As Neurociências e o lugar da cognição social para o conhecimento científico da relação cerebral eu-mundo

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1 As Neurociências e o lugar da cognição social para o conhecimento científico da relação cerebral eu-mundo PAULO CROCHEMORE MOHNSAM DA SILVA * Introdução Ele controla todas nossas ações, é quem nós somos, é a fonte de nossas emoções, contém uma vida de memórias e um mundo de pensamentos. é com essa frase e a imagem de um cérebro que começava a série de TV da BBC, Brain Story, no ano de Pelo menos desde o anuncio da Década do Cérebro 1, estamos em meio a um entusiasmo em relação a o futuro que não se limita às revistas para leigos e aos programas de TV. Para Eric Kandel (2003: 142), como os biólogos focalizaram seus esforços na compreensão do cérebro/mente, a maior parte deles está convencida de que a mente representará para a biologia do século XXI o que os genes representaram para a biologia do século XX. Em meio a esse fervor e à dispersão de pesquisas da atualidade, o sociólogo Alain Ehrenberg (2009: ) oferece uma distinção analítica capaz de diferenciar as práticas em Neurociências. Para ele, podemos vislumbrar um programa fraco e um programa forte. O primeiro diz respeito às pesquisas relativas a doenças como Alzheimer e Parkinson, assim como a descobertas do substrato neuropatológico de doenças mentais como as esquizofrenias. Já o segundo se refere às práticas (científicas, clínicas e sociais) que têm por base a explicação materialista na qual o cérebro é o fundamento da mente, do espírito 2. Aí se encontram as ainda incipientes disciplinas de Neurociência Social e Neurociência Cognitiva Social que serão centralmente abordadas aqui. O presente artigo tem o objetivo de explorar a relação entre discursos no nível da produção de conhecimento do programa forte. Minha finalidade não é, portanto, apreender as raízes profundas que promovem a existência de certos discursos neurocientíficos. Não * Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Agência financiadora: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). 1 Disponível em <http://www.loc.gov/loc/brain/proclaim.html>. Acessado em 27/6/ Podemos concordar com Steven Rose (2006: 11), para quem o cérebro humano, com seus 100 bilhões de células nervosas, com seus 100 trilhões de interconexões, é o fenômeno mais complexo no universo conhecido, atrás apenas da interação de uns 6 bilhões de cérebros como esses e de seus donos no interior da cultura sociotecnológica do ecossistema do nosso planeta? Se concordarmos, podemos dizer que o programa definido por Ehrenberg é forte pela ambição já que ele busca dar conta, ao menos em parte e por recortes, de um objeto extremamente complexo, mesmo, ou especialmente, para as perspectivas e achados atuais das Neurociências: a relação entre os indivíduos que vivem em sociedade a partir do cérebro.

2 2 pretendo abordar o conhecimento sobre o ser humano a partir de seu cérebro analisando a epistémê na qual se insere. O trabalho arqueológico de Michel Foucault (1995; 2007) explicitou os a prioris históricos, as regras que determinam a dispersão de enunciados em relação ao verdadeiro e ao falso sobre as quais se eleva o conhecimento em dadas épocas. Minha ambição, contudo, é restrita ao conhecimento enquanto um nível de superfície no qual os discursos emergem e se encontram e onde se conformam as disciplinas. Mantenho o objetivo arqueológico que pretende entender como objetos se formam no interior do próprio discurso, porém explorarei o discurso e a relação daquilo que é enunciado com o jogo entre visibilidade e invisibilidade (FOUCAULT, 1998). Para esse fim, busco em Ludwik Fleck (2010) uma teoria mais ampla sobre a ciência e a produção de conhecimento. Concordando com a existência de uma epistémê mais profunda, procurarei avaliar as alegações de enunciados como parte de estilos de pensamento, enquanto aquilo que subjaz a toda descoberta, pois antes de a tradição, a educação e o hábito afirmarem uma disposição para sentir e agir (direcionados e restritos) que se adéquam a um estilo de pensamento, a produção de conhecimento se caracteriza pela necessidade primeira de aprender a ver e a fazer as perguntas (FLECK, 2010: 133). Para ser possível analisar o que está ocorrendo com o conhecimento sobre o ser humano com o advento das Neurociências, sem cair em uma posição de julgar a veracidade das descobertas, sigo a orientação de Foucault (1995: 23-25) de renunciar às coisas elas mesmas como se elas existissem desde sempre e viessem à tona em um golpe de precisão racional para definir como se formam os objetos no interior de práticas discursivas. A despeito de certas divergências possíveis entre as abordagens de Foucault e Fleck, a ênfase sobre a atividade do pensamento sem distingui-la a priori das coisas em si os aproxima. Para Fleck (2010: ), traçamos uma fronteira demasiado nítida entre o que pensamos e o que existe: temos que reconhecer no pensamento uma certa força criadora de objetos, e nos objetos, uma origem a partir do pensamento [conforme um estilo de um coletivo]. A partir desta ênfase, compreendo a Neurociência como uma prática específica de nossa sociedade que diz respeito a uma dada relação entre o visível e o invisível, na qual uma aliança entre palavras e coisas constitui modos determinados de ver e enunciar que determina uma dada ordenação de significantes e significados (FOUCAULT, 1998). A partir de tal premissa, as Neurociências em seu programa forte podem ser entendidas como tecnologias intelectuais, isto é, modos de tornar visíveis e inteligíveis o mundo e as pessoas (ROSE, 2011). Compartilho, assim, da perspectiva de Ian Hacking (2009) e seu nominalismo

3 3 dinâmico, o qual postula que as práticas de nomear interagem com as coisas que nomeiam assim como as coisas que existem interagem com nossas concepções. Por isso, o objetivo desse artigo é captar alguns aspectos discursivos do vir a ser histórico dos objetos neurocientíficos, de tudo o que é individuado e sobre o que é possível falar em termos cerebralistas. Para apreender o duplo (re)engendramento Como é possível conhecer a relação cérebro - si mesmo - mundo social? Se pela perspectiva que proponho não partirei da ideia de que há uma relação imediata entre percepção do que se vê e representação da coisa em si por meio de discurso (enquanto mero suporte) é preciso analisar o estilo de pensamento, isto é, como se constitui não o que se explica, mas o que há para ser explicado (FLECK, 2010, ROSE, 2007: 12). Tomo as Neurociências, assim, através de seus modos de problematizar o ser humano como um conhecimento situado entre domínios de objetos e conjuntos conceituais definidos por práticas e discursos. Trata-se de recolocar a questão do conhecimento, inquirindo não o quanto ele atinge as coisas mesmas, mas na própria forma como um tipo de olhar e um tipo de linguagem funda determinada ordenação epistemológica da realidade, produzindo uma nova ontologia do ser humano a partir do cérebro, seus circuitos neuronais e seus processos neuroquímicos. Desta forma, entendo a existência mesma da cognição social a partir da rede de neurônios peça chave que liga o indivíduo e seu cérebro com um mundo inteligível como parte dos deslocamentos e metamorfoses discursivas dentro do saber. As entidades que surgem, se transportam e se modificam são mostras das descontinuidades próprias da produção e estabilização de um tipo de conhecimento. Entretanto, não tomo tais rupturas tal como a epistemologia de Gaston Bachelard (1990) como um avanço da ciência no sentido de um progresso da racionalidade (no qual os critérios de pureza formatam melhor o modo de experimentar) contra os obstáculos que a ela se opõem. As rupturas expressam a conformação de novos arranjos de conhecimento que constituem novas formas de explicar o mundo. Assim, a centralidade do cérebro não impõe uma cisão com outras explicações. Ao contrário, analisando os artigos mais citados por meio dos filtros da Web of Science pelos tópicos Neuroscience, cognitive e social é possível observar, através dos tipos de alegações e uso de conceitos, o encontro de duas importantes características de estilos de pensamento: por um lado, de abordagens mentalistas e, por outro, de abordagens evolutivas. Mas como esses

4 4 dois discursos aparentemente distantes se encontram nas formulações neurocientíficas? O resultado disso é que a conformação do arranjo do programa forte em Neurociências tornou possível a existência do homem como um ser social a partir de um duplo (re)engendramento cerebral de suas capacidades mentais e de sua história filogenética. Para o objetivo do presente artigo explorar o que chamo de (re)engendramentos do discurso sociobiológico dos genes e do discurso mental na direção da centralidade do cérebro tomo a Sociobiologia de Edward O. Wilson como um relevante empreendimento disciplinar que organizou a partir dos anos de 1970 pressupostos e pesqusias que buscavam explicar a organização social relacionando comportamento, ambiente e adaptação dentro de uma abordagem evolucionista com desdobramentos na direção da análise do ser humano independentemente dos primados sociológicos estruturantes 3. Do mesmo modo, abordo a tentativa de síntese cognitivista de Howard Gardner enquanto um esforço por afirmar a legitimidade e necessidade da análise da mente, o que acabou por auxiliar na promoção de uma linguagem cognitiva que se desdobrou em uma abordagem do homem independente dos primados físico-biológicos ou comportamentais. Certamente, tanto os enunciados que postulam a evolução do ser humano paralelamente à evolução da organização social, quanto os enunciados que têm como pressuposto a existência da mente com determinadas funções e capacidades não começam a existir com Wilson e Gardner. A escolha de suas obras, todavia, servirá para apresentar expressões sintéticas e organizadas de perspectivas com histórias mais longas que buscam entender o ser humano tanto como um ser social dentro de um continuum evolutivo, quanto como um ser com uma série de capacidades mentais que lhe permite conhecer a si e ao mundo. 3 É importante salientar que seria possível levar em conta outras disciplinas e áreas de conhecimento que conformam a grande área da Biologia Evolucionária, pois a abordagem evolucionária do comportamento humano aparece sob uma diversidade de denominações que ou são sinônimos ou possuem diferenças quanto a ênfases. A distinção, por exemplo, entre Sociobiologia e Ecologia Comportamental Humana (cujas raízes remontam às diferentes tradições acadêmicas próprias dos Estados Unidos e da Inglaterra) é comumente abordada como resultado de divergências quanto à centralidade do que deve ser analisado e quanto aos modelos de determinação genética do comportamento humano (HAMES, 2001; MULDER, 2003). Contudo, não é por acaso em uma publicação da Ecology Society of America de 1979 ambas aparecem conjuntamente no título de uma revisão, cuja introdução começa com a seguinte afirmação: cursos avançados em ecologia comportamental, sociobiologia, ou tópicos similares são agora ensinados em muitas faculdades e universidades (...) (WELLS, 1979: 852). A história e os estudiosos de ambas as disciplinas se entrelaçam e se confundem e mesmo a denominação não é bem delimitada (CASSIDY, 2006). Poderia ainda me referir ao chamado darwinismo social que de maneiras distintas, e antes de ter tal denominação, aparece nos trabalhos de Herbert Spencer e Thomas Malthus. No entanto, essas teses não explicavam a sociedade pela biologia, mas aplicavam alguns pressupostos darwinistas, especialmente àqueles referentes à competição e luta pela sobrevivência, a fim de produzir uma teoria propriamente social, além de serem relacionadas, segundo Richard Hofstadter (1955), inicialmente com os princípios do individualismo do laissez-faire e, posteriormente com certas idéias racistas e eugenistas.

5 5 Dois pólos: a explicação biossocial e a centralidade da mente As ideias próprias de um estilo de pensamento não são apenas transmitidas como conceitos operacionais. Enquanto partes integrantes dos enunciados de um discurso, os conceitos nos informam sobre a própria forma de pensar. Eles expressam os tipos de questões colocadas à natureza (CANGUILHEM, 1968; JACOB, 1983) e, assim, a base sobre a qual pode se edificar uma explicação global. A centralidade da formação dos conceitos é tomada para se apreender a expressão da norma de verdade do discurso científico (MACHADO, 1981: 22-24). Atravessando não apenas o âmbito científico, e sendo parte de uma epistémê nos termos foucaltianos, os conceitos de um estilo de pensamento produz uma inclinação a tipos específicos de problemas e uma disposição para determinadas formas de percepção (FLECK, 2010). Ao mesmo tempo, o estilo de pensamento conduz ao estilo dos conceitos. Correlacionando Fleck e Foucault, tomo o estilo de pensar como expressão das e como expresso nas modalidades de existência do conjunto de signos de um discurso. No discurso, é o enunciado a entidade que permite ao conjunto de signos estar em relação com um domínio de objetos, prescrever uma posição definida a qualquer sujeito, estar situado entre outras performances verbais e ser dotado de uma materialidade passível de repetição (FOUCAULT, 1995: 123). Assim, abordar a ideia de adaptação ou cognição enquanto algo importante para o conhecimento neurocientífico não significa que a ideia passe de lá para cá com uma finalidade explicativa como numa perspectiva cumulativa de ciência. Os conceitos não são meramente partes de uma evolução na qual eles são realocados dentro de um paradigma ou disciplina mais completo ou mais verdadeiro (FOUCAULT, 2007). A presença das noções de adaptação ou cognição no interior de um conhecimento centrado sobre o estudo do cérebro humano são a ponta explícita de uma determinada abordagem em detrimento de outras possíveis, conformando o espaço da veracidade. Argumento, nesse sentido, que a presença desses conceitos dentro de ideias cerebralistas mostra como o ser do humano é tomado de determinado modo em termos sincrônicos e como pode estar sofrendo uma inflexão em termos diacrônicos. Vejamos brevemente alguns princípios dos estilos de pensamento sociobiológicos e cognitivos. Gardner, através de referências à Filosofia, à Linguística, à Psicologia e à Computação, organiza uma série de metodologias, pressupostos teóricos, hipóteses e resultados de pesquisas como parte de um movimento intelectual, a revolução cognitiva, em direção a uma nova ciência da mente. Haveria para Gardner dois pressupostos necessários

6 6 para uma abordagem cognitiva. O primeiro é a necessidade de um nível analítico descrito por Gardner (1996: 53-54), o qual ele chamou de nível da representação. Esse nível comporta entidades representacionais como símbolos, regras, imagens o material da representação que é encontrado entre o input e o output e a forma como são combinadas, transformadas ou contrastadas umas com as outras. O segundo pressuposto que Gardner (1996: 55) apresenta, a ideia do computador como modelo do pensamento humano, se baseia na concepção que a mente humana pode ser colocada ao lado da máquina que raciocina, tem objetivos, revisa o seu comportamento, transforma informação e coisas semelhantes. A propriedade de pensamento do computador fora, segundo Gardner (1996: 46), um dos elementos que ajudaram a resolver ou a dissolver o clássico problema mente-corpo já que, com os estudos de Hilary Putnam, as operações lógicas em si (o software) podiam ser descritas independentemente do hardware [correspondentes ao cérebro humano] específico no qual elas casualmente houvessem sido implementadas. O simpósio de Hixon nos Estados Unidos em 1948 expressou a inviabilidade das abordagens fisicalistas e comportamentalistas, delimitando explicitamente a possibilidade da virada para a cognição em relação aos parâmetros conceituais colocadas pelo behaviorismo até o fim da década de 1940 (GARDNER, 1996: 133). Os processos mentais passaram a ser investigados em laboratórios sendo o objeto central. A consideração de representações da informação dentro da mente (GARDNER, 1996: 110) retomava à sua maneira o psiquismo e o internalismo próprios do programa no final do século XIX de Wilhem Wundt, para quem a Psicologia deveria estudar a experiência consciente. As pesquisas de Cherry e Broadbent apontaram os caminhos para o estudo do que, conjuntamente com a ideia computacional, viria ser chamado processamento de informação. Gardner (1996: 105) afirma que, do ponto de vista da constituição da abordagem cognitivista, é relevante a produção de um modelo dos processos humanos de pensamento. O funcionamento cognitivo, então descrito por Braodbent com um diagrama de fluxo, apresentava a informação entrando através dos sentidos e sendo armazenada por um curto prazo para depois ser filtrada seletivamente antes de entrar em um sistema perceptivo de capacidade limitada (GARDNER, 1996: 106). Independentemente das críticas ao esse esquema, a criação do diagrama de fluxo parece ter impulsionado a produção de diversos experimentos e asserções cujo fundo comum era a centralidade do processamento entre o input e o output. Esse objeto cravado entre as sensações provindas do mundo e o comportamento resultante, separado tanto da neurofisiologia, quanto da cultura, é o que o

7 7 enunciado da abordagem cognitivista deixou como legado. A força desse enunciado está em seu resultado, uma vez que a representação mental, um conjunto de construtos que podem ser invocados para a explicação de fenômenos cognitivos, indo da percepção visual à compreensão de histórias (GARDNER, 1996: 403), fora alçada a um plano de análise próprio e, portanto, liberto ao lado dos planos neuronal e sociocultural. Wilson, por seu turno, começa sua principal obra, Sociobiolgy: the new synthesis, abordando a filosofia. Contrariando a tese de Albert Camus em Mito de Sísifo que afirma ser o suicídio a questão central da filosofia, Wilson nos oferece uma explicação evolucionária: ele nega a centralidade do tema da existência própria (e do suicídio que com ela terminaria), afirmando que o sistema límbico e o hipotálamo, produtos da evolução por seleção natural, combateria o suicídio através de sentimentos de culpa e altruísmo, pois um organismo não vive para si mesmo. E nem vive primordialmente para gerar outros organismos, mas antes para reproduzir genes. O organismo portador do gene é um veículo, um complexo dispositivo para a sua preservação e distribuição. Wilson é taxativo: o organismo é uma forma de o DNA produzir mais DNA, sendo o sistema límbico e o sistema hipotalâmico um complexo projetado para perpetuar o DNA. O ser do humano desloca-se de sua individualidade e de sua consciência de si. E Camus estaria duplamente errado: nem o tema do suicídio é central devido à tendência a sobrevivência, nem o problema da existência própria é fundamental já que o indivíduo, dentro de uma temporalidade evolucionária, não passa de um meio através do qual uma história mais profunda de nós mesmos se desenrola: a história genética em seu processo de seleção natural na qual a própria sobrevivência individual está à serviço da transmissão dos genes. A Sociobiologia 4, ao correlacionar os genes com a evolução filogenética, e essa com o desenvolvimento de certas formas de sociedade, balizadas a partir também de uma evolução cultural, propõe uma teoria evolutiva também para o social (aqui entendido como dimensão própria de várias espécies de animais, e não apenas humanos). Assim, não apenas a espécie 4 A Sociobiologia é uma disciplina explicitamente híbrida que incorpora conhecimentos da Etologia (o estudo naturalístico de padrões globais de comportamento), da Ecologia (o estudo das relações dos organismos com o seu ambiente) e da Genética, no intuito de deduzir princípios gerais concernentes às propriedades biológicas de sociedades inteiras. O que é verdadeiramente novo acerca da Sociobiologia é a maneira pela qual ela extraiu os fatos mais importantes sobre organização social de sua matriz tradicional a Etologia e a Psicologia e os reordenou com base na Ecologia e na Genética, estudadas ao nível de populações, no intuito de mostrar como os grupos sociais se adaptam ao ambiente através da evolução (WILSON, 1981: 16-17). Ela pode ainda ser definida como o estudo sistemático da base biológica de todo comportamento social 4 (desde os insetos até os humanos) e se distingue da Sociologia porque se opõe à sua abordagem estruturalista e não evolucionária em sentido genético (WILSON, 2000: 4).

8 8 evolui em dados ambientes e estágios culturais. O social também evolui em correlação com os indivíduos e seus comportamentos dentro de um quadro biologicamente referenciado. Segundo Wilson (2000: 32), os principais determinantes da organização social seriam parâmetros demográficos, taxa de fluxo gênico e coeficientes de relacionamento. No entanto, para ele, é central compreender que em um sentido evolucionário e funcional, esses fatores orquestram a articulação de comportamentos de membros de um grupo. Mas se esses fatores determinam as organizações sociais em sua evolução, Wilson coloca a seguinte questão: o que determina os determinantes?. Sua resposta é a existência de dois fenômenos que conformam o impulso da evolução social: a inércia filogenética e a pressão ecológica. A inércia filogenética consiste nas propriedades profundas de uma população que determina tanto a extensão de uma inclinação em uma ou outra direção no curso evolutivo, quanto a importância na qual a taxa evolutiva pode ser mais ou menos veloz. Já a pressão do ambiente é o conjunto de influencias ambiental, sejam as condições físicas (temperatura, umidade), sejam as questões envolvendo a vida (predadores, competidores, isto é, os agentes da seleção natural). A relação direta entre a biologia e o social através das noções de evolução e adaptação permite a elaboração de enunciados livres de um externalismo estruturante do comportamento humano. O homem e o social se constituem biologicamente ao longo de suas histórias naturais. A evolução social seria, portanto, o resultado da resposta genética de populações a pressões ecológicas dentro dos constrangimentos impostos pela inércia filogenética 5, enquanto a adaptação definida pela pressão ambiental se manifesta nas escolhas e ações recíprocas de comportamentos que compõem a vida social das espécies o que produz a tendência a comportamentos idiossincráticos, como o altruísmo. As Neurociências e suas inflexões A Neurociência Social e a Neurociência Cognitiva Social 6 dependem para suas alegações da visibilidade da localização cerebral 7 das funções que compõem nossa 5 Traduzido pelo autor do original: Social evolution is the outcome of the genetic response of populations to ecological pressure within the constraints imposed by phylogenetic inertia (WILSON, 2000: 32) 6 Enquanto a chamada Neuropsicologia estuda centralmente distúrbios cognitivos e emocionais e tem objetivos diagnósticos, terapêuticos e cognitivos (GIL, 2003: 1), a Neurociência Social e a Neurociência Cognitiva Social tomam por objeto principal o indivíduo sem ênfase na dimensão patológica. Definindo Neurociência Social, Cacioppo e Bernston (2001), partem do princípio que os humanos são animais sociais (que precisam naturalmente estar juntos ). Eles afirmam que o cérebro é o órgão da mente, sendo um fundamental componente do desenvolvimento do indivíduo que atua em um teatro que seria inegavelmente social: o que

9 9 especificidade humana: nossos estados mentais-emocionais e nossas capacidades de conhecer a si e ao mundo. O tema do localizacionismo cerebral se refere a muitas controvérsias ao longo da história e tem como um de seus principais marcos a Frenologia originária dos estudos de Franz Joseph Gall no final do século XVIII e início do século XIX. Para a Frenologia, o cérebro era um órgão não-unitário composto por domínios relativos a processos mentais e aspectos comportamentais específicos. De lá para cá, muitos debates redefiniram o estatuto de localização cerebral, mas foi a ideia de um mosaico no qual o encéfalo formaria uma rede conexionista que definiu a ideia de que as funções cerebrais-mentais são processadas em série e em paralelo em regiões distintas, mas conectadas a (KANDEL, 2000). Ao que indicam as pesquisas em Neurociências atuais, essa concepção mais flexível de localizacionismo parece ser aquela que contemporaneamente possibilita uma gama de alegações. Assim, para Kandel (2000: 15), o conceito atual de localização que prevalece é mais moderado e elaborado que aquele original da Frenologia: o que está localizado não seria, portanto, um conjunto de faculdades, mas conjuntos de operações elementares executadas paralelamente; as faculdades mais complexas derivariam, por conseguinte, da conexão entre muitas regiões do cérebro e estariam divididas em sub-funções, enquanto o processamento neural para uma dada função estaria distribuído no cérebro sendo organizado em vários locais distintos. Com o advento das máquinas que permitem escanear o cérebro vivo, o localizacionismo ganha novos contornos e grande legitimidade. Atualmente, embora haja muitas lacunas e controvérsias 8 com os resultados do imageamento cerebral, os níveis de determina a opção por uma doutrina analítica de múltiplos níveis é a busca pelas relações entre o que se processa no cérebro e o que se processa na dimensão social. Já a definição de Neurociência Cognitiva Social por Lierberman (2007) afirma que tal área diz respeito ao estudo do processo no cérebro humano que guia o indivíduo a entender aos outros e a si mesmo, bem como possibilita a ele que aja efetivamente no mundo social. Assim, a Neurociência Cognitiva Social diz respeito à ênfase em níveis de análise que vão desde a experiência e o comportamento de indivíduos motivados em contextos (nível social), passando pelos mecanismos de processamento de informação que originam tal fenômeno (nível cognitivo) até o sistema cerebral no qual se localizam esses processos (nível neural) (OCHSNER e LIEBERMAN, 2001: 719). 7 As tecnologias mais utilizadas têm sido a tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) e a ressonância magnética funcional (fmri). 8 A evidência mais forte de envolvimento da mesma região cerebral em duas tarefas [testes em laboratório] diferentes surge quando precisamente os mesmos voxels [áreas tridimensionais representadas no escaneamento] no mesmo cérebro (preferencialmente da mesma sessão de escaneamento) são significativamente ativados por cada uma das duas tarefas. Enquanto alguns estudos de neuroimagem encontram esses altos padrões, muitos não o fazem. Tradução minha do original: The strongest evidence for engagement of the same brain region by two different tasks arises when the very same voxels in the same subject s brain (preferably from the same scanning session) are significantly activated by each of two different tasks. While some neuroimaging studies meet this high standard, many do not. (SAXE, CAREY e KANWISHER, 2004: 90-91). Um artigo tem feito bastante sucesso ao evidenciar um inflacionamento das correlações estatísticas em estudos de neuroimagem: Voodoo Correlations in Social Neuroscience (VUL, HARRIS, WINKIELMAN e PASHLER,

10 10 oxigenação sanguínea 9 em partes do cérebro medidos por frmi seria aquilo que informaria sobre respostas neuronais a estímulos produzidos em laboratório, que, por sua vez, têm a finalidade de captar a localização da atividade cerebral em diferentes tarefas que pretendem fazer funcionar certos processos cognitivos (como inferência de estados mentais a outros, percepção e reconhecimento, previsão da intencionalidade etc). Com a localização cerebral, a cognição social, como um dos objetos mais importantes de pesquisa do programa forte neurocientífico, situa-se entre os neurônios e a história de nossa espécie. Reformulada, a ideia de cognição social passa a ser o processo neurobiológico que permite tanto humanos como animais interpretar adequadamente os signos sociais e, conseqüentemente, responder de maneira apropriada (BUTNAM e ALLEGRI, 2001). Contudo, apesar de encontrar a visibilidade da evolução pela comparação com outros primatas e em relação a outros hominídeos e a visibilidade do mental pela resposta orgânica a estímulos externos, as Neurociências necessariamente lidam com a descrição do cérebro passando ao oculto processo evolutivo e às ocultas capacidades humanas de conhecer o mundo. A superfície descritível da atividade neuronal encontra a profundidade invisível seja da evolução filogenética, seja da função mental. A libertação do nível mental no cognitivismo demonstra sua força, pois, apesar das fortes tendências fisicalistas das Neurociências, ideias como representação permanecem impelindo achados. É o caso da representação motora da ação através dos chamados neurônios espelho (GALLESE, EAGLE, MIGONE, 2007) que funcionariam não na região da visão, mas na região motora do cérebro, tanto quando se executa uma ação, quanto quando se percebe uma ação o que implica também entendimento sobre o que se passa. Ao perceber corpos, o ser humano está apto a perceber ações, identificando movimentos do corpo humano. Através de estudos com fmri, Calvo-Merino, Glaser, Grèzes, Passingham e Haggard (2005) exibiram imagens de bailarinos experts e, então, alegaram a existência de ativação neuronal no córtex motor (responsável pelo movimento) e em algumas áreas parietais quando os que assistiam eram também bailarinos experts, em contraste com bailarinos iniciantes. O mesmo resultado de ativação se deu quando um bailarino observava o mesmo estilo de dança que o seu. Assim, aliada a percepção, esses estudos identificam 2008). Segundo os autores, aproximadamente metade dos resultados das pesquisas analisadas não resistem a uma análise mais apurada em termos de lógica estatística. 9 BOLD (blood oxygenation level dependent): medida que reflete a relação entre oxiemoglobina (hemoglobina ligada a oxigênio) e desoxiemoglobina (hemoglobina sem oxigênio). Quanto maior a desoxiemoglobina, mais oxigênio está sendo consumido num determinado local do cérebro. O pressuposto é que o aumento da atividade neuronal se expresse como aumento de oxigenação.

11 11 processos de reconhecimento. Temos, assim, uma espécie de conhecimento motor. Tal como nos processos com os neurônios espelho, há uma ativação cerebral semelhante tanto quando se experimenta uma sensação quando se reconhece a existência da mesma através de outrem. Os estudos de Wicker, Keysers, Plailly, Royet, Gallese e Rizzolatti (2003) atestam isso através da observação do funcionamento cerebral comparando ativações neuronais quando se sente um odor desagradável ou quando se reconhece uma expressão facial de desgosto. A própria teoria da mente a capacidade de inferir estados mentais a outros, tem seus desdobramentos centrados agora no discurso sobre o cérebro, pois é decomposta em diversos processos cognitivos simples (percepção de rostos e movimentos, atenção da visão, apercepção de intenções e metas) captados por experimentos em laboratório (SAXE, CAREY e KANWISHER, 2004). O processamento da informação, um antigo problema cognitivo, também aparece nas Neurociências, embora pouco relacionado com a metáfora computacional. Entre os inputs externos e os outputs, a entidade mental passa a se confundir com os caminhos fisioquímicos pelos quais a informação passaria. Um diagrama de fluxo nas Neurociências mantém a linguagem cognitiva e acresce os locais responsáveis por cada micro-processamento (ADOLPHS, 2003: 167). Atualmente, através das técnicas de neuroimagem, pesquisadores têm determinado áreas específicas (córtex pré-frontal lateral, córtex cingulado dorsolateral) para os processos que os as neurociências chamam de auto-regulação (MACDONALD, COHEN, STENGER e CARTER, 2000). De acordo com Goel e Dolan (2003), o córtex préfrontal lateral atua, por exemplo, para inibir crenças e raciocinar adequadamente resultado de uma relação entre a capacidade de raciocínio dedutivo e as crenças sobre o mundo social originárias de processos emocionais. A linguagem cognitiva não mostra uma continuidade dos discursos, mas antes, a forma pela qual se dão os deslocamentos: embalando as hipóteses, as teorias e as técnicas de pesquisa, o estilo de pensamento do cognitivismo é formatado dentro do discurso cerebralista. A metamorfose do enunciado da abordagem cognitivista que tomava o invisível como objeto, possibilitou, ao dirigir discursivamente as pesquisa neurocientíficas, achados que ligam funções e capacidades humanas abstratas a visualizações do cérebro. A cognição tem sido ser abordada complementarmente dentro de princípios estilísticos evolutivos e adaptativos, pois sua base física (certas regiões do cérebro) entra em cena como elemento que em sua evolução possibilitaria tanto o melhoramento das capacidades para processar informações sociais quanto a adaptação às demandas socialmente

12 12 estruturadas na história da espécie. Nesse sentido há uma regulação do indivíduo ao ambiente no curso evolutivo e uma capacidade de auto-regulação do indivíduo frente às demandas do social. Os genes da Sociobiologia não desaparecem, mas perderam seu lugar central para a relação entre cérebro e meio social. A história filogenética se mantém, mas o indivíduo não aparece como um veículo da transmissão genética: o homem é reintroduzido no centro da análise e concomitantemente descentrado a partir do cérebro. Um exemplo disto é que para as Neurociências a capacidade de auto-reflexão que contribuiria para a produção da ideia de um si mesmo parte ou pressuposto da autoregulação é um processo cuja base neural teria tido seu desenvolvimento em uma recente evolução (SEMENDEFERI et al, 2001). Até mesmo o volume das partes mais recentemente desenvolvidas do córtex cerebral tem sido relacionado ao tamanho dos grupos sociais nos quais se inserem os diferentes primatas (incluindo os humanos) como expressão da relação entre desenvolvimento da organização social e desenvolvimento do cérebro (ADOLPHS, 2003). Embora, a ênfase evolutiva biossocial recaia sobre os processos cognitivos adaptativos do homem ao seu meio, Frith e Frith (2010: 171), ao abordarem a ideia de cérebro social, lançam mão do argumento segundo o qual a evolução provavelmente teria inclinado os seres humanos a maneiras de agir pró-social e cooperativamente já que o desenvolvimento da comunicação não seria suficiente para explicar a evolução cultural. Nesse sentido, a história de nossa evolução nos informaria tanto sobre a relação entre o indivíduo e o ambiente social, quando ao desenvolvimento da própria organização social. Entretanto, a noção de adaptação que acompanha o cérebro desempenha uma dupla função no discurso neurocientífico: uma mais tradicional, oriunda da teoria evolutiva e uma deslocada da profunda história da espécie para a adequação entre comportamento e ordem social de acordo com contextos atuais. Não apenas o cérebro evolui de modo a produzir a adaptação do homem, como a evolução do cérebro humano instrumentaliza o indivíduo de modo a ser capaz de manter uma relação adaptativamente regulada com os grupos sociais. A partir desse quadro da auto-regulação o processo pelo qual o comportamento é monitorado por processos mentais, a emoção e a cognição aparecem diversamente imbricados: tanto a habilidade para regular nossas respostas ou estados emocionais é um importante componente da função social normal e interações adaptativas com o ambiente 10 (PHELPS, 2006: 44), quanto o paralelismo entre emoção e cognição nos capacitam a tomar decisões sem base 10 Traduzido pelo autor do original: The ability to regulate our emotional responses and states is a critical component of normal social function and adaptive interactions with the environment.

13 13 apenas no raciocínio lógico-dedutivo (DAMASIO, 1996). Independentemente dos lugares da emoção e da cognição nos estudos do cérebro, a tarefa da abordagem neurocientífica da cognição social consiste em explicar de que maneira os caminhos do processamento da informação em termos neurais regulam o comportamento social de modo adaptativo (ADOLPHS,2003: 165). Por fim, cabe ressaltar a relação, atravessada pelas abordagens evolutivas e cognitivas, entre o programa forte em Neurociências e a Psicologia. É possível notar, quando nos deparamos com o programa forte, dois fenômenos: a) muitos dos pesquisadores são oriundos das áreas da Psicologia e, apesar de manterem certos preceitos e conceitos, reivindicam denominações neurocientíficas para seus empreendimentos; b) muitos dos laboratórios nos quais são realizados experimentos através de tarefas estão localizados em departamentos de Psicologia nas universidades dos Estados Unidos e Inglaterra. Isso tem uma explicação. A chamada revolução cognitiva foi encabeçada por psicólogos e sempre teve como suporte a própria Psicologia Cognitiva. Já a Sociobiologia e disciplinas afins, como a Ecologia Comportamental, deram origem e em certa medida à Psicologia Evolucionária. Ambas as psicologias surgem com força nas formulações neurocientíficas atuais, embasando hipóteses, experimentos e alegações. Talvez essa seja mais uma prova de força da Psicologia enquanto disciplina, a despeito de todas as críticas a respeito de sua cientificidade. Não é possível afirmar, mas talvez seja precisamente a manutenção de certas premissas do estilo de pensamento psicológico o motivo da força do programa forte, uma vez que oferece um arcabouço conceitual às Neurociências proporcionando diretamente (pela tradição acadêmica, pela tradição dos objetos e dos métodos etc) os meios pelos quais a explicação do homem não se limita ao quadro de referência limitado das relações entre estímulo externo e oxigenação de regiões cerebrais através de tecnologias de imagem. Considerações finais Analisar o enunciado é questionar em relação às coisas ditas o modo de sua existência, observando as instâncias de controle discursivo e analisando os processos de rarefação, mas também de reagrupamento e de unificação dos discursos (FOUCAULT, 2009: 60-65). Desse modo, as séries de discursos que passam nas ciências cognitivas e nas ciências que explicam o social pela biologia e história natural e se encontram nas Neurociências e seu programa forte constituem positividades, isto é, domínios de objetos, a propósito dos quais se pode afirmar ou negar proposições verdadeiras ou falsas (FOUCAULT, 2009: 69-70).

14 14 Embora o nível representacional como algo absolutamente à parte e a determinação biológica pelos genes tenham perdido espaço, o mental e o sociobiológico mantêm-se no centro do debate neurocientífico, definindo grande parte do campo discursivo sobre o qual se pode afirmar a verdade sobre o ser humano. A criação e síntese do cognitivismo impulsionaram o discurso sobre a mente humana como centro da explicação da conduta e modos de pensar e conhecer o mundo. Por outro lado, as alegações com base na ordem de composição biossocial, expressos pela Sociobiologia, produziram os meios pelos quais é possível ligar o social ao biológico através da idéia de evolução e adaptação. Se os discursos sobre cognição e evolução são rarefeitos e estão dispersos nas controvérsias de disciplinas e áreas de conhecimento, eles também aparecem reagrupados sob novas fórmulas nas Neurociências. Assim, o estilo de pensamento da abordagem sociobiológica possibilita a existência do enunciado sobre o social diretamente através do biológico, enquanto o estilo de pensamento da revolução cognitivsta possibilita a existência do enunciado sobre a relação entre o indivíduo e o mundo através de um objeto situado em uma dimensão intermediária que os conecta. E tudo isso dentro dos parâmetros neurocientíficos de estudos sobre a localização cerebral. Esse é o modo de ordenar o circuito indivíduo cérebro cognição sociedade sem apelo a uma determinação biológica rígida (genes da sociobiologia) ou a um objeto absolutamente imaterial (mente do cognitivismo). O que parece um rompimento é antes um novo engendramento de pressupostos que possibilitaram que fosse enunciável explicar o homem tanto flexibilizando a determinação biológica (plasticidade cerebral), quanto materializando uma série de processos mentais (localizados em circuitos neuronais). A visibilidade comportamental determinada geneticamente e a invisibilidade do mental dão lugar à visualidade localizacional determinada pela relação flexível entre circuitos neuronais e ambiente, da qual se depreende um social como ordem natural e pressuposto metodológico no qual o indivíduo e seu cérebro estão adequados, exceto em casos patológicos, através de capacidades cognitivas.

15 15 REFERÊNCIAS ADOLPHS, Ralph. Cognitive neuroscience of human social behavior. In.: Natural Reviews/ Neuroscience, volume 4, BACHELARD, Gaston. O materialismo racional. Lisboa: Edições 70, BUTNAM, Judith; ALLEGRI, Ricardo F. A cognição social e córtex cerebral. In.: Psicologia: Reflexão e Crítica, volume 14, n. 2, CACIOPPO, J. T., & BERNSTEIN, G. G. Social neuroscience. In.: SMELSER, Neil J.; BALTES, Paul B. Baltes (eds.). International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences. Oxford: Elsevier. Publisher's, CALVO-MERINO, B., GLASER, D. E., GRÈZES, J., PASSINGHAM, R. E. e HAGGARD, P.. Action observation and acquired motor skills: an fmri study with expert dancers. In.: Cerebral Cortex, volume 8, CANGUILHEM, Georges. L objet de l histoire des sciences. In.:. Études de d histoire et de philosofie des sciences. Paris: Vrin, CASSIDY, Angela. Evolutionary psychology as public science and boundary work. In.: Public understanding Science, volume 15, DAMASIO, António R.. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Cia. das Letras, DYSON-HUDSON, R. & SMITH, E. A. Human territoriality: an ecological reassessment. American Anthropologist n.80, EHRENBERG, Alain. O sujeito cerebral. In.: Psicologia Clínica, vol.21, n. 1, FLECK, Ludwik. Gênese e desenvolvimento de um fato científico: introdução à doutrina do estilo de pensamento e do coletivo de pensamento. Belo Horizonte: Fabrefactum, FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro, Forense Universitária, As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, A ordem do discurso aula inaugural no College de.france pronunciada em 2 de dezembro de São Paulo, Edições Loyola, O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, FRITH, Uta; FRITH, Chris. The social brain: allowing humans to boldly go where no other species has been. In.: Philosophical Transactions of The Royal Society - Biological Sciences, Volume 365, GALLESE, Vittorio; EAGLE, Morris N.; MIGONE, Paolo. Intentional attunement: mirror neurons and the neural underpinnings of interpersonal relations. In.: Journal of American Psychoanalytic Association, v. 55, n. 1, Disponível em <http://www.unipr.it/arpa/mirror/pubs/pdffiles/gallese/gallese-eagle-migone% pdf> Acessado em GARDNER, Howard. A nova ciência da mente: uma história da revolução cognitiva. São Paulo: USP, GIL, Roger. Neuropsicologia. São Paulo: Santos, GOEL, V. & DOLAN, R. J.. Explaining modulation of reasoning by belief. In.: Cognition, volume 87, HACKING, Ian. Ontologia Histórica. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2009.

16 16 HAMES, R. Human Behavioral Ecology. In.: SMELSER, Neil J.; BALTES, Paul B. Baltes (eds.). International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences. Oxford: Elsevier. Publisher's, HOFSTADTER, Richard. Social darwinism in American thought. Boston: Beacon Press, JACOB, François. A lógica da vida: uma história da hereditariedade. Rio de Janeiro, Graal, KANDEL, Eric R. The brain and behavior. In.: KANDEL, Eric R.; SCHWARTZ, James H.; JESSEL, Thomas M. (org.). Principles of neural sciences. New York: McGraw-Hill, A biologia e o futuro da psicanálise: um novo referencial intelectual para a psiquiatria revisitado. In.: Revista de Psiquiatria. RS, 25(1): , jan/abr LEWONTIN, R. C. Sociobiology as an adaptationist program. In.: Behavioral Science, vol. 24, Issue 1, MacDONALD, A. W., COHEN, J. D., STENGER, V. A. & CARTER, C. S.. Dis-sociating the role of the dorsolateral prefrontal and anterior cingulate cortex in cognitive control. In.: Science, volume 288, MACHADO, Roberto. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Foucault. Rio de Janeiro: Graal, MULDER, Monique Borgerhoff. Human Behavioral Ecology. In.: Encyclopedia of life sciences. Davis: University of California, OCHSNER, K. N., & LIEBERMAN, M. D.. The emergence of social cognitive neuroscience. In.: American Psychologist, PHELPS, Elizabeth A., Emotion and cognition: insights from studies of the human amygdale. In.: Annual Review of Psychology, Volume 57, ROSE. Nikolas. Inventando nossos selfs: psicologia, poder e subjetividade. Petrópolis: Vozes, The politics of life itself: biomedicine, power, subjectivity in the twenty-first century. Princeton: Princeton University Press, ROSE, Steven P. R.. A promessa e a ameaça. In.: O cérebro do século XXI: como entender, manipular e desenvolver a mente. São Paulo: Globo, SAXE, R. CAREY, S, KANWISHER, N. Understanding other minds: linking developmental psychology and functional neuroimagin. In.: Annual Review of Psychology, volume 124, SEMENDEFERI K, SCHLEICHER A, ZILLES K, ARMSTRONG E, VAN HOESEN G. W. Evolution of the hominoid prefrontal cortex: imaging and quantitative analysis of area 10. American Journal of Physical Anthropology, Volume 114, VUL, Edward; HARRIS, Christine; WINKIELMAN, Piotr & PASHLER, Harold. Voodoo correlations in social neuroscience. In. Perspectives on Psychological Science, dec. 23, WELLS, Kentwood D. Behavioral Ecology and Sociobiology. In.: Ecology, Vol. 60, No. 4, Disponível em < Acessado em WICKER, B., KEYSERS, C., PLAILLY, J., ROYET, J. P., GALLESE, V., & RIZZOLATTI, G. Both of us disgusted in my insula: The common neural basis of seeing and feeling disgust. In.: Neuron, volume 40, n. 3, WILSON, Edward O. Sociobiology: the new synthesis. Cambridge, Mass: Belknap Press of Harvard University Press, Da natureza humana. São Paulo : Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

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