Os arquivos e o Arquivo (e vice-versa): temas para os Estudos Organizacionais

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1 Os arquivos e o Arquivo (e vice-versa): temas para os Estudos Organizacionais Autoria: Amon Barros Resumo O texto discute o Arquivo enquanto conceito e enquanto espaço (em transição). Parto do pressuposto de que aprofundar o entendimento desses termos pode contribuir para que a pesquisa histórica em Administração avance como novos questionamentos sobre diversos objetos, inclusive os documentos e os arquivos. No percurso, discorri sobre as mudanças influenciadas pelo avanço das tecnologias de informação, especialmente da internet, e fiz algumas ponderações sobre os Estudos Organizacionais que se valem de arquivos. Concluo que, para além de ser uma discussão metodológica ou conceitual, refletir sobre os arquivos pode ajudar na aproximação e utilização de documentos para construir narrativas históricas. 1

2 Introdução O objetivo deste texto é discutir sobre o Arquivo (conceito), os arquivos (espaços e conjuntos de documentos) i e a Administração, mais especificamente do ponto de vista dos Estudos Organizacionais e da História. O interesse no debate emergiu, por um lado, da percepção de que, embora estes termos permeiem textos sobre o uso de documentos como fontes para pesquisa histórica em Administração (e.g. COSTA e SARAIVA, 2011) e que pensam o saber administrativo (e.g. BARROS, et al., 2011), eles muitas vezes não têm um tratamento específico nos trabalhos da área. Além disso, empiricamente pensar sobre o tema se fez importante durante a elaboração de trabalhos realizados anteriormente os quais nem sempre inquiriam arquivos e documentos a partir de um entendimento mais claro sobre suas características ainda que tenham sido consultados diversos registros em arquivos físicos ou digitalizados. Isso me levou a questionar se realizava pesquisas documentais ou em arquivos e qual a implicação de uma ou de outra coisa. Durante o percurso de desenvolvimento de pesquisas anteriores refleti de forma mais detida sobre a utilização de documentos como fontes para a realização da pesquisa histórica e, o que é o objeto desse texto, sobre o Arquivo e sua função ativa de criação de memória e enquanto conceito filosófico a ser permanentemente revisitado. Nesse texto, defendo que o documento remete a um arquivo, seja no sentido de um conjunto de outros documentos produzidos sob as mesmas regras, seja como enunciados que possibilitam a emergência de determinado discurso materializado em textos ou outros registros. A ampliação da compreensão do que pode ser considerado como arquivo é efeito das discussões pós-modernas (COOK, 2012a) ii. A discussão também é impactada pelos efeitos das transformações práticas provocadas pela web e pelas tecnologias de informação de modo geral, que ampliam a capacidade de armazenamento e difusão de registros. A utilização da internet abre espaço para uma gama de pesquisas, reduz os custos de armazenamento e disponibilização de documentos (que podem ser digitalizados para serem mais bem preservados e divulgados). A internet não só transforma a pesquisa com fontes históricas, com a ampliação da disponibilização de materiais digitalizados, mas também desafia o conceito de arquivo enquanto um lugar e as visões mais tradicionais relacionadas ao seu surgimento orgânico, como efeito natural das atividades de uma determinada organização, como defende, por exemplo, Schellenberg (2003). A problemática sobre o uso de arquivos é recorrente no campo da História e na Arquivologia (COOK, 2012a; SCHWARTZ e COOK, 2002). Está presente também nas discussões da área de Administração, embora em menor medida, especialmente nas áreas de memória organizacional e de sistemas de informação (cf. CORAIOLA, 2012; 2013). De acordo com Schwartz e Cook (2002), além de ser um conceito com desenvolvimentos na filosofia, como na discussão estabelecida por Derrida (1995), o arquivo é objeto de toda uma área de saber, a Arquivologia, além de ser um espaço físico (e virtual, no caso da internet), bem como alvo de uma profissão específica (de arquivista). Como aponta Featherstone (2000), a crescente capacidade de armazenar informações não elimina a necessidade de se decidir sobre o que deve ser deixado de fora dos arquivos. A função de arquivar (ou descartar) relacionada ao trabalho do arquivista em organizações dedicadas a guardar arquivos fica relativamente ampliada, na medida em que a capacidade de armazenar informações se torna mais disseminada. Ainda assim, os dados ausentes e a 2

3 veracidade dos dados presentes são inerentes a pesquisas em arquivos: sempre haverá um juízo sobre o que será ou não preservado, o que não muda com a internet. Contudo, como nota L Eplattenier (2009) acerca da pesquisa histórica no campo de Retórica e Composição, também na subárea de estudos históricos na Administração, são poucos os textos que tratam de refletir sobre especificidades da pesquisa em arquivos, embora seja possível mapear discussões que margeiam o tema. Por ser uma subárea relativamente pequena, é compreensível que existam poucos textos refletindo de forma mais detida sobre as metodologias e os métodos históricos em Administração. Na maior parte das vezes, os trabalhos se limitam a recontar o processo que permitiu o acesso aos arquivos e algumas vezes as metodologias e técnicas auxiliares para classificação e análise dos dados. Este trabalho discute o tema do ponto de vista de um pesquisador da área de Administração, e mais especificamente de Estudos Organizacionais, no contexto dos estudos históricos. O argumento desenvolvido não é exaustivo o que seria impossível e tampouco busca extrair um conceito que permita operacionalizar pesquisas em ou sobre arquivos ou delimitar o conceito Arquivo de forma fixada. Como dito, além do uso massivo dos computadores e da digitalização de um número cada vez maior de documentos, a discussão sobre os arquivos também foi impactada profundamente pelos questionamentos advindos da filosofia de base pós-modernista ou pós-estruturalista e o debate permanece aberto em relação a possíveis transformações dos conceitos que estruturam tal campo de saber (ver, por exemplo, COOK, 2012a; ZIMMERMAN, 2007; SCHWARTZ e COOK, 2002; FEATHERSTONE, 2006; 2000). Além de retomar alguns pontos dos debates sobre o Arquivo como conceito e os arquivos, seus efeitos e suas causas, este texto discute algumas implicações da rede mundial de computadores e suas potencialidades para a pesquisa arquivística de cunho histórico. A reflexão realizada se alinha à que já fizeram Coraiola (2012) num estudo que se concentra especialmente sobre a análise da evolução da legislação que trata dos arquivos no Brasil e Costa e Saraiva (2011) que discutiram o processo de produção da memória nas organizações. Há outro objetivo mais prático que é estimular a discussão sobre a importância da preservação de arquivos não só de instituições públicas, como também de organizações privadas, que podem contribuir para fundamentar narrativas históricas não apenas da Administração, mas de diversos outros campos da vida e do cotidiano dos quais organizações empresariais, públicas ou sociais fizeram e fazem parte. O Arquivo, os arquivos Há diversas compreensões possíveis para o que se entende por arquivo. A palavra pode se referir a um lugar, a um conjunto de documentos ou, mais genericamente, a uma coleção de dados ainda desordenada, mas com alguma ligação entre si sempre atribuída. Para Stoler (2009), o arquivo numa perspectiva mais estrita se refere a uma instituição ou a um conjunto de documentos que ela guarda. Contudo, há um alargamento dos significados da palavra Arquivo que passa a se referir também a uma evocação metafórica que se refere a um corpus, uma coleção de fontes. Na visão de Schellenberg (2003) principal autor da vertente modernista das discussões sobre arquivos (COOK, 2012a) para definir o que pode ser considerado parte de um arquivo é 3

4 preciso analisar se os documentos [...]foram produzidos no decorrer de atividades organizadas e com finalidades definidas, se foram criados no processo de alcançar objetivos administrativos, legais, empresariais, ou outra finalidade social, então o material é potencialmente arquivável (SHELLENBERG, 2003, p. 13, tradução livre). Schellenberg (2003) enfatiza que o motivo pelo qual o material foi arquivado deve ultrapassar a finalidade para a qual foram inicialmente designados ou o motivo pelo qual foram acumulados. O autor aponta ainda que o arquivo é mantido para o uso de outras pessoas que não aquelas que produziram os objetos. Além disso, sempre que manuscritos históricos se tornam parte da documentação de uma atividade organizada [...] eles também podem ser considerados arquivos (SCHELLENBERG, 2003, p. 18, tradução livre). Nessa visão apontada por Cook (2012a) como modernista, o papel das instituições que arquivam registros é selecionar itens não a partir de seus valores individuais, mas em relação a um conjunto que documenta certa produção. Dessa perspectiva, os arquivos se desenvolveriam naturalmente a partir das atividades de certa organização ou, em menor medida, de um indivíduo. A abordagem modernista questiona a ideia de que haveria uma versão unívoca na história que os documentos refletiriam objetivamente, e que poderia ser contada pelo historiador neutro e imparcial, mas não se detém sobre as intencionalidades que perpassam a produção dos documentos. Ou seja, aceita a ideia de que diferentes pontos de vista podem ser adotados para se narrar um fato, mas difere da perspectiva que emerge a partir dos debates provocados pelo pós-modernismo, pois não entende as provas documentais como decorrência de ações inseridas em tramas de poder que dão forma e delimitam discursos e possibilidades de fazer (e lembrar). Cook (2012a, p. 15) critica o entendimento de Schellenberg, pois embora os modernistas tenham feito a crítica à unicidade da história apontando que há possibilidades de interpretações (em contraposição à noção de que o documento é a reprodução de atos e fatos empíricos), não se detiveram sobre a natureza do documento e o que ele representa (e como pode fazê-lo). Neste texto, o Arquivo é entendido a partir dessa acepção pós-moderna que, como apontado a partir de Stoler (2009), expande o significado do conceito deixando de vislumbrar apenas os espaços (as organizações que arquivam) e o que eles contêm, para se referir a uma metáfora relacionada a um conjunto de possibilidades de dizer (e fazer) que é preservada nas tramas de poder (cf. FOUCAULT, 2008). O pós-modernismo questiona a possibilidade de um documento ou um Arquivo serem percebidos como algo natural ou orgânico. As origens de nossos Arquivos modernos já implicam, com efeito, na combinação de um grupo (os eruditos ), de lugares (as bibliotecas ) e de práticas (de cópia, de impressão, de comunicação, de classificação, etc.). É, em pontilhados, a indicação de um complexo técnico [...]. Nelas se conjugam a criação de um novo trabalho ( colecionar ), a satisfação de novas necessidades (a justificação de grupos familiares e políticos recentes, graças à instauração de tradições, de cartas e de direitos de propriedade específicos), e a produção de novos objetos (os documentos que se isolam, conservam e recopiam) cujo sentido, de agora em diante, é definido pela sua relação com o todo (a coleção). [...] É produtor e reprodutor. (DE CERTEAU, 2000, p , grifos no original). Ou seja: o Arquivo é construído a partir de práticas humanas, sujeito assim às vicissitudes que dão contorno a essas ações. A flexibilização das formas como as fontes são delimitadas e utilizadas foi apontada por Foucault (2008) como um dos desafios metodológicos da nova história. 4

5 O documento, pois, não é mais, para a história, essa matéria inerte através da qual ela tenta reconstituir o que os homens fizeram ou disseram [...] ela procura definir, no próprio tecido documental, unidades, conjuntos, séries, relações. É preciso desligar a história da imagem com que ela se deleitou durante muito tempo e pela qual encontrava sua justificativa antropológica: a de uma memória milenar e coletiva que se servia de documentos materiais para reencontrar o frescor de suas lembranças ela é o trabalho e a utilização de uma materialidade documental (livros, textos, narrações, registros, atas, edifícios, instituições, regulamentos, técnicas, objetos, costumes etc.) que apresenta sempre e em toda a parte, em qualquer sociedade, formas de permanências, quer espontâneas, quer organizadas (FOUCAULT, 1995, p. 7-8). O Arquivo pode ser entendido como um legado de ações que já aconteceram, mas que deixaram registros inscritos (e não necessariamente escritos). Stoler (2002) aponta que o arquivo (incluindo os espaços físicos) não é apenas uma fonte de conhecimento, mas deve ser também entendido como objeto de reflexão, tópico a ser analisado por quem se aventura a buscar conteúdos, é instrumento de conhecimento e de poder sendo construído na interseção desses jogos (STOLER, 2009). Uma vez que se preocupa com arquivos coloniais, Stoler (2002; 2009) enfatiza que arquivos podem ser entendidos como monumentos erigidos por seus mantenedores para legitimar e retroalimentar uma dada visão no lugar de outra qualquer. Assim, para além de questionar a veracidade dos documentos, torna-se necessário pensar sobre quais eram (e quais são) os seus usos, as possibilidades que abrem, bem como os caminhos que são cerrados. Encarar o documento como um monumento (FOUCAULT, 2008) é essencial para poder entender a própria dinâmica que permite sua preservação. Como aponta Foucault (2008, p. 8) [o] documento não é o feliz instrumento de uma história que seria em si mesma, e de pleno direito, memória a história é, para uma sociedade, uma certa maneira de dar status e elaboração à massa documental de que ela não se separa. Ou seja, como aponta Rago (1995), os textos dos documentos não revelam o passado da forma como realmente existiu. Por sua vez, os arquivos, nas palavras de Schawrtz e Cook (2002, p. 2, tradução livre), [...] enquanto registros têm poder sobre a forma e a direção de pesquisas acadêmicas em história, memória coletiva e identidade nacional, sobre como nos conhecemos enquanto indivíduos, grupos e sociedades. Nesse sentido, devemos encarar os documentos a partir de um ponto de vista inquisidor e também as instituições que os guardam. Além disso, os documentos remetem a enunciados que os extrapolam e não se relacionam apenas às normas de arquivamento da instituição que os abriga ou das pessoas que os seleciona, mas a um aparato discursivo que permeia toda a sociedade (FOUCAULT, 2008). Os arquivos e o direito a acessá-los e aos documentos que guardam são fruto de construções sociais, que se estabelecem também a partir das necessidades de informação e dos valores sustentados por governos e pela sociedade civil (SCWHARTZ e COOK, 2002). A existência deles é afetada por aspectos materiais, como o desenvolvimento de tecnologias que impactam os registros produzidos pelas pessoas. Também é possível afirmar que a relação com a construção e preservação de arquivos é um construto e também um signo que extrapola os agentes individuais (ver DERRIDA, 1995). De um lado, temos os responsáveis por arquivar documentos de uma organização (qualquer que seja ela). De outro, temos os indivíduos que também são influenciados pelo contexto em que se inserem para decidir sobre o que deve ou não ser produzido, arquivado ou dispensado. Schwartz e Cook (2002) apontam que as forças sociais devem ser levadas em consideração até quando se pensa na produção de cada documento individual (independente de sua forma 5

6 de registro, seja vídeo, foto ou texto). Nesse caso, o documento é uma forma de mediação entre o seu produtor e o seu destinatário e seu registro e disponibilização é mediada pelos responsáveis pelo arquivo. Steedman (2009) aponta que a noção daquilo que é ou não é histórico passa na verdade por dois crivos. É o pesquisador em interação com os dados que torna algo em história (ou em narrativa). Nesse contexto, devemos considerar, ainda, a crescente facilidade de se armazenar e disponibilizar informações a preços declinantes amplia a possibilidade e a atratividade de criação de bancos de dados virtuais que compreendam até aspectos que outrora poderiam ser considerados irrelevantes (GIL e ELDER, 2012). Assim, boa parte das organizações e, mesmo, das pessoas pode se responsabilizar por armazenar e divulgar informações que considera relevantes na medida em que documentam essa ou aquela atividade humana. Se antes apenas os grandes nomes tinham um arquivo passível de ser tornado público ou consultado, o aumento de tempo e de informações que é produzida e transmitida via internet, já pode fornecer material de arquivo sobre um indivíduo que em geral ficam em servidores dos provedores de serviços ao mesmo tempo em que elas são gravadas iii. Como aponta Cook (2012a), o arquivista será chamado a sair de uma posição passiva, na qual espera que um arquivo seja produzido para então preservá-lo, para passar a ser um criador do arquivo. Mas, ainda que seja considerado todo o aumento na capacidade de armazenamento, é a decisão de manter algo registrado, como parte de um repertório que pode ser acessado ação que não se realiza alheia às dinâmicas de poder que torna um registro passível de análise para o pesquisador. Como aponta Marques (2007, p. 14): a memória se constitui como um campo de lutas políticas, em que se confrontam diferentes relatos da história, visando ao controle do arquivo. Pensar o arquivo demanda, pois, uma atenta consideração das operações da memória e do esquecimento, de suas interconexões. A organização que arquiva em seus espaços físicos também perde o monopólio da guarda de documentos já que estes podem ser armazenados e agrupados por um número cada vez maior de organizações e pessoas iv. Para Featherstone (2000), o arquivo, mais do que ser visto como um espaço específico no qual são depositados diversos registros e minúcias que registram a cultura, é chamado a circunscrever todos os aspectos da vida cotidiana. Assim, o problema se torna não o que colocar nos arquivos, mas o que deixar de fora (FEATHERSTONE, 2000, p. 170, tradução livre). Essa questão sempre acompanhou, ainda que implicitamente, os arquivos, mas atualmente ganha nova dimensão em boa medida devido aos diversos meios técnicos de armazenamento e reprodução que vêm surgindo. Assim, a ampliação do significado do arquivo se deve em parte ao advento e à disseminação do uso da internet, bem como do crescente número de documentos digitalizados, que ampliam tanto a possibilidade de se criar arquivos, como sua acessibilidade. Como se discutirá na seção seguinte essa nova perspectiva abre caminhos de pesquisa e permite que sejam feitas novas perguntas e encontradas novas respostas, seja em antigos arquivos digitalizados, em arquivos que se tornam acessíveis por novas regulamentações ou em arquivos formados a partir da coletânea de fontes que não se originaram diretamente das atividades de uma só organização. 6

7 Os arquivos na internet Como notam De Certeau (2000) e Foucault (2008), a escrita da história não se resume à coleta mecânica de fatos e seu ajuntamento. Ela é efeito do posicionamento do autor, do contexto em que é escrita e dos elementos de que dispõe. De Certeau (2000) ressalta ainda a importância de todo o aparato técnico para a escrita da história, que se modifica na medida em que novas formas e possibilidades de fazer emergem. A partir de Derrida (1995), é possível afirmar que a internet e outros desenvolvimentos tecnológicos provocam mudanças na constituição dos arquivos e nas relações que as sociedades estabelecem com eles. O autor afirma: o que não é mais arquivado da mesma maneira, não é mais vivenciado da mesma maneira (DERRIDA, 1995, p. 18). O surgimento da internet impõe mudanças no significado do termo arquivo e do arquivamento. Como notam Gil e Elder (2012), se anteriormente o deslocamento físico do pesquisador aos arquivos guardados por instituições era condição essencial para uma pesquisa em arquivos, atualmente o aparato tecnológico permite o alcance de mais pessoas ao mesmo tempo a um conjunto de documentos que esteja disponibilizado digitalmente. Possibilita também que as coletas sejam feitas por meio de ferramentas eletrônicas que permitem a busca ou contagem de uma palavra ou expressão, por exemplo. Dessa forma, o pesquisador fica livre da necessidade de ter que ler cada documento, o que traz uma modificação potencial não apenas na forma como a pesquisa é realizada, mas também na relação do pesquisador com seus dados de forma global. A acessibilidade traz ainda questões como a possibilidade da experimentação de certa angústia por não se conseguir analisar os dados à exaustão, explorando toda a sua complexidade em todos os seus detalhes (FEATHERSTONE, 2000). Trazendo essa noção para as demandas colocadas pela pesquisa científica na forma como é realizada atualmente, torna-se ainda mais relevante a ideia de que por um lado todo objeto é construído e de que, por outro, essa construção (ou esse recorte) sempre deixará de fora informações relevantes sobre aquilo que é estudado. Featherstone (2006) aponta que a imensa quantidade de informações armazenada e acessada de forma desordenada pode perder seu sentido no meio da massa de documentos e outras fontes disponíveis na internet. Com o advento da digitalização, a sobrevivência e a usabilidade da cultura e da história não precisa depender exclusivamente da disponibilidade de espaço para, ou a constituição física dos artefatos [embodiements] da produção cultural, muito menos do orçamento de uma só instituição. Agora pode ser possível manter cópias de qualquer coisa que é considerado verdadeira ou potencialmente de significância cultural por séculos e fazê-lo em um meio que, esperamos, será comparativamente fácil de conservar e facilmente pesquisável. Ao invés de beneficiar alguns poucos afortunados, essas riquezas poderiam estar à disposição de qualquer um com acesso à Internet e um computador, desde que os recursos estejam no domínio público (ZIMMERMAN, 2007, p. 993). Caygill (1999) aponta para a importância política de se entender que a web pode realizar um potencial libertador do conhecimento (não de todo ele, obviamente), na medida em que revisita as hierarquias que são constituintes dos arquivos tradicionais, seja em relação ao distanciamento entre a instituição que mantém o arquivo e suas regras para registro, organização e acesso, seja em relação ao que pode ser arquivado e por quem. Uma vez que 7

8 aqueles que conhecem o passado têm mais possibilidades de formular interpretações que impactam o presente, a distribuição de acesso aos arquivos e sua interpretação sempre foi uma faceta das disputas de poder. A perspectiva de Caygill (1999) valoriza o trabalho do pesquisador, pois ainda que se entenda a web como um depositário de conhecimentos, ou seja, com eles já existindo lá, é necessário fazer as perguntas e as conexões corretas para que seja possível chegar às informações desejadas. Esse processo, não é apenas um processo de busca, mas também de criação de novos conhecimentos que emergem das ligações efetuadas para se chegar ao ponto desejado. Assim, diferentes pesquisadores com acesso à internet podem produzir diversas narrativas sobre um mesmo objeto presente nos arquivos virtuais, dado que em certo sentido é o próprio processo envolvido na busca que norteará as descobertas realizadas. Conforme Zimmerman (2007), a acessibilidade não é algo que se resume a facilitar o acesso de forma trivial. A disponibilidade dos documentos na internet permite que sejam realizadas pesquisas que não poderiam ser feitas de outra forma (por falta de fundos, por exemplo), além de permitir um nível de detalhamento muito maior, por ampliar as bases de dados consultáveis. Para alguns a internet funcionaria como uma espécie de arquivo geral da humanidade. Tal noção é questionável, já que algo sempre ficará de fora, como mostra, por exemplo, o trabalho de digitalização de arquivos referentes à história recente do continente africano, apresentado por Isaac, Lalu e Nygren (2005). O acesso ao computador e às ferramentas de digitalização bem como à rede mundial de computadores não é equanimemente distribuído. Some-se que a internet não é um só arquivo. Entendo que um arquivo deve ser composto por certas intencionalidades que o perpassam, dando unidade e especificidade àquilo que é guardado, na medida em que há um significante subjacente que é compartilhado. Além disso, a disponibilização de arquivos online, não os coloca imediatamente à disposição daqueles a quem pode interessar. Sem a mediação das organizações que os produziram para os arranjarem na internet de forma mais ou menos coerente (o que, por vezes, acontece), eles podem se apresentar como um conjunto caótico de dados, ainda que alguma característica comum lhes perpasse como pertencer a uma mesma época ou a um mesmo órgão de Estado ou versarem sobre um mesmo conjunto de práticas. Um conjunto de documentos, para ser considerado como arquivo, deve estar organizado mediante regras (sempre questionáveis e precárias), mas também pode ser pensado como parte de um Arquivo, mais abrangente, que os ligaria: o conjunto de elementos que narra uma determinada prática disseminada pelo corpo social, por exemplo. Yakel (2006) aponta que na relação entre o pesquisador e os arquivos, os arquivistas têm um papel fundamental de mediação. Como conhecedores dos documentos, estas pessoas são capazes de responder a perguntas mais elaboradas que, de outra forma (como na interação com uma base de dados na internet) não poderiam ser solucionadas. Yakel (2006) entende que o papel do arquivista permanece importante, ainda que venha sendo paulatinamente modificado com a emergência de novas experiências de navegação na web que permitem, por exemplo, que visitantes dos sites etiquetem (coloquem palavras-chave e/ou descrições) nos documentos que analisaram ou que os caminhos já elaborados por outras pessoas de um documento a outro fiquem registrados para visitantes futuros. Os pesquisadores que passaram pelos arquivos antes podem deixar rastros ou pistas de pesquisas aos que vão aos arquivos depois, mas também elaboram certa narrativa a partir daqueles dados. Como coloca Featherstone (2006), a ordenação em caixas e seções separadas que dava certo sentido aos 8

9 arquivos perde importância diante da descentralização alcançada a partir da disponibilização de arquivos na web. Cook (2012b) enfatiza a importância do papel do arquivista e do pesquisador já que coloca que a proveniência de um arquivo que anteriormente era entendida a partir das estruturas burocráticas que o produziram, deve ser repensada a partir de um olhar mais aberto. O foco do princípio de proveniência se deslocaria para a função, atividade, discurso e comportamento, ao invés de, como no passado, permanecer centrado nas estruturas, cargos, mandatos e origem. [...] o significado de proveniência é transformado de suas origens estruturalistas para um discurso contínuo centrado em funções, atividades, processos, forças sociais, e nas relações pessoais e organizacionais e culturas que coletivamente levam a criação de documentos, dentro e através de vidas pessoais e organizacionais em constante evolução. A nova proveniência oferece múltiplas perspectivas e muitas ordens de valor, ao invés de uma ordem fixa (COOK, 2012b, p ). Assim, a internet abriga uma miríade de documentos, que podem estar organizados como arquivos antes do pesquisador tomar contato com eles e que podem depois serem (re)organizados. A instantaneidade e o volume das comunicações que podem ser trocadas e guardadas ou, por fim, arquivadas permitem novas formas de se ver o que pode ser considerado arquivo ou material de pesquisa (GIL e ELDER, 2012) e o pesquisador pode disponibilizar os conjuntos de documentos que coleciona a outros pesquisadores. Esses dados têm que ser (re)avaliados e (re)organizados por cada um ou por cada grupo que nele tem interesse, mesmo que para isso às vezes seja necessário desfazer ordens e articulações que haviam sido definidas previamente. Aqueles que estão previamente organizados são em sua própria disposição, monumentos a certos poderes ou visões de mundo, pois como Kurtz (2007) e Schartz e Cook (2002) apontam que o processo de arquivar é sempre político. A metáfora do flaneur, por outro lado, pode caracterizar o passeio pelas coleções de fontes vistas inicialmente como disformes (FEATHERSTONE, 2006). Pesquisas em Administração e o uso de arquivos Na área de Administração no Brasil, não há muitos trabalhos que se utilizam de arquivos para elaborar reflexões. Um dos poucos trabalhos de fôlego sobre o tema é a tese de Coraiola (2013). Em parte, isso pode ser fruto das dificuldades de se encontrarem arquivos que permitam ao pesquisador elaborar reflexões mais aprofundadas sobre o seu objeto de pesquisa. Saraiva e Costa (2011) discutem que parte do problema se deve ao fato de os arquivos serem memórias selecionadas e, uma vez que muitas pesquisas são feitas em organizações com fins lucrativos preocupadas com sua imagem, se torna mais improvável que arquivos com registros que possam ser considerados negativos sejam mantidos. Poucas empresas brasileiras executam esforços na manutenção de seus arquivos (COSTA e SARAIVA, 2011). Coraiola (2012) ressalta que apenas após 1960 a preservação de documentos empresariais para fins históricos começou a acontecer no País, diferentemente de empresas de países europeus que estabeleceram a prática no começo do século XX, e dos Estados Unidos da América (EUA), França e Inglaterra que começaram a fazê-lo após a Segunda Guerra Mundial. Conforme aponta Adkins (1997), os arquivos empresariais ganharam força nos EUA mais rapidamente nos anos 1970, tendo perdido ímpeto após a onda 9

10 da aplicação da reengenharia nos anos 1990, que tinha como um dos motes a redução de custos organizacionais. Para Adkins (1997), a legitimidade da manutenção de arquivos de empresas foi fortemente apoiada pelas pesquisas relacionadas pelos economistas que pesquisavam história empresarial (ou, mais propriamente, Business History). Além disso, a autora salienta que se num primeiro momento os esforços se direcionavam para a organização de material que pudesse contar a história das empresas de um ponto de vista positivo e como um esforço de relações públicas, com o tempo os arquivos passaram a ser vistos como instrumento para memória das empresas. Para a autora, isso se deve em parte a mudanças na composição da força de trabalho das empresas, que passava a ser cada vez mais instável, fazendo assim com que os trabalhadores deixassem de ser, em certo sentido, repositórios da memória das organizações. A memória organizacional é, por sua vez, objeto de estudos frequente da Administração, especialmente por parte dos autores que se posicionam no campo dos Estudos de Memória das Organizações (Organizational Memory Studies), que em geral se preocupa com aspectos relacionados à aprendizagem da organização e a aspectos de sua permanência ao longo do tempo. O arquivo, por sua vez, é composto por registros dos quais historiadores podem ser valer para rever aquilo que a memória apresenta como fatos, construindo novas narrativas sobre o que se passou (ROWLINSON, et al., 2010). E não apenas os arquivos da própria empresa, já que eles são sujeitos às decisões da própria organização sobre o que preservar e o que ser deixado ao esquecimento. Coraiola (2013) reforça a importância dos arquivos externos para se refletir sobre as organizações. Para operacionalizar sua pesquisa nos arquivos das organizações, Coraiola (2013, p. 44, tradução livre) define o conceito da seguinte maneira: um arquivo organizacional é uma coleção de documentos e registros produzidos por indivíduos, grupos, organizações ou Estados [1] que possuem uma natureza orgânica, [2] não são mais utilizados no desenvolvimento de atividades rotineiras e [3] foram preservados porque seu valor vai além de aspectos meramente técnicos, administrativos ou jurídicos. Como se percebe, Coraiola (2013) delineia um conceito bastante próximo à Schellenberg (2003), embora no restante do seu trabalho adote uma visão mais aberta em relação aos arquivos. A definição operacional estabelecida por Coraiola (2013) é útil e pertinente, mas deve ser colocada em perspectiva, na medida em que circunda o que é o arquivo empresarial e o delimita em torno de três elementos específicos, especialmente a intencionalidade de o arquivo ser um repositório da memória. Mas, do ponto de vista aqui adotado, é importante estar atento à intencionalidade de quem estabelece o arquivo (seja pessoa ou organização), operando assim novas possibilidades de articulação de histórias narráveis (MARQUES, 2007). Como afirma Marques (2007), em relação aos arquivos literários, os arquivos empresariais também são mediados por uma miríade de práticas discursivas que os perpassa. A metarreflexão sobre as lógicas dos arquivos que guardam os documentos a se estudar é um desafio extra para essas pesquisas. Os arquivos como formadores de parte importante do que se estabelecera como memória organizacional são fonte e lugar de disputas. Como colocam Costa e Saraiva (2011, p. 1764) acerca da formação da memória, ela é em parte constituída a partir das escolhas dos gestores. Contudo, como aponta Coraiola (2013), os trabalhadores e outros agentes também podem registrar eventos dos quais uma organização participa (como mudanças no contexto decorrentes da instalação de uma fábrica, por exemplo), ao mesmo tempo em que se observa 10

11 que o arquivista adota práticas e táticas para negociar o que deve ser guardado. Mas, de toda forma, essa intencionalidade atribuída às formas de representação do passado não pode ser desvinculada das relações de poder inerentes a esse resgate (COSTA e SARAIVA, 2011, p. 1764), e numa organização a capacidade de exercer poder não é equanimemente distribuída. No que concerne aos órgãos públicos é possível especular que parte das dificuldades em relação ao acesso a arquivos e documentos se dá por carências estruturais do País e dos entes federados para manter e preservar documentos, bem como pela historicamente baixa accountability do poder público. Há também que se considerar que apenas recentemente a preocupação com a publicidade dos documentos públicos ganhou forma consolidada com a Lei nº de 18 de novembro de 2011, conhecida como Lei de Acesso à Informação (BRASIL, 2011), que regulou o acesso a informações públicas, embora a discussão sobre a manutenção de arquivos venha de mais tempo, tendo sido promulgada a Lei de Arquivos em Assim, é de se esperar que o poder público ainda esteja se organizando para atender a demandas por informações que porventura sejam feitas sendo que isso não exclui a ideia de que o sigilo é utilizado como forma de restringir o acesso a dados relevantes e como instrumento de poder v. De toda forma, os avanços foram poucos no que se refere ao acesso aos arquivos produzidos por organizações públicas ou privadas (CORAIOLA, 2012). Devido às restrições discutidas aqui na utilização de arquivos em geral, parece especialmente interessante, ainda que pouco ortodoxo, estender o conceito do que são arquivos e do que é passível de ser arquivado. A noção flexibilizada do que seja um arquivo ou do que é uma fonte histórica fornece uma possibilidade de se pensar narrativas históricas a partir de materiais alternativos àqueles que as organizações produzem e frequentemente mantêm em segredo. Essa discussão pode ser estabelecida a partir da perspectiva de produção, acumulação e dispersão tratadas por Foucault (2008). Entretanto, essa visão não substitui a necessidade de se dedicar a ampliar a acessibilidade das fontes produzidas pelas diversas organizações e que, por vezes, são por elas arquivadas. Considerações finais Defendo aqui que o pesquisador da área de Administração com interesse na pesquisa em arquivos pode avançar na reflexão sobre a pesquisa histórica ao interrogar os documentos de que se vale e as instituições que os abrigam, tentando compreender as práticas que permearam a ação de arquivar. Esse campo de pesquisas é ainda mais ampliado pela internet e a diversidade de dados com a qual ela permite contato. Assim, entendo que incorporar os arquivos não como espaços onde se encontram documentos, mas como instituições e como repertório de práticas e saberes pode contribuir para o desenvolvimento da subárea de estudos históricos e para a Administração de maneira geral. A preocupação com a história no campo dos Estudos Organizacionais vem se ampliando e discutir sobre o Arquivo e os arquivos pode ser importante para que a aproximação entre as áreas se dê de forma mais sólida. Nesse sentido, resgatei algumas das discussões que vêm sendo estabelecidas fora da Administração, mas também me aproximei de alguns trabalhos da área que trabalharam com arquivos. Espero que o texto contribua para desenvolvimentos de modo a trazer maior atenção sobre o uso de arquivos e sobre sua importância, ao mesmo tempo em que advoga a permanente suspeição em relação às informações ali contidas, uma vez que o próprio arquivo pode ser objeto de estudo. 11

12 Conforme indicado na introdução deste texto, não pretendi fazer uma avaliação exaustiva das discussões sobre o arquivo e a Arquivologia. Nesse sentido, a principal dificuldade encontrada ao longo do trabalho foi tentar delinear um conceito (ainda que provisório) do que define algo como arquivável e uma coleção enquanto arquivo. Embora o texto tenha avançado sobre esses pontos, especialmente o primeiro, novos desenvolvimentos são necessários para tentar delinear de forma mais precisa as condições para um conjunto de documentos ou dados poder ser considerado um arquivo. De todo modo, a imprecisão parece ser o elemento que caracteriza esse período tanto do lado conceitual (pelos questionamentos colocados pelo pósmodernismo), quanto pela perspectiva do espaço que abriga os arquivos e as práticas de arquivar (transformadas pelos avanços tecnológicos, especialmente a internet). O texto de Cook (2012a) dá indicativos de como as mudanças estão transformando a prática e a teoria relacionadas aos arquivos, mas também não é conclusivo e se concentra em apontar tendências. Featherstone (2000), por sua vez, deixa claro que a definição do que é ou não arquivável se modifica de acordo com o contexto sociocultural dessa prática. Mesmo o valor daquilo que já foi processado e arquivado muda com o tempo e atualmente observamos uma mudança paradigmática nos significados e nas práticas que constituem os arquivos, provocados pela internet e pelas tecnologias de informação em geral (FEATHERSTONE, 2006). Como ensaio, este trabalho não pretende trazer uma visão definitiva sobre nenhuma das questões colocadas. Por isso, considero que o texto cumprirá um papel relevante se contribuir para fortalecer a discussão sobre a aproximação entre Administração e a História, chamando a atenção para a importância de refletirmos sobre as fontes utilizadas na construção de narrativas e fomentar pesquisas em arquivos, especialmente os disponibilizados na internet. Possibilidades a explorarmos no futuro incluem documentos disponibilizados pelo Wikileaks (www.wikileaks.org), pelo projeto Opening the Archives entre a Universidade Estadual de Maringá e a Brown University (http://library.brown.edu/openingthearchives/), documentos de acordos assinados com organizações multilaterais, como o Banco Mundial (http://www.worldbank.org/projects?lang=en) ou, mesmo, refletir sobre as revelações feitas por Edward Snowden sobre as atividades de vigilância da National Security Agency (NSA) e seus efeitos sobre os negócios e empresas que lidam com informações de milhões de usuáriosconsumidores. Explorar a massa de documentos que tratam direta ou indiretamente das organizações e seus impactos pode ser um caminho interessante tanto para as pesquisas históricas, como para os estudos que se propõem a refletir criticamente sobre seus objetos. A disponibilização de documentos diversos em arquivos não é fruto exclusivo da tecnologia, mas também da disponibilidade de pessoas e instituições de tornarem seus acervos acessíveis para o público em geral. Nesse sentido, aprofundar as discussões sobre arquivos na Administração e nos estudos históricos dentro desse campo pode estimular a criação e disponibilização de novos arquivos públicos ou privados que permitam novas questões acerca do desenvolvimento da área e seu presente. No caso dos estudos levados a cabo na Administração é interessante notar que na maior parte das vezes os documentos analisados se inserem em teias mais ou menos limitadas: se por um lado é possível ligá-los às tramas sociais que os engendram, por outro produzem efeitos especialmente em uma organização inserida em seu contexto específico. Stoler (2002, p. 107, tradução livre) observa: para entender um arquivo é necessário entender as instituições às quais ele serve. Não apenas as organizações de posse de arquivos, mas as instituições em sentido amplo que podem remeter àqueles arquivos para fundar, reforçar ou legitimar determinadas práticas. O arquivo é um aspecto crucial para quem olha para o 12

13 passado em busca de respostas para o presente, mas é também constituinte do presente. Não se tratou aqui, assim, de um debate metodológico e nem quis elaborar um conceito final do que seja um arquivo, mas contribuir para ampliar o interesse sobre as questões subtendidas ao seu uso, bem como as implicações para a prática de pesquisa. Referências ADKINS, E. W. The Development of Business Archives in the United States: An Overview and a Personal Perspective. American Archivist, v. 60, n. 1, p. 8 33, Winter BARROS, A; CRUZ, R; XAVIER, W; CARRIERI, A; LIMA, G. Apropriação dos saberes administrativos: um olhar alternativo sobre o desenvolvimento da área. Rev. Adm. Mackenzie, v.12, n.5, p , set/out, BRASIL. Lei Nº , de 18 de novembro de Dispo/nível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato /2011/lei/l12527.htm>. Acesso em: 01/03/2014. BRUNO, F. Monitoramento, classificação e controle nos dispositivos de vigilância digital. Revista Famecos, v. 1, n. 36, p , CAYGILL, H. Meno and the internet: between memory and the archive. History of the human sciences, v.12, n.1, COOK, T. A ciência arquivística e o pós-modernismo: novas formulações para conceitos antigos. InCID: R. Ci. Inf. e Doc. Ribeirão Preto, v. 3, n.2, p. 3-27, jul./dez., 2012a.. Entrevista. InCID: R. Ci. Inf. e Doc. Ribeirão Preto, v. 3, n.2, p , jul./dez. 2012b. CORAIOLA, D. M. Importância dos arquivos empresariais para a pesquisa histórica em administração no Brasil. Cadernos Ebape.BR, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p , From memory keeping to memory managing: the evolution of organizational memory work in the Canadian banking sector. 159f. Tese (Doutorado em Administração). Universidade Federal do Paraná. Curitiba, COSTA, A. SARAIVA, L; Memória e formalização do passado nas organizações. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 45, n. 6, p , Nov./dez., DE CERTEAU, M. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, DERRIDA, J. Archive fever: a freudian impression. Trad. PRENOWITZ, E. Diacritics, v. 25, n. 2, p. 9-63, Summer, FEATHERSTONE, M. Archive. Theory, Culture & Society, v. 23, n. 2-3, p , Archiving cultures. British Journal of Sociology, v. 51, n. 1, , FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,

14 GILL, F; ELDER, C. Data and archives: the internet as site and subject. International Journal of Social Research Methodology, v.15, n. 4, p , July, ISAACMAN, A; LALU, P; NYGREN, T. Digitization, History, and the Making of a Postcolonial Archive of Southern African Liberation Struggles: The Aluka Project. Africa Today v. 52 n. 2, Winter, Disponível em: < Acesso em: 01/02/2014. KURTZ, M. A Postcolonial Archive? On the Paradox of Practice in a Northwest Alaska Project.Archivaria: The Journal of the Association of Canadian Archivists, 61 pp , L EPLATTENIER, B. An argument for archival research methods: thinking beyond methodology. College English, v. 72, n. 1, p , September, MARQUES, R. O arquivo literário como figura epistemológica. Matraga, Rio de Janeiro, v. 14, n. 21, p , jul./dez., NEAL, G. (Producer); MaCDONALD, I. B. (Director); BERRY, P. (Writer). The Last Enemy. (Five Episodes). London: BBC, PETERS, M. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença: uma introdução. Belo Horizonte: Autêntica Editora, Rowlinson, M; Booth, C; Clark, P; Delahaye, A; Procter, S. Social Remembering and Organizational Memory. Organization Studies, v. 31, n.1, p , SCHAWRTZ, J; COOK, T. Archives, records and power: the making of modern memory. Archival Science, v. 2, n. 1, p. 1-19, SCHELLENBERG, T. R. Modern Archives: principles & techniques. 3ª ed. Chicago: The Society of Americans Arquivists, STEEDMAN, C. (2009). Romance in the archive. Paper presented at Framing Facts: Contesting the Innocence of the Archive, Department of Sociology, University of Warwick. Disponível em: <http://www2.warwick.ac.uk/fac/soc/sociology/staff/academicstaff/bhambra/gurminderkbha mbra/research/iasproject/2/>. Acesso em 01/04/2014. STOLER, A. L. Along the Archival Grain: epistemic anxieties and colonial common sense Princeton: Princeton University Press, Colonial archives and the arts of governance. Archival Science, v. 2, n. 1, p , YAKEL, E. Archives and manuscripts: inviting the user into the virtual archives. OCLC Systems and Services: International Digital Library Perspectives, v. 22, n. 3, p , ZIMMERMAN, D.L. ( ). Can our culture be saved? The future of digital archiving. Minnesota Law Review, v. 91 n. 5,

15 i A diferenciação dos termos a partir de maiúscula ou não foi feito apenas quando julguei importante sublinhar o termo, ou evidenciar o uso dado. ii Sei que a definição desse termo é controversa, mas não cabe nesse texto tentar delinear essa discussão. Para uma introdução ver Peters (2000). iii O que faz emergir discussões sobre a privacidade não apenas de indivíduos, mas também de organizações sociais ou corporações. Veja por exemplo a discussão colocada por Bruno (2008) ou, no campo da ficção a série produzida pela BBC One The Last Enemy (NEAL, MACDONALD e BERRY, 2008). iv É claro que há uma imensa gama de registros que dificilmente será disponibilizada na web, até pelos custos e dificuldades operacionais implicadas nas operações de digitalização e na quantidade de registros produzidos ao longo da história humana. v Como aponta Derrida (1995) é possível medir a efetividade de uma democracia ao se avaliar a abertura para que a sociedade participe e acesse arquivos para poder interpretá-los e fazer inquéritos a partir deles. 15

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