Para que Beatriz e Sofia, que ainda não nasceram, possam viver em um mundo melhor.

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2 Para que Beatriz e Sofia, que ainda não nasceram, possam viver em um mundo melhor.

3 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...7 PARTE I Política, Cidadania, Sociedade...11 PARTE II Características Negativas da Política e da Sociedade Brasileiras na Atualidade...13 PARTE III Aspectos Positivos e Conquistas da Sociedade...90 PARTE IV Como a Política Poderia Ser PARTE V O Cidadão Político PARTE VI A Ágora CONCLUSÃO ADENDO SUS: Um Saco de Pancadas...142

4 INTRODUÇÃO A motivação para que este texto fosse escrito, meses atrás, foi a observação empírica de que havia uma crescente despolitização da população no Brasil. Entendíamos que as pessoas eram cada vez menos sujeitos da sua própria história e cada vez mais massa de manobra, e que conceitos básicos da estrutura e do funcionamento da sociedade estavam se perdendo, e as pessoas compreendiam cada vez menos o país e o mundo em que vivem. À constatação de que muita coisa está ruim, seguiu-se a conclusão de que alguma coisa precisa ser feita, agora. E a responsabilidade e obrigação de pelo menos tentar intervir e influir na política e na sociedade, mesmo que apenas no seu bairro, cidade ou município, é de cada cidadão. Uma vez tomada a decisão "eu vou fazer alguma coisa", surge a pergunta: "como?" O texto representa a verbalização de reflexões e observações feitas ao longo de uma vida bem vivida em vários estados e cidades do Brasil. É um pensar em voz alta, um plano de atuação, um roteiro, uma espécie de cartilha pessoal, na qual procuramos sistematizar o nosso próprio projeto de intervenção, após analisar aspectos negativos e positivos da política brasileira na atualidade. Concebido para esse fim, a ideia era, posteriormente, editá-lo e guardá-lo no fundo do baú para que, no futuro, os netos que virão soubessem como o vovô pensava e o que tentou fazer. Então, vieram as manifestações de junho e seus desdobramentos políticos, que nos trouxeram mais ensinamentos, mas não mudaram a certeza de que a esmagadora maioria da população brasileira é, realmente, despolitizada e, portanto, manipulável. O que no princípio pareceu ser uma belíssima explosão de cidadania, logo, pelo menos para nós, perdeu parte do brilho, ao percebermos que no mesmo palco também acontecia um deprimente show de alienação política. Em meio a manifestações de clareza e maturidade de muitos jovens, que mostravam o que pretendiam e por que estavam nas ruas, também havia uma massa absolutamente desnorteada, sem noção do significado das palavras de ordem que gritava. Pior, essa massa despolitizada proporcionou um espetáculo de antipolítica, e, quem sabe, de desperdício de uma força com um potencial transformador tremendo, que poderia ter sido 7

5 melhor aproveitada. Mesmo as grandes dimensões das manifestações não nos trouxeram o conforto da convicção de que, finalmente, a maioria do povo brasileiro, nas capitais e nos milhares de municípios do interior, acordou, e daqui para a frente será dono do seu destino de fato. O mês de junho de 2013 já entrou para a história, mas, baixada a poeira, perceberemos que a alienação política da grande maioria da população continua a mesma. Não chegamos a isso por acaso, mas como fruto de todos os abusos que já ocorreram na política e de um contínuo e metódico desmantelamento da consciência crítica da população, principalmente dos jovens, e do redirecionamento de suas mentes para o nada, ao que nós, os mais velhos, não tivemos coragem, vontade ou competência para nos contrapor. Relendo a parte do texto escrita antes de junho, percebemos que ele está estreitamente relacionado com a conjuntura do momento, e que seria interessante, após alguns retoques e atualizações e do acréscimo de um adendo a respeito do SUS e do Programa Mais Médicos, compartilhá-lo de imediato, ao invés de destiná-lo ao baú. O autor não é cientista político, nem sociólogo, nem nada do gênero, é médico. Mas que autoridade um simples cidadão poderia ter para discorrer a respeito de política? Justamente esta, a de ser cidadão e, portanto, agente e destinatário da política. Política depende de estudo, de conhecimentos teóricos mas, principalmente, de observação e vivência. A falta de um bacharelado ou de uma pós-graduação do cidadão não lhe tira a capacidade de avaliar a prática, nem anula a validade das conclusões e sugestões nascidas dessa observação. Não existe o exercício ilegal da política, no sentido de que não há restrição ao seu exercício, como ocorre em atividades técnicas. Pelo contrário, é desejável e necessário que ela seja conhecida e praticada por todos. Portanto, aqui trata-se de política de leigo para leigos. No texto, o leitor não encontrará raciocínios complicados em linguagem acadêmica, nem citações eruditas, nem conclusões ou propostas geniais ou mirabolantes. Encontrará, isto sim, algumas sugestões, que talvez nem sequer sejam originais, já que o conhecimento é, em parte, o resultado de um processo de criação mental mas, principalmente, produto de pequenos fragmentos de aprendizado que vamos juntando ao longo da vida, e cujas fontes, ao final, nem sequer conseguimos mais identificar. 8

6 Consequentemente, o texto apresenta uma compilação de obviedades, às vezes esquecidas, que julgamos ser oportuno relembrar neste momento. Aparentemente, os especialistas em política e sociedade não estão conseguindo alcançar o cidadão comum. O papel dos cientistas políticos e dos profissionais afins parece ser mais observar, analisar e interpretar a sociedade e os fenômenos sociais e políticos, do que, propriamente, neles interferir. Por conseguinte, a pergunta óbvia que se impõe é: então quem, em nossa sociedade, se ocupa da construção da cidadania, da formação política e da reposição do estoque de políticos? As igrejas não o fazem, não é sua função. Escolas? Muito pouco. Partidos políticos estão por demais ocupados em conquistar ou manter o poder e, por serem partidos, talvez sejam desprovidos da necessária isenção para propiciar uma formação política abrangente e crítica aos cidadãos. Alguns institutos fazem formação política, mas têm alcance restrito, atingem somente as pessoas que já estão motivadas para o assunto. Como, então, por exemplo, a dona de casa talentosa, que seria uma excelente vereadora, deputada ou prefeita, vai parar de perder tempo olhando novelas e descobrir sua vocação para a política? Como esperar que o jovem, diante de tudo o que ouve a respeito de política nos meios de comunicação, não se autodenomine, orgulhosamente, "apartidário", se ele nem tem noção do que é partido ou política? E não é somente a preparação para ocupar cargos que é importante, mas o conhecimento necessário para o exercício pleno da cidadania. Não adianta esperar que esse tipo de ação politizadora venha "de cima". Nossos líderes e intelectuais, se quisessem ou pudessem, já a teriam feito. Na verdade, não nos faltam intelectuais comprometidos com a causa da formação política e cidadã, o que falta é a capilaridade indispensável para essa formação fluir através do tecido social e irrigar até o menor dos pequenos, que também tem o direito de ser cidadão. Sustentamos que, com certeza, existem no seio da sociedade forças adormecidas capazes de gerar e transportar essa ação transformadora. Essas forças são constituídas por pessoas com diversas profissões, que não são intelectuais, e que, portanto, não dominam um vasto conhecimento específico das ciências relacionadas à política e à sociedade, mas têm espírito crítico e uma formação básica, que as habilitam para atuarem como monitores de politização e cidadania. É para essas pessoas, o baixo clero, no qual nos incluímos, que escrevemos. O presente texto pretende ser um convite 9

7 e um desafio para que mais pessoas pensem, falem e atrevam-se a escrever sobre política e cidadania e, principalmente, assumam a responsabilidade de irradiar e multiplicar consciência crítica no ambiente em que vivem. O que apresentamos aqui, após analisar características da sociedade e da política brasileira contemporâneas, da forma como elas se mostram aos olhos de um cidadão comum, são propostas concretas de reação à alienação. Fazem parte dessas propostas, como ingredientes principais, a fraternidade e a solidariedade, "novidades" tão antigas quanto a própria humanidade, mas, em nossos dias, absolutamente dissociadas da política. (Políticos adoram apropriarse das mais belas palavras da língua portuguesa e destituí-las de significado. Neste texto, quando usamos as palavras "solidariedade", "nova política" e "sustentabilidade", damos a elas o sentido original e verdadeiro). Referimo-nos não somente à fraternidade e à solidariedade como componentes de um estilo de vida, mas, especificamente, ao seu emprego em ações de politização e construção de cidadania. Se podemos, como voluntários, cuidar dos idosos no asilo, por que não poderíamos, na mesma condição, nos organizar em grupos para propiciar formação política, especialmente aos jovens, em espaços criados especificamente para esse fim, que aqui denominamos Ágoras? Obviamente, não estamos falando em doutrinação, mas na instrumentalização das pessoas para a participação consciente na política, com convicções próprias e bem alicerçadas. Resumindo, neste texto procuramos demonstrar que a nossa sociedade está enferma no que diz respeito à política e cidadania e órfã no que se refere à politização e construção de cidadania, e que a solução desses problemas vai ter que partir de nós, os "plebeus". 10

8 PARTE I Política, Cidadania, Sociedade Se entendermos a política como a arte e a ciência de administrar, de governar e de organizar o bem público, esta deveria ser a atividade mais prestigiada do planeta. Nem mesmo o professor, muitas vezes considerado o profissional mais importante da sociedade, nem o médico ou o enfermeiro, tão necessários e decisivos em certos momentos, comparam-se ao político em importância. O político cuida de tudo, inclusive da educação e da saúde. A política e o político, por definição, ocupam-se dos interesses e necessidades das pessoas, em uma escala mais ampla do que qualquer outro tipo de atividade. Assim sendo, a política permite a prática de tudo aquilo que o ser humano tem de melhor: exercício de direitos e deveres, participação nas decisões e na execução de ações de interesse público, fraternidade, solidariedade, altruísmo, amor ao próximo, honestidade, desejo de servir... Todas estas palavras cabem também na definição de cidadania. Portanto, boa política e cidadania são sinônimos, definem a mesma coisa, pressupõe as mesmas características. Vivemos em sociedade e, portanto, interagimos com os nossos semelhantes. O que uma pessoa faz ou deixa de fazer tem influência sobre a vida das outras pessoas. Em consequência disso, as características da sociedade são a resultante dos atos e das omissões de cada um dos seus membros. Então, podemos dizer que ninguém é realmente neutro. Cada omissão aumenta o peso da decisão de quem não se omitiu. Quando a maioria se omite, prevalecem o interesse e a vontade da minoria. No Brasil, a maior parte das pessoas condena os políticos e rejeita a política. Para a imensa maioria dos brasileiros, relacionar as palavras fraternidade, solidariedade, altruísmo, amor ao próximo, honestidade e desejo de servir com a política seria absurdo, ridículo, senão hilário, porque para a maioria das pessoas a palavra que melhor define política é "suja". "A política é suja", dizem quase todos. Mas, querendo ou não, continuamos vivendo em sociedade, e ela é dirigida pela política. Omissão e rejeição são as piores opções. 11

9 Mas o que aconteceu para que a mais nobre das artes da humanidade se transformasse em algo tão desprestigiado? Tentando responder a essa pergunta, enumeramos e comentamos brevemente, a seguir, sessenta características negativas que identificamos na política e na sociedade brasileiras da atualidade. Os itens inter-relacionam-se, alguns são causa de uma política ruim, outros consequência, e alguns que são consequência dão causa a outras consequências. 12

10 PARTE II Características Negativas da Política e da Sociedade Brasileiras na Atualidade Partidos políticos não ideológicos Em tese, "partidos" deveriam constituir uma "parte" da sociedade que pensa igual, que tem a mesma opinião e a mesma proposta. Se outra "parte" tivesse proposta diversa, criaria outro "partido", nitidamente diferenciado do primeiro. Essa é uma das belezas da democracia: as pessoas poderem organizar-se livremente em torno de propostas e ideais comuns. Em princípio, só se justificaria criar uma nova agremiação se ela tivesse um conjunto de propostas diferentes daquelas defendidas pelas agremiações já existentes. Porém, não é essa a lógica que se observa na criação de partidos políticos no Brasil. Além disso, apesar de os programas partidários mostrarem diferenças entre si, a prática dos seus membros frequentemente, senão geralmente, não se diferencia da prática dos membros de partidos com programas opostos. Partidos que são literalmente inimigos em um município, podem estar coligados em outro. A impressão que fica é que não se trata de uma disputa ideológica, mas de um jogo de interesses, isto é, tudo depende dos interesses dos caciques que mandam na política do lugar. Coligações de interesses Se os partidos não são ideológicos, as coligações são menos ainda. Teoricamente, partidos que têm propostas parecidas poderiam unir forças para derrotar adversários com propostas totalmente diferentes. Mas, na prática, não é isso que se vê, nem nos municípios, nem nos estados e nem no nível federal. 13

11 As coligações, frequentemente, são totalmente ilógicas, claramente construídas em torno de interesses e não de projetos. Coligações desse tipo somente são interessantes para quem quer ganhar a eleição. Para nós, a sociedade, as consequências são negativas, porque faltarão à administração harmonia, planejamento conjunto e execução articulada. Acordos pré-eleitorais e loteamento de cargos A moeda de troca que paga apoios são cargos. O agraciado com o cargo de chefia quase sempre é um político, frequentemente leigo nos assuntos da pasta pela qual responde. Disso resultam governos sem rumo e sem uma identidade politico-ideológica definida. Nos três níveis de governo, muitas vezes, podemos identificar membros de primeiro escalão que parecem ser um corpo estranho na equipe de colaboradores do executivo. Legislativos legislando em causa própria Esta é uma característica bastante evidente nos três níveis do Poder Legislativo: municipal, estadual e federal. Se o assunto interessa aos legisladores (aumento dos próprios salários, por exemplo), é aprovado rapidamente. Quando interessa à sociedade, mas não aos legisladores, não é, necessariamente, rejeitado, já que ninguém está propenso a indispor-se com os eleitores. Entra em cena, nesses casos, uma prática odiosa, que é a de postergar, "enrolar", "empurrar com a barriga", "engavetar". Todo projeto, toda iniciativa que chega ao legislativo, deveria ser ampla e abertamente debatido, analisado e depois votado. Se o entendimento for que o projeto é bom para a sociedade, deve ser aprovado, se não for, deve ser rejeitado. É para isso que o Poder Legislativo existe. Quando querem, os parlamentares sabem trabalhar, e 14

12 bem, a exemplo do que fizeram na Constituinte de 88. Mas nem sempre é assim que eles agem. Um exemplo de "enrolação", feita pelo Congresso Nacional, é a tramitação da reforma política. O assunto é polêmico, é verdade, nunca haverá um consenso de como a reforma deve ser feita, mas todos, inclusive os parlamentares que sempre a bloquearam, afirmam que ela deve acontecer. A recusa em votar e discutir a reforma política durante tantos anos deixou em nós cidadãos a impressão de que o assunto é relevante para a população, mas não deve ser do interesse dos parlamentares. Quando não legislam em causa própria, omitem-se em causa própria. Política entendida como negócio Poucas pessoas candidatam-se a um cargo público com intenção de servir à comunidade. A maioria quer mesmo é primeiro poder e depois ganhar dinheiro. Há muito pouco, quase nada, de fraternidade, altruísmo, etc. Imperam o egoísmo, o interesse de pessoas ou de grupos sobre o interesse público. Eleições decididas pelo poder econômico Se a política é vista como negócio e a corrupção é um crime que ainda compensa, faz sentido investir dinheiro em política. Apesar de o abuso do poder econômico ter sido, em parte, coibido nos últimos anos, e espera-se que haja avanços maiores se uma reforma política realmente se tornar realidade, hoje ainda é praticado em larga escala. Isso fica mais evidente em eleições municipais, e não só nos rincões do Brasil, mas também nas cidades maiores e nas capitais. Compra-se e vende-se tudo, até a colocação de um adesivo no carro. E, temos que admitir, a compra e venda de votos continua sendo prática muito comum, apesar de constituir crime, e apesar de a justiça punir quando 15

13 consegue flagrar a irregularidade. No entanto, esse é um crime cuja inibição, basicamente, depende de denúncia, o que poucos se dispõe a fazer, ou para não se incomodar ou porque perderam a capacidade de indignar-se. Realmente, para quem utiliza apenas raciocínio lógico e não ético, faz todo sentido vender o voto. Por que o eleitor deveria dar de graça o voto para o candidato que, se eleito, não irá utilizar seu cargo para servir, mas para tirar proveito próprio da sua posição? E, do ponto de vista do candidato eleito desprovido de pruridos éticos, se ele gastou na campanha, faz todo sentido recuperar durante o mandato o "investimento", não importa por que caminhos. Em centenas de municípios pelo país afora cem votos elegem um vereador e decidem a eleição para prefeito. Não é difícil encontrar cem pessoas dispostas a vender o voto. Quantos serão os vereadores e prefeitos eleitos nas últimas eleições municipais que conquistaram seus mandatos dessa forma? E qual será o tamanho do prejuízo que causarão à sociedade até o final desses mandatos? Dessa maneira, a política vai se prostituindo mais e mais a cada dia. A aplicação de recursos próprios dos candidatos em campanhas eleitorais é característica de pequenos municípios, em eleições para prefeitos e vereadores. Nas campanhas de maior envergadura, estaduais e nacionais, o montante maior de dinheiro gasto em eleições é proveniente de contribuições de pessoas físicas ou jurídicas. Evidentemente, é muito difícil acreditar que uma pessoa ou uma empresa gaste grandes somas de recursos apenas porque simpatiza com determinado candidato. Os compromissos que o eleito assumiu com os doadores da campanha comprometem, irremediavelmente, o nosso sistema de representação. Para eleger-se, o candidato precisa de votos do povo, mas para suplantar os adversários e conseguir chamar a atenção dos eleitores, precisa de dinheiro. Então, em última análise, o fator que realmente decide a eleição, muitas vezes, é o poder econômico. Esse fato parece dar razão àqueles que questionam se realmente vivemos em um regime democrático, já que não prevalecem, necessariamente, as melhores propostas, as melhores ideias, as melhores pessoas, mas sim aqueles candidatos que amealharam mais recursos. Os recursos doados para campanhas eleitorais nem sempre são gastos apenas em material de divulgação e propaganda. Podem ser usados para, literalmente, comprar votos e apoios. Por isso, nem todos os valores gastos em campanhas são declarados na prestação de contas dos partidos para a Justiça 16

14 Eleitoral, constituindo-se no célebre caixa dois, expediente que, aparentemente, todos os grandes partidos utilizam. O caixa dois parece ser tão "necessário", devido às características das disputas pelo poder, que, provavelmente, quem não o utilizar perde a eleição. Mas, não é por isso que devemos considerar essa prática criminosa aceitável. Corrupção, desonestidade e desperdício de recursos públicos Toda a generalização negativa tende a ser injusta, porque fere quem não merece, porém, não há dúvida que o número de pessoas desonestas atuando na política no país, em todos os níveis, é enorme. Ao nos revoltarmos contra a corrupção, geralmente, nos lembramos apenas das irregularidades cometidas por políticos e outros servidores públicos. Não podemos esquecer que negócios irregulares, principalmente os grandes negócios, frequentemente só podem ser concretizados se houver a participação de corruptos e corruptores do setor privado, que são tão criminosos quanto os agentes públicos. Também não podemos deixar de lembrar que a grande corrupção tem origem na nossa tolerância com a pequena corrupção praticada pelas pessoas diariamente. Do ponto de vista da qualidade do delito, a pequena compra que fazemos na loja sem exigir nota fiscal é exatamente igual à denunciada sonegação bilionária da Globo ou à fraude na licitação de uma grande obra pública. A diferença só está no montante envolvido no crime e no tamanho do prejuízo causado à sociedade. É tudo uma questão de oportunidade. Se a nossa consciência não nos incomoda quando furamos uma fila ou quando desrespeitamos o limite de velocidade nas estradas, ao entrarmos na política ela rapidamente se adaptará a delitos progressivamente maiores, até que, no final, seremos exatamente iguais aos grande corruptos que condenamos. Portanto, a corrupção não está apenas nos legislativos, nas prefeituras, nos governos estaduais ou "lá em Brasília". Ela começa dentro da nossa casa. 17

15 Um exemplo de tolerância da sociedade em relação à corrupção é a expressão "roubou, mas fez". "Vou votar no Fulano porque no mandato anterior ele roubou mas fez". Ora, se roubou, é ladrão, e jamais deveria receber um voto novamente. Outra situação é a que festeja a "esperteza" do corrupto. "O teu prefeito foi cassado porque roubou, o meu foi mais esperto, não se deixou apanhar". Enquanto pensarmos e agirmos assim, melhor nem reclamar da corrupção "lá de Brasília". Altos custos para a sociedade Obviamente corrupção, desonestidade e desperdício de recursos públicos são debitados na conta de todos os cidadãos, inclusive dos não corrompidos e dos que se consideram apolíticos. O estilo de sociedade que estamos criando, através da falta de cidadania e de uma política ruim, causa ônus financeiros a todos. Convivência fraterna não produz conflitos. Competição selvagem e individualismo geram choques de interesses a toda hora. O Poder Judiciário custa caro à sociedade, e não dá conta de julgar todas as ações, porque produzimos conflitos mais rapidamente do que o sistema consegue absorver. A criminalidade aumenta, o crime organizado desafia o Estado abertamente, o sistema prisional, além de caótico, também é oneroso para o cidadão. Fora do âmbito jurídico e policial, também podemos encontrar exemplos de falta de cidadania gerando gastos astronômicos para a sociedade. Citamos apenas um: hospitais e UTIs do país todo sempre lotados de vítimas de acidentes de trânsito, em sua esmagadora maioria causados por desobediência à legislação e sinalização. Além do sofrimento das vítimas e seus familiares, esses acidentes custam somas incalculáveis em tratamentos, reabilitação, benefícios, afastamento do trabalho, perdas materiais, etc., em grande parte assumidos pelo poder público. 18

16 Relacionamento inadequado entre executivo e legislativo Executivo e legislativo não são poderes suficientemente autônomos e independentes entre si, como seria desejável. Candidatos a prefeito e vereador, por exemplo, pertencem às mesmas estruturas partidárias, fazem e financiam suas campanhas juntos, pedem votos juntos, armam estratégias juntos, etc. Dificilmente esses vereadores cumprirão uma de suas funções mais importantes, que é ser fiscais e juízes dos prefeitos. Na prática, é frequente que os prefeitos tenham uma parte dos vereadores na mão e precisem comprar os outros, resultando nos subornos, que também ocorrem nos outros níveis de governo. Assim como também ocorre em todos os níveis de governo a fidelidade, que exige que se aprove tudo o que vem dos correligionários ou, distorção inversa, que se barre tudo o que provém do adversário, em nome de interesses eleitorais e, muitas vezes, contra os interesses da sociedade. O relacionamento inadequado entre executivo e legislativo mostra-se mais danoso para a política no âmbito municipal, por ser a Câmara Municipal uma das principais portas de entrada para a carreira política. Certamente, muitas das pessoas que ocupam cargos eletivos mais elevados, um dia foram vereadores ou vereadoras. A existência das distorções referidas torna a Câmara Municipal pouco atraente para os cidadãos honestos, mas, por outro lado, é um chamariz para as pessoas sem escrúpulos, que só estão procurando uma oportunidade de "levar vantagem". Deixa-se de ganhar assim os bons cidadãos, que muito teriam a contribuir para a política, e ganha-se os maus políticos, que tanto mal causam à sociedade. Política da gangorra A falta de politização da população empobrece a política, estreita o leque de opções, tolhe a criatividade. Em uma parcela importante de municípios do país existem dois grupos que se revezam no poder há décadas. Vota-se em um 19

17 grupo porque o anterior não serviu e, na eleição seguinte volta-se ao grupo anterior novamente. Porém, se há coisas erradas em um governo, não significa que, necessariamente, se tenha que voltar ao anterior. Parece que os eleitores não se dão conta que, se quem está no poder não é bom, ao invés de voltar ao grupo anterior, que já fora rejeitado, o lógico seria tentar novas opções, novas ideias, novas propostas, novas pessoas. Parece que a política fica engessada, a cabresto de alguns caciques. Além disso, confunde-se eleição com futebol. As pessoas são filiadas ou votam em determinado partido por tradição, que passa de pai para filho, como a paixão por um clube, quando, na verdade, deveriam ser racionais. Não é feio mudar de partido, se a mudança for motivada por convicções alicerçadas em análise crítica. Pelo contrário, é falta de inteligência o eleitor continuar submisso a uma liderança partidária que não correspondeu às suas expectativas. Despreparo de muitos candidatos a cargos públicos O mecânico de automóveis, o agrônomo, o garçom, o padre, o vendedor, todos, enfim, precisam de estudo e treinamento para exercerem suas respectivas atividades. Até o agricultor, que acha que "não tem estudo", na verdade, acumula anos de sabedoria, aprendida desde criança dos pais e avós. Todos preparam-se para o que vão fazer. Menos o político. Para ser político basta "ter cara de pau" e "meter a cara". Nada se exige do cidadão, em termos de conhecimento ou preparo, para que ele possa aspirar a ocupar um cargo eletivo. A Leia da Ficha Limpa foi um avanço estupendo em direção à moralização, mas essa é uma peneira pela qual passam as pessoas mal intencionadas que ainda não cometeram crimes e aquelas absolutamente despreparadas para os cargos que pretendem ocupar. Desse despreparo resultam ações amadoras, danosas aos cofres públicos e ao prestígio da política. 20

18 Falta de preparo dos cidadãos para a política Da mesma forma que muitos políticos estão despreparados, nós, cidadãos, também estamos despreparados para a política. Falta consciência política, falta conhecimento, falta interesse, falta participação. Nossa democracia é representativa. Depositamos nosso voto em um candidato que mal conhecemos ou nem conhecemos e pronto, cruzamos os braços. Acompanhamos tão pouco o mandato que nem ficamos sabendo que nosso representante, na verdade, pode estar representando seus próprios interesses ou os interesses do grupo que o financiou. A falta de preparo dos eleitores para a política, assim como dos candidatos para os cargos aos quais concorrem, não surpreende. Onde poderiam buscar esse tipo de conhecimento? As escolas dão instrução às crianças (ler, escrever etc.), os agrônomos e técnicos agrícolas ensinam aos agricultores a respeito de agricultura, as equipes de saúde ensinam aos diabéticos e hipertensos o que eles precisam saber sobre a sua doença, e assim por diante. Mas quem ensina política e cidadania? Onde o eleitor pode aprender algo mais sobre política do que as intrigas que ele está acostumado a ouvir durante as campanhas eleitorais ou nos noticiários veiculados por uma imprensa sem isenção? Onde o jovem pode preparar-se para ser vereador, prefeito, ou deputado? Todos os municípios do Brasil têm igreja, escola, campo de futebol, agência bancária, agência dos correios, farmácia, posto de saúde, lojas, local para adquirir chips ou créditos para o celular... Mas, falta alguma coisa na paisagem. Comodismo e falta de coragem dos cidadãos Falar mal da política e dos políticos, de modo genérico, todos falam. Mas não são muitos os que se dispõe a gastar um pouco do seu tempo para estudar mais a fundo as questões que estão criticando, e menos ainda são aqueles que 21

19 estão dispostos a doar um pouco do seu tempo engajando-se em algum tipo de movimento, partidário ou não, que vise melhorar a política. Além de sermos acomodados, muitas vezes, falta-nos a coragem para mexer com essa coisa "suja" que é a política, enfrentar preconceitos, afrontar pessoas poderosas e seus seguidores fiéis e domesticados. Falta de consciência de classe A falta de consciência de classe é, no nosso entendimento, a mais decisiva dessa longa lista de características negativas que estamos analisando, porque determina toda a configuração da sociedade brasileira. Ao nos referirmos a classes, não estamos preocupados com conceituações acadêmicas, nem com a estratificação das famílias por níveis de renda. Atemo-nos apenas à óbvia constatação que uma parte das pessoas que constituem a sociedade, os trabalhadores, trabalha produzindo bens materiais e imateriais e a outra parte das pessoas, a classe dominante, é proprietária dos meios de produção e trabalha coordenando os primeiros. Constatação óbvia também é que a divisão das riquezas produzidas é muito desigual, os detentores dos meios de produção ficam com a parte maior, o que tende a resultar em grandes desigualdades econômicas na população. Um sistema assim tão injusto, teoricamente, não deveria manter-se nem por um dia sequer. No entanto, perpetua-se porque, além dos meios de produção, a classe dominante é dona da maior parte dos meios de comunicação (rádios, jornais, revistas e televisão) e, geralmente, também determina a política. É impossível entender a sociedade sem ter em mente a existência das classes sociais. Citamos apenas alguns exemplos. Não dá para compreender por que uma parcela importante dos médicos do país boicota e sabota sistematicamente o SUS desde a sua criação e, mais intensamente, agora que existe uma pequena possibilidade de a saúde da população melhorar. Não é possível entender por que em anos recentes, quando o Brasil vive o seu melhor momento em termos de crescimento econômico e distribuição de renda, grande 22

20 parte da imprensa fala, constantemente, em crise e recessão. Não faz sentido a grotesca falta de isenção das altas esferas do judiciário federal na investigação e julgamento de crimes ou supostos crimes políticos. Coloque-se os óculos do conceito de classes sociais, observe-se o país, a política e a sociedade através dessas lentes e o quadro fica claro, tudo passa a fazer sentido. Para a classe dominante é estratégico ser proprietária dos meios de comunicação e poder manipular as informações, de modo a capturar a mente das pessoas. Porém, os meios de comunicação de massa vão além, apropriamse também do coração, do imaginário, dos sonhos da população. Conseguem isso ao definirem os parâmetros do que é ser bem sucedido na vida. Segundo essa ideologia, nós todos devemos lutar pelo sucesso, que consiste em ter dinheiro para poder comprar muitos bens. Para alcançar esse objetivo é necessário consumir muito, trabalhar muito, produzir muito, comportadamente, sem nunca questionar coisa alguma na vida. Essa ideologia, a do sucesso material como fim, não como meio para suprir necessidades básicas, é, provavelmente, a maior pedra no caminho para uma sociedade mais fraterna, justa e feliz. Ela foi incorporada de tal maneira pelas pessoas, que ser rico é "estar por cima" e ser pobre é "estar por baixo", como se o rico fosse mais importante do que aquele que é menos abastado. Nem se cogita que poderíamos viver lado a lado, como iguais, sem que uns explorassem os outros. Do que foi dito até aqui, deduz-se que a falta da consciência de classe é apenas dos trabalhadores ou de parte deles. A classe dominante tem muita clareza sobre a sua condição e exerce a dominação conscientemente. É perda de tempo tentar falar sobre política com trabalhadores que não têm clareza sobre a que classe pertencem. É como falar grego, não entendem nada. Ou então incorporam os conceitos da classe dominante com tal fervor que sentem-se agredidos ao vê-los questionados. Essa domesticação das consciências é o que há de mais triste em nossa sociedade, porque coloca uma grande parcela da população a trabalhar contra os seus próprios interesses, ativamente ou por omissão. Não existem argumentos racionais para justificar uma sociedade estruturada pela lógica da dominação e da subserviência. Por isso, ninguém diz que acha correto que alguns devem nadar em supérfluos, enquanto outros mal 23

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