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1 Transversalidades políticas no processo de subjetivação do Cuidado em Saúde Enéas Rangel Teixeira 1 INTRODUÇÃO Neste artigo discuto os conteúdos referentes às implicações políticas do contexto saúde no cuidado em saúde. Procuro falar deste território, entendido como o campo onde estão inseridos os sujeitos, as instituições, as técnicas, as ações, os paradigmas e as subjetividades. Deste modo, faço alguns esclarecimentos conceituais referentes à subjetividade e à política, envolvendo o território saúde, trazendo a questão do desencantamento e do controle do desejo. O método adotado foi a pesquisa-ação, a qual foi realizada com grupos de graduandos em enfermagem inscritos numa disciplina que trata do cuidado com o corpo e a subjetividade. Participaram da pesquisa 92 sujeitos. Os temas norteadores foram: O que me encanta? O que me desencanta na enfermagem? Os sujeitos da pesquisa responderam e discutiram questões através de desenhos e expressões verbais em dinâmicas de sensibilidade em grupo. Como recorte para esse capítulo, discuto a dimensão política do cuidado na perspectiva da subjetividade esquizoanalítica.(teixeira, 2006) As discussões com os integrantes da pesquisa confirmaram as deficiências no sistema de saúde. Os conteúdos emergiram nas dinâmicas foram muito significativos no que diz respeito ao desencanto com a arte de cuidar. Os participantes da pesquisa expressaram suas idéias e sentimentos num momento caótico de descaso com a saúde, que repercute na realidade de trabalho e, especificamente, no contexto de um hospital universitário, que é campo de estágio para os graduandos de enfermagem. RESULTADO E DISCUSSÃO Os discentes perceberam que o cenário político interfere nas ações dos profissionais de saúde, o qual favorece maior demanda de clientes para o nível de tratamento e reabilitação. Este nível de atenção em saúde requer tecnologias, investimentos financeiros e profissionais especializados, onerando ainda mais o sistema. Assim, os depoentes se expressaram: Faltam remédios nos hospitais, nas farmácias, falta dinheiro. Precariedade, desemprego, remuneração, hospital fechado, dinheiro voando. 1 Enfermeiro, psicólogo, doutor em enfermagem, pós-doutorando em psicologia clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Titular do Departamento de Enfermagem Médico cirúrgica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense.

2 Inicialmente, as contradições na saúde indicam que para o cuidado ser, de fato, exercido, precisa de uma base material, que passa pelo campo da subjetividade capitalista de produção. Com efeito, o descaso com a saúde gera atitudes antiéticas e práticas iatrogênicas produtoras de desencantamentos. Deste modo, disseram os alunos: O descaso com a saúde; hospitais vazios, falta de material de trabalho, a política que não ajuda em nada. A discussão política é pertinente neste trabalho, pois como abordei desde o início, para que o cuidado seja transformador, este tem que se fazer político, ou seja, mover-se no campo social, direcionando condutas e desfazendo-se de tiranias instituídas. O político faz parte da vida, referindo-se à organização coletiva do homem civilizado. Essa dimensão engloba o Estado, seus agentes de ressonância (escola, igreja, família, forças armadas, saúde e outros) e as formas de vida do sujeito. Assim, o político está relacionado à organização e à direção da conduta do sujeito e às suas relações com as demais pessoas, no sentido filosófico da palavra (Lalande, 1996, p.822). O politiker (do grego) por mais fascinante, assustador e desgastante que seja, refere-se à propriedade de administrar e de se posicionar, abrangendo as condições de trabalho e a maneira como os sujeitos gerenciam suas vidas. Tais aspectos relacionados às políticas públicas de saúde interpenetram-se e expressam-se nas micropolíticas institucionais. As condições de saúde da população indicam como a sociedade está organizada e distribui seus bens materiais, o que passa, portanto, pelas relações de poder. Dessa maneira, o político pode permitir a felicidade ou a infelicidade do homem. A história das políticas no Brasil demonstra um percurso de mando e desmando, de autoritarismo e de um egocentrismo sem precedentes das elites brasileiras, que aumentaram as desigualdades e a marginalização na população brasileira. De modo que ações de autoridades se confundem com autoritarismo, dominação e exploração, que resíduos ainda operantes do colonialismo. No campo da saúde, existem produções contínuas de subjetividades que norteiam as formas de vida dos sujeitos, produzidas pelo efeito da junção Estado e Medicina. Essas subjetividades visam homogeneizar as pluralidades, as criações originais e o próprio desejo para sustentar o sistema produtivo. São subjetividades de produção em série, capitalistas de corpos, ações, rostos, formas de cuidados, esteriótipos e técnicas. Guattari (1993) não faz uma hierarquia das instâncias determinantes na produção de subjetividades como estado, igreja, mídia, família, serviço de saúde, indivíduo. Desta forma, o Estado não é sempre o determinante e nem o sujeito passivo à sua intervenção, pois o indivíduo pode, também, gerar novos sentidos e modificar o contexto. Assim, a economia libidinal e política estão articuladas, de modo que as subjetividades envolvem o

3 individual, o social e o político. Enfim, existe um componente inconsciente que é maquínico, ou seja, de produção contínua de sentidos no cenário político. A esquizoanálise, termo criado por Guattari (1993, 1996a), coloca que o indivíduo, o grupo ou a sociedade pode reagir e transformar a realidade pela expressão desejante no campo social, rompendo com as camisas de forças do instituído, através de agenciamentos coletivos e ações compartilhadas em grupo. É nessa tônica do político com o sensível que Barbier (1996, p. 275) defende a sociologia criadora, que articula forçosamente os quatros pólos: do existencial, do analítico, do político e do poético, e não se contenta com os aspectos redutores do emocionalismo fusional (o movimento do potencial humano) e dos dogmatismos em moda (psicanalismo e dogmatismo calcificados). De acordo com essas premissas, o limite entre o social e o individual pode ser tênue pois ele expressa a sociedade, bem como suas contradições e recursos. O descaso com a saúde, a falta de subsídios para o trabalho é uma expressão dessa dicotomia entre a economia política e a economia libidinal, de modo que, cuidado e afeto estão dissociados. Em síntese, a subjetividade está relacionada ao imaginário social, às máquinas produtoras de subjetividades e ao desejo de transformação da vida, na medida em que existe a pulsação política do desejo, de gerar utopias, de criar e produzir mudanças na realidade. Conseqüentemente, saúde implica em dinheiro, em investimento de capital, não sendo viável uma pessoa cuidar de seu corpo se ela não tiver algum recurso financeiro. Os discursos e desenhos dos alunos expressaram uma realidade local, mas foram sendo trabalhados no sentido de realizarem maiores reflexões do contexto social da saúde diante das políticas públicas. Assim sendo, tal contexto se reflete nos comportamentos e atitudes dos profissionais, dificultando a qualidade da atenção em saúde. Desencanta, quando queremos ajudar, mas não é possível, principalmente pelas condições precárias de saúde, endossou um discente. Os sujeitos da pesquisa demonstraram uma insatisfação com o campo da saúde, o qual não permite um cuidado de qualidade e satisfatório. No entanto, eles externalizaram que supostamente sabiam o que teria que ser feito, sob o ponto de vista técnico, mas sentiram-se impotentes diante da falta de subsídios e perspectivas. Sabe-se que a realização do cuidado tangencia os limites da realidade criada pelas condições deficientes da saúde falta de infra-estrutura adequada, a mercantilização da saúde, atendimento inadequado entre outros. Sendo assim, os obstáculos traduzem-se pela deficiência das condições de trabalho e pela ausência de postura ética de determinados profissionais de saúde, que são favorecidas pelas políticas sociais inadequadas que interagem com as micropolíticas

4 das instituições. Muitas vezes não há espaço (liberdade) para o enfermeiro desenvolver seus trabalhos. Má remuneração do profissional, não valoriza a qualidade do trabalho realizado como ressaltaram alguns depoentes. O espaço público de saúde, nessa subjetividade capitalista, torna-se árido e incômodo, pois não se ajustou completamente ao fluxo da privatização do setor saúde. E isso não quer dizer também, que se ajustando a lógica neoliberal, a situação seria melhor. Neste sentido, forças dominantes tiram o caráter vitalizante desse campo, que representa o bem-estar e a saúde dos clientes e dos que cuidam. Então, existe uma produção da máquina sobrecodificadora 2 contra a produção do desejo máquina mutante nesse espaço, que forma um território gerador de mal-estar, de insatisfação e de anulação dos desejos. Quero deixar claro aqui, que o serviço privado não é necessariamente melhor e mais eficiente do que o serviço público. Pelo contrário, nesses espaços, a saúde é considerada como mercadoria e o lucro como fim, estando o cuidado de Enfermagem voltado para tal propósito. É importante pensar que os aspectos macro-sociais potencializam os das micropolíticas institucionais, das relações humanas e da qualidade do cuidado não têm material, roupa de cama e medicação. Entretanto, se os aspectos micropolíticos do cotidiano não sofrerem transformações, permanecerão reforçando as políticas perversas do sistema produtivo. Exemplifico isso, quando o profissional desconsidera a dimensão subjetiva do cliente, não se deparando com os sentimentos, sofrimento e doença. A subjetividade capitalista tenta transformar a saúde numa mercadoria, de forma que se vende cuidados para determinados órgãos e sistemas. Neste sentido, diz Guattari (1987, p.20) O capitalismo não só explora a força de trabalho da classe operária como também manipula em seu proveito as relações de produção, insinuando-se na economia desejante dos explorados. Os desencantamentos, no território saúde, constituem o contrário de tudo que ocorreu nas conquistas sociais nesse campo. Essa situação morbífica foi gerada, na verdade, pela falta de ética e por uma má administração dos bens e serviços nessa esfera, que foi insensível, autoritária e excludente. Saúde implica em planejamentos e distribuição de recursos com senso de justiça, ou seja, quanto maior a exclusão, maior será a desigualdade e produção de doenças. Entendê-la como um projeto político, e não meramente como um conceito, é importante para o enfermeiro, que deve ter como meta essa perspectiva, pois os atos são políticos e movem-se num território composto por uma rede de subjetividades que se entrelaçam. 2 Máquina sobrecodificadora no sentido que ela controle a vida, os devires e a transformação. O Estado, as instituições, as disciplinas aderem-se a esse sistema sobrecodificador. Todavia a máquina mutante sempre gera mudança, pois ela é movida pelo fluxo desejante.

5 De certo modo, é importante atentar para esta dimensão política do cuidado trazida pelos alunos, pelos estudos em subjetividades, pelos marcos conceituais de enfermagem e pelas discussões dos seminários de mudança curricular. A enfermagem, enquanto prática social, insere-se num território movido por ações políticas. Ser enfermeiro é saber trabalhar em grupo, se relacionar com o outro por meio de sua personalidade terapêutica ou de suas habilidades técnicas. A enfermagem é uma prática de saúde, inserida numa malha de significantes, de cultura, de pluralidades e de transversalidades, na qual os saberes instrumentais e estéticos criam condições para traçar um perfil e habilidades frente às diversidades do cotidiano. Logo, a transformação da realidade, implica numa prática política. Nessa linha de raciocínio, um depoente colocou que o contexto de saúde atual limita as ações de enfermagem: O sistema não funciona, faz com que fiquemos limitados quanto à ajuda. É triste saber que alguém precisa de ajuda e não pode fazer nada. Estamos limitados, as coisas fogem ao controle, não somos deuses, não podemos mudar o mundo. Não se pode esquecer, que o cuidado curativo requer investimentos que são onerosos para o próprio Estado, apesar de muitos desejarem lucrar com a doença. Portanto, a lógica capitalista também visa investir em ações profiláticas para amenizar os custos hospitalares. Todavia, o próprio capital demonstra seu lado perverso, na medida em que favorece os hospitais universitários ficarem em situação de penúria, favorecendo o processo de privatização. Entretanto, esse processo, pode parecer inicialmente promissor em termo financeiro, mas pensando do ponto de vista ético, pode-se perguntar como ficará a população que é atendida pelos serviços públicos de saúde. Um leito inadequado para usar. Pacientes cujas necessidades são subestimadas e por isso são tratados de forma desigual, expressou um depoente. Desejo ressaltar que no campo da saúde, essa subjetividade tecnicista assentada no modelo biomédico clássico, originou-se do paradigma flexineriano, oriundo dos Estados Unidos no século XX, que centralizava as ações de saúde na atenção médica e abarcava a visão mecanicista, a medicina dos órgãos e as especializações. O sujeito/comunidade, nesse paradigma, era visto como passivo, à mercê das intervenções dos programas de saúde e dos técnicos. Não havia, portanto, dialogicidade, participação e respeito aos valores culturais e movimento social do sujeito. Esse paradigma não dá mais conta da complexidade da saúde, que requer uma abordagem transdisciplinar de intervenção, associando-se a um projeto político de transformação. Segundo Plastino (2001, p.47), O notável progresso tornado possível pela racionalidade instrumental do paradigma moderno foi sombriamente acompanhado de um pesado custo social, humano e ecológico. Isto ocorreu no campo da saúde, gerando as iatrogenias, os mercantilismos e a dessubjetivação das práticas de cuidado.

6 Entretanto, na atualidade, vale ressaltar que ocorreram eventos de ruptura nesse campo, provocados pela pulsação política do desejo de transformação. Essas conquistas foram resultados de uma mobilização social, diante das desigualdades e do autoritarismo das práticas medicalizantes controladoras e excludentes. Muitas dessas conquistas são legitimadas nas Conferências Nacionais de Saúde, nas Cartas Internacionais, na Constituição Federal e nos Congressos de Enfermagem patrocinados pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Estes Congressos tematizam a questão política, ética e estética do Cuidar em e Enfermagem. Esses eventos representam marcos de rupturas contra os aguilhões da opressão e má distribuição dos recursos e bens materiais. Tais avanços não foram dádivas do Estado capitalista burguês, mas frutos dos movimentos sociais em prol de transformações profundas por justiça e solidariedade. As Cartas Internacionais de Saúde ( Ministério da Saúde, 2002a, 2002b, 2002c, 2002d) não restringem a saúde a um conceito idealista, mas como projeto político para dar conta dos problemas sociais e do saber relacionado com as pluralidades, das riquezas culturais e subjetividades. Enfim, o entendimento de saúde remete à complexidade. Os conteúdos discutidos durante a pesquisa-ação englobaram aspectos referentes à dimensão política do cuidado, ao ensino, à conduta profissional e às condições de trabalho na saúde. O movimento político de transformação das práticas de saúde inclui o cuidado com o corpo e as ações dos agentes do cuidado. Portanto, tal dimensão permeia o ensino, a pesquisa, a extensão e a assistência em saúde. Constato que apesar de ter ocorrido mudanças no campo da saúde, os resíduos dos antigos modelos ainda são fortes e dominam mentalidades de profissionais, instituições e programas de saúde, de modo consciente ou inconsciente. Isso é de se esperar, no sentido de que uma mudança efetiva ainda não foi operacionalizada, devido aos entraves internos dos sujeitos e aos externos referentes aos jogos de interesses políticos. Diante desse panorama, pode-se perguntar como está a nossa consciência política. Historicamente, no campo da enfermagem, observa-se uma tendência à alienação do sujeito diante das condições paupérrimas dos serviços de saúde. Os discursos dos alunos, apesar de sinalizarem para a questão política, não realizaram uma contextualização consistente sobre tal situação. Assim, eles se restringiram a apontar as deficiências e faltas: Hospitais vazios, falta de amor, de respeito, de humildade e de vontade, inexperiência, falta de material de trabalho, acomodação, o jogo de empurra. Diante disso, procurei discutir com esses mesmos alunos, durante as aulas, a dimensão política associada à subjetividade no campo social da saúde.

7 Nesta linha de pensamento, os discentes iniciaram um processo de compreensão da dimensão transformadora do desejo, e dos obstáculos existentes nas instituições de saúde. Nesta perspectiva, Guattari diz que: Quando os fluxos esquizos são forçados ao exílio, impedidos de serem materializados de construção de novos agenciamentos de desejo, de serem lugar de abertura para transformação pessoal/social, passam a girar em torno de si mesmos, em circuito fechado. Humilhados, adoecem, tornando-se esquizofrenia de asilo, loucura de morte. (1987, p.10) Uma das críticas que se faz na Enfermagem, atualmente, diz respeito à alienação do enfermeiro enquanto trabalhador do campo da saúde e à ausência de um posicionamento político claro diante do seu trabalho. Portanto, intervir na Enfermagem implica numa ação política, na forma que se administra as ações, os sentimentos e a linguagem. Desse modo, a postura, a temática empregada, a forma de relacionamento com o outro, o tipo de material utilizado, as crenças desembocam direta ou indiretamente para esse aspecto. Neste sentido, as instituições públicas de saúde refletem um lugar de suposto fracasso do capital estatal. Portanto, o enfermeiro tende a manter o instituído, as normas, mas o seu desejo pode se expressar de modo invertido frente às tensões do cotidiano, gerando doenças, abandono do emprego, atitudes iatrogênicas, entre outros aspectos. Assim, um aluno se expressa: falta de consciência política e sua real importância, para de fato, transformar a prática. É importante desenvolver a consciência política, que passa evidentemente, pela percepção do imaginário e dos sentimentos envolvidos dos sujeitos. Contudo, o poder político pode controlar o desejo por meio da repressão, que usa o medo para coagir, característica do fascismo. Este tipo de controle, ainda age nos sujeitos, de modo a dificultar o seu posicionamento político, que requer um certo grau de reação. A repressão das expressões de vida do sujeito, de sua capacidade desejante leva ao surgimento do mal-estar social, gerando as psiconeuroses, as doenças psicossomáticas e as afecções orgânicas propriamente ditas. Os homens adquirem saúde ou adoecem socialmente. Indo mais além, é no impedimento da capacidade de amar e ser amado que se origina a enfermidade. É própria da vida biológica a expressão do amor, da sexualidade e do desejo. No entanto, os sistemas educativos e os valores patriarcais da nossa cultura e sociedade existentes há milênios, controlam a vida, a sexualidade e o desejo (Reich,1986,1988). A subjetividade capitalista, a serviço da lógica do mercado se infiltra desde o íntimo de uma criança, passando pelas instituições até ações do Estado. Enfim, ninguém

8 está livre da subjetividade capitalista, mas é possível criar linhas de fuga para as expressões genuínas do desejo de vida. Os integrantes da pesquisa colocaram que as expressões desejantes dos clientes sinalizam para a qualidade de vida na medida em que exprimem o desejo de ser bem cuidado, ser cidadão, ser bem tratado como ser individual e social, ter seu corpo respeitado, não sentir dores, ser socorrido e de vivenciar a vida, doença e a própria morte com dignidade. Essas enunciações possibilitam entender o desejo numa dimensão social, como pontua Guattari e Rolnik (1986, p.232) nas cartografias do desejo: Partimos mais da idéia de uma economia coletiva, de agenciamentos coletivos de desejo e de subjetividade que, em algumas circunstâncias, alguns contextos sociais, podem se individualizar. Tal visão não implica numa posição de paralisia, mas envolve o nosso compromisso com o desejo de melhores condições de vida. Enfim, é preciso ver a vida num processo contínuo de mudanças, de percepções, valores e hábitos. Muitas vezes, sentimentos de piedade podem nortear a motivação para o cuidado do sujeito, de modo a percebê-lo como frágil, passivo e dependente das ações controladoras dos profissionais. Entretanto, o cuidado, em última instância, visa restituir, no sujeito, sua capacidade sensível, de modo a resgatar a sua espontaneidade para a vida. Isto se constitui num posicionamento político, pois muda a forma de agir e rompe com as políticas verticais e impositivas. Assim sendo, só faz sentido falar em cuidado transformador se favorecermos as expressões desejantes do sujeito, a capacidade de amar, de se cuidar, de desenvolver a auto-estima e a capacidade criativa. Deste modo, cabe a nós uma contínua reflexão sobre nossas ações e percepções frente à vida do cliente e do cuidado. Os co-participantes dessa pesquisa falaram de um efeito do cuidado sobre a saúde do sujeito, de modo a favorecer o bem-estar. Portanto, os devires que se expressam, são justamente aqueles que suplantam e transgridem modelos de saúde ultrapassados, para criar uma nova territorialização na saúde. Como diz Guattari: Cabe a cada um de nós apreciar em que medida - por menor que seja - podemos contribuir para a criação de máquinas revolucionárias políticas, teóricas, libidinais, estéticas, capazes de acelerar a cristalização de um modo de organização social menos absurdo do que o atual. (1987, p. 225) Neste sentido, vamos assistindo à construção de uma teoria do desejo no campo social, onde a economia política e a economia libidinal não são inseparáveis (Guattari, 1987). Em decorrência disso, a subjetividade não tem efeito somente no psicológico, mas também no meio-ambiente, nas técnicas e nos posicionamentos políticos da arte de cuidar.

9 Enfim, um trabalho que lida com a subjetividade não pode separar o desejo da dimensão política, pois quando se intenciona cortar o desejo do trabalho, eis o imperativo primeiro do capital. Separar a economia política da economia desejante: eis a missão dos teóricos que se colocam a seu serviço (Idem, p.78). Portanto, o encantamento pelo que se faz é estético e ético. O estudo da sensibilidade no cuidado vislumbra o resgate da satisfação do trabalhador. CONSIDERAÇÕES FINAIS Urge criar espaços, tanto na formação quanto no cuidado com o cliente, para gerar recursos do desejo, que desterritorializam as subjetividades capitalistas. No processo desejante e de novos devires no cuidado com o corpo, é preciso ouvir nossos desejos, para não sermos capturados pelos modelos capitalistas, de produção em série de modos de ser. Enfim, colocar-se à escuta dos verdadeiros desejos do povo implica que sejamos capazes de nos colocarmos à escuta de nosso próprio desejo e daquele de nosso entorvo mais imediato (Ibid, p.44). É óbvio que a dimensão sensível do cuidar, implica em condições satisfatórias de trabalho e da criação de ambientes terapêuticos. Para o sujeito encantar-se em sua profissão, é preciso ter elementos motivadores, que gerem impulsos para inovação e a criação, e isto evidentemente passa pelas condições subjetivas, humanas, espirituais e materiais da existência. Essa posição reafirma um compromisso com a vida e com a ética do desejo, da qual todas as expressões, que emergiram dos conteúdos artísticos e verbais dos alunos, as que se referem ao desencantamento, exprimem um desejo de transformação, diante do mal-estar do atual território de saúde. A insatisfação, ao meu ver, pode gerar movimento de novas linhas de fuga, em busca de utopias, de um vir a ser, em busca da cidadania, da participação dos usuários no campo da saúde. Diante disso, precisamos enfatizar o político na formação, não com um elemento que permanece só na razão, mas que envolve o afeto e o desejo como transformadores. Para isso, é importante repensar os programas de ensino fundamental, médio e superior, os quais carecem de uma conexão com a construção histórica-social do Brasil, que amiúde, ainda deixa muito a desejar. REFERÊNCIAS BARBIER, R.Pesquisa-ação na instrução educativa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

10 GUATTARI, F; ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Rio de Janeiro: Vozes, GUATTARI, Felix. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Ed. 34, GUATARRI, Felix. As esquizoanálises. São Paulo/ PUC: Cadernos de Subjetividade, v.1, n.1, p , GUATTARI, Félix. Revolução molecular: pulsações políticas do desejo. 3 ed. São Paulo : Brasiliense, LALANDE, A. Vocabulário técnico e crítico de filosofia. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Programas e projetos. Promoção da saúde. Net, Carta de Bogotá, Disponível em URL:< http: //www. saude.gov. br>. Acesso em 4 de março de 2002a. MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Programas e projetos. Promoção da saúde. Net, Carta de Caribe, Disponível em URL:< http: //www. saude.gov. br>. Acesso em 4 de março de 2002b MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Programas e projetos. Promoção da saúde. Net, Carta de Jacarta, Disponível em URL: < http: //www.saude.gov.br>. Acesso em 4 de março de Acesso em 4 de março de 2002c. MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Programas e projetos. Promoção da saúde. Net, Carta de Otawa, Disponível em URL: < http: //www.saude.gov.br>. Acesso em 4 de março de 2002d. PLASTINO, C A. Sentido e complexidade. In: BEZERRA JUNIOR, B; PLASTINO, C A. (org) Corpo, afeto, linguagem: a questão do sentido hoje. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, REICH, W. A revolução sexual. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara,1988. REICH, W. O assassinato de Cristo: volume um de a peste emocional da humanidade. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes,1986. TEIXEIRA, E R. Produções de subjetividades do cuidado em saúde no ensino universitário de enfermagem. Rio de Janeiro: EduUFF/EEAAN, 2006.

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