A IMPRENSA COMO FONTE HISTÓRICA: OS IMPRESSOS JORNAL DO COMÉRCIO E O PROGRESSISTA Fernanda Chaves de ANDRADE 1

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1 A IMPRENSA COMO FONTE HISTÓRICA: OS IMPRESSOS JORNAL DO COMÉRCIO E O PROGRESSISTA Fernanda Chaves de ANDRADE 1 RESUMO: A utilização da História Cultural ampliou as fontes históricas, o que resultou num novo tratamento dos jornais pelos historiadores. Apresentamos alguns aspectos que colaboram para a análise do discurso de jornais da cidade de Campo Grande, durante o período de 1930 a Assim, estudamos fatores que compõem a trajetória de O Progressista e O Jornal do Comércio. Palavras-chave: imprensa; Campo Grande; política ABSTRACT: The use of Cultural History has expanded the historical sources, what resulted a new treatment of newspapers by historians. We presented some aspects that collaborate to the speech analysis of newspapers in the city of Campo Grande, during the period 1930 to Thus, we studied factors that consist the trajetory of O Progressista and O Jornal do Comércio. Key words: press; Campo Grande; politics APRESENTAÇÃO O presente trabalho é resultado das reflexões referentes ao estudo referente ao projeto de pesquisa cujo tema versa sobre as representações da imprensa campograndense acerca do trabalho e do trabalhador durante os anos de 1930 e Campo Grande, no período mencionado, tratava-se do pólo econômico do sul do antigo Estado do Mato Grosso, região hoje que compreende Mato Grosso do Sul. Tal pesquisa teve início com o ingresso da autora no Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados(UFGD), com o apoio, através de bolsa, da Coordenação 1 Cursa o programa de Mestrado da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), sob orientação do Prof. Dr. João Carlos de Souza

2 de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). No decorrer da pesquisa, foi levantado esse texto, onde existe algumas considerações sobre a utilização da imprensa como fonte, elencando como exemplo a análise do perfil dos impressos O Progressita e o Jornal do Comércio, a ser apresentado na Semana Acadêmica do Curso de História e Geografia da Faculdade Barão de Mauá. Ao tratar dos discursos do Jornal do Comércio e de O Progressista, acreditamos não deixar de lado que as representações elaboradas pelos impressos sofrem algumas restrições no campo político, durante regimes autoritários como foi o Estado Novo 2. Isso devido a limitação imposta por de órgãos de censura que muitas vezes cerceavam os discursos da imprensa, propondo uma alternativa do que poderia ser estabelecido no imaginário social 3. Assim, o estudo que se utiliza a imprensa impressa como fonte exige uma metodologia de trabalho que exige atenção. De certa forma, os periódicos podem ser tratados pelos historiadores como fonte e objeto de pesquisa, se considerada a análise de seus discursos tendenciosos, investigando o porquê de suas inclinações políticas, culturais e econômicas. Junto a isso, considerar que a imprensa é um agente social que interfere por meio de suas representações na sociedade em que está inserida, pode auxiliar o historiador no trabalhar com a história da imprensa. Como citado inicialmente, será tratado neste estudo, também, o levantamento tanto do perfil dos homens que dirigem os periódicos campograndenses, como também a origem do dinheiro que financiam esses jornais. Esses dois aspectos permitem certas temáticas serem enfatizadas ou não nas páginas dos periódicos, influenciando a natureza do conteúdo, entre outros. Nesse sentido, veremos que o período de ascensão do varguismo influenciou nos discursos de tais jornais, especialmente na trajetória de seus homens de imprensa e no formato de suas publicações. Desse modo, aspectos ligados à fenômenos de nível nacional interferiram no cotidiano dos impressos, tais como o integralismo, a Revolução de 1932 e o Estado Novo. Compreender a influência de tais fatores são primordiais para a análise do discurso dos jornais mencionados, quais sejam o Jornal do Comércio e O 2 Temos como referência a noção de representação de Roger Chartier (1990). 3 Pensamos a categoria imaginário social conforme o que foi proposto por BAZCKO (1985).

3 Progressista. Dessa forma, iniciaremos pelo primeiro, levando em consideração o grande alcance que ele tinha no antigo Estado de Mato Grosso, bem como em algumas cidades da fronteira Brasil- Paraguai. O Jornal do Comércio demonstrou através de suas páginas ser portador do grupo político que apoiava a família Muller que colocou três dos seus representantes no poder: Fenelon Muller e Julio Muller como interventores do Estado de Mato Grosso e Filinto Muller que ocupou cargos de Chefe de Polícia. O período que vai de 1930 até 1937 foi marcado por disputas pelo poder por grupos locais, e entre essas se encontrava J.F.de Vasconcelos, proprietário do periódico fundado em Durante a pesquisa percebeu-se que tal periódico fez em, alguns momentos, oposição a projeção à ascensão de Vargas durante a Revolução de 1930, o que indica o motivo de fechamento do impresso nos anos de Após a instauração do Estado Novo, a vigilância do Departamento de Imprensa e Propraganda (DIP) e do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP), se fez presente nas páginas do periódico, pois se intensificou a propaganda do regime e os aspectos referentes à oposição a Getúlio Vargas desapareceram. Já o periódico O Progressista, sua fundação se deu em 1932, sendo que o processo de edição se deu em Campo Grande com veiculação do jornal em vários pontos do Estado de Mato Grosso. O seu presidente-fundador, Vespasiano Barbosa Martins, foi nomeado prefeito de Campo Grande por quatro vezes, se tornando uma figura política com respaldo pela classe mais abrangente da região sul. A sua vinculação com a Revolução de 1932, ao lado dos paulistas, é um fator que chama atenção e se contrapõe com o apoio que seu impresso fez ao governo varguista do pós Ao nos debruçar no uso da imprensa como fonte/objeto de análise utilizamos as assertivas de De Luca sobre tal questão: A escolha de um jornal como objeto de estudo justifica-se por entender a imprensa fundamentalmente como instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social; nega-se, pois, aqui, aquelas perspectivas que a tomam como mero veículo de

4 informações, transmissor imparcial e neutro dos acontecimentos (De LUCA, apud CAPELATO, p. 118) O trecho mencionado acima além de justificar a utilização da imprensa como objeto, vem chamar a atenção dos historiadores aos cuidados ao usá-la como objeto e/ou fonte de estudo. Nesse caso a cautela deve ser tomada ao tentar considera-la como portadora da verdade e como um instrumento que confirma dados obtidos em outas fontes. A partir de tais argumentos acerca da imprensa, procurei ter cautela ao analisá-la, acreditando que ao entender o perfil dos impressos e o contexto que estavam inseridos, o que me permite desconstruir discursos e compreender o porquê das representações criadas pelos periódicos. O Jornal do Comércio e a sua trajetória O estudo que se utiliza a imprensa impressa como fonte exige uma metodologia de trabalho que requer uma série de cuidados. Esse tipo de imprensa pode ser tratada por nós historiadores como fonte e objeto de pesquisa, se paralelamente considerarmos que o jornal não é um transmissor imparcial e neutro dos acontecimentos e tampouco uma fonte desprezível porque permeada pela subjetividade (CAPELATO, 1994, p.21). Junto a isso, considerar que a imprensa é um agente social que interfere por meio de suas representações na sociedade em que está inserida, tendo como conseqüência uma série de ações. Algumas das etapas a serem estudadas aqui, seria o levantamento do perfil dos homens que estão por trás dos periódicos e suas tomadas de posição política, o que permite certas temáticas serem enfatizadas ou não. Nesse ponto, é válido citar a assertiva de Jean-Noel Jeanneney ao afirmar que devemos estudar o dinheiro mais ou menos oculto que irriga a imprensa e também compreender o processo de vida e morte de jornais, afastamento de diretores e incidentes diversos (JEANNENEY, 2003, p.220). Esses fatores são primordiais para se compreender o discurso dos periódicos tratados aqui: o Jornal do Comércio e O Progressista. Dessa forma, iniciaremos pelo primeiro, levando em consideração o grande alcance que ele tinha no antigo Estado de

5 Mato Grosso, bem como em algumas cidades da fronteira Brasil- Paraguai, iniciaremos esse estudo traçando o perfil editorial e o principal objetivo desse jornal no início dos anos de O periódico foi fundado em 13 de abril de 1921, pelo advogado José Jayme Ferreira de Vasconcelos, que exercia também a função de Diretor. O Jornal do Comércio foi um impresso diário 4, o terceiro maior do Estado e o único que circulava diariamente na porção sul de Mato Grosso. No caso de seu diretor, mais conhecido por Jayme F. de Vasconcelos, trata-se de um homem influente e de um longo currículo político. Esse personagem, ocupou vários cargos significativos durante o período aqui estudado , como a polêmica cadeira da Sub- Chefatura de Polícia, em 1930, Procurador Geral do Estado, Deputado Estadual, Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Presidente do Partido da Mocidade, membro da Comissão organizadora do Ante- Projeto da Constituição do Estado de 1935, Deputado da Assembléia Constituinte Estadualalém de participar das lutas paulistas de De certa forma, o periódico fundado e dirigido por ele veio a ser palco de suas aspirações refletindo o cenário político de Mato Grosso, como veremos mais adiante. O Jornal do Comércio demonstrou através de suas publicações ser portador de um determinado grupo político mato-grossense que teve sua projeção nacional: a família Muller. O período que vai de 1930 até 1937 foi marcado por disputas pelo poder por grupos locais, e entre essas se encontrava J.F.de Vasconcelos. Em outubro de 1930 o diretor-fundador, na função de sub-chefe de polícia de Mato Grosso, participou ativamente nessas disputas como foi o caso das perseguições e prisões que efetuou aos correligionários da Aliança Libertadora Nacional (ALN) no Mato Grosso. Isso ocorreu a fim de garantir a estabilidade política do Estado. Algumas das prisões políticas efetuadas em Mato Grosso foram por motivos de estabelecer uma ordem política, que de acordo com o jornal, se dava com o interesse em não desestabilizar o cenário político local daqueles que já detinham o poder, durante a República Velha. Essa repressão aos aliancistas se deu no período de 5 a 24 de Outubro de 1930, isto é, sob o 4 O periódico foi extinto em 1949.

6 regime do estado de sítio, em que as autoridades policiais do Estado se impunha o dever, conforme o entendimento oficial com o alto Comando da Circunscrição Militar da região, de assegurar completa ordem na cidade, impedindo quaisquer pronunciamentos que a pudessem perturbar. Entre os principais líderes que foram presos estão: o advogado Fausto Pereira, Leopoldo dos Santos e dois dos seus companheiros. Jayme Ferreira de Vasconcelos fez um pedido dias antes de seu aniversário para aqueles que foram presos por ele, enquanto sub- chefe, que escrevessem depoimentos acerca do ocorrido, para que fosse publicado. O depoimento de um dos presos, Elmano Soares, demonstra a sua insatisfação com a ação do sub- chefe: Assim, pois, devo ainda frisar que o sucesso alcançado nas urnas pela Aliança Liberal deste município, só se torna possível em face da atitude imparcial e insenta de V.S. para comigo, o que me estimulou deveras a enfrentar desassombrodamente uma situação intolerantemente opressiva. Queira fazer desta o uso que entender (Jornal do Comércio, 22 de março de 1934, p.1) A Revolução de 1930 significava a desestabilização das oligarquias sulistas que ocupavam os cargos políticos e com a incumbência de representar a chefatura de polícia, José Jayme realiza tais prisões. A oposição do dirigente do Jornal do Comércio à ascensão de Getúlio Vargas na política nacional aparece muito clara nos primeiros anos da década de Muitas vezes o impresso se referiu ao presidente pela palavra Ditador já no ano de 1933, identificando seu governo como uma ditadura. No entanto, os textos que tinham tais referências não faziam crítica explicita ao governo de Vargas, mas em 27 de junho de 1933 caracteriza a Revolução de 1930 como um processo que nada trouxe de positivo para a política local (Jornal do Commercio, 27 de junho de 1933, p.1). Em linhas gerais percebemos que a simpatia de J. Jayme F. de Vasconcelos não era muito favorável ao governo varguista até o ano de 1937, quando a instalação do Estado Novo. Em estudos preliminares percebemos que mesmo com tais restrições do impresso com a trajetória do governante, os discursos do periódico modificaram completamente, colaborando com as

7 propagandas políticas do regime estadonovista. De fato, isso ocorreu pela nomeação de Julio Muller como Interventor Estadual, atendendo a aspiração da elite campograndense que muito defendia esse acontecimento. Outra questão que colaborou para a mudança do discurso foi a fiscalização dos órgãos de censura e propaganda, o DIP e o DEIP, que se faziam presente na imprensa de Campo Grande colaborando com o fim da oposição ao varguismo no interior dos impressos no pós 1937 e colaborando financeiramente com tais impressos. Esse processo será estudado minuciosamente em outra publicação. O Integralismo como página marcante Outros fatores marcantes do O Jornal do Comércio foram as influencias do ambiente político, cultural e econômico que vivia o Brasil dos anos de 1930, como podemos perceber ao longo desse estudo. Em particular, uma questão que evidencia é a simpatia que esse impresso teve pelo integralismo: A doutrina integralista que tem no Facismo no Bolchevismo e na Social- Democracia fontes inesgotáveis de experiências, opera interna e eficazmente na nossa ação para fecundar um novo conceito vital e social, dando origem a uma filosofia que será fundamento duma nova sociologia. [...] Quando realizaremos essas aspirações? Não nos interessa. O integralismo saberá preparar a nova geração suficientemente forte para vencer (Jornal do Commercio, 22 de março de 1934, p.1). A simpatia desse periódico pelo integralismo aparece como uma resultante da aspiração que esse tinha por uma proposta nova, além daquela lançada pelos golpistas de Como mencionamos, a elite intelectual do sul do antigo Mato Grosso não apoiou enfaticamente, até 1937, o governo de Vargas, já que esse ameaçava o mando local. Entre a elite intelectual que fazia parte do grupo de mando do sul de Mato Grosso estaria engrossando suas fileiras J. Jayme F. de Vasconcellos, presidente do Jornal do Comércio. Assim, a proposta dos integralistas, onde uma juventude intelectual tomasse o poder, aparecia como uma válvula de escape.

8 O imaginário social do período mostra um espaço onde há lutas sobre o que deve ser pensado e estabelecido na sociedade. É nesse sentido que a propaganda política, inclusive a dos movimentos de influências fascistas, que é o caso do integralismo, fez uso intenso do imaginário social, de forma intensa nos anos de , devido ao desenvolvimento mundial dos meios de comunicação e por ser percebida como um território profícuo para tentar legitimar uma ordem política e social imposta por aqueles que detinham o poder político. Temos aí o uso de objetos imponentes, imagens chamativas, grandes espetáculos, emoções fortes, que foram utilizados inicialmente pelos integralistas, a fim de ganhar adeptos (BAZCKO, 1985, p.302). Então, é nesse cenário que a década de 1930 foi marcada como um período de ascensão das idéias autoritárias de cunho fascista. Na Europa destacam-se o nazi-fascismo, através de Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália. Com suas peculiaridades, nasce em São Paulo a Ação Integralista Brasileira (A.I.B.), sob a liderança de Plínio Salgado, com seu lançamento oficial em 7 de outubro de 1932, através do Manifesto de Outubro. A fundação da A.I.B., se dá a partir de um contexto intelectual onde era evidente a crítica ao liberalismo, desde a crise de Assim temos a publicação, neste período de uma série de livros analisando a situação política brasileira numa perspectiva antilberal, bem como o aparecimento, de várias revistas e movimentos ideológicos de orientação política fascista, monarquista ou corporativista comprovam a receptividade das idéias autoritárias na década de 1930 (TRINDADE, 1979, p. 97). Notamos que a formação desse movimento político ocorre sob inspiração do regime italiano, já que no Brasil se vivia um clima de agitação ideológica no âmbito político-nacional desde a crise do liberalismo e da Revolução de De início o movimento veiculava suas idéias em torno do periódico A Razão, como também por meio da Sociedade de Estudos Políticos (S.E.P). O jornal é o instrumento de difusão de suas idéias e a S.E.P., o centro

9 de reflexão ideológica de onde vai nascer o manifesto integralista de 1932 e a Ação Integralista Brasileira (A.I.B.) (TRINDADE, 1979, p. 116). É válido mencionar aqui que seu fundador, Plínio Salgado decide reunir esses jovens e fundar o movimento após uma visita à Itália e de uma conversa com o dirigente do fascismo italiano, ou seja, Benito Mussolini. A Ação Integralista Brasileira foi criada a partir de um grupo de jovens que tinha uma afeição pelo fascismo italiano reunidos, principalmente, em torno de Plínio Salgado. Suas idéias tinham como base a crítica ao liberalismo, ao socialismo, a afeição ao nacionalismo. Seu lema mais veiculado era Deus, Pátria e Família. A A.I.B teve nesse período uma estrutura fortemente hierarquizada, composta por dirigentes nacionais e regionais, que de acordo com o levantamento de Trindade pode ser classificada de acordo com quatro categorias: A primeira correspondente aos dirigentes executivos nacionais: o Chefe, os membros do Conselho Nacional (mais tarde o Conselho Supremo) e os Secretários responsáveis pelos departamentos executivos nacionais. A segunda reúne a direção executiva ao nível regional: os chefes arquiprovinciais e os chefes provinciais: a terceira e quarta englobam os órgãos consultivos, ou seja, a Câmara dos Quarenta no âmbito nacional e Câmara dos Quatrocentos, composto de personalidades integralistas de todas as regiões do país. Este conjunto de órgão execultivos e consultivos, que formam a Corta do Sigma, constitui a camada dirigente no sentido amplo da Ação Integralista (TRINDADE, 1979, p. 130). Dessa maneira, o movimento integralista adentrou no interior do país e ganhou simpatizantes, dos quais faziam parte a juventude que partia do interior do país para estudar em grandes centros do período, como o Rio de Janeiro e São Paulo. Já no caso do Jornal do Comércio, o seu Diretor/ Fundador mantinha estreitas relações com jornalistas do Rio de Janeiro e São Paulo,

10 principalmente através do periódico homônimo Jornal do Comércio do Rio. As atividades de Procurador do Estado de J. Jayme F. de Vasconcellos a partir de 1933, fez também que suas relações com a capital federal de então se estreitasse. Assim, o periódico percebeu o integralismo como o sentido do despertar de uma nova era, convocando sempre a juventude como vemos na seguinte passagem: chama a reunir os moços e todos os bons brasileiros que, diante da insuficiência de ação dos políticos, fecharam-se num círculo de desconfiança e de pessimismo e ai jazem prostrados num indiferentismo letárgico. Convida- os a contemplar no panorama do futuro o raiar de novos dias para o nosso Brasil (Jornal do Commercio, 21 de setembro de 1933, p.1). Foi com essa idéia de convocação de uma juventude disposta a engrossar as fileiras dos ideais conforme o intelectual do mato-grossense, que J. Jayme F. de Vasconcellos cria o Partido da Mocidade, que como o próprio nome cita, convocava a juventude do sul do Estado a militar em prol da posse de Filinto Muller como governador de Mato Grosso. Enfim, foi no período de maior florescimento das idéias fascistas no Brasil que o Jornal do Comércio veio a publicar artigos envolvendo temáticas, como aquela que evoca a idéia de como deveria ser um Estado e o homem integralista. Afinal, as publicações tornaram-se recorrentes em 1933, sendo o segundo semestre repletos de artigos semanais no jornal diário. Ocorre em 1933 o primeiro ato público de relevo da AIB, uma marcha em São Paulo que reuniu cerca de 40 mil adeptos do movimento e marcou o lançamento de Miguel Reale à Assembléia Constituinte. (MAIO; CYTRYNOWICZ, 2003, p.42). O apelo do Jornal do Comércio ao integralismo não se restringiu no ano de 1933, extendendo-se até o ano de 1935, período em que o impresso coloca Gustavo Barroso como o evangelizador da AIB no Brasil (Jornal do Commercio, 29 de Janeiro de 1935). Para o jornal o movimento já era uma ação vitoriosa. O

11 seu programa seria configurado como o despertar do alto espírito patriótico adormecido pela desconfiança nascida da pouca ação política daqueles que estavam no poder ( Jornal do Commercio, 20 de agosto de 1933, p.2). O desaparecimento de artigos relacionados ao integralismo ocorreu, também, devido a constante vigilância voltada para os meios de comunicação. Isso não significa que a presença integralista em Campo Grande foi nula, pois em artigos veiculados pelo O Progressista afirmaram em forma de denúncia a presença deles pela região. Outro fator foi a existência legal da AIB até 1938, pois o fortalecimento do movimento fez com que seus interesses não fossem compactuados pelo Estado Novo. O Progressista: seu perfil No que se refere ao periódico O Progressista, esse foi fundado por Vespasiano Barbosa Martins em 1921 e sua edição se dava em Campo Grande com veiculação a vários pontos do antigo Estado de Mato Grosso. O fundador e presidente do periódico ganhou notoriedade na política matogrossense, já que foi eleito prefeito de Campo Grande por quatro vezes. A primeira vez que assumiu um cargo de notoriedade na vida política campograndense foi em 1918, visto que foi escolhido para o cargo de viceprefeito. A sua atuação ganhou destaque a partir de 1931 quando foi nomeado prefeito de Campo Grande pelo interventor Arthur Antunes Maciel, gestão marcada pela participação do sul de Mato Grosso na Revolução Constitucionalista. A questão da falta de fontes impressas do periódico O Progressista fez com que uma análise minuciosa acerca do processo revolucionário não fosse possível tendo o periódico como fonte e objeto de estudo nesse ponto. Mas, a Revolução Constitucionalista foi estudada por alguns autores e autoras, como Lylia Galetti e Marisa Bittar. Além disso, o Jornal do Comércio no ano de 1933 traz a tona algumas publicações acerca do conflito, sem contar o livro de memórias escrito pela filha de Vespasiano B. Matins, esse chamado Vespasiano meu pai. O movimento paulista de 1932 deve ser compreendido no contexto de uma recomposição de forças de uma sociedade de base agrícola para uma de base urbano-industrial. As oligarquias tradicionais, que foram prejudicadas com a Revolução de 1930 procura, então restaurar seus privilégios (BITTAR,

12 1997, p.111). De 1930 a 1937, a interventoria estadual era questionada constantemente por grupos urbanos e agrícolas locais que detinham o poder político. De certa forma, isso resultou na queda de alguns dos interventores de Mato Grosso. Assim, o sul de Mato Grosso, junto com a circunscrição militar localizada em Campo Grande, apoiou São Paulo contra o governo federal. Nesse contexto, Vespasiano assume o posto do governo constitucionalista de Mato Grosso com sede em Campo Grande, que supostamente seria um governo paralelo com o de Cuiabá liderado pelo Interventor Leônidas Antero de Matos. Quando São Paulo tem suas forças militares derrotadas e, então, perde o conflito, segue-se aí uma derrota política, já que vários líderes foram presos. Vespasiano Barbosa Martins e outros mato- grossenses refugiam-se na Argentina e, posteriormente, no Paraguai, onde viveu sete meses com sua família. Os seus direitos políticos foram cassados e juntamente com essa represália Vespasiano teve seus bens confiscados. No livro de memórias escrito pela sua filha Nelly Martins é mencionada uma entrevista do proprietário do jornal O Progressista, onde diz que não se arrepende da vida difícil que levava no exílio já que lutou contra uma ditadura que para ele estava se eternizando naquele momento. Vespasiano se correspondia com alguns de seus conhecidos em Mato Grosso e na mesma entrevista afirma que imperava o medo naqueles que correspondiam suas cartas. No que se refere a participação dos sul-mato-grossenses na revolução, O Jornal do Comércio fez referência a situação daqueles indivíduos que, por apoiarem São Paulo na Revolução, estavam no exílio. Com um artigo de título Pela Concórdia Nacional, atestava a intenção do artigo em persuadir as autoridades em dar anistia política aos exilados, com a intenção de finalizar as divergências políticas do período: Com a amnistia ampla e generosa, a bandeira branca da paz tremutará reintegrando ao serviço da Pátria e das unidades federadas centenares de brasileiros, dentre os quais, confessemos, com desassombro, figuram notáveis estadistas alguns expoentes da intelectualidade brasileira e uma pleia brilhantissíma de oficiaes, cujas energias,

13 cultura e patriotismo poderão e deverão ainda ser aproveitadas ao serviço da Pátria (Jornal do Commercio, 18 de junho de 1933, p.1). O Jornal do Comércio se referiu ao Vespasiano Martins, que como liderança política campograndense detinha o respeito dos seus correligionários políticos e colegas da imprensa. Ao visitar Campo Grande em 1941, Getúlio Vargas procura conhecer pessoalmente Vespasiano Martins pois a sua trajetória já era conhecida pelo governante. CONCLUSÃO A partir do que foi tratado anteriormente acreditamos que compreender a história da imprensa implica na análise daqueles que estão por trás dos textos publicados, facilitando o estudo dos discursos neles contidos. Ao relacionar as posições políticas dos dirigentes do Jornal do Comércio e de O Progressista, percebemos quais foram suas atitudes diante fatores ligados a acontecimentos que envolviam o cenário nacional. Conforme o que foi delineado acima, notamos que os periódicos não apoiavam enfaticamente o governo varguista no período anterior ao Estado Novo. No entanto, implantada a ditadura de 1937 o discurso da imprensa matogrossense se modifica, já que estava sob a vigilância dos órgãos de propaganda e censura do governo federal, além de ter parte dos anseios locais atendidos. Isso devido o interventor que ascendeu no pós 1937, Julio Muller, ter respaldo da elite política local. Os labirintos da imprensa mato-grossense em geral têm despertado os interesses de muitos pesquisadores, apresentando as peculiaridades da história regional para a historiografia brasileira. BIBLIOGRAFIA BACZKO, Bronislaw. Imaginação social. In: ROMANO, Ruggiero (org.). Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, v. 5, p

14 BITTAR, Marisa. Mato Grosso do Sul: do Estado sonhado ao Estado construído ( ) 2v. Tese (Doutorado em História)- FFLCH/ USP, São Paulo, 1997 CAPELATO, Maria Helena R. Imprensa e História do Brasil.2.ed. São Paulo: Contexto/EDUSP, 1994 BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. 9ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006 CHARTIER, Roger. À beira da Falésia: a história entre certezas e inquietude. Porto Alegre: Ed. UFGGS, 2002, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990 DE LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSK, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto,2005 JEANNENEY, Jean-Noel. A Mídia. In: RÉMOND, René. Por uma História Política. Tradução de D. Rocha. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003 MAIO, Marcos Chor ; CYTRYNOWICZ, Roney. Ação Intregralista Brasileira: um movimento fascista no Brasil ( ). In: FERREIRA, Jorge ; Lucília de A. N. DELGADO (Orgs.). O Brasil republicano. O tempo do nacionalestatismo: do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, pp PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, TRINDADE, Hélgio. Integralismo: O fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1979.

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