A GUERRA REVOLUCIONÁRIA COMO QUESTÃO ESTRATÉGICA: SUZANNE LABIN, MILITARES BRASILEIROS E A GUERRA POLÍTICA (1963). Raquel Silva da Fonseca 1

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1 A GUERRA REVOLUCIONÁRIA COMO QUESTÃO ESTRATÉGICA: SUZANNE LABIN, MILITARES BRASILEIROS E A GUERRA POLÍTICA (1963). Raquel Silva da Fonseca 1 Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar a reutilização feita por militares brasileiros da Guerré Revolutionnaire francesa, em uma ação educativa feita pelo Ministério da Guerra e o Estado-Maior do Exército em Para tanto, iremos analisar a reutilização dos pensamentos de uma determinada autora, Suzanne Labin, escolhida para argumentar a atuação da guerra revolucionária no Brasil dentro do documento. A proposta deste ensaio é apontar alguns dos conceitos mais trabalhados pela autora e pelos militares brasileiros, e como esse pensamento pode ser visto como influência da Guerré Revolutionnaire. Palavras-chave: Guerra Revolucionária, Suzanne Labin, guerra política, guerra psicológica, militares brasileiros. O presente artigo é uma pequena parte de um projeto de mestrado recém iniciado na PUCRS. Seu objetivo principal é aprofundar o conhecimento sobre a formação do pensamento militar brasileiro a partir da análise das apostilas de estudo sobre Guerra Revolucionária escritas pelo Ten. Cel. Mário de Assis Nogueira, em 1963, para o Estado-Maior do Exército 2. Este trabalho compreende o exército brasileiro como uma parte muito importante da nossa sociedade, às vezes exercendo papel fundamental na nossa história. Porém, esse papel das Forças Armadas geralmente é visto como conseqüência de uma relação mecânica com outros setores da sociedade 3. Entendemos que há essa relação 1 Licenciada e bacharel em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Este artigo faz parte de um projeto de pesquisa de Mestrado em História, pela mesma universidade. Esta pesquisa é realizada com o financiamento do CNPq. 2 MINISTÉRIO DA GUERRA. Estado-Maior do Exército. Ação Educativa Contra a Guerra Revolucionária Unidade III: Técnicas revolucionárias psicológicas ; Unidade IV:Preservação da Democracia, Ação Psicológica: Propaganda e Contrapropaganda, escrito por Ten. Cel. Mario de Assis Nogueira, 1963, p. 1. Disponível em: Acessado em junho de Ver: STEPAN, Alfred. Os militares na política: as mudanças de padrões na vida brasileira. Rio de Janeiro: Artenova, 1975; COMBLIN, Joseph. A Ideologia da Segurança Nacional. O Poder Militar na

2 com outras classes sociais, mas pretende-se mostrar neste artigo que essa relação não se dá de maneira tão mecânica e que os militares formulam outros pensamentos além daqueles elaborados junto à sociedade civil. Esboçaremos aqui algumas idéias da concepção de Bloco Histórico formulada por Gramsci. Dessa forma, buscamos entender os militares não só como uma parte do aparelho do Estado, voltado para a coerção e, portanto, inseridos na dimensão da sociedade política, mas sim inseridos também dentro da sociedade civil, exercendo um papel de pressão política e social para a manutenção do bloco histórico. Para o aprofundamento da análise, entendemos as Forças Armadas como parte do jogo de poder pela hegemonia, como um grupo que atua e recebe influências dentro da sociedade civil. Partimos do seguinte conceito de hegemonia: O critério metodológico sobre o qual se deve fundar o próprio exame é este: que a supremacia de um grupo social se manifesta em dois modos, como domínio e como direção intelectual e moral. Um grupo social é dominante dos grupos adversários que tende a liquidar ou submeter também com a força das armas e é dirigente dos grupos afins e aliados. Um grupo social pode e deve ser dirigente já antes de conquistar o poder do governo (é essa uma das condições principais para a própria conquista do poder); depois, quando exerce o poder e também se o mantém fortemente nas mãos, tornamse dominante mas deve continuar a ser também dirigente. 4 Nesta pesquisa procuramos relativizar esse conceito de hegemonia. Para esta análise é essencial ressaltar as idéias de domínio e coerção junto com a direção intelectual e moral. Veremos que, apesar do Exército não ser uma instituição isolada dentro da sociedade civil, estava formulando uma estratégia que envolvia muito mais as idéias de direção intelectual e moral, não considerando, no documento analisado, qualquer noção direta de coerção. Sabemos que a primeira função do Exército seria ligada à coerção, produzida pela sociedade política onde o Estado se localiza para Gramsci, mas tentamos desdobrar o conceito de hegemonia para adaptá-lo às realidades sociais brasileiras. Além da disputa pela hegemonia dentro da sociedade civil, onde a sociedade passava por um grave período de crise, havia também uma disputa para a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980; ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e Oposição no Brasil ( ). Bauru, SP: EDUSC, GRAMSCI, APUD: SECCO, Lincoln. Gramsci e a Revolução. São Paulo: Alameda, 2006.

3 formulação de uma doutrina militar, para manter a coesão das forças armadas, abaladas pelas revoltas dos sargentos em Guerra Revolucionária e o Brasil Falar sobre Guerra Revolucionária no Brasil é, geralmente, falar sobre a Doutrina de Segurança Nacional, entendida muitas vezes como forjada pelas escolas de guerra estadunidenses e simplesmente importada e implantada em outros países, ignorando as especificidades de cada país onde essa doutrina foi implantada. Joseph Comblin foi um dos primeiros a simplificar a noção de Guerra Revolucionária como fazendo parte da Doutrina de Segurança Nacional 6. Em seu texto ele nos explica: Foi também nos Estados Unidos que se formou a idéia de guerra revolucionária, que vai tornar-se o prato predileto dos militares latinoamericanos, a partir do momento em que entram em funcionamento os colégios militares destinados a preparar os oficiais e soldados na região do Canal do Panamá. 1961/1962 são os anos em que o conceito inicia sua carreira triunfal nas Américas. 7 Comblin não simplifica apenas essa estratégia militar ao grande apanhado que seria a Doutrina de Segurança Nacional. Ele coloca a geopolítica, a bipolaridade, a guerra total e a guerra revolucionária como sendo partes integrantes da mesma doutrina, forjadas no mesmo lugar e implantadas em outros países de forma passiva, provocando um processo de desnacionalização da vida social e política onde os regimes implantados escapariam do controle do homem 8. Além dessa simplificação máxima de diferentes estratégias militares, Comblin acaba dispensando o estudo do processo de construção da mentalidade militar. Entretanto, existem pesquisas recentes que apontam o problema da simplificação dessa mentalidade, e argumenta que muitas das idéias tidas antes como trazidas pela DSN já estavam enraizadas no pensamento militar 5 FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano: O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003; BANDEIRA, Moniz. O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil: Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, COMBLIN, Joseph. Op.Cit. 7 Ibid, p Îbid, p. 16.

4 brasileiro 9. Existem, ainda, pesquisas que salientam a importância de outras escolas militares de formação de oficiais 10. Sobre a formação militar, Stepan coloca: Para que possa concorrer à promoção a general, ou para indicação ao Estado-Maior de qualquer dos quatro Exércitos ou escolas militares, o oficial precisa passar no difícil exame de admissão à Escola de Comando e Estado- Maior do Exército (ECEME) e depois freqüentar um curso de três anos. 11 Apesar de ser um assunto longamente estudado por cientistas sociais e historiadores, a falta de atenção e pesquisa aprofundadas em determinados temas, faz com que a análise de alguns autores acabe prejudicada e, muitas vezes, a simplificação do significado de alguns termos é algo recorrente. Carlos Fico, em sua análise, reduz os termos eliminar o inimigo, república sindicalista e valores morais da democracia ocidental a um jargão ético-moral, associando ainda subversão com crise de moralidade que provinha de consolidada cultura política de direita, por isso mesmo anticomunista, inspirada em certa liderança civil [referindo-se a Carlos Lacerda] 12. Não é intuito de este trabalho negar o anticomunismo de direita ou das Forças Armadas, ou mesmo negar o alcance político das afirmações de Lacerda. É nosso objetivo, no entanto, alertar para os perigos de afirmações desse tipo, que muitas vezes pode anular a extensão de nossa compreensão sobre o passado. Afirmações dessa forma inviabilizam discussões mais sérias sobre a origem e significado desses termos, já que eles seriam apenas jargões da nossa tão conhecida política de direita anticomunista. Além disso, no momento em que se afirma que isso foi inspirado em certa liderança civil, não precisamos mais sequer entender a formação dessas idéias, já que todas elas vieram do mesmo local. Além de colocar um culpado na história, isso anula qualquer atividade ativa das outras forças sociais do Brasil naquele momento, principalmente a atuação das Forças Armadas na formação e perpetuação desse tipo de pensamento. A via do pensamento democrático nas Forças Armadas é conhecida na história do clube militar da década de No entanto, é inegável a postura anticomunista das mesmas Forças Armadas a partir de Dizer apenas que as Forças Armadas são democráticas, 9 MARTINS FILHO, João Roberto. A Influência doutrinária francesa sobre os militares brasileiros nos anos de IN: Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 23 nº 67. Junho de SVARTMAN, Eduardo. Guardiões da Nação: Formação profissional, experiências compartilhadas e engajamento político dos generais de Tese de Doutorado. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, STEPAN. Op.Cit, p FICO, Carlos. Como eles agiam. Rio de Janeiro: Record, P. 37

5 anticomunistas ou golpistas anula o conhecimento necessário para entender como eles chegaram até esse pensamento, já que o final da história já foi contado. O autor João Roberto Martins Filho é um dos únicos que chama a atenção para esse problema. O autor fala que os termos guerra revolucionária e defesa da civilização cristã nunca foram realmente analisados, apesar de figurarem na maioria das pesquisas de historiadores e cientistas sociais. Ele fala sobre a concentração dos estudos na DSN, formulada pela ESG em finais da década de 1940, e da falta de pesquisas com relação a guerre revolutionnaire, introduzida na ESG em Com relação a criação da contra-insurgência da era kennediana o autor diz: Se marcarmos a data de nascimento da era kennediana da contra-insurgência em 18 de janeiro de 1962, quando o presidente promulgou o Memorando de Ação de Segurança Nacional 124 (NSAM 124), podemos afirmar que, nessa data, alertar os militares argentinos e brasileiros para a urgência de desenvolver uma doutrina de combate à guerra subversiva seria o mesmo que ensinar o Padre-Nosso ao vigário. 14 O autor ainda assinala que o pioneirismo da absorção desse pensamento militar foi feito por coronéis argentinos, que estudaram com os veteranos franceses da Indochina e da Argélia 15. Com relação a chegada desse pensamento no Brasil o autor coloca: No caso do Brasil, o coronel Augusto Fragoso pronunciou em maio de 1959 no curso de Estado-Maior e Comando da Escola Superior de Guerra a palestra Introdução ao estudo da guerra revolucionária, fruto aparentemente de seus próprios estudos diretos da produção francesa, que evidentemente começaram algum tempo antes. 16 As semelhanças do pensamento francês com as aplicações na ditadura militar pós-1964 são mais extensas do que podemos identificar no momento. O mesmo autor, falando dos pressupostos principais da doutrina francesa, aponta: Em segundo lugar, e talvez mais importante, um dos pressupostos fundamentais da doutrina francesa era a idéia de que, se o controle das informações é o elemento decisivo da guerra revolucionária, seria impossível combater esse tipo de inimigo sem um comando político-militar unificado. Assim, essa doutrina entra no campo das relações civis-militares. Ao fazê-lo, não hesita em afirmar que, se a sociedade democrática é incapaz de fornecer 13 MARTINS FILHO, Op.Cit., p Ibid., p Ibid. p Ibid., p. 41.

6 ao Exército o apoio necessário, então seria preciso mudar a sociedade, e não o Exército. 17 A extensa literatura de militares franceses na Argentina já havia sido apontada por Comblin, apesar de insistir em fazer a conexão desses pensamentos com a escola de guerra estadunidense 18. Martins Filho aponta ainda que a maioria das obras francesas que circulavam na Argentina também circulava no Brasil 19. Na apresentação do livro Guerras Insurrecionais e Revolucionárias, escrito pelo coronel francês Gabriel Bonnet, o então coronel Carlos de Meira Mattos informa as delimitações e conceituações sobre Guerra Revolucionária e Guerra Insurrecional, recomendadas pelo Estado-Maior das Forças Armadas. Antes das conceituações, o coronel afirma: Fomos, no nosso Exército, talvez, dos primeiros a se preocuparem e a estudarem as Guerras Insurrecional e Revolucionária. Enfrentamos as dificuldades pioneiras do desbravamento do campo intelectual dêsses estudos, esbarrando-nos, a cada passo, com dificuldades várias, ora de diferenciação entre essa nova forma de guerra e a guerrilha, confusão ainda hoje muito comum, ora vacilando ante a sua denominação mais adequada. Hoje em dia, entre nós, essas dificuldades estão superadas. 20 A questão da informação, da estratégia do pacifismo como sendo uma arma utilizada pelo comunismo, as estratégias de guerra psicológica, a defesa do ocidente cristão são todos termos abordados pela autora francesa Suzanne Labin em seus livros lançados aqui no Brasil. A primeira vista, poderíamos tranquilamente afirmar que Labin faz parte da ala mais reacionária da política francesa. No entanto, como vínhamos afirmando, a história não pode ser simplificada com a força dessas palavras. Suzanne Labin, a Guerra Revolucionária e a Guerra Política Existem informações esparsas sobre a autora, geralmente ligando-a ao discurso político de Carlos Lacerda 21. Tecer observações sobre a convergência da autora com o político Lacerda não é o objetivo do trabalho. Entretanto, a primeira observação importante que deve ser feita sobre a autora é sobre sua linha política. Em todos os 17 Ibid., p COMBLIN, Op. Cit., p. 45 e MARTINS FILHO, Op.Cit., p MATTOS, Carlos de Meira; In: BONNET, Gabriel. Guerras Insurrecionais e Revolucionárias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, EUZÉBIO, Elaine. O Poder das Idéias. As traduções com objetivos políticos de Carlos Lacerda. Dissertação de Mestrado em Letras, USP. São Paulo, 2007.

7 trabalhos que a mencionam, Labin sempre é descrita como uma representante do anticomunismo. No entanto, em três dos quatro livros que foram lançados no Brasil e que conseguimos localizar e analisar, Labin se auto-afirma como seguidora ou pertencente à família espiritual do socialismo 22. Em todos os seus livros lançados aqui, Labin ou afirma de alguma forma sua devoção e pertencimento ao socialismo, ou o defende ferozmente, deixando muito claro que o socialismo é algo totalmente diferente do que ela afirma ser a coisa comunista 23. Apesar da separação entre socialismo e comunismo ser algo específico da conjuntura francesa, esse tipo de distinção não era feita aqui no Brasil na época em que a obra Em Cima da Hora foi lançada e, principalmente, quando os militares brasileiros reutilizaram esse pensamento. O socialismo de Labin não fica escondido de forma alguma, pois Lacerda afirma que a autora é socialista no prefácio da obra. Sobre a formação acadêmica da autora, encontramos dados afirmando que ela formou-se em Letras com ênfase em diversas línguas pela Universidade de Sorbonne, em Paris, França 24. Nesse mesmo texto, há a confirmação de uma informação encontrada em um dos folhetos da autora publicados pela editora Presença. No folheto A guerra política: Arma do comunismo internacional está escrito que o folheto em realidade é um relatório distribuído na Conferência Internacional sobre a Guerra Política dos Soviéticos, realizada em 1º de dezembro de , conferência a qual Labin foi a grande organizadora e em que sua primeira reunião congregou 50 países na discussão sobre a defesa da liberdade contra o comunismo 26. No jornal Diário de Notícias, publicado em Porto Alegre, há uma reportagem sobre Suzanne Labin em agosto de 1963, falando sobre a palestra que a autora havia dado nesta cidade, primeiro para estudantes da escola Pedro Ernesto e, mais tarde, para a Confederação dos Círculos Operários Católicos 27. Além disso, a reportagem afirma que a autora ainda faria outra conferência, dessa vez no Teatro 22 Ver: LABIN, Suzanne. A Rússia de Stalin. Rio de Janeiro: Agir, 1948; LABIN, Suzanne. Em cima da Hora. Rio de Janeiro: Record, 1963; LABIN, Suzanne. O duelo Rússia x USA. Rio de Janeiro: Record, LABIN, Op. Cit. P. 80 a Tirado do site: Visto em 03/10/ LABIN, Suzanne. A Guerra Política. Editora Presença. A única data que aparece no folheto é a data de 1960, ano da conferência. Nas próximas referências da obra iremos considerar esta data. 26 Tirado do site: 27 Suzanne Labin adverte: Mundo livre se mantém mudo e cego à infiltração comunista. Diário de Notícias. Porto Alegre, página 13, 03 de agosto de 1963.

8 Municipal, sobre a Infiltração Comunista no Mundo Livre 28. Reproduzindo as palavras da autora, o jornal coloca: Não penso que haja uma guerra nuclear. Ao comunismo ela não interessa. O comunismo perderá tudo com a guerra atômica, porque êle será destruído juntamente com o mundo ocidental. Não lhes convém a guerra quando estão conquistando com palavras. 29 A retórica de seus discursos segue os pensamentos de seus livros e em todas as palestras a infiltração comunista no Brasil se fazia evidente, para Labin. Seus discursos são voltados para a denúncia de uma articulação internacional do comunismo, que via o Brasil como uma peça chave para a conquista do mundo. Mesmo colocando a propaganda como o centro de suas atenções, Labin adverte: A civilização que deve a sua grandeza à inteligência arrisca-se a morrer de paralisia da inteligência. Ante a ameaça multiforme do comunismo totalitário, o Ocidente aprendeu, mais ou menos, a se defender militarmente. Está bem. Mas não basta. O equilíbrio pelo terror, entre as armas atômicas, faz com que não seja esse o setor decisivo da luta. Ela se decidirá no setor da guerra política, pelas armas da propaganda, da infiltração e da organização. 30 A Guerra Política (GP) é, para Labin, o centro de toda a atuação do comunismo, em que a propaganda, a infiltração e a organização são apenas os meios, as armas utilizadas pelo comunismo totalitário dentro da GP. No folheto distribuído pela editora Presença, que foi feito a partir do relatório distribuído na Conferência Internacional sobre Guerra Política dos Soviets, a autora faz um ensaio sobre as idéias da GP, que se mostrariam consolidadas no livro de 1963: As expressões guerra política, guerra psicológica, guerra subversiva, guerra de cérebros, guerra de propaganda, guerra fria, são mais ou menos equivalentes, cada um acentuando um setor, ou um aspecto particular da conspiração. O têrmo mais geral parece ser o de guerra política, que foi adotado como título do presente trabalho. 31 Apesar da essência das idéias permanecerem as mesmas até 1963, Labin traz uma conceituação muito mais segura da GP, conceituação essa que é reutilizada pelo Ministério da Guerra: 28 Ibid., p Idem. 30 LABIN, Suzanne. Em Cima da Hora. Rio de Janeiro: Record, 1963, p. 19. Grifos da autora 31 LABIN, Suzanne. A Guerra Política: arma do comunismo internacional. Rio de Janeiro: Editora Presença, P. 6, grifos da autora.

9 A Guerra Política é o conjunto das ações montadas pelo Kremlin, na vida de cada povo, para destruir, por dentro, os regimes de liberdade e em seu lugar instaurar um poder absolutista e totalitário. Os seus principais meios são a propaganda, a infiltração, a corrupção, a conspiração, a sabotagem, a guerrilha; vale tudo, à exceção do engajamento regular das fôrças armadas soviéticas numa guerra quente. O objetivo essencial consiste em capturar, ou pelos menos desviar, e favor dos objetivos do Kremlin posições que controlam a linha política das nações (Ministérios e administrações, imprensa e edição, rádio e televisão, escolas e universidades, partidos e sindicatos etc.), evitando que as fôrças assim capturadas percebam que estão postas a serviço do comunismo. 32 Essa conceituação mais acabada de GP é essencial para esta análise por diversas razões. A análise documental nos mostrou que poucas citações foram utilizadas pelos militares 33 e o próprio termo guerra política não é utilizado pelos mesmos. No entanto, a retórica que aponta o comunismo internacional como o grande culpado, suas conspirações, essa idéia de que ela ataca a todos mesmo que as pessoas não tenham consciência disso está presente em todo o discurso do documento militar. O documento utilizado para a análise é uma apostila chamada Ação Educativa contra a Guerra Revolucionária, dividida em três partes escritas pelo Ten. Cel. Mário de Assis Nogueira no ano de Este documento provavelmente circulou na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), devido ao seu caráter de ensino e sua produção ter sido feita através do Ministério da Guerra e Estado-Maior do Exército 34. Não existe neste documento, uma análise dos problemas nacionais, não existe uma percepção da conjuntura social que poderia estar causando as crises vividas pelo país, principalmente na década de 1960 durante o governo de João Goulart. O que existe no documento, assim como nos livros de Labin, é uma linguagem simples, acessível, de retórica conspiratória, que explica e justifica todas as mazelas da nossa sociedade através da localização de um único inimigo: o comunismo soviético. A citação de Labin que merece consideração e que foi quase literalmente transcrita pelos militares no documento é uma específica sobre Guerra Política, apesar 32 LABIN, Suzanne. Em Cima da Hora. Rio de Janeiro: Record, P. 25, grifos da autora. 33 Não há muitas citações nem do texto de Labin nem das demais bibliografias utilizadas pelo documento. 34 MINISTÉRIO DA GUERRA. Estado-Maior do Exército. Ação Educativa Contra a Guerra Revolucionária Unidade III: Técnicas revolucionárias psicológicas, escrito por Ten. Cel. Mario de Assis Nogueira, 1963, p. 1. Disponível em: Acessado em junho de As próximas referências deste documento serão feitas no corpo do texto, em parênteses.

10 do documento não ter utilizado em nenhum momento essa expressão. O documento afirma: Essa oposição se torna cada vez mais problemática porque, não há órgão de CONTRAPROPAGANDA organizado nas democracias. SUZANNE LABIN disse, com grande acêrto, que: - As palavras são os projéteis do século XX; - Um jornal vale mais do que dez navios aeródromos; - uma película cinematográfica ou um programa de televisão produzem mais do que 100 canhões; - Dez elementos criptocomunistas podem neutralizar 10 regimentos; - Um ministro de Informações é tão valioso, para a defesa quanto um ministro da Guerra. 35 Esta pesquisa tomou o cuidado de resgatar essas citações nos livros de Labin, para perceber se houve alguma alteração no texto do livro. Essa citação, dentre todas usadas nesse documento, é a única que tem alterações em seu texto. Levando em conta essas alterações, vale reproduzir o texto que aparece na obra de Labin: DEFINIÇÃO DE GUERRA POLÍTICA: No atual antagonismo entre o mundo livre e o mundo soviético, a frente política tornou-se mais decisiva do que a militar: - as palavras são os canhões do século XX; - um grande jornal vale mais do que dez porta-aviões; - um filme, a televisão, um herói, fazem mais do que dez esquadrilhas de bombardeio; - dez frações criptocomunitas desfazem a obra de cinco regimentos; - o setor da Informação é tão importante para a defesa nacional quanto os setores militares. 36 Apesar do documento não cunhar o termo guerra política, as idéias foram reproduzidas pelos militares. Mas a reprodução desse pensamento não se deu de forma mecânica. Podemos perceber que, para Labin, o ponto decisivo deste tipo de guerra estava muito mais voltado para a frente política do que para uma frente propriamente militar 37. Fazendo um paralelo com as pesquisas de Martins Filho, é possível afirmar que esse pensamento, que valoriza as ações políticas perpetradas por militares no campo da sociedade civil, já se fazia presente entre os militares em Portanto, podemos constatar que a utilização desta autora está em concordância com os estudos militares feitos a partir de 1959, quando a doutrina de Guerré Revolutionnaire passou a ser estudada. Outra idéia importante para a autora era a Guerra Psicológica e a utilização dos meios psíquicos para a conquista dos corações e mentes na democracia 38. A 35 MINISTÉRIO DA GUERRA. Estado-Maior do Exército. Op. Cit., p LABIN, Suzanne. Em Cima da Hora. Rio de Janeiro: Record, P. 25, grifos da autora 37 LABIN. Op. Cit.., p Ibid., p. 71.

11 idéia principal dos meios psicológicos para a autora é destacar características negativas do agente comunista, por vezes de cunho pessoal, identificando os agentes, o comunismo e a própria URSS como mentirosos, subversivos, enganador, personificando tudo o que é relacionado ao comunismo. Dessa forma, o comunismo é essencialmente apontado como uma falha de caráter, aparentemente fácil de ser identificado dentro da sociedade civil. É preciso salientar que os meios psicológicos são apenas uma das vertentes de atuação da Guerra Política de Labin. A autora afirma: É êste último traço o que distingüe a guerra política comunista, da atividade política normal. Assim, como a atividade política normal tende a agrupar consciências em tôrno de objetivos tão definidos quanto possível, a guerra política dos soviéticos tende a manipular fidelidades em favor de objetivos tão dissimulados quanto possível. Outra diferença fundamental entre a guerra política comunista e a disputa política normal entre partidos e idéias, é que a primeira é verdadeiramente uma guerra, uma guerra total sem piedade, que não visa ganhar a maioria dos parlamentos, mas sim erradicar por completo toda uma civilização, sem hesitar em suprimir até o último de seus heróis, com tantos massacres quanto forem necessários. 39 É possível perceber na citação vários elementos discursivos comuns à época, como a manipulação promovida pelos soviéticos e a guerra total como conseqüência dessa atividade comunista. Ressaltamos aqui que o estudo da guerra psicológica dentro das Forças Armadas é associado a perpetuação da doutrina de Guerré Revolutionnaire francesa 40. Martins Filho argumenta que definia-se ação psicológica como o conjunto de ações de caráter defensivo centradas na formação moral e cívica da população, a fim de fornecer-lhes meios de fazer frente à ofensiva da subversão ou da guerra psicológica 41. É possível perceber que a retórica de Labin, apontando para falhas de caráter, serve a esse propósito pedagógico da população civil, exemplificando o caráter que devia ser evitado a fim de combater a guerra total e o comunismo internacional. A ênfase da guerra psicológica também é feita pelos militares no documento de 1963, demonstrando ao mínimo a concordância entre os dois pensamentos: 39 LABIN. Op. Cit., p. 7, grifos da autora. 40 MARTINS FILHO, Op. Cit., p Idem, grifos do autor. E nessa PAZ, que significa GUERRA interna, OS PAÍSES DEMOCRÁTICOS ESTÃO NA DEFENSIVA, e defensiva de expectativa, PURAMENTE PASSIVA, porque mesmo a defensiva ativa PSICOLÓGICA,

12 vem sendo roubada, paulatina, incessante, sub-rèpticiamente. Esta posição psicológica de posição é obtida pela PROPAGANDA, que é impingida por dias e noites seguidos, incessantemente, por todos os modos e recursos, inclusive com dinheiro extornado em algumas entidades de classe, das quais os marxistas se apossaram ante o comodismo, a traição, a covardia, a corrupção de muitos maus democratas, inclusive militares, aliciados por MOSCOU, na luta que o KREMLIN lhes dita e impõe, na GUERRA PSICOLÓGICA que está sendo desencadeada, com saltos positivos para os atacantes, já vitoriosos em alguns setores, onde são saudados e bajulados como futuros dominadores das AMÉRICAS e do mundo. 42 Gramsci via as Forças Armadas como um todo, e a coloca como guardiã do pensamento da classe hegemônica 43. No entanto, trazendo esses conceitos para a realidade nacional e levando em consideração a crise aguda vivida no cenário social do Brasil a partir da renúncia de Jânio Quadros, é nítido que as Forças Armadas sentiram o abalo dessa instabilidade política, e reagiram com ela. A partir de 1961, os militares brasileiros passaram a identificar com maior facilidade as premissas da GR francesa, e nesta análise percebemos que o pensamento de Labin se encaixa com as premissas desta doutrina militar. Já foi afirmado que, uma das maiores percepções com relação à GR é a idéia de que nesse tipo de guerra não existem palavras neutras ou espaço político neutro; as próprias palavras são armas 44. Somente essa afirmação já nos remete ao conceito de Guerra Política formulado por Suzanne Labin, em que para o Ocidente a ameaça comunista deixa de ser militar 45. A guerra psicológica é apenas uma das armas utilizadas por essa guerra política, uma nova forma de guerra que se torna total por se diluir em uma atuação civil comum a todos os regimes democráticos, ou seja, a política. Podemos apontar que, na conjuntura de 1963, o Exército preocupava-se com tais questões, formulando estratégias voltadas para uma atuação na sociedade civil, que alcançasse a direção intelectual e moral da sociedade, porque era essencialmente ali que a nova guerra estava se desenrolando. Argumentando sobre as questões de hegemonia, Acanda aponta: O poder não é apenas exercido por meio da repressão. É necessário que suas instituições de coerção detenham o monopólio do uso da violência e que a pretensão a esse monopólio seja aceita por toda a sociedade. Por conseguinte, 42 MINISTÉRIO DA DEFESA, Op. Cit., p PORTELLI, Op. Cit., p SHY E COLLIER. Guerra Revolucionária. In: PARET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, p. 476, grifo nosso 45 LABIN, Op. Cit., p. 23.

13 é imprescindível que o poder também controle a produção, a difusão e a aceitação de valores e normas de comportamento. O poder se apóia, essencialmente, no controle das instituições que conferem sentido: aquelas que definem e justificam o indivíduo, ensinaram-no a pensar de certa maneira e não de outra, indicando-lhe os valores que deve compartilhar, as aspirações permitidas e as fobias imprescindíveis. A família, a igreja, a escola, o idioma, a arte, a moral sempre foram objetivos do poder, que tentou instrumentalizálos em benefício próprio. 46 Além dessa constatação, é inegável que a acessibilidade do livro de Labin facilita os seus usos. A forma genérica como a autora trata do comunismo internacional, de modo que ele pode ser identificado em qualquer parte da sociedade democrática, faz com que sua aplicação na realidade brasileira se dê de forma rápida, simples e quase óbvia. No momento em que foi identificado que o maior inimigo do Ocidente parte dos partidos comunistas, basta identificar o PC de cada país para saber qual a fonte de seus males. Mas Labin traz ainda a idéia dos auxiliares, dos criptocomunistas, dos propagandistas profissionais que pulverizam a idéia do inimigo, fazendo com que os cidadãos comuns se tornem inimigos em potencial. Martins Filho aponta essa questão como sendo característica da Guerré Revolutionnaire francesa: Enfim, a doutrina militar francesa oferecia aos militares de nossos países uma definição flexível e funcional do inimigo a enfrentar, ao mesmo tempo em que, no plano geopolítico, valorizava o Terceiro mundo como cenário do confronto mundial da Guerra Fria. (...) Nesse quadro, o inimigo era definido de forma ampla o suficiente para servir as mais variadas situações nacionais. A idéia geral era de que a civilização cristã estava envolvida numa guerra permanente e mundial, em que as distinções tradicionais entre guerra e paz passavam a ser insignificantes, assim como na expressão de um analista as diferenças entre anticolonialismo, nacionalismo anti Ocidente e comunismo. 47 Ao fazer um resgate dos pensamentos da autora e comparando-o com a doutrina de Guerré Revolutionnaire formuladas pela França na década de 1950, percebemos que a autora está em plena concordância com a doutrina militar de seu país. Assim, com as afirmações de Martins Filho sobre o estudo desta doutrina militar perpetradas principalmente pelo Exército brasileiro, é fácil compreender porque o documento reutiliza citações de Suzanne Labin em sua análise. Labin é entendida pelos militares como um expoente desta doutrina de guerra. 46 ACANDA, Jorge Luis. Sociedade Civil e Hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, P MARTINS FILHO, Op. Cit., p. 42.

14 Bibliografia: ACANDA, Jorge Luis. Sociedade Civil e Hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e Oposição no Brasil ( ). Bauru, SP: EDUSC, ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. Porto: Afrontamento, BANDEIRA, Moniz. O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil: Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, BONNET, Gabriel. Guerras Insurrecionais e Revolucionárias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, COELHO, Edmundo Campos. Em busca de identidade: o Exército e política na sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Editora Record, COMBLIN, Joseph. A Ideologia da Segurança Nacional. O Poder Militar na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republicano: O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, FICO, Carlo. Como eles agiam. Rio de Janeiro: Record, GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. São Paulo: Editora Ática, LABIN, Suzanne. Em cima da Hora. Rio de Janeiro: Record, A condição humana na China comunista. Rio de Janeiro : Letras e Artes, A Rússia de Stalin. Rio de Janeiro : Agir, A Guerra Política: arma do comunismo internacional. Rio de Janeiro: Editora Presença, O Duelo Rússia x USA. Rio de Janeiro: Record, MARTINS FILHO, João Roberto. A Influência doutrinária francesa sobre os militares brasileiros nos anos de IN: Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 23 nº 67. Junho de 2008.

15 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o Perigo Vermelho : o anticomunismo no Brasil ( ). São Paulo: Perspectiva: FAPESP, OLIVEIRA, Eliezer Rizzo de. As Forças Armadas: política e ideologia no Brasil, Petrópolis: Vozes, PORTELLI, Hugues. Gramsci e o Bloco Histórico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, SECCO, Lincoln. Gramsci e a Revolução. São Paulo: Alameda, SHY E COLLIER. Guerra Revolucionária. In: PARET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, STEPAN, Alfred. Os militares na política: as mudanças de padrões na vida brasileira. Rio de Janeiro: Artenova, SVARTMAN, Eduardo.Guardiões da Nação: Formação profissional, experiências compartilhadas e engajamento político dos generais de Tese de Doutorado. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006.

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