Palavras-Chave: Política de Segurança dos EUA; Doutrina Bush; Guerra ao Terror; Organização das Nações Unidas; unilateralismo; multilateralismo.

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1 DIMENSÕES UNILATERAIS E MULTILATERAIS DA DOUTRINA BUSH Paola Gonçalves Rangel do Prado Juliano Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP UNICAMP E PUC-SP). para contato: Resumo Neste artigo propõe-se uma discussão acerca do debate multilateralismo versus unilateralismo na política externa dos Estados Unidos da América (EUA) no governo George W. Bush. O objetivo é tratar da construção da Doutrina Bush, de ênfase unilateral, com vistas a identificar se as ações multilaterais foram ofuscadas pelos desdobramentos da Guerra ao Terror. Buscando compreender em que medida os EUA pareceram isolados da cooperação multilateral, analisar-se-ão as ações norte-americanas a partir da Guerra do Afeganistão e da Guerra do Iraque em 2003 conflito que colocou em prática a Doutrina Bush, quando os EUA iniciam a intervenção mesmo com a desaprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Constata-se que tal atitude unilateral, prevista na NSS 2002 coloca em questão críticas à ONU. No entanto, o que se observa é que os EUA não conseguem afastamento total da instituição, e como prova disso, admitem a necessidade de ajuda da ONU no processo após a queda de Saddan Hussein. Ademais, os EUA mantiveram-se atuantes em outras instituições multilaterais. Multilateralismo seletivo em alguns momentos; unilateralismo em outros sempre que necessário. Palavras-Chave: Política de Segurança dos EUA; Doutrina Bush; Guerra ao Terror; Organização das Nações Unidas; unilateralismo; multilateralismo. Introdução Com o final da Guerra Fria e o fim da paralisia no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), as intervenções em situações consideradas ameaçadoras à paz e a segurança internacional autorizadas pelo Capítulo VII passam a ser mais constantes. A Guerra do Golfo, em 1991, quando o Iraque invadiu o Kwait, foi uma ação impositiva do Capítulo VII, acionada pelo CSNU, que autorizou os membros a usarem todos os meios necessários, o que 1

2 resultou em uma ação militar pela coalizão multinacional sob a liderança dos EUA (HERZ e HOFFMAN, 2009; PATRIOTA, 1998). Com os atentados de 11 setembro de 2001, a capacidade da ONU de manter a paz e a segurança internacional foi questionada. Em 2003, os EUA tentaram acionar o CSNU para a imposição do Capítulo VII, mais uma vez contra o Iraque, agora em perspectiva de guerra ao terror. Iraque, juntamente com a Coréia do Norte e o Irã, foram apontados pelos EUA como Eixo do Mal, ou seja, um conjunto de países detentores de armas de destruição em massa e que apóiam o terrorismo. Ao expressar desconfiança de que o país pudesse estar desenvolvendo programas de armas de destruição em massa, o Bush denunciou o Iraque como ameaça à segurança internacional, abrindo possibilidades de se utilizar a força para alterar o regime do país. E, em caso da ausência de providências das Nações Unidas e conforme ditava a NSS 2002, os EUA agiriam unilateralmente (MRE, s/p; RAMMINGER, 2007). O CSNU fragmentou-se, com EUA e Grã-Bretanha em apoio às medidas impositivas; enquanto França, Rússia e China opondo-se à ação. O resultado dessa fragmentação, ou seja, a não aprovação de uma medida coercitiva contra o Iraque não impediu a ação norteamericana, que desconsiderou a decisão da organização e desistiu de solicitar autorização formal para o uso da força. O presidente norte-americano apresentou um ultimato ao ditador iraquiano, Saddam Hussein, dando-lhe 48 horas para deixar o país. Expirado o prazo, as forças de coalizão lideradas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha invadiram o país, dando início à intervenção no Iraque, ou Operação Liberdade do Iraque (RAMMINGER, 2007, p. 16; POWER, 2008, p. 408). Embora a conduta unilateral, em especial no campo da segurança, não fosse novidade, passou a ser a mais utilizada classificação da administração de George W. Bush. Como consequência, acirraram-se os questionamentos quanto à incapacidade da ONU de manter a paz, como também da ação norte-americana com relação a questões relacionadas ao terrorismo, democracia, direitos humanos ou outros problemas globais. De fato, a política externa de gestão de George W. Bush se diferenciou da maioria das gestões anteriores. O perfil político de Bush W. Bush acrescentado às propostas realizadas durante a campanha eleitoral de 2000 e, principalmente, aos ataques terroristas logo ao início 2

3 de seu primeiro mandato, fizeram desta administração um período singular na História dos EUA. A adoção da Guerra Preventiva e a declaração aberta de que os EUA atacariam militarmente qualquer governo que considerasse inimigo, foram as principais características do início desta gestão. Hammond (2006, p. 21) destaca três inovações formuladas para política exterior do período em questão: primeiramente, a política se basearia abertamente na capacidade de domínio militar e político dos EUA sobre o mundo; em segundo lugar, seria unilateral, desenvolvida sem considerar aliados tradicionais. E em terceiro lugar, não estaria sujeita ao Direito Internacional. No entanto, é interessante notar que essa administração conseguiu promover, em algumas áreas, formas cooperativas de ação junto aos EUA. Mesmo após a não aprovação da ONU para a Guerra do Iraque em 2003, os EUA não se afastaram totalmente das organizações multilaterais. Os EUA ainda tentaram angariar cooperação de parceiros como França, Alemanha, China, Rússia, assim como das Nações Unidas (ainda no decorrer da guerra iniciada sem a aprovação do órgão). A questão que Suedfeld (2007, p. 325) coloca é que como os EUA podem não ser multilaterais seletivos quando suas prioridades, interesses e objetivos não são totalmente compartilhados com seus potenciais aliados, ou até incompatível com alguns? Como visto, com a não aceitação dos outros Estados, os EUA acreditavam que o poder de veto poderia ajudá-los a manter ou avançar sua política externa e de defesa, mesmo sem aprovação das Nações Unidas ou da OTAN. Ao mesmo tempo, os EUA apresentam bons registros em termos de redução de poluição (melhores do que o Canadá, pró Kyoto); contribuem com o maior orçamento nas Nações Unidas; e auxiliam mais com recursos humanos e financeiros em ajuda a consequências de desastres naturais e humanitários do que muitos outros Estados (SUEDFELD, 2007, p. 324). Mas a percepção da Doutrina impede boa parte de atribuição desses créditos a essas políticas norte-americanas; na verdade, essas políticas parecem irrelevantes e aparecem menos tendo em vista as orientações mais agressivas da Doutrina Bush. Em primeiro lugar, por terem procurado o debate no CSNU sobre o caso do Iraque, os 3

4 EUA e a Grã Bretanha, de alguma forma, levaram a questão para o debate multilateral, como alternativa inicial. Em segundo lugar, após a intervenção (sem a aprovação das outras potências do CSNU), os EUA mostraram deferência aos debates sobre a suspensão das sanções contra o Iraque no CSNU e concordaram que a ONU deveria se envolver na reconstrução do país e na realização das eleições (MINGST, 2009, p. 169). É possível afirmar que, ao admitir essa participação da instituição que reprovou a política americana no Iraque, os EUA não desconsideraram totalmente a importância da ONU e mais uma vez buscaram a cooperação para realização de suas iniciativas. A ação empreendida pelos Estados Unidos contra o Iraque de fato reavivou o debate sobre a eficácia das organizações internacionais. Alguns especialistas, e a própria opinião pública internacional, acusaram o a ONU de ser uma instituição fraca e sem força política para deter grandes potências. Todavia, Ramminger (2007, p. 4) aponta que a não autorização da intervenção norte-americana no Iraque deu credibilidade à organização, uma vez que não legitimou uma ação de caráter preventivo unilateral, ilegítima por natureza. Sato (2003) e Amorim (2005) concordam que esse evento demonstrou limitações da ONU, tanto em relação à sua estrutura constitutiva em relação aos novos desafios impostos pelo mundo atualmente, quanto no desempenho de suas funções. A evolução da Política de Segurança dos EUA e o marco do unilateralismo Após o fim da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, a preocupação da segurança dos EUA, que esteve muito vinculada às questões de geopolítica, passou a ser um possível choque direto com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Com isso, intensificou-se o desenvolvimento das forças armadas e dos serviços de inteligência. Segundo Oliveira (2009, p. 17), com o colapso soviético a razão de existência dos efetivos americanos desaparece como preocupação mundial; a Rússia (Estado sucessor) reduz suas forças de segurança, como o exército, a marinha de guerra (que é desmontada), iniciando-se com isso o temor com o destino de arsenais nucleares, o que fez com que os EUA reorientassem suas políticas na matéria. No início da década de 1990, documentos oficiais já apresentam mudanças no planejamento estratégico norte-americano. A preocupação com a ameaça global (a URSS) 4

5 transfere-se às ameaças regionais, em especial aos Estados do Terceiro Mundo e aos Estados ex-satélites da URSS. Tais mudanças são iniciadas pelo governo George H. W. Bush e implementadas pela administração Bill Clinton. Além de mudanças dentro das burocracias, os serviços de inteligência tiveram que se adaptar e mudar o foco: a crescente ameaça de atores não-estatais (como terrorismo e narcotráfico); as ameaças originadas do mundo em desenvolvimento; a proliferação de armas nucleares, etc. A Central Intelligence Agency (CIA) reduziu pessoal envolvido em operações encobertas e aumentou pessoal encarregado da análise de informações vitais. As forças armadas também reduziram efetivos humanos e aumentaram o investimento em tecnologia, buscando manter a capacidade dos EUA em operações militares para defesa de seus interesses (OLIVEIRA, 2009, p. 19). De alguma forma, os EUA alteraram suas concepções de segurança em matéria de política internacional devido à substituição da ameaça de um ator estatal por outros atores regionais. A preocupação com atores estatais baseava-se essencialmente nos ex-satélites que compunham a URSS; a OTAN, ao contrário de entrar em crise existencial, sofre modificações em seu conceito estratégico, o que permitiu o ingresso da Polônia na aliança e em seguida, outros Estados do Leste Europeu (BARROSO, 2006: LEAL, 2004; McCALLA,1996;). Ainda nos anos 1990, a preocupação engloba também Rogue States 1 e estados falidos 2. A questão com os Estados falidos é que estes poderiam ser criadouros de uma nova ameaça, já conhecida dos atores não-estatais, o terrorismo. A década de 1990 foi marcante para as Relações Internacionais e principalmente para a delimitação da política norteamericana. Os atores não-estatais passaram a ser conhecidos como ameaças aos cidadãos, às companhias e instalações militares nos EUA. 1 Rogue States é um termo utilizado pelos EUA (inclusive em documentos oficiais como a NSS) que define alguns Estados como ameaças globais, com regimes autoritários, infratores dos direitos humanos, potenciais patrocinadores do terrorismo e possíveis detentores ou criadores de armas de destruição em massa. Documentos oficias norte-americanos destacavam, principalmente após a Guerra do Golfo, Iraque, Irã e Coréia do Norte. Considerando ser um termo de difícil definição e tradução para a língua portuguesa, este texto tratará desse termo na língua inglesa. Somália e Libéria, Estados falidos, também se tornam ameaças (OLIVEIRA, 2009, p ). 2 Estado falido também aparece nos documentos oficiais dos EUA, denominando Estados que o governo é ineficaz e sem controle sobre seu território e população, com altas taxas de criminalidade, muitas vezes controlado por grupos armados ou organizações terroristas. Trata-se de um termo controverso e não aceito por alguns estudiosos. No entanto, este artigo tratará conforme apresentado pelos documentos oficiais dos EUA. 5

6 Após a Guerra do Golfo, o então Presidente George W. H. Bush anunciou publicamente uma mudança na estratégia de defesa americana. Da ameaça global a URSS transferia-se a preocupação contra ameaças reais e potenciais não-soviéticas. Na prática, houve a transformação do papel das forças armadas americanas, potencializando estas a lutarem em conflitos regionais (OLIVEIRA, 2009, p. 122). O Departamento de Defesa, junto ao seu secretário Richard Cheney, elaborou um documento em 1993 apresentando as novas ameaças para os EUA, além de apontamentos de novos direcionamentos para as estruturas militares e se de segurança. O documento traz uma contribuição importante, tendo em vista a política que seguiu após isso; reconhece o fim da Guerra Fria e apresenta o comunismo como uma ideologia sem forças de impacto global. Transfere-se a partir desse documento, a Estratégia da Contenção para a Estratégia de Defesa Regional (CHENEY, 1993, p.01 apud OLIVEIRA, 2009, p. 122). O secretário Cheney promovia a ideia de que os EUA deveriam evitar que qualquer país hostil e não-democrático controlasse as regiões chaves do mundo. O documento de 1993 falava em presença avançada das forças americanas no sistema internacional além da necessidade de respostas rápidas a uma situação de crise. Dentre os objetivos estratégicos e de segurança nacional dos EUA destacam-se: deter ataques contra os EUA, seus cidadãos e suas forças; fortalecer e estender arranjos de defesa que incorporem nações democráticas, enfatizando a defesa comum, buscando a diminuindo os riscos e os custos para todos os participantes desse sistema de defesa; evitar que potências hostis dominem regiões chaves para os interesses norte-americanos e de seus aliados, além de tentar evitar o ressurgimento de uma ameaça global; e evitar conflitos, reduzindo as fontes de instabilidade regional, ou minimizar a violência em caso desses conflitos serem inevitáveis (OLIVEIRA, 2009). Uma ação coletiva com liderança americana era uma das formas arquitetadas para alcançar os objetivos estratégicos mencionados. Considerando que essas ações coletivas seriam articuladas a partir de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e que essas organizações poderiam apresentar falhas e lentidão nos processos de tomada de decisão, os EUA já alertavam, em 1993, sobre a possibilidade de agirem sozinhos em alguns momentos. 6

7 Além disso, pela natureza inter-estatal das organizações internacionais apontadas, conflitos de interesses são esperados (BARBÉ, 2001; CERVERA, 1991; VIRALLY, 1972); a dependência dessas instituições não era interessante para os EUA. O documento de 1993 destaca os seguintes origens de ameaça: estatal inclusive a Rússia e o vácuo de poder no Leste Europeu e Ásia Central, decorrentes da queda da URSS; rogue states localizados no chamado Terceiro Mundo, em destaque Iraque, Irã e Coréia do Norte (os mesmos apresentados em documentos no início do século XXI), apontados como potenciais desestabilizadores regionais e ameaças aos interesses norte-americano; estadosfalidos também localizados no Terceiro Mundo, em especial Somália, Afeganistão, Sudão e Libéria, considerados regiões potenciais para abrigo de movimentos terroristas ou guerrilheiros; e atores não-estatais em especial grupos guerrilheiros e terroristas, e também a questão do narcotráfico (OLIVEIRA, 2009, p ). Observa-se aqui que a preocupação com os atores não-estatais é secundária e a perspectiva das ameaças se dá mais em nível estatal. O temor vinha da possibilidade de associação de atores não-estatais aos Estados. Ao que concerne ao Governo de Bill Clinton, ele, em seu primeiro Discurso sobre o Estado da União, ressaltou questões econômicas e, de forma secundária, questões sobre defesa. Em 1994, em outro Discurso Sobre o Estado da União, Clinton destacou novamente os problemas econômicos; no entanto, elevou a importância as questões de segurança e defesa, em especial das forças armadas, solicitando ao Congresso 25 bilhões de dólares às forças americanas para os anos seguintes. O emprego de tropas americanas no Kuwait e no Haiti foram citadas pelo então Presidente. No Discurso de 1996, Clinton inicia sua fala saudando os soldados americanos espalhados pelo globo, como na Bósnia, por exemplo, e pede a ratificação do START II, que reduzirá os estoques americanos em 25% (OLIVEIRA, 2009, p ). Em 1997, o discurso de Clinton ainda ressalta os avanços de redução de armas nucleares com a Rússia, mas levanta a questão da expansão da OTAN; ademais, comenta sobre a necessidade de aproximação com a China, para acertar algumas diferenças e atender a interesses americanos de segurança na região. Em 1998, o discurso de Clinton diminui a relação com temas econômicos e domésticos; continua a tratar de cooperação para reduzir testes nucleares. Em 1999, ainda toca em questões nucleares, enfatizando a necessidade de 7

8 restringir a expansão e desenvolvimento de tecnologias para a fabricação de mísseis e ogivas nucleares, da Coréia do Norte, Índia e Paquistão. Em 2000, o Discurso de Clinton destaca questões econômicas novamente; em segurança, ressalta a importância estratégica da Rússia e da China. (OLIVEIRA, 2009, p ). A Estratégia de Segurança Nacional para o novo Século (National Security Strategy for a New Century) começou a ser elaborada em 1995 e sua versão final em 1998, concentrando aspectos políticos e militares sobre concepções americanas de segurança e defesa, além de outras questões econômicas, promoção de democracia liberal e um pouco sobre questões ecológicas. Reconhecendo o fim da Guerra Fria, a Globalização e que este fenômeno trouxe novas oportunidades mas também novas ameaças, o documento propõe três objetivos: o primeiro é aumentar a segurança americana; o segundo trata de prosperidade econômica; e o terceiro fala em promover a democracia no mundo. Adiciona-se que na lista de preocupações, está armas de destruição em massa e ameaças transnacionais (OLIVEIRA, 2009, p ). As ameaças em destaque eram: ameaças apresentadas por Estados Regionais; ameaças transnacionais; difusão de tecnologias perigosas; ação de serviços de inteligência estrangeiros (de espionagem industrial, coleta de informações políticas, etc); Estados-falidos (OLIVEIRA, 2009, p. 179). Conforme aponta Oliveira (2009, p. 180), o terrorismo é tratado como ameaça transnacional, e o documento de 1998 já apresentava os seguintes princípios: não realizar concessões; toda pressão possível política, econômica e militar em Estados que patrocinem o terror; utilização de todos os mecanismos legais que permitam punir os terroristas internacionais; ajuda a outros governos que combatem o terrorismo. Enfatiza-se a proteção da infra-estrutura nacional e preocupação com armas de destruição em massa (ADMs). Além disso, o documento ressalta que o ambiente que se instaura no pós-guerra Fria é de imprevisibilidade, diferente do período bipolar. Segundo Oliveira (2009, p. 184), o documento ainda fala sobre a questão energética e menciona a importância do Golfo Pérsico, inclusive citando o potencial do Mar Cáspio e reservas eurasiáticas. De forma geral, o documento finaliza com a questão da democracia e direitos humanos, enfatizando que o aumento do número de democracias é desejável e que promove aumento de segurança para os EUA; isso pois nações democráticas são mais 8

9 previsíveis e mais responsáveis com suas populações. Em relação às regiões geográficas, o documento analisa o comportamento americano nas áreas de segurança, economia e democracia. Sobre a Europa, menciona-se o fato de que o continente é vital para a segurança dos EUA, e com isso, a necessidade de manter uma forma de 100 mil soldados americanos, preservando a liderança dos EUA na OTAN. Além disso, discorre sobre a necessidade de ampliação da organização (OLIVEIRA, 2009, p ). Sobre a Ásia-Pacífico fala do comprometimento de tropas e manutenção de alianças com a Austrália, Japão e Coréia do Sul. Em relação à China, o destaque é dado à expansão da cooperação comercial (OLIVEIRA, 2009, p. 185). Com relação ao continente americano, as preocupações estão ligadas às ameaças transnacionais. O tráfico de drogas, o crime organizado e o terrorismo. O documento ressalta a assinatura do Tratado de Não-Proliferação Nuclear feito pelo Brasil e Argentina; no entanto, a maior preocupação mostrada no documento sobre essa região é o conflito Equador-Peru (OLIVEIRA, 2009, p. 185). Sobre Oriente Médio, sul e sudeste da Ásia, o documento defende a ideia de que a liderança americana de um processo de paz é boa para a região. A presença militar americana no Golfo Pérsico inibe iniciativas maiores do Iraque. Em se falando do terrorismo, a preocupação vem do apoio do Irã contra grupos anti-americanos e anti-israelenses. Mas, segundo Oliveira (2009, p. 186), o documento é mais positivo com relação a Teerã, acreditando na mudança do comportamento iraniano. No sul da Ásia, o Afeganistão é citado, tanto pela questão das drogas quanto pelo fato dos campos de treinamentos terroristas; é feito aqui, inclusive, uma menção da ameaça de Osama Bin Laden. Nessa mesma região, fala também do papel dos EUA como mediador na rivalidade Índia-Paquistão (OLIVEIRA, 2009, p. 186). Sobre a África, as ameaças transnacionais merecem destaque, como drogas e abrigo de terrorismo, com destaque à Líbia (acusada de apoio ao terrorismo de de ter usado armas químicas na guerra contra o Chad. A África do Sul é elogiada por ter desfeito seu programa nuclear militar (OLIVEIRA, 2009, p. 186). Por fim, o documento reforça a ideia de que os EUA buscam reforças sua segurança no cenário internacional contemporâneo, com base em três objetivos: elevar a segurança 9

10 americana, fortalecer a prosperidade econômica e promover a democracia no sistema internacional. Afirma-se que se deve fortalecer e até construir novas instituições e regimes de cooperação. Outra conclusão que se pode extrair do documento é o fato de que na década de 1990, a ênfase das ameaças e problemáticas é data aos atores estatais, e que ameaças transnacionais como crime organizado e tráfico de drogas são mais lembrados do que o próprio terrorismo. Observa-se então que as ameças não-estatais, como organizações terroristas são citadas com as mais variadas graduações de preocupação, no entanto não mencionadas como desestabilizadoras da ordem internacional, assim como os Estados. Mesmo quando associados terroristas e armas de destruição em massa, acreditava-se que isso só ocorreria com ajuda dos Estados. A partir desses documentos e discursos da década de 1990 deduz-se que a os elevados gastos norte-americanos com forças militares tentavam coibir o aparecimento de qualquer ameaça global do nível que fora a ex-urss. Tal exposição sobre a década de 1990 mostra que as preocupações dos EUA modificam-se após os ataques terroristas de 11 de setembro de Eventos estes que fizeram elaborar um novo documento sobre a estratégia nacional de segurança. Os eventos de 11 de Setembro de 2001 foram decisivos para a segurança nacional dos EUA. Os ataques terroristas criaram um desafio sem precedentes para a democracia americana e principalmente para a sociedade liberal. Logo após os ataques havia a incerteza quanto aos custos que envolveriam a busca dos responsáveis ou como se daria o combate à uma rede global de suporte ao terrorismo. A grande questão era como os EUA retomariam a sensação de segurança. A partir de 2001, a agenda norte-americana passa a ser norteada pela tratamento e combate ao terrorismo internacional. Nesse novo ambiente, os interesses nacionais e a segurança nacional se tornam complicadas, às vezes ambíguas não só pela resposta direta com a guerra proposta pelos EUA mas pelo ambiente incerto e confuso que se instaurava na arena internacional(sarkesian, WILLIAMS e CIMBALA, 2002, p. 03). Congresso e a opinião pública norte-americana pareciam ter se unido em uma única vontade, de reposta aos ataques de 11 de setembro. Embora ainda se falasse sobre os interesses nacionais, sobre a segurança nacional e sobre o papel dos EUA no mundo, tudo 10

11 parecia estar coberto, pelo menos por um tempo, pelo medo do terrorismo (SARKESIAN, WILLIAMS e CIMBALA, 2002, p. 03). O termo interesse nacional passa a ser utilizado em todos os discursos e se torna quase um jargão americano. Do ponto de vista prático, não há uma forma certa e objetiva de traduzir o termo interesse nacional, e conforme destacam Hasted e Knickrehm (1994, p. 142 apud SARKESIAN, WILLIAMS e CIMBALA, 2002, p. 03), (...) just as with concept of power, the concept of the national interest is not easily defined. At the core of the debate over its definition is the question of whether the national interest should be treated as an objective, measurable asset or a normative political symbol. Essa dúvida não é novidade. O termo segurança nacional historicamente tem se mostrado amplo. Sarkesian, Willians e Cimbala (2002, p. 05) tentam definir interesses nacionais a partir de algumas prioridades dos EUA, como: interesses vitais, colocados como prioridade máxima, como proteção do território ou áreas diretamente ligadas a esse interesse. Tal interesse necessita de total apoio da nação e forte comprometimento militar e de recursos. A proteção territorial dos EUA tornou-se foco após os ataques de 11 de setembro, com o então Presidente George W. Bush, com a proposta de coordenar todas as agências e departamentos na contenção do terrorismo nos EUA. Em segundo lugar entra o que Sarkesian, Willians e Cimbala (2002, p. 05) chamam de interesses críticos ou aquelas áreas e problemas que não afetam diretamente a sobrevivência dos EUA, mas que são potenciais interesses vitais, ou seja. Pode-se aqui mencionar os esforços dos EUA em promover, manter e expandir os sistemas democráticos. Ainda na classificação de Sarkesian, Willians e Cimbala (2002, p. 06), em terceira ordem de prioridade estão os interesses sérios apontados como problemas que ainda não afetam criticamente os interesses de primeira e segunda ordem, mas causam certo desconforto para as primeiras prioridades. Outros interesses podem ser considerados periféricos, o que significa que não causam impacto imediato, mas que devem ser observados com mais cautela quando passam a interferir nos interesses listados como prioridades. Tendo isso, essas três ordens de prioridades de interesses determinam um escopo de opções estratégicas. Segundo Baker (2007, p. 171), poucos eventos tiveram tamanho impacto na política norte-americana do que os ataques de 11 de setembro. Baker (2007, p. 171) descreve os 11

12 atentados assim: Hijackers seized four commercial jets and used them as missiles, crashing two planes into the World Trade Center in New York City, causing both towers to collapse, and one plane into the Pentagon. The fourth plane was apparently destined for another target in Washington but crashed in a field in Pennsylvania after passengers battled with the hijackers for control of the plane. Almost 3,000 people were killed in the attack. The vast majority were office workers in the World Trade Center and the police and firefighters who rushed to the towers between the time when the planes hit and the buildings collapsed. O autor traça um claro cenário do que aconteceu naquele dia. Os ataques foram inesperados e o país respondeu com uma combinação de raiva, medo, indignação, choque. A questão é que tais ataques foram de fato efetivos e causaram tamanha destuição e mortes em um único dia que destruíram também o senso público de segurança (BAKER, 2007, p. 171). Além disso, e para piorar tal cenário, os ataques coincidiram com a onda de medo do Anthrax (cartas contaminadas com Anthrax foram enviadas a várias organizações novas e dois senadores Americanos cinco pessoas expostas ao vírus morreram e muitas ficaram severamente doentes). Após esse trauma com o vírus e as cartas envenenadas, as pessoas ficaram com medo de voar, com medo da segurança de altos prédios e com medo de abrir correspondências (BAKER, 2007, p. 172). Quando evidenciou-se que terroristas islâmicos eram os reais responsáveis pelos ataques, cidadãos americanos passaram a desejar uma vingança. Como consequência, houve forte apelo patriótico e as palavras islã, árabe e muçulmano passaram a possuir significado negativo. George W. Bush, logo em 20 de setembro de 2001, dias após os ataques, anunciou que haveria resposta aos atos e declarou guerra ao terror. O então Presidente norte-americano imediatamente responsabilizou pelos ataques, Osama Bin Laden, sua rede e seus seguidores, alertando ao Taliban que teriam que enfrentar um ataque caso não entregassem Bin Laden. O principal objetivo declarado pelo então Presidente norte-americano foi a eliminação do terrorismo (BAKER, 2007, p. 172). Sendo o terrorismo uma tática e não uma entidade ou um inimigo concreto, Bush estava declarando uma guerra que poderia sofrer vários tipos de questionamentos, como o que duvidava da guerra contra uma tática que poderia ser adotada por qualquer grupo ou pessoa individualmente. Tratava-se de algo muito difícil de medir, visualizar e entender. 12

13 No entanto, diante da dimensão dos ataques, do número de mortos e do medo instaurado na sociedade americana, houve uma enorme pressão dos cidadãos cobrando um reposta e poucas pessoas de fato questionaram a lógica do presidente que declarara guerra ao terror. Logo após o discurso do Presidente Bush, a aprovação do plano contra o terrorismo era de aproximadamente 90 porcento dos cidadãos norte-americanos (BAKER, 2007, p. 173). A guerra ao terror possuía dois focos centrais: no plano internacional, o foco principal era a capturar ou matar Bin Laden. No plano doméstico, era promover leis e reforçar as agências para que pudessem eliminar qualquer elemento ou vestígio da rede terrorista ainda em território norte-americano. Em adição, a administração Bush ainda investiu na ideia de que maior proteção contra ataques terroristas poderia ser conseguido com a criação do Departamento de Segurança Nacional. O FBI (Federal Bureau of Investigation) prendeu centenas de árabes e muçulmanos suspeitos no país nas semanas seguintes ao ataques, numa tentativa de encontrar qualquer vestígio que levasse a Bin Laden ou à redes terroristas ligadas a ele. Devido às ações dp FBI terem sido drásticas e às vezes, sem seguir procedimentos legais normais, Bush conseguiu a aprovação no Congresso Norte-Americano para algumas detenções e prisões por meio do PATRIOT Act. Outro fator para reforçar a segurança nacional foi tentar dificultar ataques terroristas, tendo como iniciativa principal a segurança nos aeroportos e aviões (BAKER, 2007, p. 174). A política externa Bush após o 11 de setembro de 2001 Unilateralismo agressivo é o termo utilizado por Hammond (2006, p. 21) ao tratar da Doutrina Bush, diferenciando-a do isolacionismo do início do século XX e do multilateralismo comprometido, essencialmente após a II Guerra Mundial. Tal enfoque desta política dos EUA possui vários exemplos. A não aceitação do Protocolo de Kyoto sobre o aquecimento global; a rejeição da Corte Internacional de Justiça (não assinatura o Tratado de Roma e realização de tratados bilaterais que evitariam o envio de militares norte-americanos acusados à Corte); a retirada do Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM) com a Rússia; o encarceramento em Guantánamo de combatentes capturados no Afeganistão, negando o status de prisioneiros de guerra conforme exigia a Convenção de Genebra; e o constante apoio a 13

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