortuna como espólio de conquistas, sendo suplantada pela fortuna como consequência do trabalho, e em vez de guerreiros e escravos, surgiu ali o verdadeiro artífice da fortuna; o maior trabalhador, o tipo mais elevado de ser humano: o homem que se faz a si mesmo, o industrial norte-americano. Se você me pede que nomeie a distinção mais honrosa que caracteriza os norte-americanos, escolheria a que inclui a todas as outras: o fato de haver sido o povo que 16

18 cunhou a expressão fazer dinheiro. Jamais em nenhuma outra língua ou nação havia sido usada expressão semelhante; os homens sempre pensaram na riqueza como uma quantidade estática, que podia ser roubada, mendigada, herdada, distribuída ou obtida como favor. Os norte-americanos foram os primeiros a compreender que a riqueza deveria ser criada. A expressão fazer dinheiro contém a essência da moralidade humana. Apesar disso, devido a essas palavras, os norte-americanos se viram denunciados pelas culturas decadentes dos continentes de exploradores. Agora a crença dos ladrões lhes levou a considerar suas maiores conquistas como motivo de culpa, seus mais eminentes heróis industriais como vigaristas, suas magníficas fábricas como fruto do trabalho braçal de escravos movidos pelo chicote, como o foram às pirâmides do Egito. Aquele que finge não perceber a diferença entre o dólar e o chicote deveria aprender a lição sobre sua própria pele, e creio que isso sucederá algum dia. Enquanto não perceberem que o dinheiro é a raiz de tudo que é bom, vocês estarão buscando sua própria destruição. Quando o dinheiro deixar de ser o instrumento utilizado pelos homens para efetuar tratos entre si, os próprios homens se converterão em ferramentas uns dos outros. Sangue, chicotes, canhões... ou dólares. Escolham. Não existe outra opção e o tempo urge. Se vocês podem refutar uma frase sequer do que acabo de dizer, muito me agradaria escutálos. Responda as seguintes perguntas: 1. Que opinião merece a visão da autora quanto ao vício ou à virtude do dinheiro? 2. Que relação existe entre o papel-moeda e o ouro? 3. Qual o risco de que o Estado detenha o monopólio do dinheiro? Leitura N 3: Elementos da demanda por moeda e bancos, de Murray Rothbard O MISTÉRIO DOS BANCOS Murray Rothbard A demanda por moeda Vamos analisar os elementos que constituem a demanda por moeda. Já vimos que, ao aumentar a demanda por moeda, cai o nível de preços. Vejamos como funciona este mecanismo. O primeiro componente da demanda por moeda é: 1. A produtividade da economia 17

19 Isto é, a oferta de bens e serviços. Antes de incorporarmos o dinheiro ao nosso patrimônio, precisamos adquiri-lo através da troca. Em outras palavras, devemos vender bens e serviços que produzimos para comprar dinheiro. Deste modo, se aumenta a oferta de bens e serviços na economia, também aumenta a demanda por moeda. Uma maior oferta de bens aumentará a demanda por moeda com o que o nível de preços diminuirá. Historicamente, a oferta de bens e serviços tem crescido a cada ano. Esta tendência pela queda dos preços foi muito forte desde meados do século XVIII até os anos 1940, com exceções apenas para os períodos de guerra. Apesar dos aumentos na oferta monetária, durante este período, a oferta de moeda foi compensada pelo enorme aumento na oferta de bens, consequência da revolução industrial. Somente durante as guerras, quando os governos puseram-se a imprimir o máximo de dinheiro possível para pagar o esforço de guerra, que o aumento na oferta monetária superou os efeitos da produção crescente e provocou altas nos níveis de preços. 2. Frequência de pagamentos A demanda por moeda também é afetada pela frequência com que os agentes recebem seus salários e remunerações. Suponhamos que João cobra R$ ,00 por ano ou R$ por mês, do mesmo modo que Pedro. Mas João recebe seu ordenado na base de R$ por mês, enquanto Pedro recebe semanalmente R$ 250. Isto fará alguma diferença na situação econômica de cada um? Suponhamos que eles ressarcissem pontualmente no primeiro dia do período de assalariamento e que ambos gastem seu dinheiro de maneira uniforme ao longo dos dias, para terminar de gastar o salário na véspera do dia de pagamento. João Dia Renda Ativo Monetário Seu ativo monetário médio no mês é de R$ 500: (dia 1 + dia 30) / 2 = (R$ R$ 0) / 2 = R$ 500 Pedro Dia Renda Ativo monetário

20 Seu ativo monetário médio no mês é de R$ 125: (dia 1 + dia 7) / 2 = (R$ R$ 0) / 2 = R$ 125 Em outras palavras, ainda que ganhem o mesmo, João possui em média 4 vezes mais dinheiro consigo do que Pedro. Como Pedro é pago com uma frequência 4 vezes maior, só conserva consigo ¼ do valor. A demanda por moeda se relaciona, portanto não apenas com o nível de preços, mas também com a frequência dos pagamentos. Quanto mais esporádico é o pagamento, mais moeda se conserva ao longo do período, e por isso maior é a demanda por moeda. Se a frequência de pagamentos na sociedade se altera, altera-se também a demanda por moeda. Se o salário era pago uma vez por mês e passa a ser pago em duas parcelas, a demanda por moeda cai. Se a frequência era semanal e passa a ser mensal, aumenta a demanda por moeda, com o que o nível de preços sofre uma pressão descendente. Na realidade, alterações na frequência de pagamentos da sociedade são muito raras. Queremse determinar as causas fundamentais da inflação, suas raízes não podem estar em alterações na frequência dos pagamentos. É verdade que, no Brasil, ao longo dos anos 1980 e até o Plano Real, a frequência dos pagamentos foi bastante encurtada devido à rápida corrosão do poder aquisitivo da moeda. Se bem que isto causasse redução da demanda por moeda e consequentemente pressão ascendente sobre os preços, tal mecanismo surgiu apenas em resposta à conjuntura inflacionária, não podendo ser visto como sua causa fundamental. 3. Sistemas de compensação Enquanto isso há outro fator causal que somente pode diminuir a demanda por moeda ao longo do tempo: são os novos métodos para economizar a necessidade de reter moeda enquanto ativo. Um exemplo são os sistemas de compensação, que funcionam da seguinte maneira: imaginemos o caso em que cada um de nós deve R$ 10 à pessoa à sua esquerda, e o último da fila deve R$ 10 ao primeiro da fila, e que cada uma dessas dívidas deve ser paga no dia 1º de junho. Ora, é evidente que todas essas dívidas podem cancelar-se umas às outras, sem que haja necessidade de transação de R$ 1 real sequer. Se houvesse um mecanismo instituído para encontrar e saldar as dívidas umas pelas outras, não necessitaríamos reter tanto dinheiro e a demanda por moeda cairia. Qualquer mecanismo que reduza nossa necessidade de dinheiro para realizar transações reduz a demanda por moeda. Outro exemplo são os cartões de crédito. Contrariamente ao que normalmente se assume, os cartões de crédito não são dinheiro. Se pago a conta do jantar de R$ 20,00 com meu cartão Mastercard, isso não constitui o pagamento final da transação. Se eu houvesse pagado com uma nota de R$ 20,00, a transação teria terminado ali. Mas ao pagar no cartão, deverei posteriormente pagar à operadora do cartão, através do meu banco, os R$ 20,00 que devo, 19

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