ESTADO DO ESPÍRITO SANTO PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA GAB. DESEMB - NAMYR CARLOS DE SOUZA FILHO 5 de março de 2013

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1 ESTADO DO ESPÍRITO SANTO PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA GAB. DESEMB - NAMYR CARLOS DE SOUZA FILHO 5 de março de 2013 APELAÇÃO Nº ( ) - VITÓRIA - 10ª VARA CÍVEL APELANTE :MINISTERIO PUBLICO ESTADUAL APELADO : AGF- BRASIL SEGUROS S/A RELATOR SUBSTITUTO DES. EWERTON SCHWAB PINTO JUNIOR REVISOR DES. ÁLVARO MANOEL ROSINDO BOURGUIGNON R E L A T Ó R I O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO formalizou a interposição do RECURSO DE APELAÇÃO CÍVEL (fls. 486/499), em face da respeitável SENTENÇA (fls. 466/476) proferida pelo douto Juízo da 10ª Vara Cível de Vitória - ES, nos autos da Ação Coletiva de Consumo, com pedido de medida liminar, em face de AGF BRASIL SEGUROS S/A, que indeferiu o pedido autoral em relação à necessidade de serem mantidas as condições inicialmente pactuadas com os segurados da Apólice de Seguro de Vida Coletivo nº , pelo fato de ter a Recorrida enviado cartas padronizadas aos beneficiários, conclamando-os ao ajuste dos termos do Contrato, conquanto impossibilitada de renová-lo por mais uma vigência sem a observância das novas regras impostas pela Superintendência de Seguros Privados - SUSEP. A Sentença proferida pelo Juízo a quo reconheceu que os Contratos de Seguro de Vida em grupo têm prazo certo, cessando seus efeitos tão logo expirado o período de vigência. Neste particular, não poderiam ser renovado compulsoriamente, sob o risco de lhe subtrair a liberdade contratual. Com base nesse fundamento, julgou improcedentes, in totum, os pedidos carreados na Inicial. Contrarrazões Recursais apresentadas às fls. 502/524. É o relatório, no essencial. Remetam-se os autos ao Excelentíssimo Senhor Desembargador Revisor, nos termos do artigo 551, caput, do Código de Processo Civil. Vitória/ES, 13 de dezembro de 2012.

2 Ewerton Schwab Pinto Júnior DESEMBARGADOR SUBSTITUTO V O T O S O SR. DESEMBARGADOR EWERTON SCHWAB PINTO JUNIOR (RELATOR):- Conforme relatado, MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO formalizou a interposição do RECURSO DE APELAÇÃO CÍVEL (fls. 486/499), em face da respeitável SENTENÇA (fls. 466/476) proferida pelo douto Juízo da 10ª Vara Cível de Vitória - ES, nos autos da Ação Coletiva de Consumo, com pedido de medida liminar, em face de AGF BRASIL SEGUROS S/A, que indeferiu o pedido autoral em relação à necessidade de serem mantidas as condições inicialmente pactuadas com os segurados da Apólice de Seguro de Vida Coletivo nº , pelo fato de ter a Recorrida enviado cartas padronizadas aos beneficiários, conclamando-os ao ajuste dos termos do Contrato, conquanto impossibilitada de renová-lo por mais uma vigência sem a observância das novas regras impostas pela Superintendência de Seguros Privados - SUSEP. Essencialmente, afirma a Recorrida que não há qualquer abusividade no aviso de não renovação dos Contratos em referência, na medida em que não poderá ser compelida à manutenção de um vínculo ad eternum, principalmente quando suas configurações não mais se ajustam ao modelo traçado pela SUSEP. É evidente, portanto, que a controvérsia cinge-se em analisar a legalidade do ato de rescisão unilateral do Contrato de Seguro de Vida, intentada pela Recorrida através do envio de cartas padronizadas aos segurados. Alega a Recorrida que o fato decorreu das alterações normativas promovidas pela própria Superintendência de Seguros Privados, sobretudo após a regulamentação da Resolução nº 117/04, do Conselho Nacional de Seguros Privados, que alterou e consolidou as regras de funcionamento e os critérios para operação das coberturas de risco, oferecidas em plano de seguro de pessoas. Dispõem o artigo 30 e o artigo 31, da sobredita Resolução, in verbis: Art. 30. As apólices poderão ser renovadas automaticamente uma única vez, e por igual período, desde que haja previsão expressa nas condições gerais do respectivo plano, sendo as renovações posteriores realizadas de forma expressa. (Grifei) Art. 31. A renovação expressa da apólice coletiva que não implicar em ônus ou dever para os segurados poderá ser feita pelo estipulante. (Grifei)

3 Da análise dos dispositivos supra transcritos, é possível observar que a hipótese de renovação automática poderá ocorrer sem a anuência expressa do segurado. Assim sendo, a manutenção do vínculo será presumida pelo beneficiário se, após decurso de anos, a situação permanecer inalterada, com o pagamento regular e constante do Prêmio. In casu, percebe-se que o Contrato de Seguro de Vida estabelece, como condições gerais - item 8.2 (fl.105) -, que o seguro terá renovação, anual e automaticamente, mediante pagamentos consecutivos e initerruptos dos Prêmios do seguro. Nesses termos, é conveniente concluir que o consumidor-segurado, ao considerar o tempo de vigência do pacto, poderá supor que o simples pagamento do Prêmio promoverá, por si só, a sua renovação automática. E é o que a literalidade da norma diz. Não obstante, a própria SUSEP emitiu a Circular nº 317, de 12 de janeiro de 2006 (regulamenta os critérios para a operação das coberturas de risco oferecidas em planos de seguro coletivos de pessoas), complementando a referida Resolução nº 117/04, do Conselho Nacional de Seguros Privados. Assim, preconizando em seu artigo 11: Art. 11. Para os seguros que não tenham cobertura vitalícia, deverá constar da proposta de contratação, da proposta de adesão, da apólice, do certificado individual e das condições gerais, em destaque, a seguinte informação: Este seguro é por prazo determinado tendo a seguradora a faculdade de não renovar a apólice na data de vencimento, sem devolução dos prêmios pagos nos termos da apólice. (Grifei) A rigor, o artigo 4º, da sobredita Resolução, dispõe o seguinte, verbatium: Artigo 4º. O contrato de seguro pode ser rescindido a qualquer tempo mediante acordo entre as partes contratantes, com a anuência prévia e expressa de segurados que representem, no mínimo, três quartos do grupo segurado. (Grifei) Verifica-se, no entanto, que o Contrato de Seguro de Vida em grupo, oferecido pela Recorrida, não dispôs, expressamente, sobre a hipótese de o pacto permanecer em vigência por prazo certo de determinando, o que facultaria à Seguradora proceder à renovação ou não do Contrato. Nesse sentido, dispõe a Cláusula 8.2 do Contrato sub judice (fl. 105), a saber: 8. Início de Vigência e Renovação do Seguro: (...) 8.2. O seguro terá renovação, anual e automaticamente, mediante pagamentos consecutivos e initerruptos dos Prêmios do seguro. Desta feita, em não havendo um termo ad quem pré-definido, constando no pacto,

4 apenas, a circunstância de o Contrato ser renovado anual e automaticamente, em sendo legítima a rescisão unilateral após a vigência anual, restaria configurada a manutenção de um vínculo descoberto da necessária segurança jurídica essencial às relações de trato sucessivo. De fato, a liberdade de contratar deve ser exercida nas razões e no limite da função social do Contrato. Nesse particular, especialmente pela natureza dos Contratos de massa, é de se esperar a renovação. Ao contrário dos demais seguros de dano, o Contrato de Seguro de Vida merece atenção em razão de seu interesse garantido, a saber, a vida do consumidor-segurado. Na essência dos contratos cativos de longa duração, a relação se estabelece pela confiança, no convívio reiterado após anos, na manutenção do potencial econômico e na qualidade dos serviços. Portanto, a própria capacidade de adaptação, ligada à cooperação entre os contratantes, é aqui especialmente necessária, básica. Objetivamente, infere-se dos autos que a consumidora-segurada, Sra. Gilseia Maria de Oliveira - que levou ao conhecimento do parquet a matéria -, firmou contrato com a Recorrida, iniciando sua vigência em 06 de agosto de 2000 (fl. 99). Não obstante, após 06 (seis) anos de vínculo contratual, vê-se compelida à rescisão unilateral pela Seguradora, quando não efetuada a adequação do valor de seu Prêmio à nova formatação exigida pela SUSEP. Não convém, sob esse aspecto, a alegação da Recorrida de que as mudanças no mercado, sobretudo para atender às medidas de reenquadramento do segurado pela evolução da idade, impeçam a manutenção de sua Apólice sob as condições de cobertura e valores inicialmente pactuados. Reitera-se, a natureza do Contrato de Seguro de Vida pede uma formatação que já preveja tais circunstâncias, seja buscando definir o prazo determinado de vigência, expressamente, ou garantindo a transparência do acordo desde o momento inicial da assinatura pelo segurado. Nessa esteira, devem ser obedecidos os princípios de boa-fé objetiva, lealdade e da função social dos contratos. A previsibilidade do conteúdo da prestação, portanto, é necessária para que não haja a supressão dos fundamentos principiológicos em detrimento de normas. A eficácia e a adequação devem permanecer inalteradas ao longo do tempo. Na letra do artigo 421 e do artigo 422, do Código Civil, há regramento diretamente vinculado à atividade securitária, por injunção expressa do artigo 765, do mesmo diploma legal, in litteris: Artigo 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. Artigo 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.

5 Artigo 765. O segurado e o segurado são obrigados a guardar na conclusão e na execução do contrato, a mais estrita boa-fé e veracidade, tanto a respeito do objeto como das circunstâncias e declarações a ele concernentes Importante dizer que, com o decorrer dos anos, o envelhecimento dos segurados e a ocorrência de sinistros não são fatos imprevisíveis, devendo as Companhias de Seguro estruturar um contrato sob um regime financeiro apto à formação de fundos de reserva, suficiente para suportar a carteira de seguros. Sob esse fundamento, seria inadmissível a justificativa apresentada pela Recorrida de que o Prêmio cobrado pelo seguro não bastará à garantia do risco. É que a redução da margem de lucro, pelo envelhecimento dos consumidores-segurados, impõe que as Companhias ajam dessa forma, o que não se mostra legítimo. Muito mais dificultosa será a contratação de seguro similar por aquele que já se encontra avançado em idade. Pondera-se, conforme mencionado, que a liberdade contratual deverá ser exercida nos limites da função social do contrato. Destarte, a não renovação do Contrato de Seguro de Vida impõe-se como conduta comercial desleal e abusiva, deixando de proteger toda uma massa de segurados e beneficiários hipossuficientes em termos contratuais. A questão revela-se de substancial importância, conquanto os Tribunais Pátrios já vêm enfrentando o tema sob esse mesmo viés. Nesse sentido, segue julgado do Egrégio Superior Tribunal de Justiça, in verbis: EMENTA: DIREITO DO CONSUMIDOR. CONTRATO DE SEGURO DE VIDA, RENOVADO ININTERRUPTAMENTE POR DIVERSOS ANOS. CONSTATAÇÃO DE PREJUÍZOS PELA SEGURADORA, MEDIANTE A ELABORAÇÃO DE NOVO CÁLCULO ATUARIAL. NOTIFICAÇÃO, DIRIGIDA AO CONSUMIDOR, DA INTENÇÃO DA SEGURADORA DE NÃO RENOVAR O CONTRATO, OFERECENDO-SE A ELE DIVERSAS OPÇÕES DE NOVOS SEGUROS, TODAS MAIS ONEROSAS. CONTRATOS RELACIONAIS. DIREITOS E DEVERES ANEXOS. LEALDADE, COOPERAÇÃO, PROTEÇÃO DA SEGURANÇA E BOA FÉ OBJETIVA. MANUTENÇÃO DO CONTRATO DE SEGURO NOS TERMOS ORIGINALMENTE PREVISTOS. RESSALVA DA POSSIBILIDADE DE MODIFICAÇÃO DO CONTRATO, PELA SEGURADORA, MEDIANTE A APRESENTAÇÃO PRÉVIA DE EXTENSO CRONOGRAMA, NO QUAL OS AUMENTOS SÃO APRESENTADOS DE MANEIRA SUAVE E ESCALONADA. 1. No moderno direito contratual reconhece-se, para além da existência dos contratos descontínuos, a existência de contratos relacionais, nos quais as cláusulas estabelecidas no instrumento não esgotam a gama de direitos e deveres das partes. 2. Se o consumidor contratou, ainda jovem, o seguro de vida oferecido pela recorrida e se esse vínculo vem se renovando desde então, ano a ano, por mais de trinta anos, a pretensão da seguradora de modificar abrutamente as condições do seguro, não renovando o ajuste anterior, ofende os princípios da boa fé objetiva, da cooperação,

6 da confiança e da lealdade que deve orientar a interpretação dos contratos que regulam relações de consumo. 3. Constatado prejuízos pela seguradora e identificada a necessidade de modificação da carteira de seguros em decorrência de novo cálculo atuarial, compete a ela ver o consumidor como um colaborador, um parceiro que a tem acompanhado ao longo dos anos. Assim, os aumentos necessários para o reequilíbrio da carteira têm de ser estabelecidos de maneira suave e gradual, mediante um cronograma extenso, do qual o segurado tem de ser cientificado previamente. Com isso, a seguradora colabora com o particular, dando-lhe a oportunidade de se preparar para os novos custos que onerarão, ao longo do tempo, o seu seguro de vida, e o particular também colabora com a seguradora, aumentando sua participação e mitigando os prejuízos constatados. 4. A intenção de modificar abruptamente a relação jurídica continuada, com simples notificação entregue com alguns meses de antecedência, ofende o sistema de proteção ao consumidor e não pode prevalecer. 5. Recurso especial conhecido e provido. (STJ. REsp /MG, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 23/03/2011, DJe 29/04/2011) Tal orientação também vem sendo adotada por este Egrégio Tribunal de Justiça, a saber: EMENTA: CIVIL E PROCESSUAL CIVIL - APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA - SEGURO DE VIDA - REAJUSTE DO PRÊMIO - MODIFICAÇÃO DE FAIXA ETÁRIA - DESPROPORÇÃO - ILEGALIDADE - IMPROVIMENTO. 1. Não colhendo a empresa seguradora a manifestação de vontade do segurado a cada novo contrato, para que a renovação assim se concretize, resta configurada a hipótese de contrato uno, que vai sendo prorrogado automaticamente, de modo que a intenção da empresa seguradora em modificá-lo unilateralmente, com aumento do valor do (...) (...) prêmio, sem a necessária contraprestação equivalente, afigura-se abusiva frente às disposições do Código de Defesa do Consumidor, mais especificadamente, dos artigos 4º, inciso III, art. 47, art. 51, incisos IV, IX, X e XI, bem como vulneram o princípio da boa-fé objetiva insculpido nos arts. 113, 422 e 765, ambos do Código Civil. 2. O contrato de seguro de vida pertence à categoria denominada de "contratos cativos de longa duração", cuja relação entre as partes, além do longo tempo, baseia-se na responsabilidade e confiança, pelo que devem ser redobrados os deveres de cooperação, de boa-fé e de lealdade, mas, sobretudo, deve ser levada em conta a previsibilidade do conteúdo da prestação, cuja adequação e eficácia devem permanecer inalteradas ao longo do tempo. 3. A mera alegação de modificação de faixa etária, coadunada com o suposto aumento de risco, não vinga como argumento apto a autorizar o aumento abrubto do prêmio securitário, pois, consoante já deixou assentado o Colendo Superior Tribunal de Justiça: Constatado prejuízos pela seguradora e identificada a necessidade de modificação da carteira de seguros em decorrência de novo cálculo atuarial, compete a ela ver o consumidor como um colaborador, um parceiro que a tem acompanhado ao longo dos anos. Assim, os aumentos necessários para o reequilíbrio da carteira têm de ser estabelecidos de maneira suave e gradual, mediante um cronograma

7 extenso, do qual o segurado tem de ser cientificado previamente. Com isso, a seguradora colabora com o particular, dando-lhe a oportunidade de se preparar para os novos custos que onerarão, ao longo do tempo, o seu seguro de vida, e o particular também colabora com a seguradora, aumentando sua participação e mitigando os prejuízos constatados. (TJES, Classe: Apelação Civel, , Relator: ANNIBAL DE REZENDE LIMA - Relator Substituto : JANETE VARGAS SIMOES, Órgão julgador: PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL, Data de Julgamento: 02/10/2012, Data da Publicação no Diário: 15/10/2012) EMENTA: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. 1) RATIO ESSENDI. REDISCUSSÃO DA CONTROVÉR- SIA. IMPOSSIBILIDADE. 2) PREMISSA EQUIVOCADA. SUPOSTA EQUIPARAÇÃO DE CONTRATO DE SEGURO DE PESSOA COM PLANO DE SAÚDE. INOCORRÊNCIA. ITEM 4 DA EMENTA DO ACÓRDÃO EMBARGADO. MERO REFORÇO. ESCOR- REITA FUNDAMENTAÇÃO DO VOTO CONDUTOR. LEITURA DAS NOTAS TAQUIGRÁFICAS. 3) CLÁUSULA CONTRA- TUAL. NÃO RENOVAÇÃO DE APÓLICE DE SEGURO DE VIDA. CONDUTA ILÍCITA. VIOLAÇÃO À BOA-FÉ. PROIBIÇÃO DO VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIUM. AUSÊNCIA DE MÁCULA NO JULGADO. RECURSO IMPROVIDO. 1. Os embargos de declaração constituem recurso de rígidos contornos processuais, consoante disciplinamento inserto no artigo 535 do CPC, exigindo-se, para seu acolhimento, estejam presentes os pressupostos legais de cabimento, o que não se verifica na hipótese, eis que a pretensão de simples rediscussão da controvérsia contida nos autos não dá margem à sua oposição. 2. É manifesta a improcedência dos presentes aclaratórios, eis que não partiu o julgador de premissa equivocada. Ou seja, não houve equiparação dos planos de saúde aos contratos de seguros de pessoa. O item 4 da ementa (fl. 397), ao reportar-se a determinado julgado do C. STJ com menção a plano de saúde, apenas serve de reforço a toda a fundamentação inserida no voto condutor. 3. Repise-se que por se tratar de contrato de adesão cujo escopo principal é a continuidade no tempo, não há como se admitir a validade de cláusula que permita a não renovação do contrato pelo segurador. Afinal, é decorrência lógica da boa-fé objetiva a proibição do venire contra factum proprium, ou seja, a vedação da conduta da parte que entra em contradição com conduta anterior, como ocorre no caso do segurador que, para se livrar do risco assumido, opta, subitamente, por não renovar a apólice que, por anos, era renovada automaticamente. (...) (...) A simples reciprocidade da não renovação não torna lícita tal previsão contratual, haja vista que, tratando-se de contrato de seguro de vida que pressupõe a continuidade no tempo, o interesse da não renovação é, por excelência, da seguradora. Recurso improvido. (TJES, Classe: Embargos de Declaração Agv Instrumento, , Relator : RÔMULO TADDEI, Órgão julgador: TERCEIRA CÂMARA CÍVEL, Data de Julgamento: 11/09/2007, Data da Publicação no Diário: 25/09/2007) Nesses termos, a faculdade de a Recorrida rescindir unilateralmente o Contrato, por meio de mera Notificação, mostra-se abusiva, ainda que igual direito seja conferido ao consumidor, conquanto lhe estabelece vantagem excessiva, especialmente pelas peculiaridades do Contrato de Seguro de Vida. Tratando-se de Contrato de Adesão,

8 que tem como escopo principal a continuidade no tempo, não há como se admitir a rescisão com o intuito de que o segurado contrate novo seguro, em condições mais onerosas. Impõe-se, a propósito, trazer à colação o entendimento apontado na Decisão acostada às fls. 392/394, proferida pelo Eminente Desembargador Samuel Meira Brasil Júnior, no Recurso de Agravo de Instrumento (Processo nº ), interposto pela Recorrida contra o decisum que deferiu o pedido liminar, na origem, conforme a transcrição a seguir: Apesar das considerações da ora Agravante, tenho que, ao menos em cognição sumária, essa nova contratação securitária revelou-se abusiva no tocante aos reajustes realizados, bem como tenho que essas determinações não decorreram de uma exigência da SUSEP. Consoante expôs a SUSEP no parecer de nº 8689/2006 (fls. 205/210), a correspondência da AGF aos segurados contém algumas informações inverídicas sobre a atuação da referida autarquia, situação que inclusive ensejou a aplicação de penalidade contra a seguradora. A referida autarquia assinalou que as normas da SUSEP não obrigaram o reenquadramento etário do prêmio e não proibiram a comercialização de cobertura referente a invalidez por doença, apenas determinaram que o conceito de invalidez fosse bem especificado e transparente para os consumidores. De igual modo, a SUSEP não determinou a readequação nos moldes propostos pela AGF - Brasil Seguros, tais como a não renovação da apólice e a proposta de nova apólice com diferentes bases técnicas. A partir disso, revela-se cabível o acolhimento da pretensão indenizatória formulada pelo Recorrente, na peça inicial - item 5 (fl. 50), em especial pelo caráter punitivo da medida, porquanto evidenciado o desrespeito da Recorrida às regras estabelecidas pela própria SUSEP em defesa dos consumidores. Em recente julgado, o Egrégio Superior Tribunal de Justiça manifestou-se de igual forma, a saber: EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. SEGURO DE VIDA. RESCISÃO UNILATERAL DO CONTRATO. RECUSA IMOTIVADA DE RENOVAÇÃO. DANOS MORAIS. OCORRÊNCIA REEXAME FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULA 07/STJ. 1. Face o entendimento pacificado pela Segunda Seção desta Corte, é abusiva a negativa de renovação do contrato de seguro de vida, mantido sem modificações ao longo dos anos, por ofensa aos princípios da boa fé objetiva, da cooperação, da confiança e da lealdade, orientadores da interpretação dos contratos que regulam relações de consumo. 2. A rescisão imotivada do contrato, em especial quando efetivada por meio de conduta desleal e abusiva - violadora dos princípios da boa-fé objetiva, da função social do contrato e da responsabilidade pós-contratual - confere à parte prejudicada o direito à indenização por danos materiais e morais". (REsp /SP, Rel. MIN. NANCY ANDRIGHI). 3. A elisão das conclusões do aresto impugnado, comprovando a ocorrência dos

9 danos morais, demandaria o revolvimento dos elementos de convicção dos autos, soberanamente delineados pelas instâncias ordinárias, providência vedada nesta sede especial a teor da súmula 07/STJ. 4. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. (STJ. AgRg nos EDcl no Ag /RS, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 16/08/2012, DJe 21/08/2012) Verica-se, in casu, que não incidiu a prescrição ânua para as ações dessa natureza - que objetivam haver a indenização por danos morais, bem como a restituição de Prêmios -, nos termos do verbete sumular nº 101, do Egrégio Superior Tribunal de Justiça, porquanto ajuizada a demanda em 25 de junho de 2007, sendo a referida comunicação de cancelamento dos seguros feita no mês de setembro de O Egrégio Superior Tribunal de Justiça se posicionou nos seguintes termos: EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL. SEGURO DE VIDA. NÃO RENOVAÇÃO DE CONTRATO DE SEGURO DE VIDA EM GRUPO POR DELIBERAÇÃO DA SEGURADORA. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E RESTITUIÇÃO DE PRÊMIOS. PRESCRIÇÃO ÂNUA. SÚMULA N. 101-STJ. 1. Prescreve em um ano a ação que postula indenização por danos morais e restituição de prêmios pagos pelo segurado participante de apólice de seguro de vida em grupo cujo contrato não foi renovado, por vontade da seguradora, ao término do prazo. (REsp /PB, Rel. Ministro ALDIR PASSARINHO JUNIOR, Quarta Turma, DJe 18/05/2011). 2.Agravo Regimental improvido. (STJ. AgRg no AREsp /SP, Rel. Ministro SIDNEI BENETI, TERCEIRA TURMA, julgado em 15/05/2012, DJe 28/05/2012) Restará acolhida, portanto, a pretensão à restituição dos valores pagos a maior ou indevidamente pelos segurados, na modalidade simples - por não restar configurada má-fé da Recorrida -, a serem individualmente computados em fase de Liquidação, conforme estabelecido no artigo 95 e artigo 97, ambos do Código de Defesa do Consumidor, in litteris: Artigo 95. Em caso de procedência do pedido, a condenação será genérica, fixando a responsabilidade do réu pelos danos causados. Artigo 97. A liquidação e a execução de sentença poderão ser promovidas pela vítima e seus sucessores, assim como pelos legitimados de que trata o art. 82. Conquanto não restou evidenciado, nos autos, a prova do dano moral efetivamente sofrido pelos consumidores, capazes de gerar relevante abalo psíquico, não deverá ser condenada a Recorrida à reparação indenizatória nesses termos. Isto posto, em consonância com os entendimentos jurisprudenciais dominantes retro, conheço do Recurso de Apelação Cível e dou-lhe parcial provimento, para reformar a Sentença de piso, nos seguintes termos: a) determinar à Recorrida que conceda prazo, por 90 (noventa) dias, aos consumidores-segurados para que, querendo, optem pela renovação do Contrato de Seguro de Vida, sem que haja perda das garantias constantes da última Apólice em vigor, ficando estabelecida que, tanto o valor das indenizações, como dos prêmios mensais, poderão ser simetricamente

10 reajustados de acordo e nos limites da variação da correção monetária, verificada no período dos doze meses anteriores, aplicando-se como fator de atualização o INPC-IBGE; b) condenar a Recorrida à abstenção de imposição aos segurados de reajustes ou modificações na cobertura, em razão da idade, sob qualquer pretexto, ou condicionar a existência do vínculo contratual à aceitação do reajuste por faixa etária, proibindo, ainda, o cancelamento ou rescisão unilateral dos Contratos de Seguro de Vida, pelos motivos invocados para a aplicação do Programa de Readequação da Carteira de Seguros de Pessoas; c) Em relação aos Contratos que já foram cancelados unilateralmente pela Recorrida ou não renovados, pelos mesmos motivos acima mencionados, seja concedida a opção, pelo mesmo prazo de 90 (noventa) dias, para que os segurados renovem, nas condições anteriormente pactuadas, permitida a atualização monetária nos termos acima autorizados; d) condenar, ainda, a Recorrida, à devolução, na modalidade simples, dos valores cobrados indevidamente e pagos a maior pelos segurados que, por força da comunicação de rescisão unilateral do pacto, tenham aderido aos novos planos, devendo tais valores serem calculados em fase de Liquidação, nos termos do artigo 95, do Código de Defesa do Consumidor. É como voto. Ewerton Schwab Pinto Júnior DESEMBARGADOR SUBSTITUTO

11 * O SR. DESEMBARGADOR ÁLVARO MANOEL ROSINDO BOURGUIGNON :- Voto no mesmo sentido * O SR. DESEMBARGADOR JOSÉ PAULO CALMON NOGUEIRA DA GAMA :- Voto no mesmo sentido * D E C I S Ã O Vistos, relatados e discutidos estes autos, APELAÇÃO Nº ( ), em que são as partes as acima indicadas, ACORDA o Egrégio Tribunal de Justiça do Espírito Santo (Segunda Câmara Cível), na conformidade da ata e notas taquigráficas da sessão, que integram este julgado, em, À UNANIMIDADE, DAR PROVIMENTO PARCIAL AO RECURSO. * * *

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