O cotidiano dos vigilantes: trabalho, saúde e adoecimento

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1 O cotidiano dos vigilantes: trabalho, saúde e adoecimento Carlos Eduardo Carrusca Vieira Francisco de Paula Antunes Lima Maria Elizabeth Antunes Lima (orgs.) Editora Belo Horizonte 2010

2 Copyright 2010 by Fumarc Gráfica Os direitos de propriedade desta edição estão reservados à: Editora FUMARC - Fundação Mariana Resende Costa. Avenida Francisco Sales, Bairro Floresta - Belo Horizonte/Minas Gerais (31) É permitido qualquer reprodução total ou parcial deste livro sem a permissão expressa do Editor e dos Autores. FICHA TÉCNICA: Editoração e Arte Aline Medeiros Capa Daniele Luz Copydesk Maria da Penha G. Souza Impressão Fumarc Gráfica Ficha Catalográfica Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais C844 O cotidiano dos vigilantes: trabalho, saúde e adoecimento / Carlos Eduardo Carrusca Vieira, Francisco de Paula Antunes Lima, Maria Elizabeth Antunes Lima (org.). Belo Horizonte: FUMARC, p. ISBN: Guardas de vigilância. 2. Condições de trabalho. 3. Saúde. I. Vieira, Carlos Eduardo Carrusca. II. Lima, Francisco de Paula Antunes. III. Lima, Maria Elizabeth Antunes. IV. Título. CDU:

3 O cotidiano dos vigilantes: trabalho, saúde e adoecimento Carlos Eduardo Carrusca Vieira Francisco de Paula Antunes Lima Maria Elizabeth Antunes Lima (orgs.)

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5 Equipe Técnica Responsável Carlos Eduardo Carrusca Vieira (coordenador) Graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2004). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2006). Doutorando em Psicologia pela UFMG. É professor na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, idealizador e cofundador do núcleo de atendimento aos vigilantes vítimas de violência no trabalho (NAPSI). Caroline Alda de Matos Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista em Psicologia do Trabalho pela Universidade Federal de Minas Gerais. Cassiana Machado Freitas Oliveira Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-graduanda em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Francisco de Paula Antunes Lima Graduado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Minas Gerais (1981). Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina (1985). Doutor em Ergonomia - Conservatoire National des Arts et Metiers (1995). Pósdoutorado em Ergologia - Université de Provence (2003). Atualmente, é professor associado II da Universidade Federal de Minas Gerais. Maria Andréia Alves Leandro Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Newton de Paiva. Pós-graduanda em Psicologia do Trabalho pela Universidade Federal de Minas Gerais. Maria Elizabeth Antunes Lima Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1977). Mestra em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais (1986). Doutora em Sociologia do Trabalho - Université de Paris IX (Paris-Dauphine) (1992). Atualmente, é professora associada da Universidade Federal de Minas Gerais.

6 Apoio Sindicato dos Empregados de Empresas de Vigilância e Transporte de Valores de Minas Gerais Ministério Público do Trabalho Procuradoria Regional do Trabalho (PRT - 3ª região)

7 Agradecimentos Ao Ministério Público do Trabalho e, em especial, à procuradora Advane de Souza Moreira, pelo espaço de diálogo sempre aberto, colaboração e empenho na concretização deste estudo, numa iniciativa a ser destacada na atuação do MPT em questões relacionadas à saúde do trabalhador, sobretudo, por assumir claramente uma intenção propositiva. À Confederação Nacional dos Trabalhadores da Vigilância (CNTV) e à Federação Interestadual dos Vigilantes pelas oportunidades de interlocução com os vigilantes e dirigentes sindicais, oferecidas aos pesquisadores em vários momentos deste estudo. Ao Sindicato dos Empregados das Empresas de Vigilância e Transporte de Valores de Minas Gerais que, no decorrer destes dois anos de estudo, não poupou esforços para que esta pesquisa pudesse ser realizada. Agradecemos também aos dirigentes sindicais pela confiança depositada no trabalho de cada um dos pesquisadores. À Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais pelas contribuições dadas a este estudo, mediante a prestação de informações sobre as condições de trabalho da categoria. Ao Fundo de Incentivo à Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (FIP/PUC Minas) que, por meio de financiamento, contribuiu para viabilizar a realização da pesquisa quantitativa, realizada junto aos trabalhadores da vigilância de Belo Horizonte. À professora, Dra. Vanessa Andrade Barros (UFMG), e à bolsista de iniciação científica, Ingrid Habib, que também contribuíram para a realização deste estudo, em vários momentos. Aos bolsistas de iniciação científica, Gabriel Ferreira Nogueira e Amanda Morais de Faria, pelas contribuições à realização da pesquisa e o esforço empreendido na aplicação dos questionários. Aos alunos do curso de Psicologia da PUC Minas São Gabriel, que contribuíram para a consolidação do Núcleo de Apoio Psicológico aos vigilantes vítimas de violência no trabalho (NAPSI): Jaíza Pollyanna Dias da Cruz, Luiz Carlos R. de Souza, Domingos A. dos Santos Júnior, Fernanda Leite Bião, Andréia Ferreira dos Santos, Sara Lopes Fonseca, Cecília Castro Boaventura, Josiane de Souza Lino, Maria Luísa L. Moreira, Danusa

8 Black Matos, Allison Roberto, Marlene Francisca, Anna Paula, Angélica Pereira, Luana Alves, Luana Goulart, Priscila Pereira das Chagas, Pollyana Diniz, Delia Rita Maia, Washington Dias Silva, Hellder A. dos Santos Moreira. Aos alunos do curso de Psicologia da PUC Minas São Gabriel, que contribuíram para a coleta de dados da pesquisa em instituições de ensino: Erick Rastelli, Tatiane e Lidiane. Aos diretores da Escola Brasil de Vigilância, Escola de Formação de Vigilantes (CEPAV), Escola Mineira de Vigilantes e suas respectivas equipes pela atenção e disponibilidade, bem como pelo tratamento cordial que dispensaram à nossa equipe na etapa de aplicação dos questionários. Em especial, agradecemos aos vigilantes e guardiãs que participaram voluntariamente deste estudo, investindo seu tempo e suas emoções no relato de seus dramas profissionais. Por último, mas não menos importante, aos(as) nossos(as) queridos(as) pais, companheiros(as), familiares, amigos e colegas que souberam compreender as nossas ausências e partilhar das angústias e conquistas desta pesquisa.

9 Sumário Índice Gráfico...15 Índice Tabelas...15 Siglas...17 Apresentação...19 Parte I - Condições e situações de trabalho dos vigilantes Capítulo I - O percurso metodológico...25 A demanda...25 A coleta de dados: etapas e instrumentos...26 As observações sistemáticas das situações de trabalho e as entrevistas dos vigilantes...27 Os estudos de casos individuais...29 A análise dos dados qualitativos...30 A pesquisa quantitativa...30 Cálculo amostral e aspectos metodológicos...32 O pré-teste do questionário...33 Aplicação do questionário...34 O estudo dos temas transversais...36 A validação dos resultados...37 Capítulo II - Histórico da segurança privada no Brasil...39 Evolução da disciplina legal dos serviços de segurança privada no País...39 Evolução dos problemas e as reivindicações da categoria profissional...41 Leis e propostas de regulamentação em pauta...44

10 Capítulo III - As condições de trabalho dos vigilantes...47 As relações de trabalho: precarização e terceirização...47 Práticas de gestão...53 Condições materiais de trabalho...57 Capítulo IV - O desafio do trabalho real na vigilância...63 A vigilância no setor bancário...63 Caracterização do grupo...63 O cotidiano de trabalho...64 As diferenças entre os bancos e os conflitos no trabalho...64 Os conflitos com os clientes...66 Os conflitos na porta giratória...67 As atividades informais e a insuficiência das pausas...68 O aumento de guardiãs...69 O relacionamento interpessoal e com a empresa da vigilância...70 Inadequação dos equipamentos e o risco de assaltos...70 Os impactos do trabalho na saúde...71 A vigilância em hospitais...72 Caracterização do grupo...72 As condições de trabalho e o cotidiano da vigilância hospitalar...73 A vigilância nos shoppings centers...78 Caracterização do grupo...78 O cotidiano de trabalho...79 As condições de trabalho...79 O uso das armas de fogo...81 Os paradoxos da vigilância em shoppings: os vigilantes vigiados...82 O transporte de valores...84 Caracterização do Grupo...84 Condições e organização do trabalho...84 A vigilância nas indústrias Caracterização do grupo Condições de trabalho...104

11 A vigilância metroviária Caracterização do grupo O cotidiano de trabalho A atuação das guardiãs na vigilância metroviária O relacionamento com as empresas contratantes e de vigilância A vigilância em eventos Caracterização do grupo O cotidiano de trabalho Condições e organização do trabalho Os diferentes tipos de eventos e os conflitos com clientes O uso dos instrumentos de trabalho A importância do coletivo profissional A vigilância em instituições de ensino Caracterização do grupo O cotidiano de trabalho As condições de trabalho A relação com os alunos As estratégias de ação As relações de gênero Capítulo V - A saúde dos vigilantes Distúrbios mentais e comportamentais relacionados ao trabalho Com os nervos à flor da pele : tensão e conflitos no cotidiano de trabalho Problemas cardiovasculares Problemas digestivos e gástricos Os problemas decorrentes do trabalho na posição de pé Conclusões...156

12 PARTE I I - Casos Clínicos O Método Biográfico Antecedentes teóricos Caráter científico do método Capítulo I - A história de Evaldo Apresentação História familiar O casamento A trajetória profissional O trabalho como vigilante O primeiro assalto O segundo assalto O controle do horário, a jornada e as horas extras Os conflitos com os clientes A relação com a empresa As mudanças no comportamento Atingindo o limite A crise Situação atual Hipótese Diagnóstica Conclusão Capítulo II - A história de Ronaldo Introdução Histórico Familiar e Ocupacional O casamento O trabalho na vigilância O trabalho na vigilância bancária O Episódio do Assalto ao Banco O momento pós-assalto As perturbações no comportamento O diagnóstico inicial...217

13 Discussão: a relação entre distúrbio mental e trabalho A significação traumática do episódio do assalto Conclusão Capítulo III - A história de Guilherme Apresentação Infância e vida familiar O casamento A trajetória profissional O trabalho como vigilante O último emprego As condições de trabalho O trabalho no posto C O assalto Os afastamentos do trabalho Hipótese Diagnóstica Capítulo IV - A história de Norberto Introdução A história de Norberto Histórico Ocupacional O trabalho como vigilante Vigilância patrimonial em um shopping center Vigilância na Escolta Armada Vigilância em eventos Os problemas ortopédicos A patologia cardiovascular O afastamento do trabalho Discussão do caso: a relação entre o trabalho e os distúrbios cardiovasculares. 267 Capítulo V - A história de Rodrigo Histórico do trabalho de vigilante em uma indústria mineral O acidente de trabalho...275

14 A postura da empresa de vigilância A situação atual A sentença proferida Análise do caso Considerações finais Da pesquisa à ação Os atos de violência enfrentados pelos vigilantes Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP) A valorização dos trabalhadores da vigilância Alcances e limites do estudo As possibilidades abertas por este estudo Referências Anexo Apêndice - Recomendações Eventos Transporte de valores Instituições bancárias Condomínios residenciais Condições Materiais de Trabalho Condições específicas do Transporte de Valores Relações de trabalho, regulamentação da profissão e gestão do trabalho Transporte de Valores Vigilância Patrimonial Questionário - Condições de Trabalho e Saúde dos Vigilantes Questionário - Condições de Trabalho e Saúde dos Vigilantes do Transporte de Valores

15 Gráficos Gráfico 1 - Apoio dado pelas empresas de vigilância aos vigilantes, em caso de assaltos..137 Gráfico 2 - Procedimento das empresas de vigilância em relação aos vigilantes no caso de assaltos Gráfico 3 - Sintomas psicológicos relatados pelos vigilantes Gráfico 4 - Agressões praticadas pelo público contra os vigilantes Gráfico 5 - Relação entre as agressões praticadas pelo público contra os vigilantes e o número médio de sintomas psicológicos relatados pelos trabalhadores Gráfico 6 - Problemas digestivos e gástricos que atingem os vigilantes Gráfico 7 - Problemas ortopédicos e distúrbios venosos que atingem os vigilantes..152 Tabelas Tabela 1 - Número de vigilantes entrevistados Tabela 2 - Plano amostral...32 Tabela 3 - Amostra final - número de vigilantes que responderam ao questionário, por setor Tabela 4 - Indicadores de crescimento do setor de segurança privada no Brasil...43 Tabela 5 - Como os vigilantes reagem na maioria das vezes quando são tratados com agressividade pelo público Tabela 6 - Apoio da empresa de vigilância para lidar com conflitos com clientes Tabela 7 - Apoio da empresa de vigilância para lidar com conflitos com as contratantes Tabela 8 - Tabela de Contingência: Hipertensão vs. Estresse Tabela 9 - Tabela de Contingência: Hipertensão vs. Nervosismo Tabela 10 - Em relação ao uso das cadeiras Tabela 11 - Relação entre a qualidade dos coturnos e as dores nas pernas...155

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17 Siglas ACP ANVISA CAT CEREST CFP CID CRP CuT DELESP DPF EPI FENAVIST FGTS INSS MPT MTE NAPSI NR OMS PAT PCMSO PF PIS PRT Ação Civil Pública Agência Nacional de Vigilância Sanitária Comunicação de Acidente de Trabalho Centro de Referência em Saúde do Trabalhador Conselho Federal de Psicologia Classificação Internacional de Doenças Conselho Regional de Psicologia Central Única dos Trabalhadores Delegacia de Segurança Privada Delegacia de Polícia Federal Equipamento de Proteção Individual Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores Fundo de Garantia por Tempo de Serviço Instituto Nacional de Seguridade Social Ministério Público do Trabalho Ministério do Trabalho e Emprego Núcleo de Apoio Psicológico aos vigilantes vítimas de violência no trabalho Norma Regulamentadora Organização Mundial de Saúde Programa de Alimentação do Trabalhador Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional Polícia Federal Programa de Integração Social Procuradoria Regional do Trabalho PuC Minas Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais RAIS RMbh SAMu SEESMG SEJuSP SuS TEPT ufmg Relação Anual de Informações Sociais Região Metropolitana de Belo Horizonte Serviço de Atendimento Móvel de Urgência Sindicato dos Empregados de Empresas de Segurança e Vigilância do Estado de Minas Gerais Secretaria de Estado de Justiça de Segurança Pública Sistema Único de Saúde Transtorno de Estresse Pós-traumático Universidade Federal de Minas Gerais

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19 Apresentação Esta publicação apresenta os resultados da pesquisa intitulada Análise Ergonômica e Psicossocial das Condições de Saúde e Trabalho dos Vigilantes Patrimoniais e do Transporte de Valores, realizada a partir da abordagem de profissionais dessa categoria, atuantes na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Trata-se de um estudo inédito na área da vigilância, o primeiro realizado no Brasil, mediante a conjugação de investigações qualitativas e quantitativas das condições de trabalho e saúde dos seus trabalhadores. Categoria comumente invisível que ganha notoriedade, de tempos em tempos, ao ocupar as páginas dos jornais em decorrência dos atos de violência sofridos por seus profissionais em assaltos e, sobretudo, quando estes agridem algum usuário nos locais onde trabalham. Como teremos ocasião de retomar em vários momentos, os resultados obtidos neste estudo permitem compreender a causa dessa violência por parte dos vigilantes e, também, os desdobramentos da violência que eles enfrentam no dia a dia do trabalho. O estudo é fruto de uma parceria firmada entre o Sindicato dos Vigilantes de Minas Gerais, o Ministério Público do Trabalho, representado pela procuradora Advane de Souza Moreira, e pesquisadores vinculados à Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e à Universidade Federal de Minas Gerais. Desde o início, pretendia-se realizar uma pesquisa que fosse além de um estudo de natureza estritamente estatística, baseada na aplicação de questionários. Sendo assim, mais do que mensurar a incidência dos problemas existentes na área da vigilância, buscou-se compreender os dramas vivenciados e suas repercussões na saúde física e mental dos vigilantes para, ao final, propor alternativas para a melhoria das condições de trabalho da categoria. Com esse propósito, optou-se por uma abordagem metodológica pluridimensional, que agregou tanto as dimensões quantitativas quanto as qualitativas, sendo que, antes de se pretender mensurar aspectos da realidade de trabalho, procurou-se conhecê-la de perto. Isto porque se partiu do princípio de que a realidade é sempre mais rica, enigmática e diversa do que qualquer procedimento estatístico ou tabulação de dados é capaz de capturar ou mostrar e, quando se trata da relação saúde/trabalho, é preciso considerar não só os determinantes histórico-sociais, mas também o caráter singular dos processos de saúde/doença, o que exige sempre uma abordagem voltada para múltiplas dimensões.

20 20 Os objetivos principais a serem alcançados pelo estudo consistiam em: a. identificar as situações-problemas vivenciadas pelos trabalhadores e analisar a sua relação com as condições e a organização do seu trabalho; b. identificar possíveis paralelismos e/ou nexos entre os distúrbios psíquicos apresentados por eles e as situações-problemas detectadas no seu trabalho; c. reunir, produzir, sistematizar e analisar informações, relacionadas aos quadros de saúde dos trabalhadores da vigilância; d. produzir um relatório, apresentando recomendações e encaminhamentos para a melhoria das condições de trabalho e saúde desses trabalhadores, baseando-se nas análises feitas durante o processo de pesquisa. A pesquisa foi realizada em duas etapas complementares, cumpridas em um período de dois anos. Em um primeiro momento, cumpriu-se a etapa qualitativa, a qual durou cerca de oito meses, perfazendo um total de aproximadamente 560 horas de observações sistemáticas das situações reais de trabalho e 202 entrevistas com vigilantes pertencentes a vários segmentos: indústrias, agências bancárias, cemitérios, hospitais, instituições de ensino, metrô, transporte de valores, condomínios comerciais e residenciais. Essas observações ocorreram em momentos diversos, variando-se os dias da semana e os períodos do mês, na tentativa de se cobrir toda a jornada de trabalho e, assim, contemplar uma ampla gama de situações. A elucidação das situações de trabalho a partir da experiência dos próprios trabalhadores - tônica desta pesquisa - evidenciou a importância de situar a atividade de trabalho como principal objeto de análise, ou seja, não basta observar e analisar o contexto laboral, é preciso ir além, descrevendo e compreendendo o trabalho sob o ponto de vista do sujeito responsável pela sua realização. Assim, esse estudo ofereceu a possibilidade de se conhecer, de fato, as dificuldades vivenciadas pelos trabalhadores, em relação às situações diversas que envolvem conflitos e constrangimentos suscitados pelo próprio trabalho; às estratégias individuais e coletivas, criadas por eles em face das adversidades; às discrepâncias no tratamento dispensado aos homens e às mulheres nessa profissão; à ausência de um suporte psicossocial adequado, nas ocasiões em que os trabalhadores enfrentam assaltos e outros eventos traumáticos. Realizados junto a vigilantes acometidos por problemas de saúde diversos, os estudos de casos fecharam a etapa qualitativa, revelando os fatores responsáveis pelo adoecimento desses profissionais, com maior exatidão e detalhamento, pois, como esses fatores não apareceram de forma imediata aos pesquisadores, tornou-se necessário recuperar a trajetória biográfica dos trabalhadores para saber como certas experiências se converteram em problemas de saúde, mais ou menos graves. 1 1 Esse método será exposto com maiores detalhes na introdução da parte II desta obra, na qual serão também apresentados os casos clínicos.

21 Após essa etapa, com o objetivo de mapear mais amplamente a incidência das situações de trabalho nocivas e potencialmente nocivas à saúde dos vigilantes, foi realizada a etapa quantitativa da pesquisa. A diferença desta, em relação aos outros estudos, é o fato de seu questionário ter sido elaborado e orientado a partir dos dados obtidos durante as observações e entrevistas feitas com os vigilantes, período em que foram identificados alguns indicadores das condições de saúde e trabalho da categoria. É relevante registrar também que este estudo permitiu encaminhamentos práticos de notável importância para a categoria dos trabalhadores da vigilância, ainda, durante sua realização. É o caso, por exemplo, dos subsídios fornecidos pelos pesquisadores desta equipe às atividades de fiscalização da Delegacia Regional do Trabalho e às negociações sindicais. Dessa forma, a integração entre pesquisa científica e intervenção foi, sem dúvida, uma das características mais marcantes deste projeto, cujos resultados foram sendo incorporados à prática sindical, na medida em que eram produzidos 2. Com a publicação deste livro, além da contribuição especificamente acadêmica, cujo valor deixaremos para que nossos pares avaliem, pretendemos oferecer ao movimento sindical, às instituições de defesa dos direitos dos trabalhadores e dos direitos difusos e a cada trabalhador, em particular, um instrumento de apoio à sua atividade de luta por melhores condições de trabalho A título de ilustração, em uma das pautas de negociação do Sindicato dos Vigilantes/MG havia menções a problemas e soluções propostas pelo estudo, que foram entregues à entidade sindical e à PRT da 3ª Região.

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23 PARTE I Condições e situações de trabalho dos vigilantes

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25 CAPÍTULO I O percurso metodológico Carlos Eduardo Carrusca Vieira Caroline Alda de Matos Francisco de Paula Antunes Lima Maria Elizabeth Antunes Lima Este estudo possui um caráter quantitativo e qualitativo, o que significa que ele agrega essas duas dimensões, entendendo-as como complementares para a investigação de questões relacionadas à saúde no trabalho. Cronologicamente, tal estudo foi realizado em duas etapas consecutivas, cuja ordem seguida não é casual, ao contrário, obedece a critérios teórico-metodológicos bem definidos. Em um primeiro momento, a estratégia adotada visou à identificação e à análise dos problemas vivenciados pela categoria dos vigilantes, a partir de uma pesquisa exploratória das situações reais de trabalho, desenvolvida junto aos trabalhadores por meio de entrevistas realizadas em seus locais de trabalho ou com grupos focais. A identificação e a classificação da natureza desses problemas e dificuldades constituíram a base do instrumento quantitativo da pesquisa (questionário), adotado na etapa seguinte da mesma. A demanda Entre 2005 e 2006, foi realizada uma pesquisa sobre a saúde mental dos vigilantes bancários 3, dentro do programa de pós-graduação stricto sensu de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2007, o pesquisador responsável pelo estudo, Carlos Eduardo Carrusca Vieira, contatou os dirigentes do Sindicato dos Vigilantes de Minas Gerais, propondo divulgar os resultados de sua pesquisa entre os trabalhadores e representantes sindicais. 3 (VIEIRA, 2006) Desautorização, paradoxo e conflito: a saúde mental dos vigilantes bancários. Dissertação de mestrado em Psicologia. UFMG, 2006.

26 26 Durante o encontro, o sindicato ratificou seu interesse em discutir a temática da saúde mental dos vigilantes e ventilou a possibilidade de ampliar a pesquisa sobre o assunto. Isso porque a entidade sindical e a procuradora do trabalho, Advane de Souza Moreira, do Ministério Público do Trabalho de Minas Gerais, encontravam-se em entendimento, visando conferir à multa aplicada em ação civil pública, que fora ajuizada contra empresa de transporte de valores, uma destinação que beneficiasse diretamente a categoria profissional, visto que nas conversações anteriores já havia sido registrado interesse na realização de um estudo sistemático, acerca das condições de trabalho e suas repercussões na saúde dos vigilantes. Assim, ficou sob a responsabilidade do pesquisador Carlos Eduardo Carrusca Vieira traduzir o interesse do Sindicato dos Vigilantes e do Ministério Público do Trabalho de beneficiar a categoria com um diagnóstico mais amplo, a respeito de suas condições de trabalho e saúde. Dessa forma, ainda no primeiro semestre de 2007, numa reunião com o Sindicato dos Vigilantes de Minas Gerais e o Ministério Público do Trabalho, foi apresentada a primeira versão de uma proposta de pesquisa sobre o tema. As duas instituições manifestaram-se favoravelmente à realização do estudo, o que permitiu a composição imediata de uma equipe de pesquisadores, formada por Carlos Eduardo Carrusca Vieira (PUC Minas), Maria Elizabeth Antunes Lima, Vanessa Andrade Barros 4, Francisco de Paula Antunes Lima (UFMG), além da psicóloga Carolina Alda de Matos, a qual ficou responsável por revisar o projeto e estabelecer suas diretrizes metodológicas, e as assistentes, Cassiana Machado Freitas Oliveira e Maria Andréia Alves Leandro, e a bolsista de iniciação científica, Ingrid Habib Moreira, que ingressaram na equipe em Durante o segundo semestre de 2007, foram acertados com o Ministério Público do Trabalho e o Sindicato dos Vigilantes de Minas Gerais os objetivos, o cronograma, os prazos e os recursos necessários (estes provenientes de quatro multas sobre incidentes, referentes a processos titulados pela Procuradora Advane Moreira, sendo três delas devidas por empresas de transporte de valores). A coleta de dados: etapas e instrumentos As informações e os dados apresentados neste estudo foram obtidos com o uso de basicamente três tipos de instrumentos: entrevistas em profundidade realizadas com vigilantes 6, observações in loco das situações de trabalho 7 e pesquisa quantitativa, por 4 A professora Vanessa Andrade Barros trabalhou com a equipe de pesquisa, durante o primeiro semestre de 2008, precisando se desvincular do projeto em função de outras atividades. 5 A bolsista de iniciação científica se desvinculou do projeto em Assim, recorreu-se à técnica da instrução ao sósia, conforme definida por Clot (2006), pois, de acordo com o autor o exercício de instrução ao sósia implica um trabalho de grupo no curso do qual um sujeito voluntário recebe a seguinte tarefa: Suponha que eu seja seu sósia e que amanhã eu deva substituir você em seu trabalho. Que instruções você deveria me transmitir para que ninguém perceba a substituição? (p. 144). No decorrer da técnica, o entrevistador focaliza a experiência do trabalhador, visando explicitar detalhes do modo de realização do trabalho, que atravessam tanto as dimensões individuais quanto as coletivas. 7 Evidentemente, a autorização das empresas de segurança privada foi essencial para a obtenção dos dados,

27 meio de um questionário formulado por nossa equipe (cf. anexo 1). A pesquisa documental foi também utilizada com a finalidade de esclarecer certos aspectos normativos da segurança privada, frequentemente citados pelos trabalhadores nas entrevistas, sendo que a legislação pertinente, normas de trabalho e convenções coletivas, foi estudada para esse fim. Além disso, foram consultadas estatísticas sobre motivos de afastamento dos trabalhadores do setor, junto ao INSS. A organização do trabalho da equipe de pesquisadores foi um fator crucial para o desenvolvimento deste estudo, já que o número de trabalhadores da área da vigilância é relativamente alto, se comparado às outras profissões, além de ser uma categoria que se divide em variados segmentos, tipos de trabalho e funções. Houve a necessidade de intenso intercâmbio entre os pesquisadores por variados meios de comunicação, além de reuniões mensais, para tratar de assuntos relacionados ao encaminhamento da pesquisa e fazer os ajustes necessários As observações sistemáticas das situações de trabalho e as entrevistas dos vigilantes A observação das situações reais de trabalho constitui o meio mais seguro para conhecer as dificuldades e os problemas vividos pelos trabalhadores, assim como as soluções encontradas para seu enfrentamento. Entre os benefícios desse instrumento se encontra o fato de que ele evita, em grande medida, que o pesquisador seja capturado pelas armadilhas das explicações moralizantes e/ou psicologizantes a respeito das condutas dos trabalhadores. Aliás, grande parte das explicações e interpretações, feitas sobre os comportamentos nos contextos de trabalho, tende a recair sobre os próprios trabalhadores, com termos pejorativos e/ou de cunho moral, a partir de juízos sobre a sua personalidade e/ou seu caráter. 9 Os equívocos e as falsas interpretações, produzidos por esse tipo de abordagem dos problemas laborais, sucedem-se e se acumulam muitas vezes por não se reconhecer embora em alguns casos tenhamos sido impedidos de entrevistar e observar os vigilantes em seus locais de trabalho. Nesses casos, em que tivemos de abrir mão das observações, os trabalhadores foram apenas entrevistados. 8 A título de ilustração, tome-se como exemplo o fato de que os pesquisadores trocaram mais de mil correspondências eletrônicas ( s), durante a realização deste estudo. 9 A tendência é afirmar, por exemplo, que a segurança no trabalho é uma responsabilidade exclusivamente individual e, no mesmo sentido, analisar os acidentes que ocorrem nesse contexto prioritariamente sob o viés do ato inseguro. O mesmo parece ocorrer com as questões ligadas à doença, frequentemente associadas ao perfil do indivíduo, às suas ações ou a motivos externos ao trabalho. A partir delas, são feitas afirmações parciais que concentram a responsabilidade no nível individual, tais como: Para não adquirir varizes, os vigilantes precisam se cuidar mais e fazer exercícios físicos ; Os vigilantes devem ficar atentos com a sua saúde e se cuidarem mais ; Os indivíduos que têm o perfil para a profissão tem menos chances de adoecer. Além de outras ideias simplistas, como a exposta por uma profissional da saúde entrevistada por nós: Os vigilantes bebem muito [...], mas isso não tem relação com o trabalho, pois usam o álcool depois do horário de trabalho. Ou seja, as análises tendem a se centrar no sujeito que trabalha e os problemas que este porventura apresentar serão atribuídos ao seu modo pessoal de atuar e nunca à organização do seu trabalho.

O cotidiano dos vigilantes: trabalho, saúde e adoecimento

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