NO PRINCÍPIO ERA DEUS E ELE SE FEZ POESIA (livro publicado) Salma Ferraz (organizadora)

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1 NO PRINCÍPIO ERA DEUS E ELE SE FEZ POESIA (livro publicado) Salma Ferraz (organizadora) NUTEL Núcleo de Estudos Comparados entre Teologia e Literatura. Teopoética

2 Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes dizer; O Deus de vossos pais me enviou a vós outros: e eles me perguntarem; Qual é o seu nome? Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel; EU SOU me enviou a vós outros. Êxodo 3: Como não ter Deus? Com Deus existindo tudo dá esperança; sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vém, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar é todos contra os acasos Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor... O Senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas, p. 48 O homem louco Vós não ouvistes falar daquele homem desvairado que em plena manhã luminosa acendeu um candeeiro, correu até a praça e gritou ininterruptamente: Estou procurando Deus! Estou procurando Deus! Uma vez que lá se encontravam muitos dos que não acreditavam em Deus, ele provocou uma grande gargalhada. Será que ele se perdeu? dizia um. Ou será que ele está se mantendo escondido? Será que ele tem medo de nós? Ele foi passear de navio? Passear? assim eles gritavam e riam em confusão. O homem desvairado saltou para o meio deles e atravessou-os como seu olhar. Para onde foi Deus? ele falou. Gostaria de vos dizer: Nós o matamos vós e eu! Nós todos somos assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? O que fizemos ao arrebentarmos as correntes que prendiam esta terra ao seu sol? Para onde ela se move agora? Para onde nos movemos? Não caímos continuamente? E para trás, para os lados, para frente, para todos os lados? Há ainda um alto e um baixo? Não erramos como que através de um nada infinito? Não nos envolve o sopro do espaço vazio? Não está mais frio? Não advém sempre novamente a noite e mais noite? Não precisamos acender 2

3 candeeiros pela manhã? Ainda não escutamos nada do barulho dos coveiros que estão enterrando Deus? Ainda não sentimos o cheiro da putrefação de Deus? também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como nos consolamos, os assassinos entre todos os assassinos? O mais sagrado e poderoso que o mundo até aqui possuía sangrou sob nossas facas quem é capaz de limpar este sangue de nós? Com que água poderíamos nos purificar? Que festejos de purificação, que jogos sagrados não precisaremos inventar? A grandeza desse ato não é grande demais para nós? Nós mesmos não precisamos nos tornar deuses para que venhamos a aparecer como apenas dignos deste ato? Nunca houve ato tão grandioso quem quer que nasça depois de nós pertence por causa deste ato a uma história mais elevada do que toda história até aqui! O homem desvairado silenciou neste momento e olhou novamente para os seus ouvintes: também eles se encontravam em silêncio e olhavam com estranhamento para ele. Finalmente, ele lançou seu candeeiro ao chão, de modo que este se partiu e a pagou. Eu cheguei cedo demais disse ele então eu ainda não estou em sintonia com o tempo. Este acontecimento extraordinário ainda está a caminho e perambulando ele ainda não penetrou nos ouvidos dos homens. O raio e a tempestade precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, atos precisam de tempo, mesmo depois de terem sido praticados, para serem vistos e ouvidos. Este ato está para os homens mais distante do que o mais distante dos astros: e porém, eles o praticaram! Conta-se ainda que o homem desvairado adentrou no mesmo dia várias igrejas e entoou aí o seu Requiem aeternam deo. Acompanhado até a porta e questionado energicamente, ele retrucava sem parar apenas o seguinte: O que são ainda afinal estas igrejas, senão túmulos e mausoléus de Deus? NIETZSCHE, A gaia ciência, Aforismo 125. A Literatura tem o direito de dizer tudo. Jacques Derrida, Paixões, p. 48 In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum. João 1:1 3

4 SUMÁRIO 1) Teopoética: Os estudos literários sobre Deus. Salma Ferraz (UFSC) 2) A terceira margem da ficção: Literatura e Teologia em Jorge Luís Borges José Carlos Barcellos (UERJ/UFF) 3) O Deus da Religião e o Deus da Literatura. Rafael Camorlinga (UFSC) 4) A confissão geral de Riobaldo. Waldecy Tenório (PUC - USP) 5) Entre Logos e Mythos em City of God de Doctorow. Julio Jeha (UFMG) 6) Deus o Diabo na terra de Mailer. Delzi Alves Laranjeira (UFMG) 7) A presença da Virgem Maria na epopéia brasileira. Christina Ramalho (UFRN) 8) A Esfinge pejada de mistérios: travessias e travessuras de Judas. Salma Ferraz (UFSC) 9) Manifestações bíblicas em três contos de Jorge Luis Borges. Andréa Lúcia Paiva Padrão Ângelo (UFSC) 4

5 10) O Mito Cristão no Cinema. Laércio Torre de Góes (UFBA) 11) Vitalidade e finitude em Machado de Assis. Douglas Rodrigues da Conceição (UMESP) 12) De(u)smundo. Fernando Floriani Petry (UFSC) 13) O Novíssimo Evangelho de São Teodorico Evangelista. Antonio Augusto Nery (USP) 14) Os Cristos de Kazantzakis e de José Saramago. Ronaldo Ventura Souza (USP) 15) Raul Brandão e José Saramago revisitando figuras cristãs. Ana Paula Carraro Borges (USP) 16) Ausência de Deus e sentimento de culpa em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Luis Carlos Cancellier de Olivo (UFSC) 17) Literatura e (Des)constituição do Sagrado. Claudemir Francisco Alves (PUC UFMG) 18) A virtuosa graça da reflexão pela humorística graça da contestação: Moacyr Scliar e seus profetas. Tony Roberson de Mello Rodrigues (UFSC) 5

6 19) O deserto de Deus e o sertão dos Homens: Guimarães Rosa e o Deserto do Sinai. Nelson de Sena Filho (CUC) 20) A voz ritualizada da narrativa rosiana. Márcio Araújo de Melo (UFMG) 21) Bipolaridade e antagonismos: o sagrado e o profano em O Pagador de Promessas. Lourdes Kaminski Alves (UNIOESTE) 22) As interfaces espirituais na obra de Manoel de Barros. Maria Aparecida Ferreira de Melo Souza (NTE/MS) 23) Literatura Inspirada - Imagens do Judaísmo em Borges. Gerson Luiz Roani (Universidade Federal de Viçosa) 24) A escada de ouro e a Divina Comédia. Maria Teresa Arrigoni (UFSC) 25) O corpo do Diabo. Jonas Tenfen (UFSC) 26) Rubem Alves: um discurso que se faz Teologia da Beleza. Maria Celeste de Castro Machado (UERJ) 6

7 COLABORADORES Ana Paula Carraro Borges Andréa Lúcia Paiva Padrão Ângelo Antonio Augusto Nery Christina Ramalho Claudemir Francisco Alves Delzi Alves Laranjeira Douglas Rodrigues da Conceição Fernando Floriani Petry Gerson Luiz Roani Jonas Tenfen José Carlos Barcellos Julio Jeha Laércio Torre de Góes Lourdes Kaminski Alves Luis Carlos Cancellier de Olivo Márcio Araújo de Melo Maria Aparecida Ferreira de Melo Souza Maria Celeste de Castro Machado Maria Teresa Arrigoni Nelson de Sena Filho Rafael Camorlinga Ronaldo Ventura Souza Salma Ferraz Tony Roberson de Mello Rodrigues Waldecy Tenório 7

8 APRESENTAÇÃO É com imenso prazer que apresento esta compilação de artigos de estudiosos de Teopoética no Brasil. Neste volume estão reunidos vinte e seis artigos, numa pequena amostragem do que os pesquisadores da área estão produzindo. Poderíamos dizer que os estudos de Teopoética abrangem três grandes áreas: a representação de Deus na literatura, as relações intertextuais e interdisciplinares entre Teologia e Literatura e a migração de personagens bíblicos para o texto literário como Madalena, Jesus, Judas, Lúcifer/Diabo/Satanás, etc. Estes estudos têm seus principais teóricos espalhados pela Alemanha (Karl Josef Kuschel), pelos Estados Unidos (Jack Miles, Harold Bloom, etc), pela Espanha (José Pedro Tosaus Abadia), seguidos pelo Chile (Clemens A. Franken) e Argentina (Cecilia Avenatti de Palumbo e Hugo Rudolfo Safa). No Chile há um Seminário permanente intitulado Literatura y Fe. O X Seminário permanente de Literatura y Fe ocorreu no Chile em setembro de 2005 e contou com a presença dos nossos pesquisadores brasileiros. No Brasil, há cerca de quatro anos, surgiram quatro grupos de pesquisadores: o grupo do Rio de Janeiro (José Carlos Barcellos, Eliane Yunes, Maria Clara Bingermer) o grupo interinstitucional como sede na Universidade Federal de Santa Catarina/Florianópolis (Salma Ferraz, Rafael Camorlinga, Teresa Arrigoni, Silvana de Gáspari, Paulo Soethe), o grupo de São Paulo (Antonio Carlos Magalhães, Waldecy Tenório, Antonio Manzatto) e o grupo mineiro de Juiz de Fora, reunidos em torno da Revista NUMEN, Revista de Estudos e Pesquisa da Religião (Luiz Henrique Dreher), além de alguns outros casos isolados que agora estão se agregando aos grupos já existentes. No Brasil estes pesquisadores têm publicado obras fundamentais para o desenvolvimento desta área de pesquisa. Citamos como exemplo os livros Deus no espelho das palavras de Antonio Carlos Magalhães, Teologia e Literatura - reflexões teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado, de Antonio Manzatto, Literatura e Espiritualidade de Carlos A. Barcellos, e Crivo de Papel de Benedito Nunes. 8

9 No Brasil sobre a liderança do NUTEL Núcleo de Estudos entre Teologia e Literatura da UFSC Universidade Federal de Santa Catarina já foram realizados três Simpósios de Teopoética: o primeiro intitulou-se Teopoética: os estudos comparados entre Teologia e Literatura e foi realizado em Porto Alegre, durante a Abralic, em Julho de 2004; o segundo foi denominado da mesma forma e efetivou-se em Dourados, Mato Grosso do Sul, dentro do Simpósio Internacional sobre Religiões em Abril de 2006 e o terceiro intitulou-se Teopoética: o literário como lugar privilegiado para a manifestação do sagrado e do epifânico e ocorreu dentro da programação da Abralic em Agosto de 2006 no Rio de Janeiro. A primeira publicação do Nutel foi o número especial da RDC Revista de Divulgação Cultural da FURB de Blumenau, dirigida pela querida amiga e pesquisadora Tuca Ribeiro, outra seduzida pela Teopoética e quem nos concedou a oportunidade de reunir ali os primeiros artigos dos teopoéticos. Este número especial da RDC (n. 86) foi publicado em Agosto de E agora tenho a alegria de passar às mãos do leitor No Princípio era Deus e ele se fez poesia, na certeza de que esta publicação marcará definitivamente a consolidação desta área de estudos no Brasil. Na parte final deste livro, deixo duas ementas de disciplinas que ministro no Programa de Pós Graduação em Literatura da UFSC, as quais contém excelente bibliografia deste ramo de estudos. Esta publicação sai no ano em que será fundada no Brasil a ALALITE Associação Latino Americano de Literatura e Teologia. E, principalmente meus sinceros agradecimentos à EDUFAC, que encampou este projeto num momento importante para os estudos de Teopoética no Brasil. Salma Ferraz NUTEL Núcleo de estudos comparados entre Teologia e Literatura. 9

10 TEOPOÉTICA: OS ESTUDOS LITERÁRIOS SOBRE DEUS SALMA FERRAZ 10

11 TEOPOÉTICA: OS ESTUDOS LITERÁRIOS SOBRE DEUS Salma Ferraz 1 (UFSC) A Teopoética foi proposta por Karl Josef Kuschel e consiste em um novo ramo de estudos acadêmicos voltados para o discurso crítico-literário sobre Deus, no âmbito da Literatura e da análise literária, a partir da reflexão teológica presente nos autores. Trata-se de análises literárias efetivadas por meio de uma reflexão teológica e de um diálogo interdisciplinar possível entre Teologia e Literatura. Algumas das principais perguntas da Teopoética são: qual o discurso dos autores sobre Deus dentro da Literatura do século XX? Quais seriam os critérios estilísticos para um discurso teológico dentro da Literatura do século XX? Quais as relações entre literatura contemporânea e crise existencial da consciência moderna? Sobre o primeiro tópico já existe um interessante estudo denominado Literatura do século XX e cristianismo o silêncio de Deus, de autoria de Charles Moeller, que investiga a importância de Deus nas obras de Albert Camus, André Gide e diversos outros escritores. Kuschel em seu livro Os Escritores e as Escrituras elabora um retrato teológico-literário de quatro grandes autores que, de alguma forma, revelaram em seus escritos lampejos da face de Deus: Franz Kafka (a questão da existência de Deus); Rainer Maria Rilke (as metamorfoses da essência religiosa); Herman Hesse (a imagem de Deus e a insondabilidade da alma); e Thomas Mann (a redescoberta do cristianismo, e as relações entre Deus e a ética). 1 FERRAZ é professora de Literatura Portuguesa da UFSC, autora de O Quinto Evangelista/UNB (1999) e As Faces de Deus na obra de um Ateu/EUFJF&EDIFURB (2003) e ministra a matéria Teopoética Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura na Pós Graduação em Literatura da UFSC, Florianópolis, Brasil. Coordena o NUTEL Núcleo de Estudos Comparados entre Teologia e Literatura: 11

12 O que os estudiosos da Teopoética defendem é que é preciso acabar com a acusação geralmente levantada pelos teólogos de que a Literatura é uma intromissão não muito desejada na esfera da Religião. Apesar de ser um novo ramo dos estudos comparados entre Teologia e Literatura, esta idéia da Teopoética não é recente. Santo Agostinho cita o escritor romano Varro 2, que fazia distinção entre teologia filosófica (a verdade conhecida pelos filósofos), a teologia civil (a religião oficial estabelecida pelo Estado cujos rituais são realizados nos templos) e a teologia poética (apresentada nas obras de poetas e dramaturgos ao retrabalharem no teatro os velhos mitos sobre os deuses). Ou seja, o conceito de Teopoética nasceu antes do advento do cristianismo. Santo Agostinho não aceitava a Teopoética, era frontalmente contra a reinvenção e reinterpretação poética de textos sagrados da Bíblia efetivada pelos poetas de uma forma mítica ou fabulosa. Segundo Don Cuppit em seu livro Depois de Deus, o que o pensador católico na realidade pretendia era enterrar a teologia poética e mantê-la firmemente reprimida pelos próximos mil anos. Santo Agostinho não queria rivais, queria o monopólio da Teologia para si. Há alguns algozes de Deus na Literatura na Filosofia. Para Karl Marx, a religião não passava de ópio para o povo; para Freud, a religião era considerava uma manifestação de infantilismo; Darwin, no lugar de Adão moldado em barro pelas mãos divinas, nos legou como ancestral nada menos que um macaco e Dostoiévski afirmou através de um dos seus personagens que "Se Deus não existe, tudo é permitido". Nietzche não entendia por que o sofrimento deveria ser dignificado, não aceitava que os últimos deveriam ser os primeiros, isto para ele era a inversão da ordem natural das coisas. Em o Anticristo afirmou que o cristianismo foi, até agora, o maior infortúnio da humanidade. Para ele, o cristianismo era a religião dos fracos e fracassados. Se Nietzche, filosoficamente, matou Deus, 2 Marcus Trentius Varro (Riet, A C.), polígrafo latino. Advogado em Roma, participou da guerra civil ao lado de Pompeu, mas se reconciliou com César, que o encarregou de organizar bibliotecas públicas. De sua obra colossal (cerca de 650 livros) restaram apenas três livros: um tratato de economia rural (Res rusticae), parte de um tratado de gramática (De lingua latina), fragmentos de obras literárias, biográficas e mesmo religiosa (Res divinas). 12

13 realizando o seu funeral, José Saramago, com seu Evangelho Segundo Jesus Cristo, cremou o pouco que sobrou do Deus dos cristãos. Sempre digo que a Teopoética é injusta em certa medida com Deus, porque afinal Deus nunca teve a chance de escrever nenhum romance. Mesmo sendo protagonista do Antigo Testamento, e se fazendo presente por meio de seu filho - Jesus, no Novo Testamento, a Bíblia foi escrita por diversos autores, é uma compilaçção de diversos livros que passaram por diversas reescrituras, não foi escrita por Deus, A Bíblia está entre os maiores best-sellers de todos os tempos e é uma obra clássica da literatura hebraica e cristã, imprescindível para o conhecimento do cristianismo, da Literatura Ocidental e da cultura do Ocidente. A bem da verdade, não se trata apenas de um único livro, mas de uma antologia de livros do judaísmo (Antigo Testamento) e de uma antologia de livros do cristianismo primitivo (Novo Testamento). O cristianismo é tão importante para o mundo ocidental que quase chega a confundir-se com ele. É Miguel de Unamuno quem insinua, em sua obra A Agonia do Cristianismo, que, se o cristianismo desaparecer, a civilização ocidental tende a desaparecer juntamente com ele. O cristianismo está na base de toda a cultura, de toda a História do Ocidente. Northorop Frye na introdução de seu livro Anatomia da Crítica, afirma que, apesar de a tipologia bíblica ser uma linguagem morta e desconhecida até por eruditos, há uma íntima ligação entre Teologia e Literatura, uma vez que para ele a literatura ocidental tem sido mais influenciada pela Bíblia do que por qualquer outro livro.. Corrobora essa mesma idéia Jostein Gaarder, em sua obra O Livro das Religiões, ao afirmar que o cristianismo é o pré-requisito para compreender a sociedade e a cultura em que vivemos. Portanto, a obra literária produzida no Ocidente sempre guardará referência à cultura que lhe deu origem. Estreitando ainda mais estas considerações, podemos dizer que não existe Ocidente sem a idéia de Deus. Jack Miles, em seu livro Deus uma biografia, afirma também que o Deus dos judeus e dos cristãos constitui a realidade última do Ocidente e que toda a cultura ocidental foi moldada a partir da 13

14 idéia de Deus. Ressalta também que nenhum personagem, porém no palco, na página ou na tela jamais teve o sucesso que Deus sempre teve. Segundo Miles, no Ocidente, Deus é mais que um nome familiar; ele é, queira-se ou não, um membro virtual da família ocidental. Em outra obra sua, afirma ainda que o cristianismo faz parte, é parte constituinte do DNA da civilização ocidental. Existe uma diferença básica entre o Cristo Histórico e o Cristo da Fé. O Cristo da Fé, o Cristo Teológico, o Cristo Messias e Redentor é aquele que não precisa ser legitimado pela pesquisa história. Aceita-se pela fé e, como bem define o Apóstolo Paulo na sua carta aos Hebreus, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem. Já o Cristo Histórico é aquele que precisa de dados históricos para ter sua existência comprovada, é aquele que viveu e morreu na Palestina antes do ano 70 de nossa era. James H. Charlesworth, no final do seu livro Jesus dentro do Judaísmo, enumera nada menos que 151 obras publicadas a partir da década de setenta sobre o Cristo Histórico. Citemos algumas das principais: Verdade e ficção na Bíblia, de Robin Lane Fox (1992); Jesus, o Judeu de Geza Vermes (1990); A marginal Jew - Rethinking the Historical Jesus, de John Meier (1991); The Historical Jesus de John Dominic Crossan (1991) Jesus - a life, de A. N. Wilson (1992); Cristo Uma Crise na vida de Deus de Jack Miles (2002). O que ocorre é que historiadores dos mais variados credos e posições filosóficas, ateus, cristãos, judeus, agnósticos, marxistas, todos têm escrutinado abundante e cuidadosamente a vida de um judeu chamado Jesus Cristo, ou seja, tem-se a impressão de que jamais, em todo o tempo, pesquisou-se, discutiu-se tanto sobre o Cristo Histórico como agora. No Brasil, Deus e Cristo já foram destaques nas capas de algumas das principais revistas nos últimos dois anos: Veja, Super Interessante, Manchete, Cult, Revista das Religiões, etc. Há muitos episódios dramáticos narrados na Bíblia. Mas gosto especificamente do lirismo de Salmos, Eclesiastes, de Cantares, Provérbios. Do 14

15 Eclesiastes, cito o capítulo 3 na transcriação magnífica de Haroldo de Campos Qohélet/O-que-sabe: Para tudo seu momento E tempo para todo o evento sob o céu Tempo de nascer tempo de morrer Tempo de plantar e tempo de arrancar a planta Tempo de matar e tempo de curar Tempo de destruir e tempo de construir Tempo de pranto e tempo de riso Tempo de ânsia e tempo de dança Tempo de atirar pedras e tempo de retirar pedras Tempo de abraçar e tempo de afastar os braços Tempo de procurar e tempo de perder Tempo de reter e tempo de dissipar Tempo de rasgar e tempo de coser Tempo de calar e tempo de falar Tempo de amar e tempo de odiar Tempo de guerra e tempo de paz. Eu ainda citaria o magnífico verso de São Paulo em I Coríntios 13: Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos e não tivesse amor, seria como o metal que sou ou o sino que tine. Aliás, brilhantemente transcriado pelo conjunto musical denominado Legião Urbana: Ainda que eu falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. Quando aos episódios dramáticos, temos centenas: a morte de Abel, Abraão sacrificando seu filho Isaac, a estória de José sendo vendido como escravo pelos próprios irmãos, a rivalidade entre Esaú e Jacó, Jó tentando entender os juízos de Deus e amaldiçoando seu nascimento (Converta-se aquele dia em trevas e Deus dele não se lembre, jamais a luz brilhe sobre aquele dia), e o mais trágico e incomprensível de todos: Jesus agonizando na cruz (Pai se é possível passa de mim este cálice). 15

16 Camões, o grande vate português, escreveu vários de suas sonetos a partir de motivos bíblicos, um deles inclusive baseado na maldição de Jó. Camões começa seu soneto assim: O dia em que nasci, moura e pereça. Miles, em Deus uma Biografia, ressalta que a Bíblia é inquestionavelmente uma extraordinária obra de literatura, e o Senhor Deus um personagem dos mais extraordinários. Na Literatura Brasileira dois dos nossos melhores romancistas foram influenciados pela Teologia: Machado de Assis e Guimarães Rosa. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó, há um diálogo constante com a Bíblia. O leitor que desconhece o texto bíblico perderá muito do texto e da ironia de Machado. Em Esaú e Jacó, se o leitor souber a estória dos gêmeos Esaú e Jacó do Antigo Testamento e se conhecer o confronto de idéias entre os apóstolos Pedro e Paulo no Novo Testamento, terá uma compreensão do livro muito mais ampla. Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, elabora toda uma teoria e simbologia sobre o demônio e sobre o pacto com o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Galhardo, o Sujo, o Coisa-Ruim, etc. Não posso me esquecer também da magnífica biografia de Cristo escrita pelo genial Paulo Leminski. Na Literatura Portuguesa vários foram os poetas e escritores influenciados pelo texto bíblico, mas destaco especialmente Padre Vieira com sua História do Futuro, Gil Vicente com a Trilogia das Barcas (Auto da Barca do Inferno, Auto da Alma e Auto da Barca da Glória), Eça de Queirós, anticlericalista ferrenho n O Crime de Padre Amaro. N A Relíquia, Eça criticou o catolicismo e seus santos, sua hipocrisia, suas relíquias, transformando o personagem Teodorico em uma espécie de evangelista herege, que de uma maneira vulgar e irônica dessacraliza o Filho de Deus numa caracterização inclemente deste. Guerra Junqueiro, em A Velhice do Padre Eterno, destinou uma sátira ferrenha à Primeira Pessoa da Trindade. Raul Brandão mostrou a face dolorida e pessimista do cristianismo em Húmus e Fernando Pessoa se debruçou em vários momentos de sua obra poética a questionar o sagrado, os deuses e a própria Trindade cristã. Por fim, chegamos a José Saramago, um ateu que tem Deus como tema predileto de suas obras, basta citar aqui dois clássicos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento. 16

17 Na Literatura Universal, dezenas de escritores dialogaram criativa e ironicamente com o texto bíblico. Dante com sua Divina Comédia é um caso interessante porque ele foi influenciado pela Bíblia e influenciou o pensamento cristão com sua noção de inferno e purgatório. Temos O Paraíso Perdido, de Milton, isto sem falar em Kafka, Rainier Maria Rilke, Herman Hesse, Ernest Renan, Thomas Mann. Charles Dickens, Jorge Luiz Borges, e centenas de outros igualmente importantes. E se mencionarmos os best-sellers a lista iria longe: JJ. Benítez com Operação Cavalo de Tróia, Dan Brown e O Código da Vinci, etc. Nos Estados Unidos a produção nesta área é imensa. Cito só acomo exemplo Ao vivo do Calvário, de Gore Vidal e Quarentena de Jim Crace. O apóstolo Paulo, homem de uma cultura extraordinária, judeu convertido ao cristianismo, e consolidador dessa doutrina temia que a imaginação dos homens pudesse dar uma interpretação diferente de Deus. Ele estava em Atenas, berço da civilização grega e de toda a Filosofia. O apóstolo discursava no Areópago diante do ceticismo de filósofos epicuristas e estóicos, em certo sentido, a nata da elite pagã. Benedito Nunes nos informa que estes pagãos cultos, [estavam] embebidos não da religião popular dos gregos, mas da Paidéia o tríplice aprendizado da ginástica, da música e da Filosofia. Foi para eles que Paulo pregou o seguinte sermão: Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar: ainda que não está longe de cada um de nós; Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens. (Atos 17: 28/29). Essa é talvez a única passagem na Bíblia que se refere a poetas. Paulo conhecia alguns poetas e filósofos gregos, estava familiarizado com eles, com a mentalidade helenística do século, portanto temia que a arte desse uma interpretação literária de Deus, ou que os poetas o substituíssem pela arte. Paulo sabia que o Deus Desconhecido que ele pregava era visto como loucura pelos gregos que buscavam a Sabedoria (I Coríntios 1: 22 e 23) e, talvez, intuísse 17

18 aquilo que Heidegger quase dois mil anos depois enunciou a pesquisa filosófica é e permanece ateística. Ou seja, parece que o cristianismo tinha e tem reservas especiais com relação a filósofos e escritores e a interpretação que eles poderiam dar a Deus. A Teodicéia é um campo da Teologia natural que defende a onipotência, a onisciência, a justiça e a bondade de Deus. É contra a idéia de que a presença do mal e do sofrimento no mundo reduzem ou minimizam os atributos divinos. Essa expressão foi criada por Leibniz, em sua obra Teodicéia, publicada em Neste ensaio o filósofo debatia a bondade de Deus, tentava elaborar um tratado racional sobre Deus, sobre a liberdade do homem e a origem do mal. Perante o problema do mal, o filósofo assumiu uma posição otimista, concluindo que o mundo criado por Deus ainda é o melhor dos mundos possíveis. Saramago é um escritor contemporâneo obcecado pelo tema Deus. No decorrer de sua obra, destrói progressivamente as várias faces de Deus. Em Terra do Pecado (1945), ataca o Deus de Eva e do pecado carnal; em História do cerco de Lisboa (1989), condena Jeová/Alá pelas guerras In nomine Dei; em Memorial do Convento (1982), investe contra o Deus da Igreja Católica, seus santos, seu ritualismo, sua corrupção; e no Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), reescreve um evangelho particular, concebendo um Deus cruel que quer ampliar seus domínios e necessita de um mártir para impressionar as pessoas. Deus, na obra do escritor português, é o verdadeiro antagonista de Cristo, aliás, humano por excelência. O Diabo é o grande herói deste evangelho profano, é quem tenta salvar Jesus da crucifixão e salvar todos os humanos de uma religião que já nasce com o cheiro de sangue. Saramago escreve em sua obra uma antiteodicéia, uma antiteopoética, uma antiépica de Deus. Repito o que já disse anteriormente: se Nietzche matou Deus, Saramago cremou suas cinzas. Não sobrou mais nada depois do Evangelho Segundo Jesus Cristo. Sua obra é um verdadeiro locus theologicus. Se a Teologia é a ciência do sagrado, a ciência de Theos, a escritura de Saramago é a negação absoluta dos atributos e do caráter divino, neste sentido, Antiteodicéia. 18

19 Cuppit, em Depois de Deus, afirma que desafiar Deus e lutar contra Deus já faz parte da crença em Deus. Menciona o próprio Abraão, o chamado Pai da Fé, desafiando Deus. Ou seja, só é ateu aquele cuja mentalidade é teísta. Para Cuppit, Deus surgiu no momento em que alguém elaborou um pensamento crítico sobre Ele. O crítico ainda menciona que a crise da representação pósmoderna começou com Deus. Conclui sua brilhante argumentação afirmando que o Cristo humano alquebrado, sem família, abandonado, dividido, estraçalhado, foi o pioneiro da modernidade. Um excelente estudo sobre as relações entre Teologia e Literatura encontra-se no livro Deus no espelho das palavras teologia e literatura em diálogo de Antonio Magalhães. Entre outros importantes pontos, o autor aponta para o fato de que tanto a teologia como a literatura buscam esclarecer o mistério profundo o ser humano. Para ele, a literatura revela o mistério mais profundo de nossa existência e a Teologia precisa desta revelação. Magalhães reforça uma idéia de Octávio Paz: sem a Literatura, seus mitos e duas parábolas, a Teologia corre o risco de se tornar um casarão desabitado. No princípio era o verbo e o verbo se fez letra, se fez literatura, se fez linguagem, se fez o dom de línguas, se fez morada do ser, se fez letra e espírito, sedução e magia, mito, revelação, palavras inspiradas, paixão e contemplação, travessias muito além da terceira margem do caminho que é certo e (in)certo, de veredas tortas e veredas mortas da Teologia e da Literatura. O mito que é nada e que é tudo, aquilo que é, que foi que será. Transleituras de Deus, Deus nas escrituras e na poesia, Deus no dom de línguas, no pentescostes do dom palavra. Linguagens de Deus. Deus nas línguas de fogo. No princípio era o verbo e ele se fez poesia. O numinoso... Afinal, Deus existe mesmo quando não há. BIBLIOGRAFIA: ABADÍA, José Pedro Tosaus. A Bíblia como literatura. Petrópolis: Vozes, AICHELE, George. A Bíblia pós-moderna. Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Loyola, ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Trad. intr. e notas de Cristiano Martins. São Paulo: Edusp & Belo Horizonte: Ed. Itatiaia,

20 ALTER, Robert & KERMODE, Frank. Guia Literário da Bíblia. Trad. Raul Fiker. São Paulo: Unesp, 1997, Prismas. AMSTRONG, Karen. Uma História de Deus. Trad. Marco Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, ARIAS, Juan. Jesus Esse Grande Desconhecido. São Paulo: Objetiva, AUERBACH, Erich. A Cicatriz de Ulisses/ Adão e Eva In: Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental. Trad. George Sperber. São Paulo: Perspectiva, 197l.. Figura. Trad. Duda Machado. São Paulo: Ática, BARCELOS, Carlos José. Entre o Pai e Filho: O Cristianismo dilacerado em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. In: Linhas e Entrelinhas. São Paulo: Centro de Estudos Portugueses FFLCH USP, 2003, p A Fé e o Império: Uma Leitura Teológica de Os Lusíadas. In: Revista Camoniana. Bauru: Edusc, 3ª. Série, Vol. 14, 2003, p Literatura e Espiritualidade. Bauru: Edusc, Literatura e Teologia: perspectivas teórico-metodológicas no pensamento católico contemporâneo. In: NUMEN Revista de Estudos e Pesquisa da Religião. Juiz de Fora: EDUFJF, jul/dez, 2002, v. 3, n. 2, p BLOOM, Harold. Abaixo as verdades Sagradas Poesia e crença desde a Bíblia até nossos dias. Trad. Alípio Correa de Franca Neto e Heitor Ferreira da Costa. São Paulo: Companhia das Letras, O Livro de J. Trad. Monique Balbuena. Rio de Janeiro: Imago, BRENNER, Athalya. Cânticos dos Cânticos a partir de uma leitura de gênero. Trad. Rosângela Molento Ferreiro. São Paulo: Paulinas, Athalya. Gênesis a partir de uma leitura de gênero. Trad. Rosângela Molento Ferreira. São Paulo: Paulinas, BUENO, Aparecida de Fátima. As Imagens de Cristo na Obra de Eça de Queirós. Campinas: Unicamp, Instituto de Estudos da Linguagem, Tese de Doutorado, CASOLI, Giovanni. Presenza e assenza di Dio nella letteratura contemporanea. Roma: Città Nuova, CHARLESWORTH, James. O Jesus da história e a arqueologia da palestina - O conceito que Jesus tinha de Deus e sua autocompreensão. In: Jesus dentro do judaísmo. 3 ed. Trad. Henrique de Araújo Mesquita. Rio de Janeiro: Imago, l992, p. 113-l17. CHOURAQUI, André. Os homens da Bíblia. São Paulo: Companhia das Letras, CROSSAN, John Dominic. O Jesus Histórico. São Paulo: Imago, CUPITT, Don. Depois de Deus o futuro da religião. Trad. Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, DADOUN, Roger. A violência Ensaio acerca do homo violens. Trad. Pilar Ferreira de Carvalho. Rio de Janeiro: BCD União de Editoras DEBRAY, Régis. Deus um itinerário. Trad. Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia das Letras, FEILER, Bruce. Abraão. Uma jornada ao coração de três religiões. Trad. Maria Luiza Newlands Silveira. - Rio de Janeiro: Sextante, FERRAZ, Salma. As Faces de Deus na obra de um Ateu. Juiz de Fora; EUFJF, O Quinto evangelista. Brasília: UNB, FERRUCCI, Franco. A história de Deus contada pelo Próprio. Trad. Laura Rumchisky. Rio de Janeiro: Imago, FOX, Robin Lane. Bíblia verdade e ficção. Trad. Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, FRYE, Northrop. The Great Code: The Bible and Literature, New York, Northrop. Words with Power. New York: HBJ Book Publishers,

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