Código Brasileiro de Telecomunicações: uma história de negociação política Resumo INTRODUÇÃO

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1 1 Título: Código Brasileiro de Telecomunicações: uma história de negociação política BRANDÃO, Elizabeth Pazito.Dra. i Palavras-chave: história da comunicação comunicação e democracia - regulamentação das telecomunicações UF: Distrito Federal. Grupo temático: História da Midiologia Resumo O CBT, Código Brasileiro de Telecomunicações, é o documento legal que consolidou a regulamentação da área de telecomunicações e radiodifusão no Brasil. Ao contrário do que afirma a maior parte dos trabalhos publicados sobre o tema, a promulgação do CBT pelo Congresso Nacional, em 1962, é resultado de um acordo político que reuniu fatores propícios a sua tramitação e aprovação, entre eles o forte sentimento nacionalista da época, o desenvolvimentismo do governo JK, o colapso total das comunicações em um período de intenso crescimento industrial do país, a construção de Brasília e a organização formal do empresariado de radiodifusão no Brasil. Porém, o fator decisivo foi a articulação política e o pacto de forças que arregimentou três segmentos da sociedade diretamente interessados em uma legislação para o setor: o dos empresários de radiodifusão, o da classe política e o dos engenheiros militares que sustentavam a argumentação tecnológica necessária a elaboração do projeto. INTRODUÇÃO O esforço organizado para implantar e regulamentar as telecomunicações e a radiodifusão no Brasil pode ser localizado no final da década de 50, a partir do governo de Juscelino Kubitschek. Este esforço alcança seus objetivos quando o Código Brasileiro de Telecomunicações, CBT, Lei 4.117, foi aprovado, em novembro de O CBT deu início à implantação do Sistema Nacional de Telecomunicações, SNT, definiu os serviços de telecomunicações e radiodifusão, previu a criação de uma empresa pública governamental (que seria a EMBRATEL, criada em 1965), instituiu o Conselho Nacional de Telecomunicações, o CONTEL, o Departamento Nacional de Telecomunicações, o DENTEL, e o Fundo Nacional de Telecomunicações, FNT, como forma de autofinanciamento, além de definir tarifas. Regulamentado em 1963, o CBT vigorou até julho de 1997 quando é aprovada a Lei Geral das Telecomunicações, LGT, que privatizou o sistema.

2 2 Historicamente, os estudos e textos sobre a implantação do Sistema de Telecomunicações no Brasil sempre insistiram em apontar uma relação direta entre as telecomunicações e a ditadura militar que se instalou no país a partir de 64, bem como ao princípio de integração nacional. Esses estudos também sempre apontaram para o fato de que a implantação e o desenvolvimento das telecomunicações seriam resultado quase exclusivo do pensamento militar e teriam contribuído para a legitimação e manutenção dos militares no poder. Este trabalho tem por objetivo contribuir para uma percepção mais complexa do cenário político, social e econômico que permitiu a elaboração e a implantação do Sistema Nacional de Telecomunicação e do CBT; as circunstâncias nas quais as idéias e tentativas de regulamentação da área transformaram-se em um projeto legislativo viável; como ele foi negociado no âmbito político e como, finalmente, foi aceito, adotado e promulgado pelo Congresso Nacional. A pesquisa abrange os anos de 1957 a 1962 período de discussão e tramitação do projeto legislativo e foca, em especial, os pequenos fatos, episódios e atores que influenciariam diretamente a negociação, encaminhamento e aprovação do projeto, tanto quanto a atuação dos grupos de interesse dominantes da época. Metodologia A pesquisa privilegia a documentação oral como condutora do texto, confrontando as entrevistas e depoimentos com a documentação e a bibliografia pertinente para conferência de datas e fatos históricos. As fontes de documentação oral utilizadas foram depoimentos que fizeram parte de um projeto denominado Centro de Memória e História Oral das Telecomunicações que reuniu, nos anos 80, 403 entrevistas transcritas e depositadas na biblioteca do Ministério das Comunicações, em Brasília. Deste total, foram consultados 100 depoimentos cujo teor estava diretamente ligado ao tema da pesquisa e, desses, selecionou-se 13 como fontes principais em função da abrangência com que os entrevistados trataram o tema, da importância dos entrevistados para a história do setor e pelos detalhes precisos nas indicações de datas e fatos. Foram utilizadas, também como fonte de pesquisa, as fichas de tramitação do projeto na Câmara dos Deputados, os Diários do Congresso Nacional e os Anais da Câmara dos Deputados, além da bibliografia sobre o tema.

3 3 As etapas seguidas na pesquisa foram: a) Os itinerários que permitiram que a idéia inicial se transformasse em uma proposta que congregou a seu favor vários segmentos da sociedade; b) as estratégias de negociação do projeto. Quais foram os meios mobilizados para que o projeto fosse encaminhado e negociado? Quais os interesses que estavam em jogo e como influíram na negociação? c) o papel dos principais atores durante a negociação; d) o processo decisório. Como os itinerários, as estratégias e os atores conseguem se coordenar de forma a permitir a adoção da implantação do novo sistema tecnológico. Hipótese A hipótese é que a criação do Sistema de Telecomunicações e a elaboração do CBT resultam de um pacto de interesses negociado em um momento histórico democrático da vida do país. Hipóteses secundárias a) O CBT representa a solução satisfatória encontrada através de um pacto feito entre os diversos atores e segmentos interessados no setor de telecomunicações; b) o nacionalismo e o desenvolvimentismo serviram como argumento chave para a construção do consenso entre os diversos segmentos interessados na promulgação de uma legislação para o setor. CENÁRIO DAS TELCOMUNICAÇÕES NO BRASIL: DO PÓS-GUERRA A JK O período pós-guerra foi benéfico para a economia brasileira na medida em que aumentou a exportação de produtos primários e estimulou a instalação de novas indústrias de manufaturados, produtos cuja importação se tornara difícil no período da guerra. No entanto, o setor de comunicações ficou estagnado com a paralisação no fornecimento dos equipamentos de fabricação estrangeira utilizados pelas concessionárias de serviços telefônicos e telegráficos. As matrizes dessas empresas pertenciam aos países envolvidos no conflito e tiveram muitas de suas fábricas

4 4 destruídas e sua produção desviada para atender às necessidades da guerra. Sem condições de suprir a demanda da população brasileira, a expansão da telefonia começou a ser feita à custa de estoques de reposição, assim mesmo numa escala muito pequena se comparada à demanda, situação que além de não atender às necessidades, dificultava a manutenção e contribuía para a deterioração das linhas já implantadas. O controle cambial imposto pela política econômica, na prática, favorecia a importação somente de produtos essenciais, deixando em uma longa fila de espera os produtos de consumo. Como a procura interna continuava elevada, havia forte incentivo para a expansão da indústria nacional na área de bens de consumo. Além disso, a manutenção artificial do valor do cruzeiro que favoreceu a importação e desestimulou a exportação, também carreou investimentos para a produção destinada a satisfazer a demanda interna, reforçando novamente o surto industrial no país. (SKIDMORE, 1976, p. 98). Essa política econômica que incentivou a formação do parque industrial brasileiro contribuiu também para fortalecer o ideário nacionalista e a identificação, pela sociedade, sobretudo por parte das elites, da necessidade de impulsionar o desenvolvimento do país pelo caminha da industrialização. No setor de comunicações, a política de restrição às importações dificultou a obtenção de equipamentos para a expansão dos serviços em geral, principalmente a telefonia. Por um lado, a dificuldade para a importação resultava da política econômica restritiva e à escassez de equipamentos disponíveis no mercado internacional voltado para a produção de guerra. Por outro lado, o mercado de capitais interno estava direcionado para a produção de bens de consumo para atender à crescente demanda interna de uma população em ritmo acelerado de urbanização e, por conseguinte, não possuía capital disponível para investir no setor de comunicações. Ao final da década de 50, o panorama das comunicações brasileiras era dramático se confrontado com as necessidades do crescimento industrial e urbano brasileiro. Resumidamente, o quadro era o seguinte: - existiam cerca de 800 concessionárias de telefonia pública no país sendo que a maioria, cerca de 80% dos terminais, pertencia a um único grupo, o CTB Companhia Telefônica Brasileira, ligado ao grupo canadense Light;

5 5 - as ligações interurbanas praticamente inexistiam. Entre as grandes cidades havia, aproximadamente, 720 canais interurbanos, sendo 468 entre Rio e São Paulo; os sistemas locais estavam operando com capacidade máxima tornando praticamente impossível a ligação de novos assinantes às redes telefônicas; - o serviço de telex que foi implantado pela NOVACAP na inauguração de Brasília contava com pouco mais de mil terminais; - as comunicações internacionais, via ondas de rádio (HF) ou pelo cabo submarino (telegrafia), funcionavam precariamente com baixa capacidade de tráfego; - outro sistema de microondas fora instalado entre Petrópolis e Belo Horizonte pela Telefônica de Minas Gerais, subsidiária da CTB, e era interligado ao Rio por um sistema de cabo coaxial. Construído pela SCT inglesa, do grupo ITT, que não deixara nenhum know-how para o Brasil, o sistema foi logo absorvido antes de conseguir atender a demanda; - o Departamento de Correios e Telégrafos, DCT, era totalmente ineficiente e uma das repartições públicas mais desacreditadas do país. Quando se queria um serviço de confiança usava-se a Western, e era comum, na época, dizer enviar um western como sinônimo de telegrama, pois essa era a única empresa que prestava serviços confiáveis. Como explicar uma infraestrutura de comunicação tão deficiente em um país que passava por um surto de industrialização? Três fatores devem ser apontados. O primeiro é o problema tecnológico, um ponto de estrangulamento vital. O surto de industrialização ocorrido na economia brasileira dava-se em dois sentidos: por parte do capital nacional, estava dirigido à produção de bens de consumo e por parte do Governo, voltado para o desenvolvimento dos setores econômicos de base. A sofisticada tecnologia de telecomunicações dependia de investimentos de grande vulto que o empresariado nacional não tinha como bancar. A exploração dos serviços era feita por empresas estrangeiras que importavam seus equipamentos dos países onde estavam instaladas suas matrizes e que foram afetadas pelas diretrizes de restrição à importação; além disso, também não mostravam interesse em capacitar o país tecnologicamente para produzir equipamentos. Como o principal mercado consumidor destes produtos eram as próprias multinacionais, elas dificilmente se interessariam em comprar produtos

6 6 nacionais, principalmente tratando-se de uma indústria incipiente. Com falta de garantias mínimas de mercado, a indústria brasileira praticamente nada produzia. Outro aspecto da questão tecnológica era a mão-de-obra especializada. Não havia técnicos de nível médio nem superior com conhecimento suficiente da área, pois as universidades e as escolas técnicas não ofereciam cursos específicos de telecomunicações. Os técnicos capacitados eram os engenheiros militares que se formavam no IME Instituto Militar de Engenharia e, mais tarde, no ITA, Instituto Tecnológico da Aeronáutica. O segundo fator é a política econômica. O Estado estava empenhado em desenvolver o setor de produção de base para o qual já estava carreando recursos em valores superiores ao que poderia suportar. Frente a projetos de vulto como petróleo, siderurgia, eletricidade e outros, o problema das comunicações não era prioritário e perdia facilmente para outros setores privilegiados pelo Governo, considerados indispensáveis para o desenvolvimento do país. Sem dúvida, a falta de uma infraestrutura de telecomunicações tornava muito mais difícil alcançar o paradigma desenvolvimento&industrialização que se desejava para o país. No entanto, esta situação só vai se tornar crítica no final dos anos 50, quando a necessidade de comunicações com um mínimo de eficiência passou a ser uma condição sine qua non para manter o ritmo industrial e até mesmo para a gestão dos negócios do Estado. Até então, o eixo político-econômico formado por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais vinha sendo atendido, mesmo precariamente, e as próprias empresas tinham instalado sistemas particulares de comunicação. O terceiro fato é a questão do nacionalismo. As décadas de 50 e 60 são marcadas pela ideologia nacionalista que gerou na sociedade um sentimento de rejeição às empresas estrangeiras que respondiam pelos serviços públicos, principalmente a telefonia e a eletricidade. Desenvolver as comunicações no Brasil incentivando a expansão das multinacionais implicava em um problema político e em conflito com a população que desejava a nacionalização do setor. E como o Governo não tinha como bancar o setor com recursos próprios, ficava-se sem solução à vista.

7 7 A administração do setor também contribuía para o caos das comunicações. Vários órgãos detinham uma parcela de responsabilidade, cada um baixando normas e portarias a respeito do que pensava ser matéria de sua competência, acumulando centenas de atos administrativos que se contradiziam ou que, simplesmente, ignoravam a legislação já existente. A profusão de normas administrativas, leis e decretos que se atropelavam uns aos outros tornava impossível a gesta do setor. Para complicar ainda mais, havia o fato de a legislação de telecomunicações estar atrelada à de radiodifusão desde 1931, e a radiodifusão detinha muito mais atenção por parte da elite política. Vários ministérios tinham algum tipo de atuação direta sobre a área de comunicações. O Ministério do Trabalho porque tratava dos contratos entre os profissionais, sobretudo de radiodifusão, com as empresas que os contratavam; o Ministério da Educação porque a legislação de radiodifusão sempre considerou o serviço para fins educativos e possuía uma rede nacional para atender estes objetivos; o Ministério da Justiça atuava através do Departamento Federal de Segurança Pública, controlando o conteúdo do que era veiculado pelos meios de comunicação de massa; os Ministérios Militares, bem como os órgãos do setor militar, como o Estado Maior das Forças Armadas, EMFA, e o Conselho de Segurança Nacional, CSN, porque historicamente os assuntos relacionados com telecomunicações eram considerados de segurança nacional; finalmente, o Ministério da Viação e Obras Públicas, ao qual ficavam subordinados o DCT Departamento de Correios e Telégrafos e a CTR Comissão Técnica de Rádio. Ao primeiro cabia, por força da lei, a direção das redes de radiocomunicação e do Correio Nacional. Ao segundo, cabia normatizar e fiscalizar, entre outras atribuições, a parte técnica da radiodifusão e a radiocomunicação como um todo. O trabalho dos dois órgãos acabava superpondo-se e os dois disputavam o poder de controlar o setor. O perfil dos anos 50 traçado por Ramos 1 descreve com precisão a situação do país e a inter-relação dos diversos setores com as comunicações. No setor de telecomunicações havia uma pequena indústria montadora de aparelhos de rádio e aparelhos de som. O Exército tinha sua própria fábrica de material de comunicações, mas importava todos os componentes e equipamentos mais complexos ou de tecnologia avançada. A Aeronáutica posicionou-se numa linha diferente de fomento à indústria civil, especialmente 1 RAMOS, Paulo Alves Lourenço. Depoimento nº 19.

8 8 para a pdouçã no país de equipamentos de radiofarol e de comunicações fixas. Os serviços públicos de telecomunicações eram muito deficientes pela estagnação nas estações, causadas pela II Guerra Mundial. Depois da guerra, um sentimento de forte nacionalismo foi tomando conta das populações urbanas levando a choques com as multinacionais que operavam os serviços de telecomunicações, dificultado a entrada de capitais estrangeiros para financiar as suas expansões. Assim, as deficiências foram se acumulando. Ficava-se dez anos ou mais na fila para se obter um telefone, e o sistema existente vivia super congestionado. Havia fila de dias de espera para obter uma ligação interurbana que, quando completada, mostrava-s de péssima qualidade. As comunicações com o exterior, que eram importantes para os interesses dos ricos cafeicultores e exportadores de café funcionavam satisfatoriamente para a época. Para as suas necessidades mais prementes de comunicação no país, as próprias empresas instalaram seus próprios circuitos de radiocomunicação, com ou sem licença, pois a fiscalização, a cargo do Departamento de Correios e Telégrafos, não funcionava, como tudo o mais nesse Departamento. Além disso, havia um número bastante grande de radioamadores, o segundo maior contingente do mundo ocidental, que também ajudava as pessoas a obterem comunicações em caso se urgência. OS ANTECEDENTES DO CBT Os antecedentes do CBT estão diretamente vinculados aos anos do Governo JK e emoldurados por duas ideologias que direcionaram e sustentaram a história das telecomunicações: 1) o nacionalismo, um sentimento que perpassa todos os fatos e depoimentos colhidos durante a pesquisa; 2) o desenvolvimentismo que representou, nos anos JK, a cristalização do pensamento nacionalista traduzido e identificado com o processo de industrialização do país. Estas duas forças pairam acima das muitas divergências existentes no interior dos segmentos interessados na área de telecomunicações e se tornaram o ponto de convergência dos interesses desses segmentos que nelas encontram o lócus onde foi possível alinhavar e montar um pacto de interesses. Elas serão o leitmotiv que permitirá aparar os conflitos e divergências dos grupos que tomaram a si o poder decisório concernente à implantação do Sistema Nacional de Telecomunicações. É preciso ressaltar que a posição nacionalista era partilhada pelos militares que há muitos anos reivindicavam um plano para o setor e tanto na sociedade civil, quanto na área militar o conflito de posições não era de natureza técnica e sim política, isto é, a conveniência de um monopólio do Estado. Muitos duvidavam da capacidade do país para instalar o sistema por conta própria sem ter que recorrer ao capital externo, uma

9 9 vez que não tínhamos a tecnologia necessária, nem indústrias, nem mão-de-obra especializada. Outros questionavam a estatização, não por descrença na capacidade do país, mas por motivos políticos e técnicos e em defesa da iniciativa privada. Porém, mesmo a questão política acabava por esbarrar na técnica, na medida em que a implantação de uma política nacional de telecomunicações era norteada por uma concepção sistêmica do setor, oriunda do pensamento militar. A organização sistêmica se impunha por razões tecnológicas, independente da disputa estatização x privatização, pois seria impossível operacionalizar empresas diversas sem que estivessem submetidas a um mesmo planejamento administrativo e às tecnologias compatíveis. Entre os fatos históricos que contribuíram para a negociação do CBT, quatro se destacam. a) A transferência da capital federal para Brasília, uma cidade que estava sendo construída no centro do país, isolada do triângulo econômico representado por Rio, São Paulo e Minas, tornando indispensável e urgente a instalação de um eficiente sistema de comunicações com capacidade para ligar Brasília ao resto do Brasil, principalmente ao Rio onde por muitos anos ainda funcionaria efetivamente o centro do poder; b) a organização do empresariado de radiodifusão. A radiodifusão emerge como um setor significativo de aplicação do capital nacional e, como tal, necessitava de uma legislação própria que a livrasse da submissão ao Executivo, a exemplo do que ocorrera no período Vargas. Havia também a preocupação com o uso abusivo do rádio pela elite política e pelos partidos mantenedores do Governo que detinham o domínio absoluto sobre as concessões. O empresariado nacional se inquietava com a possibilidade de a iniciativa privada perder o domínio da radiodifusão, uma vez que a discussão sobre monopólio do Estado nas telecomunicações ganhava corpo sem se saber exatamente quais seriam os limites do Estado e se o monopólio alcançaria também a radiodifusão. c) Os interesses políticos do Legislativo. Assim como os empresários, a classe política (muitos deles proprietários de veículos) queria uma legislação para o setor, pois mesmo os parlamentares que por razões ideológicas e não por interesse empresarial - defendiam o controle dos meios de comunicação pelo

10 10 Estado temiam o monopólio e centravam seus pronunciamentos no argumento da liberdade de opinião. E foi nesta perspectiva a liberdade de opinião como corolário do conceito de soberania nacional - que foram construídos os argumentos que sustentariam a tramitação do projeto legislativo do Código. A TRAMITAÇÃO DO CBT O projeto que instituiu o CBT deu entrada na Câmara dos Deputados em novembro de 1957, proveniente do Senado Federal. Outros projetos semelhantes já tramitavam no Congresso, sobretudo aqueles que tratavam da radiodifusão, e quando o projeto do CBT começou a tramitar, os outros foram negociados e anexados sob a argumentação de que esse último tinha uma dimensão mais ampla e abrangente, uma vez que tratava das telecomunicações em geral. Após a mudança da capital para Brasília e a eleição de Jânio Quadros para Presidente, o CBT volta a tramitar no Congresso e, a partir de 1961, toma um impulso repentino que o transforma em matéria constante de debates em plenário pelas razões já apontadas e que formaram uma conjuntura política e econômica favorável às negociações. Três deputados da época serão os condutores do projeto, seguindo-lhe os passos até sua promulgação: Fernando Santana, no PTB da Bahia (e que depois da abertura política na década de 80 seria eleito Deputado Federal-BA, pelo Partido Comunista Brasileiro); Nicolau Tuma, da UDN de São Paulo e radialista; e Barbosa Lima Sobrinho do OS, do Distrito Federal (ainda Rio de Janeiro). Fernando Santana foi o responsável por desarquivar o processo e levar para discussão em plenário, no dia 6 de julho de 1961, onde recebeu 99 emendas que foram somadas às 94 que já existiam. Com a ajuda de San Tiago Dantas, conseguiram a formação de uma Comissão Especial composta de deputados representantes de todas as comissões por onde deveria passar o projeto do Código. O substitutivo foi, enfim, aprovado em Plenário, em 02 de agosto de 1961, sem destaque. O projeto foi então encaminhado ao Senado Federal onde o lobby das multinacionais, que já tinha sido forte na Câmara, tornou-se ainda mais incisivo. Segundo Fernando Santana, 2 no Senado tentou-se derrubar o texto elaborado na 2 entrevista à autora

11 11 Câmara, abrindo mais espaço para as empresas estrangeiras. Os entraves que o projeto enfrentou, muitos de ordem regimental tentado prejudicar sua tramitação no Senado, incluem vários episódios romanescos até alcançar a sua aprovação final na madrugada do dia 27 para 28 de novembro de 1962, quando os 52 vetos apostos pelo Presidente João Goulart foram derrubados. Era a primeira vez que isto acontecia no Congresso Nacional. A maioria dos vetos apostos pela Presidência dava uma orientação mais estatizante à lei no que se referia às telecomunicações. Porém, a radiodifusão também tinha recebido vários vetos, destacando-se os artigos que tratavam dos prazos de concessão e renovação de canais e o capítulo referente às infrações e penalidades imputadas às empresas. Estes vetos atingiram duramente o empresariado de radiodifusão que, com a supressão dos trechos da lei, vetados pelo Presidente, achavam-se novamente ameaçados em seus direitos, sem o amparo legal que o projeto do Código lhes proporcionara para a expansão de suas atividades e, mais uma vez, à mercê das disposições legais emanadas do Executivo. O lobby do setor junto ao Congresso Nacional foi uma verdadeira cruzada e uma força a favor do texto legislativo proveniente da Câmara e foi liderado em grande parte por João Calmon 3. A ABERT, Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, foi criada com a finalidade de responder com argumentos positivos aos vetos de Goulart e para unir as emissoras na defesa de seus interesses futuros. VENCE A NEGOCIAÇÃO POLÍTICA Porém, o lobby do empresariado, ainda que forte, não seria suficiente para a aprovação do Código e a derrubada dos vetos presidenciais. O que estava em jogo era o acordo que já tinha sido costurado desde a Câmara entre os três segmentos diretamente 3 João Calmon, do Espírito Santo, advogado e jornalista, foi deputado e senador em seis legislaturas, e voltou grande parte de sua vida parlamentar para as questões da educação brasileira. Entre 1937 e 1954, foi dirigente de emissoras de rádio dos Diários Associados. Foi Presidente do Condomínio das Emissoras e Diários Associados, de 1968 a 1980 e fundador e Presidente de Honra da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão-ABERT.

12 12 envolvidos no projeto: a classe política, os empresários e os militares, mais especialmente o Legislativo e os empresários de radiodifusão. De acordo com Fernando Santana, quando se elaborou o projeto do CBT, já havia no Brasil redes como os Diários Associados e a Globo que começava a tomar impulso. Para se elaborar esta lei que tinha um caráter nacionalista ela se destinava a ter o controle da Nação sobre o problema das telecomunicações houve necessidade de se armar na Câmara um grande acordo. Qual era o acordo? O de que as telecomunicações seriam feitas pela União diretamente. Isso definiu a filosofia da lei. Mas tinha a parte do rádio e da televisão. Para vencer a pressão das multinacionais, precisamos fazer um acordo a nível nacional onde a Nação teria o controle absoluto das telecomunicações, mas daria concessões de rádio e televisão a brasileiros natos somente, ficando o Estado também com direito de instalar estações de rádio e televisão. Porém, ficou a garantia do setor privado continuar tendo concessões para rádio e televisão dadas pela União. Nós achávamos que era muito mais importante nacionalizar e colocar nas mãos do Estado o que era essencial: a transmissão de dados, as telecomunicações e por isso foi feito o acordo. Os vetos foram derrubados não porque estivéssemos contra, mas por conta do acordo que havíamos feito entre todos os partidos e que devia prevalecer. O acordo político entre Legislativo e radiodifusores foi o pilar que sustentou a tramitação e aprovação do CBT, mas é preciso esclarecer o papel dos militares nessa negociação. Os engenheiros militares eram os únicos com conhecimento técnico sobre telecomunicações. Desde 1949, vinham tentando dar ao setor uma organização sistêmica, um planejamento a nível nacional que pudesse viabilizar a implantação de uma infraestrutura de telecomunicações no Brasil. Os deputados Fernando Santana, Nicolau Tuma, Barbosa Lima Sobrinho, bem como Saturnino Braga, San Tiago Dantas, Ulysses Guimarães e Oliveira Brito participaram dos debates sobre o projeto de lei desde o início, discutindo com os assessores militares destacados para acompanhar a elaboração do projeto do Código. Eles conheciam em profundidade a tecnologia de comunicações e estavam convictos da importância que representava para o país estatizar as telecomunicações, uma vez que haviam acatado e concordado com as posições defendidas pelos assessores militares. Portanto, o acordo negociado abrangia os três segmentos e não apenas os radiodifusores e os políticos. Aliás, o acordo é firmado justamente para contemplar o

13 13 aspecto tecnológico defendido pelo segmento militar e que não era a preocupação primordial, nem do Legislativo, nem dos radiodifusores. Estes dois setores convergiam na proposta de legislar sobre a liberdade de informação. A questão tecnológica, a implantação das telecomunicações como Sistema Nacional, corria paralela aos outros interesses e foi o esforço pessoal de alguns deputados e assessores militares que garantiu uma ampla legislação que englobava todos os aspectos das comunicações. Vallim 4 confirma em seu depoimento que a parte referente à radiodifusão foi inteiramente elaborada pelo Legislativo e de responsabilidade exclusiva, sem nenhuma interferência por parte dos militares. CONCLUSÃO O Código Brasileiro de Telecomunicações, assim como a implantação do Sistema Nacional de Telecomunicações foi construído em um momento histórico de plena vivência democrática que permitiu a tessitura de interesses e razões diversas (técnica, política, econômica) e díspares em vários momentos, o que não impediu que pudesse ser alcançada a melhor solução. Em seu depoimento, Hugo Dourado afirma que As telecomunicações nasceram de um parlamento democrático e progressista, em um Governo que respeitava as decisões do Parlamento. A Câmara, na sua coragem democrática e de independência, derrubou por unanimidade os vetos. E, em consonância com essa independência, um Executivo democrático aceitou o fato, sancionou a lei e fez com que ela vigorasse na sua plenitude. 5 Os anos de 1960 a 1963 (época da tramitação do projeto legislativo) foram anos conturbados na história do Brasil. Neste curto período de tempo, a capital federal foi transferida para uma outra cidade, um presidente renunciou ao cargo, seu vice quase não tomou posse, instalou-se um regime parlamentarista que durou apenas poucos meses, seguido da restauração do presidencialismo através de um plebiscito, depois de desfeitos quatro gabinetes e, pouco depois, viria o golpe militar de 64. E neste contexto tramitou o CBT: uma legislação com 129 artigos, construída e sustentada por interesses e lógicas múltiplas, como em todas as sociedades 4 VALLIM, Josemar da Costa. Depoimento nº 7. 5 DOURADO, Jugo. Depoimento nº10

14 14 verdadeiramente democráticas. Por maiores que tenham sido as divergências entre os vários interesses em jogo durante a tramitação do projeto no Congresso Nacional, todos os depoentes, todos os atores desta história são unânimes em afirmar que o Código correspondeu às necessidades do setor e às expectativas da sociedade como um todo. Um momento raro na história do Brasil. BIBLIOGRAFIA As fontes utilizadas nesta pesquisa foram: documentos e publicações oficiais, depoimentos do Projeto Centro de Memória e História Oral das Telecomunicações, entrevistas à autora e a bibliografia sobre o tema. I. Documentos impressos 1. Livros e trabalhos SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio à Castelo. 5ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. GARCIA, Aluisio da Cunha. Estudo da Expansão das Telecomunicações no País. Repercussão na Segurança Nacional. Conferência proferida na Escola Superior de Guerra em 01/08/1969. Documento transcrito e depositado na biblioteca da ESG. Rio de Janeiro. BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Seção de Sinopse. Arquivo. Cópias dos microfilmes das fichas de tramitação microficha do número a , do Projeto nº 3.549, de BRASIL. CONGRESSO NACIONAL. Arquivo da Câmara dos Deputados. Diário do Congresso Nacional (DCN) e Anais da Câmara dos Deputados Anais - Sessão de ps Sessão de os º sessão de , ps º sessão de ps º sessão de ps e º sessão de ps º sessão de os º sessão de , p º sessão de , p º sessão de os. 141 a º sessão de os º sessão de os º sessão de os º sessão de os DCN - Diário do Congresso Nacional - Seção I, de ps Seção I, Suplemento de ps 24-42

15 15 - Seção I, Suplemento de ps Seção I, de ps Seção I de ps Seção I de ps Seção I de ps Seção I, Suplemento de ps Seção I, de ps Seção I, de p Seção I, de ps Seção II, de , os Seção I, de ps Seção II de , ps Seção I, de , ps Seção I de ps Legislação. Decreto de ; Decreto 50840, de ; Decreto 1023, de ; Decreto58006, de ; Decreto 50026, de Decreto-Lei 236, de Lei de (CBT) II. Documentação oral BRASIL. Ministério das Comunicações. Biblioteca. Projeto Centro de Memória e História Oral das Telecomunicações. [1985?] data provável. Depoimentos selecionados 1) Paulo Alves Lourenço Ramos. Depoimento nº 19. Coronel do Exército, engenheiro da área de telecomunicações. Foi do DENTEL Departamento Nacional de Telecomunicações e da CTB. Atuou também em empresas privadas 2) Josemar da Costa Vallim. Depoimento nº 7. Oficial da Aeronáutica, da área de comunicações. Foi assessor na Câmara dos Deputados quando da elaboração do CBT. Pertenceu também à CTR, Comissão Técnica de Rádio e ao EMFA, Estado Maior das Forças Armadas 3) Carlos Affonso Figueiras. Depoimento nº 26. Oficial do Exército, engenheiro de telecomunicações. Foi Diretor dos Telégrafos no DCT, Departamento de Correios e Telégrafos. Assessorou na Câmara dos Deputados a elaboração do CBT e foi membro do CONTEL, Conselho Nacional de Telecomunicações. 4) José Cláudio Beltrão Frederico. Depoimento nº 8. Primeiro presidente do CONTEL pósrevolução de 64. Almirante formado em Engenharia Eletrônica, Engenharia Nuclear e em Comunicações. 5) Gustavo Eugênio de Oliveira Borges. Depoimento nº 20. Diretor Geral do DCT. Oficial da Aeronáutica com curso de Comunicações Militares. Foi Secretário de Segurança Pública do Estado da Guanabara. Acompanhou a elaboração do CBT na Câmara dos Deputados. 6) José Antonio de Alencastro e Silva. Depoimento nº 134. Oficial do Exército, foi Presidente da Telebrás por vários anos. 7) Fernando Santana. Depoimento nº 02. Deputado pelo PTB, Bahia na época da elaboração do CTB. Um dos seus principais articuladores do Código, foi Presidente da Comissão de Transportes, Comunicações e Obras Públicas da Câmara dos Deputados e membro de várias

16 16 outras comissões formadas para estudar o Código. Foi também Deputado Constituinte pelo PCB da Bahia. 8) Barbosa Lima Sobrinho. Depoimento nº 6. Era deputado federal pela UDN no antigo DF. Junto com Fernando Santana e Nicolau Tuma foi um dos principais articulares políticos na discussão do Código. 9) Nicolau Tuma. Depoimento nº 5. Era deputado federal da UDN por São Paulo e foi o Relator Geral do Código na Câmara dos Deputados. 10) Clóvis Ramalhete. Depoimento nº 23. Advogado e um dos fundadores da ABERT 11) Hugo Lisoba dourado. Depoimento nº 10. Advogado, foi vice-presidente do CONTEL e pertenceu também à CTR. 12) José Antonio Marques. Depoimento nº 13. Conselheiro do CONTEL, Consultor Jurídico da CTR, presidente da Comissão que elaborou o ante-projeto do Decreto-Lei 236 de 1967 e consultor jurídico da Rede Globo. 13)Roberto Frederico Grubhofer. Depoimento nº 253. Foi diretor gerente da CTN, Companhia Telefônica Nacional e diretor da TELEPAR, Telecomunicações do Paraná. Entrevistas - Deputado Fernando Santana Entrevista à autora em Josemar Vallim entrevista telefônica à autora em 1985 i Bacharel em Comunicação Social (UFRJ), Mestre em Sociologia Política (UFSC) e Doutora em Ciência da Informação (UNB). Contato: Tel: (61) e

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