Vik Muniz e os artifícios de socialização na atualidade

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1 Vik Muniz e os artifícios de socialização na atualidade Doris Rangel Diogo 1 Resumo Este texto focaliza os desdobramentos da intervenção do artista Vik Muniz na comunidade de catadores retratada no filme Lixo Extraordinário. Aborda a invenção, articulando arte e psicanálise: Marat (Sebastião) é uma obra que revela uma consistência irônica do objeto a. Conclui-se que esta intervenção possibilitou um modo de tratar o gozo, produzindo artifícios de socialização na atualidade. Palavras chave: Intervenção, arte, psicanálise. Abstract This article focuses on the consequences of the artist Vik Muniz s intervention in the trash collectors community portrayed in the film Lixo Extraordinário. It also discusses the invention, linking art and psychoanalysis: Marat (Sebastião) is a work that reveals an ironic consistency of the object. It comes to the conclusion that this intervention enabled a way to deal with joy, creating socialization devices nowadays. Key words: Intervention, art, psychoanalysis. Como a intervenção do artista plástico Vik Muniz, registrada no filme Lixo Extraodinário 2, que incidiu sobre o vivo dos catadores 3, pode nos esclarecer sobre os artifícios de socialização na atualidade? 1- Projeto: Intervenção através da arte na prática social dos catadores No filme Lixo Extraordinário,Vik conta como decidiu realizar um projeto com os catadores no aterro sanitário, visando a transformar suas vidas através da arte. Inspirando-se em experiência anterior, sua intervenção parte do material/objeto com que as pessoas lidam. No projeto Sugar children", em 1996, com crianças de famílias que cultivavam cana-de-açúcar no Caribe, Vik utilizou o açúcar na criação das obras, fazendo retornar uma parte do lucro para a comunidade dos participantes. 1 Psicanalista, correspondente da EBP-Rio, membro do ICP-RJ, doutora em teoria psicanalítica; 2 Documentário de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley. Vencedor de prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim em 2010, e integrante da pré-lista de 15 indicados ao Oscar da categoria em O filme retrata a execução do projeto sustentado na parceria entre o artista e sua equipe com a Associação dos catadores, cuja trama é tecida com os fios dos depoimentos destes participantes e outros interlocutores de fora deste campo. 3 Trabalhadores do maior aterro sanitário da América Latina, Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde muitos deles exercem esta atividade há anos. 1

2 Em Lixo Extraordinário, Vik realiza um projeto em cena, onde registra o cotidiano de quase três mil catadores que geram renda selecionando objetos para reciclagem. A câmera revela as montanhas de lixo e o ambiente desolador, em que seres humanos, que vivem em extrema dificuldade, dividem a cena com urubus e até mesmo com restos de corpos humanos ali despejados. Este é o horror que os catadores consideram pior que o cheiro que o filme não tem como registrar. Sem negar o preconceito, valorizam o trabalho que realizam em relação às opções da prostituição e do ganho ilícito, indicando a dimensão da escolha subjetiva diante de um limite tão radical. Vik fotografa o catador/personagem, constrói uma imagem que inclui significantes recolhidos do testemunho de vida, tranformando-o em modelo da própria obra. Esta é executada coletivamente e assinada pelo artista, que empresta seu nome para o processo de circulação que deflagra. Em depoimento no filme, Vik conta que o projeto teve como ponto de partida a angústia que se presentificou em seu percurso de vida. O artista destaca que, naquele momento, não via mais sentido em comprar nenhum objeto, como outrora, quando não dispunha de tanto dinheiro, dada sua origem pobre, indicando um ponto de saturação em relação à falta que engendra o desejo. Na conferência sobre A felicidade no tempo do Mais, Laurent (2011) 4 comentou sobre o momento de saturação relatado por alguns sujeitos quando chegam ao topo de uma carreira, e que justo aí, passam ao ato ou se deprimem. Pelo seu relato, Vik elegeu outra via, a experiência com os catadores, através da arte. 2- A invenção da obra Em seu processo criativo, Vik faz uma releitura de obras de arte consagradas, utilizando materiais inusitados: geleia, chocolate, pasta de amendoim, xarope, vinho, açúcar, materiais recicláveis, fios de cabelo, arame, diamante, gel, pigmentos, comidas. No projeto aqui comentado, a novidade não está em garimpar, pois o lixo já não era só dejeto nem mesmo para o catador. Mas está em inventar obras de arte com o dejeto garimpado, para circular como valor de troca. A cena do leilão é emblemática da transformação no estatuto do objeto, pela via da sublimação. 4 Conferência realizada na ABL (Academia Brasileira de Letras), organizada pela EBP-Rio, por ocasião do V ENAPOL. 2

3 Vik circunscreve o dizer do catador, que aponta para um real, na imagem. Com Suelen, a mãe, Vik recria a Madona com os filhos, ícone da arte italiana. Com Irma, inclui o panelão com o qual ela cozinha. Com Isis, a roupa com a qual ela se enfeita. Com Tião, presidente da associação de catadores e leitor voraz, recria "A Morte de Marat" (1793), do pintor Jacques-Louis David, que deu testemunho de sua filiação política realizando esta obra. Nela, retrata Jean-Paul Marat, médico, político, líder intelectual da Revolução Francesa que, conquistando a confiança do povo, usou-a como apoio ao grupo Jacobino, tendo sido, posteriormente, assassinado por um opositor em uma banheira. Seriam estas invenções de Vik ou invenções coletivas do encontro das diferenças? Difícil dizer, mas a concepção final da obra é de Vik, que define a imagem que recria a partir de obras de outros artistas. A ousadia do projeto está em oferecer uma oportunidade para que cada um possa se olhar a partir de outro lugar, como diz Vik no filme, o que me faz interrogar o tratamento dado ao objeto a nesta experiência. 3- Objeto a na obra de arte A arte e a psicanálise operam, cada uma a seu modo, com um oco estrutural com o qual o ser falante tem de se haver nas suas experiências. Freud (1933 [1932]/ 1980) já assinalara que o artista, por ser um arauto do seu tempo, muitas vezes se antecipa ao psicanalista apontando, em suas obras, para o enigma e o indizível impossíveis de simbolização. Em O Seminário, livro 10: a angústia, Lacan ( /2005) avança nas referências ao vazio e a borda do vaso desenvolvendo articulações com o objeto a, em sua relação com a angústia de castração, seja como objeto causa de desejo ou de gozo. Lacan recorre à matemática, define-o como uma função (p. 98) que designa pela letra a, que não tem imagem especular e pode ser demonstrado através da topologia pela banda de Moebius por efeito de corte no cross-cap (p. 110). Em O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro, Lacan ( /2008) formula o objeto a como consistência lógica, uma função f(x) que enforma o Outro inconsistente, buscando cernir algum limite ao gozo suposto infinito. O objeto a que era resto irredutível de uma operação simbólica, toma aqui a dianteira, funcionando como lugar de captura do gozo (p. 241). Neste contexto, Lacan ( /2008) situa a obra de arte como uma das vertentes da sublimação. O autor localiza uma zona proibida na dialética do prazer, cuja centralidade descreve como campo do gozo, designando como êxtimo (p. 218) o 3

4 que para cada ser falante é o mais próximo, embora lhe seja externo. Esta estrutura topológica é um vazio (causa), onde um objeto (mais-de-gozar) pode vir se alojar. No desdobramento desta dialética, Lacan destaca que a relação da obra de arte com o gozo sexual só pode ser explicada pela anatomia de um vacúolo, afirmando: O objeto a é o que faz cócegas por dentro de das Ding (p. 227). Com isso, indica que a obra de arte, como objeto a, pode vir no lugar do objeto perdido, ou seja, pode vir no lugar da Coisa, velando e desvelando o real. Miller (2010) distingue duas vias para tratar os dejetos: a psicanálise, via na qual o laço social se tece em torno do analista como dejeto representante do que, do gozo, permanece insocializável e a sublimação como o que do gozo é passível de socialização, integrado ao laço social, ao circuito das trocas, [...] colocado a trabalho no discurso do Outro e para o seu gozo (p. 21). Nesta via, há, no entanto, distinção entre valor social de uma obra - que aponta, sobretudo, para o destino que o mestre reserva às produções sublimatórias - e as incidências que os artifícios, produto do saber fazer de seus criadores, introduzem nos modos de laço (VITALE, 2011, p. 1). Sobre o estatuto do objeto de arte, Brousse (2008) considera que é um objeto comum que circula no universo das trocas, mas pelos efeitos que provoca no falasser, decorrentes de seu investimento libidinal, único, insubstituível, pode, ao mesmo tempo, ter função de objeto a, lembrando que Lacan, no Seminário 11, demonstrou que um quadro tem função de capturar- olhar. A tese de Brousse é que os objetos da arte contemporânea ultrapassaram a barreira do belo, em que I (A) envolvia o a: A separaçao entre ideal e o objeto é consumida e é o a sem vel que se adianta. O artista interpreta diretamente o modo do objeto pulsional, que corre entre os objetos comuns e anima nosso mundo, nossos corpos, nossos habitos, nossos estilos de vida e, portanto, nossos modos de gozo (p. 174) O objeto de arte contemporanea é fora de sentido. [...] Se é objeto causa de desejo é um desejo de real, mas poderíamos nomeá-lo a-bjeto real, justamente porque sua única consistência é irônica. Às vezes, essa ironia consente com o humor, às vezes, ao cômico, [...] às vezes, ela não consente com nada (op. cit. p. 177). A partir destas coordenadas, interrogo a obra Marat (Sebastião), de Vik Muniz construída com os catadores, a partir dos dejetos produzidos pela sociedade de consumo, arrematada por R$ 100 mil na Phillips de Pury, templo do mercado dos 4

5 leilões. Marat (Sebastião) é obra que vela/desvela a estrutura capitalista, se presentifica com uma consistência irônica do objeto a tocando o real, pois deixa entrever as entranhas da civilização. Se a obra, como provocação, não abala a estrutura capitalista, parece que faz vacilar, ainda que por um instante, a fixação no discurso do mestre. A intervenção promovida pelo artista funcionou como catalizador de mudanças, propiciando algum deslocamento na prática social dos catadores. Efeitos que podem ser recolhidos nos depoimentos no final do filme quanto à mudança na posição subjetiva e ao acesso a oportunidades. Como, por exemplo, Isis, que buscou atividade fora do lixão, Tião, que, após ter participado do leilão, das exposições de arte contemporânea e dos festivais de cinema, vem dando palestra sobre a associação, reciclagem de materiais, sustentabilidade; Irma, que decidiu retornar para o lixão, após ter tido seu próprio negócio com alimentos, afirmando que seu lugar era ali, etc. Não é possível dimensionar os desdobramentos dos efeitos singulares desta experiência, quanto à suspensão do desconhecimento do objeto a, do não sei que objeto sou para o Outro (MILLER, 2008, p.33) da dialética do desejo. No entanto, a intervenção de Vik produziu artifícios de socialização, possibilitando que alguns catadores, circunscrevendo o objeto olhar, tocassem o real com o dizer, de modo até então inédito. Referências bibliográficas: Brousse, M. H. O objeto de arte na época do fim do belo: do objeto ao abjeto. In: Opção Lacaniana nº 52. São Paulo, Eolia, 2008, p Freud, S. (1933 [1932]/ 1980) Novas Conferências introdutórias sobre psicanálise: XXXIII A feminilidade vol. XXII. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (ESB). Rio de Janeiro: Imago Lacan, J. ( /2005). O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.. ( /2008) O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Miller, J-A. AMP Os objetos a na experiência analítica. In: Opção Lacaniana nº 46. São Paulo, Eolia, 2006, p A salvação pelos dejetos. In: Correio, n. 67. São Paulo: EBP, Vitale, F. Artificios de socialización: sublimácion, invención y a locura de cada uno. Acesível em: 5

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