LETRADOS PARA O CONSUMO: IMAGENS QUE TRADUZEM INTENCIONALIDADES

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1 700 LETRADOS PARA O CONSUMO: IMAGENS QUE TRADUZEM INTENCIONALIDADES Fabiana Raphaelli Dias Michels 1 RESUMO: Este artigo descreve uma cena recorrente no centro de Porto Alegre. Trata-se de um evento de letramento que pode ser observado diariamente nas principais ruas da capital do estado: Um grupo indígena da tribo Kaingang, composto principalmente por crianças, que canta, dança e comercializa seu artesanato. A descrição desta cena dá base à discussão que se desenvolve acerca do evento de letramento contido nela. Partindo da análise, é possível caracterizar letrados e não letrados, que em determinados momentos se confundem por meio das relações estabelecidas (de poder e de consumo), da intencionalidade dos atos que ali se desenrolam e de como a cultura se modifica para sanar as necessidades dos sujeitos através dos tempos. Palavras-chave: Letramento. Consumo. Kaingangs. Intencionalidade. INTRODUÇÃO 1. CONHECENDO CENÁRIOS E PERSONAGENS Ao andarmos pelas ruas de Porto Alegre, seja na Redenção ou na Praça da Alfândega, ou até mesmo no Largo Glênio Peres 2, diariamente nos deparamos com uma imagem já comum aos nossos olhos: as crianças indígenas Kaingangs. O cenário eventualmente muda, mas o evento se repete diariamente: em coro, os meninos e meninas cantam em sua língua materna, acompanhados de um adulto que toca violão e de uma senhora que fica sentada ao chão junto do artesanato produzido por eles no intuito de comercializá-lo e de arrecadar as moedinhas deixadas pelas pessoas que passam e assistem a sua movimentação. É um jogo de imagens e sons. Os índios cativam o público, talvez por serem na sua maioria crianças pequenas. Talvez por estarem mostrando a sua cultura. O fato de o grupo 1 Supervisora Escolar SMEE Esteio/RS, aluna do Curso de Especialização Lato Sensu em Estudos Culturais e os Currículos da educação Básica/ UFRGS 2 Pontos Turísticos da cidade de Porto Alegre/RS.

2 701 cantar em sua língua materna, não desvia o foco do seu público. É um evento de letramento surpreendente se analisarmos com um pouco mais de aprofundamento. Letrados e não letrados se confundem na sua relação. Ora uns são letrados, ora os outros são os letrados. 2. COMPREENDENDO O LETRAMENTO Primeiramente, é preciso nos situamos com relação a nossa perspectiva de letramento. Baseada no trabalho de Street, Piccoli (2010, p. 259), cita sobre o letramento: O conceito- anteriormente visto como uma habilidade técnica neutra- foi contraposto pelo autor a partir da perspectiva denominada New Literacy Studies, passando a ser considerado como uma prática ideológica implicada em relações de poder e embasada em significados e práticas culturais. Piccoli (2010) através da concepção de alfabetização freireana, conclui que o letramento se constitui em uma prática que pode preceder a leitura do código escrito, dos signos, da palavra. Através do letramento, somos capazes de significar o mundo e ressignificá-lo também. Logo, o letramento se difere de alfabetização e pode vir antes da mesma, pois a compreensão de mundo se dá antes da alfabetização através dos movimentos que a cultura faz a nosso redor e que fazemos com a cultura. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado e até gostosamente a reler momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo. (FREIRE, 2006, p.11-12) Tomando como base da citação de Freire, entendemos o letramento como algo que é ao mesmo tempo anterior a alfabetização e que junto dela transcorre. A compreensão crítica, a leitura de mundo, termos freireanos que compreendo como letramento nos faz

3 702 perceber a sociedade e as relações que estabelecemos dentro dela, podendo então estabelecer novas relações, ou construí-las através dos seus novos significados. Com a perspectiva de letramento definida, surge o questionamento: Na cena acima descrita, quem são os letrados? 3. DEFININDO PAPÉIS É hora de elaborar uma tentativa de definir os papéis dos participantes desta imagem. Os índios apresentam a sua música como um elemento da sua cultura. Algo comum ao seu entendimento. Mas as pessoas que passam, compreendem o que é cantado? A menos que os ouvintes que ali se fazem presentes tenham conhecimento da língua Kaingang, não entenderão nada, logo não seriam letrados. Mas averiguando mais densamente o cenário, podemos compará-lo a um show. As crianças estão uniformizadas, com o canto ensaiado e com os passos de dança sincronizados. O fato de estarem ali, não é caracterizado pela simples manifestação cultural indígena daquela tribo. A música ali encenada, ou interpretada é o artefato cultural utilizado em benefício dos que o cultuam. A representação deste artefato, nesta conjunção, não está sendo relevada dentro da sua dimensão cultural, está sendo sim usada para atrair o público. É a propaganda. Existe um pretexto maior que os impulsiona a terem esta atitude: o consumo. Neste momento, o letramento se universaliza através dele. Cria-se uma relação de compra e venda que pode ser comparada a uma relação de poder, pois segundo Foucault [...] aquilo que define uma relação de poder é um modo de ação que não age imediatamente sobre os outros, mas que age sobre sua própria ação. (1995, p.243). Logo, podemos definir que a ação é a propaganda que resulta na compra do show que se estabelece através da representação cultural indígena. Apesar de os espectadores não compreenderem a letra da música, compreendem a intencionalidade do evento que ali sucede: a arrecadação de fundos e a venda do artesanato. Podemos considerar os receptores desconhecedores da língua como não letrados, sendo que os mesmos compreendem o que querem seus interlocutores? O recado foi dado. A relação de poder estabelecida, e nossa movimentação acerca da cultura também. Não da cultura indígena, mas do consumo que se fortifica diariamente na nossa sociedade. Segundo Bauman (2008, p.47):

4 703 Aparentemente, o consumo é algo banal, até mesmo trivial. É uma atividade que fazemos todos os dias, por vezes, de maneira festiva, ao organizar um encontro com os amigos, comemorar um evento importante ou para nos recompensar por uma realização particularmente importante - mas a maioria das vezes é de modo prosaico, rotineiro, sem muito planejamento antecipado nem reconsiderações. Podemos deduzir então, que as práticas de consumo também remetem ao letramento. Como já mencionado anteriormente, mesmo que não haja a leitura de signos, de textos escritos, há uma leitura das imagens, das cenas, das propagandas. As pessoas são levadas a sentirem a necessidade de possuir o produto descrito e compreendem os benefícios que podem ser trazidos com essa execução da vontade. Ou simplesmente, parafraseando Bauman, são levados pelo impulso que satisfaz uma necessidade fundamentada no prazer momentâneo partindo do pressuposto que maioria das pessoas que consomem este evento, são levadas pelo impulso, afinal, não precisam do artefato ou do show, mas o consomem pela satisfação imediata, o que caracteriza a sociedade do consumo. É destacável também, o fato de o grupo ser composto por crianças, o que desperta o sentimento altruísta nas pessoas que por ali passam e se sentem responsáveis em contribuir para que os indiozinhos, como são popularmente chamados, voltem para a casa com seus objetivos cumpridos. 4. LETRADOS E NÃO LETRADOS: NOVOS QUESTIONAMENTOS Os questionamentos sobre letrados e não letrados, dentro deste ensaio, começam a se desconstruir. Novos questionamentos começam a surgir. Afinal, dentro deste contexto, não importa quem é o mais letrado, mas a relação de poder que se estabelece e intencionalidade que se traduz através do evento descrito. Pela releitura desta imagem, podemos considerar que a cultura é algo em movimento. Não importa de onde venha, nem para onde vá. Seus usos são os mais distintos possíveis e nossa realidade social a insere dentro de uma lógica de consumo. O letramento, considerado como leitura de mundo e interpretação de realidades amplifica nossas considerações a respeito das imagens e autoimagens culturalmente estabelecidas que se formam e se deformam através dos tempos levando em consideração as nossas necessidades básicas ou nossas necessidades inventadas. Por conseguinte, podemos nos definir então como letrados para o consumo?

5 704 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Zigmunt. Vida para Consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., FOUCAULT, M. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H. & RABINOW, P. Michel Foucault. Uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, p FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 47. ed. São Paulo: Cortez, PICCOLI, Luciana. Alfabetizações, alfabetismos e letramentos: trajetórias e conceitualizações. Educação e Realidade. Porto alegre, v. 35, n. 3, p , set./dez

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