Observador On-line. v.4, n.06, jun. 2009

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1 Observador On-line v.4, n.06, jun. 2009

2 Observatório Político Sul-Americano Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro IUPERJ/UCAM Perspectivas e Limitações do Plano Nacional de Desenvolvimento boliviano Observador On-Line (v.4, n.06, jun. 2009) ISSN Clayton Mendonça Cunha Filho * Rodrigo Santaella Gonçalves ** Promulgado em setembro de 2007, o Plan Nacional de Desarrollo (PND) da Bolívia é, até o momento, o mais detalhado documento oficial acerca dos planos e objetivos do governo de Evo Morales. Dessa forma, ele se converte num importante parâmetro de avaliação das metas, avanços, dificuldades e perspectivas do atual governo. O objetivo deste trabalho é, precisamente, a partir da análise do PND, compreender as perspectivas e limitações do governo de Evo Morales enquanto projeto políticoeconômico pós-neoliberal. Até que ponto o atual governo boliviano é de fato um processo de mudanças radical e substantivo? Qual o alcance das reformas que vêm sendo promovidas? Serão as limitações do governo Morales frutos de dificuldades conjunturais de execução de sua agenda política ou fruto de concepções equivocadas do próprio PND? A primeira seção do trabalho pretende analisar o PND em seus quatro eixos interarticulados e que tratam de justiça social, democratização, desenvolvimento econômico e inserção internacional (intitulados Bolívia Digna, Democrática, Produtiva e Soberana), buscando apreender daí a concepção política de desenvolvimento nacional que norteia o documento. Em seguida, tentaremos verificar em que nível se encontra a execução efetiva do PND e quais os seus impactos concretos na sociedade boliviana, buscando contextualizar com a análise da conjuntura política do país os motivos aos quais se devam eventuais entraves e obstáculos aos objetivos propostos. Por último, buscaremos concluir com uma avaliação geral dos limites e perspectivas do governo de Evo Morales. * Pesquisador do Observatório Político Sul-Americano/Iuperj e mestrando em Ciência Política pelo Iuperj. ** Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará.

3 O Plan Nacional de Desarrollo: afinal, o que pretende o governo de Evo Morales? Promulgado em sua versão definitiva 1 em 12 de setembro de 2007 por meio do Decreto Supremo , o Plan Nacional de Desarrollo: Bolivia Digna, Soberana, Productiva y Democrática para Vivir Bien. Lineamientos Estratégicos engloba a agenda político-econômica de Evo Morales para seu governo e constituise no mais detalhado documento oficial do governo sobre seus objetivos e estratégias políticas. De natureza abrangente, o PND apresenta como seu objetivo principal a superação da ordem político-econômica assentada numa economia de matriz primárioexportadora e na exclusão política e social da maior parte da população boliviana. Para isso, se subdivide em quatro seções que nomeiam o subtítulo do documento (Bolívia Digna, Soberana, Produtiva e Democrática) e se articulam entre si no conceito também presente no subtítulo de Viver Bem, proveniente do mandamento quéchua de Suma Qamaña, inscrito na nova Constituição Política do Estado (artigo 8). Como anuncia o PND, La nueva propuesta de desarrollo se basa en la concepción del Vivir Bien, propia de las culturas originarias e indígenas de Bolivia (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 11), centrando-se no desenvolvimento de cidadãos e comunidades e deixando de lado visões puramente economicistas e lineares de progresso material. O PND considera que sem um tratamento holístico do problema do desenvolvimento nacional, este pode prosseguir como uma quimera que não implicaria em melhorias efetivas na vida do povo boliviano e, portanto, não faria sentido sequer postular a questão. Assim, o governo precisaria trabalhar em quatro grandes eixos que, em sua totalidade e inter-relação, garantiriam o Viver Bem. Uma Bolívia Digna requer a erradicação da pobreza e a conformação de uma ampla rede de proteção social e serviços públicos essenciais tais como saúde, educação, segurança pública etc. Uma Bolívia Democrática requer o reconhecimento da multiculturalidade do país por tanto tempo reprimida, do acesso real ao poder dos setores historicamente excluídos e da transparência e controle social dos governantes. Uma Bolívia Produtiva requer a mudança do padrão de desenvolvimento econômico, com um Estado forte e ativo na condução da industrialização dos recursos naturais bolivianos e na distribuição equitativa da riqueza. Uma Bolívia Soberana requer um Estado capaz de se inserir internacionalmente a partir de suas próprias diretrizes e objetivos. E Viver Bem requereria atingir os objetivos dos quatro macro-eixos do PND. 1 Uma versão preliminar do PND havia sido apresentada publicamente em 16 de junho de

4 Bolívia Digna: geração de condições e capacidades sociais O primeiro dos quatro eixos do PND, Bolívia Digna, se propõe buscar justiça social através da atuação do Estado na geração de condições e capacidades para os cidadãos e comunidades. Por gerar condições, refere-se o PND à garantia daquelas liberdades negativas (liberty from), sem as quais o exercício da cidadania se vê prejudicado, como acesso à justiça, segurança pública, defesa nacional, entre outras. Por capacidades, refere-se à garantia das liberdades positivas (liberty to) através de ações em educação, saúde e saneamento básico, assim gerando o que o texto chama de ativos sociais. O social, segundo o PND, deve deixar de ser uma variável de ajuste do crescimento econômico para se converter no objetivo principal do Estado (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 43). As grandes desigualdades do país econômicas, sociais, culturais, regionais são vistas como importante empecilho ao desenvolvimento nacional pleno, e as propostas do eixo Bolívia Digna supõem a superação dessas desigualdades através de ações ao mesmo tempo inter-setoriais e territorializadas. Como são desigualdades em múltiplas dimensões, o PND propõe atacá-las de maneira holística, por um lado com políticas emergenciais e ações afirmativas e por outro com políticas universalistas de caráter mais estrutural. No campo educacional, por exemplo, se prevê uma ampla política de erradicação do analfabetismo e massificação do ensino, ao mesmo tempo de uma reestruturação do currículo escolar de forma a valorizar os conhecimentos tradicionais e a cultura indígena, secularmente marginalizados na Bolívia, e difundir os idiomas originários entre os que falam apenas espanhol. Na saúde, da mesma forma, o governo prevê a estruturação de uma rede pública universal que garanta o acesso de toda a população aos serviços básicos de saúde, ao mesmo tempo em que prevê reabilitar os conhecimentos da medicina tradicional e melhor aproveitá-los na rede pública. Como as diferenças de realidade entre as distintas regiões bolivianas chegam a ser extremas em muitos casos, reconhece-se no PND a necessidade de adaptar a forma de aplicação das políticas públicas às realidades locais e de focalizar territorialmente determinadas ações de modo a superar as severas desigualdades entre regiões e entre campo e cidade. O governo traça metas para o país a partir de um conjunto de indicadores sociais que chama de globais e setoriais e que podem ser vistos na tabela e quadro 1 a seguir. 4

5 Tabela 1 Indicadores Sociais Globais 2005 (%) p 2006 (%) p 2011 (%) e Pobreza moderada 60,6 59,9 51,6 Pobreza extrema/indigência 38,2 37,7 29,5 Taxa de crescimento do PIB 1,8 2,5 4,8 Proporção entre a renda dos 10% mais rico e dos 10% mais pobres 30x 24x 22x Taxa de desemprego urbano 8,1 8,0 4,0 p: Preliminar; e: Estimativa Fonte: MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 46 Quadro 1 Indicadores Sociais Setoriais Situação Atual Metas Água Potável e Saneamento 2.6 milhões de habitantes (26.9%) não têm acesso à água potável. 4.3 milhões de habitantes (44.3%) não têm acesso a serviço de saneamento. Coleta e tratamento de resíduos sólidos Serviço insuficiente no setor. Esgoto Rede reduzida de tratamento de esgoto. Eletricidade 1,42 milhões de lares na área urbana e 271 mil lares na área rural contam com eletricidade (dados de outubro de 2007). Matriz energética Os lares utilizam GLP para a geração de energia. Habitação Déficit quantitativo de 298 mil casas e qualitativo de 855 mil casas. Alfabetização 3,6 por cento ( habitantes) da população maior de 15 anos é analfabeta absoluta. Fonte: MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, pp População adicional a ser beneficiada com água potável: habitantes. População adicional a ser beneficiada com saneamento: habitantes. Aumento e melhoria dos aterros sanitários e do serviço de coleta de resíduos sólidos com um investimento anual de US$ 11,5 milhões/ano. População adicional a ser beneficiada com tratamento de esgoto: habitantes. Ampliar a cobertura de eletricidade na área urbana de 90% a 97%, beneficiando pelo menos 462 mil lares e setores produtivos de zonas periféricas. Ampliar a cobertura de eletricidade na área rural de 33% a 53% beneficiando a 210 mil lares. Construir redes e instalações domiciliárias de Gás Natural em lares. Construir 45 mil soluções habitacionais no período Alfabetizar a 1,23 milhões de pessoas maiores de 15 anos e zerar o analfabetismo. Além dos indicadores, esta seção do PND trata também de setores não quantificáveis, nos quais o governo se propõe a operar mudanças qualitativas como o acesso à justiça, propondo o reconhecimento pleno da justiça e do direito indígena-comunitário e um amplo combate à corrupção através do aumento da transparência pública e da participação popular. A seção trata ainda do tema da cultura e propõe dotar a área cultural de maior importância para o Estado, com a criação do Ministério de Culturas e de conselhos de desenvolvimento cultural para o setor. Com a perspectiva de valorização dos saberes e da cultura dos povos originários bolivianos sempre presente ao longo de todo o documento, o governo se propõe a descolonizar a cultura (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 97), valorizando e fomentando as manifestações artísticas 5

6 e culturais de origem indígena e camponesa. O PND identifica no país um grande potencial subaproveitado de geração de emprego e renda na riqueza cultural e histórica do país, com seus mais sítios arqueológicos, muitos dos quais ainda pouco estudados e documentados cientificamente, e dos quais cerca de 500 são apontados como de alto potencial turístico. Por fim, no tema defesa nacional, esta seção do PND prevê uma melhor distribuição das forças armadas pelo território nacional de forma a melhor equilibrar a presença do Estado nos pontos mais remotos do país. Prevê ainda sua articulação com projetos de desenvolvimento econômico e social nas fronteiras, com investimentos em infra-estrutura e incentivos ao assentamento de famílias ao redor dos postos militares fronteiriços, que funcionariam como núcleos de apoio à colonização dessas regiões sensíveis à segurança nacional. O PND propõe também a modernização e reestruturação da defesa civil do país para agir com rapidez nos casos de desastres naturais e causados por ação humana. Bolívia Democrática: construção e fortalecimento do poder sócio-comunitário Em seu segundo eixo, o PND propõe uma democratização profunda da sociedade boliviana como condição indispensável do Viver Bem, entendendo esta (a democracia) en su sentido más amplio... [abarcando] las dimensiones política, económica, cultural y social, y... [con] justicia social y redistribución equitativa del excedente, las oportunidades y los derechos individuales y comunitários (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 101). Um dos principais entraves identificados para a efetiva democratização do país é a secular exclusão dos indígenas e camponeses dos mecanismos de decisão estatais, e o PND identifica então como fundamental a refundação estatal em bases plurinacionais. Considera-se que sem o reconhecimento da diversidade cultural boliviana e da possibilidade de exercício do poder com base em práticas e instituições não-ocidentais, não se poderia falar em democracia real em um país onde a maior parte da população tem origem indígena ou mestiça. Assim, o PND aponta para transformações profundas na institucionalidade política boliviana a serem levadas a cabo pela Assembléia Constituinte no sentido de dar maior autonomia política e reconhecimento aos povos originários bolivianos como medida essencial para a efetiva democratização do país. Propõe, ainda, como forma de aumentar a participação e o controle populares sobre os rumos do desenvolvimento nacional, a constituição de Conselhos de 6

7 Desenvolvimento em níveis nacional e regional e conselhos setoriais e intersetoriais voltados para áreas estratégicas específicas onde se articulariam as instâncias estatais de decisão e organizações importantes da sociedade civil. Para aumentar a fiscalização popular sobre o Estado, propõe a organização de Conselhos Sociais, sem a participação do próprio Estado, mas com o auxílio deste na sua articulação, que teriam a missão de discutir livremente propostas, e mesmo em alguns casos implementá-las diretamente, além de cobrar do Estado a execução das políticas públicas. No sentido de dar transparência e eficiência à gestão pública no país, o governo propõe a criação de um sistema de medição e avaliação de impacto das políticas públicas e a estruturação de um sistema estatal de comunicações capaz de socializar os resultados atingidos, além do apoio a meios de comunicação alternativos. Reconhecendo o extremo centralismo boliviano como nocivo, o PND propõe aprofundar as autonomias departamentais, municipais e indígenas como forma de descentralizar o Estado e aproximá-lo da população. Reconhece avanços na municipalização por que passou o país desde a aprovação da Lei de Participação Popular em 1994, mas também lhe reconhece debilidades, as quais se propõe trabalhar para corrigir. Por exemplo, com o fortalecimento do papel das Câmaras de Vereadores (Concejales) como fiscalizadoras dos prefeitos, a melhor definição das atribuições políticas dos diversos níveis administrativos, superando as sobreposições existentes, e a institucionalização de mecanismos de revogação de mandatos, que valeriam não apenas para prefeitos, mas também para presidente e governadores. Com relação aos governos departamentais, o PND lhes atribui a possibilidade de exercer um importante papel de intermediação e planejamento entre o nível nacional e os níveis locais, mas reconhece que é preciso também definir melhor as competências políticas departamentais e estabelecer mecanismos mais equitativos de distribuição de recursos entre as regiões. Desde a promulgação da Lei de Hidrocarbonetos de 2005, os departamentos recebem de maneira direta uma parcela significativa das regalias pela exploração de petróleo e gás, o que tem gerado uma extrema desproporção orçamentária entre os departamentos produtores e os não-produtores. Além disso, a descentralização estatal é vista pelo governo também como a forma mais eficiente de sanar a crônica ausência de controle territorial por parte do Estado boliviano, uma das grandes responsáveis pelas tragédias nacionais das sucessivas perdas de territórios para praticamente todos os vizinhos. Bolívia Produtiva: construção da nova matriz produtiva nacional 7

8 O terceiro eixo do PND, o mais detalhado do documento, se propõe a modificar a estrutura da matriz produtiva nacional, com o intuito de transformar o padrão primário-exportador da economia. A matriz produtiva boliviana é divida pelo PND em dois eixos principais e dois eixos transversais. O primeiro dos dois eixos principais engloba os setores estratégicos geradores de excedentes, que incluem hidrocarbonetos, mineração, eletricidade e recursos ambientais. No segundo, estão os setores geradores de emprego e renda, como desenvolvimento agropecuário, a transformação industrial, manufatureira e artesanal, o turismo e a moradia. Os eixos transversais incluem o setor de infra-estrutura transportes e telecomunicações e o de apoio à produção Sistema Nacional de Financiamento para o Desenvolvimento (SINAFID), que inclui o Sistema Boliviano de Inovação (SBI) e o Banco de Desenvolvimento Produtivo (BDP). O PND estabelece que os setores estratégicos devam ser controlados pelo Estado. Sendo estes setores que necessitam investimentos elevados, mas que possuem também elevado potencial de geração de excedentes, o documento coloca que o Estado deve ser protagonista del desarrollo mediante la creación o refundación de empresas estatales que promuevan el desarrollo de estos sectores, maximice el excedente económico, su apropiación, uso y distribución a través de la reinversión además de inversiones y transferencias a otros sectores que componen la matriz productiva (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 131). A idéia central do plano econômico do PND consiste justamente na possibilidade de controle estatal sobre esses excedentes gerados pelos setores estratégicos, para que possam ser efetivamente reinvestidos no próprio setor e redirecionados para os setores geradores de emprego e renda. Estes últimos, com a dinamização da economia, passariam a prover insumos e bens finais aos setores estratégicos. Assim, se diversificaria a economia e a produção, criando-se um tecido produtivo coeso e denso. Paralelamente a essa relação entre os dois eixos principais, estariam os investimentos nos eixos transversais como condição para garantir a superação dos gargalos à continuação do processo de desenvolvimento econômico. Mais especificamente no eixo da infra-estrutura, vale destacar a atenção dada ao setor de transportes em todas as suas modalidades (aéreo, ferroviário, rodoviário e hidroviário), com a proposta de aumento da participação estatal nas diretrizes do setor e o objetivo de vertebrar internamente o país com uma rede eficiente de transportes, de modo a superar o isolamento físico de muitas regiões identificado como uma das causas do subdesenvolvimento. 8

9 Reconhecendo que os dois pilares da economia boliviana atual são a mineração e os hidrocarbonetos, o documento coloca a necessidade de refundação das estatais de ambos setores Comibol e YPFB e da orientação do desenvolvimento de ambos para a industrialização dos recursos naturais extraídos. O Estado deve estar mais presente, seja de maneira direta ou em associação com capitais privados nacionais ou estrangeiros, e os setores não devem, segundo o PND, permanecer sob controle privado. No que diz respeito à energia elétrica, o documento reconhece no país um imenso potencial subaproveitado capaz de ser exportado aos países vizinhos e converter a Bolívia no centro energético sul-americano (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 132). O PND ainda busca o estabelecimento de políticas produtivas seletivas. Isso significa aportar ao Estado um papel que não tinha no período neoliberal (principalmente a partir dos anos 80), o de intervir na economia estabelecendo prioridades. Reconhecendo-se a heterogeneidade boliviana, o Estado assume o papel de orientar a economia, no sentido de priorizar as atividades que diversifiquem a produção nacional, criem valor agregado e superem as assimetrias regionais. Tendo em vista que o subdesenvolvimento e a pobreza estão principalmente na área rural, o PND enfatiza a necessidade de priorizar o desenvolvimento desta. Para isso, se propõe trabalhar em três objetivos simultâneos e interligados. O primeiro, atingir a soberania alimentar nacional através da transformação da estrutura fundiária, dos padrões produtivos e alimentares e do acesso à irrigação. O segundo, aumentar a contribuição da produção agropecuária ao desenvolvimento boliviano através do apoio à industrialização dos produtos e da dinamização das capacidades produtivas territoriais. E o terceiro, implantar um sistema de gerenciamento sustentável dos recursos naturais e agrários (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, pp ). Incluídas dentro desses três macro-objetivos estão políticas de reforma agrária, fomento à agricultura familiar, obras de infra-estrutura rural, criação de empresas estatais e fortalecimento dos órgãos e ministérios ligados ao setor. No que diz respeito à política de investimentos, o PND enfatiza o aumento da participação do setor público, mas não prescinde dos setores privado e estrangeiro. O documento coloca que o investimento público deve passar a funcionar de acordo com as prioridades do Viver Bem, e deve aumentar sua participação média de 7% do PIB nacional entre 1990 e 2005, para 9,5% do PIB em Já o investimento privado doméstico, que nos últimos anos não teve um papel tão importante, com uma média de 4,4% do PIB, passa, no PND a uma maior importância, 9

10 principalmente nos setores geradores de emprego e renda, tendo uma projeção de alcançar 8% do PIB de participação na economia em O investimento estrangeiro, por sua vez, o maior motor da economia nos anos 90, deve ser estimulado, mas no marco de uma nova normatização que assegure regras claras sobre os direitos e deveres do capital estrangeiro dentro do projeto de desenvolvimento nacional, conforme melhor analisado abaixo. Pretende-se que a participação na economia deste tipo de investimento suba da média de 4,5% do PIB entre 1990 e 2005, para 9% em O papel dos setores de apoio à produção se mostra fundamental dentro do plano econômico do PND, já que o financiamento público é considerado peça chave do desenvolvimento. Para que tal financiamento aconteça de forma mais equitativa entre os atores produtivos e de acordo com as prioridades do documento, o SINAFID teria o papel de redistribuir a renda de forma a garantir que os pequenos produtores sejam privilegiados. Em médio prazo, estabelece a meta de conseguir que as associações produtivas comunitárias, tanto rurais quanto urbanas, sejam incluídas no sistema financeiro, com critérios de equidade regional, de gênero, setorial e étnico-cultural (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, p. 140). Paralelamente a tudo isso, para que a ruptura com o modelo anterior aconteça de fato, além do financiamento mais equitativo e de uma política produtiva seletiva, considera-se necessária a industrialização e a agregação de valores aos produtos, o que implica produzir tecnologia local. Esse processo se daria através das políticas do SBI, que vincularia os centros científicos e tecnológicos com os centros produtivos. Um dos objetivos importantes do PND como um todo, e desta seção em particular, é o combate ao desemprego. Neste sentido, busca-se uma economia que multiplique atores, diversifique setores e gere condições para o crescimento das fontes de trabalho, sempre com o pano de fundo da transformação da matriz produtiva em sua totalidade. A partir desses pressupostos, em longo prazo se pretende alcançar mudanças estruturais a orientação seletiva dos investimentos, a democratização do acesso aos meios produtivos no desenvolvimento econômico, com ênfase na geração de empregos. Além disso, se pretende desenvolver maneiras de legalizar e institucionalizar as diferentes formas de organização dos pequenos produtores, sejam eles urbanos ou rurais, na condição de agentes econômicos plenos, com participação no processo produtivo, na distribuição e no consumo. Em médio prazo, propõe concentrar-se nas mudanças institucionais e normativas que garantam o emprego digno, melhorando as relações de trabalho, protegendo legalmente o trabalhador, etc. Os objetivos mais imediatos 10

11 dizem respeito à dignificação e qualificação do emprego existente, mediante incentivos à formalização e ao acesso a sistemas de seguro. Bolívia Soberana: relações internacionais para o desenvolvimento nacional O quarto e último eixo do PND trata da nova política exterior boliviana e seu encadeamento com o processo de mudanças políticas e desenvolvimento interno. A seção parte da caracterização da política externa boliviana anterior como marcada pela dependência e submissão a paradigmas e prescrições externas e como incapaz de proporcionar ao país capacidades reais de desenvolvimento. A partir daí, o PND propõe a reversão desse padrão com a construção de uma política internacional pautada pela valorização da cultura e identidade nacional boliviana, uma maior projeção geopolítica do país e a busca por parcerias estratégicas que permitam o melhor aproveitamento e a industrialização de seus recursos naturais dentro dos objetivos expostos no Bolívia Produtiva. O PND estabelece como os cinco pilares da mudança paradigmática da diplomacia boliviana a asserção da soberania nacional, a defesa do multiculturalismo, dos valores ecológicos, a superação das assimetrias entre as nações e a chamada de Diplomacia dos Povos (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, pp ). Por Diplomacia dos Povos, o PND define o exercício diplomático não apenas através das chancelarias e cúpulas, mas também de um maior contato entre os povos dos diferentes países e da atenção e atendimento das demandas dos movimentos sociais nos acordos internacionais firmados, objetivo intimamente articulado com a defesa do multiculturalismo e do ecologismo 2 como paradigmas norteadores da nova política externa. Com a asserção da soberania, pretende a projeção dos valores progressistas orientadores da política interna para a construção de um mundo mais multipolar, que uma vez instituído tende a colaborar com a superação das assimetrias entre nações. A partir desses cinco objetivos, o documento rejeita os acordos de livre comércio e proteção de investimentos, considerados prejudiciais à superação das assimetrias internacionais, defende um lugar privilegiado à integração latino-americana através de organismos como CAN, Mercosul, ALBA e Unasul, e se propõe a enquadrar os recursos obtidos através da cooperação internacional dentro dos objetivos do PND, garantindo assim um maior papel diretivo ao Estado. Critica fortemente a política 2 Com suas ênfases respectivas no respeito aos valores dos povos indígenas e os direitos da natureza que não podem, segundo o PND, ser subjugados pelos objetivos do lucro e crescimento econômico a qualquer custo. 11

12 anterior de atração de investimentos estrangeiros diretos (IED) a qualquer preço e em detrimento dos investimentos nacionais e declara que a partir das novas diretrizes o país busca sócios, não patrões (MINISTÉRIO DE PLANIFICACIÓN DEL DESARROLLO, 2007, pp e 253): os IED serão tratados dentro de um novo marco regulatório que garanta a lucratividade dos investidores desde que assegurados o respeito às leis bolivianas e uma contribuição adequada aos objetivos de desenvolvimento do país, com sua industrialização, transferência de tecnologia e geração de empregos. Para finalizar, dentro das perspectivas de afirmação da soberania nacional e da defesa do multiculturalismo, o PND defende ainda uma reorientação da política nacional de combate às drogas e sua relação com os organismos internacionais, com a defesa da descriminalização internacional da folha de coca como integrante da milenar cultura andina e sua industrialização em produtos cosméticos, medicinais e alimentícios como alternativa à erradicação pura e simples de cocais. Do texto à ação: o PND em fatos concretos Antes de adentrar na análise aqui proposta, é importante destacar que a tentativa de acompanhar a implementação efetiva do Plan Nacional de Desarrollo esbarra na dificuldade de se encontrar dados confiáveis e mais sistemáticos a respeito e, assim, é possível dizer que o PND falhou, ao menos parcialmente, em seu objetivo de dar transparência e publicidade às ações governamentais. O sítio do Instituto Nacional de Estadística (INE) é extremamente confuso, anti-funcional e incompleto e, além disso, algumas estatísticas e informações fundamentais encontram-se pulverizadas por outros órgãos de governo como o Banco Central e ministérios. Parte importante das informações obtidas foi conseguida também através da mídia boliviana e internacional e de dados compilados no Banco de Eventos do Observatório Político Sul-Americano, disponível em Feita essa ressalva inicial, o que mais salta aos olhos como concretização do Plano são as mudanças de modelo econômico 3 relativas à participação do Estado nos setores estratégicos da economia. Após cerca de vinte anos do início do processo de privatizações levado a cabo após a redemocratização dos anos 1980, o Estado boliviano voltou a ter o controle operacional sobre o setor de hidrocarbonetos, 3 Entendido aqui nos termos propostos por Gray Molina (2006, 2007). Voltaremos ao assunto em mais detalhes na seção seguinte. 12

13 mineração e telecomunicações, ainda que não tenha ocorrido uma total reestatização dos setores. De fato, embora tenha alterado significativamente as regras e a propriedade nestes setores, a participação de capitais privados nacionais e internacionais continua presente, e o governo segue buscando investimentos estrangeiros diretos e segue relativamente dependente destes, especialmente em hidrocarbonetos e mineração, onde todos os principais projetos em andamento se dão em parceria com empresas estrangeiras, o que pode ser observado pela desproporção no volume de IED e investimentos do governo conforme a Tabela 2. O governo iniciou a retomada estatal do setor de hidrocarbonetos em maio de 2006, quando determinou, através de decreto, que a estatal boliviana YPFB deveria exercer o controle operacional sobre toda a cadeia produtiva de petróleo e gás. Pode-se depreender daí, provavelmente, o motivo de ser esse ano a única exceção, com o governo tendo investido ligeiramente mais em hidrocarbonetos que investidores estrangeiros, já que seria racional para estes segurar investimentos até conhecer como se daria efetivamente a prometida nacionalização do setor. O processo prosseguiu de forma gradual até o início de 2009, com negociações para a compra de refinarias e ações das diversas empresas e a emissão de outros decretos regulamentando tais compras. Com exceção das empresas CLHB, Transredes, Chaco S.A. e Air BP, totalmente estatizadas, as demais petroleiras permanecem no país sob empresas mistas com a YPFB. Na mineração, o processo se deu de maneira mais tímida. A estatal Comibol foi reestruturada por meio da lei 3720 de 31/07/2007, voltando a ter autorização legal para atuar na exploração e comercialização de minérios, diretamente ou através de contratos de associação e risco compartido. Foram abolidas as concessões por tempo determinado, que migraram a contratos de risco compartido, e foi restabelecida a reserva fiscal dos territórios inexplorados em nome da estatal, além de aumentada a tributação. Mas à exceção da Empresa Metalúrgica Vinto e da Empresa Mineira de Huanuni, não houve estatizações, e embora o poder do Estado de intervir no setor tenha aumentado consideravelmente, os principais projetos em desenvolvimento no setor têm se dado em associação com empresas estrangeiras. No que diz respeito às telecomunicações, o governo determinou em maio de 2008 a estatização da ENTEL, principal empresa da área no país, após longo e infrutífero processo de negociação com a controladora italiana Euro Telecom. Diversas empresas e cooperativas privadas de menor porte, no entanto, continuam atuando no setor em competição com a reestatizada ENTEL. 13

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