ROSEANE BARCELLOS MARQUES. ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) NO BRASIL: Uma avaliação de sua capacidade de retratar a realidade social

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1 ROSEANE BARCELLOS MARQUES ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) NO BRASIL: Uma avaliação de sua capacidade de retratar a realidade social PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM ECONOMIA POLÍTICA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO São Paulo 2006

2 ROSEANE BARCELLOS MARQUES ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO (IDH) NO BRASIL: Uma avaliação de sua capacidade de retratar a realidade social PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM ECONOMIA POLÍTICA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO Dissertação apresentada a banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Economia Política, sob a orientação do Prof. Doutor João Batista Pamplona. São Paulo 2006

3 FOLHA DE APROVAÇÃO DA BANCA EXAMINADORA DE DEFESA

4 Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos de fotocopiadoras ou eletrônicos. Assinatura: Local e Data:

5 AGRADECIMENTOS Expressar minha gratidão não será tarefa fácil, afinal foram muitos e diferentes auxílios recebidos no desenvolvimento desta dissertação. Agradeço à Universidade Anhembi Morumbi pela bolsa indispensável a realização do curso de Mestrado. Desta instituição recebi não só fomento financeiro como a possibilidade de aplicar meus conhecimentos na atividade docente. Lá, também, passei minhas tardes pesquisando, lendo e escrevendo assuntos realizados ao tema. Lembrarei, sempre do apóio que recebi dos professores, funcionários e demais colaboradores nos momentos mais difíceis. A Sônia, funcionária do Programa de Mestrado em Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pela colaboração efetiva, sempre procurando resolver os problemas que eu lhe levava. Se existissem mais pessoas como ela nos lugares por onde eu passo a vida seria mais simples e agradável. Aos professores Doutores Otília Maria Lucia Barbosa Seiffert, Carlos Educardo Carvalho e João Batista Pamplona meus orientadores agradeço pela paciência, atenção e dedicação destinadas a mim e à minha dissertação. Tudo começou nas aulas da Profa. Otilia, minha primeira orientadora, em virtude do direcionamento da pesquisa o Professor Carlos Eduardo Carvalho prosseguiu por algum tempo com a difícil tarefa de me orientar. Eram tantas as tarefas destinadas à ele que esta ficou para o Professor João Pamplona. À ele toda minha gratidão pela realização e encerramento desta dissertação. A paciência e apoio incondicionais foram cruciais para manter meu estado psíquico normal durante o período de realização desta atividade. Aos demais professores àqueles que foram meus professores nas disciplinas que estudei e àqueles que me auxiliaram em momentos específicos do curso; meu muitíssimo obrigada. Agradeço à Professora Rosa Maria Marques pelas importantes sugestões durante o exame de qualificação. Aos professores coordenadores da Universidade Anhembi Morumbi entre eles João Garção e Elaine Chovick, os quais me deram a primeira oportunidade na carreira docente, Madalena Auricino, Karin Decker e Gracira Gabrera pela confiança e credibilidade depositados no meu trabalho.

6 Ao Professor Sebastião Hermes Verniano por exatamente tudo, dele recebi apoio, consideração, carinho, afeto e admiração. Existem pessoas que passam pela nossa vida e nela deixam marcas. Minha história de vida tem alguns marcos importantes entre eles o dia em que conheci este grande amigo, admirador, companheiro, a quem eu considero como um segundo pai. Obrigada! Aos amigos eternos Juliana Azeredo Carvalho, Rosana Aparecida Glasser, Rosilene Rosário e Kelly Cristina. Amigos de momentos diferentes, mas de almas iguais. Aos professores Carlos Roberto Carneiro, Sergio Macedo e João de Souza pelas constantes torcidas e palavras de apoio. A minha madrinha e revisora ortográfica Mônica Nalbadian pela amizade e presteza com que realizou a tarefa árdua de dilapidação desta dissertação. A todos meus amigos e parentes aquela lista que mesmo que conseguisse lembrar de todos os nomes ainda sim alguém ficaria de fora, pois não caberia nestas breves páginas. Eu costumo dizer que sem amigos e sem nossos parentes somos como um arbusto no deserto. Por isso, agradeço a eles por estarem sempre ao meu lado. Agradeço à Deus pela minha família, razão da minha existência, por ter colocado na minha vida pessoas insubstituíveis as quais representam meu início, meio e fim. Àqueles que já não estão mais neste mundo, mas são inesquecíveis como minha irmã Rosivane e meu pai Noecir. A permanência física ao meu lado foi curta, mas as lembranças e a saudade serão eternas. Àqueles que, para minha sorte, estão ao meu lado como minha mãe Joventina, irmã Roniele e sobrinhos Luciano, Leornardo, Aline e Jéssica pessoas que iluminam a minha vida. Nesta vida só há uma certeza: a certeza do amor recíproco entre minha mãe e eu. Obrigada! Ao Vitor Miguel Sousa meu amigo, namorado, noivo e marido minha intensa gratidão. Foram dias intermináveis, noites imperceptíveis com humor comprometido, mas conseguimos pelo amor que temos pela confiança, credibilidade e pela admiração mútua chegar até aqui juntos. Você é minha esperança de vida familiar. Sem vocês, nada disto teria sido possível.

7 RESUMO Este estudo avalia a capacidade do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em retratar a realidade social brasileira. Evidencia os conceitos de desenvolvimento econômico, social, humano e sustentável com o objetivo de identificar a base de sustentação do índice. Esclarece a metodologia atual deste índice criado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas e publicado pelo Banco Mundial nos Relatórios de Desenvolvimento Humano, assim como apresenta sua evolução entre os anos de 1991 a Apresenta as avaliações críticas sobre a relação entre o IDH e os conceitos relacionados ao desenvolvimento, sobre a amplitude analítica das dimensões avaliadas e sobre as alterações metodológicas ao longo de sua existência. Compara a aplicação e resultados do IDH com o Índice de Exclusão Social evidenciando as potencialidades e fragilidades de ambos. Apresenta, ainda, a divisão entre as variáveis analisadas na velha e na nova exclusão e/ou realidade social brasileira.

8 ABSTRACT This study evaluates the capacity the Human Development Index (HDI) has of showing the Brazilian social reality. It demonstrates the economical, social, human and sustainable development concepts with the purpose of identifying the sustainability base of the index. The study clarifies nowadays methodology of the index as created by the United Nations Development Program, and published by the World Bank in its Human Development Reports, as well as presents its evolution from 1990 to The work shows the critical evaluations about the relationship between the HDI and development related concepts, about the analytical extent of the evaluated dimensions, and about the methodological alterations along its existence. At the same time, compares the application and results of the HDI with the Social Exclusion Index showing the potentiality and fragility of both. It also presents the division among the analyzed variables in the old and new exclusions, and/or the Brazilian social reality.

9 SUMÁRIO

10 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - Curva de Lorenz LISTA DE QUADROS QUADRO Nº 1 - Índices sociais brasileiros LISTA DE TABELAS TABELA Nº 1 - Valores balizadores para o cálculo do IDH TABELA Nº 2 - Resultado da dimensão saúde em 2004 países selecionados TABELA Nº 3 - Resultado da dimensão educação em 2004 países selecionados TABELA Nº 4 - Resultado da dimensão renda em 2004 países selecionados TABELA Nº 5 - Resultado do IDH em 2004 países selecionados TABELA Nº 6 - Evolução, em números, do IDH no Brasil entre

11 SUMÁRIO Introdução Desenvolvimento Econômico Desenvolvimento Social Pobreza Desigualdade na distribuição de renda Diferenças sociais, econômicas e culturais Desenvolvimento Humano Desenvolvimento Sustentável Indicadores sócio-econômicos no Brasil Indicadores de qualidade de vida (bem-estar) no Brasil Indicadores de distribuição de renda Indicadores de pobreza...36 Capítulo 2 - Metodologia do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) Dimensões básicas da existência Humana Evolução nos procedimentos metodológicos do IDH Avaliação das dimensões componentes do IDH...50 Capítulo 3 - Uma avaliação geral do IDH Avaliação da Teoria que deu origem ao IDH Avaliação das dimensões do IDH Avaliação metodológica do IDH...67 Capítulo 4 - O IDH no Brasil...Erro! Indicador não definido Evolução, dos resultados, do IDH no Brasil...Erro! Indicador não definido. a) Até o ano de 1994 o cálculo do segundo indicador da dimensão educação era Média dos anos de escolaridade cuja unidade de medida estava em anos. Após esta data o indicador anterior foi substituído pelo indicador Taxa bruta de matrícula combinada e a unidade de medida passou a ser em porcentagem. Erro! Indicador não definido Avaliação da Capacidade do IDH de retratar a realidade social brasileira Erro! Indicador não definido Índice de Exclusão Social e o IDH...Erro! Indicador não definido Distribuição da Renda e IDH...Erro! Indicador não definido. 5. Conclusão...76

12 Referências Bibliográficas

13 7 Introdução O tema desta dissertação surgiu do debate entre a idéia de desenvolvimento e a idéia de crescimento econômico, no qual questões como qualidade de vida dos indivíduos são colocadas em pauta sob enfoques diferenciados. Na literatura econômica convencional predomina a idéia de que crescimento econômico é sinônimo de desenvolvimento. Para os economistas mais ortodoxos, há uma clara equivalência entre riqueza e desenvolvimento. A idéia é que bastaria medir o grau de opulência econômica, através de indicadores como renda per capita, para se saber se há desenvolvimento ou não. Em outras palavras, esses economistas acreditam que a partir do crescimento quantitativo da renda, indicadores de qualidade de vida como expectativa de vida, educação, saúde, pobreza, entre outros, alcançariam automaticamente valores satisfatórios, como numa relação de causa e efeito. Para eles, o crescimento da renda melhora, por si só, os indicadores sociais, incluindo os indicadores de qualidade de vida, atingindo assim o desenvolvimento. A partir dos anos 60, a visão acima começa a sofrer fortes críticas. Nesse período, foram surgindo evidências demonstrando que a relação entre crescimento e melhorias nos indicadores sociais, incluindo qualidade de vida, não ocorriam de forma direta. Essa afirmação em Veiga (2005) é exemplificada pelo caso dos países em desenvolvimento que mesmo após atingirem crescimento elevado da renda não avançaram nos indicadores sociais. No Brasil, o período da industrialização proporcionou um rápido aumento de renda per capita, entretanto, a elevação da renda não foi condição suficiente para ampliar os resultados dos indicadores sociais. Essas evidências reforçam a idéia de que para alcançar o desenvolvimento é necessária uma avaliação de um conjunto mais amplo de indicadores. Dentro dessa idéia, o PNUD (Programa das Nações Unidas) desenvolveu o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), um indicador que tem por objetivo substituir o indicador de renda per capita como índice para o desenvolvimento por um indicador que absorva uma quantidade maior de variáveis sócio-econômicas. Nesse sentido a teoria econômica recebeu diversas contribuições e entre elas a contribuição do economista Amartya Sen, pelo conjunto de obras literárias, e de sua participação nos estudos realizados pelo Banco Mundial cujos trabalhos estão

14 8 concentrados em encontrar uma medida eficaz de mensurar o grau de desenvolvimento entre os países. Muitos indicadores foram criados entre eles o IDH que ganhou maior expressão em termos mundiais ao ser utilizado pelo Banco Mundial. A criação do IDH, entre outros fatores, ofereceu à teoria do desenvolvimento uma possibilidade de absorver uma dimensão maior do aspecto humano em relação ao indicador anterior que avaliava apenas o aspecto renda, PIB per capita. É importante destacar na criação do IDH além da contribuição do economista Amartya Sen, alguns questionamentos que surgiram no debate econômico e em outras áreas do saber após a sua criação e aplicação. Entre eles, a capacidade em espelhar o grau de desenvolvimento de um país. Afinal, como exposto anteriormente, o desenvolvimento enquanto teoria requer um campo de estudo mais abrangente e o IDH apura informações de apenas três dimensões do aspecto humano, como: renda, educação e saúde. É possível que estas dimensões absorvam toda a abrangência da teoria? É possível que elas consigam captar todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais em cada país? Este e outros pontos foram levantados e estudados por pesquisadores nacionais e internacionais e o debate permanece em ascensão na atualidade. E como fica o Brasil nesse debate? O Brasil é um dos países avaliados pelo Banco Mundial e tem suas informações, sobre o IDH, comparadas com os demais países avaliados. Nesse caso, além da discussão apresentada acima, outros pontos se tornaram passíveis de questionamentos como, por exemplo, as diferenças regionais em todas as dimensões sociais e econômicas investigadas pelo índice e mesmo naquelas não absorvidas por ele. Após todos os aspectos apontados sobre o tema o objetivo da pesquisa desta dissertação foi delineado a partir de uma preocupação com a situação social brasileira. Assim, o problema central a ser investigado é: Em que medida o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um bom índice para refletir o quadro social brasileiro? Os procedimentos de pesquisa utilizados para o desenvolvimento deste trabalho serão: a) pesquisa Bibliográfica: levantamento e revisão crítica da produção científica disponibilizada e selecionada em periódicos científicos, livros, Bibliotecas Virtuais (nacionais e internacionais) e documentos oficiais; b) pesquisa empírica: consulta a bases de dados estatísticos sócio-econômicos junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)

15 9 e Programa das Nações Unidades para o Desenvolvimento (PNUD) e Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS). As bases de dados pesquisadas serão: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), vários anos, e o Censo de 1991 e A partir dessas bases, pretende-se estabelecer uma comparação do IDH com o índice de Gini da distribuição de renda, a incidência de pobreza e o Índice de Exclusão Social (IES) extraído do Atlas da Exclusão Social no Brasil organizado por Campos et al (2004) em 5 volumes. As unidades da federação (estados) serão utilizadas como unidades geográficas de análise para essa comparação, utilizando-se o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) calculado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) como forma de obter o IDH estadual. Nesta dissertação pressupomos que o IES é um índice sintético que tem alta capacidade para avaliar pormenorizadamente à realidade social brasileira. Para atender tal objetivo, a dissertação foi dividida nos seguintes capítulos: No primeiro capítulo são abordados os conceitos sobre o desenvolvimento e suas ramificações ao longo do tempo; tais como: desenvolvimento econômico, desenvolvimento social, desenvolvimento humano e desenvolvimento sustentável. Além do enfoque teórico/conceitual, o capítulo apresentará uma breve explicação dos principais indicadores sócio-econômicos disponíveis no Brasil. No segundo capítulo é apresentada a metodologia utilizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na construção e cálculo do IDH. Para isso, são investigados os cálculos de cada dimensão que o compõe, tais como: saúde, educação e renda. No terceiro capítulo é realizada uma avaliação geral do IDH. Esta avaliação está fundamentada na pesquisa bibliográfica internacional que apresenta tal discussão e aponta para alguns aspectos positivos e outros negativos. No quarto capítulo o enfoque é na aplicação do IDH no Brasil. Os pontos que compõem este capítulo são: a evolução do IDH (em números) e a avaliação comparativa do IDH com o IDH-M, o IES, o Índice de Gini e o percentual da população abaixo da linha de pobreza objetivando identificar a capacidade do IDH de bem retratar a realidade social brasileira. Na conclusão são evidenciados os resultados obtidos com a pesquisa seja no âmbito teórico seja no empírico. Procura-se responder ao problema central e

16 10 apresentar dificuldades e alguns outros desdobramentos percebidos durante o processo de pesquisa.

17 11 Capítulo 1 - Desenvolvimento: teorias e conceitos 1.1. Desenvolvimento Econômico Os estudos sobre o conceito de desenvolvimento econômico em Todaro (1981) esclarece que este conceito ganhou espaço na literatura econômica após a II Grande Guerra Mundial em No período pós-guerra a preocupação mundial em todas as áreas do conhecimento esteve voltada para recuperação dos países que tiveram suas economias nacionais devastadas por ela. As teorias sobre desenvolvimento foram sofrendo alterações ao longo dos anos. De 1940 até meados da década de 60, grande parte dos economistas considerava que desenvolvimento econômico e crescimento econômico eram sinônimos. As teorias sobre desenvolvimento estavam pautadas, para eles, por um desenvolvimento quantitativo, no qual os indicadores sobre a renda tinham maior significado numa avaliação do grau de desenvolvimento dos países. Conforme mesmo autor, a partir dos anos finais da década de 60, as teorias sobre o tema demonstraram que a análise quantitativa fazia apenas uma mensuração da capacidade de produção e conseqüentemente de renda dos países, entretanto não demonstravam as condições de vida dos indivíduos destes países. Após este momento, os estudos sobre o desenvolvimento avançaram no sentido de agregar indicadores sociais, não só econômicos, à avaliação do grau de desenvolvimento dos países. Estas alterações conceituais trouxeram à luz da discussão econômica, questões como pobreza e desigualdade na distribuição de renda, variáveis que apresentaram resultados perversos em termos mundiais, enquanto muitos se preocupavam tão somente com o crescimento da renda para alcançar o desenvolvimento. Os economistas adeptos da primeira versão sobre o desenvolvimento consideravam que desenvolvimento e crescimento eram sinônimos e, portanto, a acumulação de capital seria o ponto de maior preocupação na economia de um país. Quanto à sociedade, eles acrescentavam que quando o país cresce nesses termos toda a sociedade recebe seu benefício. Esta primeira versão conceitual teve adeptos tanto para alguns economistas neoclássicos quanto para os keynesianos.

18 12 [...] o desenvolvimento nos anos 50 e 60 era... um fenômeno econômico no qual rápidos ganhos no crescimento do PNB total e per capita ou iriam vazar para a massa populacional na forma de empregos e outras oportunidades econômicas, ou iriam criar as condições necessárias para uma distribuição mais ampla dos benefícios econômicos e sócias do crescimento (TODARO, 1981, p. 164). Este conceito ficou conhecido como curva de Kuznets ou curva do U invertido e no Brasil como a Teoria do Bolo 1, que surgiu das contribuições do economista Simon Kuznets sobre a relação entre crescimento e distribuição. [...] Kuznets procurou mostrar que as evidências disponíveis faziam pensar que a desigualdade de renda tendia a aumentar na fase inicial da industrialização de um país, ocorrendo o inverso em fase posterior, quando esse país estivesse desenvolvido. Foi essa a base científica daquela famosa parábola que insistia na necessidade de que primeiro o bolo crescesse para que depois fosse repartido (VEIGA, 2005, p. 43). Alguns economistas brasileiros adeptos da Teoria do Bolo acreditavam que primeiro o bolo deveria crescer para depois ser distribuído. Desta forma estratégias políticas foram adotadas para promover o crescimento econômico reforçando a tese de que este seria vazado para a sociedade como um todo. Voltando ao conceito quantitativo de desenvolvimento, para manter as taxas de crescimento elevadas e com taxa de acumulação de capital ascendente era necessária alteração na capacidade produtiva dos países, caso contrário, haveria um limite para o crescimento. O progresso tecnológico surgiu para ampliar as possibilidades de manutenção das taxas através da ampliação das curvas de fronteiras de produção. Como observado por Lima (1999) que explica o comportamento do progresso tecnológico endogeneizado na literatura póskeynesiana 2. [...] a trajetória do progresso tecnológico torna-se um determinante fundamental da acumulação de capital e do crescimento, seja diretamente por requerer a instalação de novos equipamentos de capital, seja indiretamente por afetar a distribuição funcional da renda (LIMA, 1999, p.191). Para Kalecki 3, citado por Sachs, a inserção do progresso tecnológico tem duas vertentes, uma para ser utilizada com o objetivo de alterar as ferramentas do processo produtivo, e outra com o objetivo de substituir a mão-de-obra por 1 Mais detalhes a respeito podem ser encontrados em Lessa (1998). 2 Mais detalhes a respeito podem ser encontrados em Lima (1999). 3 Mais detalhes, a respeito, podem ser encontrados em Sachs apud Pomeranz, Miglioli e Lima (2001).

19 13 máquinas, o que alteraria todo o processo de produção propriamente dito. Neste ponto o progresso tecnológico surge com alguns dilemas, como por exemplo, a discussão entre em que condições os países deveriam investir em progresso tecnológico, ou se países com elevado contingente populacional pobre deveriam fazer tal investimento. Para ele, se estes países investirem, isto pode significar desemprego em massa, se não investirem pode significar atraso tecnológico, perda de competitividade e até mesmo condições subumanas de trabalho. Um caso importante na escolha das técnicas é o das fileiras e dos processos de produção que comportam elos intensivos de mão-de-obra mas ao mesmo tempo demandam o uso de técnicas avançadas. Por isso a análise desagregada dos processos de produção se impõe, levando-se em conta a diferença entre o progresso técnico definido pela natureza e a qualidade do produto e o progresso técnico no nível do processo de produção propriamente dito. Os países subdesenvolvidos devem aprender a gerir melhor o pluralismo tecnológico (SACHS, 2001, p. 283). A ampliação da acumulação de capital através do progresso tecnológico ocorre, inclusive, pela apropriação do valor que antes era gasto com trabalhadores, ou seja, a substituição do homem pela máquina propicia uma elevação dos ganhos sobre a produção. Isso ocorre porque a prática da capacidade ociosa nas empresas por um lado demonstra a subutilização do maquinário e por outro demonstra redução na necessidade de demanda por trabalhadores. Como observa Lima (1999, p.197),... a existência de capacidade ociosa permite que as firmas concretizem seus planos de acumulação, com o grau de utilização se ajustando para eliminar qualquer excesso de demanda ou oferta na economia.. O que o mesmo autor chama atenção para uma causa danosa à economia como um todo, pois ao reduzirem os custos unitários de trabalho, inovações tecnológicas poupadoras de mão-de-obra afetam diretamente a participação dos salários na renda (LIMA, 1999, p. 206). Parafraseando Lima (1999), para baixos níveis de participação salarial na renda, os governos devem programar políticas redistributivas pró-salários, isso produzirá uma elevação no grau de utilização da capacidade e aceleração no crescimento econômico. O inverso deverá ocorrer em níveis elevados de participação salarial. As concepções teóricas de Kalecki, em Sachs (2001), adicionam à discussão a necessidade do emprego no crescimento econômico.

20 14 A taxa de crescimento da economia é sensivelmente igual à soma da taxa de crescimento do emprego, e, com a taxa de aumento da produtividade do trabalho, p, resultante do progresso técnico: r= e+p, onde r (taxa de crescimento da economia) (SACHS, 2001, p. 277). Sachs explica que para Kalecki o progresso técnico deve estar voltado para a condição econômica de cada país, e defende que em países com população numerosa, o progresso técnico eliminador de emprego é perverso, como também é perverso o país que coloca grande parte da sua população para desempenhar trabalhos manuais pesados. Assim, uma combinação entre a utilização do progresso tecnológico e a utilização da mão-de-obra deve ser realizada para um adequado crescimento econômico. As contribuições expostas acima apontam para a necessidade da manutenção da remuneração do trabalhador para a economia e conseqüentemente para o crescimento econômico. Para Kalecki, a busca do pleno emprego e a proteção das rendas do trabalho constituem um imperativo moral e a condição sine qua non do engajamento em favor da justiça social...a criação de emprego constitui, por motivo ainda mais forte, portanto, a base de sua teoria do desenvolvimento e do financiamento deste (SACHS, 2001, p. 277). Enquanto os pós-keynesianos, discutidos por Lima (2001), oferecem uma receita para os governos, Kalecki, explicado por Sachs (2001), oferece o que poderíamos chamar de conselho ou advertência para a relação justiça social e gastos governamentais, nos países do Terceiro Mundo 4. Devido ao atraso de seu aparato produtivo e à imensidão da dívida social a suprimir, esses países não têm o direito moral de desperdiçar os recursos em fins não prioritários ou de se dar o luxo de deixar inaproveitadas suas capacidades. Esses países devem aumentar consideravelmente seus investimentos para acelerar a expansão do aparato produtivo. Para isso, é preciso planejar não só o volume mas também a estrutura dos investimentos e sua repartição entre a produção de bens de consumo essenciais, bens de consumo não essenciais e bens de equipamento (SACHS, 2001, p. 275). Tanto a preocupação dos pós-keynesianos com a participação do salário na renda quanto a preocupação dos kaleckianos com a relação produção, emprego e renda sinalizam para uma abordagem sobre, como a renda gerada na órbita produtiva migra para os trabalhadores participantes deste processo. Se o interesse 4 Mais detalhes a respeito podem ser encontrados em Sachs (2001).

21 15 daqueles que igualam crescimento e desenvolvimento econômicos está apenas com a questão da renda, então é possível perceber que as contribuições expostas aqui levam a questionamentos, ainda que na órbita quantitativa, sobre o acesso da renda gerada pelos trabalhadores. Ora, então não é só fazer o bolo crescer, mas de que forma ele está crescendo. Com o passar dos anos as experiências dos países que se preocupavam apenas com o desenvolvimento quantitativo mostraram que o mesmo era insuficiente perto da diversidade de problemas que eles enfrentavam, derivado muitas vezes da busca incessante do crescimento econômico. Embora alcançassem resultados elevadíssimos nos indicadores de renda, estes benefícios não foram transferidos para os demais membros da população. Assim, estas economias conseguiram um estágio de crescimento sacrificando sua autonomia econômicofinanceira e os aspectos sociais de sua população, o que provocou a construção de um conceito de desenvolvimento diferente. Nesse âmbito questões como: pobreza absoluta e relativa, desigualdade na distribuição de renda e o crescente desemprego tornaram-se questões imprescindíveis para uma verificação mais apurada do grau de desenvolvimento dos países. Todaro (1981), chama atenção para a redefinição do conceito de desenvolvimento: O desenvolvimento econômico foi redefinido em termos da redução ou eliminação da pobreza, da desigualdade e do desemprego, dentro de um contexto de uma economia em crescimento. A `redistribuição` do crescimento tornou-se um lema comum...pelo menos três componentes básicos ou valores centrais deveriam servir como base conceitual e orientação prática para que se compreenda o significado interior do desenvolvimento. Estes valores são manutenção da vida, auto-respeito e liberdade... (TODARO, 1981, p.165). Para Todaro os valores como manutenção da vida (capacidade de prover as necessidades básicas), auto-respeito (ser uma pessoa com dignidade, honra, autenticidade, identidade, respeito ou reconhecimento) e liberdade (ter autonomia para escolher) devem ser transformados em objetivos para o desenvolvimento. Países que não contemplam estes valores/objetivos não podem ser considerados desenvolvidos. Nessa nova versão destacam-se economistas, como, Lewis, Hirschman, Myrdal, Nurkse que embora com raízes ortodoxas, distinguiram os dois conceitos.

22 16 Para eles 5 o crescimento econômico é definido como uma simples variação quantitativa do produto, enquanto o desenvolvimento envolve mudanças qualitativas no modo de vida das pessoas, das instituições e das estruturas produtivas. Outros economistas inseridos neste novo conceito são àqueles considerados mais críticos, como Raúl Prebish, Celso Furtado e demais autores da tradição cepalina e marxista, bem como grande parte dos economistas do desenvolvimento. Desenvolvimento econômico define-se, portanto, pela existência de crescimento econômico contínuo(g), em ritmo superior ao crescimento demográfico(g*), envolvendo mudanças de estruturas e melhoria de indicadores econômicos e sociais. Compreende um fenômeno de longo prazo, implicando o fortalecimento da economia nacional, a ampliação da economia de mercado e a elevação geral da produtividade. Cabendo, portanto, ao crescimento econômico(g) a função de...superar o crescimento demográfico(g*), para expandir o nível de emprego e a arrecadação pública, a fim de permitir ao Governo realizar gastos sociais e entender prioritariamente às pessoas mais carentes (SOUZA, 1999, p. 22). É importante ressaltar que embora haja uma distinção entre os dois conceitos, nenhum deles deixou de existir nem como conceito nem como método de avaliação entre os países. Os indicadores econômicos como, renda agregada e renda per capita são utilizados e relevantes para uma análise econômica dos países no que tange à capacidade de produção de bens e serviços, ou seja, capacidade de geração de renda. Entretanto, além destes, os indicadores sociais como método de avaliar grau de acesso de serviços sociais tais como: saúde, educação, moradia, nutrição, saneamento, entre outros, também fazem parte do conceito de desenvolvimento Desenvolvimento Social A discussão sobre conceitos e teorias do item anterior demonstra que eles são passíveis de sofrer alterações ao longo dos anos. Entretanto, as mazelas sociais parecem resistentes na realidade mundial. As teorias, os conceitos, a tecnologia, a biomedicina, enfim, quase todas as questões em termos de pesquisas, sofreram alterações nas últimas décadas. Mesmo com esses avanços, a pobreza e desigualdade se mantiveram em destaque em todos os âmbitos das economias mundiais como situações sem soluções efetivas. 5 Mais detalhes, a respeito, podem ser encontrados em Souza (1999, p. 21).

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