Direitos humanos e comida no sistema prisional brasileiro

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1 Direitos humanos e comida no sistema prisional brasileiro Dani Rudnicki Doutor Centro Universitário Uniritter Resumo: a questão da alimentação é importante na vida do ser humanos e, portanto, direito essencial para todos. Entretanto, tem sido relegado a segundo plano no que se refere às pessoas cujas liberdades foram restringidas por ordem judicial. Assim, após serem atendidas as necessidades alimentares mínimas dos presos parece que as obrigações estatais estão cumpridas. Mas pode o preso receber qualquer alimentação? Ou esta necessita ser qualitativamente satisfatória? Animais se alimentam, homens jantam. Jean AnthelmeBrillat-Savarin (advogado, politico e cozinheiro /1826) Comer é uma necessidade biológica, mas também emocional e social. Comer pode representar amizade,amor, comunicação e hospitalidade. É um ato muito mais complexo do que simplesmente ingerir alimentos. É um ritual repleto de significações, presente no cotidiano de todos. Em uma prisão, definida por Goffman (1992) como uma Instituição Total, ou seja, uma instituição na qual todas as atividades humanas (dormir, trabalhar, divertir, comer)são desenvolvidas em um único local, sob uma única autoridade, o ato de se alimentar tem sua complexidade aumentada. Marx (1984, 235), no clássico O capital, refere-se a inquérito oficial sobre as condições de alimentação e de ocupação dos criminosos condenados à deportação e ao trabalho forçado público na prisão de Edimburgo. Com fundamento nas palavras do diretor da prisão aprende-se que os trabalhadores agrícolas comuns da Escócia raramente recebem carne e que, portanto, os criminosos se alimentam melhor do que os camponeses. Essa discussão perdura até hoje. Qual a alimentação devida para quem infringe a lei do Estado?

2 Para resolvermos essa pergunta, devemos lembrar quais são os efeitos da prisão no ser humano. Devendo-se destacar, entre eles, a redução da autodeterminação, o empobrecimento e envilecimento (fazendo desaparecer sentimento de posse e de auto-respeito) e a infantilização. Para Waite (2010), essa é consequência normal do ato criminoso: Quando você comete um crime, você, voluntariamente, desiste do direito de escolher. Muito parecido com uma criança, você deve fazer o que os outros oferecem para você, uma vez que você está à mercê do Estado - para este escolher o seu alimento. [...]. Mas vejamos nosso arcabouço legal. A Constituição garante direitos às pessoas privadas de liberdade, em especial no seu artigo 5º. Todavia, não se refere de forma explicita à alimentação que eles devem receber; no mais próximo que chega desse tema, revela no inciso XLVII, que a as penas não podem ser cruéis. O que remete a refletir sobre se uma alimentação insuficiente ou ruim poderia ser enquadrada na categoria cruel.

3 Na legislação infra-constitucional, na Lei de Execução Penal, a Lei nº 7.210/84, a LEP, verifica-se que ao preso é assegurado a assistência material e à saúde, entre outras. Sendo de destacar que a material é definida, pelo artigo 12, como fornecimento de alimentação, vestuário e instalações higiênicas. A lei repete ainda, no artigo 41, ser direito do presoalimentação suficiente e que (artigo 13) O estabelecimento disporá de instalações e serviços que atendam aos presos nas suas necessidades pessoais, além de locais destinados à venda de produtos e objetos permitidos e não fornecidos pela Administração. No sistema prisional brasileiro, atendendo ao ordenamento, há comida. A questão que ressurge é se ela é suficiente, adequada e garantidora da saúde dos apenados. Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o sistema penitenciário da Câmara Federal, realizada em 2008, mostra como é a comida recebida pelos presos no Instituto Penal Paulo Sarasate, localizado no estado do Ceará. Referindo-se à comida nos presídios norte-americanos, Waite (2010) perguntase: Alguma vez você já se perguntou o que o recluso do sistema prisional norte-americano come? Qual a comida que seus impostos pagam para assassinos, ladrões e estupradores? Aos presos, em geral, são fornecidos alimentos adequados [...]. Mate (2010)responde sem preconceitos: Quem será preso em breve ou possui um ente querido recluso ficará aliviado ao saber que a comida da prisão tem, pelo menos no sistema federal, progredido muito desde os dias do pão e água. Outros podem ter consolo no fato de que o menu não é nem rico nem excessivamente oneroso para os contribuintes. Neste mesmo sentido Wilson(2010) colaciona citação dizendo que As pessoas tendem a pensar que os alimentos servidos são grotescos, diz Gerald J. Girard, superintendente de alimentos para as instalações prisionais do estado, mas eles são tão bons e nutritivos como aqueles que muitas famílias norteamericanas comem.

4 Esta comida está, porém, muito distante dos extremos. Para exemplificar um caso de péssima alimentação, devemos citar presídios no continente africano. WINES (2010) denuncia que são muitos os presos sem julamgento, e que todos que vivem nestes cárceres sofrem com condições extremamente precárias. Relata que a Prisão de Maula resume-se a uma dúzia de barracões amarelo sujeira, cercados por arame farpado, situado fora da cidade capital do Malauí. Nela não há uniformes, cobertores, ou sabão e a comida é apenas nsima (mingau de milho fermentado com feijão e carne). A papa é cozida em banheiras enormes, fora da prisão, para onde guardas moveram a cozinha depois que presos com fome começaram a lutar por comida. Nessa prisão alcança-se uma média de uma morte a cada 60 presos por ano (dados relativos a 2003 e 2004).

5 No extremo oposto, o caso apresentado é o da prisão do Principado de Mônaco, confeccionada por chefs de cuisine, com opção de menu vegetariano... Mais próximo do modelo norte-americano, o caso francês. Huc(2010) apresentapesquisa que desenvolveu sobre alimentação naprisão de Angoulême, na França. A pesquisadora apurou que a alimentação da prisão não satisfaz do ponto de vista nutricional, fornecendo proteína animal e gordura saturada em excesso, faltando, todavia, aportes energéticos, de glicídios, gordura vegetal, cálcio e de micronutrientes (antioxidantes: vitaminas C e E, carótenos e zinco). Ela também buscou conhecer o grau de satisfação dos presos franceses com sua alimentação e verificou que eles estão satisfeitos com a quantidade, mas reclamam da qualidade da refeição (88% dos entrevistados dizem que é média

6 ou medíocre, reclamando do ponto de cozimento dos alimentos, do tempero e da temperatura em que são servidos. E qual o modelo brasileiro? Na verdade ele não parece ser único. A diversidade das prisões no país faz com ele seja também diversificado. Há casos como o do Instituto Penal Paulo Sarasate, ou do Presídio Central de Porto Alegre, flagrado por deputados que da CPI de 2008 em visita ao mesmo (considerado o segundo pior das Américas, o pior do país) (ZERO Hora, 2008) que se aproximam do modelo africano. Por ocasião da vistia, o deputado federal Neucimar Fraga, presidente da CPI do sistema prisional brasileiro, declarou que Se a vigilância sanitária aplicasse metade do rigor que aplica em estabelecimentos privados, já teria fechado a cozinha. Há também presídios menores, Em especial em cidades com população carcerária menor, nas quais as condições são muito mais favoráveis. Côrrea (2006) relata: Este setor conta com apenas uma nutricionista, a qual desempenha as seguintes tarefas e função: manter o estoque de alimentos bem guarnecido e organizado, supervisionar a higiene de cinco cozinhas dos funcionários e a cozinha geral dos presos, primar pela qualidade da alimentação, elaboração de cardápios para os presos, levando em conta as regras nutricionais, elaboração e avaliação nutricional de dietas, para todos os presos, portadores de patologia (TBC, gastrite, pressão alta, HIV,etc.), orientação e pedido de exames de saúde para os presos que trabalham nas cozinhas, supervisão da água consumida na penitenciária, solicitação de desratização e desinsetização.

7 Não diversa parece ser a realidade prisional em outra cidade do interior do Rio Grande do Sul, Lajeado. Do exposto percebe-se que pensar a comida nos presídios possui estreita relação com pensar o respeito (ou não) pelos direitos humanos dos presos. O mero direito à alimentação pode resultar (ou evitar) motins, por ser elemento vital do cotidiano de qualquer grupo humano. Bibliografia BRASIL. Câmara dos Deputados. Comissão Parlamentar de Inquérito. Relatório Final da CPI destinada a investigar a situação do sistema carcerário

8 brasileiro Disponível em: < > Acesso em 09 fev CORRÊA, Márcio Jocemar. Penitenciária Modulada Estadual de Montenegro PMEM. Monografia apresentada ao Centro Universitário Ritter dos Reis. Canoas, p. DERKZEN, Petra. Aulas.Disciplina:Foodcultureandcustom (Universidade de Wageningen). Holanda, jan FIELDHOUSE, Paul. Food and nutrition: customs and culture. 2 ed. Londres: Chapman & Hall, p. FOUCAULT, Michel. Vigiare punir. 8ª ed. Petrópolis: Vozes, p. GAVARD, Corinne. Disponível em <http://www.pyepimanla.com/decembre- 2008/articles/En%20France-les-prisons-remplies-avec-les-musulmans.html>. Acesso em 17 abr GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, GREENWOOD, Arin. Taste-Testing Nutraloaf: the prison food that just might be unconstitutionally bad.disponível em <http://www.slate.com/id/ >. HUC, Marie-Line. Entrevista. Disponível em Acesso em 17 abr MARX, Karl. O capital. Livro 1, vol. 1, t. 2. São Paulo: Abril, p. MATE, N.What is Prison Food Really Like? A Review of the New, Post-National Menu Prison Fare.Disponível em <http://www.associatedcontent.com/article/903939/what_is_prison_food_really_ like_a_review.html>. Acesso em 10 abr NOTÍCIAS da rua judaica. THOMPSON, Augusto. A Questão Penitenciária. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Forense, p. WAITE, Jennifer. Find Out Where Your Tax Dollars. Disponívelem<http://www.associatedcontent.com/article/ /prison_food_ what_are_americas_inmates.html?cat=51>.acessoem 10 abr WILSON, Donovan W. Prison food: not fancy, but. Disponível em <http://www.nytimes.com/1982/12/19/nyregion/prison-food-not-fancybut.html?&pagewanted=all >. Acesso em 10 abr WINES, Michael. The Forgotten of Africa, Wasting Away in Jails Without Trial. Disponível em <http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.phaseloop.com/foreign prisoners/imgexp/06prison_food.jpg&imgrefurl=http://www.phaseloop.com/foreignprisoners/pr isonafrica02.html&usg= 6itgutB23iBOTsxRoQrIbJvNZh8=&h=430&w=650&sz=66 &hl=pt- BR&start=9&um=1&itbs=1&tbnid=tac2Q04LSsmGJM:&tbnh=91&tbnw=137&pre v=/images%3fq%3dprison%2bfood%26um%3d1%26hl%3dpt- BR%26sa%3DN%26tbs%3Disch:1>. Acesso em 10 abr

9 YOUNG, Jessica Bryce. Disponível em <http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.orlandoweekly.com/blo g/images/jailfood3.jpg&imgrefurl=http://www.orlandoweekly.com/blog/salivatio n_army.asp%3fperm%3d1944&usg= ZO4d_5aLte0VmlPSq9TswugwddE=& h=329&w=438&sz=89&hl=pt-br&start=16&um=1&itbs=1&tbnid=zts- 1DY9JVzKYM:&tbnh=95&tbnw=127&prev=/images%3Fq%3Dprison%2Bfood% 26um%3D1%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DN%26tbs%3Disch:1>. Acesso em 10 abr

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