Endividar-se para comprar um imóvel é saudável. saneamento, etc. No setor de construção civil, temos um grande potencial a explorar

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1 E ntrevista III Mônica Baumgarten de Bolle Endividar-se para comprar um imóvel é saudável Acho que é uma anomalia termos um nível tão baixo de crédito habitacional menos de 10% do PIB no Brasil, afirma Monica Baumgarten de Bolle, que desponta na nova geração de economistas. Formada pela London University, com cinco anos de experiência no Fundo Monetário Internacional, uma cadeira na PUC-Rio e à frente da Casa das Garças, um dos mais importantes centros de pensamento econômico do País, ela vê com otimismo o aumento das carteiras de crédito dos bancos destinadas ao setor, como declarou nesta entrevista a Fabio Pahim Jr., editor da REVIS- TA DO SFI. O endividamento das famílias para a aquisição de um imóvel é mais saudável para os balanços privados do que o endividamento para a compra de eletrodomésticos, ou mesmo de automóveis, assinalou. Melhores condições para se adquirir a casa própria também tendem a fomentar a poupança privada de médio e longo prazo, ampliando os mercados de crédito e de ativos. O setor de construção é tratado como importante para a atividade econômica, não só pelo que contribui diretamente para o PIB, mas por todas as outras atividades que movimenta, como melhoria em transportes, saneamento, etc. No setor de construção civil, temos um grande potencial a explorar nos próximos anos, que não deve ser desperdiçado. O motivo: Temos um déficit habitacional para resolver, uma infraestrutura para consertar e uma demanda inequívoca pela casa própria. A economia e a filosofia são inseparáveis, sobretudo, nos tempos de grandes transformações. Adam Smith, afinal, era um filósofo. A economista destaca o momento de transformações da ciência econômica e a importância crescente da economia comportamental. Vê de perto as manifestações populares dos últimos dias (residindo nas proximidades do apartamento do governador Sergio Cabral, do Rio, acompanhou de perto o movimento): As ruas deixaram claro que o brasileiro não tem mais disposição para o autoengano e para a complacência é assim que entendo as manifestações que tomaram conta do País. O Brasil, segundo Mônica, se depara com uma grande chance de melhorar substancialmente nos próximos anos, mas isto depende de deixar de lado políticas e ideias ultrapassadas. Em suas observações sobre a economia global, nota os problemas do setor imobiliário em outros países, como a China, onde a urbanização e a ascensão da classe média urbana são peças fundamentais. É por aí, afirmou, que vejo a insistência em promover o investimento imobiliário, mesmo com os riscos existentes. Afinal, sem esse dispêndio inviabiliza-se o modelo. Revista do SFI - Em um de seus artigos recentes no Estado, escreveu que estamos vivendo de esperança o derradeiro mal, segundo Nietzche. A filosofia, enfim, ganha espaço no cotidiano, como instrumento de apoio em tempos de transformações tão profundas e incertezas dominantes? Afinal, até o crescimento da China está 32 - SFI

2 perdendo força, não, mas mesmo assim as autoridades chinesas parecem insistir no investimento imobiliário, mesmo sob o risco de bolha? Monica Baumgarten de Bolle A economia e a filosofia são inseparáveis, sobretudo, nesses tempos de grandes transformações. A Economia, afinal, nasceu da Filosofia Adam Smith era um filósofo! Além disso, a economia é uma ciência social às vezes nos esquecemos disso em meio a tantos números, dados e modelos. Veja o que está acontecendo no Brasil uma grande movimentação social provocada por um sentimento generalizado de insatisfação que não pode ser reduzido apenas ao mau momento da economia brasileira. A China passa por sua própria transformação uma transição complicada de modelo de crescimento, em que a urbanização e a ascensão da classe média urbana são peças fundamentais. É por aí que vejo a insistência em promover o investimento imobiliário, mesmo com os riscos existentes. Afinal, sem esse dispêndio inviabiliza- -se o modelo. Música e poesia aparecem com frequência nas suas crônicas, em O Globo e no Estado, ou em suas entrevistas. De que maneira esses temas a ajudam a explicar o momento econômico brasileiro, dada sua formação clássica, na London University, cinco anos no Fundo Monetário Internacional, com cadeira na PUC-Rio e hoje à frente da Casa das Garças? Além dos aspectos fundamentais, confere um valor crescente à chamada economia comportamental, a textos inovadores como no livro Rápido Monica: música e literatura para explicar a economia e Devagar, do Prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman? Acho a Economia uma disciplina fascinante que, infelizmente, muitas vezes é relegada à aridez dos argumentos matemáticos. Gosto de recorrer à música e à literatura para torná-la mais atraente, para chamar atenção para os diversos temas importantes que cercam o nosso conturbado País, num contexto internacional não menos atribulado. E agora, José? A festa acabou. A luz se apagou. O povo sumiu. A noite esfriou... sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto, que fuja a galope, você marcha José. José, para onde?. Essa não é a epígrafe do nosso momento atual? A Economia como ciência não pode se distanciar do que ocorre mundo afora nesse sentido, é uma disciplina em transformação. Torna- -se cada vez mais interdisciplinar, acoplando-se a diversas áreas, como a psicologia comportamental. O livro de Daniel Kahneman, Thinking Fast and Slow, sintetiza alguns desses importantes avanços na compreensão de como tomamos decisões econômicas, e, por conseguinte, de como esse processo afeta a reação dos mercados às políticas anunciadas pelos governos, aos resultados macroeconômicos observados. divulgação Quais as leituras que mais recomenda para entender o Brasil e, especialmente, a economia brasileira, hoje? Coordenou um livro recente, O futuro da indústria no Brasil, com Edmar Bacha, que trata SFI - 33

3 da questão central da desindustrialização. O que diria da política de campeões nacionais, que as autoridades começam a desmentir. Ela significa um risco a mais ou apenas se inclui na Bolsa BNDES, como a qualificou? A desindustrialização é algo inevitável? E no setor da construção civil? O Brasil está atravessando um momento crítico, um ponto de virada. Não há nada que sintetize, que explique, o momento estamos em meio à fluidez. Contudo, isso não quer dizer que não sejamos capazes de apontar problemas. A queda de participação da indústria no PIB é um problema, por isso tratamos do tema no livro que organizamos. Mais do que propor soluções, nossa ideia era estruturar o debate, deixá- -lo em evidência para que as pessoas compreendessem melhor algumas de suas causas e de suas nuances, possibilitando uma reflexão mais aprofundada sobre os rumos da indústria nacional. Há muitos fatores por trás da chamada desindustrialização. Decerto, as políticas de promoção de campeões nacionais, à revelia da produtividade e da competitividade das empresas agraciadas, não foram bem sucedidas, não resgataram a nossa indústria. A falta de rumo macroeconômico, tampouco. No setor de construção civil temos um enorme potencial que não deve ser desperdiçado. Temos um déficit habitacional para resolver, uma infraestrutura para consertar e uma demanda inequívoca A médio prazo e com a adoção de políticas corretas, a retomada dos Estados Unidos nos beneficiará por meios diretos e indiretos. A fragilidade europeia será sempre um risco recorrente. pela casa própria. Não devemos pôr isso a perder com políticas macroeconômicas desconjuntadas, com o descaso em relação ao ambiente regulatório e com o intervencionismo estatal. Esses foram, afinal, alguns dos protagonistas da derrocada da indústria... Em sua visão, como será o Brasil nos próximos 10 anos? Inevitavelmente seremos mais ricos ou corremos o risco de nos tornarmos vítimas do auto- Mais do que propor, a ideia é estruturar o debate sobre a indústria brasileira, pois há muitos fatores por trás da chamada desindustrialização, como a baixa produtividade e baixa competitividade. -engano, sobre o qual o professor Eduardo Giannetti escreveu uma obra primorosa, há alguns anos? Acho que as ruas deixaram claro que o brasileiro não tem mais disposição para o autoengano e para a complacência é assim que entendo as manifestações que tomaram conta do País. Por isso, acredito que o Brasil se depara com uma grande chance de melhorar substancialmente nos próximos anos. Mas, para isso, é preciso deixar de lado velhas políticas e ideias ultrapassadas, Na economia, significa abandonar medidas encarquilhadas como o protecionismo, as regras de conteúdo local, a promoção de campeões nacionais, o descaso com a inflação e com as contas públicas. Para progredir, temos de deixar para trás tudo aquilo que evidentemente não deu certo. Não deu certo flertar com a inflação, não deu certo implantar o dirigismo estatal para conduzir o crescimento, não deu certo deixar de lado o cuidado com as contas públicas brasileiras. Acredita que o Brasil poderá se aproveitar da retomada da economia norte-americana, caso esta de fato se concretize? Também acredita nessa retomada, ou a fragilidade presente na União Européia representará um grave obstáculo à recuperação norte-americana? A recuperação americana, caso se solidifique, será uma excelente notícia para a economia mundial. E, é claro, também 34 - SFI

4 que será lentamente corrigido. Os preços dos imóveis no Rio, hoje, ainda me parecem demasiado altos sobretudo quando os comparamos aos que prevalecem nas grandes metrópoles globais como Paris, Nova York, Londres. Contudo, vejo a correção como algo salutar para o mercado imobiliário mais à frente. O setor de construção é bastante importante para a atividade, não só pelo que contribui diretamente para o PIB, mas por todas as outras atividades que movimenta, como melhoria em transportes, sanepara o Brasil. Nosso desafio será o de navegar a turbulência atrelada à remoção das políticas de estímulo monetário excepcionais que marcaram os últimos cinco anos. No curto prazo, isto é, nos próximos 12 meses, isso não será fácil. Como já vimos, os mercados de câmbio reagirão desfavoravelmente, pressionando a inflação e exigindo que o governo brasileiro contenha essas pressões por meio de um maior zelo com as contas fiscais. Podemos ter um outro ano de crescimento exíguo em decorrência disso e também dos desequilíbrios da economia brasileira que precisam ser sanados. Contudo, no médio prazo e com a adoção de políticas corretas, a retomada dos Estados Unidos nos beneficiará por meios diretos e indiretos. A fragilidade europeia será sempre um risco recorrente para o quadro global os problemas do Velho Continente estão muito longe de serem resolvidos. Entretanto, acredito no dinamismo da economia americana e na capacidade de reação que vem demonstrando nos últimos meses. traste com o curto prazo, com as tendências de maior aperto na indústria da construção civil, conforme as sondagens da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o papel desse setor é importante na sustentação do PIB industrial e na formação bruta de capital fixo, não? Em que medida um enfraquecimento dessa indústria poderia afetar o ritmo dos investimentos? Acho que o mercado imobiliário nas grandes capitais passou por um período de excessos Endividar-se para construir um imóvel é mais saudável para os balanços privados do que o endividamento para comprar um eletrodoméstico. Gostaria de falar um pouco sobre juros e ativos, notadamente aqueles vinculados ao setor imobiliário, que é o foco da Revista do SFI. Como avalia a política de juros e o valor dos ativos? Compraria ou recomendaria comprar como investimento um imóvel no Rio, hoje, ou os preços lhe parecem muito salgados, talvez desajustados? E em São Paulo? Em conamento, etc. Como mencionei, se arrumarmos a casa, temos um grande potencial a explorar nos próximos anos. Quanto à política de juros, no momento ela está subserviente à situação macroeconômica do País. Com a inflação em alta e a pressão cambial, o Banco Central terá de elevar as taxas de juros mais do que imaginava quando deu início ao atual ciclo de aperto monetário. Isso tenderá a esfriar o mercado imobiliário ao longo dos próximos meses. Mais uma questão sobre temas imobiliários: como vê o desenvolvimento do crédito imobiliário no Brasil, que tende a se tornar a maior carteira dos bancos, assim como já ocorre no exterior? Acho que é uma anomalia termos um nível tão baixo de crédito habitacional menos de 10% do PIB no Brasil. Portanto, vejo com otimismo o aumento das carteiras de crédito dos bancos destinadas ao setor. O endividamento das famílias para a aquisição de um imóvel é mais saudável para os balanços privados do que o endividamento para a compra de eletrodomésticos, ou mesmo de automóveis. Melhores condições para se adquirir a casa própria também tende a fomentar a poupança privada de médio e longo prazo, ampliando os mercados de crédito e de ativos. divulgação Voltando às questões macroeconômicas, há algum tempo escreveu que o Brasil está lutando contra a crise com as SFI - 35

5 armas de que dispõe, para não entrar em recessão. Como lhe pareceria aceitar uma recessão curta e fortalecer os fundamentos macroeconômicos (inflação, juros, situação fiscal), como foi feito em 2003, na era Lula, ou em 1980, na Coreia, quando o PIB diminuiu cerca de 6%? Parece-me que não teremos outra alternativa, a julgar pelo comportamento da inflação, do câmbio, pela desconfiança do investidor externo em relação ao País. Não defendo que se aumente o desemprego para combater a inflação. Contudo, como o governo foi mais tolerante do que devia com a trajetória dos preços, não restou outra opção que a de esfriar a atividade já combalida para evitar uma piora do quadro inflacionário interno. Para isso, é preciso concatenar a política monetária e a política fiscal. Ou seja, de pouco adianta subir os juros se continuar a aumentar o ritmo de despesas. Afinal, o nível de emprego no Brasil lhe parece sustentável? As tendências demográficas bastam para explicar a escassez de oferta de mão de obra? No caso da indústria, a combinação de emprego em alta com produtividade em baixa provoca um certo desconforto, não? Não se pode ignorar que o País sofreu uma imensa transformação estrutural nos últimos 20 anos. O grau de formalização da mão de obra aumentou e o mercado de trabalho mudou. Contudo, esse processo parece estar se estancando devido à ausência de foco em políticas para qualificar a mão de obra, priorizando os reajustes do salário mínimo, e outras políticas afins, que aumentam o hiato entre salários e produtividade. Isso onera todos os setores, sobretudo a indústria combalida. O ônus demográfico explica parte da escassez e da pressão salarial. Contudo, o alto custo da mão de obra no Brasil também resulta de uma série de distorções em nosso sistema, como a rigidez das leis trabalhistas, os incentivos inadvertidamente concedidos para que o setor de serviços se expandisse muito rapidamente, sufocando os outros setores com a pressão que exerce sobre o mercado de trabalho o setor de serviços é naturalmente mais intensivo em mão de obra, sugando recursos que poderiam ser alocados na construção civil ou na indústria. Quais são as políticas públicas que devem nortear o crescimento brasileiro, no Attílio longo prazo? Enfrentar a crise da educação está em primeiro lugar? Bem, as ruas estão aí, dizendo ao governo o que fazer. A Revolução da Classe Média que vivenciamos nos últimos 20 anos foi incompleta. Formalizamos o trabalhador, mas não lhe demos saúde, educação, transporte, saneamento enfim, não lhe proporcionamos uma qualidade de vida que transcendesse o consumismo. O PIB do povo não se resume a salários e empregos. O sujeito que trabalhava no mercado informal e que hoje tem carteira assinada, paga impostos e não sabe para onde vai o dinheiro que entrega ao governo sofre nas filas do SUS, pena para ver seus filhos adequadamente alfabetizados, carece de redes de esgoto, enfrenta, dia após dia, o flagelo do transporte público. Tudo isso está em primeiro lugar. O desafio para o governo é articular e garantir à população os seus direitos por um serviço público de qualidade sem piorar ainda mais as contas públicas SFI

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