RELAÇÃO ALUNO-ESCOLA EM TEMPOS DE CIBERCULTURA 1

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1 RELAÇÃO ALUNO-ESCOLA EM TEMPOS DE CIBERCULTURA 1 Gislene Rangel Evangelista Universidade Federal de Minas Gerais Introdução Compreender o dinamismo que caracteriza a sociedade contemporânea é o tema de estudos que vem sendo realizados em vários campos científicos. A chamada sociedade pósmoderna é o palco de grandes mudanças que se sucederam a partir do final do XX. São mudanças marcadas principalmente pelas lutas envolvendo as classes minoritárias, como por exemplo o movimento feminista, o surgimento das novas tecnologias digitais e o acesso globalizado ao conhecimento. Diante desse cenário, termos como Facebook 2, Twitter 3, WhatsApp 4 são algumas palavras comuns na atualidade, sobretudo entre os jovens que circulam pela escola. Compreendendo as tecnologias digitais e as redes sociais como artefatos próprios da cultura juvenil, busquei neste artigo investigar como anda a relação aluno-escola em tempos ciberculturais. O termo cibercultura é aqui compreendido como conjuntos de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitude, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço (LÉVI, 1999, p. 17). Assim, foi investigado como ocorre a relação aluno-escola em um campo do ciberespaço que, por sua vez, é definido como meio de comunicação que surge na intercomunicação mundial de computadores (LÉVY, 1999, p.17). O ciberespaço acaba por ser um espaço de circulação dos saberes e de grande fluxo de informação, é também local de produção e não apenas circulação desss saberes. É, sobretudo, um espaço de atuação das juventudes, onde se fazem presentes os 1 Este artigo é o recorte de uma pesquisa mais ampla que investigou o processo de formação da identidade do aluno pós-modernos no ciberespaço-escolar, com o título PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO ATUAL: a identidade do aluno pós-moderno no ambiente virtual sob orientação do Prof. Paulo Ricardo Diniz Filho, a quem agradeço publicamente as ricas contribuições e orientações esclarecedoras. 2 Disponível em < https://www.facebook.com/> 3 Disponível em < https://twitter.com/> 4 Disponível em < https://www.whatsapp.com/> 1

2 mais variados grupos de jovens ávidos por outros modos de perceber o mundo (COUTO JÚNIOR, 2012). Desse modo, O problema de pesquisa que norteou as análises deste artigo consiste na seguinte indagação: Como se dá a relação aluno-escola em um espaço não escolar, mais especificamente no ciberespaço? Dessa forma, o argumento desenvolvido é que, apesar de alguns autores descrevem a relação que a escola possui com os jovens como pouco harmoniosa e permeada por tensões e conflitos, o ciberespaço tem se constituído como meio para potencializar essas relações. A metodologia utilizada para produzir as informações aqui analisadas consistiu em uma bricolagem que mesclou a netnografia 5 com elementos da etnografia 6. Assim sendo, foram utilizados os recursos de observação das páginas selecionadas no Facebook e entrevistas, como ferramentas para produção de dados. O método analítico selecionado para esta pesquisa foi a Análise de Conteúdo. Para essa investigação foram selecionadas quatro escolas 7 da rede estadual de educação de Minas Gerais, situadas na cidade de Belo Horizonte. A seleção das escolas para esta investigação considerou o fato de serem escolas do Ensino Médio em funcionamento na capital mineira e que tenham perfis no Facebook. De acordo com Patrício e Gonçalves (2010), o Facebook é uma rede social digital disponibilizada a todos/as que possuem acesso à internet e que tenham idade mínima de 13 anos. São várias as formas de utilizar o site, algumas bastante conhecidas como: comentar que é quando o/a usuário/a desenvolve alguma narrativa ou comenta o conteúdo publicado por outro/a internauta; curtir que é uma forma de indicar em apenas um clique sua aprovação a determinada publicação; compartilhar, que é uma ferramenta utilizada pelos/as usuários/as para repassar a todos os seus contatos no Facebook alguma foto, vídeo, link, texto publicados por alguém ou produzidos em outro canal. Desde que programado dessa forma, os conteúdos ficam expostos na linha do tempo de cada usuário, que divulga os acontecimentos investigados nesta pesquisa. Na linha do tempo ficam expostas as publicações feitas diretamente pelo/a usuário/a 5 A netnografia é uma metodologia utilizada em pesquisas aplicadas ao universo ciberespacial para a análise da cibercultura (SALES, 2012, p. 116) 6 A mesma autora define a etnografia como uma lógica de investigação, em que o/a pesquisador se apoia em teorias da cultura para orientar e planejar (SALES, 2012), de modo a registrar e observar o que ele/a considerar relevante (GREEN, DINOX; ZAHARLICK, 2005) 7 A fim de preservar a identidade dos sujeitos dessa pesquisa, foram criados nomes fictício para as escolas. 2

3 ou relacionadas a ele/a. A seguir, iniciam-se as análises com a apresentação do Facebook como espaço de relacionamento aluno-escola, seguido por investigação que analisou como ocorre a relação aluno-escola no ciberespaço. Facebook: ciberespaço de relacionamento aluno-escola Esse tópico aborda as formas de relacionamento estabelecidas entre aluno e escola no ciberespaço. Para tanto, faz-se necessário compreender como o Facebook é utilizado por ambos. Entre as maneiras mais comuns de os usuários do Facebook utilizarem a página, três delas se destacam: comentar, curtir, compartilhar. Antes de apresentar e dar tratamento aos dados faz-se necessário categorizar os grupos de usuários presentes nas páginas do Facebook que foram observadas. Como as páginas observadas foram criadas em nome de escolas, três delas possuem vínculo institucional com a entidade de ensino um dos grupos de usuários é intitulado de escola, outro grupo identificado nas postagens é o dos alunos, o terceiro grupo identificado foi o dos ex-alunos. Há, por fim, uma gama de pessoas que interagem na página, promovendo propagandas e participando dos comentários, mas que, por meio das suas narrativas, e em visita a seus perfis, não foi possível identificá-los como pertencentes a um dos grupos acima citados; dessa forma, esses usuários estão inseridos em um grupo chamado usuário diverso. A TAB. 1 quantifica, de maneira agregada, como os usuários movimentaram as páginas criadas no Facebook investigadas nessa pesquisa: TABELA 1 Panorama geral de todas as escolas: Formas de interação mais utilizadas no período de Fev Fev Autor Postagens originais % Curtido por Compartilhado por Aluno % Escola 87 11% Ex Aluno % 30 6 Usuário % 60 3 TOTAL % Fonte: Dados da pesquisa 3

4 A TAB. 1 identifica a participação de cada usuário nas páginas do Facebook. Por meio dela é possível identificar a quantidade de postagens feitas pelos alunos ao longo do período observado. Na coluna identificada como Postagens originais, é apresentada a quantidade de postagens feita pelos alunos. Já nas colunas Curtiu e Compartilhou é possível identificar a repercussão das publicações feitas pelos grupos de usuários, ou seja, quantos curtiram ou compartilharam as postagens publicadas por aquele grupo. Considera-se, inicialmente, o número total de interações registradas no ciberespaçoescolar do Facebook durante os 12 meses investigados na presente pesquisa: somando postagens, compartilhamentos e curtidas, tem-se interações, o que perfaz um total de 136 por mês e 4 diárias. Mesmo na ausência de referências estabelecidas para comparação, é possível perceber a presença constante do aluno no universo cibernético e, principalmente, nos ciberespaços criados pela escola. Percebe-se, na análise da TAB. 1, que apesar de os alunos serem os maiores responsáveis por postagens nas páginas de suas escolas, não são eles que obtêm a maior repercussão, mas sim as escolas. Em média, cada postagem realizada pelas escolas é curtida 5,50 vezes, enquanto que as narrativas realizadas pelos alunos recebem 0,27 curtidas cada, em média. No que se refere aos compartilhamentos, a disparidade é ainda maior: cada postagem feita pela escola é compartilhada 1,88 vezes, enquanto que as postagens feitas por alunos atingem uma média de apenas 0,005 compartilhamentos. Apesar de ser o grupo com o menor número absoluto de postagens, as escolas obtiveram o primeiro lugar em compartilhamentos e curtidas. Fica evidente, assim, a atenção dedicada pelos alunos ao conteúdo que emana de suas respectivas escolas naquele espaço. Tal perspectiva ratifica o pensamento de Green e Bigum (1995), quando os autores abordam a discussão acerca da necessidade de a escola ampliar o seu cenário educacional, passando a considerar também os espaços aos quais se insere a mídia eletrônica como sendo propricio à uma abordagem crítica dos conteúdos alí propostos. Justificando a ideia de um cenário educacional mais amplo, os autores argumentam: Essa ideia é consistente com o recente argumento que assinala a existencia de um importante deslocamento da escola para a mídia eletrônica de massa como o contexto socializador crítico. Essa perspectiva vê a mídia, pois, como entralmente implicada na (re)produção de identidade e formas culturais estudantis (HINKSON, 1991 apud GREEN e BIGUM, 1995, p. 210). 4

5 Analisado nessa perspectiva, o Facebook torna possível a a relação entre os mundos da vida do aluno e da escola. Isso porque a escola tem livre acesso aos assuntos em que seus alunos têm participado, o que abre a possibilidade dessa fomentar assuntos inerentes a construção de significados, fazendo abordagens críticas, levando o aluno a pensar e agir criticamente em outros contextos para além dos da escola. Convém analisar, também, os números relativos às interações no Facebook da escola de forma desagregada, como forma de identificar individualmente a relação aluno-escola nesse processo. A seguir, as interações apresentadas a partir do perfil de cada escola no Facebook. Autor TABELA 2 Formas de interações mais utilizadas por escola no período de Fev Fev E. E. José W. Pereira Filho Postag ens Curt idas Comp artilh ament os Postag ens E. E. Prof. Julieta Morais Curti das Compa rtilham entos Postag ens E. E. Ana Batista E. E. Pierre Bourdieu Curti das Compa rtilham entos Post agen s Curti das Compa rtilha mentos Aluno Escola Ex aluno Usuário diverso TOTAL Fonte: Dados da pesquisa Chama a atenção no panorama apresentado acima, a clara discrepância entre as escolas estudadas: o número total de postagens varia de 291 a 56, uma proporção mais de cinco vezes maior entre as escolas que mais e menos interagiram neste campo do ciberespaço. Em termos porcentuais, tem-se que apenas uma escola contribuiu com 37% do total de postagens, enquanto que a que apresentou menor movimentação teve apenas 7% das postagens. A partir de tais discrepâncias, pode-se perceber que a participação da escola em atividades lagadas ao Facebook não é uma constante, podendo variar desde a presença marcante, até uma posição secundária. 5

6 A exposição dos dados na TAB. 2 também deixa clara a relação entre a escola e o aluno. Em todos os perfís, exceto no perfil da Escola Estadual Prof. Julieta Morais - que não possui vínculo institucional com a escola a participação do aluno ocorre proporcionalmente de acordo com a participação da escola em promover assuntos Facebook. Dessa forma fica claro que quanto mais a escola cria meios de interação neste campo do ciberespaço, mais os alunos participam e se dispõem a responder os tópicos criados por ela. No perfil da Escola Estadual Prof. Julieta Morais, a participação do aluno é 96% maior que a participação do autor da página que leva o nome da escola. Durante entrevista com a vice-diretora dessa instituição, ela informou ter ciência do perfil da escola criado por alunos no Facebook, e informou que vários professores fazem parte da rede como usuários diversos. A vice-diretora disse, ainda, que o baixo volume de postagens com o nome da escola, é devido ao fato de que os alunos, autores da página, foram orientados pela instituição a ter cuidado ao usar o nome da escola Sabemos da existencia da página no Facebook. Mas isso foi algo criado pelos alunos, e eles mesmos cuidam de tudo. A escola não implica com isso não. Até porque, seria inutil, já que quase todo mundo gosta dessas coisas. O que a gente faz é orientar na forma de usar, principalmente quando estiverem usando o nome da escola ou de qualquer outra organização. Os professores que têm uma conta no Facebook ficam atentos e estão por dentro de tudo. (Entrevistado A. Trecho da entrevista, 27 de maio de 2013). Quando questionada se a escola já havia pensado e criar um perfil no Facebook, devido ao grande sucesso entre os alunos, ela respondeu: Não, porque acho que não seria a mesma coisa. Eles já fazem parte daquele Facebook e se a escola criasse um outro seria bobagem. Acho que eles não participariam tanto, porque já tem esse, né?. A gente usa outros canais para interagir com eles nessa linguagem virtual. (Entrevistado A. Trecho da entrevista, 27 de maio de 2013). Segundo a vice-diretora, os canais utilizados para interação no ciberespaço são os blogs, criados pela direção da escola e pelo grêmio estudantil, onde há maior participação da escola em divulgação a informações oficiais da intituição. Em todos os casos analisados, o grupo de alunos publicou mais do que o grupo que representa a escola, entretanto, nos perfís em que há participação mais intensa por parte da escola, há também maior participação do aluno. É como se o aluno aguardasse a manifestação da escola para então se posicionar, conferindo a ela o papel de lider de assimetria 6

7 interacional, ou seja, aquela que exerce poder maior para fomentar assuntos e desenvolver temas (LOPES,2002, p. 43). Em algumas das páginas observadas, sobretudo no perfil da escola estadual Ana Batista, é possível localizar a escola como a grande geradora de temas. Nessa página, 68% de tudo o que foi publicado pela escola levou à participação dos alunos, seja por meio de comentários, curtindo ou compartilhando. O contrário disso ocorre com a escola Pierre Bourdieu, onde houve pouca participação da escola e, consequentemente, do aluno. De toda forma, a dinâmica estímulo-resposta permanece a mesma. Estes resultados oferecem indícios de que a relação que se constrói entre escola e aluno no ambiente institucionalizado também é percebido com muita força no ciberespaço. Tal fato nos remete as constantes tranformações do mundo contemporaneo, que parece estar em interminável formatação, inserindo em sua nova configuração diferentes formas de se relacionar, de viver, de estar e de pertencer a ele (BAUMAN, 2007). A diferença é que o Facebook se mostra mais favorável para que os alunos se manidestem mais livremente, diferente do espaço físico, visto que no ciberespaço as relações são estabelecidas sem um espaço físico delimitado, são desterritorializadas (SALES e PARAÍSO, 2010, p. 227). Assim, para o aluno, o Facebook é um espaço em que ele atua com mais liberdade, onde não predomina a autoridade, comumente, exercida pela escola no espaço físico. Criariase, assim, uma nova maneira de relacionamento entre ambos, propiciando a livre manifestação e construção da identidade do aluno pós-moderno. A presença do jovem aluno no ciberespaço também chama a atenção, pois ela fez emergir novas formas de vivenciar a condição juvenil. De acordo com Soposito (2006), os jovens vivenciam práticas de sociabilidade e culturais gestadas também em espaços não institucionais e a presença dele no Facebook da escola, reforça esse argumento. A seguir, discorremos sobre Navegando pela linha do tempo do Facebook da escola: mas, onde está a escola? A juventude contemporânea está fortemente ligada ao artefatos tecnológico digitais, sobretudo aqueles relacionados a internet. Desse modo, as redes sociais do ciberespaço não podem mais ser ignoradas e se constituem um campo de floração da condição juvenil (SPOSITO, 2005; DAYRELL, 2007). A fim de analisar o envolvimento entre alunos e escola no ciberespaço, o gráfico abaixo apresenta o panorama geral das publicações feitas por ambos 7

8 em três das quatroescolas investigadas. Uma escola ficou de fora dos números presentes no GRAF. 1, pois trata-se de um perfil criado com o nome da escola, mas gerenciado por alunos, logo, dificulta a distinção do que fora publicado pela escola e as publicações feita por alunos. GRÁFICO 1 Levantamento geral da participação de escolas e alunos FONTE: Dados da pesquisa O resultado presente no GRAF. 1 demonstra a participação mais intensa dos alunos em relação a escola, o que os coloca como a geração em íntima conexão com as tecnologias digitais, que transita bem pelo ciberespaço e que faze dele seu espaço de atuação, em suma, a juventude ciborgue (SALES e PARAÍSO, 2010, p. 236). Juventude esta que vive de um lado e do outro da fronteira, entre o espaço físico e o ciberespaço. Garbin (2009) destaca que os jovens teclam ao mesmo tempo em que trocam s, conversam com os pais, navegam em sites, postam fotos, assistem televisão, ouvem música. A autora afirma que o jovem também utiliza com muita facilidade equipamentos um aparelho de som convencional e comenta o que assiste e ouve o que tecla, troca de canais a todo instante em busca de novas imagens, de novos sons, dos mais diferentes lugares e com os mais diferentes personagens, com uma velocidade ímpar, inventando, com isso, novas cenas (GARBIN, 2009, p.33 Dentre as narrativas construídas e publicadas no Facebook, existem duas categorias diferentes: 1) as postagens criadas originalmente pelo usuário; 2) os comentários em resposta a outra publicação. A TAB. 3 abaixo apresenta o panorama geral das publicações feitas nas quatro páginas observadas. 8

9 TABELA 3 Panorama geral de todas as escolas: Publicações originais e respostas à outra publicação no período de Fev Fev Publicação original Resposta à outra publicação Total de postagens Alunos % % % Escola 78 18% 9 2% 87 11% Ex aluno 78 19% % % Usuário diverso % 18 5% % TOTAL 420 X 369 X 789 X FONTE: Dados da pesquisa Percebe-se, inicialmente, um leve predomínio das publicações originais sobre as respostas, o que configura, na média, interações rápidas entre todas as partes envolvidas no Facebook das escolas investigadas. Por outro lado, essa tendência geral tem características opostas quando se considera o conteúdo produzido apenas pelos alunos. As respostas são, basicamente, o dobro das publicações originais, o que comprova a grande disposição dos jovens para relacionarem-se, sobretudo, respondendo a estímulos vindos da escola. Fica evidente, assim, a posição que a escola pode ocupar nesse processo, como propositora de debates a serem desenvolvidos pelos jovens. Esse resultado suscita a necessidade de uma discussão qualitativa, com vistas a se descobrir o que desperta o interesse do aluno no Facebook, e que tipo de publicação faz com que ele participe com 63% das suas respostas. Para tanto, a TAB. 4 apresenta as linhas de interação entre os alunos, escola e demais grupos de usuários durante os meses selecionados para observação. TABELA 4 Total geral de interações respondidas no período de Fev Fev Obteve resposta de: Publicação Original Aluno Escola Ex Aluno Usuário diverso TOTAL Aluno Escola Ex Aluno Usuário diverso TOTAL X FONTE: Dados da pesquisa 9

10 A TAB. 4 acima apresenta como ocorreu a interação entre os participantes em todos os perfis investigados. Por meio da tabela é possível identificar, entre os autores das postagens originais, aquele que recebeu mais respostas, e quem respondeu mais a outras publicações. Inicialmente, destaca-se o fato de que o grupo que mais respondeu a publicações foi o de alunos, enquanto que o grupo que mais recebeu respostas às suas postagens foi o das escolas. Isso indica o desejo constante do jovem para se relacionar com a escola no ciberespaço. No mesmo sentido, fica evidente que a escola tem a atenção dos alunos naquele espaço. Tal fato nos leva a refletir sobre a incompatibilidade entre a escola e o aluno contemporâneo apontado por Sibilia (2012). A autora relata que existe um "desajuste coletivo" entre a escola e aqueles que a frequentam, mas será que podemos considerar que esse desajuste é refletido nas relações que se estabelecem também no ciberespaço? Certamente qualquer afirmação nesse sentido demanda mais aprofundamento no tipo de relação que é estabelecida ali, mas as informações produzidas e selecionadas para esta pesquisa nos ajudam a pensar sobre isso. Considerando todos os participantes da pesquisa, é possível identificar que 50% das respostas dadas por alunos foram referentes a postagens feitas por outros alunos, e 48% são referentes a publicações feitas pela escola. Ou seja, 98% das respostas dadas pelos alunos foram para assuntos divulgados por escola e alunos, os principais partícipes do ambiente escolar. Isso indica a predisposição dos alunos em participarem de assuntos propostos tanto por eles próprios, quanto pela escola. Esse resultado reforça o papel da escola frente ao uso das tecnologias digitais e do ciberespaço, demonstrando a importância da participação da escola nesse emblemático campo de atuação dos sujeitos. Se por um lado a escola vinha perdendo o exercício de uma função que outrora era essencialmente atribuída a ela na formação da identidade (COSTA, 2006, p. 181), no ambiente virtual ela tem a chance de se posicionar como agente no fomento de assuntos que contribuam tanto para a formação da identidade, quanto para o exercício dela. No entanto, os resultados da tabela acima nos mostram que ao contrário disso, a escola está cada vez menos preocupada com os frutos dessa interação. O que evidencia isso são as respostadas dadas pela escola, que estão centradas nas publicações feitas por ela mesma e pelos ex-alunos, com respectivamente 49% e 36%. Neste ponto chegamos ao que se parece um descompasso na relação aluno-escola. Temos de um lado jovens ávidos pela interação e pela utilização dos artefatos digitais e do outro lado uma escola que pouco participa. Esse resultado corrobora os argumentos de Sibilia (2012) e evidencia um desajuste entre os corpos abordado pela autora. 10

11 Isso demonstra, de maneira veemente, que apesar de algumas escolas desempenharem com competência seus papeis de propositoras de debates, todas elas falham no momento de participar dos mesmos, produzindo respostas diretas às demandas dos alunos. Essa lacuna remete a escola às problematizações levantadas por alguns estudiosos citados nessa pesquisa, tais como Pereira (2000), Garbin (2003) e Bretãs (2004), que indicaram em seus estudos a necessidade de a escola considerar mais as relações que se estabelecem no ciberespaço e a participação do aluno nesse espaço, e entender esse espaço como um ambiente passível de possibilidades infindáveis envolvendo o aluno pós-moderno. Esse espaço traz consigo a velocidade e os conflitos característicos das juventudes contemporâneas, que são marcadas pela fluidez e inegável singularidade (SPOSITO, 2005, p. 204) E, ainda, esse espaço apresenta um grande desafio para as escolas que desejarem utilizá-lo como meio eficaz de interação. Sem dúvida alguma, o desafio de utilizar o ciberespaço como lugar passível de manifestação e construção da identidade já está proposto a todas as esferas, inclusive a esfera educacional, e ignora-lo não irá, de maneira alguma, impedir ou diminuir sua pontecialidade. Algumas considerações Os caminhos que se pode chegar ao desenvolver um estudo sobre relacionamento aluno-escola - um tema tanto quanto árido e, ao mesmo tempo, plural, flexível, fragmentado e passível de constantes mudanças e alvo de alguns estudos - são, sem dúvida alguma, incertos e podem apontar para resultados surpreendentes. Como não podia deixar de ser, os resultados dessa pesquisa surpreenderam ao indicarem a existência de um aluno muito mais envolvido com a escola e com as propostas lançadas por elas no ciberespaço. Percebe-se, também, a existência de um aluno inserido nas discussões proposta pela escola no ciberespaço, que interage e se relaciona com ela, que aguarda a manifestação da escola para curtir, comentar e compartilhar. Ele se orgulha da sua identidade de aluno, se orgulha de ter sua escola representada pelas páginas do Facebook. Assim, na visão do aluno, no ciberespaço a escola deixa de ser uma instituição sem muita graça, que está apenas preocupada com o cumprimento do currículo de conteúdos, e passa a ser mais um espaço interessante para se relacionar. O presente estudo também indica que a escola começa a percebe os benefícios que podem ser colhidos da relação entre aluno-escola no ciberespaço. Mas ela ainda possui 11

12 participação pequena comparada ao aluno. A escola criou a página, o aluno se inseriu nesse universo, mas a interação na página da escola ainda é mais dominada pelos alunos. Considerado o jovem como aquele que se relaciona mais intimamente com as tecnologias digitais, tal fato se justifica. Entretanto, fica o indicativo para a escola se apropriar mais conscientemente das possibilidades advindas do ciberespaço. Sem tornar a página do Facebook em uma sala de aula online, a escola pode aproveitar o espaço para tratar assuntos sociais diversos e se relacionar com seus alunos. Referências BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. [tradução de Carlos Alberto Medeiros]. 1 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, BRETÃS, Beatriz. Comunicação mediática no processo de ensino/aprendizagem. In. COSTA, José Wilson da; OLIVEIRA, Maria Auxiliadora Monteiro. Novas linguagens e novas tecnologias: educação e sociabilidade. Petrópolis, RJ: Vozes, p COSTA, Marisa Vorraber. Paisagens escolares no mundo contemporâneo. In: BUJES, M. I. E; SOMMER, L. H. (Org.). Educação e cultura contemporânea: articulações, provocações e transgressões em novas paisagens. Canoas: Ed. ULBRA, COUTO JUNIOR, Dilton Ribeiro. Cibercultura, juventude e alteridade: aprendendoensinando com o outro no Facebook. Dissertação de mestrado. Universidade Federal do Rio de Janeiro, DAYRELL, Juarez. A escola faz as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educação e Sociedade, v. 28, 2007, p GARBIN, Maria Elisabete. Participação juvenil nas escolas. Conectados por um fio: alguns apontamentos sobre internet, culturas juvenis contemporâneas e escola. In: Juventude e escolarização: os sentidos do Ensino Médio. Salto para o futuro. Ano XIX boletim 18 p Nov, GARBIN, Maria Elisabete. juvenis, e internet: questões atuais. Revista Brasileira de educação, GREEN, Bill; BIGUM, Chris. Alienígenas na sala de aula. Org. In: Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis, RJ: Vozes, P

13 KELLNER, Douglas. Lendo imagens criticamente: em direção a uma pedagogia pósmoderna. Org. In: Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis, RJ: Vozes, P LÉVY, Pierre. Introdução: dilúvios. In: LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, p LOPES, Luiz Paulo da Moita. Identidade fragmentada: a discussão discursiva de raça, gênero e sexualidade em sala de aula. Campinas-SP: Mercado das letras, PATRÍCIO, Maria Raquel; GONÇALVES, Vitor. Facebook: rede social educativa? In I Encontro Internacional TIC e Educação. Lisboa: Universidade de Lisboa, Instituto de Educação Disponível em < https://bibliotecadigital.ipb.pt/bitstream/10198/3584/1/118.pdf> Último acesso em 08 de Nov. de PEREIRA, E. M. de A. Pós-modernidade: Desafios À universidade. In: FILHO, J. C. dos S. e MORAES, S. E. (Org.). Escola e Universidade na pós-modernidade. 1. ed. São Paulo: Mercado das Letras, SIBILIA, Paula. A escola no mundo hiperconectado: Redes em vez de muros?. E.d. Matrizes. São Paulo, Ano 5, n. 2 jan./jun. 2012, p SALES, Shirlei Rezende; PARAÍSO, Marlucy Alves. Escola, Orkut e juventude conectados: falar, exibir, espionar e disciplinar. Campinas. 2010, vol. 21, n. 2, pp Disponível em < último acesso em 10 de Out. de SALES, Shirlei Rezende. Etnografia+netnografia+análise do discurso: articulações metodológicas para pesquisar em educação. In. MEYER, Dagmar E, PARAÍSO, Marlucy (orgs.). Metodologia de pesquisas pós-crítica em educação. Belo Horizonte: Mazza Edições, SPOSITO, Marilia Pontes. Indagações sobre as relações entre juventude e a escola no brasil: institucionalização tradicional e novos significados. Jovens, Revistas de estudios sobre juventude, México, Jan-Jun, SPOSITO, Marilia Pontes. Juventude: Crise, Identidade e escola. In: DAYRELL, Juarez. (organização). Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Editora UFMG. Belo Horizonte,

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